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domingo, 28 de junho de 2015

Fábulas - Hierarquia

Hierarquia

Diz que um leão enorme ia andando chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas.{1} 
Eis que, subitamente, o leão defronta com um pequeno rato, o ratinho mais menor que ele já tinha visto. Pisou - lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente pra escapar, o leão gritava: "Miserável criatura, estúpida, ínfima, vil, torpe: não conheço na criação nada mais insignificante e nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior, mesquinho, rato!" E soltou - o.
O rato correu o mais que pôde, mas, quando já estava a salvo, gritou pro leão: "Será que V. Excelência poderia escrever isso pra mim ? Vou  me encontrar com uma lesma que eu conheço e quero repetir isso para ela com as mesmas palavras!" {2}

{1} Quer dizer: muitas e más.
{2} Na grande hora psicanalítica, que soa para todos nós, a precisão de linguagem é fundamental. 

MORAL: Afinal ninguém é tão inferior assim.
SUBMORAL: Nem tão superior, por falar nisso.

Millôr Fernandes 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Crônica do Dia - Millôr: do riso e da amargura




Não posso falar de Millôr Fernandes como amigo, igual a muitos colegas que estão compondo homenagens, sobretudo aqueles um pouco mais velhos. Ironicamente, aliás, cresci ouvindo cobras e lagartos a seu respeito. Entes próximos e amados diziam que ele era inimigo da família e que chamara publicamente meu tio de “Adolpho Bloch Hitler”. Uma piada eticamente bem arriscada para se fazer com um judeu, ainda mais um judeu russo. Em sua tirania (alternada com humildade extremada) Adolpho estava mais para um híbrido de “Pedro, o Grande” com Aleksei Ivánovitch, o protagonista de “O jogador”, de Dostoievski. Mas fazer o quê?, ele se chamava Adolpho (adaptação de Avram, seu nome de imigrante), o que dava o mote: como é que Millôr ia perder o trocadilho, ele que era o rei dos jogos de palavras e que, mesmo com os amigos e até nos mais rasgados elogios jamais perdia a oportunidade de espinafrar o próximo? Além disso, toda semana meu pai trazia o “Pasquim”. Sejamos francos: não havia quem não lesse o Millôr, fruindo do sabor agridoce da admiração temperada de mágoa. Claro que, à medida que começamos a nos afastar da cartilha estrita da família (quando isso é possível) passamos a fazer um juízo próprio das pessoas, e, no meu caso, este foi se construindo não através da relação pessoal, da inflamação ideológica ou das birras tribais, mas do gosto pela obra. Mal completara 15 anos e, na onda da abertura lenta, gradual e irrestrita e do fim da censura, assisti a “Os órfãos de Jânio” no Teatro dos Quatro. Chorei com o retrato que Millôr ali fazia das gerações que precederam a minha, cujos feitos, heroicos ou não — fechado que estava no casulo familiar — eu não tinha a mais vaga consciência, a não ser por uns laivos em conversas cifradas com o Cony, um luminar que frequentava a casa. Chorei também com a “Marcha da Quartafeira de Cinzas”, de Vinicius e Lyra, que coroava o final da peça com a forte melancolia de suas palavras e aquele arrastão em tom menor, afeito às marchas-rancho. Cheio de fôlego juvenil, eu descobria no teatro tudo ao mesmo tempo: Millôr, Vianninha, Brecht, Ionesco. Os originais que xerocava na SBAT eram a minha bíblia de um Brasil desconhecido que mofava nos porões. Passei a ler tudo de Millôr e em pouco tempo consegui ficar próximo o suficiente (na qualidade de público) para sacar que seu humor, nos cartuns, no frasismo, nos desenhos, no teatro, no anedotário e nas sátiras era crivado por uma forte amargura da qual ninguém, nem ele, escapava. É a mesma amargura que está em sua expressão facial, semítica, aquele tipo de desgosto que ao mesmo tempo parece um sorriso. Seria judaico se não fosse mouro. Ele mesmo captou esta particularidade fisionômica na sua autocaricatura, transformada em marca pictórica do seu pensamento, dublê gráfico, porta-voz de si mesmo. Isso é que era bom em Millôr: não se faz omelete sem quebrar ovos. Não se faz diferença apostando no senso comum, no aplauso de todos. Se o veneno existe, ele está espalhado na corrente psicossocial da civilização e precisa ser destilado. Do contrário morreremos todos intoxicados pela mentira a respeito da nobreza de nossas almas e de sermos todos, sempre, bons e ilibados cidadãos. Os que assumem o papel de purgar o mal comum levam muito chumbo mas, se sobrevivem à linha de tiro, terminam por abrir espaços absolutamente novos, singulares, que, uma vez inaugurados, permanecem, como castelos de uma areia quase imune à arrebentação do mar e resistentes ao tempo e ao vento. Ao passo que os arautos do óbvio-obscuro desaparecem com a primeira brisa. Só estive com Millôr pessoalmente em princípios dos anos 2000, num único jantar. Uma vez confirmado o encontro, passei momentos de ansiedade, de medo e até de culpa. Na hora H, com vinho e cavaquinha à mesa do hoje extinto Gibo, na Praça General Osório, ele me tratou com extrema cordialidade, mas me sacaneou um bocadinho, o que me honrou. Contou todo tipo de histórias, sorriu torto várias vezes e riu um riso esganado, gutural, que, por uma arrepiante ironia, lembrou-me o riso “mudo” de Adolpho, que era um choro. Os olhos de Millôr brilhavam, daquele brilho dos que, escaldados com a tal da amargura, amam a vida só pelo fato de ela existir e de proporcionar a chance de constatar a desgraceira que é. Passaram-se dez anos deste encontro. Foi a última vez que vi Millôr. Sua partida trouxe o outono, que tem muito da sua aquarela, triste e risonha, com folhas cadentes em tom pastel

sábado, 10 de março de 2012

Tá na Hora do Poeta - Poesia Matemática - Millor Fernandes

 
 
Poesia Matemática


Às folhas tantas Do livro matemático Um Quociente apaixonou-se Um dia Doidamente Por uma Incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável E viu-a, do Ápice à Base, Uma Figura Ímpar; Olhos rombóides, boca trapezóide, Corpo otogonal, seios esferóides. Fez da sua Uma vida Paralela a dela Até que se encontraram No Infinito. "Quem és tu?"indagou ele Com ânsia radical. "Sou a soma dos quadrados dos catetos. Mas pode me chamar de Hipotenusa." E de falarem descobriram que eram - O que, em aritmética, corresponde A almas irmãs - Primos-entre-si. E assim se amaram Ao quadrado da velocidade da luz Numa sexta potenciação Traçando Ao sabor do momento E da paixão Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais. Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas E os exegetas do Universo Finito. Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E, enfim, resolveram se casar Constituir um lar. Mais que um lar, Uma perpendicular. Convidaram para padrinhos O Poliedro e a Bissetriz. E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro Sonhando com uma felicidade Integral E diferencial. E se casaram e tiveram uma secante e três cones Muito engraçadinhos E foram felizes Até aquele dia Em que tudo, afinal, Vira monotonia. Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum Freqüentador de Círculos Concêntricos. Viciosos. Ofereceu-lhe, a ela, Uma Grandeza Absoluta, E reduziu-a a um Denominador Comum. Ele, Quociente, percebeu Que com ela não formava mais Um Todo, Uma Unidade. Era o Triângulo, Tanto chamado amoroso. Desse problema ela era a fração Mais ordinária. Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade E tudo que era expúrio passou a ser Moralidade Como, aliás, em qualquer Sociedade.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Te Contei, não ? - A intertextualidade*

* Para entender melhor a palavra, pense em sua estrutura. O prefixo inter, de origem latina, se refere à noção de relação (entre). Logo, intertextualidade é a propriedade de textos se relacionarem.


"QUE O MANUEL BANDEIRA ME PERDOE, MAS...VOU-ME EMBORA DE PASÁRGADA"... AUTO-RETRATO! 

Vou-me embora de Pasárgada 
Sou inimigo do rei 
Não tenho nada que quero 
Não tenho e nunca terei 
Vou-me embora de Pasárgada 
Aqui eu não sou feliz 
A existência é tão dura 
As elites tão senis Que Joana, a louca da Espanha 
Ainda é mais coerente 
Do que os donos do país. 

 A gente só faz ginástica 
Nos velhos trens da central 
Se quer comer todo dia 
A polícia baixa o pau 
E como já estou cansado 
Sem esperança num país 
Em que tudo nos revolta 
Já comprei ida sem volta 
Pra outro qualquer lugar 
 Aqui não quero ficar. 
Vou-me embora de Pasárgada. 

 Pasárgada já não tem nada 
Nem mesmo recordação 
Nem a fome e a doença 
Impedem a concepção 
Telefone não telefona 
A droga é falsificada 
E prostitutas aidéticas 
Se fingem de namoradas. 

E se hoje acordei alegre 
Não pensem que vou ficar 
Nosso presente já era 
Nosso passado já foi. 
Dou boiada pra ir embora 
Pra ficar só dou um boi 
Sou inimigo do rei 
Não tenho nada na vida 
Não tenho e nunca terei 
Vou-me embora de Pasárgada. 

Millor Fernandes 
Jornal do Brasil