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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Crônica do dia - Um plus a mais

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO - O Estado de S.Paulo
 
 
 
 
 
Passei por uma loja que vendia roupa "plus size" para mulheres. Levei algum tempo para entender o que era "plus size". "Plus", em inglês, é mais. "Size é tamanho. Mais tamanho? Claro: era uma loja de roupas para mulheres grandes e gordas, ou com mais tamanho do que o normal. Só não entendi isto logo porque a loja não ficava em Miami ou em Nova York, ficava no Brasil. Não sei como seria uma versão em português do que ela oferecia, mas o "plus size" presumia 1) que a mulher grande ou gorda saberia que a loja era para ela, 2) que a mulher grande ou gorda se sentiria melhor sendo uma "plus size" do que o seu equivalente em brasileiro, e 3) que ninguém mais estranha que o inglês já seja quase a nossa primeira língua, pelo menos no comércio.

A invasão de americanismos no nosso cotidiano hoje é epidêmica, e chegou a uma espécie de ápice do ridículo quando "entrega" virou "delivery". Perdemos o último resquício de escrúpulo nacional quando a nossa pizza, em vez de entregue, passou a ser "delivered" na porta. Isto não é xenofobia nem anticolonialismo cultural americano primário, nem eu acho que se deva combater a invasão com legislação, como já foi proposto. O inglês, para muita gente, é a língua da modernidade. Todos queremos ser modernos e, nem que seja só na imaginação, um pouco americanos. E nada contra quem prefere ser "plus" a ser mais e ter "size" em vez de altura ou largura. Só é triste acompanhar esta entrega - ou devo dizer "delivery"? - de identidade de um país com vergonha da própria língua.
Papo vovô. Engana-se quem acha que os avós vivem num paraíso enquanto os pais padecem com as crianças. Ser avô também requer prática e habilidade e, acima de tudo, versatilidade. Ainda mais quando a neta tem uma imaginação ativa, como a Lucinda, e vive mudando a distribuição de papéis nos seus faz de contas. Você um minuto é príncipe e no outro é pai, no outro é caçador e no outro é monstro, e pode passar rapidamente de rei a cachorro. O que exige do avô um talento histriônico fora do comum, além de preparo físico. Uma das minhas encarnações é a de marido. Já nos casamos várias vezes, e como marido tenho um direito que nenhum outro personagem tem, nem o cachorro: o de ser chamado de "meu amor". É o meu papel preferido.

 
 
 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Você já está sabendo ? - Cinco centarrus ... dez centarrus ...


Um dos mais populares programas encontrados pelos que zapeiam os canais da TV brasileira em busca de diversão aos finais de semana é, sem dúvida, o Zorra Total. Veiculado na noite de sábado pela Rede Globo de Televisão, a atração tem, inegavelmente, no mínimo um grande mérito: o de revelar e oferecer oportunidade de atuação profissional para novos talentos. E, dependendo do caso, consagrá-los como grandes humoristas.
É bem verdade que, precedendo Zorra Total, o humor brasileiro ganhou popularidade também por meio de programas televisivos com formatos e concepções diversos. A fórmula atual do humorístico junta diferentes tipos humanos, os travestem com roupagem caricatural e os colocam num vagão de metrô, pilotado por uma caricatural Dilma Rousseff, interpretada pela atriz Fabiana Carla. A atmosfera vai do popularesco clima de “feira livre” ao “grotesco”, categoria estética pautada pela aberração, justificando, assim, o nome do programa.
Antes, porém, no universo televisivo global, tivemos Chico City, Chico Total, Viva o Gordo, TV Pirata, passando pela A Grande Família, Casseta e Planeta, além de uma diversidade de séries, entre as quais se incluem Entre tapas e beijos e Ó pai ó. Entretanto, independentemente do gosto pessoal e da avaliação comparativa que se faça de Zorra Total com outros humorísticos, não há como negar: milhões de brasileiros têm dado muitas gargalhadas, asseguradas por alguns de seus personagens já aclamados pelo gosto popular, como a Valéria e a Adelaide, ambos encarnados pelo talentoso ator Rodrigo Sant’Anna.
 
Não há também como negar o fato de, assim como Grande Otelo, Tião Macalé e Mussum, Rodrigo Sant´Anna, de 32 anos, já ter garantido seu lugar na galeria de artistas afrodescendentes filhos das classes populares e com vocação para extrair doses maciças de riso do povo de seu país. A lista de grandes cômicos afro-brasileiros inclui, ainda, Hélio de La Penna, oriundo de uma escola de humor mais sofisticada, é bem verdade, mas nem por isso, menos talentoso, irreverente e pouco afeito aos princípios do politicamente correto, em seu ofício.
E se o talento de Rodrigo Sant´Anna – nascido e criado na comunidade do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte carioca – reverbera entre a população, é, de certa forma, esta “identificação”, esta “empatia” com o criador da personagem Adelaide que vem sendo considerada por alguns, circunstancialmente “problemática”, digamos assim. Uma questão que, a princípio, tinha as redes sociais como lugar de debate, migrou para os fóruns da Justiça do Brasil: até que ponto a veiculação da imagem de uma figura como a de Adelaide estimula os estereótipos e práticas racistas no seio da sociedade? A personagem, na opinião de alguns segmentos do público, ativistas dos movimentos negros e formadores de opinião, parece ter sido modelada na conhecida argamassa do preconceito racial, como dizem. Entretanto, esta avaliação está longe de ser consensual. Para muita gente, buscar preconceito racial em Adelaide é pura perda de tempo, entre outras inutilidades. Há questões mais graves na pauta dos movimentos negros com as quais militantes e parcelas do público deveriam se preocupar, contra-argumenta-se. Tem ainda os que entraram na discussão, saindo em defesa do “historicamente sagrado” direito à liberdade artística. Uma parte destes, por sua vez, imputa, inclusive, às audiências de todo o Brasil, o direito de mudar de canal, se a Adelaide lhes incomodar.

CRIADOR E CRIATURA
O ATOR RODRIGO SANT´ANNA FOI DIRETO AO ASSUNTO:
“Nasci e fui criado no Morro dos Macacos até os 18 anos. Na sequência, parti em direção ao subúrbio carioca, onde estive até meus 24 anos. Meus familiares, assim como eu, ou são afrodescendentes, como é o caso da minha avó Adélia, que serviu de inspiração para a Adelaide, ou apresentam traços da raça. Logo, meus personagens vêm de tudo que vivi e convivi, portanto, não vejo como uma ofensa utilizar pessoas que fizeram parte da minha história para ajudar a compor meus personagens, mas sim como uma homenagem à ‘minha gente’, pessoas das quais me orgulho pela história de vida, independentemente da cor de pele, do nariz exagerado, do português errado ou da falta de dente, todos requisitos preenchidos pela Adélia, o personagem da vida real em quem me inspirei.
O humor foi a maneira que encontrei de transgredir as minhas tragédias sem esquecer da minha história. Se, a partir de agora, contar a minha história através da minha arte é denegrir a imagem de um determinado grupo, eu realmente me pergunto de onde vem o preconceito, porque meus personagens serão sim: afrodescendentes, pobres, transexuais.
Nas minhas composições, ao contrário do que as perguntas sugerem, eu procuro não ter preconceitos. Mas, talvez, se eu tivesse uma avó loira de olhos azuis, não estivesse respondendo a perguntas tão hostis e preconceituosas.”

QUEM É ADELAIDE?
Para quem desconhece a personagem, trata-se de uma gaiata que saltou, mesmo sem ter sido avisada, do vagão de trem de metrô em circulação no mundo da ficção cômica de Zorra Total, para a polêmica – esta bastante real – na internet e também na Justiça. Adelaide é uma senhora desdentada, com a pele acentuadamente enegrecida à base de tinta e feições negroides destacadas por um nariz caricaturalmente largo. No que se refere ao conteúdo de sua fala, durante os minutos dos quais a personagem usufrui para, dentro do metrô, promover a mais “descarada” das mendicâncias, Adelaide o faz com um português cheio de erros. Consumista de gadgets, como o tablet de última geração que carrega consigo, ela se desvia do perfil do pedinte tradicional e se insere, subliminarmente, no mundo da trambicagem. Provoca indignação e questionamento dos outros passageiros quando, “pobre, pobre de marré de si”, tira da bolsa seu tablet e mostra-se em sintonia com o admirável mundo novo da tecnologia digital. Ou quando compartilha, com os demais usuários do metrô, a informação de que seu marido alcoólatra consome bebidas finas, como whisky de boa qualidade, não muito usuais no mundo dos mais desfavorecidos. Muito menos dos mendigos, é claro!

O MAU HUMOR E CRÍTICA DA MILITÂNCIA NEGRA
Mas nem toda a graça provocada pela personagem e o endosso dos que saíram em sua defesa não conseguiram desfazer nem a cara feia, nem as providências jurídicas tomadas pela militância negra. Os cyberativistas postaram na rede acusações frontais de racismo aos criadores de Adelaide – entre eles, Rodrigo Sant´Anna, que lhe cede o corpo, a alma e informa ter se inspirado na avó para lhe dar vida. A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR) entrou com representação na Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), pedindo que se avaliasse a eventual suspensão da veiculação do quadro em que Adelaide rouba a cena.
Já o advogado Humberto Adami, até o final do fechamento desta edição, preparava a petição por meio da qual pretende entrar com ação coletiva na Justiça pedindo reparação de danos morais.
“Calma gente”, avisou o jornalista Anselmo Góis em nota, publicada em sua coluna, no jornal O Globo, na edição de quatro de setembro. Nela, Góis informava aos leitores mais um procedimento jurídico tomado contra a Adelaide. A nota dizia que a promotora Cristiane Monnerat – a mesma que cuidou do suposto estupro na última edição do Big Brother Brasil, instaurou procedimento sobre a personagem Adelaide, em Zorra Total, interpretada por Rodrigo Sant´Anna. Investiga queixas de alguns telespectadores de eventual procedimento racista da personagem.
Depois de acompanhar a postagem de críticas à personagem em blogs, redes sociais e site de ONGs, como o Portal Geledés, RAÇA BRASIL foi atrás dos envolvidos diretos: o ator que vive a negra Adelaide e o diretor do programa, Maurício Sherman, que não respondeu à revista até o fechamento dessa edição.

“Esse personagem Adelaide, do Zorra Total, já ultrapassou o limite do aceitável. Não há outros personagens negros femininos no programa, e a caricatura só reforça o preconceito contra a mulher negra, pobre e sem trabalho.Não há escusas para a Rede Globo, nem para o silêncio de grande parte do Movimento Negro brasileiro, e das instituições ligadas ao enfrentamento do racismo no Brasil. Essas imagens levadas ao plano internacional envergonhariam qualquer nacional.
A representação ao Ministério Público, acompanhada de eficiente ação de reparação de dano coletivo, nos moldes do caso Tiririca & Sony, já passou da hora. Não há como se fugir ao debate da ‘liberdade de expressão, censura e liberdade artística’, que por certo será levantado, mas sim impor a reparação do dano coletivo, com os rigores de expressiva jurisprudência nacional a respeito. A quem o personagem faz rir? Àqueles que não se comovem com o sofrimento e a luta das mulheres negras brasileiras. E que ainda lhe imputam a responsabilidade pela situação de descuido.
Única personagem negra do programa, a Rede Globo sabe perfeitamente onde (sic) quer chegar, tanto que, no mesmo quadro, incluiu uma mulher índia, que fica sorrindo o tempo todo, de forma infantilizada, reforçando também o preconceito contra indígenas. Creio que a Globo se prepara para o debate, já sabendo o que virá por aí. Na verdade, todo o Capítulo VI do Estatuto da Igualdade Racial, a lei 12.288, abaixo reproduzido, vem sendo desrespeitado. (...) nem cobrado, por quem devia estar cobrando, de forma institucional.
Penso que as entidades de mulheres, negras em especial, (mas não apenas essas), possam promover uma representação ao MP, e a ação de reparação de dano coletivo, cujo limites já ultrapassaram o aceitável.”
(Artigo postado pelo advogado Humberto Adami em seu blog)

A REPRESENTAÇÃO E A PRESENÇA DOS NEGROS NOS MEIOS AUDIOVISUAIS
Numa das visitas feitas ao Brasil, o ex-premier da Itália Silvio Berlusconi, depois de assistir televisão no seu quarto de hotel, foi passear pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Estarrecido, comentaria depois do passeio: “A televisão de vocês parece a de um país nórdico”, dizia ele, um dos maiores empresários de comunicação da Europa, referindo-se à diferença entre a cor da população local e a figura de apresentadores, atores, jornalistas, entre outros profissionais, que frequentam há décadas, com preferência de escolha por parte das emissoras, a nossa telinha. Entretanto, o fato é que o sistema televisivo do país vem recebendo críticas muito mais positivas do que a feita pelo italiano. A televisão brasileira – sobretudo, a Rede Globo de Televisão – é há muito elogiada (internacionalmente, inclusive) quando o assunto é alta qualidade e apuro de suas produções. As telenovelas globais são um exemplo do êxito de público e crítica, até mesmo quando comercializadas fora de nossas fronteiras.
Entretanto, na avaliação de muitos, esta mesma TV tão avançada tecnologicamente, e que reúne talentos humanos de alto calibre, no que diz respeito ao conteúdo de suas mensagens relacionadas a minorias, pode ser considerada “semiologicamente bastante atrasada”. Se formos tomar a questão da representação de grupos e figuras humanas na telinha como exemplo, fica mais fácil entender este tipo de crítica, endossada por acadêmicos, inclusive. Tomando como parâmetro a trajetória da TV brasileira, para muitos especialistas da área faz sentido responsabilizar a emissora de Zorra Total, entre outros canais, por continuar a apostar em personagens negros que acabam por reforçar estereótipos pra lá de questionados.
Refratária a democratizar o acesso de diferentes grupos étnicos a seus quadros profissionais , a televisão brasileira também reedita em figuras como Adelaide a imagem desdentada de Tião Macalé, veiculada durante anos. Daí o questionamento trazido pela negra do humorístico: nossas emissoras não estariam alheias a uma luta histórica dos movimentos sociais por uma identificação mais positiva – e menos grotesca, diriam os radicais – com personagens de filmes, minisséries e outros programas televisivos, a ser feita por uma parcela da população que já é numericamente majoritária?

COM A PALAVRA, A ATRIZ LÉA GARCIA:
“Eu não assisto ao programa, mas conheço a personagem. Minha empregada assiste e gosta.
Não há dúvidas de que se trata de um programa de péssima qualidade, de mau gosto e que ironiza a mulher ‘gostosa’, o homem traído, o índio, o gay, entre outros tipos e grupos humanos. Particularmente, não gosto deste tipo de humor, prefiro o humor mais inteligente. Nós tínhamos, exibidos pela mesma emissora, Viva o Gordo, TV Pirata, Chico Anísio, que eram muito mais interessantes, com um humor menos pastelão, menos bobo. Aliás, de um tempo para cá vem piorando. Mas na vida há gosto para tudo.
Entretanto, não fiquei, em absoluto, assustada com o visual da personagem, já que o ator é negro. Portanto, ele acentuar a cor da pele e o tamanho do nariz, para mim, não significa um problema, isto não me chocou. Por outro lado, quando se é ator, tem-se a liberdade de interpretar qualquer papel. O Romeu Evaristo, por exemplo, faz personagens muito questionáveis e ninguém fala nada!
Mas tem outro aspecto nesta discussão que acho que vale a pena pontuar: a nossa comunidade negra se ressente, por vezes, demais de coisas desimportantes. Temos coisas muito, muito mais relevantes e urgentes para as quais voltar a nossa atenção. Muito mais do que para uma personagem de Zorra Total. O assassinato e a exclusão social de jovens negros, crianças negras, isso sim, é digno de nossa discussão urgente!”

“Faz sentido, a discussão. No meu cotidiano de trabalho, que é a fotografia, esta é uma expressão de arte que tem a capacidade de intervir no tempo, congelar o tempo. E isso significa que aquele momento será eterno. Já disseram que uma imagem vale mais do que mil palavras. E nós sabemos que no processo de veiculação e perpetuação do racismo como ideologia social, a imagem é muito importante. Acho que a Adelaide está situada neste contexto. Acredito que haja várias Adelaides espalhadas pelo país, mas que não aparecem na tela da TV. A personagem está ligada a símbolos em circulação em nossa sociedade que tomam o negro como uma pessoa que chegou ao Brasil na condição de escravo despossuído de sua humanidade, vista como uma peça, uma coisa. Imagem esta que está perpetuada no inconsciente das pessoas, e que é reproduzida em várias atividades e situações. Não é que o negro não queira se ver como a Adelaide, mas o que ocorre é que a televisão quer mostrar à população brasileira que o negro é uma Adelaide. Por isso, a gente questiona.
Januário Garcia é fotógrafo e militante negro, pioneiro por levar o processo de discussão da questão racial para dentro das grandes agências de publicidade e propaganda já a partir dos anos 70.
“Não faz sentido nenhum, porque não acho que seja uma personagem que queira agredir ninguém, não foi criada para isso. É uma sátira, foi feita só para divertir as pessoas, não para agredir ninguém, muito menos a comunidade. Não tem relação, a meu ver, com racismo. E há outra questão: o ator Rodrigo Sant`Anna não é branco, portanto, como é possível ele se predispor a fazer uma coisa destas com a própria raiz, com a avó, que deve tê-lo criado? Não faz sentido nenhum uma personagem interpretada por ele ter este tipo de objetivo. Talvez as pessoas que estejam levantando esta questão sejam mais preconceituosas do que o ator em si. Parece que gostam de mexer na ferida, não colocam as coisas para frente. Não levantam polêmica em cima de discriminações escancaradas. Acho melhor os afro-brasileiros se voltarem para coisas mais graves que estão acontecendo na sociedade, como perseguição e o preconceito enormes contra as religiões de matriz africana em pleno século 21.”
Juraci de Paula Barbosa tem 50 anos. Bacharel em música, assiste ao quadro do programa regularmente.
Eu gosto dos dois personagens interpretados pelo ator, a Valéria e a Adelaide. Não acho que a Adelaide esteja debochando de nenhuma classe social, de nenhuma raça. Ela quer mostrar que os pobres têm direitos iguais, inclusive de consumo de tecnologia, e isso acontece quando ela tira o tablet da bolsa ou quando faz referência à bebida do marido. Ou seja, contesta também esta história de que pobre só bebe cachaça. Quanto à aparência da personagem, acho que faz sentido, pois existem até hoje pessoas nessas condições. Quem diz que não existe, que é preconceito, está querendo tapar o sol com a peneira. Há negros desdentados, brancos desdentados, pessoas de todos os grupos falando errado. Trata-se de um alerta feito, de forma cômica, pela Adelaide. E o fato de ela sacar o tablet produz uma situação que, ao causar riso, contrabalança com a agressividade da imagem dela. No meu modo de ver, é uma forma divertida de amenizar os traços, de fato, muito agressivos de sua fisionomia.”
Dolores Pires Augusto é médica pediatra e assiste ao programa regularmente.
“Vejo algumas semelhanças entre o quadro de Zorra Total e o da personagem da música Veja o cabelo dela, de autoria do hoje deputado federal Tiririca. Ele argumentou que fez a música para a mulher dele, quando acusado de racismo na letra na qual se referia a uma mulher que só tinha dois dentinhos, o cabelo parecia Bombril de arear panela e fedia igual a gambá. Num determinado momento, organizações de mulheres negras se engajaram no processo, mostrando-se ofendidas e esta não seria a primeira vez, já que existem várias músicas tratando pejorativamente a imagem da mulher negra. Ambos os casos fortalecem os mecanismos de representação da mulher negra, enfraquecendo, com este tipo de discriminação, o racismo como crime. Por outro lado, não acho ruim o Rodrigo Sant´Anna interpretar uma mulher negra. Longe disso. O que acontece é a forma que ele a representa. Também acredito que não foi por causa da avó dele que Adelaide foi criada. Se o fosse, ele não o faria: pois quem quer uma avó fragilizada, analfabeta? Ninguém! Não acho que haja nada de ‘especial’ nesses personagens, a não ser que trazem elementos importantes da discriminação, da maneira de a sociedade pensar determinados grupos.
Lúcia Xavier é assistente social, ativista e diretora da ONG Criola.




Revista Raça Brasil

Sandra Almada (autora dessa matéria) é jornalista, mestre em comunicação e cultura pela ECO/UFRJ e professora de teorias da comunicação

sábado, 14 de julho de 2012

Te Contei, não ? - Um pouco mais de Castro Alves

 
 
"Sua voz soa clara em suas palavras fortes denunciando sem medo as atrocidades feitas aos escravos. "Era um sonho dantesco... O tombadilho que das luzernas avermelha o brilho, rm sangue a se banhar,tinir de ferros... estalar de açoite...Legiões de homens negros como a noite horrendos a dançar... " Castro Alves se agiganta diante do Império divinizando os ventos liberais da República.""
Ana Marly de Oliveira Jacobino
 
A data do seu nascimento 14 de Março é agora comemorado o "Dia da Poesia" justa homengem ao Poeta Castro Alves o nosso maior "Condoreiro".
Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de Março de 1847 na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de "Curralinho", hoje denominada Castro Alves , no estado da Bahia.
Suas poesias mais conhecidas são marcadas pelo combate à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como "Poeta dos Escravos".
Poesia e Saraus:
Junto ao seu pai assistiu muitas reunióes literárias e esta atmosfera literária, produzida pelos oiteiros, ou saraus, festas de arte, música, poesia, declamação de versos entraram na sua alma com uma força descomunal e deste modo aos 17 anos fez as primeiras poesias. No dia 10 de novembro de 1863 teria recitado os primeiros versos em festa no Ginásio Português
Castro Alves escreve para a sua mãe de leite (Mucama) Leopoldina:
Junto ao fogo, uma africana,

Sentada, o filho embalando,
Vai lentamente cantando
Uma tirana indolente,
Repassada de aflição,
E o menino ri contente...
Mas treme e grita gelado,
Se das palhas do telhado
Ruge o vento do sertão.
Em 1858 o Dr. Alves (pai de Castro Alves) reconstrói o solar da chácara Boa Vista. Pretende que a sua esposa, exausta mãe de seis filhos, saúde frágil, ali repouse e ganhe forças. Em vão. D. Clélia falece em 1859. Um desgosto e um problema: criar e educar seis filhos. Três anos depois o seu pai se casa pela segunda vez em 24 de janeiro de 1862 com a viúva Maria Rosário Guimarães. No dia seguinte ao do casamento, o poeta e seu irmão Antônio José partiram para o Recife, enquanto o pai se mudava para o solar do Sodré. Começa a frequentar o Teatro Santa Isabel. Fica fascinado por Eugénia Câmara, a Dama Negra, a actriz portuguesa que, de forma gaiata, domina o palco.

Recorda-te do pobre que em silêncio
De ti fez o seu anjo de poesia,
Que tresnoita cismando em tuas graças,
Que por ti, só por ti, é que vivia,
Que tremia ao roçar do teu vestido,
E que por ti de amor era perdido...

Castro Alves Era um belo rapaz, de porte esbelto, tez pálida, grandes olhos vivos, negra e basta cabeleira, voz possante, dons e maneiras que impressionavam a multidão, impondo-se à admiração dos homens e arrebatando paixões às mulheres. Ocorrem então os primeiros romances, que nos fez sentir em seus versos, os mais belos poemas líricos do Brasil. No dia 17 de maio, de 1863 Castro Alves publicou no primeiro número de A Primavera seu primeiro poema contra a escravidão: A canção do africano. A tuberculose se manifestou e em 1863 teve uma primeira hemoptise.
Teve fase de intensa produção literária e a do seu apostolado por duas grandes causas: uma, social e moral, a da abolição da escravatura; outra, a república, aspiração política dos liberais mais exaltados. Data de 1866 o término de seu drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, representado na Bahia e depois em São Paulo, no qual conseguiu consagrar as duas grandes causas de sua vocação. No dia 29 de maio, resolveu partir para Salvador, acompanhado de Eugênia. Na estreia de Gonzaga, dia 7 de setembro, no Teatro São João, foi coroado e conduzido em triunfo.

Em janeiro de 1868, embarcou com Eugênia Câmara para o Rio de Janeiro, sendo recebido por José de Alencar e visitado por Machado de Assis. A imprensa publica troca de cartas entre ambos, com grandes elogios ao poeta. Em março, viajou com Eugênia para São Paulo. Decidira ali - na Faculdade de Direito de São Paulo - continuar seus estudos, e se matriculou no terceiro ano.
Continuou principalmente a produção intensa dos seus poemas líricos e heroicos, publicados nos jornais ou recitados nas festas literárias, que produziam a maior e mais ruidosa impressão; tinha 21 anos, e uma nomeada incomparável na sua geração, que deu entretanto os mais formosos talentos e capacidades literárias e políticas do Brasil; basta lembrar os nomes de Fagundes Varela, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Afonso Pena, Rodrigues Alves, Bias Fortes, Martim Cabral, Salvador de Mendonça, e tantos outros geniais literatos.


Em 7 de setembro de 1868, fez a apresentação pública de Tragédia no mar, que depois ganharia o nome de "O Navio Negreiro".
Tragédia no mar, começa com uma longa e belíssima descrição do oceano, até que o poeta, postado nas alturas, avista um barco que parece navegar alegremente. Então o poeta solicita ao albatroz ("águia do oceano") que lhe dê suas asas para se aproximar da embarcação. Ao mergulhar por sobre o navio, descobre a realidade em todo o seu horror.
As cenas que se sucedem são impressionantes: a violência opressiva dos traficantes; as interpelações exasperadas do poeta, tanto a Deus quanto às forças mais grandiosas da natureza; o repúdio à bandeira nacional que cobre tanta iniqüidade; e, por fim, o apelo aos heróis do Novo Mundo para que dêem um basta à espantosa tragédia: Era um sonho dantesco...O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros...estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar...
Negras mulheres suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães.
Outras, moças... mas nuas, espantadas
No turbilhão de espectros arrastadas
Em ânsia e mágoa vãs.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala
E voa mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali ...
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri...
No entanto o capitão manda a manobra...
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz, do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar." (...)
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! (...)
E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! mas que bandeira é esta
Que impudente* na gávea tripudia?! ...
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto,
Que o pavilhão se lave no teu pranto...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!... (...)
...Mas é infâmia demais... Da etérea plaga*
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!"
O poeta é levado para a Capital em Maio de 69. Fica hospedado na casa do seu amigo Cornélio dos Santos.
Amputação do pé, porém a frio, o seu estado de fraqueza desaconselha o uso do clorofórmio. Galhofa é o escudo contra a dor:
- Corte-o, corte-o, doutor... Ficarei com menos matéria do que o resto da Humanidade.
Valem depois ao poeta os muitos amigos que o cercam durante a longa convalescença. Em 17 de Novembro de 69: Castro Alves enfia a perna esquerda num botim recheado de algodão, assim disfarça o defeito.
Apoiado numa muleta, aí vai ele assistir a um espectáculo de Eugénia Câmara no Teatro Fénix Dramática. Os dois antigos amantes têm ainda uma troca de palavras. Dessa última conversa sobram versos, apenas:
Quis te odiar, não pude. – Quis na terra
Encontrar outro amor. – Foi-me impossível.
Então bem disse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.
Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua:
Não quero mais o teu amor! Porém minh’alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.
Uma semana depois embarca para a Bahia. Doente, e aleijado, o poeta retorna a casa. Sua última aparição em púbico foi em 10 de fevereiro de 1871 num sarau beneficente. Morreu às três e meia da tarde, no solar da família no Sodré na cidade de Salvador na Bahia em 6 de julho de 1871.
ALMEIDA, Norlandio Meirelles. "Cronologia de Castro Alves", Editora D.Pedro II, Guarulhos, 1960.

BARBOSA, Rui. Decenário de Castro Alves, elogio do poeta pelo Dr. Rui Barbosa, seguido de um escrito do mesmo autor pelos escravos às mães de família, Mandado imprimir pela comissão do decenário, Bahia, Typografia do "Diário da Bahia", 1881.
BOAVENTURA, Edivaldo. Estudos sobre Castro Alves, Edfba, Egba, Salvador, 1996.
BOSI, Alfredo. "Sob o signo de Cam" in Dialética da colonização, Companhia das Letras, São Paulo, 1992.
CUNHA, Euclides da. Castro Alves e seu tempo, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1907.

DANTAS, Mercedes. O Nacionalismo de Castro Alves, Editora A Noite, Rio de Janeiro, 1941.
AMADO, Jorge. ABC de Castro Alves: louvações, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1941.

AZEVEDO, Vicente de Paulo Vicente de. O Poeta da liberdade, São Paulo, Clube do Livro, 1971.
BARROS, Frederico Pessoa de. Poesia e vida de Castro Alves, Editora das Américas, São Paulo, 1962.
Castro Alves na página da Academia Brasileira de Letras


 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tá na Hora do Poeta - Meu querido Professor - Renato Cadinelli

Meu querido Professor


Meu querido Professor,
Contigo aprendi a rimar
E por palavras tomei gosto e comecei a brincar.


Meu querido Professor,
Além da sua magia em ensinar Literatura
Você me ajudou a levantar
Quando estendido, não conseguia ficar
E com tua mão ajudou - me a me recompor, e de pé, voltar a caminhar.


Deu - me tantos conselhos
Que levarei para o resto de minha longa jornada
A ti só tenho que agradecer
E tua pessoa, em minha vida, eternamente será marcada.




Renato Cadinelli





*** Gente, literalmente, eu prefiro não comentar!!!! Só quem É professor ( e não ESTÁ ) consegue entender a grandeza deste gesto, deste texto !!!!

A Hora do Poeta - Inconfidência Mineira - Maria Julia / 802 / 2011


Inconfidência Mineira

Somos os inconfidentes
Queremos liberdade
Lucros Portugal não terá
Nós, Minas, vamos salvar

Ideias revolucionárias
Espalhávamos por Minas
Até que houve um traidor
Que nos delatou com muito rancor

Um a um 
Preso e exilado
Exceto Tiradentes, morto e esquartejado.

Fomos símbolos de resistência
Lutamos pela independência
Contra um governo que nos tratava de maneira gananciosa e violenta.


Maria Julia / Turma 802 / 2011

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Crônica do dia - A Literatura e a vida - Betty Milan



( artigo de BETTY MILAN - psicanalista/ escritora- artigo Revista VEJA 14/12/2011)

 Por que ler os clássicos? O que há neles de fundamental para nós? Com essa questão em mente, reli HAMLET, anotando os seus ensinamentos.

Antes de dizer adeus a Ofélia, Hamlet envia a ela um poema: "Duvida de que os astros sejam chamas/Duvida de que o sol gira/ Duvida da própria verdade /Mas não duvida de que eu te amo". Algumas poucas linhas para dizer o essencial sobre o amor. Ou seja, que ele não suporta a dúvida, a desconfiança. Como é patente, aliás, na história de EROS e PSIQUÊ, que vale rememorar.

Sendo o mais terno dos amantes, Eros não deseja ser visto e só vai ao encontro de Psiquê à noite. Desconfiada de que Eros seja um monstro, Psiquê se vale do sono dele para iluminar seu rosto. Surpreendida pela beleza que se revela, deixa cair da lamparina uma gota de óleo quente no ombro do amante, que acorda assustado e vai embora enfurecido.

Também sobre a vida e a morte SHAKESPEARE diz o essencial em poucas linhas. Assim é no diálogo de Hamlet com a rainha, sua mãe. Para fazê-lo aceitar a morte do pai assassinado, a rainha diz: "...tudo o que vive deve morrer, ser levado pela natureza para a eternidade". Palavras sábias. Tanto quanto serão as do novo marido da rainha, o assassino, o rei usurpador, que, temendo a vingança de Hamlet, procura apaziguá-lo com as seguintes palavras: "Viver a tristeza do luto, durante algum tempo, é uma obrigação filial, mas perseverar numa aflição obstinada é indício de teimosia... de um coração sem humildade, de uma alma sem resignação, de um julgamento fraco e malformado".

A leitura dos clássicos se faz necessária pela sabedoria que eles contêm. Em especial, a sabedoria que se refere aos sentimentos humanos. Ela nos faz refletir e viver melhor. HAMLET ensina a não fazer pouco do amor e a não desperdiçar a vida, chorando infidavelmente a morte e a perda.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Te contei, não ? Castro Alves na ABL



Castro Alves (Antônio Frederico de C. A.), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871.
É o patrono da Cadeira n. 7 da Academia Brasileira de Letras , por escolha do fundador Valentim Magalhães.
Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1o ano em 65, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 66, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama Gonzaga e, em 68, vai para o Sul em companhia da amada, matriculando-se no 3o ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa.
No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi afinal amputado no Rio, em meados de 69. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 70 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a saúde comprometida pela tuberculose.
 Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores. Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
Ainda em 70, numa das fazendas em que repousava, havia completado A cascata de Paulo Afonso, que saiu em 76 com o título A cachoeira de Paulo, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: “Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.” Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada da sensualidade de um autêntico filho dos trópicos, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloqüência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando completamente o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire. A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas. Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de “Cantor dos escravos”. A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.
Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da história.
Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século.
 O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, não se podia elevar a objeto estético. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Você pode até não saber, mas isto também é música ... e da boa !


Menino do Rio
Baby Consuelo

Menino do rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção, corpo aberto no espaço
Coração de eterno flerte, adoro ver-te
Menino vadio
Tensão flutuante do rio
Eu canto para Deus proteger-te

Menino do rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção corpo aberto no espaço
Coração de eterno flerte, adoro ver-te
Menino vadio
Tensão flutuante do rio
Eu canto para Deus proteger-te

O Havaí, seja aqui, o que tu sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo

Menino do rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Crônica do dia - Uma dada para ser celebrada? - Marcelo Paixão



Uma data para ser celebrada?

Os desníveis sociais continuam a rimar com cor e raça.

Por Marcelo Paixão


Já se passaram 120 anos desde que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Até cerca de 20 anos atrás, este era um momento cívico de segunda grandeza, mas que mobilizava colégios e outros eventos proclamando a redenção dos escravos. No período presente, debaixo das fortes críticas do movimento negro, o dia passou a ser encarado como uma farsa. Assim, na falta de entusiastas, a efeméride caiu quase que no esquecimento. Mas gostando-se ou não do dia, o fato é que sua realidade histórica existe. E como tal precisa passar pelo olhar crítico dos que o vivem no tempo presente.

O Brasil, tendo sido o maior importador das Américas de africanos seqüestrados em seu continente ancestral (estima-se que tenha chegado a 40% do total), foi o último país do Ocidente a pôr fim ao regime escravista. Terra de transições lentas e graduais, foram necessários exatos 66 anos, desde a Independência, para que não existissem mais escravos em nossas terras. Apenas à guisa de exemplo: em 1888, Karl Marx, célebre por sua crítica ao capitalismo já consolidado na Europa, jazia no cemitério londrino de Highgate havia cinco anos. Pouco importa que desde a década de 70 do século 19 a maior parte dos pretos e pardos não fosse mais escrava. O fato é que importantes centros econômicos do País naqueles idos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, concentravam um amplo contingente de escravizados, geradores de riquezas para a antiga elite senhorial.

Sob a forte pressão da Inglaterra e num contexto de franca expansão dos movimentos abolicionistas, em especial as rebeliões que começaram a se espalhar pelas senzalas de todo o País no período posterior a 1880, as elites locais foram obrigadas a aceitar o inevitável que era o fim do sistema escravista. Até os anos 1920, as teorias forjadas pelas elites intelectuais brancas entendiam que nossa crônica incapacidade ao progresso seria causado pelo fato de sermos originários de africanos, indígenas e portugueses, raças fracas e incapazes para grandes missões históricas. Já a partir da década de 1930, a compreensão dos modernistas de nossa realidade social passou justamente a valorizar essas três matrizes étnicas, bem como a figura do mestiço. Assim, o Brasil seria um país que estaria livre da chaga do racismo. E como tal poderia almejar ocupar um local muito especial ao lado das nações mais prósperas do mundo desde sua condição de uma Europa Tropical, usando o termo caro a Gilberto Freyre. O desenvolvimento econômico traria consigo a igualação nas condições de vida de negros e brancos, pensavam os otimistas de então.

Ambas as compreensões acabam padecendo de problemas específicos. Na primeira vertente, o racismo mais ou menos explícito das antigas elites servia como um elegante modo de se dizer que os escravizados e sua prole, supostamente inferiores, não teriam acesso a direitos sociais, à terra e aos empregos. Na segunda matriz, acabou se operando com um tipo de otimismo que, se por um lado, foi uma útil ferramenta ideológica ao projeto desenvolvimentista, por outro também atuou como um meio de congelamento de assimetrias herdadas do passado.

Ora, uma coisa é se dizer que o povo brasileiro seja majoritariamente mestiço, fato verdadeiro. Outra é dizer que esses mestiços sejam rigorosamente iguais em termos físicos, como se os caracteres herdados (cores de pele, tipos de cabelo, formas de partes do rosto) não fossem usados como mecanismos de classificação social dos indivíduos, posto serem mais ou menos valorizados socialmente. Isso ocorre porque vigoram na sociedade ideologias, racistas, que dão significados simbólicos específicos às diferentes formas humanas, hierarquizando-as. Assim, as pessoas de traços europeus acabam percebendo possibilidades que são sistematicamente negadas pela sociedade, e mesmo pelo Estado, aos de traços africanos. A ideologia da democracia racial, portanto, superestima um dos aspectos da dinâmica social, ocultando a força dos mecanismos de discriminação e seus efeitos negativos para as pessoas identificadas socialmente enquanto negras.

Até 1995, os pretos e pardos formavam 45% da nossa população. Em 2006 esse porcentual atingiu 49,5%, sendo razoável supor, dado o comportamento da série histórica, que venha a aumentar ainda mais nos próximos anos, tornando maioria. Essas alterações revelam que, concomitantemente a movimentos demográficos específicos, pode estar ocorrendo alterações no modo de entendimento de como os brasileiros se vêem, no sentido de uma maior assunção de suas origens não-européias, fato até então inédito.

Por outro lado, apesar da queda das assimetrias de cor ou raça observadas em um período recente em alguns indicadores sociais, nos dias atuais a remuneração média dos negros é praticamente metade da dos brancos. Entre as mulheres negras ocupadas, 75% trabalham como empregadas domésticas ou em outras formas de ocupação sem nenhuma garantia legal. Entre 2000 e 2005, foram assassinadas por hora no Brasil 3,33 pessoas de cor preta e parda. A taxa de analfabetismo dos negros segue sendo mais do que o dobro da dos brancos. Somente 6 em cada 100 jovens negros entre 18 e 24 anos de idade freqüentam instituições de ensino superior. No Congresso Nacional os afro-descendentes não formam sequer 10% dos parlamentares.

Na verdade, seria inútil a tentativa de responder se a data é para ser comemorada ou não. Os desníveis sociais existentes em nosso país se combinam com a própria composição de cor ou raça do País no seu conjunto, fato facilmente constatável nas ruas e demais espaços sociais e tão bem retratados pelos indicadores demográficos disponíveis. O 13 de Maio, assim, seguirá como uma data, decerto importante enquanto marco histórico. Contudo, a tarefa da realização da justiça social para os descendentes dos antigos escravos segue sendo uma agenda - e uma utopia a ser realizada pelo povo brasileiro.

* Marcelo Paixão é professor do Instituto de Economia da UFRJ

Fonte: O Estado de São Paulo

Tá na Hora do Poeta - Deus Negro de Neimar de Barros


DEUS NEGRO


Autor: Neimar de Barros












Eu, detestando pretos,


Eu, sem coração!...


Eu, perdido num coreto,


Gritando: “Separação”!


Eu, você, nós... nós todos,


Cheios de preconceitos,


Fugindo como se eles carregassem lodo,


Lodo na cor...


E com petulância, arrogância,


Afastando a pele irmã.










Mas


Estou pensando agora:


E quando chegar minha hora?


Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!


Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,


Se eu chegasse lá e um porteiro manco,


Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,


E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei


Se a sua mão tateasse pelo trinco,


Como as mãos do cego que não ajudei!










Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!


Se uma criança me tomasse pela mão,


Criança como aquela que não embalei


E me levasse por um corredor florido, colorido,


Como as flores que eu jamais dei!










Se eu sentisse o chão frio,


Como o dos presídios que não visitei!


Se eu visse as paredes caindo,


Como as das creches e asilos que não ajudei!










E se a criança tirasse corpos do caminho,


Corpos que eu não levantei


Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,


Que era vagabundagem, mas era fome!










Meu Deus!


Agora me assusta pronunciar seu nome!


E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,


Da prostituta que eu usei,


Ou do moribundo que não olhei,


Ou da velha que não respeitei,


Ou da mãe que não amei!...










Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,


Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,


Sei lá, só dei desgosto!


E, no fim do corredor, o início da decepção!










Que raiva, que desespero,


Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,


O maldito funcionário, e até, até o padeiro,


Todos sorrindo não sei de quê!


Ah! Sei sim, riem da minha decepção.










Deus não está vestido de ouro! Mas como???


Está num simples trono:


Simples como não fui, humilde como não sou.


Deus decepção!


Deus na cor que eu não queria,


Deus cara a cara, face a face,


Sem aquela imponente classe.


Deus simples! Deus negro!


Deus negro!?










E Eu...


Racista, egoísta. E agora?


Na terra só persegui os pretos,


Não aluguei casa, não apertei a mão.


Meu Deus você é negro, que desilusão!


Será que vai me dar uma morada?


Será que vai apertar minha mão? Que nada!










Meu Deus você é negro, que decepção !


Não dei emprego, virei o rosto. E agora?


Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?


Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?










Deus, eu não podia adivinhar.


Por que você se fez assim?


Por que se fez preto, preto como o engraxate,


Aquele que expulsei da frente de casa!










Deus, pregaram você na cruz


E você me pregou uma peça:


Eu me esforcei à beça em tantas coisas,


E cheguei até a pensar em amor,


Mas nunca,


nunca pensei em adivinhar sua cor!...










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