segunda-feira, 8 de abril de 2013

Te Contei, não ? - " A dor não vai embora "

Artista plástica checa Helga Weiss percorre os anos de 1938 a 1945, contando as privações que viveu na Praga ocupada pelos alemães e expondo em um texto ao mesmo tempo simples e cortante a barbárie que testemunhou

Monica Weinberg

Muitas crianças judias registraram em diários os horrores que viveram nos campos de concentração nazistas. Quase todos, porém, se perderam em meio aos destroços da II Guerra, o que faz do relato da artista plástica checa Helga Weiss, hoje com 83 anos, uma preciosidade histórica. Em papéis amarelados que passaram décadas mofando na gaveta - e agora foram reunidos no recém-lançado O Diário de Helga (Ed. Intrínseca, 256 páginas, 39,90 reais) -, ela percorre os anos de 1938 a 1945, contando as privações que viveu na Praga ocupada pelos alemães e expondo em um texto ao mesmo tempo simples e cortante a barbárie que testemunhou primeiro no campo de Terezín, depois em Auschwitz. Ali desembarcou aos 14 anos. Sobreviveu por um lance de sorte: Helga conseguiu se passar por mais velha e entrou na fila dos que eram considerados aptos para o trabalho. Em nenhum momento se separou da mãe, mas perdeu o pai, que a incentivou, ainda em Terezín, a abandonar os desenhos de temática infantil para despejar no papel o que via no campo. Uma amostra dessa intensa produção está nestas páginas - material que permaneceu intacto graças a um tio de Helga que trabalhava no departamento de registros no campo checo e escondeu o maço de papéis em um buraco cavado em uma parede de tijolos, para recuperá-lo depois da guerra. Os capítulos pós-Terezín foram escritos quando ela já estava em casa, no mesmo apartamento onde até hoje vive, em Praga. Diz Helga, viúva de um músico, que tem dois filhos e três netos: "Eu posso ter sobrevivido ao campo de extermínio, mas seus cheiros, sons e horrores nunca vão me deixar". A seguir, trechos da entrevista que ela deu a VEJA.

CHEGOU A NOSSA HORA

O antissemitismo se disseminava por Praga entre os anos de 1938 e 1940. Eu não podia mais ir à escola, ao teatro, ao cinema, nem andar em um parque vizinho à minha casa, cenário de minha infância, onde duas placas uma em checo, outra em alemão diziam: "Proibido judeus". Lembro da sensação de ter de pregar a estrela de um amarelo intenso com a inscrição "Jude" em minha blusa e ser tomada de raiva, ódio, vontade de gritar e chorar quando me olhavam com desdém no meio da rua. Mas congelava o semblante, num esforço sobrenatural para não demonstrar nenhuma emoção. Não queria dar esse prazer aos alemães. Um dia, veio a notícia que já esperávamos: eu e meus pais estávamos na lista dos convocados para o campo de Terezín. Comecei a embrutecer e a virar adulta ali, aos 12 anos.
A SOMBRA DA MORTE
Terezín funcionava como uma escala antes de Auschwitz e de outros campos de extermínio. Era alardeado pelos alemães como um lugar modelo mentira deslavada que um comitê internacional da Cruz Vermelha engoliu na famosa visita que fez ali em 1944. Avisados da inspeção, os nazistas se esmeraram para dar ares de humanidade ao local: pintaram paredes, demoliram as camas de três andares e construíram uma escola de fachada. A comissão ficou sem entender o horror que era. Todos os dias, pessoas morriam às dezenas de tuberculose, tifo ou vítimas de castigos públicos ao estilo medieval. Certa vez, mandaram um grupo para a forca. Era gente que tinha conseguido burlar a proibição de enviar cartas para fora do campo. Eu não podia sair do quarto, mas vi da minha janela a sombra deles a caminho da morte. Estavam curvados, resignados. Se alguém ousasse reagir ou fugir de Terezín, outros pagavam da forma mais terrível possível: a deportação imediata para Auschwitz.
IMAGEM DO INFERNO
Tudo o que sabia quando embarquei no trem que partia de Terezín em outubro de 1944 era que estávamos indo para o leste. O destino era Auschwitz. A primeira imagem que tive daquele lugar foi a de um mar de chaminés soltando uma fumaça espessa, escura. Achei que eram fábricas, mas um alemão esclareceu: "São câmaras de gás. Vocês estão num campo de extermínio". Entrei ao lado da minha mãe em uma fila da qual não se via o fim. Um homem ia analisando caso a caso. Ao que tudo indica, era Josef Mengele. Nunca vou ter certeza. Não olhei o seu rosto. Fixei-me apenas no dedo, que ora se movia para a esquerda - o lado das crianças e dos velhos que iam direto para as câmaras da morte -, ora para a direita - a fila dos mais fortes e aptos ao trabalho escravo no campo. Aquele homem tomava a decisão sobre quem ia viver ou morrer em questão de segundos. Não escondia o prazer que tinha de brincar de Deus. Eu tinha 14 anos, mas parecia mais velha, e acabei me juntando aos trabalhadores, com minha mãe.
"PERDI A MELHOR FASE"
Divertiam-se raspando nossa cabeça. Eu me imaginava horrorosa, mas não havia espelho em Auschwitz. Um dia, vi minha imagem refletida na janela, cadavérica, feia, velha. Não era uma adolescente. Na verdade, tinha de me esforçar muito para me sentir humana. Descobri da forma mais brutal possível que, a partir de certo estágio de degradação, você passa a ter as reações instintivas de um animal. Aprendi a viver à base de pouca comida. Perdi as contas de quantas vezes fiquei doente e, mesmo sem remédios, me curei, movida por uma vontade fora do normal de sobreviver. Isso eu nunca perdi. Mas, ao mesmo tempo, me perguntava: quando o arame farpado for arrancado e os muros demolidos, seremos capazes de viver entre aqueles que seguiram sua vida sem interrupções?
DOIS DIAS SALVADORES
Conforme os russos avançavam, os alemães fugiam de campo em campo, carregando num trem para gado os poucos judeus que restaram. Eu estava entre eles. Desembarcamos em Mauthausen, na Áustria, apenas dois dias depois de a câmara de gás ter sido desativada. Escapei da morte por esses dois dias. Sim, porque, mesmo diante da derrota iminente, os nazistas estavam decididos a seguir em frente com a solução final. Ocorreume pular daquele trem e fugir, mas minha mãe não aguentaria ir comigo. Enquanto os vagões cruzavam o cenário de terra devastada, pessoas na rua arremessavam pão em nossa direção, e eu'pensava: "Meu Deus, essas pessoas são boas!".
NINGUÉM QUERIA OUVIR
Depois da guerra, ficava me perguntando: por que justamente eu sobrevivi, se havia gente tão mais talentosa e inteligente? Há várias respostas possíveis. Fui útil no campo, trabalhando na colheita, depois na montagem de aviões. Também mantive a disciplina de comer mesmo quando tinha asco do que vinha no prato. A idade ainda contou a favor. Mas havia muita gente, assim como eu, que jamais teve a sensação de ser livre de novo. Tive sorte. Das 15000 crianças enviadas a Terezín, sobraram 100. Eu e minha mãe recuperamos o apartamento onde vivíamos antes, lugar que me trazia à mente as lembranças da infância ceifada e uma dor terrível pela ausência de meu pai, que nunca mais voltei a ver. Meu corpo aguentou todo o horror, mas, ao chegar em casa, desabei e fui levada a um hospital. A solidão de quem passou por um pesadelo como esse é algo insuportável. Em meio aos escombros e às feridas não cicatrizadas, ninguém queria ouvir minha história. 
REVIRAR A MEMÓRIA
Meu diário ficou décadas acumulando pó no fundo da gaveta. Se lesse, era como se estivesse lá, no meio do inferno de novo. Resolvi publicá-Io agora porque estou velha e me aflige ainda ver a intolerância chegando a graus extremos na política, na religião, como se pouco, ou nada, se tenha aprendido sobre os riscos e as consequências de alimentar o ódio. Ter sido alvo de tamanha selvageria me tornou muito mais resistente às adversidades, e dura. Escrever meu diário foi a maneira que encontrei de me sentir humana. Em certo sentido, foi também o que me salvou.

REvistaVeja

domingo, 7 de abril de 2013

Te Contei, não ? - Vale - tudo na educação

De um lado, a evocação da autoridade; do outro, a afirmação pessoal, típica de quem está caminhando para a idade adulta e vive numa favela dominada pelo tráfico. O ringue: a Escola Municipal João Kopke, de educação fundamental, em Piedade, a cerca de 300 metros do Morro do Urubu. No colégio, frequentado metade por alunos do asfalto e metade pelos da favela, nunca havia ocorrido um caso de agressão grave. Até o último dia 21, quando a diretora do colégio, Leila Soares, de 43 anos, foi atacada a socos por um aluno de 15 anos. Ele contou e diz que foram oito golpes. Leila só sabe que foram vários. A professora quer uma punição exemplar. O estudante acha que um pedido de desculpas já seria o suficiente. Cada um conta a sua versão.
As marcas dos socos no rosto da pedagoga, há quatro anos à frente da João Kopke, já desapareceram, mas a imagem do agressor partindo em sua direção continua bem nítida em sua mente. Ela sente fortes dores de cabeça e não escuta com o ouvido direito. Em seu apartamento, numa rua de classe média do subúrbio, Leila tenta se recuperar do trauma e manter as aparências na hora da lição de casa dos dois filhos, de 6 e 12 anos. Ela vem de uma família cuja tradição é a vocação pelo magistério. Foi normalista do Carmela Dutra, colégio de Madureira voltado para a formação de professores. Rígida, diz que tem como principal virtude ouvir e que costuma pedir para não ser interrompida quando conversa um assunto sério com um aluno ou responsável.
Perto da escola, numa construção tosca de alvenaria, no alto do Morro do Urubu, já no bairro de Pilares, onde o esgoto desce pelas vielas, provocando um mau cheiro insuportável que entra pela única janela do imóvel, mora o adolescente de 15 anos que socou Leila. A casa fica ao lado de uma outra fincada na pedra que ameaça desabar a qualquer chuva mais forte. Dentro dela, nenhuma TV funciona com todas as funções: de uma, só se aproveita a imagem; de outra, o som. O jeito é ligar as duas ao mesmo tempo.
O DVD player é emprestado, e o celular velho não tem chip. A geladeira, enferrujada, com a porta despencada, serve de armário: há alguns dias, um quilo da sardinha, xepa da feira local, estragou por falta de refrigeração. O cômodo da casa onde mora a família, que faz as vezes de quarto e sala, tem cerca de 12 metros quadrados. Há dias o prato principal tem salsicha e ovo, comprados com os R$ 134 do Bolsa Família.
Nesse cenário, não há espaço para o diálogo, apenas para brigas e sessões de espancamento, reconhece a paraibana de Campina Grande, de 38 anos, mãe do jovem agressor. Ela se diz vítima do marido, mas não tem coragem de denunciá-lo à polícia, pois o morro é ocupado pelo tráfico. O socorro vem do próprio adolescente que bateu na professora, o segundo dos três filhos da mulher, considerado o mais calmo da família. É ele quem suplica ao pai que pare de bater na mãe, pois “numa mulher nunca se bate”.
No dia 21, o adolescente, que faz o 7º ano do ensino fundamental, no programa de aceleração escolar, não seguiu à risca seu próprio pensamento.
— O sangue subiu, e eu agredi a diretora. Ela está falando que escorreu sangue, mas eu não vi nada — diz ele, apoiado pela mãe, segundo a qual a professora ficou com a “cara perfeita” (sem machucados).
“Me chamou de demônio. Eu explodi”
Foi quando subia a escada da escola que leva ao pátio que a diretora se deparou com o estudante. Com uma chave de braço, ele estava atracado com um vizinho, seu melhor amigo. Não era briga, apenas um jeito meio bruto de demonstrar afeto. A partir daí, as versões divergem. O estudante alega que esbarrou na diretora; ela diz que foi empurrada.
— A gente tem a mania de andar agarrado. Aí ela disse: “Não quero agarramento”. Desci um degrau e esbarrei nela. Estressada, ela me empurrou, foi comigo na secretaria, falando alto. Não gostei. Ela chegou perto de mim e me chamou de alguns nomes. Me mandou para o inferno e me chamou de demônio. Eu explodi.
Leila diz que os fatos foram outros:
— Não me lembro de tê-lo chamado de demônio. Acho que ele é mau. Enquanto não me bateu, não sossegou. A missão dele naquele dia era dar soco em alguém. Fui eu a vítima. Tanto é que ele foi tranquilamente para o pátio contar o feito para os amigos. Não acredito que ele estivesse surtado ou drogado. Chamei a ronda escolar, e ele foi conduzido pela Guarda Municipal.
O que teria enfurecido o adolescente, que estuda lá desde 2011, foi ser chamado de demônio. É assim que a mãe dele se refere ao pai, pedreiro desemprego, que tem problemas “nos nervos” e toma remédios com tarja preta diariamente. Depois que o filho foi levado para a 24ª DP (Piedade) para se explicar, a mãe teria pegado alguns comprimidos do marido para se acalmar.
Com 23 anos de magistério no município, Leila, que já atuou como professora, coordenadora pedagógica e gerente de uma Coordenadoria Regional de Educação, enfrentou situações delicadas em outras escolas. Numa ocasião, precisou chamar a atenção de uma aluno que ameaçara uma funcionária:
— O aluno disse à merendeira: “Cuidado que você pode acordar com a boca cheia de formiga”. Aí eu o chamei e falei: “Você sabe rezar? Então reza para não cair sequer um cisco no olho dela, porque, se isso acontecer, vai cair na sua conta”. Ele alegou que era brincadeira.
Numa escola do Complexo do Alemão, Leila teve que se deitar no chão por causa de um tiroteio na comunidade. Era comum, às segundas-feiras, antes das UPPs na região, as professoras recolherem uma sacola com projéteis que caíam dentro do colégio.
Na João Kopke desde 2009, Leila orgulha-se de ter mudado o ambiente da escola, o que fez com que o colégio, de 300 alunos, pulasse para 700.
— Conheço cada aluno pelo nome e, quando percebo tentativa de abuso, falo: “Eu jogo bola com você na Paquequer (rua da região)? Então não sou sua colega”. Eles precisam saber seus limites.
Dessa forma, a diretora não se conforma com o fato de o jovem não ter ido à Vara da Infância e Adolescência até o dia 22, como estava marcado:
— Eu gostaria que ele cumprisse uma medida socioeducativa. A mãe acha que é simples ele ter socado alguém.
Sem dinheiro para o ônibus, a mãe do adolescente conta que não pôde levar o filho, que não tem o nome do pai registrado na certidão de nascimento.
— Vou segunda-feira (amanhã). Se não conseguir o dinheiro da passagem, vou ter que pedir ao tráfico — diz ela.
O jovem nega ter rido da diretora, como ela alega. E completa:
— Estou até arrependido porque agredi a diretora, uma mulher. Não gosto de fazer isso. Mas daí a falarem que eu vou entrar para a vida do crime... Isso nunca vai acontecer — garantiu ele, embora tenha ficado mais conhecido no Morro do Urubu, ganhando a simpatia dos traficantes por ter enfrentado a diretora.

O Globo

Tá na Hora do Poeta - Coca Cola - Décio Pignatari



COCA-COLA


B E B A        C O C A C O L A
B A B E      C O L A
B E B A    C O C A
B A B E   C O L A   C A C O
C A C O
C O L A
C L O A C A


(Décio Pignatari)


CONCRETISMO - Foi a mais importante corrente de vanguarda (movimentos de caráter agressivo e experimental que rompiam os padrões da arte tradicional) da nossa literatura e influenciou poetas, artistas plásticos e músicos.
Esse movimento começou em 1956 e foi liderado por três poetas: Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos.
Duas revistas ajudaram a divulgar as idéias concretistas: “Noigandres” (criada pelos poetas citados acima) e a revista “Inovação”.
Os poetas concretos pregavam: o fim da poesia intimista e o desaparecimento do eu-lírico (acreditavam que a poesia é fruto de um trabalho mental e de esforço que implica em refazer o texto várias vezes até que ele atinja a sua forma mais adequada; e não, fruto de sentimentos e emoções), a linguagem geométrica e visual, pregavam o fim do verso e da sintaxe tradicional.
Brincavam com as formas, cores, decomposição e montagem das palavras. Para conseguir tais efeitos, recorreram ao Futurismo (destruição da sintaxe, verbos no infinitivo, abolição de adjetivos e advérbios, abolição dos sinais de
pontuação, estes seriam substituídos pelos sinais matemáticos e musicais, etc) e ao Cubismo (ilogismo, humor, linguagem nominal, etc) e deram continuidade a certas experiências formais usadas por Murilo Mendes, Drummond e João Cabral de Melo Neto.

Te Contei, não ? - Água e açúcar sem valor nutricional




Especialistas listam mitos e verdades sobre refrigerantes, mais consumidos que carne


Duilo Victor

Exagero. Nos anos 1970 e 1980, um litro de refrigerante servia uma família de quatro pessoas por um fim de semana; hoje são cerca de 94 ml por pessoa por dia, um aumento de 500% no consumo

Florence Delva/ Latinstock

Os refrigerantes existem da forma como a gente conhece há mais de 120 anos e, no Brasil, segundo informa o IBGE, está entre os cinco alimentos mais consumidos do país, à frente de qualquer tipo de carne, fruta ou verdura. Pode ser cúmplice, mas a bebida não produz celulites ou causa diabetes sozinha, muito menos vicia.
O açúcar ajuda na obesidade, mas obesos não o são apenas por causa do líquido tentador. Tanto tempo no mercado foi o suficiente para o surgimento de mitos sobre a ingestão da bebida doce borbulhante, mas há
pelo menos uma grande unanimidade entre especialistas em nutrição: ao contrário de um bife, uma laranja ou um brócolis, refrigerante tem valor nutritivo insignificante.

Um terço de latinha per capita

Só de refrigerante, segundo a mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, de 2009, são cerca de 94 ml por pessoa todos os dias, pouco menos de um terço de uma latinha. Apesar da cafeína contida em refrigerantes à base de cola, a bebida não causa dependência química, afirma o nutrólogo e pediatra Mauro Fisberg, da Universidade Federal de São Paulo. Não existe gente viciada especificamente em refrigerante.

Pode existir a necessidade, pelo hábito, e para que seja ingerida a quantidade de cafeína suficiente para ter o ritmo cardíaco alterado, seria necessário beber entre um e dois litros da bebida num mesmo dia.

- Há exagero nos ataques aos refrigerantes. Não há efeito deletério no consumo da bebida, não se compara ao cigarro - afirma o nutrólogo, coordenador do Centro de Distúrbios Alimentares na Infância do Hospital
Infantil Sabará, em São Paulo. - Do mesmo modo, não há nada a favor dos refrigerantes, e cabe aos pais controlar o consumo, desde a infância. Antigamente, o consumo da bebida estava atrelado aos fins de semana, uma porção. O limite é o bom senso. Quem puder mudar para as versões light ou zero, melhor.
Infantil Sabará, em São Paulo. - Do mesmo modo, não há nada a favor dos refrigerantes, e cabe aos pais controlar o consumo, desde a infância. Antigamente, o consumo da bebida estava atrelado aos fins de semana, uma porção. O limite é o bom senso. Quem puder mudar para as versões light ou zero, melhor.
Steve Jobs, o empresário fundador da Apple, morto em 2001, fez uma descrição bastante objetiva sobre os refrigerantes ao tentar convencer John Sculley, então CEO da Pepsi, em 1983, a chefiar a empresa de tecnologia: "Você quer vir mudar o mundo ou continuar a vender água com açúcar?" Exageros à parte, são os dois ingredientes mais importantes da bebida, mas uma lata não contém as nove ou dez colheres de sopa que alguns virais da internet fazem chegar a nossas caixas de e-mail. Fisberg faz a conta: para ter a média de
125 calorias, cada lata teria que ter 30 gramas de açúcar ou duas colheres cheias. E o mesmo valor calórico da mesma quantidade das bebidas à base de néctar de frutas, por exemplo:

- Ninguém fica gordo por causa de refrigerante. A questão é que quem consome refrigerante com açúcar em excesso também tende a consumir pizza, macarronada ou doces em excesso, além de não praticar exercícios físicos. A maioria das pesquisas que condena o consumo de refrigerantes isola a bebida sem considerar os outros hábitos do indivíduo - acredita.

Na mesma baia do macarrão

O médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, concorda que não dá para demonizar o refrigerante. Se for para achar um culpado, que se coloque então os refrigerantes na mesma baia dos alimentos com alto índice glicêmico. Produtos industrializados, como doces, macarrão, pães
e arroz estão na lista. Ribas Filho explica que tais alimentos têm o que se chama de carboidrato simples, pois elevam rapidamente o índice de açúcar do sangue e obrigam maior atividade do pâncreas ao provocar o que especialistas chamam de incursões insulínicas:

- Usar o pâncreas a toda hora desta forma não faz bem. Temos um estoque de produção de insulina para o decorrer da v ida e, quando o pâncreas entra em fadiga, temos o diabetes - explica.

Já alimentos como feijão, lentilha, nozes e castanhas são feitos de carboidratos mais complexos, que demoram a serem absorvidos e, por isso, exigem trabalho mais suave do pâncreas.

Explosão de consumo

Nos anos 1970 e 1980, uma garrafa de um litro de refrigerante servia uma família de quatro pessoas por um fim de semana. De acordo com Rosely Sichieri, especialista em nutrição em saúde pública do Instituto de Medicina Social da Uerj, levantamentos nacionais indicam que o consumo da bebida aumentou 500% em relação aos níveis dos anos 70. Nesse intervalo surgiram as embalagens de dois litros ou mais. Em paralelo, explica Rosely, o mercado não parou de fazer propaganda associando o consumo dessas bebidas ao bemestar, além de lançar marcas mais baratas, as tubaínas:

- O problema é o exagero. Temos uma cultura de que tudo tem que ser adocicado. Não existe, por exemplo, a necessidade de beber algo durante as refeições, mas criou-se o hábito.

Relação aos níveis dos anos 70. Nesse intervalo surgiram as embalagens de dois litros ou mais. Em paralelo, explica Rosely, o mercado não parou de fazer propaganda associando o consumo dessas bebidas ao bemestar, além de lançar marcas mais baratas, as tubaínas:

- O problema é o exagero. Temos uma cultura de que tudo tem que ser adocicado. Não existe, por exemplo, a necessidade de beber algo durante as refeições, mas criou-se o hábito.

A contrapropaganda da celulite, no entanto, também tem seus mitos. Uma latinha de refrigerante não tem poder de virar imediatamente furinhos nos quadris. Se a moça na praia não tem uma celulite sequer, suspeite de sua herança genética, mais do que o fato de ela nunca ter ingerido açúcar na vida.
- Não é a causa, mas é agravante. A gordura dos quadris gera maior recepção do hormônio feminino, o estrogênio, para o local, e este é apenas um fator de indução à celulite - explica a dermatologista Vanessa Metz, integrante da Academia Americana de Dermatologia. - As células de gordura com pior irrigação sanguínea também têm propensão à celulite. E nas mulheres, a gordura se acumula de forma perpendicular à pele, o que também contribui para o problema.


Fonte: O Globo

Te Contei, não ? - Memórias de Chumbo

Com o golpe desferido contra o governo João Goulart na chamada “noite dos generais”, em 31 de março de 1964 — há exatos 49 anos —, o Brasil começou a viver décadas de chumbo. Goulart foi deposto, e as instituições democráticas mergulharam na escuridão. Jornalistas foram perseguidos, torturados e até assassinados. Foi o que aconteceu com Vladmir Herzog, em 1974, nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo. No Rio, o estudante secundarista Edson Luís foi morto com um tiro no peito pela Polícia Militar em 28 de março de 1968, durante uma operação da repressão no Calabouço, restaurante dos estudantes que virou um dos focos de resistência contra o regime militar.
Da esq. para a dir, Alfredo Sirkis, Chico Mendes, Carlos Minc e o índio Macsuara durante passeata ecológica | Foto: Ivone Perez
Da esq. para a dir, Alfredo Sirkis, Chico Mendes, Carlos Minc e o índio Macsuara durante passeata ecológica | Foto: Ivone Perez
Todos aqueles que eram contra a ditadura foram vítimas do crivo dos militares. Foi criada a resistência, e muitos militantes de organizações de esquerda pegaram em armas. Guerrilheiros foram mortos pela força da repressão. Artistas perseguidos tiveram que partir para o exílio, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, entre outros.
O DIA escolheu três personagens que viveram na pele os anos de sombra. Fernando Gabeira, Carlos Minc e Alfredo Sirkis contam o horror que vivenciaram nos porões. A luta contra a ditadura (1964-1985) não foi em vão. A anistia e a eleição direta para presidente, depois de anos de enfrentamentos, consolidaram a democracia. A liberdade que hoje respiramos foi conquistada com sangue, suor e lágrimas.
“Respirando o ar da democracia”

Aos 16 anos, estudante secundarista, pegou em armas contra o golpe. Lembra-se das mortes e da tortura na ditadura, como a da presidente Dilma Rousseff, e diz não guardar rancor porque a luta não foi em vão: “Hoje estamos respirando o ar da liberdade e da democracia”.
Minc participou da marcha dos 100 mil e do enterro do estudante Edson Luís, morto pela PM. Ficou preso na Ilha Grande por um ano e, ao deixar o país, passou por Argélia e Portugal, onde fez mestrado. Os marcos da vitória, segundo ele, foram a anistia e a retomada da eleição direta.

CARLOS MINC, Secretário estadual do Ambiente, 61 anos
 
Como cenas de um filme antigo
“Hoje, os anos de chumbo são como cenas de filme antigo, histórias desbotadas, quase implausíveis. Sinto-me anos-luz do guerrilheiro Felipe, com seus 19 anos, sua revolta e pulsão de ser herói, viver a aventura da geração que depois, como disse Alex Polari, cortou-se com cacos de sonho. Não me desconforta esse passado, e não me enaltece.
Tive a tríplice felicidade de sobreviver, não ter sido capturado, seviciado e não ter matado. A ventura de ser um guerrilheiro sortudo com um tardio sentido de realidade, que me permitiu escapar e deixou cicatrizes relativamente brandas”.
ALFREDO SIRKIS, Deputado federal, 62 anos
“Sequestro salvou 41 companheiros”
Aos 23 anos, Fernando Gabeira começou a trabalhar no ‘Jornal do Brasil’ e nunca desistiu de combater o golpe. Foi de uma dissidência do PCB e do MR-8. Após o AI-5, de 68, fundou o ‘Resistência’ numa casa em Santa Teresa, depois usada como cativeiro do embaixador americano que seu grupo sequestrou.
“Eu cedi apenas a casa para abrigar o embaixador”, lembra. Baleado e preso em São Paulo, foi levado para a Ilha Grande e libertado, com outros, em troca da soltura do embaixador alemão. “O sequestro do embaixador salvou 41 companheiros de serem mortos nos porões”, lembra. Gabeira viveu no exterior até a anistia.


FERNANDO GABEIRA, Jornalista, 72 anos

Artigo de Opinião - Miojo e Hino do Palmeiras

Educadores e analistas dos resultados do ENEM divertiram-se nas últimas semanas com algumas redações curiosas, onde encontramos o hino do Palmeiras e uma receita de miojo para tratar, inclusive, do processo migratório no Brasil.
São variados os ângulos de observação. Precisamos analisar de “cabeça fria” para não nos envolvermos pela paixão. Dentre mais de cinco milhões de redações, dar atenção a essas, com o “furo” de reportagem não tem significado relevante, embora chame a atenção à desconexão entre o texto e o tema. Quem corrige as redações do ENEM nada escreve ao lado do texto, como tradicionalmente se fazia.
É relevante a grande quantidade de itens como processo de orientação da redação e, mesmo que uma parte do texto escape à determinante do título, nem tudo está errado e deve ser abandonado, alguma coisa se aproveita e alguma nota pode ser atribuída.
O que chama a atenção sobre esses fatos é a mentalidade excludente do mundo acadêmico brasileiro. A impressão que se tem é que se deseja um corretor que leia as redações à cata de situações que possam servir para atribuir a nulidade de pontos. Pela orientação, tal fato é difícil de acontecer porque é aproveitado ao máximo o que o vestibulando escreveu.
Além do mais, perder tempo com este tipo de observação e debate, representa pouca relevância porque as vagas mais concorridas não serão preenchidas por candidatos com menos de 800 pontos em redação.
Como se vê, discute-se a aparência como se ela fosse o núcleo do problema e deixa-se de lado todo um conjunto de orientações embora deva ser considerado que o gigantismo seja a causa de todos os males: milhões de redações e milhares de cabeças para corrigi-las. Qualquer padronização é muito difícil.


Pedagogo, escritor e palestrante

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Te Contei, não ? - A Redação do ENEM

Por Joaquim Ferreira dos Santos*


Sabe todo mundo que escreve, até mesmo os jornalistas, os mais humildes funcionários da palavra, da necessidade de um texto arrebentar de brilho na abertura e se encerrar retumbante, com aquilo que os antigos do soneto chamavam de chave de ouro. O miolo, bem, o miolo dá-se um jeito.
A literatura mundial está cheia de casos assim. Frases incríveis na página um de livros que depois, coitados, o escritor vai se cansando, a falta de imaginação se sobrepondo à sua pequena estatura intelectual, e tudo escorre ladeira abaixo até ele acordar na última linha para o dó de peito estilístico, levantador de plateias.
            Eu quase escrevo “ladeira abaicho”, pois este texto pretende se solidarizar, pelo menos entender e dizer não é 'fássil' pra ninguém, com os estudantes que fizeram as provas de redação do Enem. Eles 'enxeram' os textos desses 'orríveis' erros 'hortográficos' e sofreram o mesmo drama dos profissionais da escrita. O que, caraca!, que 1linguissa1, caramba!, botar entre o brilhareco da frase de abertura e o fecho de ouro?
            Teve estudante que colocou o hino do Palmeiras, outros, a receita de miojo. Eu aproveito o ensejo, já que estamos chegando ao miolo, para dizer que lá em casa tem um bigorrilho e que esse bigorrilho fazia mingau, foi ele quem me ensinou a tirar o cavaco do pau.
Em baixa dramaturgia, como a que é praticada na novela das nove ou na moderna literatura brasileira, o problema desse bigorrilho sem nexo é vulgarmente identificado como barriga. O nome é perfeito. No ser humano designa aquele estrupício cheio de longas tripas entre o rosto angelical e o delicioso parque de diversões da sexualidade. Em arte, é o ronco das tripas do leitor reclamando a grana de volta.
            Na novela da Globo, a barriga é escancarada naquelas cenas em câmera lenta, diálogos intermináveis, com zero de acontecimentos, no ar apenas para que ela se estique e chegue aos 180 capítulos regulamentares, e pague a produção.
            No romance, a barriga está nas páginas e mais páginas, geralmente descritivas da luz ao pôr do sol, feitas apenas para que o livro saia da definição menos comercial de contos ou ganhe solidez física. Editores adoram encomendar livros que fiquem de pé no balcão da Travessa. Pedem “algo em torno de” 400 páginas, pois acham que paralelepípedos aparentam força intelectual. Na verdade, esses tijolaços sinalizam que é grande o risco de se estar comprando uma obesidade narrativa.
Ninguém quer carregar uma barriga, mas, como todos sabemos, não só os que escrevem, elas aparecem insistentes mesmo malhadas diariamente com o ferro das abdominais.
            Os estudantes, amadores de texto, erraram apenas em evidenciar, com os hinos clubísticos e as receitas de alta caloria, que seus textos eram portadores desse mal terrível. Um autor de hai-kai, por mais genial, não passaria no vestibular. Uma novela de três linhas do Dalton Trevisan também teria poucas chances. Estamos num país onde a verborragia é elogiada, a oratória barroca do deputado baiano é mito intelectual. Na contramão desses delírios, Drummond dizia “escrever é cortar palavras”.
            Na prova do Enem, os estudantes sabem que os professores gostam de volume. E foi o que eles deram, um punhado de palavras significando nada. Um levou nota mil. Outro, 500.
O Brasil adora uma barriga, uma encheção de linguiça. Drummond seria reprovado. Rubem Braga, sempre aconselhando “palavras curtas”, também não iria longe. Eu li os textos barrigudos do Enem e notei, além da necessidade de esticar o assunto, de se esticar também as palavras. Quanto maiores elas forem, mais a impressão dão de se estar inconstitucionalissimamente dizendo algum coisa.
            A prova de redação do Enem é a melhor crítica literária da relação do país com a sua maneira de ler, escrever e reconhecer mérito.
Os estudantes perceberam que a verborragia insaciável e sem sentido (“sou deputado baiano, eu quero é falar”, dizia a marchinha) agrada a plateia. Mandaram brasa, com o repertório que tinham para preencher a falta de assunto. Sabiam que ninguém presta atenção (como parece ter sido o caso dos professores encarregados de pontuar o que não estavam lendo). Sem citar nomes, passavam adiante os ensinamentos dos grandes mestres nacionais da língua, gênios como o José Luiz Datena, o Sílvio Santos, o Faustão, o Galvão Bueno, metralhadoras verbais que passam horas no ar dizendo... o quê mesmo?
Fala-se pelos cotovelos, há gordura por todos os cantos dos textos - é o normal da civilização brasileira -, e os professores do Enem não precisaram nem ler. Diante da evidência caudalosa de que estavam diante de imensas barrigas literárias, deram dez, nota dez. Este é o país em que o presidente Juscelino Kubitschek, para encher de pompa os discursos, pedia ao redator: “Espalhe umas borboletas entre os parágrafos”. Estudantes, anarquistas graças a Deus, espalharam miojo e banha de porco.

*Joaquim Ferreira dos Santos é colunista do GLOBO, onde publica sua crônica às segundas e diariamente a coluna Gente Boa, no Segundo Caderno

terça-feira, 2 de abril de 2013

Tá na Hora do Poeta - A lebre e a tartaruga




A lebre e a tartaruga




 
A lebre dizia que era veloz
E não parava de se gabar
Até que certo dia
A tartaruga veio lhe desafiar

A lebre estava certa de que ia vencer
Mas isso é o que nós vamos ver
Certa de sua vitória
A lebre resolveu dormir
E a tartruga vagarosamente
Continou a prosseguir.


Enquanto a lebre dormia
O tempo ia passando
E assim a tartaruga
Foi lhe alcançando

Quando a lebre acordou
Não tinha se dado conta do que aconteceu
A tartarga na sua frente estava
E a corrida venceu

Depois de virar motivo de chacota
Uma lição a lebre aprendeu
Quem tem persistência e firmeza no que faz
Atinge seus objetivos
E mostra do que é capaz.





Amanda Salgado
Turma 702 / Ativo / 2013