Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu/A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda-viva/E carrega o destino pra lá.
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terça-feira, 9 de junho de 2015
Crônica do Dia - A gente se sente como quem partiu ou morreu - Ruth de Aquino
sábado, 10 de agosto de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Canções de Chico - Cotidiano
Percebemos que a música lembra muito uma rotina. As estrofes parecem todas encaixadas sobre uma mesma fôrma, inclusive com versos semelhantes, e repete várias vezes, sempre começando do início e continuando na mesma ordem. E, o mais interessante, começa de manhã, depois vai pra hora do café, depois o almoço, a volta do trabalho e a hora de dormir.
Chico Buarque
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.
“Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã”- retratam aqueles minutos iniciais do dia. Ela, a mulher, acorda o marido sempre às seis da manhã.
“Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boca de hortelã”- a expressão “sorriso pontual” é muito interessante, porque parece que coloca o ato de sorrir, que seria como um cumprimento de “bom dia”, como um ato mecânico, um sorriso sempre dado no mesmo horário. A boca de hortelã parece ser por causa do aroma da pasta de dente, geralmente com sabor de hortelã, menta etc.
Na outra estrofe, “Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar / E essas coisas que diz toda mulher”- representam aquele cuidado rotineiro que as mulheres têm, dando os conselhos anteriores ao trabalho. Tanto é que quando ele diz
E essas coisas que diz toda mulher”- dá uma ideia de que são conselhos dados por costume, em todos os lares, todos os dias. Logo após,
“Diz que está me esperando pro jantar / E me beija com a boca de café”- representam uma despedida seguida por um beijo com o sabor do café da manhã.
“Todo dia eu só penso em poder parar / Meio dia eu só penso em dizer não”- são versos que denotam aquela sensação de cansaço, de fadiga do trabalho. Dá vontade de parar, de dizer ‘não’. Esses dois versos, que poderiam significar uma certa insatisfação com o cotidiano repetitivo, se contrapõem aos próximos:
“Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão”- quando o homem submete-se à rotina e se cala; em meio a um momento de questionamento, segue-se um silêncio, típico da submissão.
“Seis da tarde como era de se esperar / Ela pega e me espera no portão”- mostram a falta de novidade. Se no trabalho não há nada que desperte o interesse do homem, tampouco isto ocorre quando ele chega em casa, quando tudo ocorre exatamente da mesma maneira. A expressão “como era de se esperar”, embora esteja mais disfarçada na música, são usadas de modo satírico, ironizando a reiteração de hábitos. Logo após,
“Diz que está muito louca pra beijar / E me beija com a boca de paixão” -são dois versos também irônicos, porque num contexto preenchido de monotonia, a vontade de beijar com paixão parece um desejo distante, mais idealizado do que real.
Na próxima estrofe: “Toda noite ela diz pra eu não me afastar / Meia noite ela jura eterno amor”- vemos o medo seguido por um sentimento barato. Jurar eterno amor é um sentimento profundo, mas do jeito que é apresentado pela letra, ocorrendo todos os dias de noite, contribui mais para a construção da imagem de insegurança do que de amor mesmo. Além disso, essa ideia é reafirmada em
“E me aperta pra eu quase sufocar / E me morde com a boca de pavor”.
Logo após, a música recomeça. A primeira estrofe é também a última, um efeito muito útil quando se quer dar uma ideia de continuidade. No caso, não há início, clímax, desfecho. Parece tudo parte de uma cadeia sem fim que é a rotina. E não uma rotina qualquer. Chico aproveita para denunciar a opressão sobre a população em plena ditadura.
É o retrato de um sentimento nacional, da vida asfixiada, sufocada, do povo sob o regime militar. Não havia encanto nenhum na vida do casal, tudo parecia pré-determinado. O casal era composto por um homem que sustentava a casa e mulher que atendia aos seus anseios, isto é, aquele velho modelo desgastado do cotidiano, sem espaço para rompimentos.
O homem aparece quase que na música inteira como sujeito passivo: “me sacode”, “me sorri”, “me beija”, “me esperando” etc. E quem é o agente da passiva? A mulher? Não, embora seja a mulher que praticasse aquelas ações, estas não eram decididas por ela, pois já estava tudo programado na rotina do casal. Assim, fica sugerido que este “ela”, que faz quase tudo na música, não é bem a mulher, mas a mulher servindo como fantoche do cotidiano opressor, e vivendo à sombra do marido. Os dois, portanto, eram manipulados pelo ciclo diário, não havia poder de decisão.
Contribuição do aluno Orlando / Turma 901 / 2013
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Canções do Chico - Meu Guri
O Meu Guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega/
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega/
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega/
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
A letra da música, escrita por Chico Buarque, tem
como eu-lírico uma mulher. Esta conta a história de seu filho para alguém (em
todas as estrofes ela se refere ao ‘seu moço’, o que indica a relação entre ela
e quem a escuta).
A vida da mãe junto ao seu filho é de miséria,
ela não tinha condições de sustentá-lo (Já foi nascendo/Com cara de fome/Como
fui levando/Não sei lhe explicar), a mãe não tem sequer documentos para
registrar o filho e torná-lo cidadão perante o estado (E eu não tinha nem
nome/Prá lhe dar). Os dois moram em favela (Chega no morro/Cá no alto)
Fica claro que o guri não quer continuar nessa
situação de pobreza (E na sua meninice/Ele um dia me disse/Que chegava lá). Ele
deseja objetos associados à riqueza, fama e dignidade tanto para ele quanto
para a mãe: presente, bolsa, corrente de ouro. Nesses objetos estão embutidos
os valores que ele busca.
Já na segunda estrofe inicia-se a transformação e
o guri assume o seu fazer (Traz sempre um presente/Pra me Encabular/Tanta
corrente de ouro/Seu moço/Que haja pescoço/Pra enfiar /Me trouxe uma bolsa/Já
com tudo dentro/chave, caderneta/Terço e patuá) e transforma sua vida e a vida
de sua mãe. Saem da miséria e anonimato (Um lenço e uma penca de documentos/Pra
finalmente eu me identificar). Ele consegue tudo isso através de um elemento
que fica implícito no texto da canção: o roubo. Essa idéia fica comprometida
pelo usa da palavra ‘carregamento’ que possui uma carga semântica que, no
jargão policial, significa/identifica o transporte de mercadorias ilegais ou
contrabandeadas, ilícitas. E também pelo fato de ele trazer uma bolsa para sua
mãe com tudo dentro, até documentos.
Se a mãe sabe ou não que o filho participa dessas
atividades não fica claro. Existe uma dúvida se ela não sabe ou se prefere
acreditar que ele tem um trabalho honesto (Chega suado/E veloz do batente /E o
danado já foi trabalhar/Rezo até ele chegar/Cá no alto/Essa onda de assaltos/Tá
um horror/ Eu não entendo essa gente/Seu moço!/Fazendo alvoroço demais).
Na quarta estrofe a história é finalizada. O
menino morre (O guri no mato/Acho que tá rindo/Acho que tá lindo/De papo pro
ar) , tudo indica que foi assassinado e noticiam sua morte em páginas policiais
de um jornal. Os elementos colocados na letra indicam que ele é menor de idade
(Chega estampado/Manchete, retrato/Com venda nos olhos/Legenda e as iniciais).
A mãe conta e de certa forma se mostra orgulhosa (Ele disse que chegava lá).
Durante toda a música a mãe repete (Olha aí!/Ai o
meu guri, olha aí), e essa repetição deixa, para quem escuta a música, uma
sensação de que a mãe chama por seu filho de maneira orgulhosa durante toda a
canção, como se quisesse dizer “esse é meu filho”.
sábado, 1 de junho de 2013
Você já ouviu ? - Geni e o Zepelim
GENI E O ZEPELIN
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
“Geni e o Zepelim” foi uma das canções mais divulgadas e de maior sucesso da peça Ópera do Malandro, um musical de 1977/1978 de Chico Buarque. Estourada nas rádios na época, ela foi e é uma das canções mais populares do álbum lançado um ano após a estréia da peça.
Crítica à hipocrisia e ao poder, ela reinou nos, conhecidos como, “anos de ferro”, em plena ditadura militar no Brasil. Todas as rádios tocavam e a população cantava em coro os refrões da canção, nem sempre com a compreensão da unidade estética crítica da mesma, uma vez que a crítica se revela ao considerar toda a narrativa da canção e não apenas o refrão, que parece acusar a sua protagonista, Geni, uma travesti que, na verdade, é a heroína injustiçada do enredo.
É o refrão que revela o preconceito e a hipocrisia de toda a cidade com a heroína prostituída, apedrejada como Maria Madalena. Pode ser que por parecer ir ao encontro da ideologia hegemônica discriminatória e falso- moralista pre-dominante no período militar (mas não só) que a canção tenha sido aceita e passado pelo crivo da censura da época, mesmo indo de encontro a essa ideologia.
A primeira questão a ser considerada é a do gênero que, com exceção das teorias linguísticas e literárias, refere-se ao masculino/feminino ou homem/mulher. Embora Geni pertença, biologicamente, ao gênero masculino, a sua opção, aparência e expressão discursiva é feminina: todos os elementos discursivos que a ela se referem encontram-se marcados pelo feminino (ela, donzela, namorada, rainha, menina, na, feita, boa, maldita, “aquela formosa dama”, “essa dama”, coitada, singela, dela, bendita e, inclusive, o seu nome próprio).
Não há marca linguística que prove, pela letra da canção, que Geni é uma travesti (no sentido de um homem “travestido” de mulher) – o que é completamente compreensível se considerarmos o contexto de escrita da canção, bem como a concepção de feminino/masculino de maneira mais complexa. Acreditamos que a opção de apagamento dessa importante marca na letra da canção tenha ocorrido para driblar a censura e também para tratar a heroína com respeito à sua escolha: uma mulher, como outras, ainda que “diferente” (no sentido de especial, dado o seu poder na canção – é ela a escolhida: “logo ela”, pelo co-mandante da canção).
Talvez, se houvesse marcas, a crítica não passaria despercebida – até hoje há quem pense que Geni é uma prostituta. Claro que a indeterminação também deixa no mesmo plano prostitutas, travestis, homossexuais e “tudo que é nego torto”.
O que nos leva à asserção de que Geni é uma travesti é considerar a obra em que a canção se encontra: na Ópera do Malandro, Geni é uma travesti que, como outras mulheres, vive de prestar seus serviços sexuais num bordel barato, freqüentado por “tudo que é nego torto / Do mangue e do cais do porto”: “O seu corpo é dos errantes / Dos cegos, dos retirantes / É de quem não tem mais nada”. Além disso, ela não pertence como objeto ao bordel onde trabalha e frequenta.
Ela é dona de seu próprio nariz e vive e faz de seu corpo o que quer, com quem e como quer. Afinal, na descrição que segue sua apresentação, na primeira estrofe da canção: “Dá-se assim desde menina / Na garagem, na cantina / Atrás do tanque, no mato / É a rainha dos detentos / Das loucas, dos lazarentos / Dos moleques do internato / E também vai amiúde / Com os velhinhos sem saúde / E as viúvas sem porvir”. Não há, pela descrição feita, preconceito com gênero e faixa etária, mas há uma escolha implícita: ela se identifica e se relaciona com os excluídos sociais, por ser um deles.
Tanto é que, ao ser escolhida pelo comandante, a primeira reação é dizer não porque “prefere amar com os bichos”. Em sua apresentação, o narrador revela o “segredo” (“e isso era segredo dela”) de Geni: “também tinha seus caprichos” – o lexema “caprichos”, usado com ironia, revela o pensamento non sense da cidade, uma vez que os “caprichos” se referem à escolha de se dar a quem, quando, como e onde quiser, enfim, de ser dona de seu próprio corpo e vontade.
Essa apresentação que parece valorar negativamente a “escória” social se inverte com a presença do comandante, da cidade (como se os sujeitos citados acima não pertencessem à mesma), do prefeito, do bispo e do banqueiro. Há uma diferença entre Geni e as prostitutas que vai além da anatomia: Geni “dá-se” e não “vende-se”.
Contribuição do aluno Pedro Farah / Turma 902 / 2013
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