terça-feira, 3 de julho de 2012

Crônica do Dia - Grave - Caetano Veloso


No domingo passado chamei de “agudo” o acento que indica a crase. E isso em meio a uma animada reafirmação de minha exigência e minha vaidade quando se trata do bom manejo da língua portuguesa. Ou foi falha de memória senil ou autossabotagem neurótica. Logo o meu amadíssimo acento grave, de que sinto tanta falta nos casos em que ele, até aquela mudança ortográfica dos anos 1970, apontava a sílaba subtônica dos advérbios de modo construídos a partir de adjetivos proparoxítonos, como, por exemplo, “gràficamente”. Passei anos achando feio ler (e escrever) “graficamente” (ou “solidamente”, em vez de “sòlidamente”; ou “rapidamente”, em vez de “ràpidamente” — a lista é enorme), em que a palavra pode parece ter nascido de um adjetivo paroxítono, “grafica”, “solida”, “rapida”... Deus me livre. Também nos casos do sufixo “zinho”, que forma diminutivos, colado a oxítonos acentuados, como “café”, “mocó”, “vatapá”. Bom mesmo era o “cafèzinho

Não li esse artigo com o erro grave de desrespeitar o acento grave dizendo-o agudo: escrevi-o correndo e fui para o aeroporto tomar um avião para vir a Nova York, onde ainda estou — escrevendo às pressas este lamento, já que corro para tomar o avião de volta ao Rio. Maria Emília, da Companhia das Letras (que revisava meus textos para “Verdade tropical”), foi quem me contou, por e-mail. Pensei logo no Xexéo (aliás, gosto da atenção que ele dá a erros de português). Aqui, tive de me haver foi com o inglês falado. Não tanto por mim, que me viro, mas pelos que o usam desde sempre ou que passaram a ser fluentes nele: sempre me lembro de Millôr, ainda no Pif-Paf de “O Cruzeiro”, descrevendo sua vinda aos States e dizendo que, aqui, sentia permanentemente falta das legendas. Mas pude dizer, numa conversa com curadores e diretores do MoMA, em inglês, que o samba deve também ser visto como um acontecimento na História da língua portuguesa. Enquanto sentia saudades da abundância de acentos na escrita de Guimarães Rosa (contaram-me que ele dizia que o português precisava de mais, não de menos acentos), me consolava dizendo a americanos, venezuelanos, peruanos, mexicanos, brasileiros e portugueses ligados ao MoMA que não teríamos samba se não falássemos português.

Rosa escrevia “dôido” — pelo menos no “Grande sertão: veredas”. Não sei por quê. Digo que pelo menos no romance, pois há variações notáveis de escolhas ortográficas de conto para conto. Há um em que a palavra “dança” é sempre grafada com “s”, como em francês: “dansa”. Tampouco sei a razão. Lembro-me de Antônio Risério adotando essa grafia num livro, não por causa de Rosa, mas por conta de uma conversa com uma nossa amiga, que observava que o esse (e aqui me volta a saudade dos tempos pré-anos 1970, em que o acento diferencial nos assegurava de estar dizendo, por escrito, “esse” e não “êsse”: desde aquela década fatídica não temos como saber se se trata de um ou de outro, a não ser por uma rápida reflexão sobre o contexto), o esse, eu dizia, diferentemente do cê-cedilha, que parece ter uma roda presa, descreve em sua forma sinuosa o movimento de quem baila.

Nova York continua linda. E peço que notem que, depois da argumentação do meu querido consogro Sergio Flaksman, adotei a forma consagrada na imprensa de escrever o nome da cidade americana, desistindo de teimar, como só fazíamos eu e o “Jornal do Brasil”, em escrever Nova Iorque. Se bem que, faz pouco, escrevi, aqui mesmo na coluna, sobre algum novaiorquino — e me perguntei (intimamente — e o digo com pena de não poder dizer “ìntimamente” —: não pus isso no artigo) se Sergio escreveria “nova-yorkino”. Union Square estava cheia de pessoas incríveis, uma mistura fascinante de tribos e raças, muitas meninas com shortinhos como a gente pensa que só vê no Brasil. Aliás, esses shortinhos mínimos que tantas vezes amigos argentinos — e alguns brasileiros — atribuem a alguma nossa vulgaridade específica foram invenção inglesa, da época em que eu vivia lá: na esteira da já consagradíssima m i n i s s a i a , criou-se o que era chamado de “hotpants”, os shorts curtíssimos das meninas de hoje dos bailes funk, das escolas finas da Zona Sul, daspraças de Barbacena, da Union Square.

Em suma, para exagerar no estilo fragmentário, adorei que Francisco Bosco ressaltasse a beleza e a dignidade estilística dos artigos de Otto Lara Resende. Ele tem razão. Também em imaginar que Otto, em pessoa, deveria ser encantador. Ele era. Conversamos somente uma vez, mas longamente, numa festa em que também estavam Tom Jobim e Dorival Caymmi (e João Gilberto ficou dentro do carro, na porta, sem entrar, mas mandando chamar de vez em quando um ou outro amigo para trocar umas palavras que o inteirassem um pouco do que se passava lá dentro). Ou estou confundindo duas festas na casa de Zanini? Otto e eu tivemos um desencontro pelas páginas dos diários. Ele me atribuiu alguma declaração sobre Collor que não procedia. Escrevilhe uma carta pessoal. Ele respondeu divinamente. E conversamos sobre isso e, mais, sobre assuntos leves e vários, ele sempre se saindo com tiradas despretensiosas e irresistivelmente engraçadas. Não eram piadas que fizessem gargalhar. Eram observações levemente cômicas mas agudamente penetrantes que causavam felicidade pela oportunidade, pelo poder revelador e pela simples exposição de uma inteligência desembaraçada. Não o imagino cometendo o lapso de trocar o nome de um acento gráfico.

Jornal O Globo

Te Contei, não ? - Novas regras para aposentadoria


Na última quarta-feira (27), o ministro Guido Mantega se reuniu com representantes da Força Sindical para discutir alternativas ao fator previdenciário. Na ocasião, o governo pediu um prazo até o dia 10 de julho para apresentar uma proposta em substituição ao fator; e cogitou adotar uma idade mínima para o brasileiro se aposentar.
Atualmente, a proposta mais comentada é a chamada Fórmula 85/95, que soma a idade ao tempo de contribuição até atingir o valor 85 para as mulheres e 95 para os homens. A proposta é a mais aceita pelos representantes dos trabalhadores.
Considerando esta hipótese, a idade mínima e as regras atuais para a aposentadoria, o portal InfoMoney ouviu o consultor previdenciário e membro da Comissão de Direito Previdenciário do IASP (Instituto dos Advogados de São Paulo), Ivandick Rodrigues, a fim de entender o que muda em cada alternativa e ver com quanto um brasileiro que ganha hoje R$ 4 mil se aposentaria nos três casos.

Regras atuais

Hoje, explica Rodrigues, a fórmula para o cálculo da aposentadoria considera o chamado fator previdenciário. Criado em 1999, o fator compreende quatro elementos: alíquota de contribuição, idade do trabalhador, tempo de contribuição à Previdência Social e expectativa de sobrevida do segurado, conforme tabela do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Nas regras atuais, para se aposentar por tempo de contribuição, o segurado deve contribuir para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) pelo período de 35 anos, se homem, ou 30 anos, para as mulheres. As alíquotas variam de 8% a 11%, com o teto do salário de contribuição em R$ 3.916,20.
Neste contexto, o salário benefício corresponde à média aritmética simples dos maiores salários de contribuição equivalentes a 80% de todo o período contributivo, multiplicado pelo fator previdenciário.
“Com a fórmula atual, quanto menor o tempo de contribuição e a idade, maior será o impacto da alíquota do fator, reduzindo o valor do benefício proporcionalmente ao lapso de tempo que o segurado irá receber a prestação”, diz o especialista.

Simulação

Para entender o impacto que o fator previdenciário tem na aposentadoria do brasileiro, Rodrigues fez duas simulações. A primeira considera a fórmula atual e a segunda a de 85/95.
Pelas regras atuais, explica o especialista, em vez de receber o valor máximo da aposentadoria, que hoje é de R$ 3.916,20, um segurado com 53 anos de idade e 35 anos de contribuição e salário de R$ 4 mil, teria um benefício de R$ 2.607,40. Ou seja, por conta do impacto do fator previdenciário, a pessoa teria uma perda de 34% no valor do benefício.
Na fórmula 85/95, o trabalhador não teria perdas no valor do benefício. Em outras palavras, uma pessoa com salário de R$ 4 mil, receberia o teto da aposentadoria, R$ 3.916,20. Por outro lado, para receber este valor, um homem com 53 anos de idade deveria contar com 42 anos de contribuição. Outra hipótese seria o trabalhador se aposentar com 35 anos de contribuição e 60 anos de idade.
Assim como na fórmula 85/95, a hipótese do governo de adotar uma idade mínima para o brasileiro se aposentar (combinada com um tempo de contribuição) sem considerar um fator previdenciário também não traria perdas no valor do benefício. Porém, explica o advogado, este cálculo acabaria penalizando as pessoas que começaram a trabalhar mais cedo.

Quem seria afetado?

De acordo com Rodrigues, caso a fórmula para o cálculo da aposentadoria sofra alterações, seriam afetados os profissionais que já estão no mercado de trabalho, mas ainda não cumprem os requisitos para a aposentadoria.
Entretanto, alerta ele, em outras ocasiões, o governo implantou uma regra de transição para quem estava próximo de se aposentar.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Norte pobre, Sul rico / Norte rico, Sul pobre

As treze colônias do norte tiveram, pode-se dizer, a felicidade da desgraça. Sua experiência história mostrou a tremenda importância de não nascer importante. Porque ao norte da América não havia ouro, nem prata, nem civilizações indígenas com densas concentrações de população já organizada para o trabalho, e nem solos tropicais de fertilidade fabulosa na franja costeira que os peregrinos ingleses colonizaram. A natureza se mostrou avara, e também a história: faltavam os metais e a mão de obra escrava para arrancar os metais do ventre da terra. Foi uma sorte. Além disso, desde Maryland até a Nova Escócia, passando pela Nova Inglaterra, as colônias do norte, devido ao clima e às características dos solos, produziam exatamente o mesmo que a agricultura britânica, isto é, não ofereciam à metrópole uma produção complementar.
Muito diferente era a situação das Antilhas e das colônias ibéricas de terra firme. Das terras tropicais brotavam o açúcar, o tabaco, o algodão, o anil; uma pequena ilha no Caribe, do ponto de vista econômico, era mais importante para a Inglaterra do que as treze colônias matrizes dos Estados Unidos.
Essas circunstâncias explicam a ascensão e a consolidação dos Estados Unidos como um sistema economicamente autônomo, que não drenava para fora a riqueza gerada em seu seio. Eram frouxos os laços que uniam as colônias à metrópole; em Barbados e na Jamaica, em troca, só se reinvestiam os capitais indispensáveis para repor escravos na medida em que iam faltando. Não foram fatores raciais, como se vê, os que decidiram o desenvolvimento de uns e o subdesenvolvimento de outros: as ilhas britânicas das Antilhas não tinham nenhum vínculo com a Espanha ou Portugal. A verdade é que a insignificância das Treze Colônias permitiu a precoce diversificação de suas exportações e iluminou o impetuoso desenvolvimento das manufaturas. A industrialização norte americana contou, desde antes da independência, com estímulos e proteções oficiais. A Inglaterra se mostrava tolerante, ao mesmo tempo em que proibia estritamente que suas ilhas antilhanas fabricassem até mesmo um alfinete.

Um abraço carinhoso a todos!
Tio Rico Bom.

Referência:
GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

domingo, 1 de julho de 2012

Crônica do Dia - Fracasso da Rio + 20




Terminou em fracasso a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Desenvolvimento Sustentável. Foram gastos US$ 150 milhões para promovê-la. Dinheiro jogado fora. Teria sido mais bem utilizado na preservação de florestas. O documento final, aprovado por 193 países, é pífio. Como nenhum país, sobretudo os mais ricos, queria se comprometer com medidas a curto prazo, o texto sofreu tantos cortes, para não desagradar a ninguém, que desagradou até mesmo ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. 

No dia seguinte, pressionado pelo Brasil, ele voltou atrás. Desdisse o que havia dito e defendeu o documento, no qual não foram levadas em conta as sugestões da sociedade civil. Nada de concreto foi decidido, todos os compromissos pela sustentabilidade ficaram para depois. Acordou-se que, no ano que vem, serão definidos os objetivos de desenvolvimento sustentável. Em 2014, a resolução de onde virão os recursos para financiá-los. E a partir de 2015 devem ser implementados.
O evento se equipara à crônica de uma morte anunciada. Os líderes dos países ricos viraram as costas à Rio+20. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não veio. E ainda teve o descaramento de enviar sua secretária de Estado, Hillary Clinton, apenas no último dia, quando tudo já estava debatido e aprovado. Em discurso inócuo, ela anunciou que os EUA destinarão US$ 20 milhões à proteção ambiental de países da África. Uma esmola, sobretudo considerando que os EUA figuram, ao lado da China, como principal culpado pela degradação da natureza.

O que a Rio-92 representou de avanço, a Rio+20 representa de retrocesso. Em 1992 foram aprovadas a Carta da Terra, a Agenda 21 e três importantes convenções: biodiversidade, desertificação e mudanças climáticas. A partir de então, muitos países criaram ministérios do Meio Ambiente. O entusiasmo durou 10 anos. Em 2002, na Conferência de Johannesburgo, os governos se recusaram a prestar contas do que haviam acordado no Rio de Janeiro. Já tinham constatado que não há compatibilidade entre preservação ambiental e o modelo de desenvolvimento – predador e excludente – centrado na acumulação privada do capital. Tivemos então 10 anos (2002/2012) de conversa fiada.

A Rio+20 propôs aos governos, via G-77 (grupo dos países menos desenvolvidos), criarem um fundo de US$ 30 bilhões para financiar iniciativas de sustentabilidade em seus países. A proposta não foi aprovada. Ninguém mexeu no bolso. Isso uma semana depois de o G-20, no México, destinar US$ 456 bilhões para tentar sanar a crise na Zona do Euro. Não falta dinheiro para salvar bancos. Para salvar a humanidade e a natureza, nem um tostão. Os donos do mundo e do dinheiro vivem na ilusão de que a nave espacial chamada planeta Terra tem, como os voos internacionais, primeira classe e classe executiva.
O fato é que os governos, com raras exceções, não estão interessados em investir na sustentabilidade. Isso depende de um esforço a médio e longo prazos. E governos buscam resultados propagáveis nas próximas eleições. Sustentabilidade é como saneamento. Segundo o Ministério das Cidades, 57% da população brasileira não têm esgoto coletado. Como esgoto passa por debaixo do solo, nossos políticos dão as costas, interessados no que traz visibilidade. Os governos querem desenvolvimento entendido como multiplicação do capital. Nada de proteger a biodiversidade. Fingem não se dar conta de que as mudanças climáticas decorrem da degradação da biodiversidade. 
 
A voracidade do capital venceu na Rio+20. Hoje, 7 bilhões de pessoas sobrevivem consumindo um planeta e meio. Em breve, chegaremos a dois planetas. Como os recursos naturais são limitados, as gerações futuras correm o sério risco de padecerem a carência de bens essenciais, como água e alimentos. A chuva que caiu sobre o Rio durante o evento era como lágrimas de Gaia que, com certeza, tinha esperança de que a Rio+20 a livrasse do estupro que sofre em mãos de quem procura apenas tirar proveito dela, indiferente aos direitos das gerações futuras. Valeu estar ali e participar da Cúpula dos Povos, onde nações indígenas se misturavam com ambientalistas, jovens e crianças, para preservar ao menos a esperança de que vale a pena lutar por um outro mundo possível e sustentável.
 
Frei Betto - Jornal O Dia

Tá na Hora do Poeta - Ilusão - Aline Assis



I L U S Ã O


Minha terra tem lindas praias,
Lá sentamos à beira do mar
Assistindo ao sol raiar.

Minha terra tem beldades,
Verdadeiras belezas naturais,
Há florestas ideais
E montanhas ancestrais

Mas são todas desperdícios,
Numa terra em que pobres fazem sacrifícios
E ricos ganham os benefícios.

Minha terra tem tráfico
De armas e drogas ilegais
Tem até suborno de juízes e policiais.
Minha terra tem corrupção,
Fila para uma má condução,
Florestas e matas com poluição,
Lá o pobre não tem pão
E escola tem má educação.

Minha terra pode até ter lindas praias,
Onde há pessoas à beira do mar
Assistindo ao sol raiar.
Mas de que adianta tudo isso ?
É tudo apenas uma ilusão
Para esconder o governo roubalhão
Do nosso pobre cidadão.

Aline Assis
Turma 801
Ativo / 2012



Te Contei, não ? Harvard, aí vamos nós


FUTURO GARANTIDO O estudante Marcelo Bonassa em sua casa, em São Paulo. Aos 17 anos, ele foi aceito em 16 universidades estrangeiras. Escolheu Princeton (Foto: Marcelo Spatafora/ÉPOCA)
Numa sala de aula com alguns jovens imberbes, além de meia dúzia de meninas que parecem compenetradas, a professora pergunta com exagerada naturalidade:
– Alguém aí já ouviu falar da constante de Faraday?
Silêncio.
– E de carga elementar?
Silêncio de novo. Ela insiste:
– Quem nunca escutou levanta a mão.
Os espectadores são alunos com mais ou menos 18 anos de um cursinho particular de São Paulo, o Etapa. Estudam para enfrentar o vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um dos mais concorridos do país. A professora Tabata Amaral de Pontes conduz a aula de eletroquímica com postura de doutora. Responde às dúvidas individualmente. Na lousa, escreve fórmulas que, aos desabituados, mais parecem grego ou húngaro. Tabata não tem cabelo de cientista maluco, tampouco a cara do nerd clássico. Com apenas 18 anos, ela usa aparelho nos dentes, tênis All Star, calça jeans detonada e presilha tic tac para não deixar a franja cair em seu rosto de menina. Nem por isso é menos respeitada pelos alunos, que a chamam de professora, inclusive os mais velhos do que ela.
Tabata acaba de ser aceita em seis instituições que fazem parte da lista das 20 melhores universidades do mundo: Instituto de Tecnologia da Califórnia (CalTech), Yale, Princeton, Colúmbia, Harvard e Pensilvânia. Enquanto o ano letivo nos Estados Unidos não começa, dividiu-se entre o curso de física na Universidade de São Paulo (ah, sim, ela também passou na USP) e uma maratona de atividades, como dar aulas em cursinho e trabalhar num projeto social. Detalhe importante: ela vem de uma família da Vila Missionária, bairro de classe média baixa na Zona Sul de São Paulo. Estudou em colégio público até o começo da 7ª série. Nos demais anos, ganhou uma bolsa do próprio Etapa, onde hoje ensina alunos que pagam uma mensalidade de R$ 1.500.
Embora seja uma exceção na realidade das escolas públicas, Tabata representa uma nova geração de jovens que já não mais sonham em sentar-se nas carteiras dos melhores centros do Brasil, como a USP ou o ITA. Eles ampliaram seus horizontes estudantis ao descobrir que, sim, a possibilidade de frequentar o ensino superior fora do Brasil é real – e menos inalcançável do que se imaginava no passado. Até para aqueles que, como Tabata, não nasceram em famílias abastadas. Esses alunos querem integrar o seleto grupo de mentes brilhantes da Ivy League, uma lista de oito universidades privadas da Costa Leste dos Estados Unidos, as mais tradicionais do país. Ou dos demais centros americanos, da Europa, do Canadá ou da Austrália, também reconhecidos pela excelência. Faz sentido. No último ranking da revista Times Higher Education (THE), liderado pela americana CalTech, a universidade brasileira mais bem classificada é a USP, que aparece na 178ª posição. Não é um resultado desonroso – trata-se da instituição mais bem colocada da América Latina. Mas a universidade brasileira ainda está longe das melhores do mundo. No ranking, das dez primeiras, sete são americanas e três britânicas. Entre as 20, apenas o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH) não tem como língua materna o inglês.
Além do status de integrar o time das primeiras do mundo, esses estudantes buscam algo que as universidades brasileiras não lhes proporcionam: uma educação mais completa. Na maioria das instituições americanas, o aluno não precisa escolher um curso logo que entra. Tem a oportunidade de assistir a aulas de diferentes áreas, para só depois optar por uma. Nos mesmos quatro anos letivos, é possível obter mais de uma formação. Ele entra em contato também com uma estrutura que premia o mérito de seus alunos e professores, algo que nem sempre acontece nas universidades brasileiras. Por último, existe o bônus da diversidade cultural. As universidades dos EUA recebem alunos de nacionalidades diversas.
O Brasil ainda está bem atrás da China e da Índia, os países que mais enviam alunos para os EUA. No ranking do Instituto Internacional de Educação, nosso país ocupa a 14ª posição. Foram 8.777 alunos entre graduação e pós em 2011, 25% a mais que em 2006. “Este é o momento perfeito para fazer as malas e estudar fora”, afirma Adam Singerman, coordenador do Instituto de Liderança do Rio (ILRio), uma ONG criada para identificar talentos e encaminhá-los aos centros de excelência.
O principal motivo para o bom momento é financeiro. Com o real forte e a economia estável, mais famílias conseguem arcar com os gastos do jovem no exterior. O custo por ano numa universidade mediana nos EUA, somados o curso e a acomodação, gira em torno de R$ 70 mil. Para um estudante do interior morar e fazer uma faculdade privada em São Paulo, as despesas ficam em torno de R$ 40 mil ao ano. Essa diferença foi 15% maior há dez anos. Outro fenômeno explica o desejo de ter um diploma internacional: o brasileiro está viajando mais. Com acesso a outras culturas, os alunos se abrem para a possibilidade de passar um tempo fora. Em 2005, o país enviou 3,4 milhões de turistas em viagens internacionais. Em 2010, foram 5,3 milhões, de acordo com a Organização Mundial de Turismo. Por último, e talvez mais importante, numa economia globalizada, ter experiência internacional faz toda a diferença no mercado de trabalho.
O jovem Marcelo Bonassa ainda brincava de carrinho quando, aos 10 anos, avisou que queria estudar fora. Filho de um engenheiro e de uma enfermeira, Marcelo se preparou exaustivamente para as provas das instituições brasileiras, a pedido dos pais, e das estrangeiras, por vontade própria. Na rotina de colegial, ainda trabalhava como professor voluntário de inglês, fazia artigos científicos e participava de olimpíadas de química. O retorno chegou no começo do ano com uma boa notícia. Uma não, 16. Marcelo foi aceito em 16 universidades – três no Canadá e as demais nos Estados Unidos. Dessas, cinco integram a Ivy League. Optou por Princeton, localizada no Estado americano de Nova Jersey, ao lado de Nova York. “Tenho interesses em áreas distintas”, diz. “Lá posso estudar economia e química em paralelo.” Para atender ao sonho do filho, seus pais desembolsarão R$ 100 mil por ano.
Para quem não tem as condições financeiras de Marcelo, mas, assim como ele, sonha em estudar fora, há alternativas. O governo brasileiro nunca incentivou o ingresso em instituições estrangeiras tanto quanto agora. O programa Ciência sem Fronteiras, lançado no ano passado, tem a meta de, até 2015, enviar 100 mil pesquisadores para o exterior, entre graduação e pós, a maioria para universidades americanas. O compromisso dos estudantes beneficiados é voltar para o Brasil ao final do curso. Em abril, a presidente Dilma Rousseff deu outra boa mostra de suas intenções. Em visita aos EUA, fechou acordos para ampliar o intercâmbio em universidades de ponta, como Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), instituições localizadas nas cercanias de Boston.
Assim como cada vez mais brasileiros procuram o curso internacional, é recíproco o interesse de outras nações pelas melhores mentes daqui. No ano passado, o presidente americano, Barack Obama, promoveu esse intercâmbio de cérebros com o programa “100 Mil Unidos pelas Américas”. O objetivo é fazer parcerias com os países latino-americanos para chegar a 100 mil alunos americanos estudando na América Latina e o mesmo número de alunos latino-americanos nos EUA. As próprias instituições estrangeiras estão de olho no Brasil. A Universidade Colúmbia, sediada em Nova York, abrirá uma filial no Rio de Janeiro. Isso porque a presença de brasileiros lá cresceu nos últimos anos. Em 2007, apenas um aluno brasileiro ingressou na Colúmbia. Neste ano, com o aumento da procura, 15 foram aceitos e há sete na lista de espera.
A despeito das facilidades conquistadas, para ser pinçado por uma das melhores do mundo é preciso reunir um exigente conjunto de predicados. Nos Estados Unidos e na maior parte dos países europeus, não existe vestibular – os bons alunos são escolhidos pelas melhores universidades com base em seu histórico escolar, levando em conta também o sucesso em atividades artísticas, esportivas ou sociais. No caso dos estudantes estrangeiros, eles tentam usar critérios análogos (leia o quadro ao lado). Essas universidades valorizam o estudante com uma formação completa. Querem conhecer a história de cada um no detalhe. “Como sei que o candidato é um dos melhores da sala, na entrevista não pergunto sobre desempenho escolar, mas sim sobre quem ele é, sua garra, caráter e dedicação”, afirma Diana Moreinis Nasser, presidente do Alumni Representative Committee, ligado à Colúmbia e responsável por parte do processo seletivo. “Não basta gostar de futebol. É preciso ter conquistado prêmios. Se toca piano, quero saber se participou de competições na Europa.”
A história pessoal de Tabata reúne todos os passos de uma longa jornada até as melhores instituições. Ela faz parte da primeira geração de sua família a frequentar a faculdade. A mãe, Reni, uma baiana com mais de 20 irmãos, conheceu as letras só aos 12 anos. Terminou o ensino médio com a filha, e por insistência dela, no ano passado. Hoje é dona de casa. O pai, que já morreu, trabalhava como cobrador de ônibus. A mãe e o irmão mais novo, Allan, moram até hoje na Vila Missionária. Numa casa abarrotada de imagens de santos e bibelôs de anjinhos, cercada por plantações de morangos e toda sorte de animais. Ali, cada parede foi erguida pela própria família, num terreno que pertence à prefeitura.
Ao entrar na 5ª série, Tabata descobriu as olimpíadas de matemática – e se encantou pelos números. Com a primeira medalha, veio também uma bolsa para frequentar as aulas de iniciação científica do curso pré-vestibular Etapa, que a preparariam para as competições. Daí para ganhar uma bolsa no ensino fundamental, e mais tarde para o médio, foi um pulo. Nesse tempo, ela nem sequer sabia da possibilidade de ter curso superior. “Ninguém me contou que eu poderia fazer universidade. Meus pais também não fizeram”, diz. “Quando cheguei ao colégio particular, percebi que todas as crianças viviam para passar na USP.” Seu mundinho então se abriu.
Adaptar-se à nova rotina na escola paga custou-lhe um ano de estranhamento. Foi o tempo que levou para conquistar amigos. E para se livrar da vergonha que tinha dos sapatos gastos e fora de moda, os únicos que os pais podiam comprar. À medida que se encaixava nesse outro mundo, sobressaía cada vez mais pelo esforço e pelas ótimas notas. Tirou 9 em sua primeira prova de química, sem nunca ter aprendido o que era elétron na vida (no antigo colégio, só tinha aulas de ciências). Certa vez, ao final do 7º ano, Tabata assistiu a uma palestra de uma professora do MIT. “Pensei: meu Deus, como assim existe esse paraíso na face da Terra?” Seu mundo se abriu ainda mais. E ela decidiu que estudaria fora do Brasil.
É assim, sempre expandindo seus horizontes pelos mundos recém-descobertos, que Tabata escolhe seus próximos objetivos de vida. Aconteceu assim com as olimpíadas estudantis. Participou de competições de matemática, física, astronomia, astrofísica, robótica e linguística. Viajou para Turquia, Polônia e China, com tudo pago, atrás de medalhas para o Brasil. Já ganhou cerca de 40. Numa das provas práticas de astronomia, ficou sob o céu estrelado de uma cidade interiorana chinesa reconhecendo os planetas. Sabia de cor os nomes de 300 estrelas e 88 constelações, em inglês e em latim.
Por mais de uma vez, ela quase desistiu do sonho da universidade americana. A casa da família na Vila Missionária fica longe do Etapa. Chegava a demorar até duas horas e meia para retornar no fim do dia, por causa do trânsito. O dinheiro para o transporte e a alimentação era escasso. Tabata passou um ano trocando as refeições por “pão com alguma coisa” e iogurte com granola. Ganhou uma gastrite. Prestes a desistir, recebeu uma proposta do colégio onde estudava. Morar num hotel próximo da escola, com tudo pago, alimentação inclusive. Há pouco mais de dois anos, Tabata vive num pequeno quarto com banheiro, mesinha para computador, cama de solteiro e TV. Agora come melhor, apesar de a mãe não acreditar. “Como posso ficar tranquila aqui sabendo que ela almoça sorvete todo dia?”, diz Reni.
Como a maior parte dos adolescentes, Tabata é uma contradição ambulante. Ora aparenta ser uma menina frágil e pueril. Ora ganha ares de mulher madura e bem resolvida. A menina Tabata chora à toa e muito, brinca com as duas tartarugas, o papagaio e os cinco cachorros da família, adora sorvete (para desespero de Reni), detesta bebida alcoólica (para felicidade de Reni), tem cor preferida e melhor amiga, coleciona papel de carta e exibe ursos de pelúcia sobre a cama, coberta com lençol de temas infantis. A mulher Tabata viaja sozinha até Buenos Aires para encontrar o namorado argentino, pondera cada situação antes de escolher em qual universidade passará os próximos quatro anos, irrita-se profundamente quando se atrasa para um compromisso.
Não bastasse a inteligência notável – apesar de ela não tê-la medido, por acreditar que testes de Q.I., ao deixar outras habilidades de fora, são injustos –, Tabata tem uma disciplina espartana. Na época do colégio, quando não estava nas aulas preparatórias para olimpíadas ou na turma do ensino médio, agarrava os livros em casa durante quatro horas por dia. “A vaga dela em Harvard estava garantida há muito tempo”, diz Edmilson Motta, coordenador do Etapa.
Enquanto disputava vaga nos EUA, Tabata se esforçava para continuar seu cotidiano normal. Fazia dança e inglês. Na Igreja Católica do bairro onde mora a família, era acólita, uma espécie de coroinha adulta que ajuda o sacerdote durante a liturgia. Ainda encontrava tempo para um projeto social que criou com o amigo Henrique Vaz. No Vontade Olímpica de Aprender (VOA), Tabata dá aula todo domingo pela manhã para estudantes da escola pública. O objetivo é prepará-los para olimpíadas de astronomia, física, química e matemática. Desde 2010, o VOA treinou centenas de alunos e obteve 20 medalhas. “Ela quer devolver à escola pública todas as chances que recebeu”, afirma Soiane Vieira, coordenadora do projeto. Essa veia filantrópica é bem recebida nos Estados Unidos, onde o conceito de giving back – retribuir à sociedade o que se recebeu dela – é um traço cultural. Essa característica também conta pontos na hora de tentar uma vaga numa instituição americana.
A primeira das seis respostas positivas que Tabata recebeu das universidades saiu quando ela dava aula de cursinho em Valinhos. Assim que deixou a sala, viu dezenas de ligações perdidas em seu celular. Um aglomerado de zeros no visor do aparelho mostrava que era uma chamada internacional. Ela não conseguiu ligar de volta porque não tinha créditos suficientes nem para dizer “alô”. Chegou ao hotel onde morava às 8 da noite e tentou todos os contatos possíveis no Brasil para entender o que estava acontecendo. Só às 2 da manhã, pelo Skype, conseguiu conversar com o autor das ligações. Era o diretor de admissões de Harvard. Ao descobrir que passou, Tabata primeiro perguntou se não era trote. Depois chorou por horas. As outras aprovações saíram nas semanas seguintes, mas ela nem comemorou. Acabara de perder o pai. Por alguns dias, desistiu de ir para os EUA. “Não fazia mais sentido”, diz. “Queria ficar aqui com a minha família.”
No mesmo momento em que enfrentava a dor de uma perda tão importante, Tabata virou uma estrela no universo pré-vestibular. Raramente passava despercebida pelos alunos e professores do colégio. Os pedidos de amizade no Facebook, de desconhecidos principalmente, pipocavam a cada semana. Enquanto era disputada por seis das melhores universidades do mundo – ganhou bolsa integral de todas elas –, Tabata recebeu dezenas de e-mails, ligações e até convite para um almoço com um ex-aluno de Harvard, hoje diretor de um banco no Brasil. Todos tentavam convencê-la a dizer sim para suas instituições.
No mês passado, a convite das universidades e incentivada por seus padrinhos, Tabata foi aos EUA. Viajou sozinha. A ideia era despertar novamente na menina a vontade de estudar fora. Durante duas semanas, ela visitou o campus de cada instituição para decidir onde será sua vida a partir de agosto próximo, quando começará o ano letivo americano. No diário de bordo, escreveu suas impressões das faculdades. Quase todas as frases terminam com uma carinha desenhada. Algumas sorridentes. Outras assustadas. Sobre Harvard, anotou: “Dizem que não se preocupam com a graduação e são meio arrogantes. Mas é bem bonita e parece meio mágica”. Tabata escolheu a universidade, mas ainda não decidiu seus rumos. Por ora, quer se formar em física e ciências políticas ou sociais. “Mas quem sabe não descubro que nasci para ser chef de cozinha e faço gastronomia?”, diz. Sua trajetória inspirou colegas. A amiga de quarto de hotel, Giovanna Bolzan, saiu do interior para estudar em São Paulo e tentar as melhores universidades brasileiras. Influenciada por Tabata, pensa agora cursar as americanas. “Ela é um exemplo muito forte para mim”, diz a fã Giovanna.
É verdade que, sem esforço e vontade própria, Tabata nunca teria chegado aos bancos das melhores do planeta. Mas é verdade também que o apoio de instituições que a cercaram foi decisivo para o sucesso. Da EducationUSA, um centro financiado pelo governo americano para promover o ensino superior nos EUA, ela recebeu ajuda financeira para bancar a seleção nas universidades, desde a tradução de documentos até as taxas dos exames. “A Tabata é perfeita. Ela sabe pedir ajuda, não é arrogante, tem foco e uma inteligência incrível”, afirma Thais Burmeister, gerente da EducationUSA. Do ILRio, a ONG que ajuda os jovens a chegar aos melhores centros de fora, ganhou um mentor de Harvard. Contou ainda com uma bolsa da Cel Lep para melhorar o inglês, além do ensino médio, moradia e alimentação financiados pelo Etapa. Cada instituição foi recompensada com a exposição que a menina rendeu na mídia.
A formação internacional transforma jovens como Tabata em profissionais mais capacitados para lidar com os desafios da globalização. Mas até que ponto isso se traduz em benefícios para o país de origem? Quem garante que essas mentes brilhantes voltarão? Até décadas passadas, essa transferência de capital humano das nações pobres ou emergentes para as ricas era uma preocupação dos economistas. O conceito ganhou o nome de brain drain (algo como fuga de cérebros). Aos poucos, esse receio dá lugar ao brain gain (ou ganho de cérebros). “Não existe capital humano perdido”, afirma Nilson Vieira Oliveira, coordenador do Instituto Fernand Braudel de Economia. “Mesmo os que não retornam ajudam indiretamente, porque criam a sensação de que é possível alcançar as melhores universidades internacionais. É uma mudança cultural marcante.” Esse movimento se reflete ainda nas instituições brasileiras, que se sentem obrigadas a elevar o padrão do ensino superior.
Com só 22 anos, a jovem Lilian Alves já percorreu o caminho de volta – e começa a dar sua contribuição ao país. Formada em relações institucionais, fez dois anos do curso na Universidade do Estado do Amazonas e o restante na Mount Holyoke College, em Massachusetts, uma das faculdades de excelência dos EUA. Conseguiu 90% de bolsa. “A cada semestre, tinha mais noção da magnitude daquela mudança para minha vida”, afirma. Lilian é do interior do Amazonas. Nasceu na cidade de Tefé, a mais de 500 quilômetros da capital Manaus. De volta ao Brasil, trabalha hoje em São Paulo, como analista de pesquisa da agência de informações financeiras Bloomberg. Dos cinco colegas diretos de trabalho, três estudaram no exterior.
O jovem Marcelo, o garoto que recebeu 16 boas notícias neste ano, ainda não sabe se seguirá os mesmos passos de volta de Lilian, mas certamente já inspirou muitos alunos brasileiros. Tabata, se não se descobrir uma grande chef no futuro, deseja abrir um enorme centro no Brasil com pesquisadores do mundo todo para melhorar a educação pública do país – e retribuir as chances que lhe deram ao longo de sua curta e impressionante trajetória. “Quero chamar gente da China, da Índia, da Argentina, dos EUA, do Sudão”, diz ela, mais acelerada que de costume. Enquanto não se forma e vira uma cientista, planeja aproveitar ao máximo tudo o que Harvard pode lhe oferecer fora da vida acadêmica. É nessas horas que a Tabata menina reaparece. “A primeira coisa que vou fazer quando chegar lá é me matricular num curso de dança indiana.”



UM BOM MOMENTO PARA O DIPLOMA INTERNACIONAL (Foto: Fontes: Organização Mundial do Turismo e Ministério da Ciência e Tecnologia)
Revista Época
7 passos até lá
Não basta ser o melhor aluno do colégio. É preciso mais. O que os especialistas recomendam a quem pretende cursar o ensino superior fora do Brasil. E passar uma temporada fora 
1. AJUSTE O FOCO
O talento tem um fôlego. Mais importante que ser um gênio no colégio é ter dedicação, foco e organização para estudar

2. DESTAQUE-SE NA ESCOLA
É importante tirar boas notas durante todo o ensino médio. Se você decidir tentar as universidades de fora só no meio do caminho, mostre um salto de desempenho

3. AMPLIE O LEQUE
Não fique restrito às universidades do topo do ranking. Há outras 177 à frente da mais bem colocada brasileira, a usp. Escolha entre 5 e 10 instituições, de acordo com seu perfil

4. INVISTA NO INGLÊS
A exigência da língua inglesa é alta para cursar as boas universidades americanas. Comece cedo para se sair bem em testes como o Toefl

5. TENHA VIDA PRÓPRIA
Praticar esporte, fazer trabalho social ou tocar instrumentos é muito valorizado. Mas é melhor se dedicar a duas atividades com entusiasmo que a muitas com desleixo

6. PEÇA AJUDA
Algumas empresas auxiliam o estudante durante a aplicação para as universidades. Nas redes sociais, o grupo BSCUE aconselha (de graça) os interessados no processo

7. COMECE CEDO
Comece a inscrição com, no mínimo, um ano de antecedência. As etapas são burocráticas e você pode se atrapalhar se deixar tudo para a última hora
Fontes: EducationUSA e ILRIO 

Crônica do Dia - Casar pra quê?


Estou escrevendo a novela Gabriela, inspirada na obra de Jorge Amado. Estou justamente nos capítulos em que Nacib pede Gabriela em casamento.
– Casar pra quê? Precisa não – diz ela.
A personagem é um espírito livre que antecipou as mudanças no modo de pensar e agir das gerações seguintes à publicação do livro, no final da década de 1950. Penso:
– Gabriela é que tinha razão. O que significa casar hoje em dia?
As fronteiras entre o namoro e o casamento andam cada vez mais confusas. Outro dia encontrei uma amiga que me anunciou vitoriosa:
– Estou casada!
Durante o papo, descobri que estava saindo com um rapaz havia quatro meses. Não moravam juntos, nem tinham qualquer compromisso formal. Para ela, tratava-se de um casamento. Ao contrário, muitas vezes o casal até mora junto, mas diz que está “se conhecendo”. Ou seja: as palavras namorar e casar significam mais ou menos a mesma coisa. Depende de quem as pronuncia. No passado os termos eram mais precisos. Havia a “concubina”, que vivia sob o mesmo teto sem papel passado. Se eu chamar alguma amiga de concubina, levo um tapa na cara. E “amásio”? Céus, quem fala em amasiar-se atualmente? Eram boas palavras, porque definiam situações específicas. Às vezes, a confusão é tanta que a mulher acha que está casada e seu parceiro pensa que está namorando!
O cinema americano resolveu essa questão brilhantemente: a dupla vive sob o mesmo teto, se ama. O compromisso é assumido quando ele oferece um anel no meio de um sorvete durante um jantar (com direito a merchandising da Tiffany’s). Nos filmes, casar é igual a assumir compromisso.
Uma balela, que só vale para filmes. No Brasil, se duas pessoas vivem juntas, o compromisso já existe. Queiram ou não. Pelo menos do ponto de vista legal. Quem prova uma relação estável pode até sair de um processo com mais vantagens econômicas do que alguém que se casou no papel, com direitos especificados. Tem mais: o casamento deixou de ser uma relação para toda a vida. Divórcio é fácil. Conheço mulheres que se casaram uma vez, duas, depois nem se deram mais ao trabalho. Só juntam os trapos, como se dizia antigamente. Há uma que anuncia:
– Tive cinco maridos.
É uma forma de valorizar o currículo!
E o vestido branco? Nenhum símbolo perdeu tanto o sentido. Era a cor das virgens. Viúvas se casavam de azulzinho, rosa pálido... Hoje, noivas de qualquer idade casam de branco. Não importa a quilometragem. Por que não aderem ao vermelho, verde, roxo? Há uma indústria enorme em torno de vestidos, festas, fotos, lembrancinhas. Milionários gastam mais de milhão para casar suas herdeiras, em festas suntuosas. E às vezes o casamento dura menos que sua preparação. Conheço um casal que se separou ao voltar da lua de mel. A outra já o esperava no aeroporto.
Ser padrinho virou um mico. Era uma honra, uma relação quase de parentesco. Hoje, convida-se um batalhão. Uma vez quase despenquei do altar de tanto empurra-empurra. A aglomeração de padrinhos era pior que metrô às 6 da tarde. O objetivo dos noivos era ganhar bons presentes, já que, supõe-se, padrinhos são mais generosos. Eu, hein?
A cerimônia religiosa era ganhar a bênção divina. Como a Igreja Católica Romana não admite a separação, os casais recorrem a credos mais flexíveis. A Igreja Anglicana admite casar divorciados. Nada contra. Mas, se a pessoa é católica, recorrer a outra religião não é dar um truque no Ser Supremo? Hummm... Ele, que tudo sabe, vai cair nessa?
Já fui a dois casamentos sem ministro. Os noivos inventaram a cerimônia, com amigos discursando. No Japão, é comum contratarem atores para oficiar como padres. Antes fazem uma cerimônia xintoísta, mais íntima. Depois, a ocidental, com vestido branco e padre fake.
Segundo o filósofo francês Luc Ferry, no livro A revolução do amor, “a experiência do amor é o único valor absoluto, o único que dá sentido a todos os outros”. Minha geração pregou o amor livre. Muitas conquistas da década de 1960 foram absorvidas pela sociedade. Laços formais não têm mais tanta importância, como defendíamos. O casamento perdeu significado, mas continuou a existir como uma cerimônia oca, para grande parte dos casais. O espetáculo é superficial e tira de foco o mais importante. O amor, simplesmente.
Somente o amor pode dar sentido a uma união, sem necessidade de festa e vestido branco. E me pergunto outra vez: nos dias de hoje, para que casar, afinal?
  

Walcyr Carrasco / Revista Época

Te Contei, não ? - O adolescente está pronto para o sexo ?


Uma extensa pesquisa feita nos Estados Unidos, entre 2006 e 2010, mostra que o início da vida sexual dos adolescentes americanos está começando um pouco mais tarde. Em 1988, 51% das meninas de 15 a 19 anos já haviam feito sexo. Esse número caiu para 43% entre 2006 e 2010. Entre garotos da mesma faixa etária, a queda foi ainda mais dramática, de 60% para 42%.
A nova versão da Pesquisa Nacional de Crescimento Familiar foi conduzida pelo Centro de Controle de Doenças (CDC), de Atlanta. Apesar da tendência de queda, o ritmo vem desacelerando. A proporção dos garotos que já haviam feito sexo caiu de 60% para 46% entre 1988 e 2002, num ritmo de 1 ponto percentual por ano. Depois, entre 2002 e 2010, caiu para a metade dessa velocidade, o que sugere estabilização. Segundo a pesquisa, os fatores que contribuem para o início mais tardio da vida sexual são: viver com pai e mãe, a mãe do adolescente ter tido seu primeiro filho depois dos 20 anos e a mãe ter concluído o ensino médio.
A situação é bem diferente por aqui. Os números do Ministério da Saúde do Brasil mostram que quase metade dos garotos e um terço das meninas já praticaram sexo antes dos 15 anos de idade. O início da vida sexual entre os meninos está mais próximo dos 15 anos; entre as garotas, dos 16 anos.
Uma revisão de alguns estudos regionais brasileiros sugere que os motivos que mais contribuem para o início precoce da vida sexual são: estar fora da escola, fazer parte de famílias pouco estruturadas, ser filho de pais separados e beber, fumar ou usar drogas com frequência.
A grande questão da iniciação sexual precoce é a habilidade que o jovem tem de fazer escolhas seguras. Não é incomum que esse começo apressado venha acompanhado de menor chance de proteção (uso de preservativo ou de método anticoncepcional hormonal), maiores taxas de gravidez indesejada e de doenças sexualmente transmissíveis. Esses jovens tendem a ter maior número de parceiros e a fazer sexo sem vontade.
Num tempo em que os jovens se desenvolvem fisicamente mais cedo (hoje, as garotas começam a menstruar antes), são mais expostos à sexualização e vivem numa sociedade mais liberal, é normal que a vida sexual também seja antecipada. Mas esse jovem muitas vezes não tem maturidade emocional para lidar com o que está acontecendo. O desafio é articular com o adolescente a liberdade de escolha sem pressa e com responsabilidade. Tarefa árdua para a escola, a família e para quem produz informação.

Revista Época

Tá na Hora do Poeta - Negros - Ana Carolina Magalhães


Negros


Nessa incrível sociedade
Onde escondem a verdade
Nos fazem acreditar
Que preconceito não há.

O mundo hipócrita em que vivemos hoje
Adora acreditar
Mas não tem coragem de mudar
Esse modo de pensar

Debret em pleno Brasil colonial
Começou a pintar
O que os brancos quiseram discriminar

Ração, cor, riqueza ainda tem padrão
Infelizmente os brancos não tiveram evolução
E acabamos vivendo na discriminação desse mundo cão.


Ana Carolina Magalhães
Turma 802
Ativo / 2012

Te Contei, não ? - Profissão benzedeira

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Foi o pai de Ana Maria Santos, 46 anos, moradora de Rebouças, distante 170 quilômetros de Curitiba, no Paraná, que lhe ensinou o ofício de benzedeira. Mas ele mesmo pouco benzia, por conta da marginalização imposta pelas autoridades locais à atividade de cura popular, amálgama de tratamento espiritual aliado ao uso de ervas medicinais. “É um dom que a gente tem. Mas não somos nós que curamos, e sim Deus”, afirma a benzedeira, que atende uma média de 20 pessoas por semana, a maioria delas crianças com problemas de saúde comezinhos, como micoses, cólicas abdominais e até “susto” – medo de assombração. Ao contrário do pai, Ana Maria pode benzê-las em paz, desde que a prefeitura da cidade sancionou, em fevereiro, uma lei que reconhece o trabalho das praticantes da chamada saúde popular. Logo depois, foi a vez de São João de Triunfo, no mesmo Estado, adotar lei semelhante.

São dois casos pioneiros no Brasil. Não por acaso. Nessas duas cidades foram identificadas 295 benzedeiras pelo Movimento de Aprendizes da Sabedoria, organização responsável pela aprovação das leis, que chegou a receber um prêmio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O órgão federal já classificou a cura por meios não tradicionais como um patrimônio imaterial da cultura brasileira. “Acreditamos que essas iniciativas devem ser adotadas em outras cidades e Estados, desde que as benzedeiras participem do processo”, afirma Taísa Lewitzki, uma das coordenadoras do movimento. Agora, as rezadeiras têm livre acesso a qualquer terreno dos dois municípios paranaenses, mesmo os privados, para coletar ervas, desde que respeitadas as leis ambientais. Mas existem aquelas que nem precisam sair de casa. “Eu mesma planto no meu quintal mais de 40 plantas medicinais”, diz a benzedeira Agda Andrade, 57 anos.

Para a antropóloga Geslline Giovana Braga, da Universidade Federal do Paraná, a legislação aprovada nos dois municípios carrega, sobretudo, força simbólica. “Mostra que as benzedeiras não estão desaparecendo. Eu jamais ouvi benzedeira alguma  proibir o uso do remédio ou suspender um tratamento médico, pelo contrário”, afirma Geslline. Essa realidade de preconceito começa a mudar aos poucos. Estados como Ceará e Rio Grande do Norte estudam também reconhecer a chamada saúde popular. No município cearense de Maranguape, inclusive, médicos do Programa Saúde da Família atuam em conjunto com as rezadeiras no combate à mortalidade infantil, com resultados satisfatórios.

REvista Isto É

Te Contei, não ? - Olímpicos do conhecimento

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Por uma medalha, o jovem Rodrigo Sanches, 16 anos, passa todas as tardes enfurnado em uma sala treinando, e, uma vez por mês, cruza os 870 quilômetros que separam São Paulo de Brasília para encontrar os outros cinco integrantes da equipe que representam com ele o Brasil no Exterior. Rodrigo é estudante olímpico e, assim como os esportistas profissionais, dedica grande parte de seu tempo e sua energia às competições. A rotina puxada já rendeu frutos. Ele ganhou ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática em 2011 e, neste ano, dois bronzes em competições internacionais – na Romênia e no Torneio Ibero-Americano. O próximo desafio é a Olimpíada Internacional de Matemática, prova mais importante na área, que acontece no próximo mês, na Argentina. Quem vê o aluno do segundo ano do Ensino Médio imerso em livros e exercícios não imagina que o envolvimento é recente. “Já tinha ouvido falar, mas achava meio fora da minha realidade”, diz. A entrada no mundo das competições de conhecimento aconteceu em 2010, após mudar para uma escola onde os alunos são incentivados a competir – hoje, vários colégios particulares têm salas especiais para treinar os estudantes e dão bolsas para os medalhistas.

No Ministério da Educação, o tema também começa a ganhar destaque. Nos gabinetes do órgão se discute uma grande olimpíada de conhecimentos para a rede pública, prevista para 2013. Os planos se justificam. Ano a ano, mais estudantes participam dos torneios científicos, que são cada vez mais numerosos – de 2005 até agora, surgiram cinco novas competições nacionais. Só a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, uma das mais concorridas, deve chegar à marca de um milhão de participantes na próxima edição e terá a primeira prova internacional no Brasil. A Olimpíada de Matemática, a mais antiga do País, criada em 1979, pulou de 40 mil estudantes, em 1998 (primeiro ano em que houve contagem oficial), para 190 mil na última edição. Fazer a etapa nacional é pré-requisito para participar das competições internacionais, que reúnem os melhores de cada país. “Os alunos estão descobrindo que ter uma medalha em uma olimpíada internacional é um dos principais cartões de visita para se entrar em universidades estrangeiras”, afirma Ronaldo Fogo, coordenador de turmas olímpicas do Colégio Objetivo, em São Paulo. Renato Pinto Júnior, 17 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio, é um dos olímpicos que flerta com a faculdade no Exterior. No currículo, dois bronzes na Olimpíada Internacional de Informática e um ouro na Internacional de Robótica (feito inédito para o Brasil) fazem dele um forte candidato. “Na Olimpíada você encontra os melhores de cada país e em alguns lugares, como a Rússia, os Estados Unidos, a China, o Japão e a Coreia do Sul, os alunos começam a estudar programação muito cedo. Por isso, sempre se destacam”, diz. Situação bem distinta da brasileira, na qual a maior parte dos alunos mal tem computador na escola.

A precariedade de recursos é um dos grandes empecilhos na realização desses eventos no Brasil. Se por um lado essas competições estão cada vez mais no gosto dos alunos, por outro seguem à míngua quando o assunto é dinheiro. “Não aguento mais ficar com o pires na mão”, diz Leila Macedo, presidente da Associação Nacional de Biossegurança, instituição responsável pela Olimpíada Brasileira de Biologia. O evento começou em 2005 e já trouxe 18 medalhas internacionais para o País. Mesmo assim, dos R$ 150 mil pedidos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), apenas R$ 50 mil foram aprovados. O resultado é que não há dinheiro para pagar a ida da comitiva brasileira ao torneio internacional, no próximo mês, em Singapura. Mesma reclamação é feita pela organização da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. “Ter quase um milhão de alunos é uma beleza, mas o gasto médio por participante é de R$ 1,50 e o CNPq autorizou apenas R$ 500 mil”, afirma o coordenador, João Batista Canalle.

No MCT, os protestos por mais verba são conhecidos. “A crítica tem razão de ser, mas nós triplicamos o montante disponível para esse tipo de evento”, diz Ildeu Moreira, diretor do departamento de popularização e difusão de ciência e tecnologia do MCT, citando os R$ 3 milhões do governo federal para financiar olimpíadas e feiras de ciências em 2012. Todo o montante, porém, corresponde a menos de um terço do valor gasto por ano pelo Itaú Social apenas com a Olimpíada de Língua Portuguesa, voltada para um público de sete milhões de estudantes. A situação precária da maior parte dos torneios remete ao drama, velho conhecido dos medalhistas esportivos: sobra apoio no discurso, mas a carteira segue vazia.
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Revista Isto É

Tá na Hora do Poeta - Negros no mundo - Pedro Chaves


Negros no Mundo



O negro continua menosprezado
Até nos tempos atuais.
A maioria dos brancos ainda não percebe
Que todos são iguais.

Negro, trabalhador braçal
Com salário desigual
Oportunidade de crescer na vida
Cada vez mais diminuída


Quem disse que a abolição
Da escravidão
Foi o fim da humilhação?

É preciso que cada cidadão
Espalhe o amor ao próximo
Independente da cor ou religião.


Pedro Chaves
Turma 802
Ativo / 2012