sexta-feira, 20 de abril de 2012

Crônica do Dia - O Ciúme é inútil - Walcyr Carrasco



Não tenha ciúme dos amigos solteiros de seu marido. Deixe-o acampar com eles num fim de semana, se for sua vontade. Ele vai voltar renovado e cheio de saudades de casa.” O conselho vem do livro Don’ts for wives, de Blanche Ebbut, lançado em 1913 e traduzido com o título O que as esposas NÃO devem fazer. A ideia pode ser adaptada. Que tal permitir que seu marido “acampe” com amigos no Carnaval? Nesse caso, dou meu próprio conselho. Não ligue a televisão. Tudo o que pode dar errado dá errado, diz a Lei de Murphy. Um amigo deixou a noiva isolar-se num retiro religioso para evitar a folia. Até se vangloriou:
– Vou aproveitar enquanto ela reza!
Esbaldar-se, para ele, era reunir uns camaradas e tomar cerveja na frente da televisão. Ligou num baile. Lá estava a “piedosa”, seminua, sambando no Carnaval carioca. Essa história é recorrente. Sei de várias versões, todas verdadeiras. Como a do pai de um rapazinho nerd que foi “viajar para a praia”. E que apareceu de baiana num bloco da Bahia. Foi a mais estrondosa saída do armário de que tenho notícia.
Ciúme não combina com Carnaval nem com qualquer outra data. Simplesmente porque é inútil. Quem quer cometer uma infidelidade faz isso, não importa a data. Embora baladas, Carnaval e – ai, meu Deus – acampamentos sejam bem propícios. Relaxe, se conseguir. Todo casal precisa de “férias” de vez em quando. Passar uns dias separados pode fazer bem para o casamento, como diz o livro. Apesar dos riscos. Permitir que o marido saia com amigos e tenha bons momentos de camaradagem masculina é parte da sabedoria feminina. A mulher sábia não torna o escândalo uma rotina. Boa parte dos homens sente obrigação de flertar diante de uma mulher ultradecotada, por exemplo. Mesmo que o desejo sexual esteja distante. E que ele vá correr como um coelho assustado se a bonitona perguntar:
– Meu apartamento, o seu ou motel?
A sábia não aproveita o lance para brigar, porque isso soará como vitória do ponto de vista masculino. Aguarda a próxima oportunidade de deixá-lo em chamas, seja na compra de uma bolsa Louis Vuitton ou ao marcar sua própria viagem de negócios. Da mesma maneira, cabe ao homem saber que, em certas ocasiões, a mulher gosta de provar quão fascinante ela é. Tenho vários amigos que namoram ou são casados com rainhas de bateria. Imaginem a sensação de assistir a sua mulher desfilar seminua diante de milhares de pessoas e televisores de todo o país? São homens sábios, que aprenderam a domar o ciúme.
Admito. Permitir que seu amor passe os dias de folia longe de seus olhos é de doer. Mesmo porque, dali a pouco, você pode descobrir que o celular está fora de área. Pode ligar para a casa da pessoa onde a criatura se hospedou e ouvir:
– Ah, não acordou ainda.
– Ih, saiu.
– Vai passar a noite entregando quentinhas para carnavalescos desabrigados.
Pense o melhor, se puder.
Se serve de consolo, pense o pior. Amores de Carnaval acontecem. Muitos nem acontecem exatamente, mas as pessoas pensam que sim, só porque ficaram de porre juntas. Raramente algum dura. O mesmo acontece com paixões que surgem em viagens rápidas ou até na festa de casamento de um primo distante, à qual você não pôde comparecer. Esses amores vêm e vão. Dá a impressão de que, nessas situações, as pessoas não são exatamente elas mesmas, mas alguém que gostariam de ser. O tímido se torna audacioso ao sambar diante da mulata exuberante. O viajante conhece a moça na praia e age como um grande executivo. Ela acredita. Dias depois, volta para casa e a trabalhar para pagar as prestações do carro.
Não faço apologia da infidelidade. Só acho que o ciúme não faz bem. Destrói uma relação, porque fermenta com o tempo e se torna obsessivo. O conselho de 1913 continua sábio quase 100 anos depois – não mudamos tanto quanto se pensa. Melhor deixar o marido fugir um fim de semana com os amigos, para que o casamento não se assemelhe a uma prisão.
Também é preciso estar de olho nos sinais de alerta. Chega o momento em que não é o caso de infernizar o outro com crises de ciúme. Mas de lutar pela relação.
Curiosamente, o livro tem duas capas. Na segunda, o título é O que os maridos NÃO devem fazer. E dá um conselho que é, sim, um sinal de alerta: “Não tenha a ilusão de que sua mulher nunca vai se interessar por outro homem. Por mais que ela goste de você, é possível enjoar mesmo de uma coisa boa”. Bem... Eu acho que esse vale para os dois sexos!

Walcyr Carrasco
Revista Época

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Crônica do Dia - Crioulo - Caetano Veloso



Estava de férias (só do GLOBO). Um dia vinha ouvindo rádio no carro e Jorge Ben cantou “Cadê Teresa?”. Adoro essas músicas de Jorge para Teresa, Domingas, Teresinha, Domenica, Tetê-Teteretê, todas essas mulheres que são a mesma loura paulistana com quem ele se casou. Na canção ele busca sua amada e, sem saber por onde ela anda, se pergunta se ela não terá arranjado “outro crioulo”. Naquele dia eu tinha lido numa manchete que Rick Santorum teria quase chamado Obama de “crioulo”, num discurso de campanha. Imaginei que a palavra que assim traduziam fosse “nigger” e senti múltiplas revoltas. Conferi na página indicada e, de fato, “nigger” era o que o candidato republicano tinha começado a dizer. Ou isso se supunha. Pensei que Santorum poderia ter feito isso para mostrar à parte reacionária fanática do Partido Republicano, que é a que o apoiava, que ele estava a ponto de pronunciar o xingamento que ela tem preso na garganta.

Seja como tenha sido, terminei pensando mais na tradução oferecida pelo jornal brasileiro (pode ter sido este) do que na história em si. Fazia uns três dias que eu comentara com meu filho Zeca sobre a impropriedade de se traduzir “nigger” por “crioulo” nas legendas dos filmes americanos que passam na TV. Ao me ouvir dizer que “crioulo” não tinha essa conotação pejorativa de “nigger”, ele mostrou dúvidas. Mas o fato é que não há em português brasileiro nenhuma palavra que indique ao mesmo tempo aspecto racial e desqualificação absoluta automática. A palavra “crioulo” cantada por Jorge Ben tem toda a doçura natural e a carga afirmativa que um xingamento não pode ter, a não ser por uma torção, como quando chamamos alguém admirável de filho da puta.

Os negros americanos se chamam de “nigger” entre si,  com carinho, como quem toma o que foi sempre usado como ofensa por brancos contra si e vira pelo avesso, mas ninguém que não seja negro (e não esteja na mesma onda de quem profere a palavra) tem o direito de fazê-lo. Nos raps, eles se chamam de “nigger” como chamam as garotas de “bitch”. Ouço muitos veados brasileiros chamarem uns aos outros de “veado”, mostrando intimidade e carinho: não é o mesmo que um ogro passar na rua e te chamar de veado. Mas “crioulo” nunca esteve nessa posição. Quando Jorge Ben fala de crioulo, não há sombra, nem remota, de tratamento ofensivo. Suponho que as legendas dos filmes venham contribuindo para o progresso do nosso racismo. Progresso tão desejado pelos racialistas. Mas por que foi essa a palavra escolhida por Drei Marc e cia.?

Quando era novo, eu não gostava do “Samba do crioulo doido”. Sentia (ainda sinto) racismo ali dentro daquela gracinha meio sem-graça de Sérgio Porto. Aliás, Paulo Francis, num artigo de sua coluna na “Folha de S.Paulo”, narrou um diálogo racista que teve com Porto por causa da presença de pretos nas praias da Zona Sul (não leio essas antologias que saem das crônicas de Francis, mas parece que essas desmunhecadas racistas não são selecionadas pelos organizadores, já que nunca ouvi comentários a respeito). A caricatura do samba-enredo feita ali nunca me pareceu engraçada. Lembrei-me dela ao ouvir as letras das canções dos blocos afro de Salvador declamadas com sarcástica pedanteria pelo grupo teatral Os Catedrásticos. O que faz esse grupo é, a meu ver, muito melhor do que o samba de Stanislaw: eles dizem “a sério” letras de músicas de carnaval da Bahia, para o irresistível efeito cômico. “Abre a rodinha, por favor”, dito em tom sóbriodramático fica sensacional. As descrições de egitos e madagascares dos sambas-reggae do Olodum parecem mais nonsense do que a famosa paródia. Mas nesses casos, sempre surge uma frase que se sustenta por si mesma em sua força épica — e o riso some. É que são as letras que foram escritas a sério que estão ali sendo ridicularizadas. E a seriedade que lhes é pano de fundo leva o espectador a pensar que Moreno cantando “Deusa do Ébano 2” é que desnuda mais o sentido do repertório desses blocos.

O charmoso rapper paulista tomou para si o pseudônimo de Criolo Doido, enobrecendo tanto cada uma das duas palavras quanto a união delas na piada amarela de Sérgio. (Este, não nos esqueçamos,
de cara desgostou da bossa nova .)Criolo é o nome derivado de crioulo, palavra que, segundo pude sentir no livrão “Um defeito de cor” (recomendado por Millôr), era usada para designar os negros nascidos no Brasil. Estes mostravam superioridade sobre os africanos que chegavam: seu domínio do português, seu conhecimento do cristianismo, tudo isso eram coisas que os envaideciam. Nos países de língua espanhola das Américas, “criollo” designa sobretudo descendentes de europeus nascidos no Novo Mundo. Na Louisiana, EUA, “creole” teve originalmente essa acepção, depois passou a significar descendente de franceses e, finalmente, mestiço. A palavra saiu do português. No Brasil, terra de sua língua de origem, ela se grudou aos pretos. Por que vamos usar TV e jornais para transformar “crioulo” num xingamento? Nosso racismo progride. Com dificuldades, mas sim. Sem negros nas escolas privadas ditas boas e com essas distorções em manchetes e legendas, chegamos lá. Liv Sovik pode ficar descansada.

Nesse meio-tempo, Santorum dançou, Demóstenes serve a Rui Falcão (amparado pela mídia e pelo Cachoeira) como água sanitária do mensalão — e me prometi ler “Classes, raças e democracia”, de Luis Sérgio Alfredo Guimarães.

Caetano Veloso
Jornal O Globo

Crônica do Dia - Quanto vale um educador ? - Celso Niskier



Muito se discute sobre a importância de um bom professor na vida do aluno, mas somente agora, a partir de uma pesquisa realizada por economistas das universidades de Harvard e Columbia, pode-se quantificar exatamente essa importância: uma renda adicional de 25 mil dólares ao longo da vida. Se considerarmos uma turma média de 30 alunos no Ensino Fundamental, a experiência de ter aulas com um excelente professor significa um incremento de 750 mil dólares na renda total futura desses estudantes.

O estudo — dos pesquisadores Raj Chetty e John N. Friedman, da Universidade de Harvard, e Jonah E. Rockcoff, da Universidade de Columbia — ganhou destaque mundial, pois envolveu um banco de dados de um milhão de estudantes norte-americanos, acompanhados desde a 4ª série até a vida adulta. O que mais chamou a atenção deles foi a variação entre a performance dos professores. Grandes mestres trazem melhorias significativas no desempenho dos alunos, além de comportamentos construtivos durante a vida adulta, incluindo uma maior taxa de aprovação nas universidades e até um índice menor de gravidez precoce, entre outros indicadores. Por outro lado, um mau professor teve o efeito inverso, penalizando os alunos com o equivalente a uma perda de até 40% do ano letivo, produzindo com isso um pior resultado nas provas e na vida.

Qual seria a resposta para a melhoria da educação, segundo o estudo norte-americano? Parece simples: maior quantidade de bons professores e menor quantidade de maus. No entanto, a resistência corporativista de alguns sindicatos, tanto à premiação pelo bom desempenho quanto à penalização pelo mau, acaba por igualar todos os profissionais de educação pela média, que infelizmente não tem sido boa, a considerar os recentes resultados do Brasil nas provas internacionais.
Celso Niskier é reitor da UniCarioca e presidente do Conselho Empresarial de Educação da Associação Comercial do Rio de Janeiro

Resenha - Bibi : uma garotinha de 89 anos no palco - Fernando Molica




Na introdução do espetáculo, uma doce ironia: Bibi Ferreira sobe ao palco do Teatro Net Rio ao som de ‘Malandragem’ (Frejat-Cazuza), canção em que Cássia Eller dizia ser, quem sabe, uma garotinha. Às vésperas dos 90 anos, Bibi está longe de uma garotinha, mas não perdeu o humor. Logo no início do show, revela um episódio de sua vida e o situa no século 17.
Não é garotinha, mas no palco, de pé diante do microfone, não tem nada de velhinha. A voz continua jovem, clara e potente, capaz de acompanhar a orquestra em perigosos graves e em audaciosos agudos.
Ao longo de uma hora e quinze minutos, ela conta histórias e apresenta clássicos da música brasileira e internacional, entre eles, temas de ‘Hello Dolly’, ‘O homem de La Mancha’ e ‘Gota d’água’. E ainda brinca com óperas como o ‘Barbeiro de Sevilha’ — Bibi troca a letra de forma proposital, o que não a livra de percorrer todas as notas da partitura. Em outro momento, sem qualquer mudança de figurino ou de maquiagem, Bibi, atriz, fica a cara de Edith Piaf ao cantar algumas suas canções. “Ela (Piaf) me sustenta há 27 anos”, ressalta, entre risos. Não é preciso condescendência para gostar do espetáculo. Não é necessário dar qualquer desconto pelo fato de a estrela ter 89 anos. Quem se apresenta é uma artista cujo talento não requer paternalismo — como ela tem dito, está ali trabalhando, o teatro é seu ganha-pão. Rigorosa, não admitiria apresentar-se ao público sem condições.
Terminado o show, ela volta ao palco para receber uma nova leva de aplausos. Agradece, elogia a plateia e retorna aos bastidores, apoiada em seu empresário. Neste momento é como se a Bibi artista — aquela, de idade indefinível — desse lugar à senhora Abigail Izquierdo, uma quase nonagenária. A segurança demonstrada em cena é trocada por passos cuidadosos, as mãos buscam apoio nos braços de seu acompanhante. A cena apenas reafirma o talento da atriz capaz de interpretar uma mulher muito mais jovem. A vida é amiga da arte, disse Caetano Veloso.
Em 1923, um ano depois do nascimento de Bibi, a sinfonia ‘Vigília d’armas’, composta por Julio Reis (1863-1933), foi ouvida pela última vez num palco. Amanhã, às 19h, a peça será executada pela Orquestra Sinfônica UniRio regida pelo maestro Branco Bernardes. O concerto será na Sala Villa-Lobos, na Avenida Pasteur 436, fundos. A entrada é franca.


Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: fernando.molica@odianet.com.br

Crônica do Dia - Prisão e crueldade - João Batista Damasceno




O desmonte da assistência médico-hospitalar no Estado do Rio, apontada por profissionais das áreas jurídica e de saúde em Audiência Pública da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, apesar das explicações apresentadas pelo secretário de Administração Penitenciária, coronel César Rubens, é estarrecedor. A transmissão da tuberculose aos que convivem ou têm contato com presos doentes deveria preocupar as autoridades responsáveis pela potencialidade de transmissão para o seio de toda a sociedade.
O Estado de Direito, que se propõe a punir aqueles que transgridem o ordenamento jurídico, há de fazê-lo nos limites da legalidade. A prisão fora dos parâmetros da lei retira do Estado a superioridade ética que lhe permite, em nome da lei, punir aqueles que a transgride.
A condenação consistente na privação da liberdade somente atinge o direito de ir e vir do condenado, fazendo remanescer a integralidade de sua esfera jurídica e sua qualidade de cidadão, seja quanto à dignidade de pessoa humana ou aos direitos individuais ou sociais que ostenta. O direito à saúde é dever do Estado e é direito social titularizado por todos, incluindo os privados de liberdade. Daí é que não se pode em nome de uma condenação a pena privativa de liberdade subtrair do condenado seu direito à saúde.
Se o Estado acautela o indivíduo em suas prisões, há de assumir o dever de lhe prestar os serviços decorrentes de seus direitos constitucionais. Se não dispõe dos meios de prestação de tais serviços, há de declarar-se incapaz de promover os acautelamentos e buscar novas formas de lidar com aqueles que se envolvam em conflitos no meio social.
O direito à saúde é direito constitucional e não pode ser negado. A destituição do condenado de seu status de cidadão e supressão de direitos não constantes da condenação colocam o Estado no patamar daqueles que se pretende punir, ou seja, à margem da legalidade.
Cientista político e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Aconteceu, no LiterAtivo apareceu - Um drama com um novo capítulo


Foram pilhas de processos, dezenas de depoimentos e, ao final, cinco condenados que, juntos, somam 122 anos de pena. A despeito da complexidade jurídica, há quem insista em costurar outro desfecho para o assassinato da missionária americana Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, na cidade de Anapu, no Pará. Amair Feijoli da Cunha, o Tato, condenado a 18 anos como intermediador do crime, é só um deles. Sob a justificativa de estar arrependido de declarações mentirosas feitas no passado, ele viajou do interior até a capital, Belém, para se confessar diante de um culto evangélico. Também procurou a reportagem de ÉPOCA para revelar aquilo que diz ser “a verdade” sobre a manhã em que Dorothy foi morta com seis tiros à queima-roupa. Apontou um novo envolvido e uma nova origem para a arma do crime. 

A entrevista ocorreu no começo do mês, dias depois do espetáculo na igreja. Tato chegou acompanhado de um pastor e de uma assistente social que trabalha em presídios. Empenhou-se para se portar como um homem de bem e educado. Falou baixo, gesticulou pouco, deu passagem para as damas para só depois avançar. Não se exaltou em momento algum, nem ao falar sobre temas espinhosos. Tato trouxe à tona um fato novo – e importante – para o caso. Afirmou, pela primeira vez em sete anos, que a arma usada no crime pelo pistoleiro Rayfran das Neves, também condenado e cumprindo pena, foi fornecida pelo então delegado da Polícia Civil de Anapu, Marcelo Luz. A informação, por si só, é suficiente para que o Ministério Público do Pará ou a Secretaria de Segurança Pública abram um novo inquérito para investigar o acusado. “Principalmente por se tratar de um funcionário público, isso precisa ser averiguado”, diz Edson Cardoso, promotor de acusação do caso. Segundo Tato, o delegado Luz lhe entregou o revólver calibre 38 para ele se proteger de possíveis invasões dos agricultores liderados por Dorothy. O alvo da disputa entre os fazendeiros que grilavam terras e os clientes da reforma agrária era o lote 55, uma área pública, cujo destino só cabe ao governo federal. O plano de Dorothy era assumir as propriedades controladas por grileiros e repassá-las, com a anuência da lei, aos sem-terra. 

Não é a primeira vez que o nome de Luz é associado ao crime. Ele já havia sido acusado durante as investigações de pedir propina aos fazendeiros. Em troca, segundo essas acusações, prometia proteger os lotes da invasão dos agricultores. O próprio Tato descreve, em detalhes, uma reunião na estrada a caminho do aeroporto de Anapu em que o delegado Luz pedia R$ 10 mil por serviços de segurança privada. Ganhava corpo ali uma espécie de milícia armada, semelhante às estabelecidas em favelas do Rio de Janeiro. Pelo trabalho sujo, à época o delegado foi afastado das investigações do assassinato de Dorothy Stang, além de ter respondido a um processo administrativo. Voltou à ativa, e hoje está como chefe da delegacia de Viseu, no nordeste do Pará. 

A Polícia Federal (PF), responsável pela sindicância, não conseguira rastrear o verdadeiro trajeto da arma usada no assassinato – mesmo depois de uma pesquisa exaustiva. “Sabemos que o revólver é da empresa Taurus e que foi entregue para Rayfran pelo Tato”, afirma Ualame Machado, delegado da PF. “Mas como ele foi parar nas mãos do Tato nunca ficou esclarecido.” A pistola foi fabricada antes de 1997, quando ainda não era obrigatório no Brasil registrar uma arma de fogo ao comprá-la. Procurado por ÉPOCA, o delegado Marcelo Luz não se pronunciou. 

 Convertido depois do crime, Tato deu início à saga do homem arrependido numa igreja de Belém no começo do mês. Saiu da zona rural de Tailândia, onde tem uma fazenda de gado, e viajou quatro horas para a capital – exclusivamente para dar um “testemunho” (gravado em vídeo) num templo evangélico. No microfone, agradeceu pela força e paciência de Deus. E pediu perdão por ter apontado o que chamou de dois inocentes como mandantes do crime – Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, e Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, hoje presos em consequência de depoimentos anteriores de Tato. Diante dos fiéis de sua igreja, afirmou ainda que o verdadeiro responsável pela morte continua solto. Não mencionou o nome. “Isso dói muito no coração da gente”, disse, interrompido por gritos de “amém” e “glória Deus” vindos da plateia. 

As razões de Tato para tentar reavivar as investigações podem ir além da pura culpa cristã. Os mandantes podem: 1) ter lhe pagado pela encenação, na tentativa de conseguir a liberdade; 2) ter ameaçado sua família. Ao final da entrevista, como para reforçar a fleuma de bom moço, Tato ofereceu à reportagem de ÉPOCA uma rosa vermelha vendida no semáforo. “É pelo dia das mulheres.”

Revista Época 

Aconteceu, no LiterAtivo apareceu - O papel das enciclopédias



A primeira edição da Encyclopedia Britannica foi lançada em Edimburgo, na Escócia, entre 1768 e 1771. Ao longo de 244 anos, outras 14 edições foram publicadas. Em 1990, ela atingiu a marca de 120 mil unidades vendidas, seu recorde. Seis anos depois, o número já caíra para um terço, sob o impacto da difusão da internet. A última impressão da Britannica ocorreu em 2010, numa edição de 32 volumes. Na semana passada, 4 mil das 12 mil enciclopédias impressas ainda estavam em estoque. E a Britannica Inc. anunciou que não mais publicará a versão impressa da mais antiga enciclopédia em inglês do mundo, para concentrar seus esforços apenas na versão on-line. 

Jorge Cauz, presidente da empresa, afirmou que isso não é motivo de tristeza. “Entendo que alguns vejam o fim de uma era, mas nenhum meio impresso ou digital é o centro de nossa missão”, escreveu Cauz num post no blog da companhia. “A missão é ser uma fonte confiável de conhecimento, que daqui a 200 anos continuará a ser vital para as pessoas, que a usarão com a melhor tecnologia disponível.” 

À primeira vista, pode parecer que o desaparecimento da Britannica impressa seja apenas mais um símbolo daquilo que todos já sabem: a vitória dos meios digitais sobre o papel. Mas a questão é maior e mais profunda. O que está em jogo na decisão tomada pela Britannica é o futuro de uma forma de produção e transmissão de conhecimentos que vem servindo a humanidade desde o século XVIII. 

Os pilares dela foram estabelecidos pelos iluministas franceses, os criadores da primeira enciclopédia da história, a Encyclopédie. São eles: apuro, abrangência, precisão da informação, isenção e correção. Em pleno século XVIII, a obra de 33 volumes, quase 72 mil verbetes e 2.885 ilustrações continha a essência do pensamento científico e filosófico da época, apresentada por pensadores monumentais como Diderot, D’Alembert, Voltaire, Rousseau ou Montesquieu. Com a enciclopédia francesa surgiram um método de apresentação e um modelo de negócios que seguem vivos até hoje – mas estão ameaçados por formas alternativas de produção e difusão de informação. 

 O maior exemplo desse modelo alternativo é dado pela Wikipédia, a célebre enciclopédia on-line. Gratuita, ela não é escrita por um grupo seleto de especialistas bem remunerados, responsáveis por filtrar informações, hierarquizá-las e apresentá-las de forma clara e concisa ao leitor. Suas páginas na rede são o resultado do trabalho de cerca de 85 mil voluntários, a maioria deles amadores, que pesquisam e escrevem no limite de seus recursos, capacidades e intenções. Os textos da Wikipédia são atualizados rapidamente, verbetes novos sobre bandas, atletas e celebridades são incluídos ao sabor do interesse dos leitores e não há constrangimento de espaço. 

 A Wikipédia é hoje o sexto site mais visitado do mundo, com 400 milhões de usuários por mês. Seu arquivo engloba 21 milhões de artigos em 280 idiomas – de Lula a Lady Gaga. “A internet oferece um material mais abrangente”, diz Gary Marchiori, diretor da Escola de Informação e Ciência em Biblioteconomia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. “O artigo de uma enciclopédia foi escrito a partir de um único ponto de vista, enquanto na rede há uma diversidade deles. Trata-se de uma inteligência coletiva, da qual a Wikipédia é um exemplo. Qualquer assunto que merece ser debatido precisa de mais de um ponto de vista.” 

Os estudantes da geração digital recolhem informação da Wikipédia como se estivessem lendo verbetes de enciclopédias como a Britannica ou a Delta Larousse. Imaginam que são produtos igualmente confiáveis. Não são. Falta à Wikipédia aquilo que o pesquisador Andrew Keen, autor do livro O culto do amador (Zahar, 2009), chama de “curadoria”, o trabalho executado por alguém com autoridade e conhecimento para escolher, no mar de informação gerado diariamente na internet, aquilo que é correto, relevante e útil. Sem esse trabalho profissional, instala-se no mundo da informação uma espécie de caos em que todas as vozes se equivalem e todos têm autoridade para escrever qualquer coisa – com ou sem qualificação para isso. 

“Muitos artigos da Wikipédia são escritos por amigos, parentes ou assessores de imprensa de uma pessoa ou empresa”, diz Keen. “Como não sabemos quem é o autor, não dá para confiar completamente.” Ele ainda argumenta que, em meio ao oceano de informação da internet, a autoridade de um filtro como a Britannica se torna ainda mais relevante. “A Wikipédia é boa para cultura pop e atual, mas é ruim para entender o mundo historicamente”, afirma Keen. “Os verbetes sobre Madonna e Joana d’Arc não podem ter o mesmo tamanho. Em 200 anos, vamos lembrar de Joana d’Arc, não da Madonna. Curadoria é a palavra-chave.” 

Enquanto a fluidez da Wikipédia a torna facilmente moldável aos interesses de seus colaboradores, a Britannica continua apostando no profissionalismo. A empresa tem mais de 100 editores que se dedicam exclusivamente a pesquisar e apresentar informações confiáveis de forma concisa. Eles são treinados para separar o que é relevante do que é acessório, facilitando a vida do leitor. E se responsabilizam, com sua reputação bicentenária, pela correção do que publicam. A Britannica já teve entre seus colaboradores mais de 110 ganhadores do Prêmio Nobel, cinco presidentes americanos e artistas respeitados como o cineasta Alfred Hitchcock (leia o quadro). Muitos artigos na Wikipédia são escritos por amigos ou assessores de imprensa 

A disputa entre o modelo amador da Wikipédia e o profissional da Britannica repete, de certa forma, aquela que opõe blogs e fóruns na internet ao trabalho da imprensa profissional. De um lado, há uma multidão de vozes anônimas, apregoando na rede fatos e interpretações a partir de seus interesses políticos ou pessoais. De outro, profissionais treinados para transmitir informações relevantes de forma mais correta e isenta – e empresas que se colocam como responsáveis por essas informações diante da lei. O resultado de premissas tão díspares não pode ser o mesmo. 

O mundo derivado do Iluminismo enciclopedista viu nascer, com base na produção e na difusão profissionais do conhecimento, a democracia, o livre-comércio, o Estado laico, a imprensa livre, o avanço da medicina e das ciências – e a própria internet. O mundo derivado do conhecimento amador dos blogs e da Wikipédia ninguém sabe ainda direito onde vai dar. Mas a migração da Britannica para a rede – onde ela é atualizada a cada 20 minutos e usada por mais de 100 milhões – mostra que o meio digital é perfeitamente compatível com o conhecimento profissional.

Revista Época 

Te Contei, não ? - Adolescência sem fantasia



Os jovens que na última década e meia sonharam com a magia de Harry Potter e suspiraram com o romance de Crepúsculo acordaram num mundo em crise: a economia global patina, o abismo entre ricos e pobres aumenta e guerras sem sentido se prolongam, sem que haja um final à vista. A resposta de Hollywood a esse cenário desolador é um filme diferente das fantasias escapistas que dominaram o cinema recentemente. Jogos vorazes baseia-se no primeiro livro da trilogia escrita por Suzanne Collins. Ele vendeu 13 milhões de exemplares no mercado americano e 80 mil no Brasil. O filme, dirigido por Gary Ross e estrelado por Jennifer Lawrence, chega aos cinemas na próxima sexta-feira, cercado de expectativa. 

Jogos vorazes se passa no futuro, num país chamado Panem, erguido sobre as ruínas dos Estados Unidos após uma catástrofe. Nessa sociedade totalitária, os mais ricos, que vivem na Capital, dominam os 99% mais pobres, divididos em 12 distritos. Todos os anos, um menino e uma menina entre 12 e 18 anos são sorteados em cada distrito para participar de uma competição, na qual digladiam até restar apenas um sobrevivente. Os jogos são exibidos num reality show abertamente manipulado, com regras que mudam o tempo inteiro. Vinda do distrito mais pobre, a heroína, Katniss, de 16 anos, se oferece para ir à arena no lugar da irmã mais nova, que fora sorteada. Sem perceber, torna-se a inspiração de uma rebelião. 

O modelo das histórias de Collins são romances como 1984, de George Orwell, e O senhor das moscas, de William Golding. E seu romance inspirou uma nova geração de escritores pessimistas em ficção científica (leia o quadro).  

Collins teve a ideia para Jogos vorazes ao zapear na TV entre um reality show e notícias de guerra. Ela concluiu que os reality shows anestesiam as pessoas para tragédias verdadeiras. Quando criança, suas férias eram dominadas pelas histórias de guerra contadas por seu pai, veterano do Vietnã. Inspirada por ele, ela diz que seu objetivo é conscientizar os adolescentes para a guerra, a sociedade do espetáculo e a pobreza gerada pela crise econômica. “Quero que os jovens tenham conhecimento desses temas e pensem”, disse. O diretor Gary Ross viu com os próprios filhos que funciona. “Não há escapismo em Jogos vorazes, ao contrário da maior parte dos livros para adolescentes. Eles são obrigados a pensar em assuntos difíceis”, disse Ross a ÉPOCA. 

Para viver tanta coisa, era preciso uma atriz forte e talentosa. Jennifer Lawrence tem apenas 21 anos e já concorreu ao Oscar por Inverno da alma, em que também fazia uma adolescente confrontada com a miséria. Foi comparada por seu diretor à jovem Meryl Streep. Ao contrário das estrelas de outras sagas adolescentes, ela parece não ser apenas uma atriz bonitinha jogada num turbilhão de fama e dinheiro. “A trilogia tem temas importantes para a minha geração”, afirma. Ela diz admirar a protagonista ficcional: “Adoraria ter mais em comum com Katniss. Ela é corajosa, forte, inteligente, coisas que não sou”. 

O sentimento de Jennifer combina com o dos fãs. “Se todo o mundo fosse como Katniss, o Brasil estaria bem melhor”, diz Bruna Luiza Ortega, de 23 anos, vencedora de um concurso internacional de fãs da série. “Temos de nos interessar, porque a gente vai crescer e sofrer as consequências do que está sendo feito hoje na sociedade”, afirma o estudante Raphael Fortin, de 19 anos, em um evento para fãs. O crescimento da personagem passa por escolhas duras, de vida e morte. “Num mundo tão cruel, como preservar sua humanidade?”, pergunta o diretor Ross. A heroína, claro, consegue. Sua realidade, pintada com cores fortes, fala diretamente ao público adolescente, que atravessa, ele próprio, um período de extremos. “Na adolescência, é tudo imediato, vida ou morte, para sempre, das amizades ao amor”, afirma a psicóloga Fani Kaufman. Mesmo o adolescente que não passou por tantos infortúnios – e nem precisa guerrear à força como a protagonista – consegue enxergar-se em seu lugar.“Seu próprio caminho é difícil, então o jovem se conecta com um personagem forte, inserido numa realidade ainda mais pessimista, para não se sentir só”, diz Vera Zimmermann, psicóloga do Centro de Referência da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo. 

No processo de amadurecimento, Katniss lida com emoções antes suprimidas pela busca da sobrevivência – diferentemente da romântica Bella de Crepúsculo, ela é quase empurrada para o romance com Gale, amigo de infância, e Peeta, outro concorrente nas provas de morte. A novidade trazida por esses novos romances voltados para adolescentes é a importância dos relacionamentos. Num mundo sombrio e perigoso, ele é a única coisa que vale a pena. Isso ecoa o exaltado sentimento romântico dos adolescentes, que amam como se fossem as últimas pessoas do planeta. Em Jogos vorazes, o romance junta-se a outros elementos atraentes (como a ação e a aventura), para embalar a jornada de crescimento e tornar mais acessíveis os temas sombrios propostos pela autora.

Revista Época 

Crônica do Dia - Dilma e o bloco dos sujos - Ruth Aquino



Algo me diz que, se Renan Calheiros, Romero Jucá e Blairo Maggi estão possessos com Dilma, a presidente está certa. Não reconheço em nenhum dos três senadores acima condições morais para exigir cargos de liderança ou ministérios. 

Se os parlamentares, em vez de se esconder em Brasília, quisessem escutar a voz do povo, que paga seus salários e privilégios absurdos em troca de nada, saberiam que Dilma está bem melhor no filme do que eles. Chantagear a presidente e impedir votações importantes no Congresso não ajuda os senadores. A base real, o eleitorado, enxerga o Congresso como venal e fisiologista, atuando em benefício próprio e contra o interesse público. 

Vou me abster de enfileirar aqui escândalos de que Calheiros, Jucá e Maggi foram acusados, que envolvem superfaturamento, desvio de dinheiro, abuso de poder, fraudes, compra de votos, uso de laranjas e doleiros. Uma página não seria suficiente. Mas estão todos aí, vivinhos da silva, pintados de guerra e bravatas, graças ao toma lá dá cá tropicalista. 

Estão aí também porque, à maneira do ex-presidente Lula, são camaleões, mudam convicções e ideias – se é que as têm – ao sabor de quem manda. Pode ser PT, PMDB, PSDB, não importa. Jucá foi presidente da Funai no governo Sarney em 1986. Aprendeu a se fazer cacique e atravessou governos incólume. 

O que importa para os políticos “com traquejo” é manter a boquinha. E se tornar eterno. O presidente vitalício do Senado, José Sarney, uma vez mandou carta a esta coluna reclamando do adjetivo “vitalício”. Achou injusto. 

O que importa para o Senado é aumentar de 25 para 55 o número de cargos comissionados por parlamentar. O gasto anual subiu 157%, de R$ 7,4 milhões para R$ 19 milhões, se contarmos apenas o vale-refeição. Os “comissionados” são servidores contratados com nosso dinheiro, sem concurso público, pelos senadores. O guia do parlamentar diz que cada gabinete pode contratar 12 servidores. A Fundação Getulio Vargas, em estudo de 2009, definia como teto 25 funcionários de confiança por senador. Por causa de uma “brecha” (chamo isso de outra coisa), esses 25 se tornaram 55. Quantos fantasmas, alguém arrisca uma estimativa dos que nem aparecem para trabalhar? Muitos senadores liberaram seus fantasmas da exigência de ponto. São coerentes nisso. Como exigir ponto de invisíveis? 

O campeão dos comissionados é Ivo Cassol, do PP de Rondônia, que contratou 67. Repetindo: Rondônia. Mas nosso inesquecível Fernando Collor, do PTB de Alagoas, não faz feio no ranking: tem 54 pajens. Collor “aconselhou” Dilma a não peitar o Congresso, porque ele teria sofrido impeachment por ser impetuoso demais. Falta memória ou desconfiômetro? É por essas e outras que os programas de humor na televisão têm reforçado suas equipes no Congresso. A OAB diz que os fantasmas são imorais – até o Facebook está pensando em censurá-los. Estão pelados, pelados, nus com a mão no bolso. 

E daí? Alguém vai fazer algo ou a pauta do Congresso, fora da “zona de conforto”, é a queda de braço com Dilma e o boicote a temas reais? Chantagear a presidente e impedir votações importantes não ajudam nem o Senado nem o país 

Que injustiça, não vamos generalizar. Existe um tema real, candente, tão importante que une todos os partidos. Da base aliada, da base oposicionista, da base mascarada. Não é o Código Florestal. Dezoito partidos pediram ao Tribunal Superior Eleitoral que libere os candidatos com “conta suja”. Políticos com gastos de campanha reprovados deveriam disputar eleição, como sempre foi. Por que mudar a regra? 

Dá para entender o rebuliço. Só em três Estados, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, as contas de 1.756 políticos foram reprovadas, e eles não poderiam concorrer. No país inteiro, é um blocão de sujos, e cada vez aumenta mais. Resista, TSE. 

Dilma enfrentou das viúvas do Lula nos últimos dias uma saraivada de críticas a seu estilo. Foi comparada ao lutador Anderson Silva, do vale-tudo. Cientistas políticos dizem que ela mexeu numa casa de marimbondos. Devem ter se referido aos marimbondos de fogo. É ruim isso? Ela não teria traquejo, nem gosto para a política, uma presidente isolada, sem amigos. Que amigos? Os que compõem dinastias, oligarquias e são donos de capitanias hereditárias? Quando Lula distribuía afagos e benesses, era acusado de lotear o Estado. Agora, Dilma é acusada de intempestiva, virulenta e de colocar um turrão e um durão no Senado e na Câmara. 

A frase da semana é do presidente do PR e ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, deposto por suspeitas de irregularidades em julho do ano passado. Ele saiu em defesa da bancada vira-casaca do PR. Ameaçou o governo: “Acabou, chega! Ninguém aqui é moleque”. É. Pode ser. Afinal, os senadores se tratam por Vossa Excelência. Os moleques devemos ser nós, os 190 milhões que vêm sendo tratados como trouxas.

Ruth de Aquino
Revista Época 

domingo, 15 de abril de 2012

Crônica do Dia - Balaio de ideias - Nem todo mundo é Cartola ou Brown



Na década de 1980, durante o estouro das bandas baianas, sinto saudades de muitas delas, havia, inicialmente, quase que uma obrigatoriedade de inserir-se nas letras de músicas refrões que contemplassem os desgastados iê, iê, iô, iô.

Vários compositores usaram a fórmula de sucesso espalhada aos quatro cantos do mundo baiano. Discursos alegavam que os encontros vocálicos eram imprescindíveis às letras, pois do contrário não fariam sucesso. O principal argumento para a imposição do empobrecimento de letras de músicas baianas na década de 1980, pasmem, era o de que ficariam muito difíceis e os ouvintes não entenderiam.

Então, se já nos indignamos com outras formas de racismos e de preconceitos, coloquemos mais esta em nossa lista. Iaiá e ioiô são sinônimos, respectivamente, de sinhá e de senhor em variação linguística daqueles que foram obrigados a não frequentar a escola.

Também uma forma carinhosa de chamar o seu dengo, seu amor. Que não surjam risos de canto de boca, dizendo impropérios sobre os falares dos escravos. Pessoas de variadas nacionalidades e etnias tendem a pronunciar palavras de um idioma estrangeiro fora da norma-padrão culta. Quando for conversar com estrangeiros, veja que alguns deles cometem aquilo que denominaríamos erro.

Isso acontece com todo falante, principalmente estrangeiro, e com um escravo submetido a 16 horas diárias de trabalho não seria diferente. Qual tempo e oportunidade teriam para aulas? O eito era o único caminho.

Voltando ao iê, iê, iô, iô ou ainda iá, iá, há músicas que utilizam estas palavras como referências a falares negros. Lembro-me do cantor Virgílio fazendo isso ao gravar Yáyá Maravilha, de Carlinhos Brown. Desinformados, outros compositores e alguns empresários/produtores devem ter usado as fórmulas (antes ou depois de Brown) de forma indiscriminada, talvez aqueles por garantia de espaço e os outros dois por pensarem nas cifras nada musicais.

Eis o verdadeiro problema: informação, digo formação. Acredito que o excesso de iê, iê, iô, iô em músicas baianas da década de 1980 é, também, o espelho da escola com pouco ou quase nenhum incentivo à leitura e ao pensamento crítico.

Apesar das melhorias da educação, ainda acontece o mesmo hoje. Basta ouvir letras de nossas músicas, carentes de poeticidade, como determinados funks cariocas, inspiradores de pagodes baianos, que pena. Não acho que devemos crucificar as pessoas que criam de forma empobrecida.

Ao invés do olhar que deprecia aqueles que levam ao público aquilo que muitos de nós falamos e fazemos protegidos pelas paredes de nossas casas e por isolamentos acústicos dos motéis, poderíamos apostar em uma reeducação. Que a educação não castre a sensualidade, contudo deixe-a mais criativa, multifacetada. Vi e vejo na academia doutores e doutoras descendo até o chão, pondo a culpa na segunda cerveja. Alguns por notória limitação física não ousam as sensuais descidas e subidas, mas seus rostos ficam ensopados de felicidade endorfinática (de endorfina, o hormônio do prazer). Guardadas as proporções dos poderes da cerveja, coitadinha sempre culpada, há algo de atrativo nas músicas que fazem descer e subir.

É preciso pensar em uma escola que eduque também para o exercício das diversidades criativas da linguagem. A capacidade inventiva e inspiradora pouco se qualifica sem os 99% de transpiração, trabalho. Uma formação crítica voltada para as artes, em especial a literatura, criaria autores preocupados com a qualidade de seus trabalhos e leitores de mundo mais competentes. Precisamos de mais aulas de artes (incluindo a arte literária) e de consequente encantamento em todas as séries do ensino básico. Afinal, poucos poderão fazer bons trabalhos sem uma qualificada e duradoura ajuda da escola, pois nem todo mundo é Cartola ou Carlinhos Brown! O primeiro só estudou até o primário. Brown “teve pouco estudo”. Os dois grandes compositores aprendizes de espaços não formais do saber.

Gildeci de Oliviera Leite é mestre em Letras e professor de Lieratura Baiana na Uneb

Crônica do Dia - Mãe de gato



Há dois anos, adotei um gato de rua. Batizamos de Nero e hoje ele faz parte da família. De três em três meses, levamos o Nero pra revisão, o que significa, basicamente, tomar banho e cortar as unhas. Todos os funcionários da clínica já o conhecem. Da última vez, liguei para marcar hora pra ele e me anunciei.

– Aqui é a Martha, mãe do Nero. Mãe do Nero? Sou mãe da Julia e da Laura, não sou mãe do Nero. Antes, me anunciava como dona do Nero. Mas não soava bem. Há uma certa arrogância em se proclamar dona de um ser vivo. Muitos compram um mascote como compram um relógio ou um liquidificador, e somos proprietários daquilo que adquirimos, mas eu não adquiri o Nero. Então troquei o “dona” por “mãe” e me senti patética, porém mais à vontade. Se mãe é quem cria, sou mãe.

Meu Deus, o que estou dizendo.

Sempre considerei exageradas as relações que algumas pessoas têm com seus bichos. Sei do amor que se sente por eles e a triste dor da perda quando eles morrem, mas nunca compactuei com uma certa histeria politicamente correta que faz com que se considere bicho mais importante que gente, a ponto de pessoas se mobilizarem contra a matança de tubarões e não mexerem um dedo por uma criança de rua. O.k., as pessoas podem escolher as causas pelas quais querem lutar, e é importante que todas as boas causas arrebanhem defensores, mas preferir bicho me parece um subterfúgio emocional.

Há quem alegue que as pessoas têm consciência de si mesmas, raciocinam, por isso podem se defender, enquanto que os animais não podem se defender contra os ataques humanos. Ora, muitos humanos também não conseguem se defender de ataques humanos. E há os que dizem que um animal é mais comovedor porque sempre tem caráter, enquanto que encontramos pelas ruas seres execráveis.

Não discordo totalmente, mas é uma comparação meio maluca. Claro que os bichos de estimação são bons. Só o que eles precisam fazer é comer e dormir, e a gente ainda oferece casa, conforto e carinho. Eles não conhecem política, sistema financeiro, pensão alimentícia, guerra, narcotráfico. Estão imunes às lutas de poder e seus efeitos colaterais antiéticos.

Bicho dá menos trabalho e costuma cumprir o que muita gente não cumpre: ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. E salva inúmeros solitários da depressão absoluta. Daí a nos intitularmos mãe e pai deles, é um exagero. Não sou mãe do Nero. Nem sua dona, que gato não tem dono, nasce e morre independente, dono de si mesmo.

Eu apenas o alimento, o protejo, o acaricio, brinco com ele, às vezes me subordino a ele, fico meio boba com sua beleza, me preocupo com seu bem-estar e o chamo de bebê muito antes da Christiane Torloni massificar o termo. – Sim, mãe do Nero, a própria.

Martha Medeiros
Jornal O Globo

Crônica do Dia - Pensando magro




Tem muita gente por aí, você deve conhecer o tipo, que pensa gordo. É uma turma que foi gorda na infância ou na adolescência e passou o resto da vida traumatizada com os apelidos que recebia na escola (Bolinha, Fofão, Wilza Carla, só para citar os mais amenos), com os regimes alimentares que era obrigada a fazer pela família (McDonald’s só uma vez por ano, quilos de salada de alface e tomate e só um pedacinho de bife bem passado, fingir que não gostava de brigadeiro nas festas de aniversário) e com o constrangimento de vestir um biquíni ou uma sunga para ir à praia (maiô inteiro e calção eram o fundo do poço para adolescentes desse tipo). Há ainda os que mantiveram o corpo farto por mais um tempo e, já na idade adulta, tornaram-se vorazes consumidores de revistas femininas que traziam na capa chamadas para dietas milagrosas.

São gordos, sem dúvida, e permanecem gordos até quando se tornam magros. Quando, enfim, uma dieta dá certo ou, em casos mais recentes, após uma salvadora cirurgia de redução de estômago, a cabeça do indivíduo em questão não deixa de... pensar gordo! Ele _ ou ela _ é uma sílfide, mas continua comprando roupas largas, às vezes dois números acima do que seria adequado, e não resistindo à troca, no restaurante a quilo, de uma corada costeleta de porco por um prato cheio de folhas de rúcula. São magros, sem dúvida, mas continuam com a memória dos tempos de excesso de peso. Continuam pensando gordo.

Descobri, recentemente, que sou parecido com essa gente. Só que eu penso... magro. Nos muitos e-mails agressivos _ alguns até ameaçadores _ que recebi de ciclistas nas últimas semanas, havia um xingamento recorrente: barrigudo. Não há como negar: sou mesmo. Mas não me dou conta. Na infância, na adolescência e nos primeiros anos de minha juventude, fui magro, muito magro, magérrimo. Daqueles que também não escapavam de apelidos na escola. Pingo. Magrela (É irônico já ter tido o mesmo apelido que alguns ciclistas cafonas dão a suas bicicletas). Caniço (Quantas vezes tive que fingir achar engraçado as pessoas me perguntarem “cadê o samburá?”, nos tempos em que se sabia o que eram caniço e samburá). Meu pai tentava acrescentar alguns músculos à minha constituição, me matriculando no judô ou me dando halteres de presentes. Minha mãe apelava para a superalimentação. Nada deu certo. Eu continuei magro. Mais tarde, como os gordos, também tinha vergonha de vestir uma sunga na praia. Não queria deixar meu esqueleto à mostra.

Foi assim até mais ou menos meus 30 anos. A partir de então, dei para engordar. Mas continuei pensando magro. Sou daqueles que, numa loja de roupas, diante do olhar incrédulo do vendedor, pede para experimentar uma camisa tamanho 3 para descobrir, constrangido, que meu tamanho é 5. Dou prejuízo às churrascarias-rodízio e, ainda na esfera da alimentação, faço parte da Dieta Bibi Ferreira: não como nada que seja verde.

Sou barrigudo, sim. Mas não sofro com isso. Por uma razão muito simples: penso magro. Fazer o quê?

Arthur Xexéo
Jornal O Globo

Te Contei, não ? - Educação superior na recuperação


Na minha época, a juventude em Macaé tinha mais ou menos um prazo de validade para aproveitar a cidade. Dezoito anos era aproximadamente a idade em que os jovens tomavam a decisão geralmente inevitável de sair de casa rumo a cidade grande

Isso porque lugar de fazer faculdade era no Rio de Janeiro ou, quem sabe, em Campos. Ou ainda, para os mais desesperados para tomar rumos incertos, São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Brasília, em qualquer cidade universitária que tivesse mais renome na educação superior. Os tempos mudaram e Macaé agora não precisa mais mandar seus jovens para outras cidades para continuarem seus estudos. Muitas faculdades já integram a Cidade Universitária macaense e tudo anda de vento em popa. Ou não. Se julgarmos pelo curso de medicina da UFRJ, os universitários ainda esperam que a cidade se gradue em alguns quesitos.

Embora de iniciativa louvável, a criação de uma faculdade de medicina na cidade exige um mínimo necessário de infraestrutura para que o curso possa funcionar. Afinal de contas, de nada adianta formar profissionais inexperientes. Macaé já ganhou muito com a construção do “novo” hospital - que, apesar de não ser mais novo, continuou com a denominação. Apesar de atender a grande números de emergências de municípios vizinhos, não se trata de um hospital-escola, com toda a estrutura, professores e salas adequadas para que os estudantes de medicina possam praticar.

Trazer as principais universidades do estado - e, por que não, do Brasil -, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Fluminense para a cidade foi uma conquista para os moradores de Macaé, mas não resolve o problema se o nível de ensino não for o mesmo oferecido na capital. Garantir que seus jovens continuem no município não requer apenas proximidade física entre a casa e a faculdades, até porque disso os estudantes já dispunham. Mesmo assim, eles praticamente desertavam da cidade em busca de cursos de mais renome e qualidade.

Não é apenas a falta de estrutura física para as aulas práticas que preocupa os estudantes. Falta de oferta de disciplinas e falta de professores são outras reclamações sérias que os alunos fazem e que, se continuarem, arriscam jogar pelo ralo a credibilidade do campus da universidade em Macaé. Isso significa prejuízo para os alunos, para a faculdade, para a prefeitura e para os vestibulandos, que provavelmente já estão repensando o ingresso naquele curso e, tendo oportunidade de cursar em outros municípios, se prepararão para alçar voo como seus antepassados universitários. Quiçá quantos voltam mais tarde ou continuam em suas novas casas.

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Outro tema que ainda está tirando o sono de muita gente é o aumento visível da criminalidade em alguns bairros de Niterói. Mais uma vez, como já aconteceu anteriormente na época da Eco 92, por exemplo, a corrida por acabar com a violência no Rio de Janeiro, combinada com a falta de políticas de segurança pública em Niterói está resultando e bairros abandonados. O alerta serve não só para quem mora ou transita pela cidade, mas para a administração de outras cidades satélite, que, como sempre, acabam sofrendo com as rebarbas da violência carioca.

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No mais, entre engarrafamentos constantes na principal via de acesso à cidade, dificuldades para comprar passagens e mini-rodoviária lotada, esperamos que todos tenham uma boa Páscoa, afinal, qual é a reclamação que o chocolate não cura?

Carol Jardim
Jornal O Debate

Crônica do Dia - Drogas: está aberto o debate


Qual a melhor maneira de enfrentar o problema das drogas? Criminalizando o usuário ou tratando os dependentes como pacientes do sistema de saúde? Mantendo a ferro e fogo uma visão proibicionista ou experimentando com diferentes formas de regulação e prevenção?

Nos últimos quatro meses, a discussão avançou mais do que em 40 anos. O que parecia impensável está sendo discutido à luz do dia. Isto aconteceu por imposição da realidade e pela coragem dos presidentes Juan Manuel Santos, da Colômbia, Otto Perez Molina, da Guatemala, e Laura Chinchilla, da Costa Rica.

Os fatos falam por si. Décadas de esforços imensos, liderados pelos Estados Unidos, não levaram nem à erradicação da produção nem à redução do consumo. Enquanto houver demanda por narcóticos haverá oferta. Os únicos que ganham com a proibição são os traficantes.

No México e na América Central, a violência e corrupção associadas ao tráfico são uma ameaça direta à estabilidade democrática. Frente a este risco, criamos faz quatro anos a Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. Diante da ineficácia e dos efeitos desastrosos da guerra às drogas, abrimos o debate sobre estratégias alternativas.

Formulamos duas recomendações. Em primeiro lugar, descriminalizar o consumo de todas as drogas, visto que não faz sentido pôr na cadeia pessoas que usam drogas, mas não causam dano a terceiros. Podem causar danos a si mesmos e a suas famílias, mas persegui-los não os ajuda a se livrarem das drogas.

Droga é um problema de saúde pública. Tratar os dependentes como criminosos só dificulta o acesso ao tratamento. O primeiro objetivo de uma política antidrogas deve ser proteger os jovens, prevenindo o consumo que leva à dependência. Isto se faz mediante educação, tratamento e reintegração social.

O poder repressivo do Estado e a pressão da sociedade devem se concentrar na luta contra os narcotraficantes, sobretudo os mais violentos e corruptores, não em perseguir jovens ou doentes.

Nossa segunda recomendação, mais complexa porém não menos importante para a paz cidadã, é abrir o debate sobre modelos de regulação de drogas, como a maconha, de maneira similar ao que já se faz com o tabaco e o álcool.

Estudos científicos demonstram que a maconha é menos danosa à saúde que o tabaco. Regular não é a mesma coisa que legalizar. Regular significa criar as condições para impor restrições e limites ao comércio e consumo do produto, sem colocá-lo na ilegalidade. A redução espetacular do consumo do tabaco comprova que a prevenção e a regulação são mais eficientes que a proibição para mudar hábitos e mentalidades.

A regulação corta o vínculo entre traficantes e consumidores. Como a maconha é a droga mais consumida no mundo, sua regulação reduziria grande parte dos enormes recursos obtidos pelo crime organizado nos mercados ilegais, fonte de seu poder e influência.

Felicitamos aos presidentes da Colômbia, da Guatemala e da Costa Rica por colocarem sobre a mesa diferentes opções mais eficazes para proteger a saúde das pessoas e a segurança da sociedade. Por sua iniciativa, o tema da droga foi incluído na pauta da Cúpula das Américas que se reúne em Cartagena, Colômbia, nas proxima sexta-feira (14) e sábado (15 ).

Deste encontro de chefes de Estado não se deve esperar soluções mágicas ou acordos imediatos sobre o que fazer. Neste momento o que importa é um debate sério e rigoroso que permita a cada país encontrar as soluções mais adequadas à sua realidade.

A experiência da América Latina no combate ao narcotráfico e da Europa em saúde pública e redução do dano causado pelas drogas, a mobilização de setores empresariais e da comunidade científica, o anseio de paz dos jovens, tudo converge na direção de políticas mais humanas e eficientes.

Uma mudança de paradigma, capaz de combinar repressão ao tráfico com prioridade ao tratamento, reabilitação e prevenção, é a melhor contribuição da América Latina, continente que já sofreu tanto com este problema, para uma revisão global da política sobre drogas. A hora da mudança é agora.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO foi presidente da República (1995-2002). CÉSAR GAVIRIA presidiu a Colombia (1990-1994).
ERNESTO ZEDILLO foi presidente do México (1994-2000).

Jornal O Globo

Crônica do Dia - "Prezado imbecil"



Um dos eventos mais divertidos na rotina de quem escreve hoje em dia é quando o leitor resolve xingar o cronista usando fórmulas de cortesia. A coisa funciona mais ou menos assim:

“Prezado Arnaldo, você é um porco pusilânime. Um abraço.” Ou então:

“Caro Arnaldo, é uma grande safadeza o que você fez. Atenciosamente...”

Refiro-me apenas ao leitor que se dispõe a assinar seu verdadeiro nome e dirigir a mensagem via e-mail.

Os que se escondem por trás de codinomes em caixas de comentários para dizer “filho-da- puta” e reclamam de falta de liberdade de expressão quando são limados não passam de uns pobres zumbis.

Embora mereça respeito, o espinafrador educado e assinado, porém, não passa de um hipócrita, ou, no mínimo, um covarde.

Se quer ser educado, para que xingar? Basta criticar, argumentar, educadamente, o que condiz com os preâmbulos.

Ou, no raciocínio inverso: se quer xingar, para que tanta educação?

Que xingue como gente grande, igual a um leitor que, certa vez, enviou-me, em caracteres corpo 72 e caixa alta, apenas uma palavra de oito letras (não perguntem o que significa, eu mesmo tive que ir ao dicionário): “APEDEUTA.”

Esse era um sincero, um bom. Pode amaldiçoar minhas gerações passadas e vindouras. Mas faça-o com hombridade: sem prólogos e complementos, sem borrar a calça.

Qual o sentido de um abraço ao final de uma missiva na qual se lamenta que Hitler não tenha completado sua obra?

“Se o bigodinho não tivesse vacilado aos 45 do segundo tempo, seríamos poupados da sua lengalenga. Sem mais, um abração.”

Que abração é esse? O que esse urso neonazista quer de mim?

Em que pesem os efeitos exóticos e a comicidade desses híbridos, que mariquinhas o sujeito que insulta mas faz questão de guardar um quinhão de apreço do insultado.

Estará ele agradecendo pela oportunidade de xingar um escriba público?

Ou adicionando atenuantes a serem considerados no Juízo Final?

Ou, ainda, dando a entender que não é nada pessoal, apesar dos votos de que eu morra de câncer no reto o mais rapidamente possível, ou melhor, aos poucos, dolorosamente?

Há um antigo conto epistolar russo que trata de dois senhores que trocam cartas, inicialmente para resolver algum problema contratual ou referente a uma dívida.

No início do conto, quando predominam questões práticas, as fórmulas de cortesia são discretas. Mas vão ficando extensas e floreadas à medida que a disputa não se resolve e abrem-se as comportas do ódio: junto com as pragas, as amabilidades crescem exponencialmente, até se tornarem mais longas que as imprecações. Algo, grosso modo, assim:

“Meu mui estimado e querido amigo de tão antiga data, ilustríssimo e admirado Ivguénie Alexandrovitch: desejo que morra empalado no topo da Catedral de Santa Sofia.”

Xingar com amabilidades — todos sabem, e mais ainda quem assiste à TV Senado e às emissões das casas judiciárias — é um hábito nos debates políticos e legais, embora com poucas variações: um “Vossa Excelência” de praxe, regimental, e tasca pedreira. Não é, aliás, de hoje. Está nos anais a tirada de Carlos Lacerda, quando aparteado pela deputada Ivete Vargas (PTB), que lhe disse:

“Vossa Excelência é um grande purgante!”

Lacerda valeu-se de uma dose ainda maior de civilidade para polir a seguinte pérola:

“Agradeço à nobre colega o elegante aparte e constrange-me dizer que se o meu discurso é um purgante, o aparte de Vossa Excelência é o efeito.”

Tamanha falsa consideração ao se dirigir a um mero cronista, contudo, não se justifica. Vai ver é efeito de teorias da conspiração: não se brinca com a mídia, eles são o quarto poder. Melhor não dar ponto sem nó.

O camarada pode perfeitamente assinalar que não passo de um pequeno patife ou de um consumado imbecil ou dizer de minha mãe coisas que jamais se ouviram.

Não importa: ele há de reservar para o fim um afago, temeroso de que se abata sobre ele uma terrível vendetta por parte dos cavaleiros, ou cavalos, daquela ordem secreta da qual todo jornalista faz parte.

Nessa hora — ele deve imaginar —, consultado pelo grão--mestre, direi palavras em seu favor: “Não sejam muito cruéis com o infeliz, pois, no final, me mandou um abraço.”

Um outro aspecto bastante saboroso dessa dinâmica é a gama de diferentes malfeitos dos quais um cronista pode ser acusado.

Num dia, é um petista lambe-botas. No dia seguinte, um tucano vendido. Numa semana, é porta-voz dos interesses das grandes corporações. Na seguinte é uma voz solitária e corajosa na mesmice.

Num mês, é um defensor dos bandidos da cidade, afinal, direitos humanos de quem? No outro, um puxa-sacos do poder público.

De burguês do Leblon disfarçado a esquerdopata a comunista disfarçado em burguês do Leblon há uma linha tênue. Não se trata, claro, de erro. Ou, se há um, é do pilantra do cronista, que não se fez entender, nem suspeitou do veneno de sua pena. Que pena.

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Arnaldo Bloch
Segundo Caderno / Jornal O Globo