domingo, 8 de novembro de 2015

Artigo de Opinião - A hora é essa - Luiz Antônio Simas

É justo ressaltar a importância das questões propostas pelo Enem na seleção para 2016, mas ainda é pouco

O DIA
Rio - No livro “Pele negra, máscaras brancas”, Frantz Fanon chama atenção para um fato: o racismo herdado do colonialismo se manifesta explicitamente a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc.

O discurso do colonizador europeu em relação aos indígenas e aos povos da África, por exemplo, consagrou a ideia de que estes seriam naturalmente atrasados, despossuídos de história. Apenas elementos externos a eles – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los naquilo que imaginamos ser uma maiúscula História da humanidade.

É dentro desta tensão normatizadora que mora a maior das perversidades: o discurso canônico tem a tendência de convencer aos inferiorizados da suposta supremacia natural de alguns saberes. Com requintes de devastação, inclusive emocional, ele faz com que a vítima potencial introjete a visão que a inferioriza como se fosse uma verdade absoluta.

A mesmíssima coisa vale para as mulheres, em uma sociedade patriarcal como a nossa, que padroniza a submissão como comportamento natural feminino, vulgariza o assédio como prática normal inscrita na conduta do macho (prendam as suas cabras que o meu bode está solto, repetem os pais orgulhosos) e historicamente tirou da mulher (e de diversas minorias) o protagonismo da fala e das narrativas sobre o próprio corpo.

Dentro dessa linha de raciocínio, é justo ressaltar a importância das questões propostas pelo ENEM no exame de seleção para 2016. É digno de celebrações, mas ainda é pouco. O ENEM afinal de contas, continua sendo uma prova de classificação, encarada por muitos (incluo aí colégios, famílias, candidatas) como um exame de corte com a finalidade de garantir o acesso ao ensino superior, e não como meio para que se pense a pluralidade no sistema educacional.

Mas a hora é essa. Pensemos numa prática pedagógica cotidiana, inserindo a discussão de gênero nos currículos escolares, criticando o racismo epistemológico (muito mais sutil que o racismo escancarado e riscado na pele), combatendo a obra da escravidão, refletindo sobre o machismo nosso de cada dia e abrindo ouvidos e olhares para vozes dissonantes e miradas mais ousadas. A insurgência epistêmica nunca foi tão urgente e necessária.

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Crônicas do dia - O ofício de ser professor por quem mais sabe - Marcus Tavares

Ser professor é um somatório do conhecimento e aprimoramento profissional do indivíduo e do entendimento e bagagem de vida que este carrega

O DIA
Rio - Não dá para deixar passar em branco o Dia do Professor, comemorado no último dia 15. Desculpem os profissionais indiretamente envolvidos com a Educação que analisam o tema sem estar em sala de aula, mas somente o professor conhece o tamanho da responsabilidade e do ofício que exerce todos os dias. E sobretudo no Brasil, em 2015.
Não é uma profissão como outra qualquer. É muito mais complexa do que parece. É um somatório do conhecimento e aprimoramento profissional do indivíduo e do entendimento e bagagem de vida que este carrega.
Nos dias de hoje, ser professor vai muito além do conhecimento técnico especializado de uma determinada área, que deve ser exigido e aprimorado continuamente. Ser professor envolve competências e habilidades para lidar com crianças, jovens e até mesmo adultos em diferentes contextos políticos, sociais, culturais e econômicos. Realidades, por vezes, muito duras, tristes e chocantes.
Com a ausência cada vez maior da presença da família — seja ela qual for — no dia a dia dos estudantes, é o professor que acaba vivenciando muito mais de perto momentos de intensa transformação emocional e corporal dos alunos, participando, inclusive, dos ritos de passagem. E, nestas horas, o que conta e o que se pede não é conteúdo nem conhecimento. É presença. E mais: valores humanos.
Em que aula, por exemplo, mesmo que nas entrelinhas, não se discutem ética, moral, solidariedade, respeito? Direitos e deveres? Professor — de sala de aula — sabe disso. E não foge do embate, da polêmica, da crítica, da cara feia. Sabe ouvir, ponderar e, principalmente, se posicionar.
Como também sabe que não é — nem pode ser — o pai ou a mãe. Que não é psicólogo nem médico, muito menos babá. É um mediador que, ao contrário do que pensam, sofre pressões internas e externas para melhorar não só o ensino, mas o cidadão de hoje e do amanhã. Ou seja: o seu filho, o meu, o dele: os nossos.
Que outra profissão tem este desafio? Nenhuma. E posso garantir que muitos dos professores lutam para que este desafio não escorra pelas mãos. Como seria bom que a sociedade de fato e de direito se unisse a este coro. Como seria bom que as políticas públicas se somassem a este propósito. Como seria bom vivenciar isto tudo dentro da sala de aula.

Marcus Tavares é jornalista e professor

Crônica do Dia - O que te move, professor ? - Júlio Furtado

Podemos comemorar nosso incurável idealismo de ajudar a construir um mundo melhor, mais justo e mais fraterno

O DIA
Rio - A cada ano, fico especialmente apreensivo quando chega a época de escrever um texto dedicado ao 15 de outubro, Dia do Professor. Já escrevi inspirado pelos mais variados sentimentos, da revolta à esperança. Neste 2015, tão obscurecido pela palavra crise, a fisionomia das pessoas me transmite desânimo, e as palavras, revolta.
Diante desse quadro desolador, fico a pensar sobre o que os professores estão respondendo para as nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos quando perguntam se o Brasil vai falir ou se teremos que pedir esmolas. A resposta do professor, certamente, pesará bastante no quanto de esperança esse aluno ainda terá. Com certeza, as respostas estão sendo proporcionais ao quanto de esperança estamos conseguindo ter.
Tenho me alimentado, insistentemente, de exemplos de bons educadores de carne e osso. Digo de carne e osso porque os exemplos de educadores destemidos que desbravam as matas e dão suas vidas pelo que fazem, ao invés de me inspirarem, me deprimem.
Talvez porque eu não tenha vocação para ser herói ou mártir. Quero apenas conseguir que meus alunos aprendam e se tornem autônomos para aprender cada vez mais. Quero manter-me uma pessoa comum que prefere tomar um chopinho com os amigos num domingo à tarde do que ficar fazendo plano de aula.
Quero acreditar que esse é o perfil da maioria dos professores brasileiros. Gostam do que fazem, acreditam que podem fazer melhor e lutam, diariamente, para não perder essa crença. Acredito que podemos comemorar nossa humanidade. Sim, porque a humanidade do professor precisa ser especial. Precisamos acreditar no ser humano acima de qualquer coisa e investir para que ele se supere a cada dia, mesmo quando tudo diz o contrário.
Podemos comemorar nosso incurável idealismo de ajudar a construir um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Sugiro que aproveitemos o Dia do Professor para nos perguntar insistentemente o que nos move. Para avaliar o nosso fazer cotidiano, nossa postura enquanto educadores e nos perguntar, com honestidade, se merecemos os parabéns. Aproveitemos para nos apropriar do nosso projeto de vida e  do nosso projeto de mundo e fazer deles um projeto pedagógico ao qual possamos ser fiéis com todas as nossas forças.


Júlio Furtado é professor e escritor

domingo, 4 de outubro de 2015

Te Contei, não ? - As aventuras de Hans Staden


Rabelais denunciou os exageros dos viajantes

As aventuras de Hans Staden


Hans Staden, um alemão que fora aprisionado pelos tupinambás no litoral fluminense, em 1554, depois de ter voltado para casa, escreveu, provavelmente, um dos primeiros best-seller sobre o Novo Mundo. Sua narrativa, tantas vezes editada entre nós, não só teve agora uma bem ilustrada nova impressão, como serviu de roteiro para um filme que ora ganha cartaz no Brasil inteiro.



A captura: imaginem ser capturado no Brasil do século 16 por um aborígine chamado Nhaepepô-açu ,"Panela Grande", e, pior ainda, ser dado em seguida de presente a um outro, de nome Ipirú-guaçu, o "Tubarão grande"! Nada de esperançoso, pois, aguardava o pobre Hanz Staden, um alemão do Hesse que, embarcado para cá, caíra aprisionado pelos tupinambás, no ano de 1554.

Não satisfeitos em ameaçar devorá-lo a qualquer instante, os seus captores, depois de terem-no levado para a aldeia deles em Ubatuba, arrastavam-no para que presenciasse as cerimônias antropofágicas que realizavam. Certa vez, carregaram-no até a aldeia de Tiquaripe, perto de Angra dos Reis, para ver um dos seus inimigos ter a cabeça esmagada pelo ibirapema, o tacape de execuções. Logo em seguida, assistiu os restos do bravo serem rapidamente deglutidos pela tribo inteira, embriagada previamente com licor de raízes de abatí.
Um livro incrível

Staden, que miraculosamente retornou ao Hesse, registrou seus tormentos de prisioneiro dos nativos num livro maravilhoso para ler: Viagens e aventuras no Brasil(Wahrhaftige Historia, editado em Marburg em 1557). Porém, ele não foi o primeiro alemão a pôr os pés no Brasil. Houve ainda um outro, um tal de Ulrich Schmidel, um lansquenete que, em 1540, com um grupo de aventureiros a serviço dos espanhóis, embrenhou-se inutilmente na Amazônia, atrás da lendária tribo de mulheres guerreiras (façanha contada na História verdadeira de uma viagem curiosa feita por Ulrico Shmidel, editada em Frankfurt, em 1567).

Interessa, porém, observar, no que toca ao livro de Staden, as precauções que ele tomou na Alemanha para que acreditassem nele. A Europa do século 16, o grande século das navegações, estava cansada de ler ou ouvir relatos eivados em mentiras e absurdos diversos.

O descrédito das narrativas de viagem. A tal ponto tinha chegado a coisa, que Rabelais, o grande satírico francês, fazendo mofa do livro do padre cosmógrafo André Thévet (Singularitez de la France Antarctique, 1558), decidiu-se inserir na sua obra-prima, dois capítulos denunciando, pelo riso, o disparate das visões mentirosas que alguns viajantes tiveram no inexistente País de Cetim. Criou, também, como símbolo desses mitômanos, um personagem-caricatura, o "Ouvi-dizer", que, apesar de ser um velho, corcunda e paralítico, tendo a língua esfacelada em sete pedaços, narrava, com um mapa-múndi aberto à sua frente, as suas impossíveis aventuras para uma multidão de crédulos. Eram histórias de unicórnios, de mantichoros com corpo de leão e cara humana, de cabeçudíssimos catoblepos de olhos venenosos, de hidras com sete cabeças, de onocrotalos que imitavam gritos de asno, de pégasos, e de tribos de seres com cabeças de pássaros, ou até mesmo com duas cabeças, de povos fabulosos que andavam apoiados nas mãos, com as pernas balançando no ar! (ver o livro V de Gargantua e Pantagruel, de 1564)

Querendo, pois, evitar ser chamado de embusteiro, Staden, além de banir do seu relato qualquer menção à zoologia fantástica, pediu a um conhecido seu do Hesse, um tal de Dryander, que assegurasse a veracidade do conteúdo do livro. O alemão, "ébrio de um sonho heróico e brutal", viera a dar com os costados no Brasil para satisfazer seu gosto pela aventura, para ver de perto as maravilhas que escutara na Europa sobre o Novo Mundo descoberto. Foi na sua segunda viagem ao Brasil (na primeira ele conheceu Pernambuco) que Staden naufragou nas costas do litoral fluminense. Por saber lidar com canhões, os portugueses, que o acolheram muito bem, promoveram-no a artilheiro do Forte de Bertioga.
Entre os tupinambás

Certo dia, num descuido seu, os tupinambás, inimigos dos lusos, o maniataram, dando início então ao seu calvário. Amarrado e transportado por mar na piroga indígena, Staden fez de tudo para convencer seus captores de que ele não era um peros, um português, mas sim um mair, um francês, portanto um aliado deles. Conseguiu pelo menos deixa-los na dúvida. Afinal, os índios podiam matar alguém amigo. A alvura do alemão e sua barba loira devem tê-lo ajudado, pois os tupinambás, provavelmente, nunca tinham visto um português brancarrão como ele. Staden atribuiu a sua sobrevivência às rezas, o tempo inteiro, feitas com redobrado fervor.


Cena antropofágica: mulheres da tribo retalham o morto


Os antropólogos, porém, conhecendo hoje melhor os rituais de antropofagia, lendo Staden, chegaram a outra conclusão. Não o abateram e o moquearam por que Staden pareceu-lhes um covarde, cuja carne era indigna de ser ingerida por um valente tupinambá. Não foi pois, o olhar de Deus que o salvou, mas o tremor que abalou o seu corpo e a sua voz.

O que impressiona o leitor, é como Staden conseguiu manter um excelente poder de observação em meio aos perigos em que se encontrava. Deve-se a ele termos um relato em primeira mão da vida dos indígenas, com quem partilhou hábitos e costumes, privando com os seus cheiros, humores, e impudores. Não se trata das observações, quase que de rigor científico, como as do genebrino Jean Lery em sua passagem pelo Brasil, quando por aqui esteve na França Antártica de Villegagnon, em 1557. Oportunidade em que, visitando algumas tabas e conversando com os nativos, ao redor da baia da Guanabara, coletou material e assunto. De volta ao Velho Mundo, Lery publicou um ensaio que é considerado como um dos mais soberbos levantamentos etnográficos do Brasil: o Viagem a terra do Brasil, La Rochelle, 1578. Staden, ao contrário, viveu oito meses em meio aos seus captores. Afinal, os tupinambás tinham-no transformado num Ché remimbaba indé, num animal doméstico, que seu dono, o já referido Tubarão Grande, conduzia amarrado como um cão para todos os lados.

Staden apela inutilmente por asilo


Angustia-se o leitor com a falta de solidariedade de alguns marinheiros franceses para com o pobre homem. Certa vez, o alemão chegou a abordar um barco ancorado bem próximo à praia para pedir asilo. O comandante, para desespero do fugitivo, mandou que se afastasse, porque não queria a inimizade dos índios. Se o acolhessem, disse, os tupinambás, magoados, não fariam mais escambo com ele. Mas, por fim, Staden conseguiu, numa outra oportunidade, um convés amigo que o levou de volta à Europa. O livro de Staden foi um sucesso, tendo conhecido várias tiragens. Talvez tenha sido o primeiro best-seller relatando uma aventura no Novo Mundo.
O primeiro best-seller do Novo Mundo

Zinca Wendt (Relatos quinhentistas sobre o Brasil, Berlim, 1993), demonstrou que o êxito da vendagem do livro de Staden , além das suas óbvias qualidades, e de transmitir ao leitor a permanente sensação de horror em vir-se a ser vítima do canibalismo, deveu-se largamente à mensagem religiosa que continha. O crente náufrago apareceu aos seus conterrâneos da Igreja Reformada, como alguém que escapara miraculosamente das garras do demônio, graças a sua fé protestante. Aliás, ao longo do livro, Staden reproduziu as orações e preces que fez aos céus para poder escapar aquele pesadelo. Portanto, a narrativa, também, serviu como uma poderosa arma na guerra travada ao longo do século 16, entre protestantes e católicos. A Nova Fé, derivada da rebeldia de Lutero, igualmente, era capaz de provocar milagres!

domingo, 20 de setembro de 2015

Crônica do Dia - Um menino como cada um de nós - Fernando Molica

Rio - Nós, jornalistas, temos que noticiar um fato e, de preferência, apresentar seu contexto. Uma boa reportagem, além de narrar o que aconteceu, deve procurar revelar as razões que geraram tal situação. É importante contar se o motorista que causou um acidente estava bêbado, se o deputado que votou a favor de determinado projeto havia recebido doações de empresas interessadas na proposta. 

Crônica do Dia - Aquele menino morto na praia - José Eduardo Agualusa

Na Islândia, o governo anunciou a disponibilidade para receber 50 refugiados sírios. Indignada com a mesquinhez dos números, a escritora Bryndís Björgvinsdóttir lançou um apelo através do Facebook para que os seus compatriotas se pronunciassem sobre o assunto. Em menos de 24 horas, dez mil islandeses prontificaram-se a abrir as portas das suas casas para receber refugiados. A impressionante vaga de solidariedade levou o governo a rever a proposta original. A Islândia, importa realçar, é um pequeno país, com apenas 330 mil habitantes, metade da população de João Pessoa.



Crônica do Dia - Quarta e quinta - Luís Fernando Veríssimo

Bonita cena, no final de Internacional 6, Vasco da Gama 0 (perdão Aldir), na última quarta-feira, em Porto Alegre. O goleiro do Vasco, Jordi, saía de campo cabisbaixo, com a cara indisfarçável de quem levou seis gols numa noite, e o goleiro Muriel, do Inter, foi abraçá-lo. Os dois deixaram o gramado lado a lado, com Muriel falando sempre, certamente tentando consolar o outro e diminuir sua mágoa.
Pode-se até

Te Contei, não ? - Dilma e princesa Isabel unidas pela crise política

RIO - Em seu gabinete, a chefe de Estado do Brasil negocia com os partidos aliados a aprovação de projetos apresentados ao Parlamento e as pautas-bomba que não a deixam dormir. Ávidos por cargos e títulos que dão projeção política na Câmara e no Senado, parlamentares condicionam o apoio a favores. Enquanto isso, pelos corredores do palácio do governo, o fogo amigo ameaça: figuras próximas a ela cobiçam sua cadeira e tramam contra o poder. Nas ruas, a oposição se articula, quer que a chefe de Estado deixe o comando do país. A descrição do cenário de crise política serve para o governo da presidente Dilma Rousseff, mas foi feita em cartas, há quase 130 anos, pela primeira mulher a governar o Brasil, a princesa Isabel. O acervo, de posse do Museu Imperial de Petrópolis, Região Serrana do Rio, mostra o jeito brasileiro de fazer política — que pouco mudou ao longo dos séculos — e uma princesa de pulso firme e detentora de um humor ácido.

Te Contei, não ? - Do outro lado da fronteira

Com uma criança nas costas, um homem caminha com dificuldade por uma ponte improvisada na fronteira entre Hungria e Áustria. A travessia, clandestina e perigosa, levava à esperança de vida digna em outro país, longe de opressões políticas e conflitos. Esta cena poderia se referir a refugiados sírios ou iraquianos, escapando da violência do Estado Islâmico na atual onda de migrações para a Europa. No entanto, o sujeito e o bebê eram húngaros buscando fugir, em 1956, de seu país de origem, hoje um dos mais avessos a imigrantes. Estima-se que 150 mil pessoas tenham deixado a Hungria em menos de um mês naquele ano, pedindo asilo político principalmente na Áustria, mas também em uma série de outros países do mundo, como os Estados Unidos e o próprio Brasil.
Revolta popular iniciada por um grupo de estudantes contrários à política da União Soviética, que desde o final da Segunda Guerra Mundial controlava o país, a Revolução Húngara durou 24 dias, o suficiente para gerar 20 mil mortes.
— Dar asilo a pessoas que fugiam do domínio dos soviéticos era relativamente fácil na época, porque havia um incentivo ideológico. Simbolizava a luta contra o Exército Vermelho, visto pelos países ocidentais como o grande inimigo — explica Márcio Scalercio, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio. — Quando um alemão pulava o Muro de Berlim, da Alemanha Oriental para a Ocidental, era visto como herói e merecedor de ajuda imediata. O mesmo acontecia com os húngaros em 1956: muitos países tiveram interesses ideológicos ao acolhê-los. E, para completar, não havia racismo em pauta, porque, afinal, eram todos europeus, o que simplificava a questão.
Assim como a Hungria, países do Leste Europeu como Polônia, República Tcheca e Eslováquia, que décadas atrás — em diferentes momentos — tiveram habitantes seus entre asilados pelo mundo, hoje estão no centro da polêmica em relação ao acolhimento a refugiados do Oriente Médio. Autoridades dos quatro países têm feito declarações racistas e xenófobas. Esta semana, uma cinegrafista de TV húngara foi demitida após ser filmada derrubando imigrantes na fronteira de seu país.
Histórico de fugas
As primeiras grandes ondas migratórias partindo da Europa ocorreram após a Primeira Guerra Mundial. A situação, porém, intensificou-se durante a Segunda Guerra, época em que os poloneses logo passaram a deixar o país em massa, devido ao ataque à capital, Varsóvia, primeira cidade fora da Alemanha a ser ocupada pelos nazistas após o início do conflito. A estimativa é de que mais de 100 mil poloneses tenham se asilado somente no Irã, mas a maior parte se espalhou por outros territórios.
A Primavera de Praga também ocasionou grande leva de refugiados europeus. Isto ocorreu em 1968, quando habitantes da República Tcheca e da Eslováquia — que formavam a Tchecoslováquia — também se levantaram contra o regime soviético, sob o qual viviam.
— A questão dos refugiados é tão grave que uma das primeiras iniciativas da Organização das Nações Unidas, pouco tempo depois de ser criada, em 1945, foi fundar um órgão para cuidar de refugiados. Desde então, merecem muita atenção tanto os refugiados de guerra, como foi o caso dos poloneses e é o caso dos sírios e iraquianos de hoje, assim como aqueles que fogem da pobreza extrema ou de lutas políticas, caso dos húngaros e tchecos — comenta Scalercio.
— Essa extrema-direita constrói sua identidade em cima do repúdio ao imigrante e, assim, conquista eleitorado, o que é triste — destaca Lauro Pereira, professor de História da PUC-SP. — A xenofobia e a islamofobia que vemos hoje com tanta evidência estavam latentes, prontas para explodir, e agora encontraram o momento “certo” porque a nova onda migratória tem aumentado dia após dia.
Segundo o historiador, a grande novidade é a Alemanha se anunciar tão aberta à recepção de refugiados, o que, para ele, é boa opção política e econômica.
— A Alemanha, assim como a Hungria, tem um problema demográfico. São países cuja população está envelhecendo e precisam de mais mão de obra jovem. Acolher refugiados é um gesto bonito, claro, mas não é despido de interesse, porque eles serão mão de obra. Além de o discurso xenófobo ser odioso, ele é burro, porque não percebe que a migração ajudaria nesse aspecto — ressalta Pereira.
“Posicionamento contraditório”
Professor de Direito Internacional da Unifesp, João Amorim lembra que a Europa está longe de ser o continente “puro” que tantos ultraconservadores propagam, e que os imigrantes que de lá já partiram somam números expressivos.
— Historicamente, as populações dos países do Leste Europeu são forçadas ao deslocamento e à segregação por conflitos armados e por forças de ocupação, principalmente a partir do século XIX. Então, o posicionamento atual contra refugiados é extremamente contraditório e revela o quão frágil e patética é a postura isolacionista e xenófoba — pontua Amorim.
Ele destaca que é extensa a quantidade de períodos na História em que houve migrações forçadas da Europa para outras regiões. Isto ocorreu nas Guerras Napoleônicas, nas guerras de unificação da Alemanha e da Itália e numa série de revoluções sociais, todas ainda no século XIX. Já no século XX, além das duas Grandes Guerras e das ocupações soviéticas, houve o genocídio na Armênia, a Revolução Russa, a recessão econômica dos anos 1930, o período do Salazarismo em Portugal, a guerra civil espanhola, a perseguição religiosa na antiga Iugoslávia e a Guerra dos Bálcãs — esta última entre Sérvia, Montenegro, Grécia, Turquia, Bulgária e Romênia.
Amorim alega que a migração, em muitos casos, costuma fazer girar a economia do país hospedeiro, além de enriquecer a cultura daquela sociedade.
— Um país que recebe imigrantes ganha uma força a mais de trabalho e de ação social. Os imigrantes, sejam refugiados ou não, são pessoas que buscam recomeçar sua vida, querem trabalhar, estudar, criar sua família. Investir em políticas de acolhimento e de inserção social é fazer um investimento futuro na solidez e na força econômica de uma sociedade. Além disso, o imigrante traz sua cultura e a história de seu povo, o que é sempre benéfico — diz ele.




Crônica do Dia - Senhor Deus dos Desgraçados -

A trágica semana em que o corpo de um menino sírio, como um dejeto, veio dar à praia na Turquia, em que multidões atravessaram a pé a Hungria, fugindo da guerra, e foram resgatados nos carros de austríacos e recebidos em Munique pelos alemães com água, comida, flores e abraços, essa semana em que o Êxodo recriou-se em chão europeu entrará para a história do continente como um momento maior de reafirmação dos valores da civilização ocidental.
O que estará em questão doravante é a vitalidade das duas grandes forças morais que sustentam o Ocidente, uma, religiosa, o Cristianismo, outra laica, os direitos humanos nascidos da Revolução Francesa.
Não foi um acaso se o Papa que se atribuiu o nome de Francisco, na viagem inaugural de seu Pontificado, desembarcou na Ilha de Lampedusa, no extremo sul da Itália, o porto seguro tão almejado por milhares de emigrantes vindos da África. Percebera o imenso questionamento ético que a tragédia da imigração coloca ao mundo cristão. É o mundo cristão, cujas virtudes são a fé, a esperança e a caridade, que vai recusar pão, chão e um teto aos que já não têm pátria e deixá-los morrer de sede ou afogados em mar escuro?
Francisco entendera que chegara a hora da verdade, que as levas de miseráveis negros vinham morrer nas praias brancas e que esse estado de coisas, por mais complexo e desafiador que fosse — e quão complexo todos sabemos que é — não permitia mais a indiferença como escapatória, nem os muros, arames farpados e policiais truculentos como solução. Fosse o Papa brasileiro, teria bradado como Castro Alves, no “Navio Negreiro”, “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor Deus, se é loucura ou se é verdade tanto horror perante os céus”.
Enquanto o primeiro-ministro da Hungria atiçava sua polícia contra a multidão de refugiados sírios, fugitivos não da miséria e sim da guerra e da escravidão, confinando-os em campos de concentração, invocando a defesa da civilização cristã que estaria, segundo ele, sendo invadida por muçulmanos, o Papa Francisco, na missa de domingo, exortou todas as paroquias e mosteiros da Europa a que acolhessem uma família de refugiados e anunciou que começaria pela sua, abrindo as fronteiras do Vaticano. Quem fala pelo mundo cristão é ele, o único líder global de que dispomos hoje, não um político obscuro e facistóide que não enxerga um palmo além das suas fronteiras.
Francisco demonstra entender que quem está naufragando é a cristandade e, por palavras e obras, se empenha em salvá-la, trazendo seus fundamentos para a vida real. Ele sabe que a civilização não sairia incólume da rejeição aos refugiados. Sabe o quanto custou à Igreja Católica o silêncio cúmplice do Vaticano frente ao extermínio dos judeus pelo nazismo.
Angela Merkel conhece bem os muros que separam os seres humanos. Ela vem da Alemanha do Leste, viveu a cicatriz que por tantos anos desfigurou a nação alemã.
Abriu a fronteira aos refugiados sírios que nada tinham a seu favor, além de coragem e determinação, nenhum direito senão o direito de asilo, inspirado nos direitos humanos, essa joia que a humanidade lapidou e que nos arrancou da condição animal quando passamos a chamar de crueldade a destruição do mais fraco que a seleção natural acata. Quando sentimos compaixão diante do sofrimento do outro, mesmo longínquo ou estrangeiro, e isso nos move e comove.
Merkel afirmou o fato moral que obriga à solidariedade. Conhece bem o peso dos crimes hediondos que a Alemanha cometeu no passado e tratou de não repeti-los. Disse ao seu povo, “a partir de hoje a Alemanha é um outro país”. E é. Uma pesquisa de opinião registrou que 96% dos alemães, muitos dentre eles filhos de fugitivos de outros exílios impostos pela Segunda Guerra Mundial, aprovam a acolhida aos refugiados.
Os alemães não ignoram as dificuldades práticas que essa acolhida representa. A beleza do gesto de solidariedade está em primeiro afirmar a necessidade do socorro e, então, por todos os meios buscar as soluções para prestá-lo. É essa a tradição humanista.
A Europa, fulcro da civilização ocidental, hoje sofre ataques terroristas em seu próprio território. Nenhum deles é mais perigoso do que a autodestruição de seus fundamentos morais, a negação de seus mitos fundadores. “Somos uma Europa de valores”, disse Merkel. É imprescindível que outros países sigam seu exemplo.
É certo que a Europa mudará com a chegada de milhões de refugiado, mas é mais certo ainda que a civilização ocidental que merece ser preservada é essa, a de Angela e Francisco.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/senhor-deus-dos-desgracados-17471676#ixzz3mIZhPLlD 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Te Contei, não ? - Sinal de saída da escola


Um relatório inédito feito pelo Ministério da Educação mostra que, ao longo dos próximos seis anos, 40% dos cerca de 507 mil professores do ensino médio brasileiro atingirão as condições de idade ou tempo de contribuição para se aposentar, revela Renata Mariz. Responsável pelo estudo, o secretário de Educação Superior, Jesualdo Pereira Farias, diz que o governo deve se preocupar com a previsão. O quadro é agravado pela diminuição no número de formandos nos cursos de licenciatura em disciplinas da educação básica: segundo o Censo do MEC, houve uma queda de 16% entre 2010 e 2012.





BRASÍLIA — Ao longo dos próximos seis anos, cerca de 40% dos professores do ensino médio terão condições de se aposentar. A estimativa, calculada em estudo inédito do Ministério da Educação (MEC) ao qual O GLOBO teve acesso, mostra a necessidade de recrutar docentes para essa etapa escolar, que já sofre com falta de profissionais formados na disciplina que lecionam.
Mas a tarefa de arregimentar educadores não será fácil. A baixa remuneração e a falta de condições de trabalho geram desinteresse pelo magistério. O número de formandos em cursos de licenciatura de disciplinas da educação básica (ensinos fundamental e médio) vem caindo. Segundo o Censo do Ensino Superior de 2013, esse universo encolheu 16% de 2010 a 2012, passando de 95.550 concluintes a 80.582. E nem todos os formandos se tornam professores.
O levantamento sobre aposentadorias considerou os cerca de 507 mil docentes do ensino médio, segundo o último Censo Escolar, referente a 2013. Além de 2,75% dos profissionais com mais de 60 anos na iminência de se aposentar, havia 15,28% na faixa de 50 a 59 anos que começam a ter condições de deixar a sala de aula.
Soma-se a esse contingente boa parte dos 29,2% com idade entre 40 e 49 anos que atingirá nos próximos anos os critérios para pendurar as chuteiras, chegando à estimativa total de 40% de aposentáveis até 2021. Pela Constituição Federal, professores podem se aposentar cinco anos antes dos demais profissionais. No serviço público, entre os docentes, o requisito para homens é ter 30 anos de contribuição e 55 de idade. Para mulheres, que são 61,5% dos professores do ensino médio, basta ter 50 anos e 25 de serviço. Na iniciativa privada, não há idade mínima, apenas o mesmo tempo de contribuição exigido no setor público.
— Temos uma quantidade enorme de professores do ensino médio que vão alcançar idade e tempo de aposentadoria nos próximos anos. Eles representam aproximadamente 40% do efetivo. Temos que nos preocupar com isso — disse Jesualdo Pereira Farias, secretário de Educação Superior (Sesu) do MEC, durante uma cerimônia da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), em julho.
Em entrevista ao GLOBO, Farias explica que é razoável trabalhar com a expectativa de que 40%, de fato, deixem as salas de aula nos próximos seis anos, mas ele ressalta que o estudo é uma projeção baseada nos critérios de aposentadoria.
— Isso mostra que teremos que aumentar o esforço na formação de professores para que não haja falta de profissionais no futuro — diz.
Para fins de comparação, dados do Ministério do Planejamento indicam que cerca de 23% do funcionalismo público federal têm mais de 51 anos. Desses, 3% estão acima dos 60, idade que, aliada ao tempo de contribuição (35 anos para homens e 30 para mulheres), dá direito à aposentadoria. O percentual anual de pedidos de aposentadoria no serviço público federal não passa de 1,4% do total de servidores ativos.
O secretário de Educação Superior esclarece que não há levantamentos anteriores para verificar se o volume de professores em condições de se aposentar nos próximos anos significa um ponto fora da curva. Os resultados, diz ele, mostraram que será necessário aprofundar a pesquisa para saber quantos entram e saem por ano.
‘JÁ LIDAMOS COM CARÊNCIA DE PROFESSORES’
O estudo foi feito pelo governo como parte do monitoramento da Meta 15 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê uma política nacional de formação de profissionais da educação básica, para garantir que até 2024 todos os professores tenham nível superior em curso de licenciatura na área em que atuam.
Embora não faça diferenciação entre rede pública e particular, a pesquisa reflete sobretudo a realidade das escolas públicas, que respondem por 87% das matrículas do ensino médio no país, explica o secretário do MEC.
A projeção está alinhada com o último levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), também com dados de 2013. A pesquisa considerou o tempo de serviço dos professores na rede pública estadual, maior responsável pelo ensino médio público no país, mas que também abrange uma parcela pequena da educação fundamental em alguns municípios.
Conforme esses resultados, a aposentadoria foi classificada como “iminente” para 26% dos docentes, que à época já tinham de 21 a 25 anos de contribuição, além de 2% com condições plenas de encerrar a carreira por terem mais de 25 anos de serviço. Para o presidente do Consed, Eduardo Deschamps, os números servem de alerta:
— Se você projeta esse cenário para os próximos anos, a estimativa do governo está próxima da nossa. É algo que preocupa, mas não apenas no futuro. Hoje já lidamos com uma carência imediata de professores em algumas áreas.
De acordo com a secretária-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Marta Vanelli, existe no ensino público uma grande determinação em se aposentar assim que as condições de idade e tempo de contribuição são atingidas, devido ao desgaste da sala de aula, à baixa remuneração da categoria e à falta de um incentivo para continuar.
— O professor não pensa duas vezes. As condições de trabalho são ruins e não há uma vantagem salarial para permanecer. Não é como o professor de universidade, que posterga a aposentadoria para trabalhar com pesquisa, extensão — explica Marta.
Embora não haja indicador exato sobre o fluxo de entrada e saída dos professores do ensino médio, em determinadas disciplinas o número de professores é muito aquém da necessidade. Física é um dos gargalos. Segundo dados do MEC, em 2013, 1.900 pessoas finalizaram o curso de licenciatura, frente aos quase 37 mil professores que lecionam essa disciplina nas escolas sem serem formados nessa área (73,2% do total).
A carência não se restringe a disciplinas de exatas. Docentes sem licenciatura em Sociologia dando aula nessa disciplina representam 88% do total. A proporção chega a 78% entre os que lecionam Artes e Filosofia, por exemplo.
NÚMERO DE FORMANDOS CAI MAIS EM EXATAS
Analisando os dados do Censo do Ensino Superior de 2013, é possível presumir que essa situação vai se agravar no futuro. O número de estudantes se formando para se alistar nas trincheiras do ensino básico vem caindo, principalmente na área das disciplinas exatas. De 2010 a 2012, houve redução de 14% dos concluintes em Física, 13% em Biologia, 10% em Química e 21% em Matemática. Em História, por outro lado, o contingente aumentou, mas apenas 1%. Em parte, essa queda pode ser explicada pelas altas taxas de evasão: só 20,5% dos graduandos terminam o curso de Física, 29,5% chegam ao fim da licenciatura em Química e 33% recebem o diploma para dar aulas de Matemática. Somente em duas disciplinas, Geografia e Artes, a taxa de sucesso é superior a 50%.
— Levando-se em conta que o quadro de redução no número de concluintes já vinha sendo identificado em anos anteriores, a gente percebe que o país não reagiu ao problema — lamenta o diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos. — Já vivemos apagões na oferta de professores. Mas a tendência é que isso comece a ficar sistêmico, devido ao desinteresse de nossos jovens pelo magistério.
Além disso, não há garantias de que os formandos de licenciaturas se encaminharão para as escolas. Cerca de 19 mil pessoas se formam anualmente em Educação Física. Mesmo assim, 15.537 professores do ensino médio que lecionam a disciplina não têm formação na área. Outras atividades, como em academias ou de personal trainer, são mais sedutoras.
Doutora em Educação, Dirce Zan, coordenadora do curso de Pedagogia da Unicamp, defende a necessidade de se valorizar o magistério.
— Falo pela experiência como professora das licenciaturas. O aluno recebe proposta para ingressar no mercado, muito mais atrativo que a sala de aula, e vai porque terá mais perspectivas profissionais — conta Dirce, que integra a Comissão de Formação de Professores da Unicamp.
Neves Ramos concorda:
— O Brasil precisa de jovens dispostos a substituir os professores que estão se aposentando. Estamos num momento de crise, mas, para o país avançar, é fundamental investir na atratividade do magistério.


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Artigo de Opinião - A saga dos imigrantes - Frei Betto

Rio - Todos acompanhamos, pela mídia, o fluxo migratório, rumo à Europa Ocidental, de africanos e árabes de países em conflito. Em 2015, 332 mil imigrantes já aportaram no Velho Continente. As águas do Mediterrâneo sepultaram, de janeiro a agosto deste ano, 2.500 fugitivos da miséria e da violência, em busca de um pouco de pão e paz. Em 2014, foram 3.500.
Um dos casos mais dramáticos é o dos 71 imigrantes encontrados mortos em um caminhão frigorífico nas proximidades de Viena, asfixiados pela falta de ventilação. O que fizeram os nazistas nas décadas de 1930 e 40 agora se repete em escala menor, contudo de modo não menos trágico.
O Papa Francisco tem feito insistentes apelos em defesa das vítimas de um mundo hegemonizado por um sistema no qual a livre circulação de moedas não encontra reciprocidade na livre circulação de pessoas. Ao capital, todas as fronteiras se abrem. Às pessoas, todas se fecham, sobretudo se são negras ou muçulmanas. Estas tidas, pelo preconceito, como potenciais terroristas. Quem foge da fome e da guerra quer apenas um lugar ao sol neste mundo marcado pela desigualdade e indiferença.
A Europa Ocidental colhe o fruto da semente maligna que plantou: séculos de colonialismo na África e de apoio a regimes ditatoriais no Oriente. Após extorquir riquezas naturais e sustentar ditadores sanguinários, os europeus deixaram um lastro de miséria e violência. Tivessem promovido a democracia e o desenvolvimento daqueles países, não estariam agora erguendo muros para deter a horda de imigrantes, e estes não arriscariam a vida nas águas do Mediterrâneo agarrados à frágil esperança de uma vida melhor.
A União Europeia apoiou a brutal intervenção dos EUA em países árabes. Após sustentar Saddam Hussein, Kadafi e Bashar al-Assad, as potências ocidentais, de olho no petróleo daqueles países, apelaram ao pretexto de terrorismo para derrubar as antigas marionetes e deixar no lugar o caos.
Os europeus ocidentais se esquecem do próprio passado. Entre 1890 e 1910, mais de 17 milhões de europeus migraram para os EUA — 570 mil por ano. E milhares vieram para a América do Sul. Isso quando a população mundial era quase um quarto da de hoje. O fluxo migratório do Atlântico foi muito mais intenso que o atual.
O preconceito mata suas vítimas e os valores humanos que teoricamente defendemos. E a discriminação revela a nossa verdadeira face.
Autor do romance policial 'Hotel Brasil' (Rocco)

domingo, 13 de setembro de 2015

Te Contei, não ? - 'Escola sem partido' quer fim da 'doutrinação de esquerda'

Rio - Imagine uma sala de aula onde o professor não pode comentar as notícias do dia, falar de política, ensinar a consagrada teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, ou discutir questões de gênero e de sexualidade. Esse seria o espaço ideal para o aprendizado, de acordo com os defensores do movimento ‘Escola Sem Partido’, que prega o fim da “doutrinação de esquerda” nas instituições de ensino. Projetos desta natureza tramitam na Câmara dos Deputados e na Câmara de Vereadores do Rio, apoiados pela guinada do conservadorismo e criticados por entidades de professores Brasil afora.

Defensores do projeto creem que falta “neutralidade” e “liberdade” à educação, e acreditam que os alunos vêm sendo expostos à ideologia e aos valores do PT e do governo federal nos últimos anos. O deputado federal Izalci Lucas (PSDB-DF)é autor do projeto que tramita na Câmara e está pronto para ser votado na comissão de Educação.

“A proposta já recebeu parecer favorável. O professor não pode impor o que ele acha que é verdade. Queremos proibir qualquer partido político”, destacou. Segundo ele, o governo tem atuado no sentido de promover a imagem do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff nos livros didáticos. Neles, também há o que ele chamou de “exaltação ao comportamento homossexual”. “Não pode discriminar, mas não pode exaltar”, opinou.

Integrante da comissão de Educação da Câmara, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) não acredita que o texto será aprovado. “Temos educadores sérios aqui, que não vão se aproveitar do clima de divisão do país para aprovar uma ideia tão demagógica”, disse. “Não é adequado para um professor fazer campanha em sala. Mas deve poder ter sua opinião, assim como o aluno. A escola deve debater política, estimular a convivência dos diferentes”, resumiu a petista.

No Rio, votação deve acontecer a partir de outubro 

Na Câmara dos Vereadores, o projeto de lei foi apresentado no ano passado por Carlos Bolsonaro (PP). Passou por todas as comissões, mas recebeu emendas e só deve ir a votação a partir do mês que vem.
“Eles querem dizer que o José Dirceu é herói”, critica Bolsonaro, que defende um ensino “diferente” nas escolas do Rio. “A doutrinação é total, a gente está vendo isso aí. O pai deve ter o direito de levar sua insatisfação para escola, para secretaria de educação”, diz. “Se o menino é filho de religiosos, vai crescer pensando na história de Adão e Eva para falar sobre o começo da humanidade. Deve-se respeitar isso.”



Por diversas vezes, o vereador manifestou preocupação com o fato de que os alunos com ideologias diferentes possam ser hostilizados em sala de aula e defendeu gabaritos múltiplos. “Quem cassou o presidente em 1964 foram os deputados, não foram os militares, por exemplo. Isso é uma resposta válida”, afirma. 
O projeto de lei apresentado na Câmara tem como base o texto publicado no portal do movimento Escola Sem Partido, que foi criado em 2004 pelo advogado Miguel Nagib, em Brasília.
O vereador Paulo Messina (PV) é autor de emendas ao projeto que, segundo Bolsonaro, torna a proposta “menos inconstitucional”. “O movimento é muito mais emocional que racional”, destaca.
Centenas debatem projeto na Uerj 
Evento na Uerj reuniu cerca de 170 pessoas para discutir o projeto ‘Escola Sem Partido’ na última quinta-feira. Organizado pela coordenação do Programa de Iniciação à Docência (Pibid), ligado à Capes e ao Ministério da Educação, a conversa reuniu educadores e estudantes de diversas instituições. Se no debate o clima foi ameno, nas redes sociais, onde foi convocado, houve ameaças. “Tenham medo, abusadores de crianças. Vocês vão se arrepender por mexer com nossos filhos, isso é uma promessa”, ameaçou no Facebook um internauta em uma das postagens. A organização chegou a pedir o reforço da segurança para o evento, mas não nenhum incidente foi registrado. Será realizado um debate, em outubro, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) para discutir o tema. 
A Associação Brasileira do Ensino de História (Abeh)e a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) divulgaram notas contestando o projeto. 

Historiadora da Uerj, uma das coordenadoras do Pibid e do evento, Carina Martins criticou o fato de que, nas entrelinhas, o projeto de lei querer transformar os professores em meros “instrutores”. “O professor não é apenas um transmissor de conhecimento, isso contraria o que está na Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Lá, está escrito que o professor precisa preparar para cidadania, para vida profissional. Estamos voltando a um debate do começo do século XX, colocando os valores da família sobre o conhecimento científico”, opina a professora. 
Ela já participou da equipe do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do MEC, e afirma que o Ministério tem controle sobre a doutrinação nos livros didáticos. “Eu já vetei um livro com base nesse critério. O MEC está atento a ideia de que a história não pode ter apenas uma versão. Não significa que queremos uma escola com partido: a escola deve estimular o aluno a tomar partido, se envolver”, resume.
Miguel Nagib, do Escola Sem Partido 
“O movimento surgiu em 2004, quando a gente se deu conta de que as escolas estavam sendo usadas para doutrinação. Criou-se uma mentalidade progressista, favorável ao PT, que auxiliou a manutenção deles no poder.Um dos pontos é que em sala de aula, o professor não pode ter liberdade de expressão. Ali, ele é obrigado a transmitir o conteúdo, só. Ao tratar da evolução, por exemplo, ele não pode desqualificar a religião.
Não se pode obrigar os filhos a aprenderem o que os pais não querem. O governo vem tentando naturalizar o comportamento homossexual, e isso pode atingir o que um pai ensina ao seu filho. Promover os próprios valores morais é violar os direitos dos pais, e isso é ilegal. O pai pode processar o professor por abuso de autoridade de ensinar, e dizer que isso é preconceito é autoritário.
Não é prudente que se debatam assuntos que estão no noticiário dentro de sala de aula, por exemplo. O debate pode trazer problemas para a escola. O que nós queremos são cartazes em sala de aula lembrando os deveres dos professores, mas não queremos ideologia de direita, e sim que o aluno não seja intimidado e nem tenha medo de discordar”.
Fernando Penna, professor UFF 
“O impacto imediato de um projeto como esse é a desconstrução das bases da educação escolar. Este projeto de lei fala em pluralidade de ideias, mas determina a proibição de ‘atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas e morais dos pais’. Como o professor pode evitar discutir todos os assuntos que possam estar em conflito com a diversidade de crenças dentro de uma sala de aula? Seria o fim de qualquer diálogo na escola. A organização ‘Escola Sem Partido’ defende que o ‘professor não é educador’.
É falácia que haja doutrinação de esquerda, pois as escolas são plurais como a sociedade. Ao discutir este projeto em escolas, já conversei com professores que adotavam diferentes posicionamentos políticos. 

É no diálogo entre professores e alunos em sala de aula que o conhecimento escolar é construído.

Qualquer ameaça a essa pluralidade e à possibilidade de uma argumentação aberta e franca é um ataque à educação como um todo. Nesse sentido, a moral dos pais deve ser respeitada sempre que ela não entre em choque com os valores característicos da vida em regime democrático. A pluralidade é a base do processo educativo”.