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sexta-feira, 13 de março de 2015

Te Contei, não ? - O mestre do labirinto

RIO —

O labirinto que Jerónimo Pizarro percorre não é feito de paredes, mas de papéis. Trinta mil documentos, para ser mais exato. Há mais de dez anos, o pesquisador colombiano começou uma tarefa interminável: investigar os documentos deixados por Fernando Pessoa em seu espólio, guardado pela Biblioteca Nacional de Portugal. Hoje, Pizarro lidera uma equipe de jovens pesquisadores que é a principal responsável pelas novas descobertas nos arquivos do poeta. E o colombiano, que se consolida como uma das maiores autoridades da atualidade na obra do autor, é o mestre desse labirinto.

domingo, 13 de julho de 2014

Te Contei, não ? - O vestuário alegórico em Gil Vicente

O vestuário alegórico em Gil Vicente
A roupa acompanha a humanidade desde o início de sua evolução. A veste surge na pré-história. Tal vestuário, feito de pele de animais, geralmente de urso ou rena, confeccionado manualmente, com o auxílio de agulhas de osso, pelas mulheres, tinha apenas a função prática - proteger o corpo diante da instabilidade climática
Por Érica Fernanda B. C. P. de Souza

Te Contei, não ? - Aspectos intertextuais em Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

Aspectos intertextuais em Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna


por Ederval Fernandes Amorim*


Te Contei, não ? - Das Cantigas Trovadorescas ao Cordel

Das cantigas trovadorescas ao Cordel


Este artigo é uma homenagem aos poetas do povo



por Luzdalva S. Magi*




“... Eu sou de uma terra que o povo padece Mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla De riso na boca zomba no sofrer Não nego meu sangue, não nego meu nome Olho para a fome, pergunto: o que há? Eu sou brasileiro, filho do Nordeste, Sou cabra da Peste, sou do Ceará... 
(Patativa do Assaré) ”

sábado, 5 de julho de 2014

Te Contei, não ? - Um pouco sobre a obra de Gil Vicente

A Farsa de Inês Pereira é considerada a mais complexa peça de
Gil Vicente. Gil Vicente havia sido acusado de plagiar obras do teatro espanhol de Juan del Encina. Em vista disso, pediu para que aqueles que o acusavam dessem um tema para que ele pudesse, sobre ele, escrever uma peça. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Te Contei, não ? - Farsa de Inês Pereira

A expansão ultramarítima traz ao homem do século XV uma nova maneira de olhar o mundo que o circunda. Ele começa a se dar conta de que o seu esforço e estudo podem acarretar na dominação da natureza. É evidente, porém, que tamanha mudança cultural não se fez da noite para o dia. Os séculos anteriores são uma longa preparação para o que eclode no século XV e os séculos seguintes são ainda etapas de adaptação a essas mudanças.
A crença no poder de dominação do homem — o Antropocentrismo — provocará o choque com o arraigado Teocentrismo da sociedade medieval. Durante a Idade Média, a cultura esteve voltada de forma radical para a religiosidade. Todas as explicações eram dadas pela Igreja, representante do poder divino na terra. A relação entre Deus — superior, perfeito, senhor — e o pecador — submisso, inferior —aparece retratada nas relações sociais, nas figuras do senhor feudal e do vassalo e, como não poderia deixar de ser, nas artes, como exemplificam as cantigas de amor trovadorescas. Muitas vezes, o desejo de estudo, de conhecimento, a busca por novas explicações para velhas perguntas parecerão aos mais tradicionais um verdadeiro ato de petulância do homem de atrevimento diante de princípios que haviam sido estabelecidos por Deus. 
Muitas das mudanças por que passa a sociedade dessa época devem-se ao surgimento de uma nova classe social, a burguesia. Esse novo segmento social surge das atividades mercantis que passam a ser exercidas entre os feudos e não pára mais de crescer.
Junto com o aparecimento da classe burguesa, surgem as cidades. O homem do campo passa cada vez mais a se interessar pela vida nos grandes centros. O sistema feudal, base da estrutura medieval, começa a se enfraquecer e um novo padrão de vida começa a se formar. Na busca por seu espaço, a burguesia faz valer seu poder econômico em oposição aos títulos de nobreza.
Portugal começava a expandir os horizontes do mundo com as Grandes Navegações. O homem passa a confiar cada vez mais em seu conhecimento e sua capacidade de romper barreiras. Pouco a pouco, a dominação da Igreja vai dando lugar à crença no potencial humano. O Teocentrismo medieval começa a dar espaço para o Antropocentrismo, que marcaria o período seguinte, o Renascimento. Neste momento, o homem passa a dar mais atenção ao que está ao seu redor, ao mundo que está à sua volta: é a humanização da cultura.
É claro que valores tão arraigados não desaparecem da noite para o dia. A época que estamos estudando foi, portanto, uma longa fase de transição, em que ideais medievais e renascentistas passam a conviver numa sociedade.
A ESCOLA LITERÁRIA
A arte desse momento, seja na forma de literatura, pintura, escultura ou arquitetura, sofre como primeira conseqüência importante a sua própria humanização, ou seja, afasta-se gradativamente dos temas religiosos. A vida cotidiana começa a ganhar mais espaço no gosto do público.
Em Portugal, o Humanismo estende-se de 1434 — quando Fernão Lopes foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, assumindo uma função equivalente a de um historiador — a 1527 — ano do retomo do poeta Sá de Miranda da Itália para Portugal trazendo novidades artísticas da nação que serviria como berço do Renascimento. 
A produção escrita do Humanismo concentra sua importância na prosa. É o momento das crônicas de Fernão Lopes, Zurara e Rui de Pina. A essa produção dá-se o nome de historiografia1; ao lado dela, na prosa não-ficcional, aparece também a prosa doutrinária2 e, na prosa ficcional, a novela de cavalaria.3. Só na sua fase final ganharão destaque a poesia palaciana4 e o teatro vicentino.

O AUTOR: VIDA E OBRA
Não se sabe ao certo as datas de nascimento e morte de Gil Vicente. Provavelmente, nasceu em torno de 1465 e morreu entre 1536 e 1540. Com essas datas, sabe-se que viveu durante os reinados de D. Afonso V, D. João II, D. Manuel 1 e D. João III. Testemunhou, portanto, a expansão ultramarítima de Portugal. 
Sua primeira peça foi escrita em homenagem ao nascimento do futuro rei D. João III, em 1502. A peça, Monólogo do Vaqueiro, fez tanto sucesso que a rainha pediu uma nova reprodução na data do Natal. Gil Vicente voltou à corte, com sua já conhecida equipe de saltimbancos, mas para apresentar uma nova peça, Auto Pastoril Castelhano. Confirmado o sucesso, foi nomeado o organizador das festas da corte, ocasiões em que apresentava seus autos. 
Ao todo, foram mais de 40 peças escritas em português, castelhano e num idioma já extinto, o saiaguês. As mas conhecidas e consideradas de melhor qualidade são o Auto da Barca do Inferno (1517) e a Farsa de Inês Pereira (1523). 
Vejamos outras peças importantes de sua autoria: 
      1503 - Auto dos Reis Magos 
      1504 - Auto de 5. Martinho 
      1509 - Auto da Índia 
      1512 - O velho da Horta 
      1514 - Exortação da Guerra 
      1515 - Quem tem farelos 
      1518 - Auto da Barca do Purgatório; Auto da Barca da Glória; Auto da Alma 
      1522 - Pranto de Maria Parda; Dom Duardos 
      1523 - Auto Pastoral Português 
      1525 - O Juiz da Beira 
      1526 - Breve Sumário da História de Deus 
      1527 - Farsa dos Almocreves; Auto Pastoril da Serra da Estrela 
      1528 - Auto da Feira 
      1529 - O Clérigo da Beira 
      1532 - Auto da Lusitânia 
      1533 - Romagem de Agravados; Auto de Amadis de Gaula 
      1534 - Auto de Mofina Mendes 
      1536 - Floresta de Enganos 
Podem-se perceber dois tipos de composições na obra de Gil Vicente: os Autos e as Farsas. Autos são peças teatrais cujo assunto predominante está ligado a idéias religiosas. Já as Farsas são peças cômicas, curtas, com poucos personagens e com assuntos relacionados ao cotidiano. 
Seja abordando um assunto religioso , seja trabalhando sobre um tema profano, Gil Vicente procurou sempre dar às suas peças um tom moralizante. Marcado por uma educação medieval, o teatrólogo percebia a decadência dos valores em que acreditava e procurava conscientizar o público do que considerava correto. Com isso, suas peças ganham um aspecto de crítica à sociedade de seu tempo. 
A influência medieval está presente também na estrutura formal da obra de Gil Vicente. Suas peças são escritas em versos redondilhos, respeitando a medida velha, isto é, a métrica comumente usada na literatura da Idade Média. A regra das três unidades5 do teatro clássico também é deixada de lado pelo compositor. Fugindo dessas limitações, Gil Vicente procurava representar cada vez mais tipos sociais, ampliando a duração das ações e criando uma justaposição de lugares. 
Para Gil Vicente, o teatro tinha uma função educadora. Seu desejo era de que o público se identificasse com os personagens e apreendessem a “moral da história”. Para representar toda urna sociedade, o autor fez uso de personagens tipos, ou seja, personagens que, de um modo caricato, representam um grupo social. Assim, encontramos na maioria de suas peças gente de todas as classes sociais: a moça casadoira, a alcoviteira, o padre, o comerciante, o judeu, o juiz, o parvo etc... Com isso, os principais defeitos ou qualidades da sociedade portuguesa eram retratados em suas peças. Além dessa espécie de personagem, é comum também encontrarmos personagens alegóricos. Para tomar mais claros os princípios a serem transmitidos para o público, Gil Vicente procurava concretizá-los em forma de personagens. Alma, Diabo, Anjo são alguns exemplos de alegorias trabalhadas por ele. 
Todo um quadro de época formava-se dessa forma. Costumes, crenças, princípios e a falta deles eram representados com a intenção de se conseguir uma recuperação da sociedade. Mas a preocupação didática de Gil Vicente não terminava aí. Para chamar ainda mais a atenção do público, o cômico se faz presente de várias formas. A platéia ria da linguagem estereotipada dos personagens, dos trocadilhos, das grosserias, das obscenidades e por vezes até dos nomes das personagens que revelavam traços psicológicos ou sociais. O lado humanista de Gil Vicente evidencia-se nesse aspecto: é o artista observando atentamente a sociedade ao seu redor. E delicia-se com isso, rindo das fraquezas do ser humano, procurando encontrar o aspecto mais marcante de cada tipo, de cada camada social, inclusive o padrão de linguagem. Por isso, encontraremos nas peças uma grande variedade lingüística usada com talento de quem sabe usar o código para fazer arte.

ANÁLISE DA OBRA
A Farsa de Inês Pereira foi representada pela primeira vez ao rei D. João III, no convento de Tomar em 1523. 
A peça foi escrita por ocasião de um desafio feito pelos nobres. Cansados de serem desmoralizados nas peças do escritor, acusam-no de plagiar o teatro espanhol. Em resposta, ele sugere que lhe seja dado um tema, sobre o qual escreverá urna nova peça. O tema foi o ditado popular: “Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube”. 
A peça tem início com a entrada de Inês Pereira cantando e fingindo que trabalha em um bordado. Logo começa a reclamar do tédio deste serviço e da vida que leva, sempre fechada em casa. A mãe, ouvindo suas reclamações, aconselha-a a ter paciência. Lianor Vaz aproxima-se contando que um padre a assediou no cominho. Depois de contar suas aventuras, diz que veio trazer uma proposta de casamento para Inês e lhe entrega uma carta de seu pretendente, Pero Marques, filho de lavrador rico. Inês aceita conhecê-lo apesar de não ter se interessado pela carta. Pessoalmente, acha Pero ainda mais desinteressante ainda e recusa o casamento. Sua esperança agora está nos Judeus casamenteiros a quem encomendou o noivo de seus sonhos. Depois de haverem procurado muito, os atrapalhados Latão e Vidal dizem ter encontrado um escudeiro que se encaixa nas exigências de Inês. Antes de vir conhecê-la, porém, o tal Escudeiro, na verdade, pretensioso e falido, combina com seu mal-humorado pajem as mentiras que dirá para enganar Inês. O plano dá certo e eles se casam. Logo no início da nova vida, o sonhado marido revela-se um tirano que não deixa sequer a esposa aparecer na janela. Mas logo ele segue para a guerra, deixando-a guardada pelo seu pajem. Três meses depois, Inês recebe uma carta do irmão dela avisando-a de que o marido morrera nas mãos de um pastor. Finalmente em liberdade, a moça não perde tempo. Seguindo o conselho de Lianor Vaz, aceita casar-se novamente, agora com Pero Marques. Quando Inês está começando a perceber as vantagens de seu novo casamento, surge um ermitão pedindo esmolas e se identificando como um velho apaixonado de Inês. Já prevendo os futuros prazeres nos braços de seu amante, ela segue em romaria carregada nas costas por Pero e cantando suas felicidades futuras ao lado do marido com vocação para ser traído.

Estrutura Formal
O gênero dramático tem características específicas que devemos levar em conta durante a análise da peça de Gil Vicente. Em primeiro lugar, devemos lembrar que não há, do modo tradicional, um narrador; em geral, há rubricas, isto é, anotações à parte da narrativa que servem de orientação para os atores ou para o leitor. São elas que esclarecem, geralmente, as questões de vestimenta, cenário, tempo, posição das personagens etc. As peças de Gil Vicente não trazem rubricas muito específicas. O tempo representado na peça não é indicado. As cenas vão tendo seqüência não dando a idéia de tempo decorrido entre uma e outra. A única menção feita é do período passado desde que o Escudeiro foi à guerra até a chegada da notícia de sua morte: três meses, segundo o Moço. A maioria das cenas se passa num mesmo espaço especificado apenas como a casa de Inês. Todos os personagens acabam passando por ali. Em alguns momentos, os personagens vêm se preparando no caminho para a casa, como acontece com Pero Marques, o Escudeiro e o Moço. Mas de nenhum desses lugares há indicações cenográficas específicas como descrição do ambiente, iluminação etc. A mesma desatenção aparece com relação aos trajes dos personagens. Apenas Pero Marques tem sua roupa genericamente explicitada: “Aqui vem Pero Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gibão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante”.
Outra grande característica presente no gênero dramático é a predominância do discurso direto. Como as personagens são representadas concretamente, elas mesmas têm direito à fala, sendo o diálogo o meio usado para criar a trama narrativa.
Uma vez que as personagens falam diretamente, Gil Vicente, muito habilmente, soube usar essa artimanha para garantir o humor. Na fala de cada uma encontramos marcas importantes na delimitação de suas características: a ingenuidade de Pero Marques, o descaso e a argúcia de Inês, a malandragem do Escudeiro e daí em diante. 

Personagens 
      Inês Pereira: representa a moça casadoira, fútil, preguiçosa e interesseira. Casa-se duas vezes apenas para livrar-se do tédio da vida de solteira. Não o conseguindo na primeira tentativa, garante-se na segunda, com o marido ingênuo. Apesar de seu comportamento impróprio, consegue até mesmo a simpatia do público pela inteligência com que planeja seus passos. É, sem dúvida, resultado do sistema social do qual faz parte, por isso mesmo, um personagem atemporal.
      Lianor Vaz: é a alcoviteira, a mulher que ajeita casamentos, revelando que a base da família está corrompida. 
      Mãe: apesar de dar conselhos à filha, acha importante que ela não fique solteira e se toma cúmplice das atitudes dela. 
      Pero Marques: é o marido parvo, bobo, “o asno que me carregue”. Apesar de ser ridicularizado por Inês, espera-a,casa-se com ela e sujeita-se aos seus caprichos e traições. A figura do parvo é freqüente nas peças de Gil Vicente garantindo, por meio da sua bobice e ingenuidade o riso fácil. Além disso, ressaltam de modo implícito a inversão de valores da sociedade. 
      Escudeiro: é o “cavalo que me derrube”. Preocupado em arrumar uma boa esposa, finge, dissimula, engana, criando uma imagem de “homem discreto” que depois se revela um tirano, aprisionando Inês dentro de casa. Termina morto por um pastor. É outra figura corriqueira na galeria de tipos vicentinos, retratando a busca pela vida fácil num casamento rendoso. 
      Moço: espécie de pajem do Escudeiro, serve para realçar as falcatruas e mentiras arquitetadas pelo primeiro marido de Inês a fim de enganá-la e conseguir o casamento. 
      Ermitão: antigo flerte de Inês que agora é padre. Serve para realçar as intenções de traição da mulher agora casada com Pero Marques e o caráter promíscuo do clero. 
      Latão e Vidal: judeus casamenteiros. Seres marginalizados, os judeus aparecem para realçar o tom cômico da peça e, assim como a alcoviteira, desmascarar a hipocrisia dos casamentos arranjados.

Conteúdo
A Farsa de Inês Pereira é considerada a obra-prima dentre as demais farsas de Gil Vicente. As farsas sempre caíram mais no gosto do público pela maneira de tratar os temas sexuais, no caso, por exemplo, a falta de compaixão para com o marido corno e parvo, provocando não só o riso mas também a cumplicidade com as mulheres espertas e adúlteras, capazes de driblar hipocritamente as convenções sociais para satisfazer seus desejos carnais. Sem dúvida, essa é a crítica central da peça, mas não é a única. Em segundo plano, mas não de menor importância dentro da totalidade da obra de Gil Vicente, encontramos a ironia e o desmascaramento do comportamento do clero por meio do padre que tenta agarrar Lianor Vaz, do que já o tentou fazer com a mãe de Inês e do que se tomará amante da jovem. Temos também a visão satírica do comportamento de nobres que não o são, mas fingem, dissimulam, como é o caso do Escudeiro. Temos a intromissão na base da família de alcoviteiras e alcoviteiros como Lianor e os Judeus. Enfim, retratando todo o trabalho de Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira não dispensa críticas a nenhum setor da sociedade. É o instrumento usado por um homem medieval, com valores medievais, por meio de formas medievais, para mostrar a sua preocupação com o homem de seu tempo. É a arte baseada no teocentrismo mas já preocupada com o homem que vive na terra. É a literatura humanista. 
Cabe ainda ressaltar que a grandeza da obra de Gil Vicente extrapola sua preocupação em caracterizar uma determinada sociedade dentro de uma época específica. O domínio poético que exibe por meio dos versos redondilhos usados revelam sua consciência artística, assim como o gosto na escolha de metáforas, trocadilhos, sonoridade, garantindo a grandeza poética das peças. E por essa qualidade que o teatro vicentino é considerado rico enquanto texto e simples enquanto cenografia. Sem dúvida, os recursos poéticos foram muito mais valorizados que os cênicos. Tudo isso para retratar na sociedade portuguesa traços das sociedades de todos os tempos: o lado humano. 


NOTAS  1- É o registro da vida de personagens e acontecimentos históricos 
2 - É o texto com finalidade pedagógica ou destinado à doutrinação cavaleiresca, cortesã ou religiosa. 
3- Tem com tema as aventuras dos cavaleiros medievais. 
4- É a poesia recitada que substitui a poesia cantada do Trovadorismo. Recebe o nome de poesia palaciana por que os autores eram na sua maioria poetas da corte e as declamavam freqüentemente em saraus dos palácios. Mesmo assim, através da impressão, tais poemas tomaram-se acessíveis a outras camadas do público. O Cancioneiro Geral é um exemplo de antologia dessas poesias. 
5- O teatro clássico pregava uma estrutura extremamente rígida por meio da concisão: enfoque em apenas uma ação, restrita a um único ambiente e que se passa em curto espaço de tempo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

É bom saber - Viver era preciso



O poeta Fernando Pessoa tinha 19 anos, em 1907, quando desistiu do curso de Letras por temer a “degenerescência neuropática” que acometia a academia lisboeta. Chegava a hora, concluía ele, de dizer não ao impressionismo, ao subjetivismo, ao misticismo, à filosofia de Friedrich Nietzsche e à música de Richard Wagner, entre tantos passadismos. Sua intenção sem modéstia era civilizar Portugal. Nessa onda, navegava sozinho, embora, como diria ao amigo escritor Mário de Sá-Carneiro anos depois, visse “barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer”. A mãe, Maria Madalena, e o padrasto, João Miguel Rosa, enxergavam exagero nas suas ideias, indefinição na sua sorte, solidão a acometê-lo, além de uma “teimosia mansa” que fazia o jovem se multiplicar interiormente, com um medo irracional de crescer. Mal sabiam. Ele nunca deixaria de ser um menino. E, em lugar de um, encarnaria muitos Pessoas, literários ou não, com quem brincar.

Aos 6 anos de idade, um dos maiores poetas de todos os continentes já criara um escritor-amigo de boa convivência, Chevalier de Pas. Mas, naquele momento imediatamente anterior aos 20 anos, imberbe em neurastenias, ele julgou ser o caso de se fazer passar por um psiquiatra para descobrir quem realmente era. Batizou-o de Faustino Antunes. E sob seu nome dirigiu cartas a ex-professores e a um ex-colega da turma da Durban High School, que frequentara em sua estada africana, entre 1896 e 1905, nas quais indagava sobre Fernando Pessoa. Recebeu duas respostas e se feriu.

A principal dessas missivas pertencia a Clifford Geerdts, antigo concorrente para o lugar de primeiro da classe. Ele responderia sobre o caráter do colega: “Dócil e inofensivo”. Fernando, dizia, não participava dos desportos e não fazia amizades. Era pálido e magro, com um tórax estreito e contraído e tendência para se curvar, um modo de andar peculiar e algum defeito na vista. Com essa descrição, Geerdts talvez tivesse apenas experimentado o sabor frio da vingança contra um companheiro mais destacado do que ele nos estudos, mas o poeta não entenderia a coisa assim. Ficaria sempre com a ideia de que não era bonito nem capaz de suscitar grandes paixões, embora suas fotos de adulto lhe concedessem um ar saudável e, por que não dizer, atraente.

Investigar os muitos reflexos desse prisma pessoano foi o trabalho dos pesquisadores Richard Zenith, nascido nos Estados Unidos há 55 anos, e Joaquim Vieira, português há 60. Sua Fotobiografia de Fernando Pessoa (Companhia das Letras, 224 págs., R$ 67) quer explicar com simplicidade a malha de tantos fios. Quem foi, o que desejou Fernando Pessoa e o que realmente fez? Tudo, nesse livro, vem apresentado de modo abrangente por Zenith, sem o temor de ser eclipsado pelas fotografias autoexplicativas recolhidas por Vieira, entre elas imagens inéditas da Durban de língua inglesa e aquela, em Lisboa, do concorrido enterro do poeta, aos 47 anos, possivelmente vítima de pancreatite. O artista cultivava amigos em cafés lisboetas como A Brasileira e Martinho da Arcada.
“Era indivíduo social, gostava de conversar e tinha um grande sentido de humor, mas se mostrava extremamente reservado, o que dificulta o trabalho do biógrafo”, diz Zenith em entrevista a CartaCapital, ele que teve contato com a obra do poeta pela primeira vez em Florianópolis, onde viveu no início dos anos 1980, antes de se estabelecer em Portugal, um quarto de século atrás. “Pessoa estava sempre a fingir, na poesia como em tudo”, crê. “Aliás, advertiu o seu primeiro biógrafo, João Gaspar Simões, do perigo de concluir que tinha imensas saudades da infância só porque alguns dos seus poemas falam de saudades da infância.”

Recusando-se “a ficar mental ou espiritualmente parado”, o poeta mudava de opinião constantemente, o que resultou numa certeza para o autor da Fotobiografia: “Para escrever sobre Pessoa é preciso ler tudo, pesar e peneirar tudo, e evitar conclusões fáceis”. Zenith se vê como um “cineasta” de sua vida, “mostrando o que é possível mostrar, do homem exterior e também interior, mas sem me preocupar em chegar ao ‘verdadeiro’ fundo do meu sujeito”. Sua pretensão seria a de fazer o leitor conviver com o autor, ainda por cima “em toda a sua multiplicidade”.

O pesquisador levanta com delicadeza, mas firme direção, desde a possibilidade de o artista ter experimentado o fantasma da loucura, que atingira uma tia, até a obscura vida sexual do poeta, cuja única paixão documentada e abandonada fora aquela por Ofélia Queirós (1900-1991), que tinha 19 anos quando o conheceu. Havia interesse, mas não compromisso em relação à jovem, que, no entanto, queria se casar com ele. “A vivência sexual de Pessoa parece ter sido pouca ou nula”, diz o pesquisador na entrevista: “É provável que tenha morrido virgem, pois sabemos, pela evidência da escrita mediúnica, na qual consultava espíritos astrais sobre o problema de sua castidade, que esta era a sua condição quando já tinha 28 anos”.

A perspectiva homoerótica não é abandonada pelo biógrafo, já que os poemas de Pessoa nessa linha, ainda que “fingidos”, foram vários. Certa vez escreveu a Sá-Carneiro, que se apaixonara por uma prostituta e atrasava em missivas: “Mas não pensa em mim?” No poema Antinous, produzido no verão de 1915, fizera o imperador Adriano cantar sua dor e seu amor perante o cadáver do amante. Alguns meses depois, registraria em um diário que uma “rapariga bastante interessante” lhe lançara um olhar sedutor, sem que jamais se falassem. O texto é concluído com uma frase enigmática: “O Imperador, ai de mim!” Ficou bastante conhecido o episódio em que seu heterônimo Álvaro de Campos compra uma briga com estudantes indignados após a publicação, por sua editora Olisipo, da obra dos homossexuais Antônio Botto e Raul Leal: “Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se”, escreveu em Aviso por Causa da Moral: “Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte”.

A ânsia de polemizar era realizada muitas vezes por meio dos heterônimos, especialmente o de Campos. Ele chegou a lamentar que Fernando Pessoa, ele mesmo, tivesse obra pouco abrangente, embora imaginasse uma eternidade literária para si, além de uma grandeza quiçá maior que a de Luís de Camões. O livro detalha-se em explicar os heterônimos, do pragmático Alberto Caeiro ao autor de odes Ricardo Reis, e levanta aspectos de outros revelados a partir da famosa arca de inéditos, já que somente em 1934, um ano antes de sua morte, ele publicou Mensagem, o primeiro livro de poemas. É de Richard Zenith a descoberta, registrada apenas nesta edição brasileira da Fotobiografia, do heterônimo Karl P. Effield. “Oriundo de Boston”, Effield é o autor de The Miner’s Song, o primeiro poema em inglês publicado por Pessoa, aos 15 anos.

As faces do poeta se multiplicaram na política, que enfrentou às vezes equivocadamente, por exemplo, ao apoiar Salazar, para depois duramente combatê-lo. Ele parecia encarar os fatos da vida com a distração do astrólogo que também foi. Queria se dar bem nos negócios, mas isso raramente ocorreu. Aventurou-se pela edição de revistas literárias e pela publicidade, embora seu célebre slogan para a Coca-Cola, “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, jamais tivesse ganhado as ruas. O produto foi retirado do mercado possivelmente devido à palavra “coca” no nome, mas o slogan pessoano, argumenta Zenith, pode ter contribuído para essa medida, já que o departamento de Saúde de Lisboa vira nele uma “clara confissão da toxicidade da bebida”.

Na língua estaria o verdadeiro destino do artista, responsável por criar uma “civilização interior”, povoada, segundo o biógrafo, por autores inventados, uma vez que seu projeto realista de modernizar Portugal demorava a se estabelecer. Desde a infância, a pátria era seu maior interesse. Depois da morte precoce do pai e das novas bodas da mãe, a família considerou deixá-lo em casa, com parentes, enquanto o casal recente se estabeleceria na África. Mas o menino manifestou contrariedade a esse respeito. Aos 7 anos, Fernando Pessoa escreveu seu primeiro poema, À minha querida mamã, dando à figura materna uma preferência: Eis-me aqui em Portugal/ Nas terras onde eu morei./ Por muito que goste delas/ Ainda gosto mais de ti. Seu último verso, contudo, saiu na língua de Charles Dickens, o autor dos Pickwick Papers, que ele tanto amava. I know not what tomorrow will bring, escreveu Fernando Pessoa no hospital de São Luís dos Franceses, no Bairro Alto, Lisboa. “Não sei o que trará o amanhã”, em bom português.

Revista Carta Capital

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poema do Menino Jesus

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro


domingo, 19 de junho de 2011

PARA REFLETIR .............



Poema em linha reta



Fernando Pessoa



(Álvaro de Campos)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

sábado, 4 de junho de 2011

Cântico Negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.