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quinta-feira, 2 de abril de 2015

É bom saber - O que foi a Chacina da Candelária ?

A Chacina da Candelária, como ficou conhecido este episódio, foi uma chacina que ocorreu na noite de 23 de julho de 1993, próximo à Igreja da Candelária, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Neste crime, oito jovens (seis menores e dois maiores de idade) sem-teto foram assassinados por policiais militares

domingo, 28 de dezembro de 2014

Te Contei, não ? - Casa Brasileira

SALVADOR - É uma triste assertiva: o país não tem a tradição de preservar sua memória. Se tomarmos o caso dos grandes escritores brasileiros, são pouquíssimas as casas ou acervos pessoais abertos ao público — conhecer um dos imóveis onde viveu Machado de Assis, por exemplo, é impossível. A única casa do bruxo que ainda resta em pé, e onde escreveu “A mão e a luva”, em 1874, hoje é um cortiço na Lapa, sem qualquer alusão ao autor.

Po

domingo, 17 de agosto de 2014

Te Contei, não ? - Outros olhares sobre Capitães da areia

Na obra
Capitães da Areia, Jorge Amado revela a cultura e os problemas do povo brasileiro, mesclando crença religiosa, ideologia, ceticismo e ativismo político. Sua literatura age contra toda e qualquer opressão e preconceitos que possam estar evidentes dentro do nosso povo, tirando do esquecimento traços significativos da nossa colonização, como, por exemplo, o candomblé e o falar popular. Jorge Amado trata de questões importantes em situações dialogais do cotidiano do povo brasileiro.

Te Contei, não ? - Outros olhares sobre Capitães da Areia



Publicado em 1937, Capitães da Areia é o sexto romance de Jorge Amado, um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros do século 20. No prefácio ao livro, escreve o romancista que, com essa obra, encerra o ciclo de "os romances da Bahia".


A narrativa, de cunho realista, gira em torno das peripécias de um grupo de "meninos de rua" que sobrevive de furtos e pequenas trapaças. Por viverem em um trapiche velho e abandonado (uma espécie de armazém à beira do cais), os garotos do bando, liderados por Pedro Bala, são conhecidos pela má fama de "capitães da areia". É lá, no trapiche abandonado, que Pedro Bala, órfão, (o pai foi morto à bala por liderar uma greve, daí a alcunha do garoto, enquanto a mãe tem o paradeiro desconhecido) se refugia com seu grupo.

Te Contei, não ? - Outros olhares sobre Capitães da Areia

O romance,
que retrata o cotidiano de um grupo de meninos de rua, procura mostrar não apenas os assaltos e as atitudes violentas de sua vida bestializada, mas também as aspirações e os pensamentos ingênuos, comuns a qualquer criança.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Te Contei, não ? - O baú de Jorge Amado


Reforma na casa onde vivia, na Bahia, descobre e recupera centenas de obras de arte, correspondências e objetos que recontam a vida de um dos escritores brasileiros mais conhecidos no mundo


Ana Weiss (ana.weiss@istoe.com.br)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Te Contei, não ? - Jorge que era Amando

Ilana Seltzer Goldstein

10/9/2012

  • Ilustração: João Teófilo
    Ilustração: João Teófilo
    Jorge Amado (1912-2001) foi um escritor superlativo: publicou 32 livros povoados por mais de 5.000 personagens e vendeu cerca de 30 milhões de exemplares somente no Brasil. Embora editado em 52 países e traduzido para 29 línguas, escreveu quase exclusivamente a partir de sua Bahia natal. Ainda assim, seus romances trazem para a sala de aula provocações relevantes sobre diferentes aspectos da sociedade brasileira, e até mesmo questões universais .

    Em Gabriela cravo e canela, por exemplo, há passagens em que a submissão da mulher fica evidente. O livro começa com o assassinato de Sinhazinha por seu marido, que a flagrara com outro. Há prostitutas que são posse exclusiva de certos coronéis. A protagonista Gabriela, por outro lado, destoa ao buscar sua liberdade e sua autonomia. Há também a heroína de Tereza Batista cansada de guerra é uma menina criada pela tia que, ainda adolescente, é obrigada a servir sexualmente um homem violento em troca de dinheiro. A partir da leitura desses romances, ou da projeção das respectivas adaptações audiovisuais, pode-se pedir aos alunos que tracem os perfis femininos encontrados no romance, para depois compará-los às possibilidades e atitudes das mulheres no Brasil do século XXI.
    Antonio Balduíno, herói de Jubiabá, tem Zumbi dos Palmares como ídolo. Seu antepassados foram escravos e ele frequenta terreiros de candomblé. Pedro Archanjo, protagonista de Tenda dos milagres, tenta convencer a todos de que as tradições afrobrasileiras enriquecem a cultura nacional e que a mestiçagem é uma grande riqueza. Mas há também personagens racistas, como a mãe de Lu, noiva de Tadeu Canhoto, em Tenda dos milagres, que não gosta dele por causa da cor de sua pele. Ou a cozinheira Amélia, de Jubiabá, que acredita que “o negro tem que saber o seu lugar”. A partir da leitura desses dois livros ou da projeção dos filmes homônimos, o professor de história terá elementos para abordar as consequências da escravidão africana no Brasil; o racismo baseado na cor e na condição socioeconômica; e as polêmicas recentes em torno das cotas raciais nas universidades.
    O cavaleiro da esperançaé uma biografia de Luís Carlos Prestes, líder comunista que liderou a lendária marcha da Coluna Prestes por todo o Brasil. Esse é um dos livros menos conhecidos de Jorge Amado – que, inclusive, foi um dos articuladores da campanha pela libertação de Prestes, quando de sua prisão. A leitura desse livrinho possibilita ao professor de história, geografia ou sociologia recuperar o movimento socialista no Brasil e no mundo, algo hoje distante da realidade dos alunos.
    O Sumiço da Santa se passa durante “os piores anos da ditadura militar”, nas palavras do próprio narrador. Episódios de prisão, censura e tortura se fazem presentes em várias passagens. O enredo é pontuado por indícios contextuais da década de 1970. O cineasta Glauber Rocha é citado no livro como um dos freqüentadores “subversivos” do Teatro Vila Velha, em Salvador. O narrador se refere a um show de Caetano Veloso e Gilberto Gil, recém-chegados do exílio, no ano de 1973. Já o poeta Vinícius de Moraes, outro figurante da trama, comenta que acabou de compor “Tarde em Itapoã”, canção gravada em 1971. Pode-se, a partir desse livro, que é divertido e fácil de ler, proporcionar a imersão do aluno no contexto da ditadura militar e da contracultura. Uma possibilidade é solicitar que liste nomes de personalidades e fatos históricos encontrados no romance e depois pesquise sobre suas histórias pessoais, seu engajamento político, e sua produção cultural.


    Produção de cacau

    O primeiro plantio de cacau na região de Ilhéus teve início ainda no século XVIII, com sementes trazidas da Amazônia. Até 1900, apenas agricultores estrangeiros dedicavam-se esparsamente ao cultivo do cacau; a partir de 1910, começou a corrida pelas terras da região. O governo passou a doar terras a quem quisesse plantar, atraindo nordestinos que fugiam da seca. A cidade enriqueceu e se transformou rapidamente: a população aumentou, foram erguidos palácios, estabelecimentos comerciais e hotéis, culminando com a construção do porto, em 1924 – financiada pelos próprios cacauicultores. As movimentadas décadas de 1910 e 1920 em Ilhéus constituem o pano de fundo de Terras do Sem Fim,São Jorge dos Ilhéus, Gabriela, cravo e canela e A descoberta da América pelos turcos. A leitura de qualquer um desses livros, pelos alunos, terá grande rendimento em aulas de geografia que tratem de migrações internas no Brasil (e também da imigração árabe para o Brasil); dos custos humanos e ecológicos da implantação de fazendas em áreas antes cobertas por mata atlântica; dos impactos da construção de infra-estrutura (estradas, portos) que acompanha o surgimento da agricultura de exportação.

    Amado na TV
    Jorge Amado, o autor brasileiro que mais inspirou adaptações para cinema e TV, se negava a assisti-las. Isso porque os roteiristas e diretores realçam um aspecto do livro em detrimento de outros, criam novos personagens ou eliminam passagens inteiras, levando em conta a duração dos episódios e as preferências do público. Na adaptação de Gabriela, cravo & canela, feita por Walter Durst, em 1975, Sônia Braga está presente nos primeiros capítulos, ao passo que no livro a protagonista só aparece depois da página 100. A liberdade social e sexual de Gabriela, que perpassa o livro, tornou-se erotismo na telenovela.
    Além disso, enquanto no texto literário as imagens se formam em nossa mente, em um processo solitário, silencioso e pautado por nosso próprio ritmo, as telenovelas e filmes nos oferecem imagens prontas – personagens têm rostos específicos, paisagens têm cores definidas –, acompanhados por trilhas sonoras penetrantes. O professor de língua portuguesa ou de artes poderia propor, primeiro a leitura, depois a visualização de um filme adaptado da obra de Jorge Amado, para comparar, junto com os alunos, cada uma das versões – o que têm em comum, o que só é possível em um dos casos, o que foi suprimido ou acrescentado na adaptação audiovisual etc.  Os livros/filmes ideais para essa atividade são: A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água; Tenda dos Milagres;  Capitães da Areia;Tieta do Agreste; Gabriela, cravo & canela (este último contém cenas de nudez).

    Diferentes gêneros
    Jorge Amado combina diferentes gêneros literários e textuais dentro de seus romances. Capitães da areia começa com cartas enviadas ao jornal, nas quais os remetentes emitem opiniões sobre o que deve ser feito com aqueles meninos que moram na praia. No início de Dona Flor e seus dois maridos, a protagonista escreve um bilhete a Jorge Amado, comentando uma receita de bolo de puba e oferecendo um pedaço ao autor, num jogo entre ficção e realidade. Em Tenda dos milagres, os textos que Pedro Archanjo escreve para combater as ideias racistas de Nilo Argolo são na forma de folhetos de cordel. Em Jubiabá, o personagem Gordo canta letras tristes para pedir esmola, ao passo que Zé Camarão é compositor de sambas com letras cheias de malandragem. Partindo desses exemplos, o professor pode trabalhar com seus alunos as diferenças de gêneros textuais e literários e pedir que exercitem-se na redação de alguns desses formatos. Um trabalho análogo pode ser feito em relação à norma culta e ao registro coloquial de linguagem e, por vezes, até mesmo registro vulgar, todos presentes nos livros de Jorge Amado e adequadamente empregados em função da situação de comunicação.
    Em 1961, a Editora Martins lançou uma coleção comemorativa especial dos 30 anos da obra de Jorge Amado, toda ilustrada por artistas nacionais. Renina Katz, por exemplo, fez gravuras para Os subterrâneos da liberdade; Oswaldo Goeldi ilustrou Mar morto; e Poty criou ilustrações para Capitães da areia. Essas imagens são facilmente encontradas na internet. Sugere-se ao professor de artes e/ou língua portuguesa que discuta com os alunos as relações de complementaridade, redundância ou paralelismo entre texto e imagem. Que explique a técnica da xilogravura, utilizada pelos três ilustradores de Jorge Amado acima citados. E que, em seguida, convide-os a realizarem uma ilustração para uma passagem de Mar Morto ou Capitães da Areia.

    *Ilana Seltzer Goldstein é autora de O Brasil best-seller de Jorge Amado: literatura e identidade nacional (Editora Senac, 2003).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Te Contei, não ? - Segredos de Jorge Amado

Segredos de Jorge Amado

O escritor sempre fez mistério sobre seus tempos de militância. Obras inéditas ajudam a entender o período mais obscuro de sua biografia

MARCELO BORTOLOTI
           

sábado, 10 de novembro de 2012

Resenhando - Conversão misteriosa

O RETORNO  Jorge Amado, Zélia Gattai e seus filhos Paloma (no colo) e João Jorge no Aeroporto do Galeão,  no Rio de Janeiro, em 1952.  De volta do exílio em Praga   (Foto: acervo Folha Press)


Um dos maiores mistérios da literatura brasileira é a mudança radical do escritor Jorge Amado nos anos 1950. Na primeira metade da década, ele era um autor politicamente engajado. Escreveu em 1951 Um mundo da paz, livro de viagem que exalta as proezas do ditador Josef Stálin e dos países da antiga Cortina de Ferro. Na mesma época, embrenhou-se numa longuíssima ficção formatada na estética do realismo socialista, Os subterrâneos da liberdade, que seria publicada em 1954. Depois disso, ficou quatro anos sem publicar romances. Voltou em 1958 totalmente transformado. Em Gabriela, cravo e canela, e nos livros que se seguiram, o engajamento político daria lugar a uma ficção exuberante, colorida, viva, que o tornaria um dos escritores mais queridos do Brasil e inspiraria diversos filmes e novelas de televisão. São dessa fase, além de Gabriela, algumas de suas melhores obras: Os velhos marinheiros, Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos milagres e Tieta do Agreste. O que aconteceu entre 1954 e 1958 para haver transformação tão radical? Um fator, claro, deve ter sido a denúncia dos crimes de Stálin pelo líder soviético Nikita Kruschev, em 1956. Jorge Amado nunca falou longamente sobre sua desilusão com o comunismo – daí o mistério. Por causa disso, o lançamento, nesta semana, de um volume de cartas inéditas escritas entre 1948 e 1967 causou expectativa entre os fãs e estudiosos do escritor. 
Toda a saudade do mundo: a correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai. Do exílio europeu à construção da casa do rio vermelho (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 34,50), organizado por João Jorge Amado, filho do casal, contribui pouco para deslindar o mistério. Por duas razões. A primeira é que a maior parte das cartas da seleção versa sobre temas de cunho pes¬soal. A segunda é que, para burlar a censura, Jorge Amado evitava falar de política e usava certos “códigos” para comentar determinados temas com sua mulher, a escritora Zélia Gattai. Chamava a União Soviética de “o país dos meus amigos”. Mencionava amigos militantes de forma indireta: Pablo Neruda era “o poeta” e o escritor russo Ilya Ehremburg era chamado de “Ikya”. Provavelmente, eram cuidados inúteis. Todo mundo sabia o que ele estava fazendo. Até os espiões do governo Dutra.
Embora a questão mais importante tenha ficado de fora, o pacote de cartas tem outros atrativos. Segundo o organizador da reedição das obras de Jorge Amado, Thyago Nogueira, o volume traz alguns de seus derradeiros textos inéditos. “Outras cartas hão de ser achadas”, afirma Nogueira. “E há ainda uma dezena de páginas do romance Bóris, o Vermelho, que ele estava escrevendo quando morreu e podem ser reveladoras.” As cartas foram encontradas pelos filhos em cinco pastas deixadas por Zélia Gattai. “Não foi difícil organizá-las”, diz João Jorge. “Difícil foi segurar a emoção.” A correspondência entre Jorge e a família é repleta de manifestações de amor, saudade e de luta pela sobrevivência no exílio em Paris, de 1948 a 1950, e – quando expulso da França – em Praga, de 1951 a 1952.
As cartas de Jorge são datilografadas às pressas ou, quando lhe faltava a máquina, redigidas à mão, algo que ele detestava. As que a família enviava a ele contam miudezas cotidianas. O conjunto narra a vida de Jorge e sua “querida Zé” nos anos 1940, entre compromissos políticos, dificuldades econômicas, a criação de dois filhos – Paloma e João Jorge – e o medo de serem eliminados num dos expurgos de Stálin. Longe de casa, Jorge declara seu amor a Zélia. Em certas passagens, subestima a beleza da pianista Anna Stella Schic (1925-2009), com quem parece ter tido um caso que provocou ciúme em Zélia. Muitas vezes pede à mulher que envie mantimentos. Hospedado em hotéis baratos em Paris, tentava concluir o terceiro volume da saga Os subterrâneos da liberdade e divulgar a arte e a literatura brasileiras.

As melhores fontes para entender a guinada do escritor nos anos 1950 continuam a ser seus livros de memórias. Em Navegação de cabotagem, ele conta do choque que sofreu quando, entre 1951 e 1952, ficou hospedado num castelo em Praga com outros escritores comunistas. Lá, tomou conhecimento de que havia tortura na União Soviética, algo que dizia desconhecer. Além disso, amigos foram expurgados e eliminados no período de Praga. Em entrevistas, Jorge e Zélia disseram que a repulsa ao stalinismo se deu mais pelo pavor que testemunharam do que por argumentos racionais. Nas primeiras cartas enviadas a Zélia, antes que ela se juntasse a ele em Praga, Jorge deixa entrever a angústia. Mas não fala de política explicitamente nas cartas nem esmiuçou o tema em entrevistas posteriores. “Meu pai manteve o segredo sobre os detalhes de sua militância”, afirma João Jorge. “Isso não significa que não tenha mantido, até o fim, sua posição em favor dos pobres contra os ricos, dos fracos contra os fortes. Não houve uma mudança de pensamento. Ele apenas se afastou da rigidez comunista e trocou o realismo socialista pela crítica e pelo humor.” O romance brasileiro saiu ganhando.

Revista Época

domingo, 21 de outubro de 2012

Seria bom você saber - Jorge Amado




Entre a imaginação da estória, a montagem dos personagens e a perspectiva da narração, Jorge Amado expõe o traço mais característico de sua obra: a profunda crítica social e política que faz de um Brasil que oscila entre o arcaico e o moderno. Ao expor esse país, posiciona-se no tempo como um comunista, sem a cartilha do marxismo, mas filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e ao presidente Luís Carlos Prestes; como um socialista preocupado com um Nordeste mais justo e igualitário e, de vez em quando, como um liberal, capaz de reconhecer que a sociedade é complexa o suficiente para não tomar partido.
A transitoriedade das posições políticas do autor ou a aparente falta de interesse partidário, porém, não devem ser confundidos com passividade ou mediocridade política. Na verdade, Jorge Amado conhece como ninguém o Brasil real das tramas políticas dos coronéis do Norte e Nordeste; dos preconceitos sociais contra mulatos, negros, mestiços; da poderosa força religiosa dos cultos afro-brasileiros e da má distribuição das riquezas e, os seus 23 romances são a melhor prova disso.
Entre a literatura e a política partidária, Jorge Amado opta pelas duas logo no primeiro romance "O País do Carnaval", onde retrata de maneira singular os problemas sociais de sua geração, ao mesmo tempo em que se torna membro do Partido Comunista Brasileiro. Na sua condição de escritor, participa de muitas actividades políticas como o Congresso de Escritores Polacos e o Congresso dos Escritores Romenos, até que em 1951 recebe o Prémio Estaline Internacional da Paz pelo conjunto de sua obra.
Consagrado pelo movimento comunista mundial, Jorge Amado participa em 1954, junto com outros escritores soviéticos, da indicação de Bertold Brecht para o Prémio Estaline, salvando-o da perseguição do PC alemão. Ao mesmo tempo comunista convicto e crítico do sistema, Brecht virou alvo fácil do partido e só não foi para a prisão porque os escritores conseguiram, através do prémio, o reconhecimento de sua obra, sobretudo do seu teatro, tornando-o uma figura mundialmente famosa.
Horrorizado com as ideologias tanto da direita quanto da esquerda, Jorge Amado, deixa o PCB em 1955 após cumprir a sua última tarefa para pensar, como ele mesmo diz, por sua própria cabeça. Estava cansado de ouvir: "Você tem que fazer isso!". A decisão de sair do partido coincidiu com a sua clareza de idéias a respeito da democracia.
"A esquerda em geral não é democrata. Posso dizer porque fui comunista. Lutávamos confessadamente pela ditadura do proletariado, que resultou em ditaduras pessoais e violentas. Democracia não tem nada a ver com ideologia. Ou se é ou não é".
Essa decisão não o tornou um anticomunista, como ocorreu a muitos outros companheiros que abandonaram a causa, mas apenas modificou o seu modo de pensar o mundo. Deixou de achar que tudo o que era rico era ruim, e tudo o que era pobre é bom, um maniqueísmo claramente demonstrado em seus primeiros livros Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança e Cacau, e depois complexizado nos romances seguintes. Passou a aceitar a ideia de que tanto a moral e a nobreza de espírito quanto a vilania e a malandragem são frutos não da riqueza ou da pobreza, mas da vontade do carácter de cada um.
Assim, em vez de partidos, Jorge Amado prefere apostar nas qualidades dos homens. Admira François Mitterand como o grande estadista da Europa; Mário Soares que conheceu em 1948, em Paris, e que considera um homem de grandes qualidades humanas que o poder não corrompeu; o ex-presidente do Brasil, membro da Academia Brasileira de letras, escritor e poeta maranhense José Sarney e o ex-governador da Bahia e atual presidente do Congresso Brasileiro, Antonio Carlos Magalhães, ambos velhos e conhecidos coronéis do Nordeste pela sua capacidade e perspicácia política, mas também pela sensibilidade que demonstram em relação à cultura.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Memorial de Jorge



Imagine sentar-se no sofá em que um dia repousaram Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes. Ou deitasse na cama em que dormiam Jorge Amado e Zélia Gattai. A imaginação virou realidade para o colecionador de arte Rafael Moraes. Ele comprou o apartamento que pertenceu a Jorge Amado por mais de meia década, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Zélia imortalizou o local num capítulo do livro Chão de meninos, contando um pouco do que viveu em sua vizinhança, grudada ao lendário Beco das Garrafas. “Comprei de porteira fechada, com todo o mobiliário original, incluindo a biblioteca, a coleção de arte popular, roupas do casal e até um lenço bordado por Pablo Picasso”, diz Rafael. Para comemorar o centenário de Jorge, ele acaba de inaugurar na porta do prédio uma placa epigráfica de bronze em que se lê: “Aqui morou Jorge Amado” – a exemplo do apartamento da lte de la Clté, em Paris, onde Jorge e Zélia moraram durante anos. “Adquiri o imóvel em 2009, mas agora consegui reformar e pretendo transformá-lo no centro de referência Jorge Amado. A escrivaninha em que ele criou Gabriela está intacta.”

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Te Contei, não ? - Marcas e heranças dos falares de Jorge

RIO - Em clave negativa, e historicamente inegável, pesam sobre Jorge Amado, homem e obra, dois fardos: de um lado o mito da baianidade festeira e sexualizada ao extremo, de suas Gabrielas e Tietas e seus respectivos garanhões, da malandragem determinista, da afamada preguiça, exageros que têm motivado as leituras mais equivocadas sobre o povo baiano; do outro, a pena vendida a um dos mais sanguinários ditadores do século XX, Stálin, para quem escreveu o livro, quase uma ode, “O mundo da paz”. Esta é a parte do legado a não ser seguida
Contudo, uma das maiores contribuições de Jorge Amado para mais de uma geração de escritores, direta ou indiretamente, é a linguagem despojada, próxima ao registro popular do falar baiano. Aponto isso como conquista estilística que se integrou ao acervo da língua literária escrita no Brasil. Se outros escritores, em suas respectivas regiões, a partir da década de 1930, sob a bandeira do regionalismo, seguiram o mesmo filão, Jorge Amado, por sua vez, consegue o feito de falar ao mundo a partir também do exotismo de uma localidade, e não circunscrevê-la somente.
Necessário apontar o ganho linguístico do romancista baiano porque é fácil negá-lo depois de ter sido alcançado, pois quantos não o utilizam crendo que tal feito nasceu por combustão espontânea, sem que ninguém num primeiro momento tenha se esforçado para realizá-lo. Ignorar esse mérito é ignorar o desenvolvimento da língua literária no Brasil no século XX. Do mesmo modo, muitos dos que escrevem hoje desdenham autores, para ficarmos nos poetas, como Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Alphonsus de Guimaraens, por considerá-los, do alto de suas ignorâncias, ultrapassados. Por mais que maneje outros idiomas, a influência profunda que marca o estilo de um autor provém dos seus antecessores em sua própria língua. E não teríamos a complexidade da linguagem literária hoje sem o esforço e talento de toda uma tradição — pequena, é verdade, mas nossa.
Jorge Amado deu não apenas rosto, mas corpo romanesco à Bahia. Temos atualmente várias outras realidades passíveis de serem capturadas pela literatura. Mas aquele mundo por ele criado existe, com os seus personagens e tramas picarescas, sua malícia quantas vezes romantizada, mas também esclarecedora do nosso caráter. O candidato ou jovem escritor que desejar conhecer o retrato da Bahia no tempo terá impreterivelmente que ler o autor de “A morte e a morte de Quincas Berro d’Água” — considerado por muitos a sua obra-prima.

João Filho é poeta e escritor baiano; participou de antologias como “Terriblemente felices”, “Nueva narrativa brasileña” e“Geração Zero Zero: Fricções em rede”

Te Contei, não ? - NO Brasil e no exterior, eventos lembram centenário

RIO - Jorge Amado saiu do interior da Bahia para ganhar o mundo, seja por meio da tradução de suas obras, do exílio ou do prazer em viajar. Natural que o centenário de seu nascimento extrapole as fronteiras do Brasil. E o escritor que teve seus livros adaptados para cinema, teatro e TV vai ter a data lembrada em exposições, filmes, peças e palestras. As comemorações se iniciam antes mesmo do dia 10, data em que ele completaria cem anos. Na terça-feira, a Academia Brasileira de Letras abre a mostra “Jorge Amado —100 anos”, que mostrará as primeiras edições dos livros do acadêmico, a cronologia de sua obra e painéis de fotos. Organizada pelo cineasta e acadêmico Nelson Pereira dos Santos, exibirá ainda todos os filmes, novelas e programas de TV adaptados de seus livros. Outras exposições estão programadas pelo país, como “Jorge, Amado e universal”, no MAM de Salvador, a partir do dia 10, e “Ilê Axé Opô Afonjá — O candomblé e Jorge Amado”, também em Salvador, em dezembro, na Fundação Casa de Jorge Amado.

Ilhéus será palco, de 4 a 12 de agosto, do projeto Amar Amado, com seminários, ciclos, festivais e shows de Caetano Veloso, Margareth Menezes e família Caymmi. Caetano se apresentará dia 10, cantando músicas que fazem referência a obras de Amado, como “A luz de Tieta” e “Milagres do povo”.
Nas artes cênicas, o ano promete leituras dramatizadas em espaços Sesc, o espetáculo teatral “O sumiço da Santa”, com direção de Fernando Guerreiro, em Salvador, e “Capitães da areia por eles mesmos”, dirigido por Elisa Mendes, em Ilhéus. Para o ano que vem, está previsto o musical inspirado em “Gabriela”, de João Falcão, no Rio (leia mais na página 4). E está em estudos “Amado Gonzagão: um baião dos dois”, sobre os dois artistas que completariam cem anos em 2012.
O cinema vai homenageá-lo este ano com a mostra “Jorge cineamadográfico”, no interior da Bahia, e dois longas, “As fantásticas aventuras de um capitão” (leia mais na página 4), em fase de finalização, e “Dona Flor e seus dois maridos”, que deve ser rodado em novembro.
No exterior, a agenda também é variada. Ao longo do ano, Roma, na Itália, abrigará o evento “O mundo de Jorge Amado” e uma mostra de cinema. Haverá uma homenagem a Jorge no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, na França, com a exibição do documentário “Jorge Amado”, de João Moreira Salles, e “Capitães da areia”, de Cecília Amado, neta do escritor, além de mostras de filmes na Universidade de Salamanca, na Espanha, na Embaixada do Brasil em Londres, na Inglaterra, e em Los Angeles, nos Estados Unidos. Também estão programados colóquios na França, em Portugal e na República Tcheca. Em Helsinque, na Finlândia, artistas plásticos estão criando obras inspiradas no universo de Jorge, que serão mostradas em agosto. Por fim, em Berlim, na Alemanha, o espaço da Embaixada do Brasil recebe no dia 6 de agosto a noite “Jorge Amado em Berlim — ... Um sopro de liberdade atravessa o mundo”, com leitura em português e alemão de trechos da obra, capoeira, música e exposição de fotos.

Te Contei, não ? - Uma casa que guarda as palavras do escritor


SALVADOR - Myriam Fraga lembra de como reagiu ao ser convidada por Jorge Amado para dirigir a fundação que iria cuidar do acervo do escritor:
— Eu me assustei. Nunca tinha assumido um cargo administrativo.

Hoje, 25 anos depois da inauguração, a Fundação Casa de Jorge Amado é o principal centro de referência sobre Amado do país. Em 2011, 61.488 visitantes passaram pelos dois casarões azuis de quatro andares no Largo do Pelourinho, que guardam um acervo de 19 mil manuscritos, 56.139 recortes de jornais, revistas e periódicos, 48.369 correspondências, 6.152 livros, 414 livros, 165 prêmios e 32 CDs do autor baiano, além de 29.788 negativos de imagens feitas por Zélia Gattai — autora da maioria das fotos que retratam Amado.
Neste ano, com o centenário, o número de frequentadores deve crescer. Para efeitos de comparação, no ano passado a fundação recebeu 4.296 alunos. Até junho deste ano, já foram 4.217 estudantes.
Em setembro, Myriam lançará “Uma casa de palavras — 25 anos depois”, sobre a fundação. O lema da casa, sugerido por Amado, é “Se for de paz, pode entrar”. Para o escritor, a fundação não deveria ser um depósito de documentos, mas um centro “vivo e atuante”.
Myriam está citada no livro “Bahia de Todos-os-Santos”. “Que poderoso poeta é essa moça!”, escreveu Amado. Ele falava de sua eleição para a Academia das Letras da Bahia e dizia que um dia ela entraria para a ABL, com o seu voto.
Uma preocupação de Amado é que o dia a dia burocrático roubasse o tempo dela para a poesia.
— Ele dizia: “Tenho medo de que você não escreva mais”.
O receio mostrou-se infundado. Myriam acumula a criação com a administração. Há um ano lançou “Poesia reunida” e prepara agora “Memórias de alegria”, em homenagem a Jorge Amado.
—São coisas que escrevi sobre ele, viagens, histórias, palestras.
Em tributo ao centenário do escritor, haverá de 13 a 17 de agosto o II Colóquio de Literatura Brasileira, com palestras de nomes como os acadêmicos Ana Maria Machado, Domício Proença Filho e Murilo Melo Filho, além de Paloma e João Jorge, filhos de Amado.

Te Contei, não ? - Passeio pela Salvador de hoje e de 1986


SALVADOR - Em 1945, a Salvador de Jorge Amado era, nas palavras do escritor, uma cidade pobre de hotéis, paupérrima de restaurantes, sem teatros e com pequena vida noturna. “Falamos mal dos hotéis, dos restaurantes, dos cabarés. Falemos agora mal dos cinemas. A Bahia ainda está à altura do cinema que merece”, escreve ele em “Bahia de Todos-os-Santos — Guia de ruas e mistérios de Salvador”. O livro ganhou revisões em 1960, 1966, nos anos 1970 e em 1986. No mês que vem, a última adaptação feita por Amado chega às livrarias pela Companhia das Letras. O relançamento oferece boa oportunidade para ver o que ainda se mantém da Salvador descrita por ele em 1986.

— O livro é um canto de amor à cidade, contando da história, da gente, do sentir, da beleza, dos grandes personagens ali nascidos e criados e, sobretudo, da maneira de ser única e original dos habitantes — diz Paloma Amado, filha do escritor.
De 1945 para 1986, muita coisa mudou, como o próprio Jorge dizia. Aquela cidade “provinciana, descansada, tranquila, doce, bela e única”, com pouco mais de 300 mil habitantes, havia se tornado uma metrópole “ruidosa, movimentada, turbulenta, sua doçura fundamental entrecortada de violência”. De 1986 para cá, ela está ainda mais ruidosa e movimentada. Mas muitos dos cenários e personagens listados no guia se conservam. Escreve Amado: “Dos filhos de Caymmi, (João Gilberto é) o mais louco e o mais angelical. Dos segredos das camarinhas surgiu Gilberto Gil, acento negro na voz límpida, melodia que desce da senzala para conquistar a praça e o poder. Da festa de Nossa Senhora da Purificação em Santo Amaro, de comício impossível, proibido, desembocou Caetano Veloso, barco em mar de temporal”.
Entre os muitos outros artistas ainda ativos está o escultor Mário Cravo, ilustrador de livros de Amado como “Suor” e “Navegação de cabotagem”. No guia, ele é chamado de “mestre”, dono de uma “uma arte revolucionária”, um dos pioneiros da arte moderna na Bahia. Hoje, aos 89 anos, ele trabalha diariamente pela manhã em seu ateliê.
— Amado foi o maior contador de histórias do século XX — diz Cravo, que prepara exposição na galeria Paulo Darzé, em Salvador, para 13 de abril de 2013, quando completa 90 anos. — Mostrarei obras recentes e antigas, com objetos que representam fases mais importantes da vida.
Quem também não para de trabalhar é a fotógrafa Arlete Soares. Aos 72 anos, continua à frente de sua editora, a Corrupio, e lançou no ano passado o livro “Anônimos”, com fotos de suas andanças por China, Tibet, Índia, Nepal e Egito. No guia, Amado dizia que ela, “devorada sempre pelo fogo da paixão”, era um dos “promotores de cultura mais importantes do Brasil”.
— Jorge embelezava as coisas. Era otimista, sempre de bem com a vida — minimiza os elogios.
Citada no livro, mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, é uma das principais líderes do candomblé do país. Era muito ligada a Amado, assim como a Dorival Caymmi e Carybé. Em “Bahia de Todos-os-Santos”, o autor a define como “prudente e forte, flexível e inteligente, capaz e firme”, dizendo que com ela os dias de grandeza do Axé do Opô Afonjá retornaram. Amado era Obá Àrolu da casa — título dado aos amigos e protetores do terreiro. Aos 87 anos, mãe Stella cumpre intensa rotina de obrigações, rituais e reuniões.
— Que jeito, rapaz. Estou com problema nas pernas, dor ciática, mas a cabeça está dando para entender, para fazer meus bozós — diz ela, lembrando que já gostava de Amado antes de conhecê-lo. — Toda moça gosta de escritor. Era como se Jorge encarnasse os personagens.
Mais tarde, nos anos 1960, ele passou a frequentar o centro, onde ficava horas conversando com mãe Senhora — nessa época mãe Stella era apenas filha de santo do terreiro.
— O santo dele é Oxóssi. Meu orixá, também. A gente já tinha essa ligação espiritual.
A geografia da cidade espalha-se pelo livro. Em 1986, a Rua Chile é “o coração da cidade”, onde “se exibe toda a gente”, cenário do “comércio mais elegante, do footing, da conversa, de negócios também, de namoros, de brilho, de exibição”.
— A importância dela é passado. Era a rua dos coronéis e dos grã-finos. Hoje não presta mais — diz o vendedor de água de coco que faz ponto em frente ao Elevador Lacerda.
Mas ela pode vir a recuperar uma pequena parte da magia. Será erguido no antigo prédio do jornal “A Tarde” o primeiro hotel Fasano do Nordeste, em frente à Praça Castro Alves.
Um dos capítulos do guia se detém nas igrejas. “Diz a lenda que a cidade do Salvador conta com 365 igrejas, uma para cada dia do ano. Dizem os amigos dos números exatos que entre igrejas e capelas elas somam 76. Pouco importa.” Uma das mais populares é a de Nossa Senhora do Rosário dos Negros, no Pelourinho, “sempre cheia de gente, extremamente ligada aos ritos do candomblé”. A igreja, do século XVIII, foi reaberta em abril, após um ano e meio fechada para obras.
Em 1945, havia poucos restaurantes “apresentáveis”. Para uma boa comida baiana, Amado recomendava o Estrela do Mar, de propriedade de Maria de São Pedro. Em 1986, ela já havia morrido, mas a tradição continuava, agora com um restaurante que levava seu nome. Hoje em dia, o Maria de São Pedro divide espaço com o Camafeu de Oxóssi — outro restaurante frequentado por Amado — no Mercado Modelo. À frente, o filho caçula de Maria, Luis Domingos, de 72 anos.
— Às vezes ele vinha direto da Europa para o restaurante. Nosso forte é a moqueca, mas galinha ao molho pardo era seu prato preferido aqui — afirma Domingos.

Te Contei, não ? - Zélia, a companheira até o fim


RIO - Eu atravessava a sala quando vi na TV uma cena entre Nacib e Gabriela, da novela da Globo de 1975.

— Mamãe, por que eles estão enrolados num lençol?

— Porque está calor.

A resposta não me convenceu. Assim que consegui dominar a leitura peguei “Gabriela, cravo e canela”, que li (inconsciente, mas baianamente) numa rede. Depois, devorei outros três livros de Jorge Amado. Zélia Gattai veio mais tarde, na época da faculdade. E que refresco foi ler “Anarquistas, graças a Deus”. Ver a realidade da imigração italiana, um dos fatores de transformação do Brasil moderno, de modo tão fluente. Não por acaso, o livro esgotou uma edição após a outra, ganhou prêmio e virou minissérie. Zélia ainda lançou outras memórias, mas o que mais me marcou foi a autora ter escrito sua primeira obra aos 63 anos. Por quê? Tive a chance de perguntar quando ela tomou posse na Academia Brasileira de Letras, na cadeira que por 40 anos foi do seu marido, mas de repente parecia tão sem sentido e tão claro: que as feministas não me leiam, mas Zélia foi a companheirona de Jorge Amado. Nos encontros comunistas, no governo federal, no exílio, nas conversas com Pablo Picasso, no quintal da casa do Rio Vermelho.
Aquela que a família apelidou de atrevida, que cresceu em São Paulo ouvindo seus pais contando histórias (o pai, inventadas; a mãe, reproduções de romances), queria conhecer Jorge depois de ter lido seus livros. Quando conseguiu, em 1945, tudo mudou. Zélia contou em seu discurso de posse na ABL:
“Pela primeira vez eu via Jorge de perto e me encantei. Fiquei pensando: apenas 32 anos, com tantos livros escritos, tantas e tais aventuras. Estava eu perdida em meus devaneios quando o vi estender a mão para mim: ‘Você vai trabalhar comigo...’ Em seguida, segurou-me pelo braço: ‘Venha, me acompanhe, vou ditar um comunicado à imprensa.’ Parou diante de uma máquina de escrever. ‘Sente...’ Ai, meu Deus! ‘Eu não sei escrever à máquina’. Não sabe bater à máquina? Que moça inútil!’ Me contive para não chorar, e ele, percebendo o meu constrangimento, tratou de desfazer a brincadeira: ‘Não pense que vai se livrar de mim assim.’ Jorge sempre me dizia: ‘Ao pousar pela primeira vez os olhos em você, meu coração disparou.’ Desse momento em diante, 56 anos se passaram, e eu continuei a seu lado, acompanhando-o.”

Te Contei,não ? - Entre amigos e orixás, Amado, CAymmi e Carybé

 
RIO - Um romancista, um artista plástico e um compositor popular. A uni-los, uma grande amizade, o amor pela Bahia e a fé nos orixás. No Axé de Opô-Afonjá, candomblé de Mãe Ondina, os três foram feitos obás de Xangô, Jorge Amado e Carybé primeiro, Dorival Caymmi depois. Os três orgulhavam-se das honras com que foram distinguidos em Salvador, símbolos da forte presença da cultura afro-brasileira em suas obras, os romances de Amado, a pintura de Carybé e as canções de Caymmi. Com um detalhe: cada um passeando pela arte do outro, Caymmi na pintura de Carybé, Carybé na literatura de Amado, Amado na música de Caymmi
Amado e Carybé se conheceram primeiro. Hector Julio Páride Bernabó, argentino de nascimento, adotou o apelido de Carybé supondo ser o nome de um peixe amazônico (anos depois Rubem Braga esclareceria que caribé é sinônimo de “mingau ralo”). Seu encontro com Amado deu-se quando ele ilustrou “Jubiabá”, romance de 1935 — o mesmo que seduzira um outro grande amigo estrangeiro, o fotógrafo francês Pierre Verger (1902-1996), que adotaria o nome Fatumbi. Carybé viajara pelo mundo antes de se fixar no Brasil, mais precisamente na Bahia miscigenada, dos cultos afros e das histórias sobre o mar. Como nos romances de Amado e em seus quadros, murais, desenhos e ilustrações. Seria fiel a tudo isso até morrer, aos 86 anos, em 1997.
O escritor e o artista plástico se associariam em vários outros trabalhos, além de capas e vinhetas dos romances de Amado. Este dedicou àquele o livro “O capeta Carybé”, em que define o amigo como “...feito de enganos, confusões, histórias absurdas, aparentes contradições e, ao mesmo tempo, a própria simplicidade”. A quatro mãos, os dois escreveram “Bahia, boa terra Bahia”. Sozinho, depois de 30 anos de pesquisas, Carybé lançou em 1981 a “Iconografia dos deuses africanos do Candomblé da Bahia”. E, novamente juntos, a sagração como Obá Olorum, Amado, e Obá Onoxocun, Carybé.
Segundo a neta e biógrafa Stella Caymmi, nem o avô, nem Jorge Amado se lembravam de quem os apresentou. Mas foi em 1938, pouco após a chegada do compositor ao Rio, numa caminhada do Belas Artes ao Nice, dois cafés que fizeram história na vida boêmia do Rio. Jorge era o redator-chefe de “Dom Casmurro” e “Diretrizes”, que tinham como colaboradores intelectuais de esquerda amigos do escritor. Entre eles, o futuro governador da Guanabara Carlos Lacerda.
Ambos ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Amado e Lacerda muito influenciaram Caymmi, que, no entanto, jamais se filiou ao partido. No máximo, concordou em acompanhar o amigo escritor em seus comícios e passeatas de candidato a deputado federal e em musicar letra dele para a campanha de Luiz Carlos Prestes ao Senado, em 1945: “Vamos votar em Prestes/ Votar no Partido Comunista/ Para todos terem terra/ E o pão de cada dia/ Para o povo, liberdade/ Para o Brasil, democracia.”
Àquela altura, Amado e Lacerda já estavam em lados opostos havia tempo, desde 1939, quando Lacerda rompeu com o PCB. Nunca mais se repetiria o encontro lítero-musical que os três tiveram no sítio de Lacerda, em 1938. A improvável parceria dos três, música de Caymmi para letra dividida entre Amado (“O teu corpo nos meus braços/ Nossos passos pela estrada...”) e Lacerda (“A chuva apaga a marca dos teus passos/ No caminho abandonado...”), resultou na canção “Beijos pela noite”, só gravada em 1994 por Danilo e Simone Caymmi.
A parceria entre Jorge Amado e Caymmi não ficaria naquela primeira experiência. Têm letra de Amado as canções “Modinha para Teresa Batista” e “Canto de Obá”. Sem contar a clássica “É doce morrer no mar”, que Caymmi fez numa reunião na casa do coronel João Amado de Faria. Inspirada em versos do romance “Mar morto”, com outros acrescentados pelo próprio Jorge Amado, a canção nasceu: “É doce morrer no mar/ Nas ondas verdes do mar...”, que Caymmi gravou em 1941.
Os dois jamais deixariam de estar juntos. Nas palavras de Amado: “Os orixás da Bahia possuem seus favoritos, para eles reservam o dom da criação e a grandeza. Assim aconteceu com o moço Dorival Caymmi. Os orixás cumularam de talento e dignidade esse filho da grande mistura de raças que nas terras brasileiras se processou e se processa, criando uma cultura e uma civilização mestiças que são a nossa contribuição ao tesouro do humanismo.”