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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Te Contei, não ? - O Dante do Cosme Velho

  • O romance que marca a conhecida virada na obra de Machado de Assis é escrito por um defunto. Nas Memórias póstumas de Brás Cubas, publicadas em 1880 na Revista Brasileira, o par romântico do narrador Brás Cubas é a mulher de Lobo Neves, Virgília. Estes dois elementos – a perspectiva de morto e o nome Virgília – remetem a uma das obras centrais do cânone da literatura ocidental: a Divina Comédia.
    Escrita no século XIV pelo florentino Dante Alighieri (1265-1321), a Comédia narra a peregrinação de Dante pelo Reino dos Mortos – Inferno, Purgatório e Paraíso. Quem guia o poeta italiano por essas regiões do além é Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), poeta latino, autor de Eneida. Machado de Assis estaria então fazendo de fato uma referência à obra de Dante? Tudo leva a crer que sim, dada a admiração que tinha pelo florentino, como demonstram as dezenas de alusões que faz a ele em seus textos.
    Dante está entre os autores mais citados por Machado de Assis, ao lado de Shakespeare, Camões e Homero. Já em 1863, o brasileiro escreveu um poema, “No limiar”, publicado em Crisálidas, em terza rima ou terceto – forma encadeada de versos consagrada pela Comédia e pouco usada entre os poetas nacionais. Mas é a partir da década de 1870 que as citações e as alusões aparecem com mais frequência. Aos 34 anos, em 1873, Machado de Assis cita parte de um dos versos do canto V do Inferno no conto “Aurora sem dia”: “Não é preciso dizer ao leitor que este acontecimento enriqueceu a literatura com uma extensa e chorosa elegia, em que Luís Tinoco metrificou todas as queixas que pode ter de uma mulher um namorado traído. Esta obra tinha por epígrafe o nessun maggior dolore do poeta florentino”. Daí em diante, as referências à Comédia aparecem continuamente em quase todos os gêneros em que escreveu: crônica, poesia, conto, romance e até no ensaio “A nova geração”, de 1879. Em seu último romance, Memorial de Aires, de 1908, ele alude à obra e a uma personagem do quinto Canto do Purgatório, Pia de Tolomei. Apenas as obras escritas para o teatro não fazem referência a Dante.
    Apesar da grande quantidade de citações, elas só passaram a ser estudadas depois de uma pesquisa feita por um italiano radicado no Brasil. Mais conhecido como tradutor da obra de Guimarães Rosa, Edoardo Bizarri foi o primeiro a fazer este levantamento da presença da obra de Dante Alighieri nos textos do escritor fluminense. O artigo inaugural é “Machado de Assis e a Itália”, de 1961. Mais tarde, em 1965, ele publica “Machado de Assis e Dante”. Bizarri contou 23 citações diretas da Comédia na obra de Machado – sendo 19 do Inferno e 4 do Purgatório – porém deixou escapar uma: a do canto VI do Purgatório, epígrafe do poema “Niâni”, de 1873.
    Bizarri também comenta várias alusões a Dante, sobretudo nas crônicas, mas não faz um levantamento de todas. Este é um trabalho mais sutil, pois trata de remissões que “não se apoiam em uma referência direta e textual”, como notou outro estrangeiro, o francês e biógrafo de Machado de Assis, Jean-Michel Massa, no artigo “La présence de Dante dans l’oeuvre de Machado de Assis”, ensaio escrito em 1965 e disponível na Biblioteca Nacional.
    Se os estrangeiros foram os primeiros a fazer esse levantamento documental, coube a um brasileiro, o escritor Mário de Andrade (1893-1945), fazer uma das primeiras análises das alusões sem referência direta e textual, ou seja, sem que haja uma menção explícita a Dante ou à Comédia. Em “Machado de Assis”, artigo publicado em Aspectos da literatura brasileira, de 1939, o modernista afirma que o escritor fluminense inspirou-se no canto V do Inferno para escrever o poema “Última jornada”, publicado no livro Americanas. Neste poema, composto por dois cantos, lê-se uma funesta história de amor entre dois índios. Ambos aparecem voando para moradas dos mortos no primeiro canto, enquanto no segundo o guerreiro, antes de desaparecer, conta ao leitor o que houve. Ele a mata por ciúmes, e Tupã se vinga e tira-lhe a vida.
    O canto V do Inferno mostra os condenados do segundo círculo, os luxuriosos. Ali estão aqueles que pecaram por não resistir à tentação da carne, como Cleópatra, Helena e Semíramis. Nesta seção do Inferno, a punição dos pecadores consiste em girar eternamente em meio a uma tempestade infernal. No meio do caminho, Dante se detém para conversar com um casal de condenados, Paolo e Francesca. Ela conta por que estão ali. Foram assassinados por seu marido, Gianciotto Malatesta, logo depois de serem flagrados beijando-se.
    Mário de Andrade justifica sua hipótese ao ver semelhanças entre a estrutura, as personagens e o narrador dos poemas. “Última jornada” é escrito em tercetos, protagonizado por dois amantes que voam depois de mortos – um para o alto, outro para baixo – e é narrado por um deles, o guerreiro. “A escolha da forma poética do terceto, que a qualquer um evoca irresistivelmente Dante, me parece consequência natural de uma inspiração dantesca”, diz o modernista. Sem contar a semelhança entre os versos iniciais: “Così discesi del cerchio primaio” e “E ela se foi nesse clarão primeiro”.
    Outro aspecto importante ligado a este poema diz respeito à mistura de fontes na composição de seus textos. A epígrafe do poema é pinçada do capítulo “Os canibais” dos Ensaios (1580-1588), de Montaigne. Deste trecho do escritor francês, Machado de Assis tira a cosmologia do poema, que explica o fim que levam os mortos em face de suas ações terrenas: “Acreditam na imortalidade da alma. As que mereceram aprovação dos deuses alojam-se no céu do lado do nascente; as amaldiçoadas, do lado do poente”. Assim, para compor o poema, Machado de Assis mistura Dante, elemento indígena e Montaigne. Por baixo, o episódio é dantesco; por cima, na epígrafe, é montaigniano; no centro, cenário e tema são nacionais. A essa altura, Machado ainda não optou pela paródia nem pelo rebaixamento dos temas elevados, mas já mostra essa inclinação de buscar o estilo e a forma com base na mistura das várias fontes. Quando incorporar a paródia como mecanismo de aproximação entre a sua literatura e o repertório da tradição, ela se tornará um mecanismo central de seu estilo.
    Na década de 1870, Machado de Assis está em busca de um estilo.Então, divide-se entre textos mais convencionais, como nos romances da primeira fase e na poesia, e outros experimentais, como “Antes de missa”, “Tempo de crise” e “Um cão de lata ao rabo”, textos em prosa nos quais sobressaem o cômico, a paródia e a ironia. Sem contar as crônicas, nas quais ele exercita mais livremente estes aspectos.
    Em relação à Comédia, essa dualidade aparece numa excelente tradução do canto XXV do Inferno, publicada no dia de Natal de 1874 no jornal O Globo, e numa paródia do texto de Dante publicada meses antes na Semana ilustrada, intitulada “Inferno – Canto suplementar ao poema de Dante pelo Dr. Semana”. O texto foi escrito muito provavelmente por Machado, sozinho ou com outros autores que assinavam com ele o pseudônimo Dr. Semana. Nesta paródia, Dr. Semana põe no centro do poema uma mulata com nome de heroína camoniana, Inês, que sucumbe por causa de uma relação adúltera, como a Francesca do Canto V do Inferno.
    Tanto na paródia quanto na tradução, encontramos um Machado de Assis bastante familiarizado com a Divina comédia, sobretudo com o Inferno – seja pelo respeito ao estilo e ao tom do escritor italiano, seja pela opção de traduzir um canto pouquíssimo comentado, ou pela ausência de tradução em português à sua época.Machado não teve outras versões à mão para ajudá-lo nessa tarefa, por isso deve ter manuseado bastante sua edição de 1868, em italiano, da Divina comédia.
    À medida que vai afirmando seu estilo, sobretudo na prosa, a obra de Dante aparece rebaixada, parodiada e citada, sempre traduzida por um estilo que trata de “vulgarizar o sublime”, fórmula feliz cunhada por Alcides Villaça em “Machado, tradutor de si mesmo” (1998).
    Se a Virgília de Memórias póstumas de Brás Cubas tem relação com Virgílio, par de Dante na Comédia, e se o defunto autor é um modo de inverter e parodiar a jornada ao mundo dos mortos feita por Dante e outros antes dele, estas duas formas são obra de um autor cujo estilo já se firmou.

    Eugênio Vinci de Moraes é professor do Centro Universitário Uninter, em Curitiba (PR), e autor de “A Tijuca e o pântano: A Divina Comédia na obra de Machado de Assis entre 1870 e 1881”, (USP, 2007).

    Saiba mais - Bibliografia
    Andrade, Mário de. “Machado de Assis”. In: ___. Aspectos da literatura brasileira. 5. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, [1939] 1974. p. 97-102.
    Bandeira, M. “O poeta”. In: Machado de Assis. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
    Cascudo, L. da C. Dante Alighieri e a tradição popular no Brasil. Porto Alegre: PUC-RS, 1963.
    Ceschin, O. H. L. “Uma página dantesca de Machado de Assis”. Revista do Instituto Italiano de Cultura, São Paulo, v. 8, 1999.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Resenhando - Inferno que não é de Dante

Uma década após o estouro de "O Código Da Vinci", Dan Brown lança "Inferno" tendo como inspiração o autor Dante Alighieri. Agora, o cenário do mistério são as passagens secretas de Florença e suas obras renascentistas

Ivan Claudio

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Te Contei, não ? - Uma viagem do inferno ao paraíso

Maurício Meireles 
 
 

Livro de Marco Lucchesi chega esta semana
às livrarias
Foto: Divulgação
Livro de Marco Lucchesi chega esta semana às livrarias Divulgação
Em tempos de Dan Brown, cujo livro “Inferno”, inspirado pela “Divina comédia”, está em primeiro lugar na lista de mais vendidos, parece que a obra do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321) está na moda. Chega esta semana às livrarias “Nove cartas sobre A divina comédia — Navegações pela obra clássica de Dante” (Casa da Palavra), do imortal da Academia Brasileira de Letras Marco Lucchesi, um dos maiores especialistas do país na obra de Dante.
Escrito, como diz o título, em formato de cartas dirigidas ao leitor, o novo livro de Lucchesi é uma viagem guiada do Inferno ao Paraíso de Dante, com uma passagem pelo Purgatório. A ideia é não só servir de introdução a “A divina comédia” para o leitor que ainda não a conhece, mas também ser uma releitura do poema para quem já é íntimo dele.
— Sempre tive uma fascinação por cartas. Escolhi esse formato para ser mais acessível. Não queria escrever um tratado sobre Dante. — diz Lucchesi. — A “Comédia” é um livro extremamento complexo, mas não é preciso entender cada pormenor para apreciá-la, já que a força do poema fala por si. Já foi homenageada até em escola de samba.
A proximidade do autor com a obra de Dante Alighieri vem desde a infância. Até hoje ele se lembra de ter ficado fascinado pelas imagens do autor italiano ao lê-lo em casa e na escola. Seu mestrado e doutorado também foram sobre a “Comédia”. Ano passado, ele foi convidado a dar uma palestra na igreja San Pier Maggiore, em Florença, onde o poeta está enterrado.
O autor analisa como Dante trata o amor, na passagem em que encontra dois amantes no Inferno, e não se esquiva dos temas mais metafísicos, marcantes na passagem do poeta pelo Paraíso.
— “A divina comédia” é tão forte no imaginário que uma lenda conta que, certa vez, uma senhora italiana cutucou a outra ao ver Dante passar e disse: “Aquele é o tal homem que foi ao Inferno” — afirma.
Seleção de mais de 50 Imagens
O livro traz ainda uma seleção — feita pelo designer Victor Burton, com supervisão de Lucchesi — de mais de 50 imagens de “A divina comédia” realizadas por grandes artistas. Estão lá o “Mapa do Inferno”, de Botticelli, com os nove círculos do Inferno, além de retratos de Dante ou desenhos de passagens do livro.
De brinde, Lucchesi traz, no fim de “Nove cartas”, uma tradução de “Teologia mística”, texto grego do século V, de Pseudo-Dionísio Areopagita, que teve sua influência sobre Dante e serve de ferramenta para entender obras de caráter místico.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/marco-lucchesi-lanca-livro-sobre-divina-comedia-8668135#ixzz2W95QdxxZ

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Te Contei, não ? - Dante Alighieri


Dante Alighieri nasceu em Florença, em maio de 1265. De família nobre e abastada, dedicou-se desde cedo aos estudos, sendo que o célebre Brunetto Latini foi um dos seus mestres. Estudou letras e ciências, não se descuidando do desenho e da música. Mais tarde aplicou-se também à teologia. Desde os 12 anos Dante já    sabia que deveria se casar com uma moça da família Donati , pouco sabe sobre sua vida , a maior parte das informações são sobre sua educação , sua família e suas opiniões são geralmente meras suposições.
Dante participou da vida política da sua cidade, ainda jovem. Em 1289, os exilados florentinos, juntando-se aos outros gibelinos de Toscana, tentaram invadir a República. O exército florentino deu-lhes batalha em Campaldino no dia 11 de junho de 1289, conseguindo derrotá-los. Dante participou destas operações militares, combatendo na cavalaria. Logo depois, participou também do assédio ao castelo de Caprona.


A Itália de Dante

            A Itália no tempo de Dante estava dividida entre o poder do papa e o poder do Sagrado Império Romano. O norte era parcialmente alinhado com o imperador (que podia ser alemão ou italiano) e o centro, com o papa. 

A política nas cidades representava os interesses de famílias.  A família de Dante pertencia a uma facção política conhecida como os guelfos (Guelfi) - representados pela baixa nobreza e pelo clero - que fazia oposição a um partido conhecido como os guibelinos (Ghibellini) - representantes da alta nobreza e do poder imperial. Os nomes dos dois grupos eram originários de partidos alemães, porém os ideais políticos eram um mero pretexto para abrigar famílias rivais. Florença se dividiu em guelfos e guibelinos quando um jovem da família Buondelmonti não cumpriu uma promessa de casamento com uma moça da família Amadei e foi assassinado. As famílias da cidade tomaram partido por um lado ou por outro assim se divindo.
Dante nasceu em uma Florença governada pelos guibelinos, que haviam tomado a cidade dos guelfos na sangrenta batalha conhecida como Montaperti (monte da morte), em 1260. Em 1289, Dante lutou com o exército guelfo de Florença na batalha de Campaldino, onde os florentinos venceram os exércitos guibelinos de Pisa e Arezzo, e recuperaram o poder sobre a cidade.
 A divina comédia
      A divina comédia é a obra prima de Dante , estima-se que iniciou-a por volta de 1307 , concliu-a pouco antes de sua morte (1321). Toda a obra foi escrita em italiano , a obra é um poema narrativo que registra uma odisseia pelo inferno , purgatório e paraíso, Dante descreveu cada etapa detalhadamente , quase visualmente. Dante o personagem principal passa por todos os lugares citados , no inferno e purgatório com o poeta romano Virgílio , já no céu por Beatriz , musa em muitas de suas obras.
 As três partes da obra:
Inferno: o inferno é a primeira parte da “divina comédia” , está divida em 34 Cantos (uma divisão de longas poesias) , no poema , o inferno é descrito com nove Círculos de sofrimento localizados dentro da Terra. Foi escrito no início do século XIV.
Purgatório: logo após sair do inferno , Dante acompanhado de Virgílio , logo se deparam com uma altíssima montanha (o Purgatório). Depois de passar pelos dois níveis do purgatório , os dois passam por um portal iniciando uma nova aventura , subindo cada vez mais. Passam por 7 terraços onde são expurgados , cada um com os sete pecados capitais. Já no último círculo os dois se despedem e Dante continua junto com um anjo  que o acompanha ao caminho do paraíso. Chegando ao paraíso ele encontra Beatriz nas margens do Rio Letes , onde banha-se para se purificar e seguir viagem a caminho das estrelas.
  O Paraíso: é o canto da beatitude, da consonância da vontade dos bem-aventurados com a de Deus. É também o canto das dissertações teológicas, das doutas explicações que Dante recebe da sua dama e de outros eleitos.
Considerações Finais
Conseguimos ver vários vídeos e documentários sobre a obra, seu trabalho na época inspirou outros artistas com os efeitos especiais. Fizemos uma comparação com os filmes de hoje em dia, e há até alguns que repetem o contexto da época. Os efeitos especiais foram sim, revolucionários, para a época, porém podemos também observar que atualmente temos um grande número desses efeitos vinculados a realidade,
Curiosidades:

v  O poema chama-se “Comédia” não por ser engraçado mas porque termina bem (no Paraíso);
v  “L,Inferno” Um filme italiano de 1911 , foi inspirado na “Divina Comédia”, Uma produção repleta de efeitos especiais inovadores


Fonte:
youtube – vídeo Dante



Contribuição dada por Matheus Azevedo, Erick Cordeiro, Breno Miranda e Gabriel Martins / Turma 702 / Ativo 2012

domingo, 8 de julho de 2012

Te Contei, não ? - Dante Alighieri

Dante Alighieri (1265-1321)


Dante Alighieri: ilustração de Gustave DoréD
ante Alighieri nasceu em Florença em 1265 de uma família da baixa nobreza. Sua mãe morreu quando era ainda criança e seu pai, quando tinha dezoito anos.
Pouco se sabe sobre a vida de Dante e a maior parte das informações sobre sua educação, sua família e suas opiniões são geralmente meras suposições. As especulações sobre a sua vida deram origem à vários mitos que foram propagados por seus primeiros biógrafos, dificultando o trabalho de separar o fato da ficção. Pode-se encontrar muita informação em suas obras, como na Vida Nova (La Vita Nuova) e na Divina Comédia (Commedia).
Na Vida Nova Dante fala de seu amor platônico por Beatriz (provavelmente Beatrice Portinari), que encontrara pela primeira vez quando ambos tinham 9 anos e que só voltaria a ver 9 anos mais tarde, em 1283. Nos tempos de Dante, o casamento era motivado principalmente por alianças políticas entre famílias. Desde os 12 anos, Dante já sabia que deveria se casar com uma moça da família Donati. A própria Beatriz, casou-se em 1287 com o banqueiro Simone dei Bardi e isto, aparentemente, não mudou a forma como Dante encarava o seu amor por ela. Provavelmente em 1285, Dante casou-se com Gemma Donati com quem teve pelo menos três filhos. Uma filha de Dante tornou-se freira e assumiu o nome de Beatrice.
Em 1290, Beatriz morreu repentinamente deixando Dante inconsolável. Esse acontecimento teria provocado uma mudança radical na sua vida o levando a iniciar estudos intensivos das obras filosóficas de Aristóteles e a dedicar-se à arte poética.
Dante foi fortemente influenciado pelos trabalhos de retórica e filosofia de Brunetto Latini - um famoso poeta que escrevia em italiano (e não em latim, como era comum entre os nobres), tendo também se beneficiado da amizade com o poeta Guido Cavalcanti - ambos mencionados na sua obra. Pouco se sabe sobre sua educação. Segundo alguns biógrafos, é possível que tenha estudado na universidade de Bologna, onde provavelmente esteve em 1285.
A Itália no tempo de Dante estava dividida entre o poder do papa e o poder do Sagrado Império Romano. O norte era predominantemente alinhado com o imperador (que podia ser alemão ou italiano) e o centro, com o papa (veja mapa).



A Itália, porém, não era um império coeso. Não havia um único centro de poder. Havia vários, espalhados pelas cidades, que funcionavam como estados autônomos e seguiam leis e costumes próprios. Nas cidades era comum haver disputas de poder entre grupos opositores, o que freqüentemente levava a sangrentas guerras civis. Florença era, na época, uma das mais importantes cidades da Europa, igual em tamanho e importância a Paris, com uma população de mais de 100 mil habitantes e interesses financeiros e comerciais que incluíam todo o continente.
A política nas cidades representava os interesses de famílias. A afiliação era hereditária. A família de Dante pertencia a uma facção política conhecida como os guelfos (Guelfi) - representados pela baixa nobreza e pelo clero - que fazia oposição a um partido conhecido como os guibelinos (Ghibellini) - representantes da alta nobreza e do poder imperial. Os nomes dos dois grupos eram originários de partidos alemães, porém os ideais políticos eram um mero pretexto para abrigar famílias rivais. Florença se dividiu em guelfos e guibelinos quando um jovem da família Buondelmonti não cumpriu uma promessa de casamento com uma moça da família Amadei e foi assassinado. As famílias da cidade tomaram partido por um lado ou por outro e Florença se dividiu em guelfos e guibelinos.
Dante nasceu em uma Florença governada pelos guibelinos, que haviam tomado a cidade dos guelfos na sangrenta batalha conhecida como Montaperti (monte da morte), em 1260. Em 1289, Dante lutou com o exército guelfo de Florença na batalha de Campaldino, onde os florentinos venceram os exércitos guibelinos de Pisa e Arezzo, e recuperaram o poder sobre a cidade.
Na época de Dante, o governo da cidade era exercido por representantes eleitos de corporações de operários, artesãos, profissionais, etc. chamadas de guildas. Dante se inscreveu na guilda dos médicos e farmacêuticos e disputou as eleições em Florença, tendo sido eleito em 1300 como um dos seis priores (presidentes) do Conselho da Cidade.
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi novamente uma rixa entre famílias, desta vez, importada da cidade de Pistóia. Os Cancellieri era uma grande família de Pistóia, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa do Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram se apelidar de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, se apelidaram de Neri (negros) em espírito de oposição. A briga tomou conta de Pistóia e a cidade acabou sofrendo intervenção de Florença, que levou presos os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido e, por causa de uma briga de rua, a divisão se espalhou pela cidade, dividindo os guelfos em negros e brancos.
Depois de criados, os partidos assumiram posições políticas. Os guelfos brancos, moderados, respeitavam o papado mas se opunham à sua interferência na política da cidade. Já os guelfos negros, mais radicais, defendiam o apoio do papa contra as ambições do imperador, que era apoiado pelos guibelinos.
Os priores de Florença (entre eles Dante) viviam em constante atrito com a igreja de Roma que, sob o governo do papa Bonifácio VIII, pretendia colocar toda a Itália sob a ditadura da igreja. Em um dos encontros com o papa, onde os priores foram reclamar da interferência da igreja sobre o governo de Florença, Bonifácio respondeu ameaçando excomungá-los. A briga entre os Neri e Bianchi tornou-se cada vez mais intensa durante o mandato de Dante até que ele teve que ordenar o exílio dos líderes de ambos os lados para preservar a paz na cidade. Dante foi extremamente imparcial, incluindo, entre os exilados, um dos seus melhores amigos (Guido Cavalcanti) e um parente de sua esposa (da família Donati).
No meio da confusão entre os guelfos de Florença, o papa decidiu enviar Carlos de Valois (irmão do rei Felipe da França) como pacificador para acabar com a briga entre as facções. A suposta ajuda, porém, revelou ser um golpe dos Neri para tomar o poder. Eles ocuparam o governo de Florença e condenaram vários Bianchi ao exílio e à morte. Dante foi culpado de várias acusações, entre elas corrupção, improbidade administrativa e oposição ao papa. Foi banido da cidade por dois anos e condenado a pagar uma alta multa. Caso não pagasse, seria condenado à morte se algum dia retornasse a Florença.

No exílio, Dante se aproximou mais da causa dos guibelinos (o império), à medida em que a tirania do papa aumentava. Ele passou o seu exílio em Forlì, Verona, Arezzo, Veneza, Lucca, Pádua (e também provavelmente em Paris e Bologna). Em 1315 voltou a Verona e dois anos depois fixou-se em Ravenna. Suas esperanças de voltar a Florença retornaram depois que o sucessor de Bonifácio VIII chamou à Itália o imperador Henrique VII. O objetivo de Henrique VII era reunir a Itália sob seu reinado. Porém a traição do papa, que ainda alimentava a idéia de ter um império próprio, seguida por uma nova vitória dos Neri e a morte de Henrique VII três anos depois enterraram de vez as suas esperanças.
Na obra La Vita Nuova, seu primeiro trabalho literário de importância, iniciado pouco depois da morte de Beatriz, Dante narra a história do seu amor por Beatriz na forma de sonetos e canções complementadas por comentários em prosa. Durante o seu exílio Dante escreveu duas obras importantes em latim: De Vulgari Eloquentia, onde defende a língua italiana, e Convivio, incompleto, onde pretendia resumir todo o conhecimento da época em 15 livros. Apenas os quatro primeiros foram concluídos. Escreveu também um tratado: De Monarchia, onde defendia a total separação entre a Igreja e o Estado. A Commedia consumiu 14 anos e durou até a sua morte, em 1321, ocorrida pouco após a conclusão do Paraíso. Cinco anos antes de sua morte, foi convidado pelo governo de Florença a retornar à cidade. Mas os termos impostos eram humilhantes, semelhantes àqueles reservados à criminosos perdoados e Dante rejeitou o convite, respondendo que só retornaria se recebesse a honra e dignidade que merecia. Continuou em Ravenna, onde morreu e foi sepultado com honras.



Fontes: [Encarta 97], [Larousse 98], [Mauro 98], [Musa 95], [Cambridge].
Nota: Muitas fontes apresentaram informações contraditórias sobre a vida de Dante, principalmente em relação a datas e sobre sua família. Neste texto, mantive as informações das fontes que eu considerei mais confiáveis. Outros textos podem, portanto, apresentar versões diferentes.