Mostrando postagens com marcador Teatro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teatro. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de julho de 2015

Te Contei, não ? - Zuzu, minha mãe



Para marcar os 40 anos da morte da estilista, a colunista Hildegard Angel prepara uma peça teatral que começou a ser escrita durante a ditadura militar sobre sua trágica histórica familiar
Eliane Lobato (elianelobato@istoe.com.br)

domingo, 21 de junho de 2015

Personalidades - Tônia Carrero

RIO — Rodeada de intelectuais, Tônia Carrero opinava em todos os assuntos que dominavam a mesa naquela noite no Degrau, tradicional reduto boêmio do Leblon. Encantado com tanta beleza e surpreso com a eloquência, Rubem Braga resumiu o fascínio provocado pela atriz.
— Ela fala pelos cotovelos. Mas que cotovelos... — disse para Paulo Mendes Campos, segundo registro do livro “Crônicas da vida boêmia”, de Aluízio Falcão.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

Te Contei, não ? - O Teatro Grego

O teatro na Grécia antiga teve suas origens ligadas a Dionísio, divindade da vegetação, da fertilidade e do vinho, cujos rituais tinham um caráter orgiástico. Durante as celebrações, que duravam seis dias, em honra ao deus, em meio a procissões e com o auxílio de fantasias e máscaras, eram entoados cantos líricos, os ditirambos, que mais tarde evoluíram para a forma de representação plenamente cênica como a que hoje conhecemos através de peças consagradas.


terça-feira, 24 de março de 2015

O Demônio familiar - Novos Olhares

A peça de José de Alencar reúne alguns dos ingredientes românticos mais convencionais. Todo o enredo é montado sobre tensões, maledicências, fofocas, mal-entendidos, que lhe dão o ritmo rocambolesco e complicado das narrativas folhetinescas do Romantismo. Estão presentes, ainda, os inescapáveis obstáculos para a realização amorosa do par central, como o projetado casamento da heroína com Azevedo e as atitudes de Pedro, que fazem com que o herói não se sinta amado por Henriqueta. 

Mas Alencar conduz as confusões da narrativa até o nível das contradições, que fazem com que a peça atinja um nível superior, ao expor ao espectador diferentes perspectivas a respeito dos conceitos em jogo. Assim, o amor romântico aparece em duas formas distintas: de um lado, o amor contido e conformado de Henriqueta, que se submete às vontades do destino; de outro, o amor decidido e ativo de Carlotinha, que luta por seu amor, não se rendendo às circunstâncias que conduziam à inevitável separação. A peça vai ainda além: há, de um lado, o amor ornamental defendido por Azevedo; de outro, o amor que é pura sinceridade proposto por Alfredo. Os dois rapazes personificam ainda duas posições contrárias a respeito da arte brasileira: o afrancesado Azevedo vê nela apenas imitação de modelos europeus, enquanto Alfredo – nesse sentido, porta-voz do autor – destaca seus traços de originalidade e nacionalismo. 
A peça consegue ainda registrar os novos costumes de uma sociedade que se urbaniza com rapidez. A novidade capitalista atinge as relações sociais, colocando em foco a chamada question d’argent (problemas financeiros), um dos temas mais frequentes do nascente Realismo francês. Ressalve-se que essa questão é focalizada de uma perspectiva romântica, na medida em que desvia os homens de sentimentos verdadeiros. Além disso, há uma cena em que se relata o interesse que as vitrines coloridas despertam em Pedro – sugestão de que aqueles novos hábitos teriam contribuição decisiva nos desvios morais do menino. 
A moral da peça é justamente esta: os efeitos do progresso sobre as relações sociais, principalmente para quem – como Pedro – não tem consciência plenamente formada pela educação. Esse argumento caminha no sentido da defesa da escravidão, como forma de tutela sobre o negro que, de outra maneira, estaria submetido aos desvios morais fornecidos pela liberdade plena. Na transmissão dessa moralidade tão peculiar, destaca-se a imagem do herói, Eduardo, moço equilibrado e honrado, cuja nobreza de caráter contrasta com os maus princípios defendidos por Azevedo, com manias europeizadas. 
O livro está disponível para download, confira.
No plano da linguagem, é louvável o esforço de Alencar no sentido de mostrar as potencialidades da língua brasileira, que serve tanto ao coloquialismo desregrado de Pedro quanto à retórica mais educada de Eduardo.


Fernando Marcílio
Mestre em Teoria Literária pela Unicamp
AUTOR





Te Contei, não ? - O demônio familiar - comédia de costumes no Teatro Alencariano


Vera Moraes

Algumas vezes mal interpretado por ousar demais, quanto ao tema e seus desdobramentos, José de Alencar intercalou sucessos e fracassos em sua carreira teatral. Passou pelo desgosto de ver algumas de suas peças retiradas sumariamente de cartaz, sob alegação de escancarar faces da corrupção do mundo social e politico diante de famílias presentes ao espetáculo teatral - fato que feria convenções impostas por instituições e pela sociedade da 2ª metade do século XIX:

D e pois de se projetar no meio intelectual do Rio de Janeiro como cronista e romancista, José de Alencar tornou-se um dramaturgo igualmente respeitado pelos seus contemporâneos. Entre 1857 e 1865, ele escreveu seis comédias e dois dramas, nos quais dialogou com o Romantismo e o Realismo, abordando principalmente assuntos que lhe possibilitavam debater os costumes e a vida social de seu tempo. (FARIA: 2005)


O teatro tinha muita importância na vida cultural e social do Rio de Janeiro e havia grande rivalidade entre as duas principais agremiações teatrais daquele tempo: o Teatro São Pedro de Alcântara e o Teatro Ginásio Dramático- esse último procurava oferecer ao público fluminense novidades da cena francesa. As comédias tinham a intenção de divertir o espectador e, na estréia da peça O Demônio Familiar, em 5 de novembro de 1857, a boa receptividade do público e da crítica provocou, de imediato, grande ressonância nos meios culturais da Corte.

Alencar cultivou a comédia realista de temas contemporâneos, tendo sempre, como objetivo principal, a denúncia das desordens da sociedade de seu tempo, no sentido de reafirmar a moral e os bons costumes que deveriam imperar na família brasileira.

Achando que deveria também mostrar a parte corrupta da população, Alencar pagou caro por sua ousadia ao retratar a prostituição, com As asas de um anjo, inspirada no romance francês A Dama das Camélias. Para surpresa do escritor, a peça foi retirada de cartaz depois da terceira apresentação, por ser considerada constrangedora à sociedade fluminense. Em sua defesa, José de Alencar escreveu um longo artigo explicando que "mostrava o vício para melhor castigá-lo".
A Literatura Clássica considerava de mau gosto apresentar cenas que viessem a causar constrangimentos ao público. Na Epístola aos Pisões, Horácio declarava que acontecimentos muito trágicos ou grotescos deveriam chegar à platéia através de uma carta, de um mensageiro, de um comentário, etc, mas, de forma alguma, a cena deveria ser exposta, de forma crua, aos olhares da platéia.

Também Aristóteles argumentava, em sua Arte Poética, que o pathos da tragédia de\·eria causar uma comoção específica - definida por ele como "terror" e "piedade" - ao espectador aturdido por fatos horrendos encadeados pela ação dramática. Mas esses fatos não deveriam ser representados ao vivo - a notícia chegaria na voz de alguém que presenciara a cena e que correria a espalhar a notí­cia, seguindo-se, em cascata, ações igualmente trágicas, precipitando o efeito catártico do desfecho. Sob essa perspectiva tradicional, o teatro inovador de José de Alencar parecia deslocado, aos olhos daquela sociedade, por ser demasiadamente ousado, distanciando-se dos padrões de comportamento ,vigentes.

Para João Roberto Faria, O Demônio familiar fez a crítica da escravidão doméstica num quadro de costumes em que se discutiam também as relações entre o amor, o casamento e o dinheiro. Ora, a escravidão
doméstica, no Brasil, revelou-se singular, no sentido em que escravos, sinhazinhas, rapazes da família e mesmo a senhora/ sinhá conviviam
de forma (quase) natural e pacifica com essa situação, a ponto de, no dizer de Gilberto Freire, ser o escravo considerado, muitas vezes, um agregado querido e necessário à família. Em vista desse quadro, muitos escravos abusavam da situação peculiar, procurando tirar vantagens, de todas as formas possíveis, das regalias que gozavam no ambiente doméstico.

Na peça O Demônio Familiar, Eduardo, apaixonado por Henriqueta, encontra-se separado da moça, em conseqüência de astúcias articuladas pelo moleque Pedro, escravo doméstico de confiança da família, que se infiltra em todos os ambientes da casa, tecendo uma rede de mal-entendidos e de intrigas. Nada lhe escapa, uma vez que é inteligente, sagaz, muito esperto e engendra planos mirabolantes que jogam com a vida das personagens. Pedro parece ser o embrião do "malandro", nome firmado por Antonio Candido em relação à personagem Leonardo Pataca, do romance Memórias de um Sargento de milícias. No ensaio A dia/ética da malandragem, Candido enfoca toda a desordem provocada pelo protagonista que, continuamente, desacata a ordem estabelecida pela sociedade daquela época, ironizando valores moralistas e cívicos arraigados em algumas personagens do romance.

Vejamos como se delineia o caráter do moleque Pedro, em algumas passagens da peça. No diálogo estabelecido entre Henriqueta e sua grande amiga Carlotinha, irmã de Eduardo, percebemos que tarefas domésticas não constituem exatamente o ponto forte daquele escravo.

CARLOTINHA - Anda lá! ... Oh! Meu deus! Que desordem! Aquele moleque não arranja o quarto do senhor,· depois mano vem e fica maçado.
HENRIQUETA - Vamos nós arranjá-lo?
CARLOTINHA - Está dito; ele nunca teve criadas desta ordem.
HENRIQUETA- (a meia voz) - Porque não quis!
CARLOTINHA - Que dizes? ... Cá está uma gravata.
HENRIQUETA - Um par de luvas.
CARLOTINHA -As botinas em cima da cadeira.
HENRIQUETA- Os livros no chão.
Como vemos, a desordem é grande! Não cumprindo a contento suas tarefas e estando sempre afastado do local de trabalho, somos levados a constatar que não existe punição para a desobediência do moleque, que é sempre tratado com carinho e condescendência por todos. Em outra passagem, mais uma vez verificamos que o malandrinho Pedro tem certa autonomia e não se preocupa com os horários da família e a disciplina da casa: 

CARLOTINHA (entrando) - O que quer, mano? Pedro saiu.
EDUARDO- Onde foi?
CARLOTINHA -Não sei.
EDUARDO - Por que o deixaste sair?
CARLOTINHA - Oral Há quem possa com aquele seu moleque? É um azougue,· nem à mamãe tem respeito.
EDUARDO - Realmente é insuportável; já não o posso aturar. Pedro articula namoros, assina bilhetes, não lhe escapa um mínimo detalhe importante, é persuasivo e, além de tudo, ganha uns bons trocados por informações preciosas que repassa aos pretendentes enamorados:

CARLOTINHA - Moleque, se tu me falares mais em semelhante coisa, conto a teu senhor. Olha lá!
PEDRO - Está bom, nhanhã; não precisa se zangar. Eu digo ao moço que nhanhà não gosta dele, que ele tem uma cara de frasquinho de cheiro ...
CARLOTINHA - Dize o que tu quiseres, contanto que não me contes  mais histórias.
PEDRO - Mas agora como há de ser! ... Ele me deu dez mil-réis.
CARLOTINHA - Para quê?
PEDRO - Para entregar bilhete a nhanhã. (Tira o bilhete). Bilhetinho
cheiroso;pape! todo bordado!
E o moleque Pedro termina confessando sua verdadeira inten­ção em tramar o casamento de Carlotinha com o moço rico Alfredo: ele quer ser promovido a cocheiro de sinhá D. Carlotinha:

PEDRO- Isto é um instante! Mas nhanhã precisa casar! Com um moço rico como Sr. Alfredo, que ponha nhanhã mesmo no tom,fazendo figuração.
Nhanhã há de ter uma casa grande, grande, com jardim na frente, moleque de gesso no telhado; quatro carros na cocheira; duas parelhas, e Pedro cocheiro de nhanhã.
CARLOTINHA - Mas tu não és meu, és do mano Eduardo.
PEDRO - Não Jaz mal,· nhanhã fica rica, compra Pedro; manda fazer para ele sobrecasaca preta à inglesa: bota de canhão até aqui (marca o  joelho); chapéu de castor,· tope de sinhá, tope azul no ombro. E Pedro só, trás, zaz zaz! E moleque da rua dizendo "Eh! Cocheiro de sinhá D. Carlotinha!"

Segundo seu projeto de uma dramaturgia de cunho realista, José de Alencar criou três tipos de comédia: a "comédia de rua", com a peça O Rio de janeiro, Verso e Reverso; a "comédia do interior da casa" com O Demônio Familiar e também a "comédia de sala" com O Crédito. O público, a família e a sociedade estão desenhados nessa trilogia.

Em outra peça teatral, Alencar voltou ao tema da escravidão, dessa vez no drama Mãe, que recebeu a seguinte apreciação de Machado de Assis: "melhor de todos os dramas nacionais até hoje representados - uma obra verdadeiramente dramática, profundamente humana, bem concebida, bem executada, bem concluída". E finaliza: "Para quem estava acostumado a ver no Sr. José de Alencar o chefe da nossa literatura dramática, a nova peça resgatava todas as divergências anteriores". Segundo Afrânio Coutinho, no livro A polêmica AlencarNabuco, a comédia realista O Demônio Familiar e o drama Mãe são peças irmãs, não só porque abordam problemas da escravidão, mas porque combinam esse elemento com aspirações nobres da pureza da família e da regeneração da sociedade.

José de Alencar dedicou a peça O Demônio Familiar à Imperatriz D. Teresa Cristina, pedindo-lhe permissão para tornar pública a reverência. O fato de Alencar dar o nome de Pedro - o mesmo do Imperador - ao moleque endiabrado da comédia, motivou uma série de insinuações maldosas entre seus desafetos, especialmente por parte do crítico Paula Brito, em longo artigo publicado no jornal A Marmota.
O dramaturgo Artur Azevedo também acolheu essa idéia, afirmando que D. Pedro II teria ficado seriamente ofendido com a coincidência de nomes, fato que teria provocado a animosidade que o Imperador sempre demonstrou em relação a José de Alencar. Segundo Flávio Aguiar (1984), essas insinuações calaram fundo em Alencar, pois O Demônio Familiar fora dedicada à Imperatriz, nos termos mais sublimes: "Ela vos pertence, pois, Senhora, e por dois títulos: - porque sois a mãe da grande família brasileira, e porque vossa vida é um exemplo sublime de virtudes domésticas".

As reações polêmicas foram, entretanto, isoladas, pois, ao término do espetáculo, a peça e seu autor foram aplaudidos com entusiasmo pela platéia. O público afirmava que O Demônio Familiar era diferente de tudo quanto a dramaturgia brasileira havia produzido até então e seus propósitos renovador e nacionalista não passaram despercebidos da crítica teatral.

Entretanto, José de Alencar, incomodado com as acusações do crítico Paula Brito, publicou, no Diário do Rio de Janeiro, um ensaio intitulado A Comédia Brasileira, em que se defendia polidamente das ofensas recebidas, ao mesmo tempo em que justificava o tema abordado: com essa peça, deixava de lado o gênero ligeiro de Verso e Reverso e introduzia, na dramaturgia brasileira, a comédia realista, cujas características fundamentais eram a moralidade e a naturalidade.
Machado de Assis, também em comentários vinculados na imprensa, anotou semelhanças entre as personagens Pedro e Fígaro de O Barbeiro de Sevilha. Essa ideia passou a circular, aumentando o ma lestar causado pela coincidência de nomes, uma vez que, tanto Fígaro quanto Pedro, articularam-se sempre em torno da calúnia. No caso de Pedro, ao usar essa arma, ele aproxima e afasta pessoas, ameaçando, no final, o equilibrio da família que o acolhe. Seria apenas ingenuidade da personagem a construção de uma série de intrigas que sustentam e perpassam a ação de O Demônio Familiar? Não parece ser, a exemplo
da passagem em que o moleque afasta Eduardo de Henriqueta, moça pobre, para aproximá-lo de uma viúva rica. Suas mentiras vão, assim, desatando nós e formando novos equívocos.

JORGE- Deixa ver! Bravo! ... Que belo! (Tirando um papel). Que é isto?
PEDRO - Um verso! ... Oh! Pedro vai levar à viúva!
JORGE -Que viúva?
PEDRO - Essa que mora aqui adiante!
JORGE- Para que?
PEDRO- Nhonhô não sabe? Ela tem paixão forte por Sr. moço Eduardo; quando vê ele passar. coração faz tuco, tuco, tuco! Quer casar com doutor.
JORGE - E mano vai casar com ela? 
PEDRO - Pois então! Mas não vá agora contar a todo o mundo.
JORGE -E ele gosta daquela mulher tão feia? Antes fosse com D. Henriqueta.
PEDRO - Menino não entende disto! Sinhá Henriqueta é moça bonita mas é pobre! A viúva é rica, duzentos contos! Sr. Moço casa com ela e fica capitalista, com dinheiro grosso! Compra carro e faz Pedro cocheiro! ... Leia o verso, nhonhô.
Comentando o episódio sobre o nome do escravo, Flávio Aguiar afirma que esse incidente pareceu a José de Alencar intriga bem articulada e intencional de seus desafetos, motivando a redação de uma carta intitulada A Comédia Brasileira, publicada no Diário do Rio de Janeiro, a 14 de novembro de 1857, em que Alencar qualifica o fato de "crítica de esquina". Anteriormente, o escritor Francisco Otaviano, em crítica publicada no dia 7 do mesmo mês, no Correio Mercantil, assim expressou sua opinião:
Os caracteres que ele descreve são nobres; as paixões de seus protagonistas são confessáveis: nenhum sentimento mau lhe desbota as faces.
Somente há ali dous tipos necessários para o enredo, que mostram que não há belo sem senão; que a sociedade fluminense tem no meio de suas galas algumas misérias bem feias. Um desses tipos é apenas ridículo; o outro é perverso, e o que é mais, perverso sem o saber,
sem o querer, como por instinto, como por desejo de fazer o bem!
A peça O Demônio Familiar, como já foi dito anteriormente, absorve características do teatro realista francês que havia lançado a moda do raisonne11r- uma personagem cuja função seria acompanhar
o desenvolvimento da intriga, formulando exemplos de ordem moral,
construindo chaves de ouro, sabedorias do cotidiano, etc. O raisonner atuaria ora como um alter ego do autor, ora como porta-voz da opinião pública e da moral social. Na peça analisada, essa função caberia ao protagonista Eduardo, que assume, dessa forma, duplo papel. O herói, nessa concepção de teatro, apresenta-se como um dos catalisadores da ascensão da sociedade brasileira ao mundo da civilização e da cultura.
No desfecho, a alforria de Pedro levanta mais uma vez a questão sobre atitudes de José de Alencar em relação ao tema da escravidão.
Depois de tantas trapalhadas de Pedro, Eduardo alforriou o escravo para que ele fosse livre, sendo, assim, premiado pelas contravenções? (e aí teríamos a confirmação de uma atitude abolicionista de Alencar).
Ou, segundo outra interpretação, o afastamento de Pedro seria uma punição por suas levianas mentiras, fazendo com que ele perdesse as regalias domésticas e o protecionismo de toda a família? Esse modo de ver faz jus ao comentário final de Eduardo:

EDUARDO- E agora, meus amigos, façamos votos para que o demônio familiar das nossas casas desapareça um dia, deixando o nosso lar doméstico protegido por Deus e por esses anjos tutelares que, sob as formas de mães, de esposas e de irmãs, velarão sobre a felicidade de nossos filhos! ...
Alencar também faz a apologia do "amor romântico", quando devolve, a uma personagem da peça, o Sr. Azevedo, pretendente rico de Henriqueta, a quantia em dinheiro que seu pai tomara emprestado a esse
senhor. Em conseqüência da ação, Henriqueta tornara-se devedora de Azevedo, não podendo, dessa forma, desfazer a promessa de casamento.
O final moralista evidencia as intenções de José de Alencar, que afasta o caluniador, repondo o equilibrio no meio doméstico, condenando transações sentimentais enredadas ao poder do dinheiro e ao prestígio econômico:

EDUARDO- Sim, meu amigo. Eu amo Henriqueta e para mim esse casamento (referindo-se ao compromisso da moça dom o Sr. Azevedo) sena
uma desgraça; para o senhor era uma pequena questão de gosto e para seu pai um compromisso de honra. Hoje mesmo pretendia solver essa obrigação.
Aqui está uma ordem sobre o Souto; o Sr. Vasconcelos nada lhe deve.
VASCONCELOS - Como? Fico então seu devedor?
EDUARDO- Essa divida é o dote de sua filha.
HENRIQUETA - Oh! Que nobre coração!
EDUARDO-Quem mo deu?
HENRIQUETA- Sou eu que sinto orgulho em lhe pertencer, Eduardo.
D. MARIA - Mas, meu filho, dispões assim da tua pequena fortuna. O que te resta?
EDUARDO - Minha mãe, uma esposa e uma irmã. A pobreza, o trabalho e a felicidade.

Na visão de Flávio Aguiar, essa peça é abolicionista, mas de modo conservador: olha a escravidão enquanto "mal social", embora esse olhar se aproxime mais do senhor branco e sua pureza familiar que dos inconvenientes para o negro escravo. O movimento da peça aponta para uma melhor forma de organização social, tida como mais civilizada e libertadora frente à prisão moral da escravidão, porque além de o escravo ascender ao mundo do trabalho livre, o senhor também ficaria livre daquele escravo e dos inconvenientes causados por suas intrigas.
O Demônio Familiar também aponta para cenas do cotidiano brasileiro, de acordo com o programa de nacionalização de nossa cultura e
de nossa arte proposto por José-de Alencar. O autor consegue, assim, estabelecer um equilibrio entre o propósito renovador da arte dramá­tica do século XIX e a formação de uma Nação autêntica, com identidade própria, idéias veiculadas e legitimadas pela trama dessa bem
sucedida comédia.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR, Flávio. A Comédia Nacional no Teatro de José de Alencar. São
Paulo: Ática, 1984.
ALENCAR, José de. Dramas. Edição preparada por João Roberto Faria.
São Paulo: Martins Fontes, 2005. (Coleção Dramaturgos do Brasil).
ALENCAR, José de. O Demónio Familiar. Comédia. Campinas, SP:
Pontes, 2002.
ARISTÓTELES. A poética cláJSica/ Aristóteles, Horácio, Longino. Por
Roberto de Oliveira Brandão. Tradução direta do grego e do latim por
Jaime Bruna. São Paulo: CultrL'<, 1997.
BARTHES, Roland. O Grau z�ro da Escritura. São Paulo: Cultrix, 1986.
CANDIDO, Antonio. A educarão pela noite & outros emaios. São Paulo:
Á___
tica, 1989.
___
. Literatura e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1976.
. O Romantismo no Bra.•il São Paulo: Humanitas/FFLCH/SP,
2002.
FARIA, João Roberto. José de Almcar e o teatro. São Paulo: Perspectiva:
Editora da Universidade de São Paulo, 1987.
MORAES, Vera Lucia Albuquerque de. Entre Xarriso e Eros: a constru­
ção do discttrso amoroso em José de Almcar. Fortaleza: Editora da UFC, 2005.
REMÍGIO, Ana e :.IOR.A..ES, \'era (Organizadoras). Discurso e memória
em José de Alencar. Série Releituras de Alencar. Fortaleza: Editora da
UFC, 2004.
ROBERTO, Schwarz. ''A Importação do romance e suas contradições
em Alencar". ln: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Ruas Cidades, 1992.
SANTIAGO, Silviano. "O entre -lugar do discurso latino-americano."
ln: Uma literatura nos Trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1989. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Te Contei, não ? - Édipo rei

Édipo Rei,
de Sófocles, compõem a primeira parte da trilogia sobre a família dos Labdácias (sendo Édipo em Colono a segunda parte. E Antígona, a terceira). A obra conta, na visão do autor, o mito que permeava a cultura grega por mais de oito mil anos. Tendo sido, segundo Aristóteles, a tragédia mais perfeita escrita até seu tempo e, devido a sua perfeição, deveria servir de modelo às demais. Fato é que Édipo Rei extrapolou os limites da arte, tendo servido de base para o famoso complexo de Édipo, conceituado por Freud. Para Michael Focault ao estudar acerca das práticas judiciárias da Grécia Antiga. E também, para Nietzsche basear seus estudos sobre a cultura grega. Por tantas releituras e interpretações, a obra é, provavelmente, a mais analisada (tanto sua forma, quanto seu conteúdo) dentro da cultura ocidental.

Artigo de Opinião - Por um teatro mais 'Salina' - Marcus Faustini

A peça
nos permite ver atores negros em papéis complexos e não subjugados

quinta-feira, 19 de março de 2015

Resenhando - De Donga a Diogo Nogueira - Um século de batuque

RIO — No primeiro dia de ensaio para o musical “Sambra”, nada estava decidido, claro, a não ser as intenções de Diogo Nogueira: “Quero fazer de tudo”, disse ele a Gustavo Gasparani, o autor e diretor da montagem que estreia hoje no Vivo Rio, às 21h30m, e cumpre quatro únicas sessões cariocas até domingo, antes de embarcar para São Paulo, onde terá sessões entre os dias 26 e 29.

Te Contei, não ? - O Teatro de José de Alencar


A origem do teatro alencariano: o ‘teatro ao correr da
pena’ e a fundação do Ginásio Dramático
Em 1857, José de Alencar já era um escritor
consagrado entre o público. Iniciara sua carreira na
seção Ao correr da pena, como folhetinista das páginas
dos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro
entre 1854 e 1855. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

O demônio familiar - outros olhares ...

O demônio familiar 
de José de Alencar 


Se José Bonifácio viu com temor os negros brutalizados pela escravidão e a ameaça que representavam para a jovem nação em formação, José de Alencar - político, romancista, autor de peças teatrais – também tratou do tema em sua peça O demônio familiar, que foi encenada pela primeira vez em 1857. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Resenhando - Bilac vê estrelas

Estreia de 'Bilac vê estrelas' chama atenção para escassez de trilhas sonoras inéditas em musicais

Baseado em livro de Ruy Castro, espetáculo que tem canções originais de Nei Lopes é caso raro na cena carioca atual


POR DEBORA GHIVELDER

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Te Contei, não ? - Ariano Suassuna ( 1927 - 2014 )

Na segunda-feira, dia 21, telefonei para Ariano Suassuna. Fiquei surpreso com a alegria e vitalidade da voz rouca do outro lado da linha. Falamos sobre a Academia Brasileira de Letras, sobre uma citação recente que ele tinha feito do existencialista Albert Camus, – mas, principalmente, sobre nossa amizade. Não imaginava que seria a conversa de despedida. Desliguei o telefone por volta do meio-dia. Depois, fiquei sabendo pela família que, naquele dia, Ariano tinha ido ao banco e que teve muito apetite no almoço. À noite, foi levado às pressas ao hospital, depois de sofrer um AVC. No final da tarde do dia 23, não resistiu. Tinha 87 anos.
Conheci Ariano há 25 anos. Tinha muito interesse pela literatura de cordel, e ele disse que eu aparecesse em sua casa. Eu era um jovem estudante e pensava que o grande escritor fizera o convite por delicadeza. Quando bati à porta de sua casa, no bairro de Casa Forte, no Recife, percebi que não fora uma formalidade. Passamos a tarde conversando. A generosidade era uma característica única do mestre Ariano, como costumava chamá-lo. Desde então, passei a visitá-lo com frequência. Nossas conversas ficaram mais longas. Num dos últimos encontros, ele estava emotivo. “Não tenho meio-termo não, Gerson. Ando muito emocionado. Ou fico à beira de chorar. Ou então estou rindo, a gargalhar. Isso não é normal”, me disse, aos risos.


sábado, 16 de agosto de 2014

Crônica do Dia - Raízes do Brasil



Luiz Roberto Nascimento Silva, O Globo

A morte duplamente indesejada e quase simultânea de João Ubaldo e Ariano Suassuna nos faz pensar sobre a importância da literatura nordestina na construção da identidade do país. Se recuarmos no tempo, veremos que no século XIX um escritor como Machado de Assis, que é um cânone de nossa língua, produzirá toda a sua obra extraordinária em torno do Rio de Janeiro, então capital do país.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Te Contei, não ? - O céu está em festa

A essa altura, o Encourado está ainda mais zangado porque não consegue cumprir sua parte no julgamento – e, coitadinho, por força do papel, nem se divertir ele pode. A Compadecida, dessa vez, foi dispensada de interceder pelo homem alto e magro que, recém-chegado ao céu, reúne a maior plateia já vista de anjos e santos, todos embevecidos com sua aula-espetáculo. Ariano Suassuna ainda não percebeu, mas Manuel, o Jesus negro da peça “Auto da Compadecida”, teve de se recolher a um canto discreto para não comprometer a aura divina: às gargalhadas, ele ouve as histórias do escritor que transformou o sertão num clássico da cultura nacional e sucesso de público internacional.

sábado, 2 de agosto de 2014

Artigo de Opinião - 'Auto da Compadecida', um clássico - Barbara Heliodora

Ariano Suassuna é a prova de que uma cultura vasta e o conhecimento das grandes tradições da arte ocidental parecem ser a melhor base para a criação de uma obra essencialmente brasileira; nascido e criado no nordeste, sua obra dramática foi desde o início influenciada tanto pelo teatro de mamulengos e pela literatura de cordel, quanto por tudo que ele conhecia do teatro universal; e com o tempo Suassuna se dedicou fundamentalmente àquelas expressões de suas origens, integrando-as com as formas eruditas que lhe pareciam ser o melhor caminho para se conseguir estabelecer uma comunicação plena entre a riqueza regional e o total do Brasil contemporâneo. Desde cedo a forma dramática foi sua favorita, e sua obra teatral é vasta, com boa parte dela merecendo atenção e aplauso; no entanto, Suassuna, no teatro, pagou o preço de ter todas as peças que escreveu comparadas ao “Auto da Compadecida”, um dos raríssimos clássicos da dramaturgia brasileira, tão extraordinário que sacrificou, com a possível exceção de “O Santo e a Porca” e “O Casamento Suspeitoso”, todo o resto de suas companheiras.

Personalidades - Ariano Suassuna - Uma das grandes vozes do sertão, levada ao teatro, à TV e ao cinema

RIO - A criação literária de Ariano Suassuna nasce com o teatro. E foi como autor de clássicos como “O auto da compadecida”, “A farsa da boa preguiça” e “A pena e a lei” que ele firmou seu nome como um dos maiores autores do teatro brasileiro, equilibrando erudição e cultura popular. Reconhecido como uma das grandes vozes do sertão, Suassuna passou infância e adolescência na pequena Taperoá, na Paraíba, onde se familiarizou com a cultura da região, interessando-se pelo homem nordestino, seus causos, costumes e questões — elementos que, mais tarde, serviriam de estrutura à sua dramaturgia e moldariam seu “mundo mítico”, como dizia.

Personalidades - Ariano Suassuna - Dramaturgo, escritor e poeta popular

Criador do Movimento Armorial, autor dedicou a vida à arte e à defesa ferrenha da cultura brasileira nova obra passava por ajustes.


Genial. Quixotesco. Criativo. Conservador. Perfeccionista. É extensa a lista de palavras ligadas à vida e à obra de Ariano Suassuna, mas nenhuma se aplica melhor ao dramaturgo, escritor e poeta do que o adjetivo popular. Capaz de agradar de intelectuais a iletrados com seu jeito simples e comunicativo, que atraiu multidões ao longo de décadas para suas aulas-espetáculo, e com sua afiada produção em prosa e verso, o criador do Movimento Armorial, tido por muitos como um guerrilheiro cultural, dedicou a vida à arte e à fantasia. Até porque, costumava dizer, uma obra é universal na medida em que contém uma quantidade maior de sonho humano.

Nascido em 16 de junho de 1927 em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, capital da Paraíba, Ariano Vilar Suassuna era filho de João Suassuna, então governador de seu estado natal. Com o fim do mandato, um ano depois, toda a família se mudou para o interior. O velho contador de histórias do sertão tinha apenas 3 anos quando um fato trágico marcou sua infância. No desenrolar da Revolução de 1930, um pistoleiro de aluguel assassinou seu pai com um tiro pelas costas, numa rua do Rio de Janeiro. O assassinato foi motivado por boatos que apontavam o patriarca da família Suassuna como mandante da morte de João Pessoa, seu sucessor no governo, fato que serviu de estopim para a revolução. Um ambiente assim, com dívidas de sangue e rivalidade entre famílias, cobrava dos órfãos a vingança. Mas, um dia antes de ser assassinado, João Suassuna deixou uma carta aos nove filhos pedindo que eles não se tornassem assassinos por sua causa.

Ariano Suassuna obedeceu. Em vez disso, dizia estar perto de perdoar os criminosos que mataram seu pai. A mãe ajudou, dizendo que o pistoleiro responsável pelo crime já havia morrido (o que era mentira). Com a tragédia, a família mudou-se para a pequena cidade de Taperoá, no interior da Paraíba. E Ariano herdou a biblioteca do pai, onde encontrou livros fundamentais para sua formação. Um dos mais importantes foi "Os sertões", de Euclides da Cunha. A obra lhe apresentou um dos personagens mais marcantes de sua vida: Antônio Conselheiro, profeta e líder de Canudos.

Em 1942, Suassuna foi para Recife concluir o ensino básico. Anos depois, na faculdade de Direito, ajudou a fundar o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, encenou a primeira peça: "Uma mulher vestida de sol". Após nove anos, levaria aos palcos seu texto mais conhecido, "Auto da Compadecida", que ganharia adaptações nas telas (leia na página seguinte).

Por causa do teatro, deixou o Direito de lado seis anos após ter se formado. O romance surgiu mais tarde em sua vida. Em 1971, Ariano Suassuna lançou seu "Romance d'a Pedra do Reino e o príncipe do sangue vai-e-volta", com nome comprido como seus cordéis tão adorados e pensado para ser uma trilogia. Com o livro, o escritor avança em relação à literatura regionalista dos anos 1930, representada por João Guimarães Rosa e José Lins do Rego. Mais tarde, Ariano Suassuna diria que "A Pedra do Reino" era, de certa forma, uma tentativa de trazer seu pai de volta à vida.

Havia quem acusasse o escritor de lutar contra moinhos de vento: ele se apresentava como um defensor da cultura popular brasileira, contra a invasão da indústria cultural norte-americana. Falava mal de Madonna e Michael Jackson. Não à toa, quando foi secretário de Cultura do governo Miguel Arraes, nos anos 1990, tornou-se um ferrenho opositor do maracatu eletrônico e do manguebeat. Recusava-se, por exemplo, a chamar Chico Science, o vocalista da Nação Zumbi, pelo nome artístico. Dizia "Chico Ciência". Quando o cantor morreu, em 1997, ajudou a carregar seu caixão, chorando muito.

A defesa da cultura nacional, que muitas vezes lhe rendeu o rótulo de xenófobo, já vinha no sangue e no nome da família. Na onda nacionalista depois da Independência, em 1822, vários brasileiros adotaram nomes indígenas. Seu bisavô Raimundo Sales Cavalcanti de Albuquerque escolheu Suassuna, de origem tupi, e nome de um riacho da região onde a família vivia. Nos anos 1970, fazendo jus ao nacionalismo da linhagem, Ariano fundou o Movimento Armorial, que defendia a criação de uma cultura erudita com bases na cultura popular — e toda a sua obra orbita em torno desse ideal.

Em 1989, o sertanejo foi eleito para a cadeira de número 32 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono era Araújo Porto-Alegre. Sexto ocupante do assento, Suassuna nunca foi um imortal de frequentar os eventos da instituição. Era uma espécie de filho pródigo da ABL.

Para além de sua obra, o escritor paraibano ficou famoso também por dar aulas em que dissecava a cultura brasileira, as suas origens ibéricas, a tradição dos violeiros, dos cantadores, das rabecas, dos cordéis. Eram aulas-espetáculo. E a última foi na sexta-feira passada, no 24º Festival de Inverno de Garanhuns, a 230 quilômetros de Recife. O Teatro Luiz Souto Dourado ficou lotado, como sempre acontecia nesses eventos. Um dos motivos de tanto sucesso era o bom humor, uma de suas marcas. Não que tenha sido sempre assim. Suassuna atribuía o aparecimento do humor em sua vida ao encontro com Zélia, sua mulher há mais de 50 anos. Dizia que ela havia "desatado alguma coisa" dentro dele. "O riso a cavalo e o galope do sonho são as duas armas de que disponho para enfrentar a dura tarefa de viver", escreveu em "A Pedra do Reino".

Nas últimas décadas, Suassuna trabalhava em um novo livro, "O jumento sedutor". Chegou a mandar uma versão final para a editora José Olympio em maio, mas depois pediu para fazer ajustes. Agora, a decisão de publicar a obra fica para a família. A lentidão fazia parte do processo de criação: escrevia e reescrevia, várias vezes, à mão. Depois, copiava para a máquina de escrever e, só então, corrigia. Era aí que o escritor passava tudo a limpo, novamente à mão. Como ilustrava os próprios livros e ainda parava para dar suas famosas aulas-espetáculo pelo país, demorava mais ainda.

Além do amor pela literatura, havia espaço para o futebol: seu time do coração era o Sport Club do Recife, que até o homenageou em seu uniforme em 2013 com uma frase que ele costumava repetir: "Felicidade é ser Sport". Suassuna tinha fama de pé quente.

Entre as muitas homenagens que recebeu, uma das que mais o marcaram foi o desfile da escola de samba Império Serrano, que levou para a avenida o enredo "Aclamação e coroação do imperador da Pedra do Reino Ariano Suassuna", em 2002. "Um escritor que ama o seu país não pode querer homenagem maior que esta", disse à época.

Em 2007, ele assumiu a secretaria de Cultura de Pernambuco a convite do governador Eduardo Campos, e chegou a ocupar outros cargos até deixar o governo recentemente, em abril de 2014.

O ano de 2007 também foi marcado pela celebração dos 80 anos do escritor em todo o Brasil. As homenagens o levaram a viajar de Norte a Sul do país. Uma epopeia para um homem que, além de apreciar o sossego, detestava avião. Mesmo assim, seguia adiante. Mas brincava: se soubesse que chegar aos 80 anos daria tanto trabalho, teria ficado nos 79.

No dia 21 de agosto de 2013, ele foi atendido no Real Hospital Português, em Recife, após um infarto. Uma semana depois, passou mal e voltou a ser internado, sendo submetido a uma arteriografia para corrigir um aneurisma. Apesar do susto, voltou à rotina.

Suassuna morreu no fim da tarde de ontem, aos 87 anos, no mesmo hospital, onde estava internado desde segunda-feira, depois de sofrer um acidente vascular cerebral hemorrágico. Passou por uma cirurgia de emergência, entrou em coma e não resistiu. Velado desde a noite de ontem no Palácio do Campo das Princesas, será sepultado às 16h de hoje no Cemitério Morada da Paz, na região metropolitana de Recife. Deixa a viúva Zélia, seis filhos e 15 netos.

"Meu teatro procura se aproximar da parte do mundo que me foi dada. Um mundo de sol e de poeira, como o que conheci em minha infância" (Ariano Suassuna)