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domingo, 28 de abril de 2013

Te Contei, não ? - Ele acredita na rapaziada

O romancista americano John Green tornou-se um fenômeno do segmento jovem com livros que prestam homenagem à inteligência dos adolescentes

Jerônimo Teixeira

Os personagens de John Green costumam ser adolescentes - e muito inteligentes. Colin Singleton, o herói de O Teorema Katherine (tradução de Renata Pettengill; Intrínseca; 304 páginas; 29,90 reais, ou 19,90 reais na versão digital), recém-lançado no Brasil, é um gênio matemático com estranhas fixações verbais: só namora meninas chamadas Katherine (a narrativa começa, aliás, quando o personagem leva um fora da décima nona namorada da série). A Culpa É das Estrelas, também publicado no Brasil pela Intrínseca, é narrado e protagonizado por Hazel Grace, uma adolescente que sofre ~ de câncer na tireoide e tem ~ adoração fervorosa pela obra de Peter Van Houten, escritor americano que publicou um único romance e se exilou na Holanda. Van Houten é fictício, mas a obra traz outras referências literárias, a começar pelo título, que cita Julio César, de Shakespeare. Pela voz de Hazel, Green fala em Vladimir, Estragon e Godot e não se sente obrigado a dizer em que peça teatral esses personagens figuram, e cita versos de A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock sem nomear o autor do poema. O escritor americano dá de barato que o leitor adolescente conhece esses clássicos, ou que, caso não os conheça, será esperto o bastante para buscar a informação nos livros ou naintemet (o leitor presumivelmente adulto desta resenha terá percebido que a mesma fé acaba de ser depositada sobre ele). Parece ter funcionado: A Culpa É das Estrelas vendeu cerca de 1 milhão de exemplares nos Estados Unidos. No Brasil, foram perto de 90000, e contando: nesta semana, a obra está em sexto lugar. na lista de mais vendidos de ficção em VEJA. Aos 35 anos, com cinco livros publicados, John Green é uma estrela do segmento chamado de young adult - a literatura para adolescentes e jovens, que, pelo menos antes do estouro do erotismo soft com Cinquenta Tons de Cinza, era o grande esteio da indústria editorial americana. "Não me oponho ao rótulo, mas talvez os leitores adultos de A Culpa É das Estrelas possam se incomodar com ele". diz Green. "Gosto de escrever para adolescentes e sobre adolescentes. É um privilégio falar com um leitor que está formando os valores que carregará para toda a vida."
A conversa de Green com adolescentes e "jovens adultos" (assim se traduz literalmente young adult) não se limita aos livros. Ao lado do irmão Hank, que tem um selo de música e um site voltado para temas ambientais e tecnológicos, o escritor mantém um canal no YouTube, o VlogBrothers, com mais de 1,1 milhão de seguidores. O número é tanto mais impressionante quando se considera a simplicidade da produção: sem efeitos ou firulas, os vídeos se limitam a mostrar os dois irmãos, altemadamente, falando para a câmera sobre temas contemporâneos - como o casamento gay, as recentes ameaças bélicas da Coreia do Norte ou o atentado a bomba na maratona de Boston. John mora em Indianápolis, no estado de Indiana, onde sua mulher é curadora de arte contemporânea em um museu local. Hank mora em outro estado, Montana. Os vídeos, portanto, têm a forma de uma esticada conversa entre dois irmãos. Pela intemet, o duo também levanta dinheiro para causas de caridade. E os dois irmãos ainda se arriscam no palco, com um show de variedades piadas, sessões de perguntas e respostas com a plateia, canções sobre física e sobre Harry Potter - que já foi apresentado no venerando Camegie Hall, em Nova York. Os empreendimentos da dupIa na internet ganharam aprovação oficial: a convite do Google, John Green participou, junto com outras personalidades da internet, de uma videoconferência com Barack Obama. E pediu ao presidente que resolvesse uma disputa familiar: que nome dar a sua filha, que deve nascer em junho - Alice ou Eleanor? O presidente, muito político, esquivou-se da escolha.
Embora Green diga que não é de forma alguma o líder de um culto ("cultos pedem dinheiro dos seus membros"), os seguidores do VlogBrothers compartilham uma certa identidade de grupo. Definem-se como "nerdfighters". "O nerdfighter é o nerd que celebra a sua 'nerdidade"', define Green. Ou seja, é o nerd que, longe de se envergonhar de sua coleção de livros de ficção científica e de bonecos de super-heróis, tem orgulho de se dedicar a essas coisas. As obras do autor, porém, não se enquadram exatamente no padrão da turma. Sim, O Teorema Karherine traz um apêndice, escrito por um matemático, com gráficos e equações que pretendem explicar relações amorosas tal seria o modo nerd de compreender o amor (ou, antes, de superar uma desilusão amorosa). Mas as histórias de Green não se passam em planetas distantes ou em reinos medievais mitológicos. Seja no registro humorístico de O Teorema Katherine ou no melancólico de A Culpa É das Estrelas, a literatura de Green é miudamente realista e firmemente ancorada nos dias de hoje. Seus adolescentes conversam por mensagens de celular e jogam videogames. O espírito literário de Hazel não tem muito a ver com a "nerdidade". "Eu diria que a maioria dos que acompanham meu blog em vídeo não leu meus livros, e a maioria dos que leram meus livros não me segue na internet", especula Green.
Um ponto, porém, une os personagens de Green aos nerds: a propensão à atividade intelectual. Hazel e seu namorado, Augustus Waters, esbanjam cultura e inteligência em seus diálogos. Talvez até demais: em alguns momentos, a naturalidade se esvai, e parece que os personagens não estão conversando, mas lendo um roteiro. Ambos vitimados pelo câncer - ela tem capacidade respiratória comprometida e não pode sair de casa sem o tanque de oxigênio; ele perdeu uma perna para um osteossarcoma -, falam de seus dramas com ironia e desassombro, e sem nenhuma concessão a chavões como "superação". Green aceita a classificação de young adult, mas recusa vigorosamente - e com razão - o pejorativo rótulo sick lit (literatura de doença - veja o texto ao lado e a entrevista do autor na página anterior). O autor estudou em uma universidade religiosa e chegou a considerar a possibilidade de ser ministro episcopal. A vocação religiosa não vingou, mas, mesmo nos genericamente céticos Hazel e Augustus, há uma certa chama espiritual, uma inquirição sobre ordem e sentido em um mundo de sofrimento. "Não sei se acredito nessa ordem", diz John Green. "Mas acredito na esperança de que ela exista."
"Não quero ser mais famoso"

Autor best-seller e estrela de um canal do YouTube com 1,1 milhão de seguidores, o americano John Green, 35 anos, falou a VEJA sobre a inteligência dos adolescentes - especialmente dos que o seguem na internet.

Adolescentes são mais inteligentes do que supomos? Adolescentes são, sim, mais inteligentes do que os adultos pensam - apenas não agem de forma inteligente quando estão na nossa presença. Eles se sentem desconfortáveis, intimidados perto de nós, e por isso raramente temos a oportunidade de ver o melhor deles. Felizmente, eu tenho essa oportunidade. Vejo os comentários que eles deixam no blog, e eles se mostram muito interessados e inteligentes. Não todos, é claro, mas a maioria deles.

O que o senhor pensa do termo sick lit (literatura de doença], com o qual se tem caracterizado A Culpa É das Estrelas? Parece até que fui eu que inventei o romance sobre doenças. E A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez? Os jornais têm de criar essas classificações. Eu não quis retratar a doença como sendo transcendente, nem passar a mensagem de que ela nos ensina a sermos gratos por cada dia - nenhuma besteira dessas. Apenas tentei escrever uma história honesta sobre o câncer.

O senhor escreve romances de sucesso e, em parceria com seu irmão Hank, faz vídeos na internet e apresentações em teatros. Pensa em ex· pandir suas atividades para a televi· são, por exemplo? Gosto de muitas séries televisivas, como The Walking Dead, mas não gosto de televisão em geral. E, para ser completamente honesto: não quero ser mais famoso. Não tenho desejo nenhum de ser mais reconhecido na rua.
O romantismo das doenças

Livros sobre adolescentes.afetados por doenças terminais, depressão, crises psiquiátricas e eventuais tendências suicidas contam-se às dezenas nos Estados Unidos e na Inglaterra. Depois dos vampiros da série Crepúsculo, esta parece ser a nova tendência do mercado de literatura juvenil - tendência que ainda não se verificou no Brasil: afora A Culpa É das Estrelas, de John Green, apenas As Vantagens de Ser Invisível (Rocco), de Stephen Chbosky, sobre um adolescente cujo melhor amigo cometeu suicídio, tem frequentado a lista de mais vendidos de VEJA. O termo que se popularizou para nomear essa vertente tem algo de derrisório: sick lit (literatura de doença) ecoa chick lit (literatura para garotas), gênero bobinho cujo grande expoente foi O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding. John Green relativiza o termo lembrando que doença e sofrimento sempre foram temas da grande literatura - eis aí A Morte de Ivan IIitch, de Tolstoi, ou, para citar só um exemplo recente da literatura adulta, Homem Comum, de Philip Roth. Há críticos, porém, que acusam os romances "doentios" voltados especificamente para adolescentes de crimes os mais variados, da trivialização à glamourização da doença e até do suicídio. Tal foi o tom de um artigo inacreditavelmente moralista publicado pelo jornal inglês Daily Mail em janeiro.
A glamourização da doença, porém, também não é novidade: o século XIX praticamente fez da tuberculose uma heroína romântica, como se atesta na agonia da cortesã de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. Ainda que o escritor que se dirige a mentes jovens e impressionáveis talvez tenha de exercer certa prudência, o fato é que muitos adolescentes gostam de temas mórbidos em geral, e em particular do apelo romântico associado à morte de um jovem apaixonado. Embora não se possa negar uma forte veia sentimental em A Culpa É das Estrelas - e o próprio autor admite que chorou ao escrever todos os seus livros, com exceção do bem-humorado O Teorema Katherine -, ela está dosada no limite certo para jamais descambar no dramalhão. Não há sensacionalismo trivial, nem se idealiza o câncer que atormenta os dois protagonistas. Hazel, a narradora, é brutalmente realista no modo como fala do próprio sofrimento. Não oferece consolo fácil. Eis mais uma qualidade que pode conquistar o jovem leitor: este é um livro que não tenta enganá-Io.

Revista Veja

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Resenhando - Na trinha de " A Cabana "

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Há seis meses, a lista de livros de ficção mais vendidos no Brasil vem sendo liderada pela trilogia “50 Tons”, da inglesa E.L. James. Agora, um novo título começa a ameaçar essa hegemonia – e com uma trama que foge completamente do tom erótico da série best-seller. Trata-se de “A Travessia” (Arqueiro), novo romance do escritor canadense William P. Young, que se tornou célebre com a sua obra de estreia, “A Cabana”. Misto de ficção, autoajuda e religião, o livro teve a primeira edição fixada em 300 mil exemplares. Esse número já dá ideia de seu poder de fogo: as tiragens iniciais das publicações da editora Sextante (à qual pertence o selo Arqueiro) variam entre três mil e 12 mil exemplares.

A alta aposta faz sentido. Publicado em 2008, “A Cabana” é o segundo livro mais vendido no País nos últimos dez anos, com cerca de três milhões e meio de cópias. Perde apenas para “Ágape”, de autoria do padre Marcelo Rossi, que vendeu oito milhões de exemplares. Canadense de 57 anos e filho de missionários religiosos, o escritor passou a juventude em uma tribo na Papua-Nova Guiné, trabalhou como DJ e salva-vidas até formar-se em teologia e, na sequência, tornar-se um fenômeno editorial. Quando escreveu o primeiro livro fez apenas 15 impressões do original – seis delas destinadas aos filhos. Os amigos fizeram o boca a boca, mas chegar às editoras não foi fácil: as mais independentes o achavam exageradamente religioso; as cristãs o consideraram herético. Uma delas acreditou no relato e o resultado foram 18 milhões de exemplares vendidos mundo afora.
Na mesma trilha, “A Travessia” também acompanha um homem em busca de redenção existencial e espiritual. Centra-se em Anthony Spencer, multimilionário egocêntrico que após sofrer um derrame e descobrir-se vítima de um tumor cerebral passa a ter visões de Jesus e do Espírito Santo. Premiado com uma segunda chance de voltar à vida e reparar os erros, ele passa a ter o poder da cura – mas só poderá salvar uma pessoa. Esse tipo de enredo espiritualista poderia estar em uma obra de Paulo Coelho, a quem Young é comparado. Diferentemente do autor brasileiro, ele segue uma linha cristã mais tradicionalista e menos mística, mesmo que pouco ortodoxa ao retratar figuras religiosas.
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Revista Isto É

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Entrevista - "Ninguém mais aguenta um Deus distante" - William P. Young

Na fronteira obscura entre a autoajuda, a religião e a literatura, o canadense William P. Young ergueu sua tenda de milagres. Seu romance A cabana, de 2007, conquistou 18 milhões de leitores em todo o mundo com sua forte mensagem religiosa. O livro narra a história de um homem atraído para uma cabana misteriosa após o desaparecimento de sua filha. Lá ele encontra Deus, personificado como uma mulher negra e bondosa. Em seu novo romance, A travessia (Editora Arqueiro), Young retoma sua espiritualidade exótica com a história do executivo milionário que encontra Jesus e o Espírito Santo depois de entrar em coma devido a um derrame. Em entrevista a ÉPOCA, Young fala sobre seu novo livro, sua visão religiosa e as críticas que recebeu.
O GURU E A CABANA William P. Young numa floresta próxima a sua casa. Seus livros mostram um Deus personificado, que os personagens podem encontrar no dia a dia (Foto: divulgação)
ÉPOCA – Seu livro é uma obra de ficção, mas concorrerá com títulos que relatam experiências sobrenaturais. O que acha dessa disputa?
William P. Young – Acho que todos nós já tivemos alguma experiência sobrenatural. Muitas vezes o sobrenatural está oculto no dia a dia. Um pôr do sol, um arco-íris ou o choro de um recém-nascido podem ser experiências sobrenaturais. Já tive vários sonhos em que sei que conversei com Deus. Tenho certeza disso. Deus também fala comigo por meio da minha família, dos meus amigos ou até mesmo de inimigos. Não há motivo para separar as experiências sobrenaturais dos pequenos encontros com Deus que ocorrem em nossa vida cotidiana. Deus está presente em todos os momentos. Acreditar no sobrenatural é fácil demais. O mais difícil é encontrar a espiritualidade na vida real. É preciso trabalhar duro para isso.

ÉPOCA – A travessia pode ser lido como continuação de A cabana?
Young – Não exatamente. É uma continuação de certa forma, porque é um livro sobre Deus, sobre a transformação do coração humano pela fé e sobre relacionamentos, mas com uma história totalmente diferente. É escrito naquele mesmo gênero que ninguém conseguiu explicar, incluindo eu.

ÉPOCA – Como o senhor descreveria esse estilo?
Young – Espiritualidade realista, talvez (risos)? Tudo o que escrevo é centrado na mesma pergunta: o que aconteceria se, em meio a nossa vida cotidiana, deparássemos com as ações de um Deus que trabalha a nosso favor, que nos ama e quer que sejamos pessoas melhores? Quando decidi lançar A cabana, 26 editoras recusaram o livro. O motivo que elas davam era sempre este: o livro não era parecido com nada que havia sido lançado até então, e era um risco apostar em algo tão incomum.


ÉPOCA – Por que a espiritualidade vende tanto?
Young – Os avanços da sociedade não atendem todas as nossas necessidades. A tecnologia só aumenta nossa angústia espiritual. Mesmo quando estamos conectados 24 horas por dia, temos muito tempo para pensar na vida e notamos que há espaços vazios em aspectos importantes dela. Queremos que a vida seja mais que isso. Não sou inteligente o suficiente para dizer que entendo as angústias da sociedade como um todo, mas o sucesso da espiritualidade mostra que há muitas pessoas fazendo as mesmas perguntas. O que meus livros fazem é colocar Deus no dia a dia, com uma linguagem amigável. Isso é algo que a religião organizada dificilmente faz. Com a linguagem de meus livros, os leitores podem falar de espiritualidade com seus amigos, com sua família.

ÉPOCA – É uma missão bastante ambiciosa...
Young – Não diria que é uma missão. Nada disso foi proposital (risos). A primeira versão de A cabana foi escrita como um presente de Natal para meus filhos. Tenho seis filhos: o mais velho tem 32; o mais novo, 19. Juntando família e amigos, pensava em atingir 15 pessoas no máximo. Meus pais foram missionários, fui criado numa tribo indígena. Tive uma vida espiritual muito intensa. Sempre pensei muito sobre Deus e queria reunir num lugar todos os meus pensamentos sobre o assunto. Foi por isso que escrevi A cabana. A semana que o personagem principal passa na cabana corresponde a 11 anos da minha vida em busca de respostas. É minha história espiritual em forma de ficção. A travessia é o primeiro livro que escrevo com o propósito de ser lido. Gosto de contar as histórias que meu coração manda contar, e elas encontram lugar no coração do leitor sem pedir permissão. Quanto mais leitores quiserem compartilhar essa história comigo, mais satisfeito ficarei. Não vejo isso como uma meta. Se só minha mulher e meus filhos gostarem do livro, tudo bem. Eles gostaram, aliás.


ÉPOCA – A história de A travessia é tão pessoal quanto a de A cabana?
Young – Tenho um pouco em comum com o personagem principal. Ele é um homem ambicioso, egoísta, com um coração fechado... Todos nós somos assim quando pisamos demais no acelerador e entramos numa rotina sem reflexão. Quis criar um personagem detestável, porque sei que eu mesmo não era um personagem muito agradável quando tinha meus 30 anos. Minha transformação é parecida com a dele. A travessia é um livro mais humano do que autobiográfico. A história é sobre como atravessamos momentos de cegueira. Atravessamos a vida sem pensar, mas momentos traumáticos como doenças e grandes perdas nos fazem parar e pensar em como nossas escolhas afetam quem está a nosso redor. A vida é um convite diário para mudarmos para melhor, mesmo nos menores gestos. Ao contrário do meu personagem, já cheguei aos 57 anos. É tempo o bastante para perceber que cada detalhe da vida é sagrado. É possível ouvir o Espírito Santo no rock. Ou na bossa nova!

ÉPOCA – Se o senhor lesse o livro aos 30 anos, quando era parecido com o personagem principal, como reagiria?
Young – Nunca pensei nisso. Das duas, uma: ou acharia ridículo, pois tinha uma formação religiosa muito rigorosa e não daria bola para esse tipo de espiritualidade, ou daria uma chance ao livro e economizaria uns bons 30 anos de reflexão (risos). Acho que não me sentiria à vontade lendo um livro que mostrasse Deus como uma mulher negra. Fui criado para acreditar num Deus rigoroso, severo, e isso fez com que eu fosse uma pessoa severa por muito tempo. Não percebia que nossa visão de Deus é formada por meio de relacionamentos, e que eles podem nos curar. Essa é a mensagem central de A cabana, e ninguém dizia isso naquela época. Foi duro aprender sozinho.
ÉPOCA – Por que A cabana enfrentou resistência de religiosos?
Young – Tem a ver com a maneira livre como A cabana representa Deus. Se eu lesse um livro como esse na minha juventude, também ficaria chocado. O uso de imagens e metáforas para falar de religião não deveria chocar. A Bíblia é cheia de metáforas. No Novo Testamento, Deus aparece como uma mulher que perdeu uma moeda. Há representações de Deus como uma águia, como uma rocha. As imagens não definem Deus. Elas servem apenas para nos ajudar a entender sua natureza. Sabemos que Deus não é um homem ou uma mulher, mas podemos abrir um pouco a cabeça. Ninguém mais aguenta aquela imagem ocidental de um Deus infinitamente distante, intocável, desconhecido e impassível, que assiste a nossas vidas com um olhar reprovador. Não é nisso que acredito.

ÉPOCA – O que o senhor diria a quem não leu seus livros, mas os critica?
Young – Não sei se eles ouviriam o que tenho a dizer. Eu os convidaria a arriscar a ler uma página ou outra, quando estiverem prontos. A leitura pode ser crítica, não importa. O importante é que a leitura desperte um sentimento em alguém. As pessoas que criticam A cabana sem nem sequer ter lido só ouviram falar do livro, mas já o detestam. Imagino que não lerão A travessia e o detestarão também. Se realmente lessem, meus livros bagunçariam seus paradigmas religiosos e talvez causassem indignação. Gosto desse tipo de debate. A polêmica é um convite ao crescimento espiritual. Minhas crenças de hoje são muito diferentes das que eu tinha há dez anos. E há dez anos achava que estava certo sobre tudo.

EPOCA – Seu estilo lembra o de Paulo Coelho. O senhor conhece a obra dele?
Young – Conheço, é claro. É uma grande honra ser comparado a ele. Mas ele lida com a espiritualidade de forma muito mais geral, cheia de misticismo. Tenho uma formação cristã muito tradicional, e isso transparece nos meus livros. Escrevo sobre Jesus, sobre o Espírito Santo. Gosto muito da obra de Paulo Coelho. Os brasileiros adoram livros como os meus graças a ele. São leitores que abraçaram a espiritualidade com muita força. A cabana foi lançado em 41 idiomas e vendeu bem em quase todos os países onde saiu, mas os leitores brasileiros sem dúvida são os mais apaixonados. E é recíproco. Fui ao Brasil duas vezes. É um país especial para mim. Sabia que já assisti a um show de Cauby Peixoto?

ÉPOCA – Como foi essa experiência?
Young – Estive no Brasil em 2009 com alguns amigos e, antes de meus compromissos, tive um dia livre em São Paulo. Disse a meus amigos que queria ouvir música brasileira, e me ofereceram duas opções: um show instrumental de bossa nova por US$ 4 ou o “Frank Sinatra brasileiro” por US$ 20. Escolhi o Sinatra por US$ 20, claro (risos). Não tinha ideia de quem era o sujeito. De repente, aparece aquele senhor de peruca, que precisa de ajuda para subir ao palco. E, daquela boca, saíram alguns dos sons mais belos que já ouvi. Foi uma noite incrível. Depois fiquei sabendo que alguns amigos brasileiros tentam assistir àquele show há anos e nunca tinham conseguido. Deus tem um excelente senso de humor! 


Revista Época  

segunda-feira, 26 de março de 2012

Te Contei, não ? - O Homem que criou o Natal



Há duas semanas, em algumas cidades do norte de Portugal, cartazes apregoavam pelos postes: “Chamo Andréia Ferreirinha, tenho 26 anos e sou formada em educação infantil. Estou desempregada e aceito emprego de qualquer coisa. Meu e-mail é...”. Enquanto isso, em Atenas, o funcionário de uma creche encontrava este bilhete: “Não virei mais buscar a Anna porque já não tenho possibilidades de cuidar dela. Por favor, tomem conta da minha filha. Desculpem. A mãe dela”. 

São apenas dois exemplos da crise que assola a Europa e que a tornam explicitamente dickensiana – termo derivado do escritor inglês Charles Dickens. Se kafkiano descreve um contexto existencialmente absurdo, dickensiano evoca circunstâncias socialmente dramáticas. Dickens nasceu em 7 de fevereiro de 1812 e, duros ou não, os britânicos comemorarão seu bicentenário como se a coisa não estivesse preta. Em plena recessão e com o euro grogue, o autor de Oliver Twist saúda e pede passagem. 

Dickens entendia de crise. O pai dele trabalhava na administração da Marinha – ironicamente, no departamento que fazia a folha de pagamentos –, mas torrava mais do que ganhava, para manter uma fachada de respeitabilidade vitoriana. Resultado: quando Charles tinha 12 anos, seu pai foi preso por dívidas na penitenciária de Marshalsea, com toda a família, menos o futuro escritor. Ainda criança, Dickens teve de dar duro numa fábrica de graxa para sapatos. Com o dinheiro, sustentava os parentes atrás das grades. Mais tarde, a situação melhorou, pois o pai recebeu uma herança inesperada. Mas o menino continuou a bater o ponto na fábrica por mais alguns meses – nunca perdoou sua mãe por isso. O episódio marcou-o para o resto da vida. Contou-o apenas a sua mulher e a seu amigo e biógrafo autorizado, John Foster, que o revelou depois da morte do autor. 
Para celebrar, neste ano, o bicentenário de Dickens, o Museu de Londres hospeda, até junho, a maior exposição já montada sobre um escritor. Para os britânicos, a estatura de Dickens só tem paralelo em Shakespeare, como avatar literário da alma nacional. Como o Bardo, o autor de Um conto em duas cidades povoou um verdadeiro parque temático, uma Dickenslândia de personagens memoráveis: Ms. Havisham, a solteirona de mal com o cosmos de Grandes esperanças; Uriah Heep, a reptiliana nêmesis de David Copperfield; o próprio David Copperfield, a decência espontânea e jovial; Oliver Twist, a inocência infantil inquebrantável e incorruptível. Essas e outras figuras indeléveis se entranharam no imaginário britânico e se transfiguraram em arquétipos – por meio do desenho animado, da TV, do teatro e do cinema, conquistaram pacificamente o mundo. 

O melhor exemplo da dimensão de Dickens é Um conto de Natal, escrito em menos de seis semanas. De certo modo, essa narrativa criou o Natal moderno – se não exumando o significado de um cristianismo puro, humilde e comunitário, ao menos resgatando uma espiritualidade e convivialidade festivas, de concórdia entre os homens. Sem entronizar o consumismo: quando o ex-pão-duro Scrooge sai de casa regenerado, rumo à casa de seu sobrinho, leva de presente não uma Daslu inteira, porém um singelo peru assado. Quando Dickens morreu, aos 58 anos, conta-se que uma menina, ao ouvir sobre a morte dele, teria perguntado se o Papai Noel também ia morrer. 

Estima-se que foram rodados 180 filmes baseados nos livros de Dickens – cada uma das obras foi filmada no mínimo duas vezes. Os intérpretes de suas personagens vão de sir Alec Guiness e Michael Caine ao Tio Patinhas de Walt Disney (diretamente decalcado do sovina Ebenezer Scrooge, de Um conto de Natal), passando pela Miss Piggy dos Muppets. O filme mais antigo ainda sobrevivente remonta a 1901 – outra adaptação de Um conto de Natal. Diretores como David Lean, Carol Reed e Roman Polanski rodaram fitas a partir de obras de Dickens. Mike Newell acaba de filmar mais uma versão de Grandes esperanças, com Ralph Fiennes no papel do imortal protagonista Pip (baseado em Dickens), sempre arrastando a asa pela esquiva e marmórea Stella. Como afirma o curador da exposição, Michael Eaton, “a sofreguidão por Dickens atesta que ele não está morto, que não se reduz a um fóssil entalado em prateleiras empoeiradas que ninguém procura. Pelo contrário, suas obras continuam ressoando através de nossa cultura”. Dickens repudiou a mulher e a difamou publicamente para juntar-se a uma garota de 18 anos " 

Dickens destoa da definição de clássico dada por Italo Calvino: “Um autor que ninguém gosta de ler, mas que todo mundo gostaria de ter lido”. Já é chover no molhado, mas a enésima prova da perenidade de Dickens são duas mastodônticas biografias lançadas agorinha mesmo na Inglaterra: Charles Dickens, a life, de Claire Tomalin, e Becoming Dickens, the invention of a novelist (Tornando-se Dickens, a invenção de um romancista), de Robert Douglas-Fairhurst. 
Dickens pontificava sobre a idílica santidade do casamento e dos valores familiares, que, de acordo com a norma vitoriana, domesticavam as pulsões inconvenientes do homem. No entanto, na intimidade era um vulcão sexual, recordando a frase de Freud sobre a boa consciência na psique humana, que “em sua própria casa reina mas não governa”. Dickens casou-se jovem e teve dez filhos com a mulher, Catherine. Esta nem sequer era a rainha do lar. O marido determinava onde, como e com quem a família vivia. Catherine reduzia-se ao papel de poedeira eficaz, eternamente grávida. Como a maioria dos homens de sua época, Dickens nunca ligou para nenhum tipo de controle da natalidade. 
Em 1858, já um divo planetário, ele separou-se da mulher – o divórcio era então um anátema, uma lepra social. Dickens continuou a sustentar Catherine enquanto esta viveu. Mas lançou contra ela uma sórdida campanha de difamação, a fim de melhorar sua saída de fininho. Publicou uma declaração alegando que Catherine sofria de “desordem mental” e “era alcoólatra” – tudo mentira. Foi mais longe, proclamando que “ela estava satisfeita por se ver livre dos filhos, e estes por se livrarem dela”. Ainda hoje, o verbete da Wikipédia sobre Dickens papagueia tal ignomínia. Anos depois, Katey, a mais inteligente da prole de Dickens, disse: “Era como se meu pai tivesse surtado”. 
Consta que, pouco antes da separação, Dickens teve um caso com sua cunhada Georgina – esta, por sinal, não se fez de rogada e foi morar com ele, oficialmente para “cuidar da casa”. A essa altura, o escritor fez tratamento contra uma doença venérea. Aos 46 anos, Dickens tinha-se apaixonado por uma atriz de 18 anos, Ellen Ternan, que se tornou sua companheira até o fim da vida e deu à luz um filho dele, morto prematuramente. Daí a necessidade de demonizar Catherine, como se a pobre matrona vitoriana, insípida e rechonchuda, fosse uma espécie de Lady Macbeth. Ele pouco escreveu depois daquele episódio, preferindo se aventurar num torvelinho extenuante de leituras públicas de sua obra. Nem precisava: já era uma estrela pop desde a edição em folhetim de As aventuras de Mr. Pickwick, ainda assinado sob o pseudônimo de Boz. 

O romance só deslanchou depois da aparição do inesquecível Sam Weller, o impagável (e mal pago) criado do protagonista, uma versão dickensiana de Sancho Pança. Aí, desembestou: em uma semana, pulou de 4 mil para 40 mil exemplares vendidos. 

Claro, a obra de Dickens não passou incólume pela crítica. Virginia Woolf e Henry James torceram o nariz para o que condenavam como “excesso de coincidências” e “sentimentalismo”. Dickens apenas dava de ombros. Inverossímil? Mas o pai dele, que fazia folhas de pagamentos para o governo, não tinha sido preso por dívidas e depois solto graças a uma herança mirabolante? Como Shakespeare, Dickens nunca foi um intelectual, alguém para quem as ideias são mais importantes que as pessoas. Foi assim que engendrou peripécias e seres picarescos e justiceiros, cômicos e trágicos, grotescos e sublimes. Como diz a biógrafa Claire Tomalin, “ele viu o mundo com mais acuidade do que nós e reagiu ao que viu com gargalhadas, indignação, horror – e, por vezes, soluços”. 

As duas avantajadas biografias simultâneas de Charles Dickens não são uma aberração editorial. Quando se trata do criador dos fantasmas dos Natais passado, presente e futuro – que assombram o personagem Scrooge –, nunca há escassez de mercado. De catedráticos a leitores comuns, passando pelos telespectadores mais alheados, somos todos macacas de auditório.


Revista Época