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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Te Contei, não ? - O Ateneu

Ateneu, livro de Raul Pompéia que tem como subtítulo Crônica de Saudades, foi publicado em folhetins em 1888. Considerada uma das grandes obras da literatura brasileira, narra os dois anos em que Sérgio, o protagonista, vive no internato chamado Ateneu.

A primeira dificuldade na análise do livro é enquadrá-lo numa categoria fixa, ou seja, fazer uma classificação rígida sobre que tipo de romance ele representa. Pode ser considerado desde um relato autobiográfico até um romance de formação, ou ainda uma típica narrativa de cunho naturalista. Vistas isoladamente, no entanto, essas abordagens deixam a dever no entendimento final da obra. 

NATURALISMO SUBVERTIDO 
De acordo com os preceitos do romance naturalista, ao qual se pode associar o livro, depreende-se em Ateneu uma crítica feroz às instituições de ensino das elites do século XIX. O colégio é visto como microcosmo da sociedade. Para isso, o narrador utiliza descrições de toda ordem, físicas ou psicológicas, levadas a cabo com rigor e riqueza de detalhes quase científicos.


A narrativa é assim apresentada num movimento linear de fora para dentro, do macro para o micro. É como se o leitor penetrasse em um organismo vivo. Inicialmente, a instituição educacional é mostrada a partir de um foco externo: as festas, os discursos, os ginastas e suas coreografias, a princesa imperial, que prestigiava os eventos, e, principalmente, a figura central de Aristarco, pedagogo e dono do colégio.


Desse ponto de vista, o narrador encara o Ateneu com certa perplexidade e maravilhamento. O colégio não se revela ainda um mundo rebaixado, como se verá mais tarde. Nesse nível, a percepção do que é a escola se situa no âmbito do discurso publicitário, “dos reclames”, no dizer do narrador, o que é sublinhado, de forma irônica, por meio do personagem Aristarco.


Esse primeiro exame dá conta do viés naturalista. Há, porém, um aspecto que deixa a leitura mais complexa. A estética naturalista concebe uma arte na qual o autor assume o papel de observador, daí seu pretenso distanciamento em relação à matéria narrada, para que possa criticar de forma mais adequada as doenças do mundo. Era a maneira – que naquele momento tinha grande prestígio na Europa – de conceber as artes: o artista se coloca como cientista e se isola do mundo por ele examinado.


Em Ateneu, no entanto, há um narrador-protagonista. O foco em primeira pessoa subverte os preceitos naturalistas, de isenção e distanciamento. Sérgio narra e comenta o mundo narrado. Desse modo, a compreensão sobre o que é o Ateneu se estrutura na obra com as impressões do personagem principal. E, como elemento complicador, isso se realiza pautado na perspectiva adulta. O romance é um relato a posteriori das memórias de Sérgio a respeito dos dois anos em que passou no internato.


Há, então, uma matéria narrada (o mundo do Ateneu), impregnada da consciência, das impressões do narrador, e recuperada por sua memória daquele tempo. Essa atitude literária afasta a obra do modelo clássico de realismo/naturalismo. Por outro lado, o romance abriga vários aspectos naturalistas, como o determinismo, a presença do homossexualismo e os aspectos animalescos (comparações de personagens com animais). 

ESPAÇO 
A obra é claramente dividida em dois espaços: fora e dentro do colégio. O primeiro é visto como ambiência do mundo natural. O segundo funciona como rito de iniciação, acontecimento traumático por meio do qual ocorre a passagem do universo infantil para o adulto, espaço para a formação do homem.


Ateneu, contudo, em vez de formar, deforma o homem. Trata-se de uma formação às avessas, ou seja, o que se espera de uma instituição é subvertido por uma educação bárbara. O ensino no colégio é determinado por um espaço no qual impera o ideal da força sobre os mais fracos. 

TEMPO 
O tempo é dividido em tempo psicológico e tempo vivido. O primeiro é o da memória, manuseado pelo narrador da maneira que lhe vem na consciência. Assim, na narração temos os episódios que ficaram na memória narrativa do autor. Já o tempo vivido se circunscreve linearmente aos dois anos de internato vividos pelo protagonista. Isso garante complexidade à obra e confere maior densidade a sua leitura. 

ENREDO 
Após a entrada de Sérgio no Ateneu, o local é apresentado de forma minuciosa e estilizada. Há abundância descritiva de detalhes. O narrador se atém a cada episódio, buscando na memória o fio condutor da narrativa. Tudo isso amparado por metáforas e comparações, o que garante uma prosa formalmente hiperbólica, com tom de grandeza, como se o estilo elevasse aquele mundo por meio da linguagem. Assim, a cada episódio são descritos os colegas, os desafetos, os baderneiros, os protetores, os professores, Ema e, principalmente, Aristarco.


As relações entre esses personagens, no relato de Sérgio, formam oAteneu. Esse, por sua vez, como em O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, funciona na estrutura do livro como personagem. Essa é mais uma das singularidades do romance em relação ao que prescrevia a estética naturalista, para a qual o meio se sobrepunha sempre ao indivíduo, determinando-o, como no caso do citado romance de Aluísio de Azevedo. Em Ateneu, isso quase sempre ocorre, mas, na caracterização formal que envolve Aristarco e oAteneu num mesmo grupo de características, o meio e o indivíduo se identificam. Isso torna as forças de determinação do meio quase nulas, colocando em ação a determinação estrutural edificada pelo poder – como acontece na hierarquia institucional, nas relações de trabalho e nas relações sociais.


Aristarco é construído no mesmo processo. Ambos – a escola e seu diretor – são abordados de maneira grandiloqüente, nas comparações com vultos da Antiguidade clássica, deuses e monumentos sacros. No entanto, essa construção mascara um lado torpe. Por baixo da carapaça de uma instituição educacional de renome, há o pior dos mundos, retratado em relações homossexuais degradadas, nas quais os mais fortes subjugam os menores.


Aristarco é visto, inicialmente, como um pedagogo-modelo. Essa imagem, no entanto, como a do próprio internato, não passa de fachada. O diretor é conivente com o ambiente mórbido das relações entre alunos e professores. Tome-se, por exemplo, o caso de Franco, um dos internos, personagem que encarna o aspecto mais doentio do colégio. Abandonado pela família, serve como bode expiatório para Aristarco.


Aristarco e o Ateneu se determinam um em função do outro, tanto no processo de sua construção como na desconstrução, quando tragicamente um interno ateia fogo ao colégio. Ema, esposa de Aristarco, aproveita o momento para fugir e abandonar o marido.

domingo, 2 de março de 2014

Te Contei, não ? - Naturalismo

A escola literária naturalista é conhecida como uma radicalização do Realismo que se baseia na observação fiel da realidade e na experiência, logo, o indivíduo se determina pelo ambiente e pela hereditariedade. É no romance naturalista que a abordagem extremamente aberta do sexo aparece, o que resultou em algo muito chocante para a sociedade conservadora da época. Naturalistas escreviam sobre o instinto fisiológico e natural, retratando a agressividade, a violência e o erotismo como elementos que simplesmente fazem parte da personalidade do ser humano. Pode-se dizer que essa escola literária surge no século XIX.

Te Contei,não ? - O Realismo no Brasil

O Realismo no Brasil (1881-1893)

I – INTRODUÇÃO

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Te Contei, não ? - O Ateneu - um olhar

                       
 
 
 romance O Ateneu, de Raul Pompéia, publicado em 1888, é uma das obras mais importantes do Realismo brasileiro. É a recriação artística do colégio interno. Apoiado na memória, Sérgio vai recompondo os fantasmas da adolescência, vivida entre as paredes do internato, através de quadros que deformam intencional e artisticamente o passado. Não é simples autobiografia e também não é pura ficção (= imaginação, invenção). É a soma das duas coisas, trabalhada pelas mãos do artista.

Foco narrativo

É uma narrativa de confissão, narrada em 1ª pessoa por Sérgio (personagem-narrador). A obra é memorialista, seu narrador, Sérgio, apresenta suas memórias de infância e adolescência num colégio interno chamado Ateneu. Assim, o foco narrativo em primeira pessoa impede a tão valorizada objetividade e imparcialidade do Realismo-Naturalismo.

Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro “eu” de Raul Pompéia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o Colégio Abílio, do Rio de Janeiro. Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.

Classificação problemática

Há uma superposição de diversos estilos, que torna problemático vincularmos O Ateneu a uma determinada corrente estética. Assim, podemos identificar no livro elementos expressionistas, impressionistas, naturalistas, simbolistas e parnasianos.

Os elementos expressionistas estão na descrição, através de símiles exagerados, dos ambientes e pessoas, compondo “quadros” de muita riqueza plástica, especialmente visual, e desnudando de forma cruel os lugares, colegas, professores etc. A frase transmite grande carga emocional. O estilo é nervoso, ágil. A redução das personagens a caricaturas grotescas parece proveniente da intenção de deformar, de exagerar, como se Raul Pompéia estivesse “vingando-se” de tudo e de todos.

As mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão. (...)

As crianças, seguindo em grupos atropelados, como carneiros para a matança. (...)

Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia, O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio - palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicança, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; (...) o Negrão, de ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso...

Os elementos impressionistas evidenciam-se no trabalho da memória como fio condutor. O passado é recriado por meio de “manchas” de recordação, - daí a existência de um certo esfumaçamento da realidade, pois o internato é reconstituído por meio das impressões, mais subjetivas que objetivas, eivadas de um espírito de vingança, sofrimento e autopunição. Há quem, por isso, rotule O Ateneu de romance impressionista.

Os elementos naturalistas decorrem da concepção instintiva e animalesca das personagens, cujo comportamento é determinado pela sexualidade, condição social etc. Há um certo gosto “naturalista” pelas “perversões”. É o que ocorre nas descrições de Ângela e na tensão de homossexualismo que existe nas relações de Sérgio com Sanches, Bento Alves e Egbert. Mas é um naturalismo dissidente, que nada tem a ver com o apriorismo, ou com o esquematismo, característicos dessa corrente. O doutor Cláudio, conferencista que algumas vezes pontifica no internato, e que exterioriza algumas idéias artísticas do próprio Raul Pompéia, define a arte como o processo subjetivo da “evolução secular do instinto da espécie".

Seria possível rastrear em O Ateneu aproximações também com o Parnasianismo, com o Simbolismo e, até, antecipações modernistas.

Uma antecipação de Freud

Freud afirmara que os escritores há muito conheciam e aplicavam em sua arte os mecanismos do inconsciente. Raul Pompéia transpôs as projeções do inconsciente, trabalhando com reminiscências traumáticas de sua adolescência. Faz, a seu modo, um regresso “psicanalítico” às fontes primeiras de suas cicatrizes.

Mas as aproximações com a teoria freudiana não se esgotam aí. Pode-se rastrear na personalidade de Sérgio as marcas profundas do complexo de Édipo mal resolvido (o pai castrante odiado e a projeção da relação pai / filho na recusa à autoridade de Aristarco; a projeção das relações com a mãe, na figura de Dona Ema etc.).

O componente sexual é o traço mais valorizado na personalidade dos adolescentes do internato, divididos em “machos” e “fêmeas”, em dominadores e dominados. Observe o que diz o narrador em relação ao seu colega Bento Alves:

Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer, porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos.

Ou ainda, em relação ao assédio do mesmo Bento Alves:

O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor sempre receoso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpresa e agrado. (...) Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. (...) Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.

O internato como microcosmo

Raul Pompéia projeta no internato toda a problemática do mundo adulto. O “Ateneu” é uma redução, em escala, da visão que o autor tinha da sociedade como um todo. O móvel das ações de Aristarco era o dinheiro, e os alunos eram tratados pelo diretor, conforme o segmento social a que pertenciam seus pais.

A crítica ao sistema educacional é severa:

O Ateneu... afamado por um sistema de nutrida réclame, mantido por um diretor que de tempos em tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa...

Raul Pompéia não deixa ao arbítrio dos futuros intérpretes o trabalho de decifrar o sistema de idéias que se poderia depreender de O Ateneu: ele mesmo o expõe, na pessoa do Dr. Cláudio, em três conferências:

1. Fala sobre a cultura brasileira, em que os desejos republicanos de Pompéia se mostram, investigando o “pântano das almas” da vida nacional, sob a “tirania mole de um tirano de sebo”.

2. Fala sobre a arte, entendida pré-freudianamente como “educação do instinto sexual” e, antecipando também Nietzsche, como “expressão dionisíaca”.

Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana - acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaguez como a orgia e como o êxtase.

3. Fala sobre as relações entre a escola e a sociedade:

Não é o internato que faz a sociedade, o internato a reflete. A corrupção que ali viceja vem de fora.

A educação não faz as almas. exercita-as. E o exercício moral não vem das belas palavras de virtude, mas do atrito com as circunstâncias. A energia para afrontá-las é a herança de sangue dos capazes de moralidade, felizes na loteria do destino. Os deserdados abatem-se.

Tempo

O tempo cronológico não supera dois anos, que vão desde a entrada de Sérgio no colégio até o incêndio que o destrói totalmente, por volta da última década do séc. XIX . Predomina, assim, o chamado tempo psicológico por ser um romance de memória em que fatos e pessoas vêm a tona da consciência conforme sua importância no momento da narração. Esta é feita basicamente por meio de flash back, tornando visível o que era invisível, porém, de forma bastante tênue, sem intensidade, marcada apenas pela impressão sensorial.

Espaço

O colégio localizava-se na cidade do Rio de Janeiro. "O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de fora..." Figurativamente podemos enquadrá-lo entre dois mundos: a família e a sociedade.

Principais personagens

Sérgio: Personagem central, pois é a partir da sua ótica que a história é contada. Menino de onze anos, criado no aconchego do lar, sob os carinhos maternos, penetra no mundo do Ateneu com intensa fragilidade e inocência. Para ele, a escola representava um mundo de ilusões e fantasias: ele a vira em dias de festa. Mas, já como aluno interno, sozinho, toma contato com as leis que regem aquele lugar e aos poucos vai-se familiarizando e se fortalecendo. Assim, conhece a amizade, a força, o autoritarismo, o sexo, vivências que marcam sua vida, influenciando-o posteriormente. Em relação ao Ateneu, são incontáveis suas experiências e quanto a Aristarco, até conseguiu enfrentá-lo.

Aristarco: Aristarco Argolo dos Ramos é o diretor do Ateneu – e a encarnação do autoritarismo, da insensibilidade e da vaidade: "Acima de Aristarco – Deus ! Deus tão somente: abaixo de Deus – Aristarco". Mostrava sua visão de negociante ao difundir a imagem do colégio, colocando-o numa vistosa vitrine, sob o olhar admirado da sociedade. Assim, ao exaltar o colégio, exaltava-se: "Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição rigorosa de acordo, dois lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos" (cap.II) – "tinha maneira de todos os graus, segundo a condição social da pessoa." Inicialmente, o narrador mostra sua face de educador dedicado aos alunos, um segundo pai; depois, mostra a outra face, a verdadeira, a mesquinha.

D. Ema: Nome tomado de empréstimo da personagem de Gustave Flaubert, escritor francês que imortalizou uma figura feminina com Ema Bovary. Em O Ateneu, D. Ema é a esposa do autoritário diretor e sua figura a ele se opõe: "bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por sua graciosa magreza, erigindo, porem, o tronco sobre os quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas de uma cor só... de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria a cor do jambo...Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado ..." Quando Sérgio fica doente, ela se mostra uma enfermeira maternal, faz-lhe carinhos. "Não! eu não amara nunca assim a minha mãe." Muitos meninos vêem D. Ema com olhos divididos: ora mãe, ora mulher (afinal, ela era a presença feminina junto àqueles adolescentes em processo de descoberta da sexualidade.)

Ângela: É uma empregada do colégio, "Grande, carnuda, sangüínea e fogosa" – é a materialização do sexo e da classe social inferior a serviço, quer no plano do trabalho ou no da sexualidade, de uma sociedade mais elevada. Embora seja bela, torna-se o símbolo do mal.

Os colegas: São apresentados como tipos, personagens nas quais se fixam características especificas que as definem. São personagens planas com comportamentos previsíveis.

Egbert: Um verdadeiro amigo: "Conheci pela primeira vez a amizade", "a ternura de irmão mais velho", disse Sérgio.

Rebelo: É o aluno modelo, exemplar, para o qual todos os demais são inferiores e sem importância.

Franco: É a vítima, o mártir, o alvo sobre o qual se descarrega toda a violência do internato, "a humildade vencida", "não ria nunca, sorria", "vivia isolado...".

Sanches: É o sedutor, que oferece proteção aos meninos novos e indefesos e ainda os ajuda nos estudos. Salva Sérgio de um afogamento na piscina, talvez, provocado pelo próprio Sanches, insinua o narrador, Sérgio se refere ao amigo dizendo "ele me provocava repugnância de gosma". "Sanches foi se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro dele e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cansaço. "Aquele sujeito queria tratar-me definitivamente como um bebê""Notei que ele variava de atitude quando um inspetor mostrava a cabeça à entrada da sala..." - "Sanches esteve pio... Tive medo de perdê-lo. Deu-me as lições sem uma só das intragáveis ternuras."- "Sanches passou a ser um desconhecido".

Bento Alves: "estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo."

Barreto: É um aluno, fanático religioso.

Rômulo: É o "Mestre Cook", por causa de sua paixão por comida.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Te Contei, não ? - Um pouco de Raul Pompeia


Raul D'Ávila Pompéia era filho de Antônio D'Ávila Pompéia e de Rosa Teixeira Pompéia. Foi morar no Rio de Janeiro e estudar no internato do Colégio Abílio, dirigido pelo educador Abílio César Borges, o barão de Macaúbas. Revelou-se bom desenhista e caricaturista, redigindo e ilustrando o jornalzinho "O Archote".

Em 1879, transferiu-se para o Colégio Pedro 2o, onde se projetou como orador e publicou o seu primeiro livro, "Uma Tragédia no Amazonas" (1880). Foi estudar direito em São Paulo, quando se engajou nas campanhas abolicionista e republicana. Escreveu em jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, em geral sob o pseudônimo "Rapp", um dos muitos que adotaria: Pompeu Stell, Raul D., Raulino Palma etc.

Ainda em São Paulo publicou, no "Jornal do Commercio", as "Canções sem metro", poemas em prosa. E ainda, em folhetins da "Gazeta de Notícias", a novela "As Jóias da Coroa". Ambos, publicados postumamente, em livros.
Por ter sido reprovado no 3º ano de direito em São Paulo, foi conclur o curso em Recife (PE), mas nunca exerceu a advocacia.

Voltou para Rio de Janeiro, em 1885, e dedicou-se ao jornalismo, escrevendo crônicas, folhetins, artigos, contos e participando da vida boêmia das rodas intelectuais. Escreveu e publicou "O Ateneu", em formato de folhetim, na "Gazeta de Notícias", mas logo depois, já saiu em formato de livro em 8 de abril de 1888, consagrando-o definitivamente como escritor.

"O Ateneu" é um romance de cunho autobiográfico, narrado em primeira pessoa, contando o drama do menino Sérgio, que é colocado num internato para estudar e se educar. Mas pelo visto, o menino Pompéia passou mal no internato do barão de Macaúbas, e "se vinga", como diz Mário de Andrade, ao retratar um colégio semelhante sem esconder a dureza do pai, e as maldades dos colegas e do diretor. Culminando com a paixão do menino pela esposa do diretor e na destruição da escola pelo fogo, no romance, é claro.

Pompéia apresenta fortes características na linguagem, devido a seu talento de caricaturista. Seu vocabulário tem grande riqueza plástica e sonora. A princípio, a crítica o julgou pertencente ao Naturalismo, mas as qualidades artísticas mencionadas demonstram seu compromisso com o Simbolismo.

Depois da abolição, passou a dedicar-se à campanha republicana. Nesta época, colaborava em "A Rua" e no "Jornal do Commercio". Proclamada a República, em 1889, foi nomeado professor de mitologia da Escola de Belas Artes e, logo a seguir, diretor da Biblioteca Nacional.

Revelou-se um florianista exaltado, achando que seu militarismo constituía a defesa da pátria, em oposição aos intelectuais do seu grupo, como Pardal Mallet e Olavo Bilac. Com a morte de Floriano, em 1895, foi demitido da direção da Biblioteca Nacional, acusado de desacatar a pessoa do Presidente no explosivo discurso pronunciado em seu enterro.

Rompido com amigos, caluniado em artigo de Luís Murat, sentindo-se desdenhado e abandonado, inclusive dentro do jornal "A Notícia", que não publicara o artigo de sua colaboração, suicidou-se no dia de Natal de 1895.