segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Tá na Hora do Poeta - Pagu - Julia Ferreira Assis



Pagu

- Quem é aquela que passa na esquina?
- Ora, mas que moça mais esquisita!
- Que batom escuro que cobre a boca da menina!
- Que vestes estranhas, dessa menina esquisita!

- Vocês não sabem quem é Pagu, ora essa ?
- E como você sabe quem é ela ?
- Sei porque Pagu chega chegando, ora essa!
Age sem medo nenhum, essa menina bela!

Ela é mulher forte, de cabeça erguida
Ela é mulher livre, que nunca fica caída
Mas isso não diz que não se dê por vencida.

Pagu!
Pagu olha pro céu e vê a esperança
Ela dá seu jeito pra não entrar na dança!
Pagu!
Ah, Pagu!
Ela ainda era uma criança ...


Júlia Ferreira Assis
Turma 902 / Ativo / 2012

Personalidades - Derek Rabelo - Surfando no escuro

Deficiente visual, o brasileiro Derek Rabelo vira ídolo do surfe internacional e é tema de dois documentários

 
 
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Paula Rocha
 

O jovem Derek Rabelo, 20 anos, é autor de uma façanha capaz de causar inveja tanto em surfistas amadores quanto em profissionais. Em março deste ano, ele surfou a Pipeline, no Havaí, uma das maiores e mais perigosas ondas do mundo. O feito, que já seria considerado motivo de orgulho para os surfistas convencionais, teve um gosto especial para Derek. Totalmente cego, ele encarou ondas de até 20 metros. Sua incrível história de superação conquistou o mundo do surfe e o alçou à fama. Depois de conhecer, em julho, o ídolo Kelly Slater – americano 11 vezes campeão do mundo, o brasileiro agora será protagonista de dois documentários: o filme “Além da Visão”, dirigido pelos brasileiros Bruno Lemos e Luiz Werneck, e “Beyond Sight”, assinado pelo americano Bryan Jennings.
A ligação de Derek com o surfe começou no berço. Seus pais, fãs do esporte, batizaram o menino em homenagem ao havaiano Derek Ho, um dos melhores surfistas do mundo na temporada de 1992. Com uma semana de vida, no entanto, descobriram que ele nascera com um glaucoma congênito. A visão do garoto foi diminuindo até ele perder completamente a visão, por volta dos 8 anos. “Foi um baque”, diz Ernesto Carlos Rabelo Souza, pai de Derek. “Mas sempre acreditei que meu filho seria capaz de fazer tudo o que quisesse, tanto que, com 2 anos de idade, dei uma prancha de bodyboard para ele.” O interesse pelo esporte praticado pelo pai e pelos tios paternos se tornou realidade há três anos, quando Derek decidiu aprender a surfar. “Quando ele me procurou, pensei: ‘Como vou ensinar um cego a surfar?’ Não foi fácil, mas ele evoluiu muito rápido”, diz Fábio Alexandre Rodrigues, o “Maru”, professor do jovem até hoje. “Ele é um menino que não tem medo de aprender, nem de onda grande.”
A chance de surfar a Pipeline surgiu com o amigo e também surfista Magno Oliveira, que convidou Derek a ir para o Havaí. A família do jovem, porém, não tinha condições financeiras de bancar a viagem. “Ele tirou o passaporte e o visto para os Estados Unidos com um dinheirinho que havia juntado vendendo pranchas”, diz Souza. Já o montante necessário para a passagem, hospedagem e alimentação foi conseguido com a ajuda de amigos e familiares. “Todo mundo se uniu para que ele não perdesse essa oportunidade.” No Havaí, o jovem brasileiro foi bem recebido pelos surfistas locais e, após conquistar as bravas ondas, ganhou status de herói. “Surfar lá foi difícil, mas eu não tive medo. Minha fé é maior do que o meu medo”, afirma Derek, que consegue se guiar no mar ouvindo e sentindo o movimento das ondas – e às vezes conta com indicações de surfistas amigos, posicionados perto dele.

“Quando vi esse menino surfando, não acreditei”, diz Bruno Lemos, surfista e cinegrafista brasileiro que conheceu Derek no Havaí. “O que ele faz é incrível. Surfar já é difícil para quem enxerga, imagine para um garoto cego.” A espantosa habilidade do garoto sobre as pranchas motivou Lemos a dirigir o documentário “Além da Visão”, que contará histórias de pessoas com deficiência visual. O filme agora está buscando patrocínio para a etapa de finalização e deve ser lançado no primeiro semestre de 2013.
 
As conquistas de Derek, no entanto, prometem durar muito mais. Em setembro ele fechou um contrato de patrocínio com a marca de beachwear Billabong e passou a integrar o time de surfistas profissionais da empresa. Agora, pretende voltar ao Havaí para surfar na última etapa do circuito mundial Pipe Masters 2012, o maior campeonato de surfe do mundo. Sua maior recompensa, entretanto, ele garante que já recebeu. “Fico feliz por ser reconhecido e considerado um exemplo para as pessoas com ou sem deficiência.”


Folha de São Paulo

Você sabia ? - A fórmula dos colégios militares

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Com desempenho acadêmico superior ao da maioria das escolas públicas brasileiras, instituições administradas pelo Exército unem professores capacitados, boa infraestrutura e disciplina, mas só para uma elite

Paula Rocha e Wilson Aquino
 
Sexta-feira, dia de formatura geral no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Aproveitando a presença dos cerca de dois mil alunos e alunas devidamente alinhados como soldados na praça Thomaz Coelho, o subcomandante do colégio, coronel Muniz, toma o microfone e fala grosso: “A brincadeira de Nescau está proibida.” O militar faz referência a um tradicional e violento trote aplicado pelos alunos veteranos sobre os novatos – um grupo se aproxima da vítima cantando uma divertida música infantil e, de repente, cai de tapas e murros sobre a cabeça e costas do alvo. A bronca geral do subcomandante tem como objetivo restabelecer a disciplina, um dos principais pilares das escolas militares brasileiras.
 
Com uma filosofia de ensino baseada na doutrina do Exército brasileiro, o Colégio Militar do Rio foi o décimo melhor colocado do Estado, entre as escolas do sexto ao nono anos, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2011, do Ministério da Educação. A escola obteve média de 6,4, abaixo da meta estipulada para o colégio, de 6,6, porém bem acima da média nacional, que bateu em 4,1. Dentre as 30 escolas de sexto a nono ano com as melhores notas no Ideb 2011, dez são colégios militares. Essas instituições são uma elite do ensino público no País – elas não cobram mensalidade, mas uma taxa simbólica de quem pode pagar – destinada preferencialmente aos filhos de servidores do Exército. A realidade desses colégios em nada lembra as escolas sem estrutura e com professores mal remunerados a que a maioria dos estudantes brasileiros está submetida. “O bom desempenho é resultado da união de planejamento pedagógico, boa estrutura de apoio ao processo de ensino e aprendizagem, corpo docente capacitado e disciplina”, acredita o coronel Mansur, diretor do Colégio Militar de Salvador. Em sexto lugar na classificação nacional do Ideb, a instituição baiana possui 821 alunos, 98% filhos de militares.
 
Do ponto de vista estrutural, esses colégios estão, de fato, bem acima das demais escolas da rede de ensino público do País. Em comum, as 12 instituições militares possuem instalações variadas e em ótimo estado de conservação, que incluem ginásios, piscinas semiolímpicas, quadras de tênis, laboratórios de química, física, biologia e informática, além de outros espaços de convivência. Toda essa infraestrutura permite que os alunos permaneçam na escola fora do horário regular, realizando atividades extracurriculares, outro diferencial. “Nós estimulamos a participação dos alunos em atividades que vão além da sala de aula”, diz o coronel Heimo, diretor do Colégio Militar de Brasília, que recebeu nota 6,7 no Ideb 2011, a melhor classificação entre as escolas públicas do Distrito Federal. “Nossos alunos podem optar por realizar atividades como equitação, coral, dança, teatro e até robótica.” Atualmente, três mil estudantes estão matriculados no Colégio Militar de Brasília. Destes, apenas 550 são filhos de civis.
 
Outro fator considerado decisivo para o bom desempenho acadêmico dos alunos é a capacitação do corpo docente. No Colégio Militar de Salvador, por exemplo, 15% dos professores são doutores, enquanto 25% possuem mestrado. “E mais de 90% têm ao menos um tipo de especialização”, diz o coronel Mansur. “Além disso, trabalhamos em regime de dedicação exclusiva, e a carga horária dentro da sala de aula não é tão grande, o que nos possibilita preparar melhor o conteúdo que será apresentado”, diz a capitã Risalva Bernardino, professora de literatura e língua portuguesa do Colégio Militar de Brasília. A remuneração dos professores também é atrativa. Os docentes militares têm vencimentos correspondentes aos respectivos postos. Já os civis recebem de acordo com a progressão funcional e os títulos que possuem. Os salários variam entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, valores que podem ser equiparados à remuneração de professores dos institutos federais e de alguns colégios particulares. É bem acima da média salarial dos docentes de ensino fundamental da rede pública, de R$ 1,8 mil.

A principal diferença entre os colégios militares e as escolas civis, no entanto, é a questão da disciplina. As regras dentro dessas instituições são rígidas. Apesar de a aula começar às 7h, o aluno que atravessa o portão de entrada às 6h30 é considerado atrasado. Se o uniforme não estiver impecável (há funcionários designados exclusivamente para observar isso), pode não ter acesso à sala de aula. Fica de castigo no interior do colégio até o fim do turno. Há normas também sobre a aparência. O corte de cabelo masculino é feito com máquina 2, e refeito de 15 em 15 dias. Não é permitido barba, bigode ou cavanhaque, brinco, piercing nem óculos escuros. Guarda-chuva, somente na cor preta. Os cabelos femininos podem ficar soltos, contanto que não ultrapassem a altura da gola do uniforme. Se médio ou longo, deve ser preso. Mechas coloridas são proibidas. As unhas devem ser incolores ou pintadas apenas nas cores branca e rosa-clara. Ao cruzarem com um professor, diretor ou monitor, os alunos devem prestar continência. Namorar, beijar, andar abraçado ou de mãos dadas é considerado transgressão disciplinar e os pais são chamados.
 
Com tantas normas, alguns alunos reclamam. “É muito rigor e sermão. Aqui é bem diferente dos outros colégios. Eu esperava que fosse mais fácil, só estando aqui dentro para ver”, desabafa um aluno do sexto ano do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que não quis se identificar. Outros estudantes, porém, afirmam gostar dos valores aprendidos. “A disciplina é necessária para o aprendizado”, diz Cláudia Mattke Ferreira, 18 anos, aluna do terceiro ano do ensino médio do Colégio Militar de Salvador e filha de civis. Opinião compartilhada pela também estudante Hortência Oliveira Brito, 15 anos, aluna do primeiro ano do ensino médio do Colégio Militar de Brasília. “Tem esse aspecto de rigidez, sim, mas ao mesmo tempo o ensino tem muita qualidade.”

Na opinião do especialista Luiz Prazeres, consultor em processos de avaliação educacional e professor do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a disciplina dos colégios militares faz diferença, mas não é o único fator determinante para o sucesso dos estudantes egressos desse sistema de ensino. “Os alunos desses colégios representam uma elite intelectual. A prova para admissão nessas instituições é muito rigorosa, e acaba selecionando apenas os melhores”, diz Prazeres. “São escolas públicas, mas não inclusivas. São estabelecimentos de ensino fechados, acessíveis apenas a privilegiados”, completa.


Fotos: Orestes Locatel e Adriano Machado/ag. istoé

Te Contei, não ? - O nascimento do Pós - tudo

 
 
Nunca houve um ano como 1962, quando muitas das transformações gestadas pela juventude nasceram. Algumas só explodiram algum tempo depois

Fábio Altman

O aggiornamento promovido por João XXIII na Igreja Católica está longe de ter sido o único evento extraordinário, de repercussões perenes, de 1962. Mais correto do que dizer que o Concílio Vaticano II moldou aquele período é afirmar que a mudança religiosa foi, ela também, filha de meses muito especiais. Tinha de ter sido em 1962. Haviam se passado apenas dezessete anos do fim da II Guerra Mundial. A Europa se reconstruía. Nos Estados Unidos, a geração conhecida como baby boomer, dos nascidos no pós-guerra, chegava à maioridade. Politicamente, vivia-se a Guerra Fria, cujo apogeu se deu em 22 de outubro daquele ano, quando opresidente dos Estados Unidos, John Kennedy, anunciou que os soviéticos haviam instalado mísseis nucleares em Cuba. Os soviéticos, liderados por Nikita Kruschev, e os americanos chegaram a um acordo e não se deu o pior cenário.

Não houve guerra, ainda não se fazia amor - como descobriríamos em 1968 e 1969 -, mas a juventude de 1962 precisava se reiventar, precisava matar, simbolicamente, os pais que não tinham morrido em combate. Os beatniks Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, a representação literária dos anos 50, tinham de 30 a 44 anos quando escreveram seus trabalhos fundamentais. Eram velhos demais para revoluções. Elvis, ao voltar do Exército, em 1960, estava com 25 anos e já tinha feito sua parte ao unir a música negra ao rock'n'roll e sexualizar aoo extremo o twist. Então em 1962, à sombra do holocausto nuclear, Bob Dylan cantou Blowin' in the Wind em um festival de Nova York (foi em abril, Dylan tinha 20 anos) e o velho mundo dos adultos foi varrido por um furacão. À revelia de Dylan, a canção virou hino de protesto.

Quando lhe perguntavam que respostas sopravam ao vento, ele dizia com ironia e escárnio: "Tenho apenas 20 anos, vocês são mais velhos e mais espertos". . Em outubro - espremido entre a estreia de 007 contra o Satânico DT. No com J ames Bond, o espião da Guerra Fria, e a crise dos misseis de Cuba-, os Beatles lançaram Love Me Do e o iêiê-iê (o mais velho dos quatro tinha 22 anos). O resto é história.

1962 foi um ano menos celebrado do que 1968, mas poucas vezes tantos eventos ocorridos em 365 dias ajudaram tanto a traduzir uma determinada inflexão histórica (veja na linha do tempo abaixo). É possível que 1962 tenha sido um ano que chegou antes da hora. Os despertares provocados por ele demoraram a ser percebidos no cotidiano, eis outra interessante característica de exatos cinquenta anos atrás - ao contrário de 1968, quando se conheceu, na carne, na hora, a virada fundamental, ou mesmo de 1989, com a queda dos satélites comunistas em Varsóvia, Budapeste, Berlim e Praga. 1962 foi um ovo de serpente que gerou uma imensa árvore de novidades que demorariam a brotar.
Nele nasceu a expressão "via satélite", com as primeiras transmissões globais.
A pílula anticoncepcional, que fora sintetizada dois anos antes, chegou às lojas com timidez - de 50000 usuárias iniciais, em dois anos foi a 1,2 milhão nos Estados Unidos. Hoje, em todo o mundo, mais de 100 milhões de mulheres tomam a pílula.

O ano de 1962, enfim, representou o nascimento do pós-tudo. Os jovens - muito antes da unanimidade que se aplica a 1968 - estavam matando amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. Queriam cores, e não o preto e branco niilista de seus pais. No primeiro episódio da segunda temporada do seriado Mad Men, passado em fevereiro de 1962, há festa na agência de publicidade Sterling Cooper com a chegada de uma máquina de xerox colorida. O diretor criativo, Don Draper, digladia-se com um dilema: como fazer propaganda de uma cafeteria onde "ninguém com menos de 25 anos entra para tomar café". A solução? Os jovens, a salvação da envelhecida firma de publicidade. Na mesa de reunião um dos diretores dá a deixa da renovação: "Somos um país jovem, até o presidente tem um bebê". Assim foi 1962, ano em que fotos instantâneas, nem sempre muito nítidas, como as de uma P.olaroid, com o tempo ganharam contornos para mopt'U" o filme que nos trouxe até hoje - na música, no cinema, no sexo e na igreja.

Revista Veja

Te Contei, não ? - Maravilhas brutas

Uma nova e cuidadosa edição dos contos coligidos pelos irmãos Grimm revela um universo estranho e encantador - mas nem sempre infantil

Jerônimo Teixeira

A Gata Borralheira perde seu sapato (que não é de cristal, mas dourado) não apenas porque deixa o baile esbaforida ao badalar a meia-noite: acontece que o príncipe, que já a conhecera de um baile anterior, manda colocar piche nos degraus da escadaria, para retardar sua fuga. Esse pequeno detalhe representa bem uma característica marcante dos contos de fadas coletados pelos irmãos Grimm: com muita frequência, eles parecem mais sujos do que as versões hoje mais correntes dessas histórias, quase sempre diluídas e higienizadas no cinema ou em adaptações para livros infantis.

O nome Grimm está indissociavelmente associado ao conto de fadas (ou "conto maravilhoso", para seguir mais de perto o termo alemão Marchen). É a marca, a grife mais conhecida do gênero. No entanto, o contato direto com as histórias tantas vezes cruéis que J acob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (17861859) colecionaram pode ser desconcertante. Vale para eles uma das magistrais definições de "clássico" do escritor italiano Italo Calvino: "Clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos". A esses três adjetivos, pode-se acrescentar "chocante" para definir com mais precisão Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos (1812-1815) (tradução de Christine Rohrig; CosacNaify; 672 páginas em dois tomos; 99 reais).

Essa edição traz, acomodadas em uma simpática caixa e com ilustrações do pemambucano J. Borges - que busca fazer uma ponte entre o conto popular germânico e o cordel brasileiro -, as duas primeiras coletâneas dos Grimm. Os dois manos apresentaram 86 contos, coletados da tradição oral da região alemã do Hesse, em um volume lançado em 1812, e mais setenta em um livro de 1815. A iniciativa filiava-se ao espírito nacionalista do romantismo alemão, tanto mais exaltado porque a Alemanha ainda não existia como nação. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os poetas Achim von Amim e Clemens Brentano já haviam publicado uma coletânea de versos de extração popular, Des Knaben Wunderhorn (algo como "a trompa mágica do menino"), quando os Grimm deram início a suas pesquisas. Os irmãos patrioteiros reivindicariam origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus - como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes, no século XVII.

Sob o cuidado exclusivo de Wilhelm, as edições seguintes somariam mais de 200 contos. As histórias, porém, ganhariam versões amaciadas, em resposta àqueles que as consideravam impróprias para crianças. Na Rapunzel de 1812, por exemplo, a fada má que tranca a heroína na torre descobre que um príncipe vem visitando sua prisioneira quando Rapunzel menciona casualmente que seus vestidos andam apertados - indício de uma gravidez. Nas edições posteriores, Rapunzel, a tonta, deixa escapar que vem puxando, com seus cabelos, o príncipe para o alto da torre. Há outras sugestões sexuais ao longo dessas narrativas - que, como bem percebeu o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim, são campo fértil para a investigação psicanalítica. O modo como a princesa oprimida do belo A PasTOra de Gansos solta e ajeita seus cabelos sem jamais permitir que o companheiro de trabalho Conradinho toque neles é um evidente jogo erótico. E, nas duas versões da história da princesa e do sapo, a princesa hesita na hora de levar o batráquio encantado para a cama.

A brutalidade, porém, perturba mais do que o sexo. Esses contos são um desfile de perversidades: crianças famintas, mutilações variadas, tortUras e execuções e1aboradíssimas. Em alguns casos, desvenda-se um fio de intenção edificante nessas bizarrias: o herói ou heroína passa por provações horrorosas para melhor provar sua têmpera moral - e os malvados acabam punidos. É assim no bem conhecido João e Maria, que acaba com a bruxa má assada em seu próprio fomo. Mas há histórias nas quais a violência é de uma gratuidade que parece amoral. Tal é o caso de A Mão com a Faca, em que um pobre elfo tem seu braço amputado por ajudar uma menina maltratada pela farrulia, ou de Quando Crianças Brincaram de Açougueiro, cujo título já diz tudo. As histórias de princesa que hoje são conhecidas sobretudo pelas edulcoradas animações de Walt Disney (veja o quadro na pág. ao lado) são, na pena dos Grimm, incomparavelmente mais sujas e brutas. Nas notas sombrias, aliás, os Grimm superam com folga as tentativas recentes de "modernizar" suas narrativas - como a chatíssima série de TV Grimm ou o desastrado filme Branca de Neve e o Caçador.

A profusão de membros decepados e delicadezas similares talvez tenha o sentido de educar as crianças para as realidades mais duras da vida, função que alguns psicólogos também descobrem nas brincadeiras mais agressivas dos meninos (leia a reportagem na pág. 100). Mas atenção: não é apenas o nosso tempo de hipersensibilidade histérica que tem os Grimm como "incorretos". Os contemporâneos da dupla de folcloristas já consideravam suas histórias maravilhosas impróprias para menores - é o que se atesta no prefácio um tanto defensivo que os dois escrevem para a edição de 1815.

Estes livros são obrigatórios para todo pai que deseja formar filhos leitores. Mas é preciso critério e parcimônia para apresentá-los aos pequenos; recomenda-se que os pais leiam cada história para si antes de contá-Ia a seus pimpolhos na hora de dormir. Existem aqui imenso prazer para os leitores adultos e encantamento inesgotável para as crianças. Os Grimm professavam uma filosofia de fidelidade às fontes orais, e por isso não se permitiam grandes firuIas de estilo. Mas há uma poesia irresistível no modo como descrevem, por exemplo, o reino sonolento em A Bela Adormecida: "Até o fogo, que crepitava no fogão, ficou em silêncio e adormeceu". E que dizer de A Chave Dourada, última história da edição de 18157 Simples, eficiente, é uma aula de como encadear uma narrativa: uma ação depois da outra, até a última frase que deixa o leitor em suspenso, à espera de um final que não virá - porque histórias assim são infindáveis.

Te Contei, não ? - A Turma do Funil

 
 
 
À meia-noite do dia 28 de setembro, uma sexta-feira, quem passou pela Rua Mem de Sá, na Lapa, viu uma cena exótica: uma fila de jovens vestidos como vikings e valquírias na porta do Teatro Odisseia. Era uma espécie de gincana. Quem fosse fantasiado daquela maneira à Taverna Viking, festa de temática medieval que ocorre uma vez por mês na casa, ganhava doses liberadas de hidromel, a bebida típica dos vikings. Naquela noite, seriam esvaziadas 24 garrafas diretamente na boca dos frequentadores — a 25ª seguiria como prêmio ao casal que ganhasse o Concurso de Beijo realizado no auge do evento, lá pelas 3h. Não muito longe dali, no Espaço Acústica, na Praça Tiradentes, a festa Tropical Bacanal tinha uma brincadeira diferente: por volta das 2h, três produtores invadiram a pista de dança com bambolês e uma garrafa de uísque. Quem conseguisse rodar o artefato na cintura por dez segundos ganhava uma talagada.
No sábado seguinte, véspera de eleição municipal, a Wonka Party se inspirou no filme “A fantástica fábrica de chocolate” para atrair público: cupons dourados escondidos no salão podiam ser trocados por chocolates ou doses de bebida no bar. Na sexta-feira posterior, dia 12 de outubro, nem a chuva torrencial que lavou a Lapa tirou da porta do Odisseia a fila para entrar na Pop Up!, festa com farta distribuição de cachaça e sorteio de barril de cerveja, além do Megabeerbomb, um grande funil com mangueiras acopladas na saída para se beber mais, e mais rapidamente, com a ajuda da gravidade. Usado por até quatro pessoas ao mesmo tempo, o instrumento torna possível tomar uma lata de cerveja em três segundos. Naquela noite, o Megabeerbong foi disputado a tapa pela turma que guardava lugar à beira do palco, onde os DJs o posicionam. Em cada aparição do brinquedo, 12 latas eram derramadas funil abaixo.
Conhecidas como drinking games, as brincadeiras que estimulam o consumo excessivo de álcool hoje são os principais atrativos das festas com público entre 18 e 24 anos que ocupam locais como Fosfobox, em Copacabana; Espaço Franklin, no Centro; e Espaço Rampa, em Botafogo; além do Odisseia e do Espaço Acústica. A despeito da música ou do público, o chamariz são os jogos que envolvem bebida, seja como mote ou premiação. Outros exemplos que chamam a atenção são a festa Tekiller, que tem uma Batalha de Tequila, na qual ganha uma garrafa da bebida quem vira quatro doses primeiro. Em algumas edições, “o primeiro a cair bêbado ganha uma tatuagem”, como escrito na filipeta de divulgação. Ou a American Party, cuja atração principal é o Jager Beer Pong, uma competição em que dois times em lados opostos de uma mesa tentam acertar bolinhas de pingue-pongue no copo dos adversários, obrigando-os a virar uma mistura de cerveja com Jagermeister. Sem falar nas festas com os sugestivos nomes de Higher! ou Allcool Party.
— Antigamente, o mais importante era a música. Hoje em dia, para uma festa ser boa, ela tem que ter muitas atrações. Cada dia aparecem mais festas disputando o mesmo público, se não criarmos um diferencial, não atraímos as pessoas — justifica a produtora Luísa de Castro, de 21 anos, que se formou em Gastronomia e, há quatro meses, trocou o estágio numa fábrica de tortas pelo emprego na produtora de festas Blue Fish, responsável pela Tekiller, Taverna Viking e Bubble Pop, que distribui champanhe. — Festa hoje em dia é igual a cruzeiro. Antes, as pessoas queriam viajar. Hoje em dia, todo mundo quer “fazer um cruzeiro”. O que vale são as atrações, os brindes, as fantasias, os games.
Ideia é importada dos EUA e da Alemanha
Depois do reinado das festas de rock, das festas dos anos 80 e das festas com DJ-celebridade, só para citar as últimas tendências da noite jovem carioca, o público assiste (boquiaberto) o advento das festas com drinking games. Não é difícil perceber esta mudança de perfil: nos flyers, o estilo de música muitas vezes nem é citado. Em letras garrafais, o destaque fica por conta das brincadeiras importadas de festas americanas (como o Beer Pong) e alemãs (como o Beerbong, usado nas Oktoberfest).
Enquanto tomavam um ar do lado de fora da Bubble Pop, que estreou no Odisseia em 5 de outubro, Luísa e Fernando Castro, de 25 anos, da Blue Fish, explicaram como regulam a distribuição gratuita de álcool:
— Calculamos pelo número de pessoas. Como hoje vieram entre 200 e 300, limitamos a distribuição de champanhe a seis garrafas. Na Taverna, que é bem cheia, liberamos mais. Não acho que brincadeiras estimulem as pessoas a beberem mais do que fariam. Não vou dizer que nunca tivemos problemas, já aconteceu, uma vez ou outra, de alguém sair mal da batalha de tequila, mas não é culpa nossa, a festa é para maiores de idade — alega Fernando.
Assim que completou 18 anos, no ano passado, o estudante de Sistemas de Informação da PUC-Rio Gabriel Sotero começou a sair à noite com os amigos. Insatisfeito com as festas que frequentava, decidiu a criar a sua, “mais animada”, segundo ele. Juntou-se a um amigo DJ da mesma idade e fundou a Wonka Party. Tal qual o personagem Willy Wonka, do filme, eles distribuem chocolates e escondem cupons dourados na pista. Para animar ainda mais o grande pique esconde em que se transforma a festa, Gabriel fez um curso de DJ este ano e, quando está no comando das picapes (ou laptops), vai de Lady Gaga a Xuxa. Apesar da pouca experiência na noite, o estudante atrai cerca de mil pessoas por evento, com entrada a R$ 30.
— Sem dúvida a Wonka fica lotada por causa da quantidade de brincadeiras. Em toda edição a gente tenta inovar, fazer algo diferente — diz Gabriel, que relativiza o estímulo ao consumo de álcool em seus eventos: — As pessoas saem de casa para beber, faz parte da noite, as brincadeiras são apenas mais uma atração.
Criador da 7 Day Weekend, primeira a usar um Beerbong, o produtor musical e DJ Bruno Salgado de Oliveira, conhecido como Sal, de 27 anos, acha que essa mudança de estilo da noite do Rio é natural.
— Na 7 Day, o principal atrativo são as músicas diferentes que o frequentador só vai ouvir aqui. Fazemos muita pesquisa musical. Mas também queremos ver as pessoas se divertirem, e acho que é esta a função do Beerbong. Não acho que isso estimule o consumo de álcool. Há muitas festas cujo principal interesse é lotar a casa, custe o que custar, dando garrafas de bebida, e isso sou contra. Mas a noite do Rio é muito plural, tem espaço para todo tipo de evento — comenta Sal, que levou o brinquedo pela primeira vez à festa por acaso: tinha usado o instrumento dias antes no clipe de sua banda.
Empresas entram na onda
De olho no mercado que esse tipo de evento fez surgir, o administrador de empresas carioca André Bonilha, de 26 anos, abriu em fevereiro a loja virtual Vira Vira, que, faz questão de frisar, é a “primeira empresa brasileira de drinking games registrada na Receita Federal”. No site, são vendidos itens como o Beerbong simples (R$ 29,90) e o quádruplo (R$ 79,90), além de outros apetrechos. Os principais compradores, no entanto, são os paulistas — o que leva a crer que a moda também chegou a outras cidades do país.
— Quem mais compra com a gente é o pessoal de Campinas, principalmente para eventos de universidade, chopadas e festas de rodeio — comenta André, que contabiliza em R$ 200 mil seu rendimento este ano.
A ideia da loja surgiu depois de uma temporada de estudos em Nova York, em 2009.
— Lá, todas as festas de faculdade tinham drinking games e campeonatos de Beer Pong. Quando voltei, percebi que isso não era comum no Brasil. Achei que tinha tudo a ver com nosso espírito de festa e chamei três amigos para entrar no negócio — explica André, que faz demonstrações em festas para divulgar os produtos. — As pessoas adoram brincar. O bong nada mais é do que um acessório a mais para a descontração.
É o que pensam muitos dos frequentadores das nove festas em que a Revista O GLOBO esteve nas últimas três semanas. Para os jovens ouvidos, a distribuição de bebida é fator decisivo na hora de escolher em qual evento ir. Se for com alguma brincadeira, melhor ainda. Fantasiada de valquíria na fila da Taverna Viking, a estudante Mellyna Barone, que até a meia-noite do dia em questão tinha 17 anos, veio de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, onde vive, especialmente para comemorar o aniversário de 18 anos na festa medieval, cujo sucesso ela acompanhava pelo Facebook. Com uma amiga, ela queria conhecer (e garantir) o famoso hidromel, bebida fermentada à base de mel, de origem medieval, citado no livro “O Senhor dos Anéis”, que seria liberado em doses a noite toda.
— Meu sonho era vir aqui. Convenci meus pais a deixarem, e pelo que eu via na internet, é a mais animada — disse Mellyna, que esperou dar meia-noite para entrar, já que nesses eventos a entrada de menores é proibida.
Nem todas as pessoas que vivem a noite, no entanto, veem os drinking games como uma simples descontração. O DJ Tito Figueiredo, de 37 anos, 11 deles à frente da festa de rock Paradiso, é crítico ferrenho da nova moda:
— As festas hoje são um freak show, com rinha de tequila, touro mecânico, distribuição de pirulito. Para compensar a falta de conteúdo artístico, de qualidade musical, eles encontraram essa forma banal de diversão, que acaba estimulando o alcoolismo. O álcool é uma droga que mata, não é uma brincadeira — lamenta Tito. — Eu sempre fiz promoções na Paradiso, mas relacionadas ao conteúdo musical da festa. Para ganhar descontos, as pessoas tinham que participar dos debates sobre as músicas que tocavam nos sets na comunidade do Orkut.
O produtor musical e DJ Nado Leal faz coro. Trabalhando há 22 anos em festas e grandes eventos da cidade — Rock in Rio, réveillon de Copacabana, Fashion Rio... —, ele está assustado com a nova cena. Além de beberem mais, diz ele, os jovens gastam muito mais.
— A noite mudou radicalmente. Hoje vejo garotos de 20 anos gastando R$ 200 de uma vez. Antes eles não bebiam uísque, como hoje. Eu percebo que esse novo comportamento começou com a entrada dos energéticos na noite. Essas bebidas camuflam o gosto do álcool, eles bebem em maior quantidade. O estímulo que essas festas dão à bebedeira é muito louco. Mesmo os que saem de casa com o dinheiro contado agora bebem o equivalente a muito mais, pela distribuição gratuita de doses — atesta Nado, que não aceita tocar em festas com bebida de graça. — As características de uma boa festa estão sumindo, a boa música, o ambiente naturalmente descontraído, a espontaneidade. O problema é isso se tornar um padrão, o que eu temo que vá acontecer, pois são esses eventos que estão injetando dinheiro na noite da cidade.
Com 25 anos de carreira, o DJ Wilson Power, de 43, parou de beber há quatro. E apesar de tocar em festas que têm os drinking games como atrativo, ele vê com preocupação esse consumo excessivo de álcool:
— De uns cinco anos para cá, a noite mudou bastante. Eu sempre toquei porque eu queria atrair as pessoas pela música. Hoje, é a última coisa que importa. E esse vazio está sendo preenchido com álcool. Sou contra essa banalização da bebida como trunfo para encher as festas. Eu sou testemunha desse processo: se eu não parasse de beber, ia morrer. Já vi muita gente ficar pelo caminho, e é nisso que eu penso quando vejo a garotada em coma alcoólico em festas que deveriam estar se divertindo, dançando, azarando.
Diversão perigosa
Responsáveis pela locação para as festas, os proprietários dos espaços têm um posicionamento comprometido: se por um lado têm o faturamento do bar prejudicado pela distribuição gratuita de bebidas (os produtores das festas normalmente ficam com o dinheiro da entrada, mas o lucro do bar é do estabelecimento), por outro, sabem que são estes os eventos que mais atraem público atualmente.
— Uma show de MPB no Odisseia não atrai nem 200 pagantes, enquanto qualquer festa dessas leva 700 pessoas à casa — observa um dos sócios, Áureo César Lima, de 37 anos, que considera os drinking games “mais do mesmo”. — Essas brincadeiras de hoje são as promoções de bebida de antes. A gente faz um controle, exige que a bebida distribuída seja comprada no nosso bar, conversa com os responsáveis antes, para evitar excessos, até porque exagero não traz lucro para a casa, só traz problemas.
No Espaço Acústica, o gerente Marcos Corrêa, de 31 anos, reconhece que muitas festas da casa “viraram uma chopada” (lá, na festa Tropical Bacanal, por volta das 4h40m, duas jovens saíram carregadas; e na Wonka Party, um rapaz alcoolizado foi abandonado por dois amigos dentro de um táxi).
— O ideal é que não tivesse nada disso, mas nós também temos que acompanhar o movimento natural da noite, procurar entender essa geração, que, apesar de ser mais histérica, é também mais pacífica — diz Marcos, que cancelou um evento este ano quando percebeu que o organizador tinha levado 60 litros de vodca comprada fora para distribuir na festa, contrariando as regras da casa. — Eu não escolho uma festa porque me dão tequila na boca, mas essa é só a minha opinião, não a realidade dessa nova cena.
O estudo mais recente sobre o consumo de álcool por este público específico foi divulgado em 2010 pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad). Segundo o “I Levantamento nacional sobre o uso do álcool, tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras”, 86,2% dos universitários já usaram álcool em algum momento da vida, sendo que 79,2% experimentaram antes dos 18 anos, e 54% antes dos 16 anos. A pesquisa concluiu que a faixa etária de 18 a 24 anos é a que mais consome álcool no país. São eles, também, os que mais praticam o que os especialistas chamam de binge drinking: o consumo pesado episódico, classificado como cinco doses numa noite para homens e quatro para mulheres. Entre os homens, 29,2% já são bebedores de médio e alto risco; entre mulheres, 16,2%.
— Quanto mais precoce o abuso do álcool, maiores as chances de desenvolver dependência — diz a psicoterapeuta Ivone Ponczek, diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Uerj.
Para ela, os drinking games banalizam os riscos do alcoolismo:
— O álcool demora a se instalar como dependência, por isso os indícios não são identificados imediatamente. O organismo jovem é mais sensível, metaboliza o álcool de maneira mais lenta. É importante tirar o cunho moralista do debate, todos tomam um porre um dia. Mas essa forma de lidar com a bebida pode ser destrutiva, pois o limite entre o lúdico e o perigoso fica diluído. Sem falar nos problemas relacionados, como acidentes de trânsito, atos de violência, abuso sexual etc.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/drinking-games-viram-atrativo-da-noite-jovem-do-rio-6469715#ixzz2AgkdmD8X

Te Contei, não ? - Garranchos raciais de Graciliano Ramos

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Pensamentos e visões de mundo têm como limite o horizonte cultural de sua época. Por isso, não são eternos, mudam. O perigo, ao se fazer uma leitura contemporânea das ideias tornadas públicas por um autor no passado, é esquecer que o contexto em que ele opinou sobre determinado assunto era outro. Após a polêmica em torno do possível racismo de Monteiro Lobato, um risco semelhante paira agora sobre outro escritor, entre os menos visados: o alagoano Graciliano Ramos, cuja obra sempre se pautou pela denúncia e pelo combate das mazelas sociais. A pretexto da comemoração de seus 120 anos de nascimento, no sábado 27, chega às livrarias uma compilação de textos pouco divulgados de sua autoria, alguns nunca vindos a público. Entre os 81 contos, discursos, cartas, crônicas, epigramas e ensaios de “Garranchos – Achados Inéditos de Graciliano Ramos” (Record), aparece o curto estudo “O Negro no Brasil”, datado do final dos anos 1930. Ao assumir a defesa dos negros, Graciliano desanca o mulato, pintado como traidor das origens. Condena o seu “embranquecimento” e estende a pena ferina também aos índios: “Quando não se julgavam suficientemente clareados, os mulatos sempre se disseram caboclos, descendentes de uma raça de civilização inferior à de seus pais, mas que não tinha suportado a escravidão. Numa época em que a mania nacionalista fazia toda a gente se orgulhar de ter sangue índio, isso os aproximava dos brancos.”
A leitura atenta desse ensaio, contudo, alinha elementos de sobra contra a acusação apressada de racismo por parte do autor de “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”. Esse é o limite de nossa época politicamente correta: grandes polemistas como Graciliano ou férteis ficcionistas como Lobato são hoje lidos com a lupa paranoica do policiamento. Organizador do livro, o doutor em letras Thiago Mio Salla, que passou sete anos folheando jornais empoeirados e pesquisando em mais de dez instituições do País, sabia desse risco e, por isso, escreveu 13 esclarecedoras notas de rodapé. “Trata-se de um texto polêmico, com afirmações contundentes para os dias de hoje

A veia mordaz do polemista é mais enfática na crítica literária, quando sai em defesa do “romance de 30”, de tendência regionalista. O modelo é o de Jorge Amado e José Lins do Rego, que “abandonaram os salões e as florestas de pano pintado e foram ver como se comportavam os trabalhadores do eito, os presos, os retirantes, os vagabundos, os criminosos, as prostitutas, os funcionários públicos e as crianças das escolas.” Apesar disso, Graciliano votou contra João Guimarães Rosa em um concurso literário – o romancista mineiro concorria com o livro de contos “Sagarana”, sob o pseudônimo de Viator. Mas reconheceu-lhe méritos: “Ele é um animalista notável. Certo os seus animais são criaturas humanas, como os de numerosos escritores que se ocupam de bichos falantes e pensantes.”

Além de um conto da juventude (“O Ladrão”) e de uma peça de teatro inacabada (“Ideias Novas”), a título de curiosidade o livro traz comunicados da Associação Brasileira de Escritores, que o escritor presidiu no final da carreira, como o que condena a guerra bacteriológica dos EUA contra a Coreia. Ainda assim, é um “garrancho” que de mal escrito não tem nada.

Revista Isto É

Crônica do Dia - Os que não votaram - Lya Luft

Os que não votaram


As notícias de todos os lados me dizem que o número de brasileiros que não votaram, isto é, abstenções ou votos nulos, cresceu grandemente, chegando a mais de 25% dos eleitores.
Nestes dias tumultuados de novidades — com a atenção daqueles que pensam e observam presa no Supremo, que salva algo da nossa moral e dignidade, ou com um brevíssimo espreitar no segundo turno das eleições, com seu jogo nada original de busca pelo poder —, fiquei refletindo sobre a razão dessa abstenção, pois a votação é obrigatória, coisa que, aliás, considero erro e atraso.
Se não tivermos liberdade de eleger nossos líderes, representantes, governantes, não deveriam nos forçar, ou recorreremos à abstenção.

Quanto a ela, vejo dois motivos possíveis. Primeiro, descrença e desalento. A proliferação de partidos e o troca-troca de legendas, além das fusões, alianças e conluios, nos desorientam e desestimulam.
Afinal, quem é quem, nessa sopa de letrinhas, quem tem quais projetos, que linha, que espinha dorsal, que conduta e quais propostas são originais, reais e vão ser executadas?
Os inimigos figadais aqui e ali dançam um minueto, antigos aliados hoje cruzam punhais em duelos estranhos ou cômicos, figuras inusitadas ou velhíssimos figurões desfilam, mas a gente não sabe direito a que vieram ou como voltaram aos palcos.
Em segundo lugar, talvez falte interesse em saber, em deslindar, em escolher e decidir. Ou melhor, os interesses e as seduções são outros.
Não nos abalam corrupção, falta de ética, despreparo, improvisações, o extraordinário nivelamento por baixo a corroer nossas universidades, agora com aumento das cotas, que nos farão descer ainda mais na posição entre as piores do mundo.
Muito mais do que melhorar o país, queremos consumir. Estamos pouco exigentes: com crédito alargado, queremos comprar.
Podemos e devemos consumir, nos dizem de muitos modos, podemos comprar qualquer coisa quase a perder de vista (grave engano). Comprar é muito mais divertido do que observar, analisar, escolher e, por exemplo, votar nas eleições.
Tanta coisa original correndo por aí, como, por exemplo, meninas que vendem sua virgindade pela internet, e não é para comprar comida para os irmãozinhos menores, amparar a velha mãe, ou pagar a faculdade.
Ambicionamos o que na verdade são bugigangas, que, se trocadas por uma atenção maior com a realidade do país e tantas carências que nos assolam, poderiam transformar nossa paisagem. (Claro que também tenho meus aparelhos, o universo eletrônico é imprescindível, mas não sei se por eles eu trocaria algo que acho sério.)
Não critico os milhões que se abstiveram ou votaram em branco, que aqui chamo, quem sabe injustamente (detesto rótulos, mas às vezes são necessários), de descrentes ou mesmo fúteis. Critico, embora sem resultado, eu sei, o sistema que nos torna conformados, que nos dá pão e circo em lugar de boa educação e preparo para bons cargos e funções.
Critico a nossa sonolência e os encantamentos alienantes como poder comprar, comprar, comprar. E confesso que muitas vezes também me perseguem sedutores fantasmas de esquecimento, omissão e fuga: de me recolher à nossa casinha no mato e lá ficar apenas contemplando a natureza, escrevendo, saboreando afetos, sabendo que minha interferência seria um eco frágil perdido num enorme vazio de desinteresse.
Também a mim espreita em alguns dias com seus olhinhos marotos a ideia inescrupulosa: um voto a mais não adianta nada, para que se incomodar, procurar saber, sair de casa e votar? Pois talvez adiante: um voto mais um voto, mais um voto, mais um voto — que acabam valendo mais do que o nosso fascinante objeto de desejo —, as coisas podem se transformar.
Nem todo mundo é cego, surdo, mudo, ignorante ou conformado. Olhando bem, veremos que algumas coisas quase majestosas se movem no país. Quem sabe vai-se mover até mesmo a montanha do nosso desencanto.

Revista Veja

Te Contei, não ? - Uma aula que leva à lua


UM DOUTOR NA ESCOLA - Felipe Bandoni, destaque no prêmio Educador Nota 10: traduzindo ideias complexas

O biólogo Felipe Bandoni de Oliveira, 33 anos, integra um grupo raríssimo. Ele está entre o 0,08% dos professores do ensino fundamental brasileiro que enverniza o currículo com um título de doutor. Nascido no interior de São Paulo, Felipe especializou-se em genética, dedicando-se à investigação sobre a evolução do crânio dos macacos – pesquisa que o fez ficar imerso nos museus de história natural da Europa durante um ano. Voltou ao Brasil sabendo exatamente o que queria: retornar à sala de aula como professor de ciências, carreira que iniciou aos 23 anos inspirado na trajetória dos pais, um físico e uma psicóloga também docentes. Hoje à frente de classes noturnas no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, ele lida com a complexidade de apresentar conceitos científicos a jovens e adultos de baixa renda nos anos finais do ensino fundamental. Não nivela a turma por baixo. Ao contrário: Felipe decidiu ensinar ali astronomia. Falou de Galileu, quebrou crenças levando à escola artigos de publicações respeitadas, projetou no teto da sala um céu estrelado em que se vê o movimento dos astros e proporcionou aos alunos uma experiência única: observar a Lua com um telescópio. “Atingi o meu objetivo de despertar o gosto pela ciência”, festeja.
Por esse trabalho, na semana passada ele recebeu o prêmio Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita a dez professores do ensino básico e a um diretor de escola. Felipe foi o destaque do grupo. Suas lições reforçam a ideia de que não é preciso nada de muito mirabolante para dar uma boa aula, só o básico: que o professor domine o assunto e consiga traduzi-lo com o mesmo entusiasmo que espera ver em seus alunos. Fazer isso numa turma que volta a estudar na idade adulta, com tantas lacunas acumuladas, reforça seu mérito. No Brasil, há 5 milhões de jovens e adultos matriculados na escola. Seu retorno à sala de aula é bem-vindo num país onde quase um terço da população acima de 15 anos não consegue depreender o significado de um texto simples. Entre os jovens, metade não conclui o ensino médio. “Com mais estudo e treinamento profissionalizante, eles podem ajudar a resolver o apagão de mão de obra brasileiro”, diz o especialista Bruno Novelli, da ONG AlfaSol. O exemplo do biólogo Felipe Bandoni aponta o caminho.

Revista Veja

Te Contei, não ? - Senado aprova lei que reduz número de alunos em aula

 

Foto: Deise Rezende / Agência O Dia

No Ensino Médio, onde as turmas da rede estadual têm até 60, o máximo seria de 35. Se sancionada, regra valerá já para 2013

Rio -  Salas de aula das redes municipal e estadual do Rio poderão ter de cortar até quase pela metade o número de carteiras. Projeto de lei aprovado nesta terça-feira pela Comissão de Educação do Senado determina que as turmas dos 1º e 2º anos do Ensino Fundamental tenham no máximo 25 alunos e dos demais anos e Ensino Médio, 35.

A realidade fluminense é bem diferente. No estado, chega-se a 60
estudantes numa sala de aula. “É ótima iniciativa, mas ainda tímida. É o início do fim do abuso que vem ocorrendo com professores e alunos”, diz a professora de Políticas Públicas e Educação na Uerj, Eveline Algebaile.

Segundo ela, o excesso de estudantes dificulta laços entre colegas e professor e o aprendizado. Segundo a Secretaria Estadual de Educação, a média de alunos por turma é de 45. O sindicato estadual de professores, Sepe, afirma que na rede municipal, é de 35.

A Secretaria Municipal de Educação não informou a lotação e afirmou aguardar a tramitação do projeto para se adequar. “Nas duas redes, seria preciso ao menos dobrar o número de docentes. O problema é maior na capital e na Baixada”, calcula a diretora do Sepe Wiria Alcântara.

Turmas de até 15 alunos

Exemplo de que quantidade menor de alunos em turma pode produzir bons resultados é a Escola Sesc de Ensino Médio em Jacarepaguá. Com até 15 alunos por sala horário integral, ficou entre as 10 melhores do Rio no Enem 2010.
O projeto, do senador Humberto Costa (PT-PE), segue para a Câmara e, depois, à sanção da Presidência. Se aprovado, valerá para todo o país já no próximo ano letivo.

CAp Uerj reduz horas-aula

Melhor escola pública do estado no Enem e 3ª no país, o CAp/Uerj sofreu redução de 404 horas-aula. A decisão do reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves, de cortar em 30% a carga horária dos mestres contratados, segundo a Associação de Pais e Alunos, está deixando crianças com tempos vagos.

“Algumas saíam às 15h e são liberadas ao meio-dia. Outras entravam às 7h e só têm aula às 9h30”, diz o presidente da associação, Jerônimo de Lourds.

Presidente da Comissão de Educação da Alerj, Comte Bittencourt (PPS), entrou contem com representação no MP contra Vieiralves: “Compromete muito a qualidade”. Procurada, a Uerj não se pronunciou.

UniRio terá 12,5% de cotas

A Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio) vai reservar no próximo vestibular 12,5% das vagas em seus cursos para estudantes que cursaram todo o Ensino Médio em colégios públicos.

Dentro dessa reserva, as vagas serão ocupadas por negros, pardos e indígenas na proporção dessas populações no estado no último Censo.

Esse é o mínimo que as universidades federais deverão destinar no primeiro ano de implantação da Lei de Cotas. Até 2016, terão que aumentar, gradativamente, a quantidade de cotistas até atingir metade das vagas.

Segundo o reitor da UniRio, Luiz Pedro San Gil Jutuca, além da reserva de vagas para estudantes, a universidade vai manter os 20% das oportunidades para professores da rede pública em cursos de licenciatura. “A medida (a Lei de Cotas) é polêmica, mas é uma dívida que o estado está tentando pagar”, diz.

Em 10 anos, dobra número de calouros em universidades

Em 10 anos, mais que dobrou o número de estudantes que ingressaram nas universidades brasileiras. Segundo o Censo do Ensino Superior divulgados ontem pelo Ministério da Educação (MEC), a quantidade de alunos novos saltou de 1 milhão para 2,3 milhões, de 2001 a 2011.

O maior percentual de crescimento ocorreu nas universidades federais, que passaram de 125.701 para 308.504 matrículas. Ano passado, faculdades públicas e particulares efetuaram 6,7 milhões de matrículas, aumento de 5,7% em relação a 2010.

Entre as áreas de formação, a maior procura foi por cursos
tecnológicos, que tiveram aumento de 11,4%. As licenciaturas para futuros professores registraram o menor interesse: 0,1% de crescimento. Alunos negros e pardos representam 20% dos concluintes. Em 1997, eram apenas 4%.


O número de matrículas nos cursos a distância subiu 14,7%. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, não comemorou: “O ensino a distância não pode crescer demais porque o risco é perder a qualidade”.

Jornal O Dia

Artigo de Opinião - Obsolescência do ensino - Hamilton Werneck


Imaginemos que nosso cérebro é uma grande sala cheia de cabides. Se eu recebo uma peça, deixo-a dependurada num deles. A roupa representa o conhecimento novo com o qual tenho contato, e o cabide, o conhecimento prévio que tenho em meu cérebro.

Daí decorre teoria de David Ausubel. Podemos ter uma aprendizagem mecânica e outra significativa. A diferença é simples: na mecânica, o que é ensinado pode não ter informações prévias na estrutura cognitiva dos alunos; na significativa, o que é passado tem relação com os conhecimentos já adquiridos — vale dizer que há cabides para dependurar o conteúdo novo.
Tanto o aprendizado mecânico quanto o significativo podem ser adquiridos de dois modos: por recepção ou descoberta. No mecânico por recepção, os alunos recebem conhecimentos e não conseguem relacioná-los com a estrutura cognitiva que já têm; por descoberta, o aluno chega ao conhecimento por si só, mas não consegue relacioná-lo com os anteriormente adquiridos

Na aprendizagem significativa por recepção, os alunos recebem os conhecimentos e conseguem relacionálos com a estrutura cognitiva que já possuem; na significativa por descoberta, os alunos chegam ao conhecimento por si só e conseguem fazer relacionamentos com as estruturas já existentes.
Portanto, segundo esta teoria, para um aluno aprender é necessário buscar ao máximo esta relação entre o conhecimento novo e o já existente, ou seja: entre a roupa e o cabide. Este é o principal papel do professor e as várias linguagens usadas para obter este relacionamento

Para se identificar se um ensino está ultrapassado, basta verificar se há no desenvolvimento das aulas uma preocupação com os conhecimentos prévios. Se este fato for considerado irrelevante pelo professor e pela escola, os alunos terão grande dificuldade para aprender por falta de significação por recepção ou por descoberta.

Hamilton Werneck

Tá na Hora do Poeta - Pagu - Luiza Barroso Siqueira

PAGU




Sonhos e ideais além de sua sociedade
Estão inseridos no perfil de Patrícia Galvão
Personalidade forte, desde jovem de idade
Lutou pelo Comunismo, acabando na prisão

"Pequena notável" que abalava a cidade
Criticando o papel da mulher no jornal
Junto ao seu esposo Oswald de Andrade,
Contribuindo para o bem nacional

Vítima de uma sociedade machista
Sob regime de ditadura
Foi repreendida por lutar pelo Regime Comunista

Pelo que achava certo, lutou até a morte
Pagu, então, sempre ficará lembrada
Mulher brasileira de personalidade forte.

Luiza Barroso Siqueira
Nono Ano / 2012

Te Contei, não ? - Os grandes da Pequena África


O músico, compositor, artista plástico e marceneiro, Heitor dos Prazeres sabia bem o que estava dizendo ao batizar aquela região central do Rio de Janeiro - entre a Zona Portuária, a Gamboa e a Saúde - de Pequena África, que abrangia também o Morro da Conceição e o Valongo
Ali, naquele início do século 20, junto à Pedra do Sal, não era apenas onde viviam os descendentes de africanos, remanescentes do quilombo local, era também onde vicejava o que havia de mais profundo nas raízes culturais e sociais afro-brasileiras. Era como se tivessem plantado naquele local um baobá, com todo o simbolismo que tem nossa "árvore da memória". No século 17, a Pedra do Sal era onde ficava o mercado de escravos. Nos séculos que se seguiram, tornou-se a moradia de pretos forros, particularmente os baianos e as baianas que, naquelas moradias baratas próximas ao cais do porto, tinham facilidade para arranjar trabalho na estiva ou levar seus quitutes aos trabalhadores e vendê-los a quem pudesse pagar por eles. Nos morros em volta viveram os negros retornados da Guerra do Paraguai, com promessas não cumpridas de liberdade e trabalho.
Lá floresceram os primeiros terreiros de candomblé fora da Bahia, descritos com certa bizarrice pelo mestiço João do Rio em seu livro As Religiões do Rio, de 1904. Lá era o terreiro do famoso babalorixá João Alabá e as pensões das tias baianas e yalorixás Bibiana, Mônica, Marcelina Perciliana e Ciata (Hilária Batista de Almeida), em cuja casa se reuniam Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Heitor dos Prazeres e tantos outros que ali plantaram as raízes do samba. Dessas casas saíam os ranchos nos primeiros desfiles carnavalescos. Ciata era doceira de mão cheia e vendia seus quitutes na Rua da Carioca, com as roupas semelhantes às que usava em seus preceitos religiosos.

A PEQUENA ÁFRICA SOBREVIVEU COM SEUS MÚSICOS INSTRUMENTISTAS, COMPOSITORES, CANTORES, SAMBISTAS, POR MEIO DOS BATUQUES, DOS JONGOS, DAS RODAS DE PARTIDO ALTO E, PRINCIPALMENTE, PELA MEMÓRIA DAS TIAS BAIANAS

Modernização para as administrações públicas é sinônimo de retirada das moradias dos pobres e dos pretos (sua redundância) para o mais distante possível, nas periferias das cidades, cada vez mais distantes. No Rio foi o alagadiço aterrado, que denominaram Cidade Nova. Os ranchos, por meio dos quais se festejava o carnaval, se transferiram para lá e deram lugar aos blocos e cordões, que se transformaram em escolas de samba. Mas a Pequena África sobreviveu com seus músicos instrumentistas, compositores, cantores, sambistas, por meio dos batuques, dos jongos, das rodas de partido alto e, principalmente, pela memória das tias baianas que até hoje são revividas com essa ala obrigatória nas escolas de samba.
A Pequena África gerou alguns dos maiores nomes da raiz da Música Popular Brasileira. Pixinguinha e muitos daqueles que com ele conviviam ali tinham formação musical erudita e a utilizavam na produção do que se tornava cada vez mais popular. Por isso ninguém pode negar seu importantíssimo valor da Pequena África para a história e a cultura do nosso País.

Revista Raça Brasil

Você já sabe disso ? - Libertados pela arte


Mesmo quando obedece aos dogmas do classicismo ditados pelas escolas de arte mais tradicionais e conservadoras, não se pode negar que, ao fazer arte, o artista expõe o que habita no mais profundo de sua mente e de sua alma. Do Brasil colônia até o período imperial, vários escravizados africanos ou aqui nascidos utilizavam seus aprendizados de artesão para se dedicar à arte da escultura. Segundo o Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, do sociólogo e historiador Clóvis Moura, ao visitar o Rio de Janeiro, em 1846, o viajante inglês radicado nos EUA, Thomas Ewbank relatou: "Esculturas em pedra e imagens de santos em madeira são frequentemente feitas por escravos e negros livres." Identificou como "excelente escultor" e "artista consagrado" um velho africano que vivia no Catete, conhecido por João Vermelho, que o impressionou tanto pela qualidade dos santos que esculpia quanto pelos ex-votos expostos na Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

O MESTRE MAIOR DO BARROCO

Mais de um século antes dessa viagem, porém, nascia em Vila Rica - hoje Ouro Preto - o mestiço Antonio Francisco Lisboa, que ficou conhecido como "Aleijadinho", considerado o maior escultor barroco das Américas. Filho do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa com sua escrava de prenome Izabel, Aleijadinho nasceu escravo - condição conferida a todos os filhos de escravas -, mas foi alforriado pelo pai. Além de exercer seu talento nas artes, integrou a infantaria do Regimento de Homens Pardos de Ouro Preto, frequentava bailes populares e apreciava o álcool. Já na meia idade, foi acometido pela hanseníase, que deformou seu corpo todo, e também por outra doença chamada porfiria. Até morrer, aos 76 anos - ou 84, segundo outras fontes -, debilitou-se tanto que, para que pudesse esculpir, seus ajudantes amarravam as ferramentas no que restou de seus braços carcomidos pela doença.
A despeito desses males, produziu com intensidade em pedra-sabão e realizou entalhes em cedro, deixando um legado de valor inestimável nas igrejas de Vila Rica e em outras cidades mineiras como São João Del Rei, Congonhas do Campo, Sabará e Mariana, entre outras. Também recebeu menções elogiosas de viajantes estrangeiros como o botânico e naturalista francês Auguste Saint-Hilaire e o geólogo alemão Barão de Eschwege. Além de imagens de profetas, santos e vias sacras, há belíssimos portais, adros de igrejas, monumentais frontispícios, imponentes altares e chafarizes.
São também desse período pintores negros como Jesuíno Francisco de Paula Gusmão (1764 - 1819), José Teófilo de Jesus (1758 - 1847), Mestre Valentim (1745 - 1813) e Veríssimo de Souza Freitas (sem registro de nascimento e morte), cujos entalhes, esculturas, quadros e afrescos podem ser vistos em igrejas e algumas edificações antigas. menções elogiosas de viajantes estrangeiros como o botânico Auguste Saint-Hilaire e o geólogo alemão Barão imagens de profetas, santos e vias sacras, há belíssimos portais, adros de igrejas, monumentais frontispícios, São também desse período Jesuíno Francisco de Paula Gusmão (1764 - 1819), José Teófilo de Jesus (1758 - 1847), Mestre Valentim

MÃOS NEGRAS E CLÁSSICAS
Não fosse a dedicação quase obsessiva do também escultor, museólogo e curador do Museu Afro-Brasil, Emanoel Araújo, à pesquisa e também construção de um riquíssimo acervo da arte produzida pela mão afro-brasileira, jamais tomaríamos conhecimento de algumas dezenas de nomes de artistas afro-brasileiros que produziram arte em todas as linguagens e técnicas, alguns dos quais até com algum reconhecimento sem, porém, figurar nas listas dos que mereceram estudos mais aprofundados nas escolas de Belas Artes. Obras desses artistas figuram entre as preciosidades do acervo do museu que tem a curadoria de Emanoel que, por sua vez, não só organizou exposições específicas como elaborou e publicou o livro ricamente ilustrado A Mão Afro-brasileira, já em segunda edição, com dois volumes, num total de 868 páginas.
Entre a segunda metade do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, por exemplo, artistas afro-brasileiros se destacaram na produção clássica, mas jamais foram estudados nem mencionados por historiadores que se dedicam às artes plásticas. Na apresentação de uma exposição de suas obras, Emanuel Araújo foi enfático: "Os maus-tratos, a ignorância e a insensibilidade com que se trata, no Brasil, a história e a memória iconográfica" seriam os responsáveis pelo ostracismo a que foram relegados esses personagens, cuja vida "foi uma interminável batalha, um grande esforço pessoal, de uma tenacidade inimaginável, pela afirmação e reconhecimento de suas obras." A mesma sociedade que estigmatiza um povo, com base em preconceitos construídos por meio de factoides, deveria resgatá-lo a partir de seus valores socio-culturais. E Emanuel conclui: "O fato de seus nomes permanecerem já credencia a raça negra ao reconhecimento da nação pela sua contribuição à construção da cultura brasileira."

Assim tomamos conhecimento de que, naquelas décadas de passagem de séculos, pintores negros e mestiços estudaram na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia Imperial de Belas Artes, viajaram para a Europa e a maioria continuou seus estudos em Paris. Nomes como os irmãos Arthur Timótheo (1882 - 1922) e João Timótheo (1879 - 1932), que morreram num manicômio; Benedito José Tobias (1894 - 1963); Benedito José de Andrade (1906 - 1979); Emmanuel Zamor (1840 - 1917), sobrenome herdado de seus pais adotivos; Estevão Silva (1845 - 1891); Firmino Monteiro (1855 - 1888); Horácio Hora (1853 - 1890); Rafael Pinto Bandeira (1863 - 1896) e Wilson Tibério (1923 - 2005). Este último, gaúcho, se envolveu em movimento revolucionário no Senegal, foi expulso daquele país e retornou à França, onde viveu por anos e permaneceu até morrer.

NEGRITUDE, TEMA RECORRENTE
Seja qual for a linguagem artística escolhida para expressar-se, uma grande quantidade de artistas colocou e coloca nas telas e em esculturas, modelagens ou instalações, de forma figurativa ou não, imagens, signos, cores e formas que registram suas vivências, seus sentimentos, suas crenças, as manifestações culturais de seus povos. Negro ou mestiço, homem ou mulher, hétero ou homossexual, cristão ou devoto de alguma religião de matriz africana, suas produções artísticas, geralmente, estão impregnadas de informações que os revelam. Por isso, a possibilidade de mencionar uma "arte negra", mesmo que sincrética.
Nossas manifestações populares foram registradas, por exemplo, nas telas naif do compositor Heitor dos Prazeres (1898 -1965), muitas delas adquiridas pela rainha Elizabeth. Os signos do candomblé estão em cores vivas nos quadros de Abdias do Nascimento (1914 - 2011), expressão máxima da militância negra brasileira dos séculos 20 e 21, assim como nas máscaras e esculturas de inspiração africana de Agnaldo Manoel dos Santos (1926 - 1962) e na arte emblemática do sacerdote do candomblé Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos), filho de Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, famosa iyalorixá do Ilê Opô Afonjá, exaltada por poetas e intelectuais.
Impossível não mencionar artistas plásticos negros de gerações mais recentes que mantêm viva a herança pictórica afro, como Sidnei Lizardo, o Lizar (1939), cuja inspiração maior é a capoeira, elogiado pelo New York Times; Yêdamaria (1936), que em sua obra expressa a ancestralidade e a feminilidade; Octávio Ferreira de Araújo (1926), que foi assistente de Cândido Portinari e estudou na França, na China e na Rússia; o premiado Jorge dos Anjos (1957), autor de obras como o Monumento Zumbi Liberdade e Resistência - 300 anos, instalado na Avenida Brasil, em Belo Horizonte; Samuel Santiago (1951), autor de máscaras e obras inspiradas nos corpos negros, que ensinou arte a internos da Febem, entre tantos outros.
Não podemos esquecer também os artistas que se valem da linguagem da fotografia para revelar-se e nos revelar, como Walter Firmo, Bauer Sá, Wagner Celestino, Januário Garcia, Luiz Paulo Lima, Mario Espinosa e muitos outros. Enfim, com talento reconhecido ou não, milhares de mãos, mentes e almas negras foram e são fundamentais na construção desse monumento que se constitui nas tão aclamadas, mas igualmente tão pouco conhecidas, artes plásticas brasileiras.

ARTISTAS DE HOJE
SÉRGIO SOAREZ
RELIGIOSIDADE NAS ARTES

As entidades do candomblé sempre foram fontes de inspiração na concepção das esculturas, pinturas e ilustrações do artista plástico e pesquisador, Sérgio Soarez. "Sou do candomblé e guiado pelas divindades Oxossi e Ogum, que me ajudam espiritualmente e condicionam minhas obras." Os primeiros passos do baiano no mundo das artes foram dados por volta de seus 17 para 18 anos, em Salvador, quando decidiu fazer um curso de escultura em madeira no Museu de Arte Moderna (MAM), da Bahia. Outros cursos vieram e ajudaram a complementar sua formação. Em 2010, foi citado pelo diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, no segundo volume do livro A Mão Afro-brasileira, editado pelo Museu: "Suas assemblagens, dedicadas à mitologia dos deuses da religião afro-brasileira, são uma, entre outras, das elaborações estéticas já experimentadas pelo artista. Nelas, alia seu conhecimento e sua prática religiosa numa experimentação estética bem concebida, bem articulada, na união de diferentes matérias, como os fragmentos em madeira, já vividos em outros objetos de diferentes usos nos quais ele trabalha o sagrado com a devoção de seu conhecimento."
Os elementos que representam as duas divindades, Oxossi e Ogum, a madeira e o ferro, respectivamente, são os materiais principais que o artista utiliza nas suas esculturas. "É uma forma de reverenciar esses dois orixás", explica Sérgio. Esses dois materiais muitas vezes já foram utilizados na confecção de outros objetos, portanto, serviram para outros fins. Mas ao serem reutilizados pelo artista como material reciclado, ganham outras utilidades e, principalmente, significados. Sérgio Soarez luta muito para levar sua arte às pessoas. Muitas vezes ficou sem poder fazer uma obra por falta de dinheiro, pois precisava pagar as contas básicas e comer. "O artista negro não tem condições de viver de arte. Muitas vezes ele não tem dinheiro para comprar material para fazer as suas obras. Não tem condições de se qualificar. Ou come ou compra uma ferramenta para fazer seu trabalho, que antecede sua criação", lamenta. Na dualidade entre o fazer artístico e tocar a vida, Sérgio vai tocando o barco, produzindo a sua arte e se aprimorando. Ele, que mora em Salvador, vai de tempos em tempos para São Paulo e Rio de Janeiro visitar exposições, comprar catálogos, fazer algum curso. Quando não pode viajar para o sudeste, se vira vasculhando a internet, segundo ele, uma excelente ferramenta para quem não tem grana para viajar. "Ser negro e artista é um labor constante, mas não queria ter outra vida, ser outra pessoa, adoro o que faço e o que sou", sintetiza.

Lídia Lisboa
o lúdico do lúdico
Ao som do tango Adios Nonino, do compositor e bandeonista argentino, Ástor Piazzolla, ela define seu trabalho: "Eu sou minha própria arte"

Seja como artista plástica - cerâmica, pinturas, crochês de pedaços de tecidos, com miçangas, colares de botões -, como atriz, modelo vivo, ou realizando performances, não há comparativos entre o que ela produz e outros fazeres artísticos. Quem mais poderia ouvir do premiadíssimo pintor e desenhista cearense, Aldemir Martins, de quem foi discípula por 12 anos: "Você vai ser herdeira do meu saber"? Para essa paranaense de 41 anos, nascida em Guaíra, residente em São Paulo desde 1986, fazer arte é semelhante a respirar, ao pulsar do coração. Intensa, além da aplicação de técnicas, ela se atira de corpo e alma, sem rede de proteção, como a mais ousada trapezista. "Não estou presa a nada. Sou livre no meu trabalho. Não tenho de agradar ninguém. Só tenho de agradar a mim mesma. Desculpe-me por eu ser tão verdadeira." Ao falar da instalação Vila das Oyas,projeto vencedor do II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, da Fundação Cultural Palmares, sua exposição de 52 cerâmicas, que ocupou por um mês a paulistana Fibra Galeria e deverá viajar por outros estados do País, seus olhos se enchem de lágrimas: "Me emociono ao me lembrar dos cupinzeiros de minha infância. Me vem à mente a casa de chão batido, de dois cômodos, em que vivia minha família, na Vila Guarani, em Guaíra, cercada por um pasto repleto de cupinzeiros. Um abacateiro era a única árvore que se sobressaía naquele cenário", explica.

CUPINZEIROS INDESTRUTÍVEIS
Seja no sertão brasileiro ou nas savanas africanas, os cupinzeiros lembram a própria resistência do ser humano. Construídos com terra e a saliva dos cupins, eles ganham formas e dimensões inimagináveis, além de uma dureza que os torna indestrutíveis. Com o aporte de Bárbara de Paula, Lídia produziu esse projeto com base na lenda do orixá Oya - também chamada de Iansã - que comanda os ventos e as tempestades, esposa de Ogum e depois de Xangô. Diz a lenda que ela se transformava em búfalo e, quando voltava à forma feminina, escondia sua pele e seus chifres em um cupinzeiro. No projeto, as autoras homenageiam as mulheres, em particular as mulheres negras, provedoras de suas famílias, às quais protegem em fortalezas invisíveis, mas indestrutíveis como os cupinzeiros. Na instalação, os cupinzeiros de cerâmica, em formatos arredondados femininos, são colocados de maneira a lembrar vilarejos ou aldeias. "Eu própria, como minha mãe, sou uma dessas Oyas - afirma Lídia - Vivo de meu trabalho e, mãe solteira desde os 13 anos, criei sozinha minha filha, a atriz Lidi Lisboa (Lidiane Rafaela Lisboa) - a Gracinha da novela Cheias de Charme, da Rede Globo - uma guerreira como eu." Desde 1995, Lídia Lisboa produz peças de cerâmica e decidiu resgatar os cupinzeiros, recriando-os em vários formatos e tamanhos, alguns fálicos, outros mais arredondados como os seios femininos ou a barriga de uma grávida. "O primeiro que fiz, tem 80 centímetros e está na casa de uma amiga, protegido por uma caixa de vidro", comenta emocionada. Mais velha de cinco irmãos, ela se lembra de que foram crianças criadas livres. "Aos seis anos, fiz minha primeira instalação: forrei a cama de campanha de meu tio Paizinho, com folhas de feijão guandu - conta a artista. Ele ficou super intrigado e disse à minha mãe que cuidasse de mim, porque eu não era desse mundo. Anos depois, visitou meu apartamento em São Paulo, e desabafou: 'Agora entendi quem era aquela menina. Era uma artista'. Fiquei superfeliz por ele finalmente ter entendido."
Seu método de trabalho é muito particular, como explica ao falar sobre as cerâmicas da exposição, criadas em cinco meses: "Não faço nenhum estudo anterior. A peça vai nascendo enquanto é produzida. Vira quase uma obsessão. Simplesmente realizo o que idealizo. Farei cupinzeiros até morrer. Terão outras formas, talvez outras misturas de barros. A próxima série será inspirada na Capadócia, que lembra muito cumpizeiros. Quero também me inspirar no mito da Medeia. Hoje estou criando casulos de filó."

TUDO JUNTO E MISTURADO
O pintor, gravador e arquiteto, Gilberto Salvador afirma que Lídia Lisboa "é uma artista que utiliza suas origens, seu feminismo e sua sensualidade para criar obras que nos seduzem, mas que nos impedem a pensar de forma construtiva um universo de formas inusitadas, mas que, apesar das provocações, nos confrontam e nos obrigam a reler de forma brasileira e essencialmente feminina."
Ora segurando as lágrimas, ora rindo desbragadamente de seu próprio comportamento, explica que sua terapia é sua arte e que "quando tenho de ser dura, não há ninguém melhor que eu." Depois, admite que, por algum tempo, submeteu-se à análise, o que a ajudou a superar seus medos. "Tinha medo de coisas boas, inclusive do sucesso e de elogios. Mas descobri que a força maior do universo conspira a meu favor."

LUIS MARTINS - A LITERATURA NAS ARTES
Ele não gosta de dizer que é um artista plástico, termo muito amplo para designar o que faz. "Sou um escultor, desenhista e gravador, apesar de já ter pintado e feito outras coisas. Acho que essas funções das artes plásticas representam melhor o que faço." Luis chegou a São Paulo quando tinha 17 anos, vindo de Machacalis, cidadezinha das Minas Gerais. Trabalhou com um pouco de tudo e teve a sorte de ter contato com outros artistas plásticos como Zélio Alves, de quem foi assistente. "Sou autodidata, apesar de ter feitos alguns cursos. Minha arte foi sedimentada nas observações, pesquisas e nas minhas experimentações de artesão. Aprendi fazendo, lendo e pesquisando", explica. O artista já fez várias exposições individuais no Brasil, como a que realizou no Museu Brasileiro da Escultura (MuBE) e na Caixa Cultural de São Paulo. Também já expôs em alguns países da Europa, como Dinamarca e Áustria. Em Viena, Luiz Martins encontrou o lugar ideal para divulgar suas obras. "A Europa tem várias culturas e esse choque cultural te ajuda a reciclar a tua obra e te mostra outros caminhos para tua arte." Atualmente, Luiz está com dois projetos: a exposição e instalação Ethlos.33, que consiste de 33 desenhos novos que irá trazer um cubo de bronze de três metros de aresta. Dentro desse cubo escuro, o artista vai mostrar quatro esculturas revestidas de bronze. A fonte de inspiração surgiu das leituras que fez nos últimos anos. "Adoro filosofia, principalmente as obras de Friedrich Nietzsche. Numa dessas leituras tomei conhecimento do poeta grego Treogus, que fala sobre esse termo, ´Ethlos` que tem um significado bem amplo e simbólico. Trata da ideia de uma existência plena, tangível, seja no campo simbólico do catolicismo ou nas reflexões que Friedrich Nietzsche recupera do poeta grego Theogus." A curadoria dessa nova exposição do artista ficará a cargo de Paulo Miyada, doutorando do curso de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP). O outro projeto é um livro que recupera parte da obra de Luiz Martins nessas mais de duas décadas.


(Por: Amilton Pinheiro)

Revista Raça Brasil