As memórias do desaparecimento do pai na ditadura militar estão no novo livro de Marcelo Rubens Paiva, 'Ainda estou aqui', da editora Objetiva. Marcelo e duas irmãs relatam a ÉPOCA o feriado mais triste da infância deles
MARCELO, VERA E ELIANA PAIVA EM DEPOIMENTO A ALINE RIBEIRO
Para marcar os 40 anos da morte da estilista, a colunista Hildegard Angel prepara uma peça teatral que começou a ser escrita durante a ditadura militar sobre sua trágica histórica familiar
A atriz chocava os moralistas de plantão com frases do tipo 'Você pode muito bem gostar de uma pessoa e ir para a cama com outra'
O DIA
Rio - O verso de Drummond está na lápide de Leila Diniz no São João Batista. Levei um baita susto quando li no jornal que no próximo dia 25 ela faria 70 anos. Eu a conheci em 1960, quando tinha 15 anos, e eu, 28; já dizia palavrões de um jeito tão bonitinho que os privilegiados marmanjos e garçons do Mau Cheiro (também chamado de Morte Lenta) achavam isso muito natural, como na letra de ‘Desafinado’. Ela e suas amigas, Ira Etz, Ana Maria Saraiva, Ionita e Aninha Magalhães, trocavam, escondidas dos pais, o maiô pelo biquíni no banheiro do bar. Depois disso, o até então provinciano bairro de Ipanema nunca mais foi o mesmo. Liam, ou fingiam ler, ‘A Náusea’, de Sartre. A música de fundo era de Juliette Greco. O barquinho de Menescal e Bôscoli deslizava no macio azul do mar enquanto algumas tinham crises existenciais se dourando ao sol do Arpoador. Leila com certeza não, ela era uma mulher solar, não me lembro quem disse.
Mas que coisa tão linda, quando ela passa me faz chorar
Tú és o mais belo dos belos, traz paz, riqueza
Tens o brilho tão forte por isso te chamo de pérola negra
Êêê, pérola negra
Pérola negra ilê a yê, ilê a yê
Minha pérola negra
Lá vem a negra que faz o astral da avenida...
Com sutileza cantando e encantando a nação
Batendo bem forte cada coração
Fazendo subir a minha adrenalina
Como dizia Buziga
É de mim
Em me pé nagô de ilê
É de mim
Em me pé nagô de ilê a yê
Êêê, pérola negra...
Ilê Aiyê: No fim dos anos de chumbo, nasce a esperança. Em 1974, em plena ditadura militar, nasce o bloco afro Ilê Aiyê, a formação que leva os sons e ritmos do bairro da Liberdade, Salvador, para o mundo. A fundação no meio da ditadura militar é prova da coragem, da inteligência e da força que emana da cultura baiana. O bloco Ilê Aiyê, mostrando a beleza da música negra, sempre seguiu o objetivo artístico-estético de superar o racismo e os preconceitos. Imediatamente depois do governo Médici, em 1974, projetos dessa natureza ainda corriam risco de serem censurados. A cultura, em 1974, era também uma expressão política. Embora o Ilê Aiyê seja um movimento artístico, musical e cultural negro, qualquer manifestação cultural, nesses anos, corria o risco de ser considerada agitação politica. Assim se entende a consciência política que o Ilê Aiyê vem cultivando desde o início.
Hoje, o bloco Ilê Aiyê conta com os melhores patrocinadores. Mais que 35 anos depois da fundação, o Ilê Aiyê hoje conta com o apoio da Petrobras, da Eletrobras e do BNDES, através do patrocínio do centro "Senzala do Barro Preto" ou de turnês. Já receberam subsídios pela Lei Rouanet. O centro cultural é sede do grupo que desenvolve projetos de Carnaval, de Cultura e educação para preservar e elevar a cultura e a auto-estima dos negros brasileiros e de todos que apreciam esse trabalho artístico. No centro cultural "Senzala do Barro Preto" há uma escola, vários gabinetes médicos, salas de auditório, informática e gravação. O centro, de 2004, foi fundado na antiga sede do Ilê Aiyê. Hoje em dia, os eventos do Ilê Aiyê estão abertos para a população geral, independentemente da raça ou cor.
O Ilê Aiyê, primeiro bloco afro da Brasil, nasceu no Curuzu, Liberdade, bairro de maior população negra do país, com aproximadamente 600 mil habitantes. Fundado em 1º de novembro de 1974, com o objetivo de preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira. O Ilê, ao longo de sua trajetória, vem homenageando países africanas e revoltas negras brasileiras, que contribuíram fortemente para o processo de identidade étnica e auto-estima do negro. O Mais Belo dos Belos apropriou-se popularmente da história africana para trabalhar a construção da história do negro no Brasil.
Com certeza o movimento rítmico musical inventado na década de 70 pelo Ilê Aiyê, foi responsável pela revolução do carnaval baiano. A partir desse movimento, a musicalidade do carnaval da Bahia ganha novos ritmos oriundos da tradição africana. Com seus 3 mil associados, o Ilê hoje é patrimônio da cultura baiana, um marco no processo de reafricanização do Carnaval da Bahia.
O espetáculo rítmico-musical e plástico que o bloco mostra no Carnaval arranca aplausos da população.
Propondo seu trabalho político-educacional consciente, o Ilê o faz através de seleção temática de dança, da gestualidade, de códigos de linguagem. Ele permeia a transmissão do passado da ancestralidade africana com o contexto histórico-social do negro em condição de escravo no Brasil, com o cotidiano presente do negro baiano, além de trabalhar o caráter universal da questão afrodescendente.
O Ilê retoma todas as formas expressadas na evolução dos movimentos de renascimento negro-africano, negro-americano ou afro-americano, as decodificações para o contexto específico da realidade baiana. Mas sem perder de vista a relação de identificação entre todos “os negros que se querem negros”, de qualquer parte do mundo, ressaltando sempre o caráter comum da origem ancestral.
A Diretoria do Ilê ainda hoje afirma que o principal objetivo da organização é a “expansão da cultura de origem africana no Brasil” e tem perseguido este objetivo de formas variadas. Além da presença marcante no carnaval, onde a temática, fantasia, canção e danças têm como referência exclusiva o negro.
Hildegard Angel, filha da estilista, fala da sua força criativa
MARCIA DISITZER
Rio - A entrevista com a jornalista Hildegard Angel sobre a mostra ‘Ocupação Zuzu’, aberta ontem, para o público, no Paço Imperial, é entremeada de palavras e lágrimas. Não é para menos. Nas salas centenárias do Paço, a trajetória de sua mãe coragem, Zuzu Angel, é exemplarmente contada. A exposição, idealizada e produzida pelo Itaú Cultural, tem como curadores o próprio instituto, Hilde, filha caçula da estilista, e Valdy Lopes. Impossível não se emocionar.
A jornalista Hildegard Angel, filha de Zuzu, posa entre as roupas da mãe: 'A exposição é uma ação bem feita, como Zuzu merece'
Foto: Fernando Souza/ Agência O Dia
Hilde fez da preservação a sua meta. Coube a ela a missão de manter vivas as memórias do irmão, Stuart Angel, militante do MR8, preso e assassinado em 1971 pela ditadura militar, e de sua mãe, a estilista Zuzu Angel, morta num acidente de carro, em 1976. Mais tarde, ficou comprovado que Zuzu também foi assassinada pelo regime militar. “Guardei roupas e manuscritos dela todos esses anos. Guardei para manter a chama de Stuart e da mamãe acesas. Essas chamas são a memória do Brasil”, diz a jornalista.
A mostra ‘Ocupação Zuzu’ revela em 400 itens — divididos em roupas, cartas, fotos, croquis, material gráfico, documentos e detalhes de estampas — a vida e a obra de Zuzu. Mineira de Curvelo, ela nasceu em 1921 e entrou para a história da moda brasileira de duas maneiras singulares. Na década de 60, Zuzu injetou brasilidade em suas roupas, numa época em que isso não era nada comum. Ela adicionou sem medo fitas, rendas nacionais e chitas às suas criações e passeou por temas regionais, como Lampião, Maria Bonita e festas de São João. “O Brasil não foi instrumento de uma estação. Mamãe se inspirava no Brasil assiduamente. Ela era o Brasil. Desafiou os paradigmas vigentes nas décadas de 60 e 70,
em que todos obedeciam o que vinha de fora. Zuzu ousou transgredir. E só começou a ser aceita no Brasil a partir do aplauso externo”, avalia Hildegard.
A estilista também transformou a moda em militância nos anos de chumbo. Na sua incansável busca pelo filho, Stuart, fez de suas coleções um grito, que ecoou no Brasil e no exterior. “Um dos vestidos do desfile-protesto em Nova York (em 1971, Zuzu apresentou coleção em que denunciava a truculência da ditadura militar, na casa do cônsul brasileiro) tem soldados bordados, ironizando a ditadura. Mas, ao mesmo tempo, é também um olhar terno para esses mesmos soldados”, analisa Hilde, que destaca a força criativa da mãe depois do desaparecimento de Stuart. “Ela era divertida mesmo no drama”.
Performace aos sábados e aos domingos
A Mostra ‘Ocupação Zuzu’ é dividida em quatro salas: a primeira é dedicada à família de Zuzu e às suas fontes de inspiração; a segunda mostra a força do Brasil nas criações da estilista; e a terceira e a quarta salas são focadas no famoso desfile-protesto em Nova York e no luto da estilista, que passou a se vestir de preto. “A história dela como empreendedora e criadora é também parte da história do Brasil”, ressalta Claudiney Ferreira, um dos curadores pelo Itaú Cultural.
No período da exposição, todo fim de semana, atrizes dirigidas pela estilista e consultora Karlla Girotto farão performances entre o público, lendo trechos de cartas de Zuzu. A mostra também conta com imagens em vídeo do desfile-protesto e entrevistas com a designer. O Paço Imperial fica na Praça 15, no Centro. A mostra está aberta de terça-feira a domingo, de meio-dia às 18h, até o dia 2 de novembro. De graça.
O país estava rachado, e os artistas estavam fazendo música, teatro e poesia brasileira com a alta qualidade que lhes é peculiar
Durante a ditadura os militares torturaram, física e psicologicamente, para desmoralizar suas vítimas. Sumiram com comunistas, com suspeitos de serem comunistas, montaram cenas falsas de suicídio para fotografar o cadáver que produziram. Ossadas amontoadas esperam até hoje suas identificações, e há documentos ainda secretos. Há documentos sobre a atual presidente, Dilma Rousseff, em um cofre. Sou a favor de que se libere tudo de uma vez, e logo. Primeiro porque o país tem o direito, e o dever, de conhecer sua história, por mais tenebrosos que sejam os capítulos. No mínimo para que nunca mais se repitam. Segundo, porque os documentos que estão liberados, revelando que os militares já monitoravam a vida dos cidadãos muito antes da internet e do Obama, estão literalmente mofando, carcomidos por fungos, em condições precárias no Arquivo Nacional, uma vergonha, considerando que a documentação foi considerada patrimônio da Humanidade, assim como os documentos do nazismo.
Às 18 horas do dia 31 de março de 1964 o presidente João Goulart conversava com o general Peri Bevilacqua, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. O encontro era no Palácio Laranjeiras, rebuscada joia em estilo renascentista francês plantada num tapete de Mata Atlântica no coração do Rio de Janeiro, e o tema era o mesmo tratado pelo visitante anterior, o senador e ex-presidente Juscelino Kubitschek: ainda dava tempo de salvar o governo. Se rompesse com a ala mais radical, que queria mudar as regras do jogo a poder de greves e insubordinações na base militar, havia uma chance de arrastar de volta as forças já desencadeadas. Na verdade, isso não era mais possível, e o bilhete que o presidente recebeu, no meio da conversa, de seu ministro da Justiça, Abelardo Jurema, era a confirmação definitiva. “General, o general Mourão revoltou a 4a Região Militar em Minas e exige a minha renúncia. O senhor acha isto direito?”, perguntou a Bevilacqua.
Em 15 de novembro de 1939, 50 anos após a quartelada que derrubou o Império, a primeira página do então principal jornal do país, O Estado de S.Paulo, não publicou uma única linha a respeito das cinco décadas da República proclamada pelo marechal Deodoro da Fonseca, em 1889. No Rio de Janeiro, a capital da República, a primeira página de O Globo estampou uma foto do ditador Getúlio Vargas num ato alusivo ao cinquentenário, com uma manchete anódina: “Honra aos ideaes de 1889”. Em outubro de 1980, mês do cinquentenário da revolução que pôs fim à República Velha, os editores de O Globo avaliaram que o assunto não merecia espaço em suas páginas. O Estadão publicou uma série de reportagens, com entrevistas de revolucionários de 1930 que continuavam vivos. Em 3 de outubro de 1980, a Folha de S. Paulo fez uma menção ao cinquentenário na primeira página, deu um editorial, um artigo na seção “Tendências e Debates” e promoveu um evento sobre a data. Nada transpirava polêmica.
Daniel Filho entrou nervoso no estúdio. Passavam poucos minutos das 10h, e aquele 27 de agosto de 1975 já havia lhe rendido uma enxaqueca. A dor de cabeça seria sua companheira durante meses. Daniel recebera de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a missão de dar a notícia ao elenco. Quanto antes contasse, melhor.
No set de gravação, um dos poucos de que a Globo dispunha em sua apertada sede na Rua Von Martius, no Jardim Botânico, os atores que estrelariam a principal aposta da emissora nos últimos anos se aprontavam para gravar. Logo mais, quando estreasse após o “Jornal Nacional’’, “Roque Santeiro” inauguraria na faixa das oito o jeito brasileiro de fazer novela, já consagrado nas tramas das dez. Seria o primeiro folhetim em cores com sotaques, gírias e trejeitos nacionais apresentado no mais nobre dos horários da TV. Mas foi sem pensar nisso que o diretor de 37 anos tomou coragem e encarou a equipe:
“A censura proibiu a estreia de ‘Roque’. Não estou deixando a direção, mas tenho que suspender a gravação. A emissora está brigando para tentar a liberação. Vamos conseguir”.
A proibição a "Roque santeiro" causou um prejuízo de quase R$ 1 milhão a emissora Foto: Peter Schneider / TV Globo
Não conseguiram. “Roque” se tornaria a segunda de três novelas proibidas na íntegra entre 1964 e 1985, durante a mais longa ditadura brasileira. Outras centenas de obras, em maior ou menor grau, também sofreram cortes, restrições ou tiveram que passar pelo crivo dos censores para serem exibidas.
Com a censura, não fui herói. Nem fui idiota
Daniel Filho
Após um trabalho de seis meses, que envolveu o levantamento de 2.227 páginas de documentos da ditadura em Brasília e no Rio e entrevistas com autores, atores, diretores e censores, o EXTRA publica a partir de hoje uma série de reportagens sobre a censura prévia às novelas brasileiras na ditadura. Vinte e cinco anos após o fim da prática no Brasil, extinta pela Constituição de 1988, e na semana em que se completam os 50 anos do golpe de 1964, o distanciamento histórico permite que memórias, testemunhos, documentos e situações sejam analisados, confrontados e nos mostrem como funcionava essa engrenagem.
Ela era afiada.
Naquele 27 de agosto, quando Daniel Filho dividiu com o elenco o que ocorria, uma guerra vinha sendo travada havia dias entre a Globo e a ditadura. O diretor geral da emissora na época, Walter Clark, viajara na semana anterior a Brasília para negociar a liberação da novela escrita por Dias Gomes, sem sucesso.
Censura aos costumes fez "Despedida de casado" ser proibida na íntegra
Intrigava a todos o fato de que a censura vinha, até ali, acenando com a autorização. Quatro documentos daquele ano, enviados à TV Globo e encontrados pelo EXTRA, reconstituem passo a passo a tensão daqueles dias. Dois deles mostram que, embora soubesse do enredo crítico de “Roque”, a ditadura chegou a permitir a exibição da novela às 20h.
O primeiro, de 16 de maio, é assinado por Rogério Nunes, diretor da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), o órgão do Ministério da Justiça encarregado de controlar as principais expressões artísticas no país. No ofício, Nunes pede os 20 capítulos iniciais, para que possa analisar com profundidade a obra, que, segundo ele, abordaria “problemas sociais da região nordestina, envolvendo diferentes classes”. O diretor admite ainda que o horário das 20h obrigaria a censura a ter “maior atenção e cuidado” com as cenas e os diálogos de “Roque”. Não se falou em proibição.
O outro documento é de 4 de julho, 54 dias antes da estreia, e autoriza a sinopse e os capítulos examinados. Ele determina apenas cortes modestos, limando uma cena de beijo e outra sequência em que um casal está deitado, insinuando uma relação sexual – algo inconcebível para a censura.
À medida que a estreia se aproximava, vinhetas na programação anunciavam “Roque” como a nova novela das oito. Mas o certificado de liberação não chegava.
No dia 20 de agosto, um terceiro ofício, estranhamente, negava a classificação para 20h e dizia que a obra trazia cenas “intoleráveis”. A emissora propôs trocar a novela de horário. “Roque” iria para as 22h, e “Gabriela”, para as 20h.
Ofício enviado pela censura na véspera da estreia negava a troca de horário de "Gabriela"
Mas um quarto documento, enviado na véspera da estreia, mostrou que “Gabriela” era considerada intragável para as 20h. As “festas comemorativas” da cafetina Maria Machadão, o “contato voluptuoso” do insaciável Mundinho Falcão, a “anomalia sexual” do homossexual Miss Pirangi, tudo afligia a censura. A troca foi proibida e o comunicado, em tom ameaçador e desta vez assinado pelo diretor da Polícia Federal, Moacyr Chaves, era duro: se exibisse “Roque”, caberia à “empresa assumir o risco de ver interrompida, a qualquer momento, a transmissão do programa”.
Ao ver este último ofício, o jornalista Roberto Marinho encomendou à direção de jornalismo da emissora um editorial, para ser lido por Cid Moreira no “Jornal Nacional”, cujo conteúdo denunciasse a censura. O plano só seria colocado em prática caso a operação para exibir “Roque” fracassasse.
Seria um desastre perder 30 capítulos prontos e seis em produção, fruto de 500 horas de gravação, além de 15 já escritos. Um investimento de 500 mil cruzeiros – o equivalente a R$ 980 mil em dinheiro atual. Até uma Asa Branca cenográfica fora erguida em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio.
Proibida na sinopse, "Pedreira das almas" foi vetada porque a censura temia associação com a resistência armada
Lima Duarte, que interpretaria Sinhozinho Malta, já estava em sua casa, no Rio, quando o “JN” começou. Em seu apartamento, Betty Faria, a Porcina, dividia-se entre ver o telejornal e os cuidados com João Daniel, seu filho com Daniel Filho. O marido estava com Dias Gomes, Boni e outros diretores da Globo na sala de Clark.
Havia censura desde sempre. Sabíamos lidar
Lima Duarte
Eles e outros milhões de brasileiros ouviram, no último bloco do “JN”, a voz grave de Cid ler o texto de 128 palavras, em quase dois minutos. Dizia que a censura prejudicava a elevação da qualidade da TV. Em seguida, foi exibida a vinheta de abertura preparada para “Roque”, como se a emissora fosse desobedecer a ditadura e lançar a novela. Mas Cid Moreira voltou e leu de novo o texto. Pela primeira vez, o arbítrio censor era exposto em rede nacional. Mas isso não amenizava as frustrações de Boni e Daniel. Enquanto subiam os créditos do telejornal, o superintendente de programação da TV Globo e seu principal diretor de novelas se abraçaram. Choraram.
Após a morte de Cecília, a censura preocupou-se em cortar qualquer indício do romance
O dia seguinte à leitura do editorial por Cid Moreira foi de trabalho. A emissora decidira produzir outra novela com o mesmo elenco. Boni e Daniel convocaram Janete Clair. Seu marido, Dias Gomes, estava destroçado com a censura a “Roque”. Três meses depois, estreava “Pecado capital”, assinada por Janete e dirigida por Daniel.
Lima deixou o Sinhozinho Malta e se tornou o empresário Salviano Lisboa. Em vez de Roque, Francisco Cuoco era o motorista de táxi Carlão. Betty Faria abandonou Porcina e se transformou na operária Lucinha. Em meio a um triângulo amoroso, a obra falava de ética, honestidade e violência urbana. Ambientada nas esquinas do Méier, na Zona Norte do Rio, com externas gravadas nos trens e samba cantado por Paulinho da Viola, “Pecado capital” estreou às 20h. Ainda não era “Roque”. Mas o Brasil estreava no horário nobre.
A censura havia descoberto que a novela era uma adaptação para a TV de “O berço do herói”, uma peça de Dias Gomes proibida em 1965. Ao grampear o telefone do historiador Nelson Werneck Sodré, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) flagrou uma conversa entre ele e o autor, em que Dias Gomes gabava-se de que enganaria os “milicos”. Irritado, o governo determinou a proibição.
Talvez pelo enorme sucesso que a segunda versão alcançou em 1985, a censura a “Roque” foi a mais traumática para a televisão brasileira. Mas existiram outras duas novelas proibidas, “Pedreira das almas” e “Despedida de casado”.
A primeira, adaptação de uma peça do autor Jorge de Andrade, sequer saiu do papel. Um dos pareceres de proibição à sinopse, em 1974, dizia que o protagonista, um rebelde das Minas Gerais de 1842, poderia ser associado a um guerrilheiro. A outra, de Walter George Durst, chegou a ter capítulos gravados e tratava da separação de casais. Teria sido o lançamento do par romântico Regina Duarte e Antonio Fagundes. Mas, para a censura, falar do tema em 1977, o ano em que o Brasil debatia a Lei do Divórcio, seria jogar gasolina num incêndio.
A censura atentava contra o chamado Padrão Globo de Qualidade?
Não. De certa forma, a censura naquele momento fez com que a televisão se organizasse, porque eu tinha que ter um capítulo 40 dias antes. Tinha que escrever o capítulo, mandá-lo para a censura, e ainda gravá-lo simultaneamente. Depois que voltava, nós tínhamos que regravar, acertar e editar. Tínhamos que entregar os capítulos prontos 20 dias antes de ir ao ar.
A censura sempre foi um jogo de gato e rato. Era mais ou menos como um xadrez, em que nós tínhamos mais habilidade, mas eles tinham a possibilidade de mudar a regra do jogo a qualquer momento. Eu os ameaçava. “Todas as vezes que vocês aumentam o poder da censura, nós vamos fazer uma televisão de pior qualidade”. Era esse o nome do jogo.
Se pudesse, a censura colocaria um revólver na nossa nuca
Boni
E funcionava?
Era difícil, porque era o “me engana que eu gosto”. Nós tínhamos que fazer cartas aceitando parte das coisas que eles impunham. Às vezes, éramos mais agressivos e atribuíamos a culpa a eles, aos funcionários deles. Imaginamos que o caminho era enganá-los. Às vezes, nós resistíamos, às vezes, tínhamos que aceitar mexer em alguma coisa. Como eles não tinham muita habilidade, deixávamos mexerem no que comprometia menos. Eu tinha aquele papel de prometer que nós íamos fazer uma coisa que depois nós não faríamos.
Naquele tempo, era importante uma coisa: nós não queríamos que transparecesse para o público que nós estávamos sendo censurados, porque o produto perderia a credibilidade; e eles não queriam que parecesse que censuravam. Além da preocupação de fazer um bom produto, de construir um padrão de qualidade, tínhamos o objetivo de vencer a censura.
As idas a Brasília de executivos, diretores e autores eram frequentes, na tentativa de reverter cortes que prejudicassem a obra. Mesmo quando punidas, as emissoras mantinham uma postura conciliatória, em busca de mais liberdade. Em “Mulheres de areia”, de 1973, a Tupi enviou Ivani Ribeiro para negociar com os censores os cortes. Janete Clair e Lauro César Muniz fizeram isso diversas vezes pela Globo.
A rebeldia era rara, mas existia. Ofícios mostram os censores reclamando da diferença entre as cenas escritas e as gravadas. Dias Gomes e outros autores reproduziram na TV uma prática do teatro e salpicavam palavrões de propósito nos textos, para que isso chamasse a atenção dos censores e desviasse a atenção para críticas políticas.
– Quando a gente queria dizer alguma coisa mais significativa, largava um “merda” e um “porra”, porque eles ficavam muito preocupados com isso e não censuravam o que a gente queria dizer – descreveu o ator José Wilker.
A TV Tupi protestou contra cortes no texto de "Mulheres de areia", que mutilariam a obra de Ivani Ribeiro
Mensagens subliminares também eram empregadas. Boni orgulha-se de ter conseguido durante meses tocar na abertura de “O Bem-Amado” a música “Paiol de pólvora”. Ele entendia que Toquinho fazia uma alusão à ditadura ao cantar o verso “estamos trancados no paiol de pólvora”.
Lima Duarte tentou fazer uma crítica ao arbítrio em seu Salviano Lisboa, o empresário autoritário de “Pecado capital”. Numa festa de aniversário organizada pelos empregados, Salviano saldou a todos levantando o braço e inclinando a mão para trás, como fazia Adolf Hitler.
Em carta, Boni defendeu Lucinha, personagem de Betty Faria em "Pecado capital"
Custava caro ser censurado. Do ponto de vista econômico, poderia ser fatal, sem contar o impacto que um atraso na aprovação do capítulo poderia ter no cronograma de gravações e de exibição. Faltava estrutura à DCDP para dar conta de tantos capítulos, e o ritmo de evolução tecnológica da Globo era mais rápido. De certa forma, explicou Boni, a censura ajudava a emissora a se organizar.
Em "Escrava Isaura", escrita por Gilberto Braga, a DCDP queria feitores menos agressivos Foto: TV Globo / Cedoc
Existia censura à cultura no Brasil desde o Império. Teatro, música, livros, cinema. Segundo documentos da DCDP, foi com “Quem casa com Maria?”, de 1965, que o órgão deu início aos trabalhos. Mas Lima Duarte lembra que a primeira novela brasileira, “Sua vida me pertence”, exibida pela TV Tupi em 1951, teve o beijo do capítulo final censurado. Virou um simples selinho.
Todo corte era político, mas prevalecia a censura aos costumes, àquilo que, para os censores, atentava contra a ordem, a moral e os bons modos. Embora até isso tivesse um pano de fundo político, o entendimento era de que a destruição de tradicionais valores morais e familiares seria o primeiro passo para a instalação do comunismo no Brasil. Os pareceres levantados pelo EXTRA mostram que havia diretrizes bem definidas. Coerentes com o que a ditadura acreditava – e temia.
Cada passo de Pedro Azulão, personagem de Juca de Oliveira em "Fogo sobre terra", devia ser avisado
A censura defendia o casamento. Só se casava por amor, separações eram inaceitáveis, sexo só depois do “sim”. Bigamia ou traições eram cortadas. Na primeira versão de “Selva de pedra”, em 1972, Janete Clair fez Francisco Cuoco largar Dina Sfat na porta da igreja por imposição dos censores. Regina Duarte, a primeira mulher do personagem de Cuoco, fingia-se de morta para todos na trama. Mas Dina e Cuoco não poderiam se casar, aos olhos da DCDP, porque isso seria bigamia. Janete chegou a argumentar que nenhum personagem sabia que Regina estava viva. E daí? A navalha levou ao pé da letra: o público sabia.
A censura era contra sexo sem compromisso. Em “Duas vidas”, de 1977, a mesma Janete foi alertada de que não poderia “explorar o namoro de personagens descompromissados”, pois isso iria mostrar “de forma clara ou camuflada que eles praticam o ato sexual”. O problema é que a novela era cheia de situações desse tipo. A viúva Leda Maria, interpretada por Betty Faria, tinha um caso com Dino, vivido por Mário Gomes. Maurício (Stephan Nercessian) traía a noiva Juliana (a estreante Christiane Torloni) com Sônia (Isabel Ribeiro), em cenas que insinuavam que os dois transavam. Mas sexo não era coisa de novela, e Janete teve que casar Maurício e Sônia.
Não sou de lutar, tentava obedecer para não me chatear
Gilberto Braga
A censura vetava homossexuais. Houve cortes a personagens gays ou com trejeitos afeminados em pelo menos cinco novelas. Em 1977, um censor avisava que “situações de homossexualismo” poderiam prejudicar a aprovação de capítulos de “O astro”, de Janete Clair. Nos últimos suspiros da Divisão, em julho de 1988, Raimundo Mesquita, o último chefe da repartição, disse à revista “Veja” ter cortado uma cena de “Vale tudo” para “proteger as crianças”. A cena em questão fazia uma alusão à relação lésbica das personagens interpretadas pelas atrizes Lala Deheizelin (Cecília) e Cristina Prochaska (Laís). Em diversos pareceres, os censores expuseram a preocupação com o romance das duas.
A censura não queria que se abordasse o racismo. Mostrar que havia preconceito no Brasil significava à DCDP incitar a discriminação. Retalhada da sinopse ao desfecho, “O homem que deve morrer”, lançada por Janete Clair em 1971, incomodou por apresentar uma briga entre um operário branco e um negro. Cinco anos depois, em “Escrava Isaura”, de Gilberto Braga, os censores mandaram que fosse atenuada a agressividade dos feitores com os escravos.
A censura protegia militares e policiais. Em 1973, implicaram com a menção a patentes em “O Bem Amado”. Zeca Diabo quase deixa de ser capitão, e Odorico, coronel. Em “Bandeira 2”, Dias Gomes foi advertido logo no início da trama a cortar as planejadas cenas de policiais torturando.
Na novela "O bem amado", censores implicaram com as patentes: Zeca Diabo quase deixa de ser capitão, e Odorico, coronel Foto: Divulgação
A censura preservava a Igreja Católica. Qualquer comportamento negativo do clero era vetado. Em 1972, padres retratados como gananciosos em “O bofe” foram limados. O celibato era sagrado. Outras religiões, para eles, nem sempre. A Tupi foi orientada a cortar um casamento feito na umbanda, em “Tic-tac”, de 1978.
A censura queria que o telespectador visse o mundo com óculos cor-de-rosa. Vilões tinham que ser punidos sempre, o bem devia prevalecer sobre o mal e toda novela tinha que passar uma lição de moral. Ao analisar a sinopse de “Espelho mágico”, de 1977, um censor chegou a recomendar que a obra não fosse liberada, por falar de “intrigas, inveja, cobiça, injúrias, vinganças”, o que seria “demais adulta, perigosa e inadequada” para a TV. Seus colegas foram menos rígidos, e o texto, atenuado, foi ao ar.
A censura às vezes não tinha lógica. Um close em Zilka Salaberry em “Supermanoela”, de 1974, foi cortado porque o censor não gostou do que a personagem estava pensando naquele momento. Palavras e expressões inocentes eram riscadas. Em “Locomotivas”, escrita por Cassiano Gabus Mendes em 1977, Boni teve que pedir a liberação da expressão “fazer pipi”, lembrando que era a forma ensinada por “nossas mamães” desde a “mais tenra idade”, para “pedir licença para ir ao banheiro na frente de visitas”. Em 1975, uma fala de “Escalada”, de Lauro César Muniz, abriu uma crise na DCDP. As censoras tiveram que justificar a seus superiores por que haviam deixado ir ao ar um personagem dizendo que queria “fazer cocô”, expressão de “abominável mau gosto”.
Em “Cavalo de aço”, de 1973 e escrita por Walther Negrão, Daniel Filho quis saber por que uma censora sempre cortava as cenas do personagem Lucas, interpretado por Edson de França. Descobriu que era por um motivo singular. O filho da censora, excepcional, agitava-se ao ver o ator.
Em 64 a repressão desarticulou o sistema político, perseguiu a esquerda,
investiu contra os sindicatos, mas deixou funcionando uma vida universitária e
artística que era majoritariamente oposta ao regime
É sabido, embora muitas vezes esquecido e confundido, que depois do golpe
militar de 1964, e até o AI-5, no final de 1968, viveu-se no Brasil um período
de exuberante cultura pública. Em 64 a repressão desarticulou o sistema
político, perseguiu a esquerda, investiu contra os sindicatos, as organizações
operárias, mas deixou funcionando uma vida universitária e artística que, de
modo contraditório, era majoritariamente oposta ao regime. A rotina da censura
prévia só se instalou a partir de 1969. Antes disso aconteceram os festivais da
canção, o show “Opinião”, o Teatro Oficina, o Arena, o Tuca, o cinema novo, o
tropicalismo. A garotada da classe média formada na escola pública durante o
intervalo democrático de 45 a 64 tinha o que dizer ao Brasil, do Brasil, e
encontrou espaços para isso.
Talvez tenha sido um dia depois do golpe. É difícil precisar. Afinal, até
hoje ninguém sabe direito em que dia aconteceu o golpe. Sempre soube que foi no
dia Primeiro de Abril, mas que, ao contar a história, os militares o anteciparam
para o dia 31 de março para que não coincidisse com o Dia da Mentira. Leio
agora, entre as muitas reportagens que marcam o 50º aniversário do fato, que foi
na madrugada de 2 de abril. Então deve ter sido no dia 3 de abril de 1964, uma
sexta-feira, primeiro dia de aula depois do golpe. Quando entrei na sala do
colégio em que estudava em São Paulo, estava lá, com letra bonita, toda
redondinha, escrito no quadro-negro: “Para uma fortaleza vermelha, só mesmo um
Castello Branco.”
A frase nunca fez sentido. O medo de uma “fortaleza
vermelha” foi justamente o que justificou o golpe que levou Castello Branco ao
poder. Por isso, nunca achei que ela tinha sido escrita por um dos irmãos
maristas que nos davam aula. Aquela bobagem só poderia ter sido de autoria de
algum colega de classe. Alguém que tivesse 12, no máximo 14 anos e estava ali
cursando o segundo ano ginasial. Alguém que confiava em trocadilho mesmo que ele
não fizesse sentido político. O irmão que entrou conosco na sala para a primeira
aula da manhã mandou alguém apagar rapidamente o quadro-negro. Foi apagado. Mas
não da minha memória. Ainda hoje, quando me lembro do golpe, dos primeiros dias
do golpe, o que me vem à cabeça é aquela sentença desconexa: “Para uma fortaleza
vermelha, somente um Castello Branco.”
Na semana seguinte, começou a
crise lá em casa. Deixa eu explicar: meu pai era oficial do Exército. Era um
tenente-coronel. Não era o que se chamava naqueles tempos de um revolucionário.
Ou golpista. Mas era um militar. Respeitava hierarquia. Então, respeitava o que
chamávamos naqueles tempos de Revolução. Minha mãe, de alguma maneira, sentia-se
ligada a Jango. Uma de suas irmãs, a Dinda, trabalhava com Maria Teresa Goulart.
Minha mãe foi antirrevolucionária de primeira hora. De algum lugar, fez saltar
uma veia jornalística e passou a escrever, madrugadas adentro, em folhas de
papel almaço, artigos contra os militares. Ela os mostrava para meu pai que
ficava irritado. Não ficava bem uma mulher de militar expor assim seu pensamento
contra a Revolução. Ela resolveu a parada assinando os artigos com um
pseudônimo, Madame X, e continuou varando as madrugadas escrevendo, escrevendo,
escrevendo e aguardando a volta triunfal de Jango e Brizola. O plano era enviar
os textos a algum jornal que já estivesse na oposição. Aqueles artigos nunca
foram enviados para jornal algum. De manhã, ela os rasgava, insatisfeita com o
resultado, e começa a escrever de novo. Eu tentava fugir das brigas indo ao
cinema. Naquela semana, vi “Sherlock de saias”, no cine Jamor, logo ali no
Jabaquara, com Margareth Rutheford interpretando a miss Marple de Agatha
Christie.
A crise passou rápido. Minha mãe abandonou o talento de
articulista político, meu pai voltou à hierarquia e íamos vivendo em paz até que
o Golpe me mandou para a Avenida Atlântica. Já disse que minha tia trabalhava
com a primeira-dama? Pois então, como acreditava que seu exílio seria rápido,
Jango pediu para a Dinda cuidar do apartamento que ele mantinha na Avenida
Atlântica. E lá fui eu, durante minhas férias escolares, exilar-me no Edifício
Chopin. Tecnicamente, não era o Chopin. Era um dos outros dois prédios anexos ao
famoso edifício das festas de réveillon. Um se chama Prelúdio; o outro, Balada.
Acho que o apartamento do Jango ficava no Prelúdio, com vista para a piscina do
Copacabana Palace. Não me lembro de muitos resquícios de Jango e Maria Teresa no
lugar. Dela, havia um massageador, eletrodoméstico das dondocas da época que
caiu em desuso, no quarto principal. Dele, uma biblioteca vistosa. Nunca vi
ninguém lendo livro algum daquela biblioteca. Acho que era só decorativa.
Daquelas bibliotecas que só têm lombadas, sabe? Isso durou dois ou três anos.
Depois, quando Jango percebeu que sua temporada no Uruguai seria bem mais longa
do que previa, um cunhado dele _ não, não era o Brizola, era o irmão de Maria
Teresa _ pediu o apartamento de volta. E assim acabou nosso exílio na classe
alta.
Pouco tempo depois, testemunhei minha tia recebendo um telefonema
do irmão de Maria Teresa. Ele tinha dado por falta de algumas toalhas de banho
no apartamento do ex-presidente. A Dinda mandou o cunhado presidencial à merda,
e nunca mais tive contato com os Goulart. Para mim, a ditadura risonha e franca
acabou ali. Em seguida, a barra pesou. Uma prima querida que vivia na
clandestinidade foi presa, entrei em conflito com alguns militares da família
e... bem, mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez.