sábado, 8 de dezembro de 2012

Hora da Canção !!! - Negro Gato

NEGRO GATO

Eu sou um Negro Gato
De arrepiar
Essa minha história
É mesmo de amargar
Só mesmo de um telhado
Aos outro desacato
Eu sou um Negro Gato

Minha triste história
Vou lhes contar
E depois de ouvi-la
Sei que vão chorar
Há tempos
Que eu não sei
O que é um bom prato
Eu sou um Negro Gato

Sete vidas tenho
Para viver
Sete chances tenho
Para vencer
Mas se não comer
Acabo num buraco
Eu sou um Negro Gato

Um dia lá no morro
Pobre de mim
Queriam minha pele
Para tamborim
Apavorado desapareci no mato

Eu sou um Negro Gato

Getúlio Cortes. Negro Gato.
In: Roberto Carlos. Eu te darei o céu.
Rio de Janeiro: Sony BMG, 1966. 1 CD. Faixa 7.

Artigo de Opini~~ao - As distorções do ENEM - Hamilton Werneck

O Enem foi criado para servir de avaliação do Ensino Médio, podendo ser um orientador das atividades acadêmicas nesse grau de ensino. Além disso, a experiência apresentada era ligada à organização de um instrumento de avaliação com características diversas das tradicionais, separadas entre si e cartesianas. A proposta, portanto, era fazer uma avaliação que servisse de reorientação para o Ensino Médio.
A primeira grande distorção foi transformá-lo em instrumento de seleção para o ingresso nas universidades, criando-se para o segmento médio um grande problema: os professores são formados dentro do modelo cartesiano e os livros e apostilas distribuídos e adotados no país seguem o mesmo modelo, muito distante de uma proposta sistêmica, interdisciplinar e, por vezes, com tentativas transdisciplinares.
A segunda distorção é que a avaliação do Ensino Médio ficou reduzida ao ‘ranking’ das escolas onde, cada qual, busca um resultado melhor para ter uma apresentação mais segura no mercado.
São muitas as variáveis intervenientes. Escolas com menor rotatividade de alunos tendem a ter resultados melhores, enquanto escolas com número maior tendem a apresentar resultados não tão elevados. O Enem mede um momento da vida dos alunos que, se naqueles dias de prova não conseguirem superar suas ansiedades e angústias, poderão perder grandes chances. Melhor, evidentemente, é o vestibular parcelado feito pela Universidade Nacional de Brasília que distribui as provas ao final de cada ano letivo do Ensino Médio.
Infelizmente, a grande resultante de tudo o que se faz é não se continuar perseguindo o principal objetivo proposto para esta avaliação e querer transformá-la numa espécie de um novo vestibular que pouco tem de diferente em relação às provas da década de 1980.


Pedagogo, escritor e palestrante

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Entrevista - Pedro Abramovay - " ESTAMOS PRENDENDO AS PESSOAS ERRADAS"

Chamada.jpg

O ex-secretário Nacional de Justiça Pedro Abramovay é um dos principais nomes da sociedade civil na defesa da descriminalização do uso de drogas. Ele esteve à frente da elaboração de um anteprojeto de lei com esse teor que foi entregue em agosto à Câmara dos Deputados com a assinatura de mais de 120 mil pessoas. Professor da disciplina violência e crimes urbanos na Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV), também coordena o site Banco de Injustiças, no qual registra histórias de usuários enquadrados como traficantes por causa da atual Lei de Drogas, que ele acredita ser falha na definição dos crimes de tráfico e uso de entorpecentes. Abramovay foi um dos coordenadores da Campanha do Desarmamento e trabalhou na regulamentação do Sistema Penitenciário Federal quando era assessor especial do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, no governo Lula.

Istoé -
O que a legalização da maconha, que acaba de ser aprovada em referendo em dois Estados americanos, representa para a política mundial sobre drogas? 
Pedro Abramovay -
É um marco importantíssimo, principalmente se o governo federal não interferir nessas decisões estaduais. Os Estados Unidos sempre se comportaram como polícia nas convenções internacionais sobre o assunto e, de repente, dois Estados dentro dessa nação que se coloca como guardiã da “guerra contra as drogas” legalizam a maconha. No mínimo, eles perdem a legitimidade para questionar propostas de mudanças que tendem a tirar o problema da alçada exclusiva do direito penal. Abrirá espaço para discussões. Se a estratégia da legalização será ou não positiva, teremos de avaliar com o tempo. 
Istoé - Legalizá-la em alguns Estados não pode gerar um turismo de drogas no país? 
Pedro Abramovay -
Depende da maneira como isso será feito. É importante lembrar que legalizar implica colocar regras, regular a venda, definir idades, impostos, locais de venda. Isso em um campo no qual, na prática, não existem regras há muito tempo. São grandes as chances de um adolescente ter mais dificuldades para comprar maconha em um Estado onde a droga é legalizada – e, portanto, os esforços de controle sobre ela são organizados – do que em outro onde o comércio é todo ilegal. 
Istoé - O que pensa da medida tomada pelo Uruguai, que legalizou o uso da maconha, mas seu consumo será controlado pelo Estado? 
Pedro Abramovay -
Isso nunca foi tentado no mundo. O Uruguai assumiu uma posição de ousadia para tentar enfrentar o problema. Para nós brasileiros é fundamental acompanhar o que está acontecendo lá sem colorações ideológicas. Se funcionar, a gente tem que se despir dos preconceitos e discutir seriamente se essa é ou não uma alternativa viável para o Brasil.  
Istoé - Qual a importância de ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso (Brasil), Bill Clinton (EUA) e César Gavíria (Colômbia) defenderem a legalização da maconha? 
Pedro Abramovay -
É enorme, principalmente porque influencia a mídia. Há dois ou três anos era tabu debater o tema, quem tentava dizer algo era logo tachado de maconheiro. Quando esses ex-presidentes resolveram falar do assunto, chegaram mostrando estudos, pesquisas. Os argumentos já existiam, mas não eram ouvidos. Eles poderiam ter feito isso quando estavam no poder, mas antes tarde do que nunca. Abriram espaço para que atuais presidentes defendessem na ONU mudanças nas políticas de drogas em direção à descriminalização e à legalização. O Juan Manuel Santos, da Colômbia, o Otto Pérez Molina, da Guatemala, e o José Alberto Mujica, do Uruguai, fizeram essa defesa na ONU. 
Istoé - A descriminalização total não poderia aumentar o consumo? 
Pedro Abramovay -
Recentemente foi divulgada uma pesquisa na Inglaterra que analisa 21 países que descriminalizaram o uso de drogas. Em nenhum deles houve aumento do consumo.
Istoé - Há propostas em debate no Congresso Nacional para mudar a Lei de Drogas, que aumentou as penas para o tráfico e acabou com a prisão de usuários. Isso é positivo? 
Pedro Abramovay -
É preciso uma definição clara sobre quem é usuário e quem é traficante. A lei atual diz que o juiz vai avaliar a partir das circunstâncias sociais para dizer se a droga era para consumo pessoal ou para venda. O que acontece é que, sem critério, uma grande massa nessa fronteira acaba sendo presa como traficante, e colocar essas pessoas na prisão significa entregá-las de bandeja para o crime organizado, que será sua única opção quando saírem da cadeia. Para se ter a dimensão disso, desde que a lei foi aprovada, em 2006, o número de presos por tráfico dobrou. Saímos de 62 mil para 125 mil presos em 2011.
 
Istoé - Esse número não é uma vitória no combate ao tráfico? 
Pedro Abramovay -
Resolver o problema das drogas significa diminuir o consumo e a violência relacionada ao tráfico. Nada disso está acontecendo, o que indica que estamos prendendo as pessoas erradas. Mais de 60% dos presos por tráfico carregavam pequenas quantidades, eram réus primários e nunca tinham se envolvido em outros crimes. Não é atrás dessas pessoas que a polícia tem que ir, mas do crime organizado. Para isso, é fundamental que se discutam critérios mais claros para separar quem é usuário de quem é traficante. 
Istoé - Que tipos de critérios? 
Pedro Abramovay -
Vários países adotam a quantidade, não como único critério, mas como parâmetro fundamental para não gerar a situação, que acontece muito no Brasil, na qual a pessoa surpreendida com droga é considerada traficante, se for pobre, e usuária, se for rica. Portugal, República Tcheca, México, Inglaterra, alguns estados australianos, todos esses lugares optaram por esse caminho e têm alcançado resultados melhores que o Brasil, onde a decisão é do policial. 
Istoé - Fixar quantidades não facilitaria, para os traficantes, a distribuição de drogas, pois usariam vários “aviõezinhos” que nunca seriam presos? 
Pedro Abramovay -
A polícia não tem mesmo que ir atrás dos “aviõezinhos”, isso não faz nem cócegas no negócio das drogas. A energia tem que ser revertida para o enfrentamento ao crime organizado e à violência.  
Istoé - Se no Brasil está nas mãos dos policiais a decisão, como eles têm feito a distinção entre traficantes e usuários?  
Pedro Abramovay -
O primeiro critério mais evidente é o de classe. Quando a pessoa mora na favela, o endereço dela é, muitas vezes, sua condenação. Existem decisões judiciais que falam que a pessoa foi flagrada com droga e mora em um lugar dominado pelo tráfico, portanto é traficante. Outras tentam estabelecer critérios mais concretos. Por exemplo, vão dizer que se a pessoa carrega drogas divididas em papelotes, é traficante. Mas, se a droga é vendida em papelotes, ela também é comprada assim.  
Istoé - A lei brasileira permite penas alternativas. O Judiciário não reverte os equívocos policiais com elas? 
Pedro Abramovay -
Muito raramente. O poder Judiciário de primeira instância é muito mais duro nas decisões ligadas ao tráfico do que em outros temas, desrespeitando muitas vezes até decisões do Supremo Tribunal Federal. Por exemplo, a lei de 2006 inicialmente negava a liberdade provisória em acusações de tráfico e o STF considerou a norma inconstitucional, pois ia contra o princípio da presunção de inocência. Apesar disso, a pessoa acusada de tráfico quase sempre espera o julgamento na prisão e isso já destrói sua vida – ela perde o emprego e fica tachada como traficante. Sem contar que as pesquisas mostram que, quase sempre, os únicos depoimentos levados em conta para a condenação por tráfico são os dos PMs que prenderam o acusado.  
Istoé - Mais do que falha na lei, isso não evidencia problemas no Judiciário? 
Pedro Abramovay -
Quando temos um critério tão subjetivo fica muito difícil para todo o sistema. Tem o policial contando uma história e a família dizendo outra coisa. Em quem acreditar? Todo esse processo é produto da falta de critérios da lei. O Judiciário quer dar respostas à sociedade e prende pessoas que têm problemas com drogas mas nunca cometeram crimes. Colocar essas pessoas na cadeia em vez de tratá-las é uma resposta errada e ineficiente. O problema de drogas deveria ser tratado não como uma questão criminal, mas de saúde. O usuário precisa ser abordado por assistentes sociais, não pela polícia. 
Istoé - O nosso sistema de saúde está preparado para essa demanda? 
Pedro Abramovay -
O Estado já tem a obrigação de tratar o problema de dependência de drogas, a demanda existe, não podemos pensar nisso como um custo novo. A estrutura que temos hoje não está preparada, mas mudar as leis pode provocar o Estado a deixar de esconder o problema e passar a enfrentá-lo. 
Istoé - É possível erradicar o trafico? 
Pedro Abramovay -
É impossível, mas temos de reduzir o consumo de drogas e a violência do tráfico, e isso já sabemos como. Temos que admitir que a criminalização não funcionou. A única droga que teve seu consumo diminuído com políticas públicas foi o tabaco, que é lícito. A regulamentação parece ter funcionado melhor do que a repressão.
 
Istoé - Como avalia o plano antidrogas do governo federal? 
Pedro Abramovay -
O Plano de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas tem um cardápio de soluções do qual Estados e municípios escolhem a política a ser adotada. O problema é que dentro desse cardápio tem coisas positivas e outras que podem ter efeitos muito negativos. E não há nada que induza a escolha das opções mais eficientes. Por exemplo, tem uma quantidade importante de dinheiro para consultórios de rua, que funcionam muito bem. Mas tem muito dinheiro para internação, o que pode ser muito perigoso. Em alguns casos, ela é necessária, mas essa não pode ser a principal resposta de tratamento. A internação, para os mais otimistas, tem uma taxa de sucesso de 10%. Não podemos focar todos os nossos esforços em um tratamento que tem uma taxa de sucesso tão baixa. 
Istoé - Por que essas taxas são baixas? 
Pedro Abramovay -
Não basta desintoxicar a pessoa para, como em um passe de mágica, resolver a questão. É algo muito mais complexo e está ligado à relação do usuário com o meio em que ele vive. Se ele está desempregado, não tem apoio da família e seus amigos têm no uso de droga sua principal atividade, as chances de ele se tornar um usuário problemático são enormes. Se ele é internado, desintoxicado e devolvido para o mesmo meio que gerou a dependência, ele vai voltar a usar drogas. A única maneira de acabar com a dependência é trabalhar no meio em que ela está.  
Istoé - E como isso pode ser feito? 
Pedro Abramovay -
Nos consultórios de rua, por exemplo, onde a pessoa pode ir, receber terapia, desintoxicação e ser ajudada, não artificialmente fora do mundo em que ela vive, mas dentro desse universo para que ela possa se libertar das razões que a levaram à dependência. A assistente social pensa maneiras de ajudar o usuário a se reintegrar na sociedade de forma produtiva. Não funciona de uma hora para outra. É um problema no qual não há tiro de canhão. O tratamento é demorado, difícil, mas tem muito mais chances de sucesso do que a internação. Já existem experiências positivas nesse sentido no Brasil, como em São Bernardo do Campo, que tem investido muito no tratamento ambulatorial e no trabalho de assistentes sociais.  

Artigo de Opinião - Apontamentos sobre a morte

1.
Aos 26 anos, tive um forte flerte com a morte. Desejava, na mesma medida em que temia, morrer antes dos 30, ao modo dos poetas românticos e desregrados ou dos rock stars que eu tanto admirava no início da vida adulta. Bem, está claro que não consegui meu intento, como podem atestar sem muito esforço meus leitores, amigos, inimigos e desafetos. Havia outra razão que estimulava meu mórbido projeto: a perda trágica de uma pessoa ainda jovem e muito querida, fato que me deixou catatônico por alguns meses.
Embora não tenha hoje um medo exasperado da morte (a não ser quando entro em aviões, coisa que faço quase com a mesma frequência de um comissário de bordo), tampouco alimento a atração funérea e secreta dos 26 anos (e enquanto escrevo isto, impossível não lembrar de “A Lira dos Vinte Anos”, do poeta Álvares de Azevedo, morto antes mesmo de completar 21 anos). Falo do assunto com naturalidade, mesmo sabendo o quanto isso choca a maior parte das pessoas, que prefere esquecer o desfecho do livro e se concentrar na narrativa de intrigas, romances, medo, torpeza e dor.
O fato é que sobrevivi à fantasia romântica de morrer jovem. Morrer é misterioso, escuro, imponderável. E como não creio no mito cristão da vida eterna, não sinto o mesmo conforto de um crente, de alguém que acha (ou sabe, pois os crentes têm certezas que um descrente não tem) que adentrará o paraíso com pompa e festa e banda de anjos com clarins. Gosto de viver e pretendo lutar, se preciso até a morte (ops!), para prorrogar minha vida até a velhice, com força, vigor e saúde suficientes para dar bengaladas no primeiro hipócrita politicamente correto que a mim se referir como um ser da “terceira idade” ou, pior, “melhor idade”.
2.
Se meus ídolos de juventude morriam com 20 e poucos anos, gerando grande consternação popular, o que dizer dos adolescentes que hoje se matam aos 15, 17, 19 anos? Sintoma de um tempo doente e pleno de solidão, apesar da ilusão de “compartilhamento” que a internet traz.
Amanda Todd, jovem canadense de 15 anos, enforcou-se após ser vítima de um cyberbullying, ou seja, um bullying virtual, levado a cabo através da internet. A razão é a mais insólita possível. Depois de despir os seios a um voyeur em sua webcam num chat de bate-papos, teve as imagens espalhadas pela rede, foi espancada na escola e linchada moralmente por mensagens no Facebook. Várias tentativas frustradas de suicídio depois, deu um fim à vida enforcando-se no último 10 de outubro, na casa em que morava com a mãe. Antes de morrer, a menina Amanda postou vários vídeos no YouTube, com mensagens que eram silenciosos pedidos de socorro. Digo silenciosos porque os vídeos de Amanda não tinham texto, apenas mostravam cartazes escritos à mão, como no antológico clipe de “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan, em que o mito pop desfraldava versos da canção dispostos em vários pequenos pôsteres, que se sucediam em simultâneo com a música.
O drama da adolescente canadense não é um caso isolado. A “moda” dos cartazes é hoje um pequeno fenômeno de internet. São confissões, autoimolações verbais e relatos dolorosos dos medos e traumas da idade, que carregam títulos como “Confession Cards” ou “My Story”, e que existem às centenas hoje na rede. São filmes amadores com canções pop sentimentais como trilha e textos reveladores – há desde meninas que contam como foram molestadas na infância até garotos que se descobrem homossexuais e não sabem como lidar com a questão sozinhos.
“Parece que estou vivendo um pesadelo, mas não consigo acordar” – postou Olivia Penpraze, australiana de 19 anos que se suicidou em abril deste ano, depois de anos de perseguição dos colegas, que lhe causaram anorexia, depressão e psicose. Campanhas antibullying começam a ganhar força nas redes sociais, as mesmas redes onde se vê, com requintes de crueldade, o cyberbullying ganhando força, levando jovens instáveis e solitários ao pânico e à solidão da morte – sim, pois como dizia Nelson Rodrigues, “não há maior solidão que a de um morto”.
Pior de tudo é imaginar um outro adolescente usuário da net, postando, ao fim de matéria sobre a morte de Amanda ou Olivia: “Curti!”.



Zeca Baleiro é cantor e compositor

Artigo de Opinião - O preconceito de cor não tira dia de descanso

SEM AMBIGUIDADE Manifestantes celebram em São Paulo o Dia da Consciência Negra. Tornou-se comum negar o preconceito, dizendo que ele é social. As pesquisas mostram que o negro pobre sofre mais que o branco pobre (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)Não há raça no Brasil e, portanto, não há racismo. No Brasil, há cor e preconceito de cor. Oficialmente nós, brasileiros, somos classificados entre “brancos”, “pretos”, “pardos”, “índios” e “amarelos”. O IBGE pergunta com essas palavras em suas pesquisas. É o que está escrito em nossa certidão de nascimento. A classificação oficial não é assim à toa. Foi debatida, criticada, defendida e aperfeiçoada por décadas. Mudanças importantes ocorreram. Já houve o tempo em que “pardo” não era “pardo”, era “amarelo”.
Ela revela sobre nós, brasileiros, que, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, não nos vemos como raça, mas como cor. O que importa aqui é a cor de pele. Em que pese o esforço do movimento negro para reunir cores diferentes sob a denominação única de “negro”, não é assim que os brasileiros se veem. O Brasil não é EUA. Aqui existe o “preto que, de tão preto, é azul”, existe o “preto desbotado”, existe o “moreno” (que não é “preto”), existe o “sarará” e existem muitas outras cores. Nós, brasileiros, vemos inúmeras variações entre os dois extremos, entre o “branco” e o “preto”.
É difícil para uma sociedade admitir que ela é preconceituosa. E o Brasil é. Há, no Brasil, preconceito de cor contra “pardos” e “pretos”. Admitir isso é o mesmo que se olhar no espelho e ver um pequeno defeito no rosto, algo que venha a ferir sua autoestima por lhe fazer menos bonito do que você imaginava ser. Somos, como sociedade, menos bonitos do que imaginávamos, porque criamos barreira para “pardos” e “pretos” baseada em sua cor de pele.
Quem duvidar dessa afirmação tem a chance de a ver comprovada em meu livro A cabeça do brasileiro. Por meio de uma pesquisa nacional, foi possível detectar nosso preconceito. Os próprios brasileiros disseram que são preconceituosos, afirmaram que criam barreiras para “pretos” e “pardos”, que tornam a vida deles mais difícil simplesmente por causa de sua cor de pele.
O feriado da semana passada em São Paulo e no Rio de Janeiro foi para celebrar o Dia da Consciência Negra. Estabelecer esse feriado foi uma vitória do movimento negro. O objetivo é marcar a identidade, é mostrar que os negros existem. O dia de descanso faz lembrar que a vida dos não brancos no Brasil é mais difícil que a vida dos brancos. Paramos de trabalhar no feriado, mas o preconceito continuou.
Um argumento frequente nos debates sobre o preconceito de cor no Brasil é a negação da diferença entre raças. Os defensores desse argumento afirmam que não querem ver o Brasil dividido, que todos somos seres humanos e que as raças não existem. Ainda que se admita a existência de raças, eles dizem que isso não deve, nem pode, separar as pessoas.
O argumento falha num aspecto importante: os brasileiros não dão a mínima para raça. Tal conceito não existe em nossa cabeça. Mas a cor é muito importante, e “brancos” são mais bem-vistos que “pretos” e “pardos” em relação a muitos atributos. O mérito do Dia da Consciência Negra é chamar a atenção para a situação dos não brancos no Brasil.
Negar que existam, no Brasil, “brancos”, “pardos” e “pretos” é brigar com a realidade. Eles existem, porque é assim que as pessoas se veem. Percepções desse tipo, arraigadas e cristalizadas, são tão reais e tão fortes como a lei da gravidade. Ninguém escapa de sua influência. 
Negar o preconceito é uma tarefa mais fácil. Temos propensão psicológica a não ver o que é negativo e a salientar nossos aspectos positivos. Nada mais fácil do que dizer para nós mesmos que não temos preconceito de cor e afirmar que o Brasil é uma sociedade generosa e cordial. Essa tarefa se torna ainda mais tranquila quando nos comparamos aos EUA e a sua segregação geográfica entre negros e brancos. Aí mesmo é que reforçamos uma autoimagem positiva.
A política de cotas raciais, como qualquer política pública, tem aspectos benéficos e maléficos. Ela vai contra um valor importante, a meritocracia. Mas assume corretamente que não é possível comparar, em igualdade de condições, “brancos”, “pardos” e “pretos”, porque pessoas de diferentes cores de pele, no Brasil, tiveram trajetórias sociais muito diferentes, que as colocaram em pontos de partida muito desiguais.
O aspecto mais importante da política de cotas é chamar a atenção, no Brasil, para os negros e para as barreiras à melhoria de vida que eles precisam enfrentar, maiores que para os brancos. A política de cotas fez o trabalho sujo de mostrar que há preconceito de cor no Brasil. É isso que mais causa resistência a ela. Ninguém se sente confortável admitindo o racismo de sua própria sociedade.
É preciso admitir que “pardos” e “pretos” serão os principais beneficiários de uma política que chama a atenção para o preconceito de cor. A psicanálise nos ensina que o primeiro passo para combater uma determinada propensão psicológica é tornar-se consciente dela. Isso serve também para as sociedades. Se queremos combater o preconceito de cor, o primeiro passo é nos tornarmos conscientes dele.
Tornou-se comum negar nosso preconceito de cor afirmando que o preconceito é social, contra os pobres. Mais uma vez, os dados da pesquisa publicada em A cabeça do brasileirorevelam que isso não é verdade. Quando um “preto” ou “pardo” da mesma posição social é comparado com um “branco”, é o “branco” quem leva vantagem. Os brasileiros criam menos barreiras para um “branco” que seja mecânico de automóvel do que para um “preto” ou um “pardo” que tenham a mesma profissão.
A primeira reação a essa afirmação é negá-la, mas não foi o que os brasileiros disseram quando questionados acerca disso. Eles disseram, com toda a clareza, que o preconceito de cor cria mais dificuldades para os não brancos pobres do que para os brancos igualmente pobres.
Políticas públicas que ajudem a mostrar que as dificuldades para melhorar de vida são maiores para “pretos” e “pardos” devem ser bem-vindas. Essa é uma razão suficiente para defender as cotas. O melhor é que elas não fossem raciais, sistema que nossa falta de criatividade nos fez copiar dos EUA, mas sim cotas para cores de modo explícito. Nossa ambiguidade nos fez ter três cores para classificar as pessoas. Nossa ambiguidade deveria ser incorporada na política pública das cotas para cores.   

Alberto Carlos Almeida

Crônicas - Transexuais, travestis & preconceito

Uma noite, há muitos anos, conheci o travesti Rogéria na casa de um amigo. Eu morria de vontade de fazer perguntas sobre sua vida, como todos os outros na sala. Mas ninguém queria ser indelicado. Até que uma atriz, famosa na época, pediu:
– Eu posso apertar seu seio? Queria saber como é.
Simpática, Rogéria concordou. A atriz espetou o dedo. E disse:
– É igual o de qualquer mulher que bota silicone.
Que novidade! Silicone é silicone. Veio a descontração. Conversamos durante horas. Rogéria falou sobre sua vida, de maneira fascinante. Era, então, o único travesti celebridade, que fez até novela de televisão. Mais tarde, Roberta Close teve seu momento. Fez sucesso até na capa da revista Playboy. Francamente, nunca entendi por que se tornou um padrão de beleza feminina. Certa vez a conheci num restaurante frequentado pela classe teatral. Tinha mãos enormes, pés idem. Alta. Um homão!
Embora um ou outro travesti ou transexual se destacasse, era sempre uma curiosidade. Na vida artística há sempre uma prateleira para o exótico, e era lá, no máximo, que eles ficavam. A maioria absoluta vivia de prostituição. Aos poucos, algo está mudando. Travestis e transexuais começam a integrar-se no mercado de trabalho. Há alguns anos, um amigo me contou sobre um travesti aprovado num concurso público. Ao apresentar-se, veio o grande problema da repartição: que banheiro usaria? Enquanto héteros se digladiavam, ela assumiu tranquilamente seu posto. (Entre nós, a questão do banheiro é discutida até hoje!)

O maior exemplo de sucesso atual é a modelo trans Lea T., nascida Leandro. Criada na Itália, quando seu pai, o ex-jogador Toninho Cerezzo, jogava por lá, ocupa um glamouroso lugar na alta moda internacional. Fez campanhas para a grife Givenchy, posou para a Vogue, deu entrevista para Oprah Winfrey, desfilou na última Semana da Moda de Milão. O exigente mundo fashion a aceita plenamente. Aqui no Brasil, pela primeira vez, neste ano, um travesti conquistou o doutorado. Foi Luma Oliveira, na Universidade Federal do Ceará. Filha da agricultores paupérrimos, Luma conseguiu estudar, trabalhou como professora e agora prepara-se para o pós-doutorado. As últimas eleições trouxeram surpresas. Em Piracicaba, interior de São Paulo, o travesti Madalena elegeu-se vereadora com a segunda maior votação da cidade, pelo PSDB. Cozinheira e faxineira, Madalena também é líder comunitária de seu bairro. Carla Ziper também foi eleita vereadora em Presidente Venceslau, São Paulo, pelo PDT. É professora do ensino médio, tem formação superior e em sua plataforma eleitoral pretende “gerar empregos”. Ambas seguem o caminho aberto por Katia Tapety, primeiro travesti eleito como vereadora, em 1992, na cidade de Colônia do Piauí, a 388 quilômetros de Teresina. Katia foi vice-prefeita em 2004. Já mereceu um filme contando sua vida.
Travestis e transexuais são diferentes em essência. Transexuais sentem ter nascido num corpo “errado”. O ato de se travestir implica não perder a identidade masculina. O travesti pode ter corpo de mulher, mas não quer se “operar” e perder o pênis. A dificuldade de aceitação tanto de um como de outro é enorme. Muitos pais de classe média e alta expulsam filhos ao descobrir sua identidade. A própria Katia Tapety foi “escondida” em casa até a adolescência. No mercado internacional de filmes pornô, o Brasil é um grande fornecedor de títulos com “bonecas”, como afirma o livro Nas redes do sexo, de Maria Elvira Diaz-Benitez. O sucesso dos travestis nacionais tem um motivo cruel. Garotos de lares de baixa renda tomam hormônios no início da adolescência. Saem para as ruas cedo e até sustentam a família. Os hormônios precoces estimulam o desenvolvimento de traços femininos, fato que não ocorre em países com melhor proteção ao menor.
Os próprios travestis e transexuais já se organizam. Bárbara Aires chegou a diretora da Associação de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro (Astra). Prostituía-se para viver. Neste ano, conseguiu trabalho como produtora no programa Amor&Sexo, da TV Globo. Mudou de vida. E lidera a luta pela abertura de oportunidades de trabalho. Acredito que travestis e transexuais ocuparão, em tempo relativamente curto, empregos como qualquer outra pessoa. É um preconceito que começa a acabar. Por enquanto, o movimento é tímido. Mas não é assim que se iniciam as grandes transformações?

Walcyr Carrasco / Revista Época

Artigo de Opinião - Reitores mandam no Ensino Médio

Nosso ensino médio, após várias décadas de letargia, começa a ser visto como um pantanal de problemas e contradições. Aleluia! Trata-se de um ciclo copiado da França do pós-guerra, quando apenas 5% da faixa etária correspondente frequentava uma escola média. Lá, era para o topo da elite. Enquanto o médio brasileiro permanecia minúsculo e atendia, sobretudo, às ínfimas elites, mal e mal, os alunos davam conta do currículo enciclopédico. Mas nas últimas décadas explodiu a matrícula, o ensino ficou cada vez mais aguado e congestionaram-se os currículos e ementas. É o pior dos mundos: a escola ficou pior, os alunos são rapados do fundo do tacho e o currículo é para gênios. Vejamos as alternativas existentes, antes de inventar mais jabuticabas.
Copiar a high school americana significa oferecer centenas de disciplinas dentro de uma escola única, para onde acorrem todos os alunos. Diante desse cardápio, cada aluno constrói o seu currículo. A ideia não é economicamente viável no Brasil e anda na contramão da nossa cultura. A solução clássica europeia é oferecer escolas de diferentes modelos, de acordo com o perfil e o gosto do aluno. Umas mais voltadas para preparar para o trabalho, outras para a universidade. E mais as soluções híbridas. Nossa esquerda engasga e protesta contra o elitismo de criar uma "escola de pobres"" e uma "de ricos" - apesar de a Europa ser a região de menor desigualdade econômica e social. Independentemente do que possa vir à frente e com mais ambição, resta uma solução fácil e amplamente testada. Trata-se de voltar à ideia de um modelo parecido com o que tínhamos no tempo do clássico, científico e comércio. É algo similar ao modelo francês, oferecendo vários "sabores" de baccalauréat: humanidades, ciências biológicas, matemática, e assim por diante. A Argentina tem algo parecido.
Isso permite aos alunos estudar mais aquilo de que gostam ou o que querem, além de aliviar a avalanche curricular do presente. É uma solução simples, realista e próxima do que já tivemos. No nosso caso, como o Enem tem quatro disciplinas, seria óbvio pensar em quatro vertentes. Essa solução funciona, sem mudanças de currículo ou legislação. Mas ficaria ainda melhor se fosse possível desvencilhar-se dos currículos excessivos e impositivos. Se isso acontecer, poderão aparecer trajetos mais práticos, para quem não se interessa pelo superior e quer um programa em linha com seus planos de trabalho. As matérias do ensino técnico também podem substituir as do médio regular, fazendo com que tenha a mesma carga horária total. Contudo, os alunos que cursarem uma escola assim diversificada terão uma surpresa desagradável no vestibular das universidades públicas, pois estas consideram apenas as médias das quatro disciplinas testadas no Enem. Quem estudar em uma alternativa com pouca matemática - ou com pouco português - será severamente punido no processo de seleção. O vestibular presente estraçalha os sonhos de diversificação do médio -  tal como existe em todos os países avançados.
Não é de hoje que os vestibulares das universidades públicas determinam o funcionamento das escolas de nível médio. De fato, essa proposta simples e exequível torna-se letra morta diante dos vestibulares que ponderam igualmente as médias das quatro disciplinas. Faz parte da solução ter vestibulares dando mais peso às disciplinas correspondentes à área escolhida pelo aluno. Se assim for, as escolas espontaneamente se bifurcarão segundo os quatro grandes troncos. Contudo, as instituições de nível superior, mesmo as federais, têm todo o direito de determinar seus critérios de acesso. Em última análise, é uma reforma fácil, conveniente e bem testada. Só que não depende do ministro ou de secretários, mas das universidades públicas. São elas que mandam nos vestibulares. Mas, em se tratando de uma ideia que traz muitos avanços e poucos senões, será que não poderíamos contar com a ajuda dos reitores? Por outro lado, o MEC tem meios de persuadir as universidades a andar nessa direção.



Claudio de Moura Castro - Revista Veja

Te Contei, não ? - O que querem os índios

Uma das principais reclamações dos índios é a de não serem ouvidos. De tempos em tempos, eles tingem o corpo de vermelho e negro em sinal de guerra e saem a brandir suas bordunas, arcos e flechas em frente a representantes do governo para chamar atenção para suas reivindicações.
Na maioria das vezes, a sociedade brasileira só fica sabendo de suas demandas por meio de intermediários - padres marxistas ou ongueiros que fazem com que os moradores das cidades acreditem que os problemas indígenas consistem em falta de terras e em obras de infraestrutura nocivas ao ambiente.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pôs fim a essa lacuna. É o mais completo levantamento das piniões dos índios brasileiros já realizado. Durante 55 dias, os pesquisadores visitaram 32 aldeias em todas as regiões do país e entrevistaram 1222 índios de vinte etnias. Trata-se de uma amostra robusta maior, proporcionalmente, do que a que constuma ser usada nas sondagens eleitorais.

As respostas revelam que os índios têm aspirações semelhantes às da nova classe média nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles sonham com os mesmos bens de consumo e confortos da vida moderna, sem deixar de valorizar sua cultura. Muito do que é apresentado pelos intermediários da causa indígena como prioridade nem sequer aparece na lista das preocupações cotidianas dos entrevistados. "A pesquisa libertará os índios da sua falsa imagem de anacronismo", diz a presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (PSD/TO).

Nove em cada dez índios acham melhor morar em casa de alvenaria do que numa maloca. Oito em cada dez consideram muito importante ter um banheiro sob o teto em que vivem, um conforto desfrutado por uma minoria.

Quase metade dos indígenas adoraria tomar uma ducha quentinha todos os dias. O grupo de índios donos de automóveis é seis vezes a média dos brasileiros de classes C e D. "Ninguém deixa de ser índio por querer viver bem.

É inaceitável que as regras de como devemos ser continuem sendo ditadas de cima para baixo sem levar em consideração a nossa vontade", diz Antônio Marcos Apurinã, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, que representa 160 etnias. Segundo Apurinã, por causa da falta de condições adequadas nas áreas demarcadas, muitas aldeias passam por um êxodo sem precedentes. Há quatro anos, 12500 índios viviam na periferia de Manaus. Hoje, estima-se que mais de 30000 vivam apinhados em construções precárias na cidade.

Se a criação de reservas é alardeada como a demanda mais urgente dos povos indígenas, por que eles as estão abandonando para viver em favelas? Com a palavra, os índios. O problema mais citado é a precariedade dos serviços de saúde. Eles se queixam principalmente da falta de medicamentos farmacêuticos (que eles valorizam tanto quanto os remédios tradicionais) e de médicos. Em segundo lugar está a falta de emprego. "Nós não vivemos mais como nos meus tempos de infância.

A nova geração compreende a vantagem de ter um emprego, uma renda. Ela quer ter roupa de homem branco, celular e essas coisas de gente jovem. Os governantes precisam aprender que nossos filhos querem ter tudo que os filhos do homem branco têm. Falar português, ir para a universidade e ser reconhecidos como brasileiros e índios", diz o cacique Megaron Txucarra- mãe, um dos mais respeitados líderes caiapós, de Mato Grosso.
 
A questão fundiária é um tema marginal. Quando instados a falar sobre seus problemas individuais, os entrevistados nem sequer citaram a criação ou a ampliação de reservas. O assunto só ganhou relevância quando aplicado aos índios em geral. Nesse caso, a demarcação de áreas é o segundo problema mais mencionado, depois de saúde. Isso significa que, quando pensam nos outros índios, os entrevistados são tão influenciados pela campanha a favor da demarcação de reservas como o restante da população. Ao avaliarem sua situação pessoal, porém, apontam outras prioridades. "Quando nos fazem acreditar que precisamos de mais reservas, os problemas mais urgentes são esquecidos", diz o índio macuxi Jonas Marcolino, de Roraima, formado em matemática e estudante de direito. É claro que, quando questionados se gostariam de ter mais terras, a maioria dos índios entrevistados disse que sim. Se a pergunta fosse feita a um fazendeiro, qual seria a resposta? A mesma, evidentemente.
 
O sociólogo Bernardo Sorj, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que, ao conviverem com o resto da sociedade, é inevitável que os povos indígenas absorvam valores e expectativas da cultura nacional e aspirem aos mesmos direitos. "Trata-se de um processo de transformação crivado de tensões que exige dos índios um esforço para aliar a tradição à modernidade. Cabem aos demais brasileiros compreensão, respeito e apoio para que eles façam essa síntese, que será sempre instável, entre a ancestralidade e a vida moderna", diz Sorj. Missionários e militantes que tentam resumir a questão indígena à expansão das reservas, anotem: o que os índios mais querem é saúde, emprego e saneamento.
 
O sonho da modernidade
A pesquisa do Datafolha encomendada pela CNA mostra que os índios aspiram às mesmas conquistas materiais e sociais almejadas pela maioria dos brasileiros. Para eles, não há contradição entre a identidade indígena e os confortos e desafios da vida moderna, o que inclui trabalhar e estudar como qualquer outra pessoa. Eles querem cidadania plena e não desejam viver como os antepassados viviam cinco séculos atrás. Foram entrevistados 1222 moradores de 32 aldeias indígenas em todas as regiões do país.

Te Contei, não ? - A lei da bela contra o crime


A terra sem lei da internet vai ficar um pouco menos insegura. O Congresso aprovou na última quarta-feira uma lei que determina punições para quem invadir computadores para obter dados, divulgar essas informações e disseminar vírus, entre outros crimes do mundo virtual. Até agora, a polícia e os juizes tinham de fazer malabarismos para adaptar a legislação já existente, toda ela pré-internet, para tentar enquadrar esses criminosos. O resultado, no mais das vezes, era a impunidade dos violadores. O debate sobre uma legislação específica para a internet se arrastava em velocidade de conexão discada havia mais de uma década, mas ganhou ímpeto depois da invasão do computador da atriz global Carolina Dieckmann – que acabou por batizar a nova lei. Roubadas, fotos íntimas que mostravam toda a sua beleza mignon explodiram no ibope da rede mundial de computadores no começo de maio. Logo após o vazamento, cinco homens, que haviam tentado chantagear a atriz, foram pegos e indiciados pelos crimes de extorsão qualificada, difamação e furto – mas não pela invasão de seu computador. Eles podem pegar até quinze anos de prisão. Se a Lei Carolina Dieckmann estivesse em vigor, a pena poderia ser estendida por mais quatro anos.
Outra lei, em discussão desde 1999, também foi aprovada no pacote Dieckmann e tipificou o crime de falsificação de cartões de crédito e débito por meio eletrônico. A ofensiva é positiva, mas especialistas avaliam que as novas leis já nascem com brechas. Elas não preveem punição, por exemplo, para alguém que tenta invadir um computador mas não consegue, ou o invade e não rouba nada, apenas por curiosidade. Mesmo com as falhas, o avanço é inegável. O Brasil tem a quinta maior população de usuários de internet no mundo, com 70 milhões de pessoas, que passam em média 25 horas por mês online. "Com uma movimentação dessas, já era hora de termos segurança jurídica para nossos usuários", diz Renato Opice Blum, advogado especialista em crimes de internet.
 

Revista Veja