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domingo, 23 de agosto de 2015

Te Contei, não ? - " O dia em que papai não voltou " - Marcelo Rubens Paiva - Revista Época

As memórias do desaparecimento do pai na ditadura militar estão no novo livro de Marcelo Rubens Paiva, 'Ainda estou aqui', da editora Objetiva. Marcelo e duas irmãs relatam a ÉPOCA o feriado mais triste da infância deles

MARCELO, VERA E ELIANA PAIVA EM DEPOIMENTO A ALINE RIBEIRO

domingo, 16 de agosto de 2015

domingo, 12 de julho de 2015

Te Contei, não ? - Zuzu, minha mãe



Para marcar os 40 anos da morte da estilista, a colunista Hildegard Angel prepara uma peça teatral que começou a ser escrita durante a ditadura militar sobre sua trágica histórica familiar
Eliane Lobato (elianelobato@istoe.com.br)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Crônica do Dia - Leila para sempre Diniz - Jaguar

A atriz chocava os moralistas de plantão com frases do tipo 'Você pode muito bem gostar de uma pessoa e ir para a cama com outra'

O DIA
Rio - O verso de Drummond está na lápide de Leila Diniz no São João Batista. Levei um baita susto quando li no jornal que no próximo dia 25 ela faria 70 anos. Eu a conheci em 1960, quando tinha 15 anos, e eu, 28; já dizia palavrões de um jeito tão bonitinho que os privilegiados marmanjos e garçons do Mau Cheiro (também chamado de Morte Lenta) achavam isso muito natural, como na letra de ‘Desafinado’. Ela e suas amigas, Ira Etz, Ana Maria Saraiva, Ionita e Aninha Magalhães, trocavam, escondidas dos pais, o maiô pelo biquíni no banheiro do bar. Depois disso, o até então provinciano bairro de Ipanema nunca mais foi o mesmo. Liam, ou fingiam ler, ‘A Náusea’, de Sartre. A música de fundo era de Juliette Greco. O barquinho de Menescal e Bôscoli deslizava no macio azul do mar enquanto algumas tinham crises existenciais se dourando ao sol do Arpoador. Leila com certeza não, ela era uma mulher solar, não me lembro quem disse.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Te Contei, não ? - Título da Beija - Flor pode virar CPI

Título da Beija-Flor pode virar CPI

Polêmica sobre doações pode fazer escola da Baixada voltar às discussões da Câmara dos Vereadores

LEANDRO RESENDE

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Te Contei, não ? - Ilê Aiyê ( Mundo, Planeta Terra )

Ilê Pérola Negra

Daniela Mercury

O canto do negro veio lá do alto
É belo como a íris dos olhos de Deus, de Deus
E no repique, no batuque, no choque do aço
Eu quero penetrar no laço afro que é meu, e seu
Vem cantar meu povo, vem cantar você
Bate os pés no chão moçada
E diz que é do ilê a yê
Lá vem a negrada que faz o astral da avenida
Mas que coisa tão linda, quando ela passa me faz chorar 
Tú és o mais belo dos belos, traz paz, riqueza
Tens o brilho tão forte por isso te chamo de pérola negra 
Êêê, pérola negra
Pérola negra ilê a yê, ilê a yê
Minha pérola negra 
Lá vem a negra que faz o astral da avenida...
Com sutileza cantando e encantando a nação
Batendo bem forte cada coração
Fazendo subir a minha adrenalina
Como dizia Buziga
É de mim
Em me pé nagô de ilê
É de mim
Em me pé nagô de ilê a yê
Êêê, pérola negra...


Ilê Aiyê: No fim dos anos de chumbo, nasce a esperança. Em 1974, em plena ditadura militar, nasce o bloco afro Ilê Aiyê, a formação que leva os sons e ritmos do bairro da Liberdade, Salvador, para o mundo. A fundação no meio da ditadura militar é prova da coragem, da inteligência e da força que emana da cultura baiana. O bloco Ilê Aiyê, mostrando a beleza da música negra, sempre seguiu o objetivo artístico-estético de superar o racismo e os preconceitos. Imediatamente depois do governo Médici, em 1974, projetos dessa natureza ainda corriam risco de serem censurados. A cultura, em 1974, era também uma expressão política. Embora o Ilê Aiyê seja um movimento artístico, musical e cultural negro, qualquer manifestação cultural, nesses anos, corria o risco de ser considerada agitação politica. Assim se entende a consciência política que o Ilê Aiyê vem cultivando desde o início.

Hoje, o bloco Ilê Aiyê conta com os melhores patrocinadores. Mais que 35 anos depois da fundação,  o Ilê Aiyê hoje conta com o apoio da Petrobras, da Eletrobras e do BNDES, através do patrocínio do centro "Senzala do Barro Preto" ou de turnês. Já receberam subsídios pela Lei Rouanet. O centro cultural é sede do grupo que desenvolve projetos de Carnaval, de Cultura e educação para preservar e elevar a cultura e a auto-estima dos negros brasileiros e de todos que apreciam esse trabalho artístico. No centro cultural "Senzala do Barro Preto" há uma escola, vários gabinetes médicos, salas de auditório, informática e gravação. O centro, de 2004, foi fundado na antiga sede do Ilê Aiyê. Hoje em dia, os eventos do Ilê Aiyê estão abertos para a população geral, independentemente da raça ou cor.  

O Ilê Aiyê, primeiro bloco afro da Brasil, nasceu no Curuzu, Liberdade, bairro de maior população negra do país, com aproximadamente 600 mil habitantes. Fundado em 1º de novembro de 1974, com o objetivo de preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira. O Ilê, ao longo de sua trajetória, vem homenageando países africanas e revoltas negras brasileiras, que contribuíram fortemente para o processo de identidade étnica e auto-estima do negro. O Mais Belo dos Belos apropriou-se popularmente da história africana para trabalhar a construção da história do negro no Brasil.

Com certeza o movimento rítmico musical inventado na década de 70 pelo Ilê Aiyê, foi responsável pela revolução do carnaval baiano. A partir desse movimento, a musicalidade do carnaval da Bahia ganha novos ritmos oriundos da tradição africana. Com seus 3 mil associados, o Ilê hoje é patrimônio da cultura baiana, um marco no processo de reafricanização do Carnaval da Bahia.

O espetáculo rítmico-musical e plástico que o bloco mostra no Carnaval arranca aplausos da população.

Propondo seu trabalho político-educacional consciente, o Ilê o faz através de seleção temática de dança, da gestualidade, de códigos de linguagem. Ele permeia a transmissão do passado da ancestralidade africana com o contexto histórico-social do negro em condição de escravo no Brasil, com o cotidiano presente do negro baiano, além de trabalhar o caráter universal da questão afrodescendente.

O Ilê retoma todas as formas expressadas na evolução dos movimentos de renascimento negro-africano, negro-americano ou afro-americano, as decodificações para o contexto específico da realidade baiana. Mas sem perder de vista a relação de identificação entre todos “os negros que se querem negros”, de qualquer parte do mundo, ressaltando sempre o caráter comum da origem ancestral.

A Diretoria do Ilê ainda hoje afirma que o principal objetivo da organização é a “expansão da cultura de origem africana no Brasil” e tem perseguido este objetivo de formas variadas. Além da presença marcante no carnaval, onde a temática, fantasia, canção e danças têm como referência exclusiva o negro.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Te Contei, não ? - Mostra 'Ocupação Zuzu' chega ao Rio


Hildegard Angel, filha da estilista, fala da sua força criativa

MARCIA DISITZER
Rio - A entrevista com a jornalista Hildegard Angel sobre a mostra ‘Ocupação Zuzu’, aberta ontem, para o público, no Paço Imperial, é entremeada de palavras e lágrimas. Não é para menos. Nas salas centenárias do Paço, a trajetória de sua mãe coragem, Zuzu Angel, é exemplarmente contada. A exposição, idealizada e produzida pelo Itaú Cultural, tem como curadores o próprio instituto, Hilde, filha caçula da estilista, e Valdy Lopes. Impossível não se emocionar.
A jornalista Hildegard Angel, filha de Zuzu, posa entre as roupas da mãe: 'A exposição é uma ação bem feita, como Zuzu merece'
Foto:  Fernando Souza/ Agência O Dia
Hilde fez da preservação a sua meta. Coube a ela a missão de manter vivas as memórias do irmão, Stuart Angel, militante do MR8, preso e assassinado em 1971 pela ditadura militar, e de sua mãe, a estilista Zuzu Angel, morta num acidente de carro, em 1976. Mais tarde, ficou comprovado que Zuzu também foi assassinada pelo regime militar. “Guardei roupas e manuscritos dela todos esses anos. Guardei para manter a chama de Stuart e da mamãe acesas. Essas chamas são a memória do Brasil”, diz a jornalista.
A mostra ‘Ocupação Zuzu’ revela em 400 itens — divididos em roupas, cartas, fotos, croquis, material gráfico, documentos e detalhes de estampas — a vida e a obra de Zuzu. Mineira de Curvelo, ela nasceu em 1921 e entrou para a história da moda brasileira de duas maneiras singulares. Na década de 60, Zuzu injetou brasilidade em suas roupas, numa época em que isso não era nada comum. Ela adicionou sem medo fitas, rendas nacionais e chitas às suas criações e passeou por temas regionais, como Lampião, Maria Bonita e festas de São João. “O Brasil não foi instrumento de uma estação. Mamãe se inspirava no Brasil assiduamente. Ela era o Brasil. Desafiou os paradigmas vigentes nas décadas de 60 e 70, 
em que todos obedeciam o que vinha de fora. Zuzu ousou transgredir. E só começou a ser aceita no Brasil a partir do aplauso externo”, avalia Hildegard.

A estilista também transformou a moda em militância nos anos de chumbo. Na sua incansável busca pelo filho, Stuart, fez de suas coleções um grito, que ecoou no Brasil e no exterior. “Um dos vestidos do desfile-protesto em Nova York (em 1971, Zuzu apresentou coleção em que denunciava a truculência da ditadura militar, na casa do cônsul brasileiro) tem soldados bordados, ironizando a ditadura. Mas, ao mesmo tempo, é também um olhar terno para esses mesmos soldados”, analisa Hilde, que destaca a força criativa da mãe depois do desaparecimento de Stuart. “Ela era divertida mesmo no drama”.
Performace aos sábados e aos domingos
A Mostra ‘Ocupação Zuzu’ é dividida em quatro salas: a primeira é dedicada à família de Zuzu e às suas fontes de inspiração; a segunda mostra a força do Brasil nas criações da estilista; e a terceira e a quarta salas são focadas no famoso desfile-protesto em Nova York e no luto da estilista, que passou a se vestir de preto. “A história dela como empreendedora e criadora é também parte da história do Brasil”, ressalta Claudiney Ferreira, um dos curadores pelo Itaú Cultural.
No período da exposição, todo fim de semana, atrizes dirigidas pela estilista e consultora Karlla Girotto farão performances entre o público, lendo trechos de cartas de Zuzu. A mostra também conta com imagens em vídeo do desfile-protesto e entrevistas com a designer. O Paço Imperial fica na Praça 15, no Centro. A mostra está aberta de terça-feira a domingo, de meio-dia às 18h, até o dia 2 de novembro. De graça.

Te Contei, não ? - Ilha Grande - Memórias do cárcere


Velho barco que transportava presos políticos e criminosos lendários vai virar peça de museu. Cessão só depende do estado

ROSAYNE MACEDO

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Crônica do Dia - A verdade dói - Adriana Calcanhoto

O país estava rachado, e os artistas estavam fazendo música, teatro e poesia brasileira com a alta qualidade que lhes é peculiar



Durante a ditadura os militares torturaram, física e psicologicamente, para desmoralizar suas vítimas. Sumiram com comunistas, com suspeitos de serem comunistas, montaram cenas falsas de suicídio para fotografar o cadáver que produziram. Ossadas amontoadas esperam até hoje suas identificações, e há documentos ainda secretos. Há documentos sobre a atual presidente, Dilma Rousseff, em um cofre. Sou a favor de que se libere tudo de uma vez, e logo. Primeiro porque o país tem o direito, e o dever, de conhecer sua história, por mais tenebrosos que sejam os capítulos. No mínimo para que nunca mais se repitam. Segundo, porque os documentos que estão liberados, revelando que os militares já monitoravam a vida dos cidadãos muito antes da internet e do Obama, estão literalmente mofando, carcomidos por fungos, em condições precárias no Arquivo Nacional, uma vergonha, considerando que a documentação foi considerada patrimônio da Humanidade, assim como os documentos do nazismo.

domingo, 15 de junho de 2014

Te Contei, não ? - 50 anos depois

Publicado na edição impressa de VEJA
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Às 18 horas do dia 31 de março de 1964 o presidente João Goulart conversava com o general Peri Bevilacqua, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. O encontro era no Palácio Laranjeiras, rebuscada joia em estilo renascentista francês plantada num tapete de Mata Atlântica no coração do Rio de Janeiro, e o tema era o mesmo tratado pelo visitante anterior, o senador e ex-presidente Juscelino Kubitschek: ainda dava tempo de salvar o governo. Se rompesse com a ala mais radical, que queria mudar as regras do jogo a poder de greves e insubordinações na base militar, havia uma chance de arrastar de volta as forças já desencadeadas. Na verdade, isso não era mais possível, e o bilhete que o presidente recebeu, no meio da conversa, de seu ministro da Justiça, Abelardo Jurema, era a confirmação definitiva. “General, o general Mourão revoltou a 4a Região Militar em Minas e exige a minha renúncia. O senhor acha isto direito?”, perguntou a Bevilacqua.

Te Contei, não ? - 1964 - O ano que não terminou

Em 15 de novembro de 1939, 50 anos após a quartelada que derrubou o Império, a primeira página do então principal jornal do país, O Estado de S.Paulo, não publicou uma única linha a respeito das cinco décadas da República proclamada pelo marechal Deodoro da Fonseca, em 1889. No Rio de Janeiro, a capital da República, a primeira página de O Globo estampou uma foto do ditador Getúlio Vargas num ato alusivo ao cinquentenário, com uma manchete anódina: “Honra aos ideaes de 1889”. Em outubro de 1980, mês do cinquentenário da revolução que pôs fim à República Velha, os editores de O Globo avaliaram que o assunto não merecia espaço em suas páginas. O Estadão publicou uma série de reportagens, com entrevistas de revolucionários de 1930 que continuavam vivos. Em 3 de outubro de 1980, a Folha de S. Paulo fez uma menção ao cinquentenário na primeira página, deu um editorial, um artigo na seção “Tendências e Debates” e promoveu um evento sobre a data. Nada transpirava polêmica.

sábado, 14 de junho de 2014

Te Contei,n ão ? - 13 questões sobre a Ditadura no Brasil

13 questões sobre a ditadura no Brasil
As controvérsias em torno de um golpe dado em nome da democracia - que gerou um regime autoritário de mais de 20 anos

Da Redação/ Revista Época

Te Contei, não ? - Capítulos proibidos

Daniel Filho entrou nervoso no estúdio. Passavam poucos minutos das 10h, e aquele 27 de agosto de 1975 já havia lhe rendido uma enxaqueca. A dor de cabeça seria sua companheira durante meses. Daniel recebera de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a missão de dar a notícia ao elenco. Quanto antes contasse, melhor.
No set de gravação, um dos poucos de que a Globo dispunha em sua apertada sede na Rua Von Martius, no Jardim Botânico, os atores que estrelariam a principal aposta da emissora nos últimos anos se aprontavam para gravar. Logo mais, quando estreasse após o “Jornal Nacional’’, “Roque Santeiro” inauguraria na faixa das oito o jeito brasileiro de fazer novela, já consagrado nas tramas das dez. Seria o primeiro folhetim em cores com sotaques, gírias e trejeitos nacionais apresentado no mais nobre dos horários da TV. Mas foi sem pensar nisso que o diretor de 37 anos tomou coragem e encarou a equipe:
“A censura proibiu a estreia de ‘Roque’. Não estou deixando a direção, mas tenho que suspender a gravação. A emissora está brigando para tentar a liberação. Vamos conseguir”.
A proibição a "Roque santeiro" causou um prejuízo de quase R$ 1 milhão a emissora Foto: Peter Schneider / TV Globo
Não conseguiram. “Roque” se tornaria a segunda de três novelas proibidas na íntegra entre 1964 e 1985, durante a mais longa ditadura brasileira. Outras centenas de obras, em maior ou menor grau, também sofreram cortes, restrições ou tiveram que passar pelo crivo dos censores para serem exibidas.
Com a censura, não fui herói. Nem fui idiota
Daniel Filho
Após um trabalho de seis meses, que envolveu o levantamento de 2.227 páginas de documentos da ditadura em Brasília e no Rio e entrevistas com autores, atores, diretores e censores, o EXTRA publica a partir de hoje uma série de reportagens sobre a censura prévia às novelas brasileiras na ditadura. Vinte e cinco anos após o fim da prática no Brasil, extinta pela Constituição de 1988, e na semana em que se completam os 50 anos do golpe de 1964, o distanciamento histórico permite que memórias, testemunhos, documentos e situações sejam analisados, confrontados e nos mostrem como funcionava essa engrenagem.
Ela era afiada.
Naquele 27 de agosto, quando Daniel Filho dividiu com o elenco o que ocorria, uma guerra vinha sendo travada havia dias entre a Globo e a ditadura. O diretor geral da emissora na época, Walter Clark, viajara na semana anterior a Brasília para negociar a liberação da novela escrita por Dias Gomes, sem sucesso.
Censura aos costumes fez
Censura aos costumes fez "Despedida de casado" ser proibida na íntegra
Intrigava a todos o fato de que a censura vinha, até ali, acenando com a autorização. Quatro documentos daquele ano, enviados à TV Globo e encontrados pelo EXTRA, reconstituem passo a passo a tensão daqueles dias. Dois deles mostram que, embora soubesse do enredo crítico de “Roque”, a ditadura chegou a permitir a exibição da novela às 20h.
O primeiro, de 16 de maio, é assinado por Rogério Nunes, diretor da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), o órgão do Ministério da Justiça encarregado de controlar as principais expressões artísticas no país. No ofício, Nunes pede os 20 capítulos iniciais, para que possa analisar com profundidade a obra, que, segundo ele, abordaria “problemas sociais da região nordestina, envolvendo diferentes classes”. O diretor admite ainda que o horário das 20h obrigaria a censura a ter “maior atenção e cuidado” com as cenas e os diálogos de “Roque”. Não se falou em proibição.
O outro documento é de 4 de julho, 54 dias antes da estreia, e autoriza a sinopse e os capítulos examinados. Ele determina apenas cortes modestos, limando uma cena de beijo e outra sequência em que um casal está deitado, insinuando uma relação sexual – algo inconcebível para a censura.
À medida que a estreia se aproximava, vinhetas na programação anunciavam “Roque” como a nova novela das oito. Mas o certificado de liberação não chegava.
No dia 20 de agosto, um terceiro ofício, estranhamente, negava a classificação para 20h e dizia que a obra trazia cenas “intoleráveis”. A emissora propôs trocar a novela de horário. “Roque” iria para as 22h, e “Gabriela”, para as 20h.
Ofício enviado pela censura na véspera da estreia negava a troca de horário de
Ofício enviado pela censura na véspera da estreia negava a troca de horário de "Gabriela"
Mas um quarto documento, enviado na véspera da estreia, mostrou que “Gabriela” era considerada intragável para as 20h. As “festas comemorativas” da cafetina Maria Machadão, o “contato voluptuoso” do insaciável Mundinho Falcão, a “anomalia sexual” do homossexual Miss Pirangi, tudo afligia a censura. A troca foi proibida e o comunicado, em tom ameaçador e desta vez assinado pelo diretor da Polícia Federal, Moacyr Chaves, era duro: se exibisse “Roque”, caberia à “empresa assumir o risco de ver interrompida, a qualquer momento, a transmissão do programa”.
Ao ver este último ofício, o jornalista Roberto Marinho encomendou à direção de jornalismo da emissora um editorial, para ser lido por Cid Moreira no “Jornal Nacional”, cujo conteúdo denunciasse a censura. O plano só seria colocado em prática caso a operação para exibir “Roque” fracassasse.
Seria um desastre perder 30 capítulos prontos e seis em produção, fruto de 500 horas de gravação, além de 15 já escritos. Um investimento de 500 mil cruzeiros – o equivalente a R$ 980 mil em dinheiro atual. Até uma Asa Branca cenográfica fora erguida em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio.
Proibida na sinopse,
Proibida na sinopse, "Pedreira das almas" foi vetada porque a censura temia associação com a resistência armada
Lima Duarte, que interpretaria Sinhozinho Malta, já estava em sua casa, no Rio, quando o “JN” começou. Em seu apartamento, Betty Faria, a Porcina, dividia-se entre ver o telejornal e os cuidados com João Daniel, seu filho com Daniel Filho. O marido estava com Dias Gomes, Boni e outros diretores da Globo na sala de Clark.
Havia censura desde sempre. Sabíamos lidar
Lima Duarte
Eles e outros milhões de brasileiros ouviram, no último bloco do “JN”, a voz grave de Cid ler o texto de 128 palavras, em quase dois minutos. Dizia que a censura prejudicava a elevação da qualidade da TV. Em seguida, foi exibida a vinheta de abertura preparada para “Roque”, como se a emissora fosse desobedecer a ditadura e lançar a novela. Mas Cid Moreira voltou e leu de novo o texto. Pela primeira vez, o arbítrio censor era exposto em rede nacional. Mas isso não amenizava as frustrações de Boni e Daniel. Enquanto subiam os créditos do telejornal, o superintendente de programação da TV Globo e seu principal diretor de novelas se abraçaram. Choraram.
Após a morte de Cecília, a censura preocupou-se em cortar qualquer indício do romance
Após a morte de Cecília, a censura preocupou-se em cortar qualquer indício do romance
O dia seguinte à leitura do editorial por Cid Moreira foi de trabalho. A emissora decidira produzir outra novela com o mesmo elenco. Boni e Daniel convocaram Janete Clair. Seu marido, Dias Gomes, estava destroçado com a censura a “Roque”. Três meses depois, estreava “Pecado capital”, assinada por Janete e dirigida por Daniel.
Lima deixou o Sinhozinho Malta e se tornou o empresário Salviano Lisboa. Em vez de Roque, Francisco Cuoco era o motorista de táxi Carlão. Betty Faria abandonou Porcina e se transformou na operária Lucinha. Em meio a um triângulo amoroso, a obra falava de ética, honestidade e violência urbana. Ambientada nas esquinas do Méier, na Zona Norte do Rio, com externas gravadas nos trens e samba cantado por Paulinho da Viola, “Pecado capital” estreou às 20h. Ainda não era “Roque”. Mas o Brasil estreava no horário nobre.
A censura havia descoberto que a novela era uma adaptação para a TV de “O berço do herói”, uma peça de Dias Gomes proibida em 1965. Ao grampear o telefone do historiador Nelson Werneck Sodré, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) flagrou uma conversa entre ele e o autor, em que Dias Gomes gabava-se de que enganaria os “milicos”. Irritado, o governo determinou a proibição.
Talvez pelo enorme sucesso que a segunda versão alcançou em 1985, a censura a “Roque” foi a mais traumática para a televisão brasileira. Mas existiram outras duas novelas proibidas, “Pedreira das almas” e “Despedida de casado”.
A primeira, adaptação de uma peça do autor Jorge de Andrade, sequer saiu do papel. Um dos pareceres de proibição à sinopse, em 1974, dizia que o protagonista, um rebelde das Minas Gerais de 1842, poderia ser associado a um guerrilheiro. A outra, de Walter George Durst, chegou a ter capítulos gravados e tratava da separação de casais. Teria sido o lançamento do par romântico Regina Duarte e Antonio Fagundes. Mas, para a censura, falar do tema em 1977, o ano em que o Brasil debatia a Lei do Divórcio, seria jogar gasolina num incêndio.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Artigo de Opinião - Maria Antonia

Em 64 a repressão desarticulou o sistema político, perseguiu a esquerda, investiu contra os sindicatos, mas deixou funcionando uma vida universitária e artística que era majoritariamente oposta ao regime
É sabido, embora muitas vezes esquecido e confundido, que depois do golpe militar de 1964, e até o AI-5, no final de 1968, viveu-se no Brasil um período de exuberante cultura pública. Em 64 a repressão desarticulou o sistema político, perseguiu a esquerda, investiu contra os sindicatos, as organizações operárias, mas deixou funcionando uma vida universitária e artística que, de modo contraditório, era majoritariamente oposta ao regime. A rotina da censura prévia só se instalou a partir de 1969. Antes disso aconteceram os festivais da canção, o show “Opinião”, o Teatro Oficina, o Arena, o Tuca, o cinema novo, o tropicalismo. A garotada da classe média formada na escola pública durante o intervalo democrático de 45 a 64 tinha o que dizer ao Brasil, do Brasil, e encontrou espaços para isso.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Crônica do Dia - Memórias da Ditadura - Artur Xexéo

Memórias da ditadura



Talvez tenha sido um dia depois do golpe. É difícil precisar. Afinal, até hoje ninguém sabe direito em que dia aconteceu o golpe. Sempre soube que foi no dia Primeiro de Abril, mas que, ao contar a história, os militares o anteciparam para o dia 31 de março para que não coincidisse com o Dia da Mentira. Leio agora, entre as muitas reportagens que marcam o 50º aniversário do fato, que foi na madrugada de 2 de abril. Então deve ter sido no dia 3 de abril de 1964, uma sexta-feira, primeiro dia de aula depois do golpe. Quando entrei na sala do colégio em que estudava em São Paulo, estava lá, com letra bonita, toda redondinha, escrito no quadro-negro: “Para uma fortaleza vermelha, só mesmo um Castello Branco.”

A frase nunca fez sentido. O medo de uma “fortaleza vermelha” foi justamente  o que justificou o golpe que levou Castello Branco ao poder. Por isso, nunca achei que ela tinha sido escrita por um dos irmãos maristas que nos davam aula. Aquela bobagem só poderia ter sido de autoria de algum colega de classe. Alguém que tivesse 12, no máximo 14 anos e estava ali cursando o segundo ano ginasial. Alguém que confiava em trocadilho mesmo que ele não fizesse sentido político. O irmão que entrou conosco na sala para a primeira aula da manhã mandou alguém apagar rapidamente o quadro-negro.  Foi apagado. Mas não da minha memória. Ainda hoje, quando me lembro do golpe, dos primeiros dias do golpe, o que me vem à cabeça é aquela sentença desconexa: “Para uma fortaleza vermelha, somente um Castello Branco.”

Na semana seguinte, começou a crise lá em casa. Deixa eu explicar: meu pai era oficial do Exército. Era um tenente-coronel. Não era o que se chamava naqueles tempos de um revolucionário. Ou golpista. Mas era um militar. Respeitava hierarquia. Então, respeitava o que chamávamos naqueles tempos de Revolução. Minha mãe, de alguma maneira, sentia-se ligada a Jango. Uma de suas irmãs, a Dinda, trabalhava com Maria Teresa Goulart. Minha mãe foi antirrevolucionária de primeira hora. De algum lugar, fez saltar uma veia jornalística e passou a escrever, madrugadas adentro, em folhas de papel almaço, artigos contra os militares. Ela os mostrava para meu pai que ficava irritado. Não ficava bem uma mulher de militar expor assim seu pensamento contra a Revolução. Ela resolveu a parada assinando os artigos com um pseudônimo, Madame X, e continuou varando as madrugadas escrevendo, escrevendo, escrevendo e aguardando a volta triunfal de Jango e Brizola. O plano era enviar os textos a algum jornal que já estivesse na oposição. Aqueles artigos nunca foram enviados para jornal algum. De manhã, ela os rasgava, insatisfeita com o resultado, e começa a escrever de novo. Eu tentava fugir das brigas indo ao cinema. Naquela semana, vi “Sherlock de saias”, no cine Jamor, logo ali no Jabaquara, com Margareth Rutheford interpretando a miss Marple de Agatha Christie.

A crise passou rápido. Minha mãe abandonou o talento de articulista político, meu pai voltou à hierarquia e íamos vivendo em paz até que o Golpe me mandou para a Avenida Atlântica. Já disse que minha tia trabalhava com a primeira-dama? Pois então, como acreditava que seu exílio seria rápido, Jango pediu para a Dinda cuidar do apartamento que ele mantinha na Avenida Atlântica. E lá fui eu, durante minhas férias escolares, exilar-me no Edifício Chopin. Tecnicamente, não era o Chopin. Era um dos outros dois prédios anexos ao famoso edifício das festas de réveillon.  Um se chama Prelúdio; o outro, Balada. Acho que o apartamento do Jango ficava no Prelúdio, com vista para a piscina do Copacabana Palace. Não me lembro de muitos resquícios de Jango e Maria Teresa no lugar. Dela, havia um massageador, eletrodoméstico das dondocas da época que caiu em desuso, no quarto principal. Dele, uma biblioteca vistosa. Nunca vi ninguém lendo livro algum daquela biblioteca. Acho que era só decorativa. Daquelas bibliotecas que só têm lombadas, sabe? Isso durou dois ou três anos. Depois, quando Jango percebeu que sua temporada no Uruguai seria bem mais longa do que previa, um cunhado dele _ não, não era o Brizola, era o irmão de Maria Teresa _ pediu o apartamento de volta. E assim acabou nosso exílio na classe alta.

Pouco tempo depois, testemunhei minha tia  recebendo um telefonema do irmão de Maria Teresa. Ele tinha dado por falta de algumas toalhas de banho no apartamento do ex-presidente. A Dinda mandou o cunhado presidencial à merda, e nunca mais tive contato com os Goulart. Para mim, a ditadura risonha e franca acabou ali. Em seguida, a barra pesou. Uma prima querida que vivia na clandestinidade foi presa, entrei em conflito com alguns militares da família e... bem, mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez.