domingo, 21 de junho de 2015

Crônicas do Dia - Desculpe, Neide

Há dez meses, Neide, 44 anos, ótima pessoa e profissional competente, cheia de energia, mãe de quatro filhos, percebeu um caroço no seio. Há dez meses ela luta pela cura. Primeiro, Neide fez um ultrassom. Depois uma mamografia, depois raios X de tórax. Neide ficou então “na fila para ser operada”. Prometeram que seria rápido. O caroço doía, aumentava, e, junto, a ansiedade.

Crônicas do Dia - Busca da felicidade - Frei Betto

Não costumamos ser educados para alcançar a felicidade, e, sim, para ser consumistas

O DIA

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Crônicas do Dia - A idade do gênio - Frei Betto

Uma das miopias que carregamos é considerar a criança um ser ignorante

O DIA
Rio - Nosso olhar está impregnado de preconceitos. Uma das miopias que carregamos é considerar a criança um ser ignorante. O educador e cientista Glenn Doman se colocou a pergunta: em que fase da vida aprendemos as coisas mais importantes que sabemos? Falar, andar, movimentar-se, distinguir olfatos, cores, fatores que representam perigo, diferentes sabores, etc? Ora, 90% de tudo que é importante para fazer de nós seres humanos aprendemos até os 6 anos, período que Doman considera “a idade do gênio”. 

Te Contei, não ? - Gerações de graduados formados a partir da política de cotas já fazem diferença



Para sociólogo, política de cotas é uma solução temporária, enquanto ainda existe disparidade no Ensino Fundamental

Te Contei, não ? - Branco, nobre e escravo do governador

Branco, nobre e escravo do governador

Por muitos anos, Anthony Knivet lembraria o dia em que chegou ao Rio. Apavorado, dentro do navio onde vinha preso, o jovem inglês viu ao longe a praia da atual Praça Quinze e, dela, partirem canoas para a recepção. Uns portugueses remavam, os outros batiam tambores, faziam barulho, festa. Knivet foi jogado ao mar e quase se afogou. Trazido à terra, teve de esperar. O governador Salvador Correia de Sá, que decidiria seu destino, assistia à missa na Igreja de Nossa Senhora do Ó, atual Carmo.

Te Contei, não ? - Império: segredos de um triângulo amoroso

RIO - Em 1827, a nobre Maria Benedita de Canto e Melo passava em sua carruagem na Ladeira da Glória quando foi atacada a tiros. A baronesa de Sorocaba escapou ilesa, mas por toda a corte espalhou-se a história de que a mandante do atentado seria a irmã da vítima, Domitila de Canto e Melo, a marquesa de Santos, amante oficial de dom Pedro I. O motivo? Ciúme. A baronesa também frequentava a cama do Imperador, e, inclusive, teria engravidado do monarca ao mesmo tempo de Domitila. Segundo historiadores, ao contrário do escandaloso romance da marquesa, este caso extraconjugal era tratado com um pouco mais de discrição por dom Pedro, que costumava dar algumas “escapadelas” para encontrar Maria Benedita.

Crônicas do Dia - Pátria Educadora - Cora Rónai

Conheço alguns professores do PVS. Jovens recém-formados, cheios de entusiasmo... Olho para eles e o meu peito dói

Crônica do Dia - O ensino privado

Prestigiar o ensino privado seria grande investimento na Educação e no social

O DIA
Rio - O Chile está em meio ao debate da proposta da sua presidenta de acabar com o ensino privado no país, que vinha sendo apontado como o mais moderno em gestão da América Latina. Mas a socialista, neste segundo mandato, quer implantar seu programa, apesar do desgaste depois que foi eleita “sogra do ano” ao autorizar empréstimo de banco oficial para a nora especular no mercado imobiliário e ganhar dez milhões de dólares com informação privilegiada.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Crônica do Dia - Há sangue em cada notícia - Zuenir Ventura

Há sangue em cada notícia

Como manter livre, sem sequer uma internação, alguém que, aos 16 anos de idade, já tem 15 passagens pela polícia, várias por roubo à mão armada com faca?

Crônica do Dia - Intolerância Religiosa - uma herança das senzalas - Camille Rodrigues

Por Camille Rodrigues e Alan Miranda, em Observatório da Favela

“O meu direito termina quando o seu começa”: assim, através de um ditado popular, perpetua-se a falácia de que o direito de uns precisa ser interrompido para que o de outros se exerça, em vez de conviverem mútua e pacificamente. No Brasil, um país de culturas diferentes, a busca pelo respeito à diversidade e a tolerância tornam-se pautas cruciais à manutenção da democracia, do convívio entre as diferenças. A espiritualidade é um valor fundamental para as civilizações desde os primórdios da humanidade, desse modo, a intolerância religiosa se mostra uma pedra no caminho do desenvolvimento humano.  

Crônica do Dia - Impasse e perspectivas - Frei Betto

Cabe ao povo brasileiro se manifestar. Governo é como feijão, só funciona na panela de pressão

O DIA
Rio - A crise brasileira traduz o esgotamento de um modelo. O capitalismo neoliberal favorece o consumo, e não a produção, o que explica, nos últimos 12 anos, a facilidade de crédito, as desonerações tributárias, o aumento anual do salário mínimo corrigido pela inflação, o maior acesso dos brasileiros ao mercado. No entanto, não se criaram as bases de sustentabilidade para assegurar o acesso, a longo prazo, aos bens de consumo. 
O paternalismo populista teve início quando se trocou o Fome Zero, um programa emancipatório, pelo Bolsa Família, meramente compensatório. Passou-se a dar o peixe sem ensinar a pescar. 

Crônica do Dia - Intolerância Religiosa - Dráuzio Varella

Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais.

Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos à interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido. Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Te Contei, não ? - Intolerância Religiosa

A intolerância religiosa é um conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a diferentes crenças e religiões. Em casos extremos esse tipo de intolerância torna-se uma perseguição. Sendo definida como um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana, a perseguição religiosa é de extrema gravidade e costuma ser caracterizada pela ofensa, discriminação e até mesmo atos que atentam à vida de um determinado grupo que tem em comum certas crenças.

Te Contei, não ? - Na internet, o diário de viagem de D. Pedro II

Rio - Ao longo de 58 anos como imperador do Brasil, D. Pedro II colecionou diversos carimbos em seu passaporte. Como um intelectual amante de artes e tecnologia, ele fazia questão de anotar com riqueza de detalhes tudo o que via nos países que visitava. Durante todos esses anos, o imperador escreveu 43 cadernetas com suas impressões da Europa, do Oriente Médio e do Brasil.

Te Contei, não ? - Vítima de intolerância atingida por pedra está com medo de usar branco, diz avó


Kailane, candomblecista de 11 anos, foi atingida por pedra na cabeça quando voltava do centro que frequenta na Zona Norte

Crônica do Dia - Leila para sempre Diniz - Jaguar

A atriz chocava os moralistas de plantão com frases do tipo 'Você pode muito bem gostar de uma pessoa e ir para a cama com outra'

O DIA
Rio - O verso de Drummond está na lápide de Leila Diniz no São João Batista. Levei um baita susto quando li no jornal que no próximo dia 25 ela faria 70 anos. Eu a conheci em 1960, quando tinha 15 anos, e eu, 28; já dizia palavrões de um jeito tão bonitinho que os privilegiados marmanjos e garçons do Mau Cheiro (também chamado de Morte Lenta) achavam isso muito natural, como na letra de ‘Desafinado’. Ela e suas amigas, Ira Etz, Ana Maria Saraiva, Ionita e Aninha Magalhães, trocavam, escondidas dos pais, o maiô pelo biquíni no banheiro do bar. Depois disso, o até então provinciano bairro de Ipanema nunca mais foi o mesmo. Liam, ou fingiam ler, ‘A Náusea’, de Sartre. A música de fundo era de Juliette Greco. O barquinho de Menescal e Bôscoli deslizava no macio azul do mar enquanto algumas tinham crises existenciais se dourando ao sol do Arpoador. Leila com certeza não, ela era uma mulher solar, não me lembro quem disse.

Crônica do Dia - O teste de amizade - Arnaldo Bloch

Um estudo capaz de determinar se uma pessoa é amiga de outra

Da familiaridade nasce o abuso, conclui Esopo numa de suas fábulas envolvendo leões e raposas neuróticos. Baseado nesta moral e no fato de que “de perto ninguém é normal”, constatado por Caetano Veloso, em possível parceria com Pablo Picasso, foi criado, especialmente para esta edição, um estudo informal capaz de determinar se uma pessoa é amiga de outra, ou muito pelo contrário. Abaixo, em primeira mão, essa verdadeira pseudorrevolução a priori que promete mudar, para sempre, as relações interpessoais ou redes sociais.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Te Contei, não ? - Napoleão Gonçalves e suas manias


Napoleão Gonçalves e suas manias.

Napoleão Gonçalves era um sapo que vivia achando. Se perguntavam uma opinião, ele pensava um pouco, depois dizia “eu acho isso”, “eu acho aquilo”, não gostava de não achar nada. E com aquela mania de viver achando, umas das coisas que ele achou é que ele achava que para ser feliz a gente precisa trabalhar nas coisas que a gente gosta.

Teve um ano que ofereceram um monte de dinheiro para ele anunciar pasta de dente na televisão. Ele não gostavade anunciar e nem gostava daquela pasta de dente: não topou o trabalho. Mas a mulher de Napoleão Gonçalves
 – que se chamava Mimi-das-perucas, e que vivia no cabeleireiro penteando as perucas e comprando roupa e comprando perfume e querendo comprar o dia inteiro e sempre infeliz e sempre dizendo que a vizinha dela tinha mais coisas que ela e sempre querendo mais dinheiro para comprar mais  – tanto falou, tanto reclamou, tanto brigou com Napoleão Gonçalves, que ele acabou na televisão anunciando pasta de dente e se sentindo infeliz à beça.

Mimi gastou o dinheiro todo no cabeleireiro. 

Outro ano ofereceram um ordenado um bocado alto para Napoleão ser gerente de uma fábrica de camundongos enlatados. Ele disse que não gostava de comida em lata e não foi. Mas mimi-das-perucas chorou, brigou, disse que queria mais perucas, disse que era uma infeliz por que só tinha dez pares de sapatos e a vizinha tinha quinze, criou tanto casa que Napoleão Gonçalves acabou indo. E enquanto ele dava duro o dia inteirinho na fábrica, Mimi comprava, comprava, só parava de comprar para ir ao cabeleireiro. Até que um dia Mimi-das-Perucas ficou tanto tempo embaixo daquele secador que os cabeleireiros usam, que secou a peruca, a cabeça, Mimi toda secou, morreu.

Como não tinha ninguém com quem deixar os sete filhos pequenos, Napoleão Gonçalves começou a trabalhar em casa: como gostava muito de trabalhar com madeira, resolveu ser marceneiro; e como era louco por teatro comprou uns livros para estudar de noite. Ganhava pouco dinheiro, mas vivia feliz que só vendo, e curtindo cada dia até não poder mais. Adorava os garotos; vivia batendo papo com eles e brincando horas a fio de começar a achar: o que é que vocês acham disso? O que é que vocês acham daquilo? E uma das coisas que os garotos logo acharam é que eles achavam que o pai era o máximo.

(Lygia Bojunga Nunes, ANGÉLICA, págs. 74-75, 7°edição, livraria AGIR editora, Rio de Janeiro, 1982.)

Te Contei, não ? - A lenda do Santo Graal

Ao longo da história do cristianismo, a veneração por relíquias sagradas foi uma das mais corriqueiras demonstrações de fé vinculadas ao catolicismo. Esse tipo de experiência de fé visava reforçar materialmente a crença na história de vida dos santos e de Jesus Cristo. Por isso, principalmente a partir da Idade Média, as relíquias se transformaram em alvo da adoração e da constituição de várias lendas que descreviam os grandes poderes destes artefatos sagrados.

Em meio a tantas relíquias, o Santo Graal tem um significado especial, pois se trata de um suposto objeto utilizado por Cristo durante a Última Ceia. Ao longo do tempo, as interpretações e simbologias em cima desse objeto sagrado ganharam novas versões que, inclusive, inspiraram a narrativa do best-seller “O Código da Vinci”. Contudo, os estudos sobre o cristianismo primitivo em pouco contribuem para que essa crença se transformasse em realidade.

No primeiro século, os valores cristãos eram populares entre pessoas de origem humilde e que não tinham condições de ostentar nenhum tipo de luxo material maior. Por isso, caso o Santo Graal realmente existisse, não poderíamos imaginá-lo como um utensílio sofisticado e valioso. Além disso, os próprios relatos sobre a Última Ceia contidos nos evangelhos bíblicos não fazem nenhuma menção especial a qualquer objeto utilizado na última celebração entre Cristo e seus apóstolos.

No entanto, com o passar dos séculos, outros textos considerados sagrados foram responsáveis por articular a lenda que se criou em torno do Santo Graal. Em um desses textos, também conhecidos como evangelhos apócrifos, encontramos a menção de um cristão que, durante o julgamento e a crucificação de Cristo, teve o cuidado de zelar por utensílios supostamente utilizados pelo líder messiânico. Dessa maneira, estariam nesses relatos a origem do mito sobre o copo da Última Ceia, o Santo Graal.

Um dos responsáveis por dar continuidade ao mito do Graal foi um poeta medieval francês chamado Chrétien de Troyes. Em um de seus poemas épicos, Troyes contava a história de Percival, um camponês que se juntou aos cavaleiros do Rei Arthur e se lançou ao mundo em busca de aventuras. A certa altura da história, o cavaleiro Percival se depara resignadamente com uma procissão onde alguns cristãos carregavam valiosas relíquias, sendo uma delas “um graal”.

A história, que não teve prosseguimento pela morte de seu autor, diz em suas partes finais que o Graal avistado pelo cavaleiro tinha o poder de evitar várias intempéries. Apesar de mal explicada, a história do poeta francês foi importante para que o caráter divino do Graal fosse posteriormente explorado por outros escritores. Segundo alguns estudiosos, o termo “graal”, primeiramente utilizado por Troyes, faz referência a um tipo de prato raso, e não ao cálice que costuma simbolizar a famosa relíquia.

Algumas décadas após a morte de Troyes, a história por ele iniciada foi retomada por vários autores que reinventaram os destinos de Percival e o valor daquele graal. Em meio às reinvenções, os cavaleiros do rei Arthur perseguiriam o Santo Graal com o objetivo de curar e instruir o lendário rei Arthur. Entre os cavaleiros estava o puro Galahad, que ao encontrar a relíquia descobre importantes revelações sobre o mundo.

Na Idade Moderna, as famosas histórias do Santo Graal e das demais relíquias do mundo medieval se depararam com as críticas do movimento protestante. A crença e a compra das relíquias eram atacadas como um tipo de atividade contrária a outras mais importantes práticas cristãs. Contudo, a lenda conseguiu sobreviver ao longo do tempo e, no século XIX, foi relacionada com a Ordem dos Cavaleiros Templários, ordem religiosa criada no século XII com a missão de proteger a cidade de Jerusalém.

Essa interpretação histórica foi fundada a partir da leitura de um poema alemão intitulado como “Parzival”. Nessa obra, o graal é descrito como uma pedra protegida por um grupo de guerreiros chamados de “templeisen”. Anos depois, saberiam que esses indícios que ligavam o graal aos templários era fruto de uma interpretação errônea dos termos encontrados no poema alemão. Contudo, essa vinculação foi tomada como verdade durante um bom tempo.

No final do século XIX, em meio ao “boom” das descobertas arqueológicas, um grupo de pesquisadores resolveu imitar o fictício Percival, e assim saíram em busca do Santo Graal. Com o início da empreitada, vários “graais” foram encontrados e posteriormente desmascarados. No entanto, a lenda do graal ganhou um novo fôlego com o surgimento de grupos esotéricos que compreendiam o Santo Graal como um conjunto de textos sagrados de profunda importância religiosa.

A última e mais famosa versão sobre esse mito tenta levantar indícios pelos quais o Santo Graal, na verdade, faria uma truncada menção à expressão “sangue real”. Com base em tal premissa, acreditariam que o sangue real supõe a existência de uma linhagem de descendentes de Jesus Cristo que, segundo outras supostas fontes documentais, teria deixado herdeiros a partir de sua união com Maria Madalena. E assim, a lenda do graal cresce com novas, acalentadoras e instigantes promessas.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escol

sábado, 13 de junho de 2015

Crônica do Dia - O corredômetro da doença - Ruth de Aquino

Poderia ser só no Ceará. Poderia ser só por causa da “chuva e aumento de viroses”, segundo a visão embaçada do governo cearense. Poderia ser só no Nordeste e no Norte, regiões mais carentes. Mas não é. A fileira de doentes no chão do corredor do hospital Instituto Dr. José Frota em Fortaleza, alguns com soro e remédios na veia, é uma síntese do descalabro da Saúde no Brasil.