domingo, 30 de agosto de 2015

Artigo de Opinião - O peso do preconceito -

Flávio Fernandes
Há uma minoria no país que é altamente discriminada e que sequer é reconhecida e organizada como uma minoria. Estou falando dos obesos mórbidos.

sábado, 29 de agosto de 2015

Artigo de Opinião - A morte de Eduardo e a maioridade penal

morte brutal do menino Eduardo de Jesus Ferreira, de apenas 10 anos de idade, no Complexo do Alemão na semana passada, está diretamente relacionada ao debate sobre a redução da maioridade penal. Não há como discutir este assunto sem olhar de perto as condições de vida dos jovens das periferias do Brasil.
Aos 16 anos, Kiko já “puxa um bonde” e assalta diariamente no Centro da cidade.
"Se mudar a lei, tu não tens medo de ser preso, Kiko?" 

"Não."

"Tu não tens medo de morrer?"
"Não."

O Kiko não nasceu bandido, tampouco destemido. Ele era um guri bastante amedrontado até… Mas foi ficando esperto com o passar dos anos. Quando ele fez 14 anos, pediu um tênis de 300 reais para o pai, que não pode dar. A mãe ofereceu comprar um de 180, mas ele achou ruim. Saiu de casa à noite, indignado por passar de ano e não ganhar o que queria. Ele nunca mais voltou, e hoje tem uma coleção de calçados, perfumes e roupas. Mas do que isso, ele hoje tem poder. Pouco importa, para Kiko, ser preso aos 16 ou aos 18. Muitos meninos desse mundo não vivem muito. Ele prefere o risco e ter uma vida empoderada. Mulheres e marcas de luxo são exibidas nos bailes funk. Eu acho que ele vai mudar de opinião sobre a morte se um dia estiver sofrendo de dor por conta de um tiro ou uma facada que levar. Ele tem raiva e orgulho. "Pela primeira vez eu tenho poder e sou respeitado. As pessoas sabem meu nome", dizia ele.
Eu tenho certeza que qualquer leitor que conhecer o beco onde Kiko se criou entenderá que ele fez uma escolha moralmente errada, mas não irracional. O lugar é a síntese do conceito de multidimensional da pobreza: falta tudo, absolutamente tudo. E toda essa falta sistêmica está interconectada com o tráfico, a polícia que extorque todos os dias, e o Estado que só se faz aparecer em época de eleição ou por meio da repressão violenta. Kiko tinha nove anos quando viu sua vizinha ser atropelada e ficar agonizando como aqueles animais de estrada que o carro passa e vai embora. Ele tinha as pernas finas, jogava uma pelada e brincava de carrinho quando viu a filha recém-nascida de seu outro vizinho ficar paralisada porque não teve atendimento médico. A menina respira por sondas, mas isso nem sempre funciona bem porque não há energia no local para fazer funcionar o aparelho. O pai da criança deveria receber dinheiro do Estado para a compra de leite especial, mas não recebe e nenhum burocrata dá satisfação alguma.
O Kiko também viu o seu pai chegar ao posto médico de jejum às sete da manhã para um exame, depois de um ano esperando por este dia, e ter sido atendido apenas às nove da noite. Desmaiou de fome. Ninguém levou comida, porque ninguém tinha dinheiro para pegar ônibus e ir até lá. O menino soube que ninguém se importou quando seu pai desmaiou na sala de espera e as atendentes do posto trataram-no como um rato imundo. Ele viu de perto a casa do vizinho pegando fogo, o mesmo vizinho que tem câncer e é também é tratado como um ser de menos valor nos hospitais. Ele viu o tráfico local pagar semanalmente 3500 reais para a polícia. Kiko não teme ser preso porque a prisão, na verdade, é um lugar bem conhecido em sua comunidade.
Preconceito e humilhação de todas as ordens marcaram sua socialização. Hoje, ele diz não ser mais um fracassado e, assim, mostrou sua música preferida, Sem Limites, um funk do MC Duduzinho
Axé, Erê, Senhor, sempre o meu pastor, Nada me faltará e sempre me guardar. Por onde eu andar, não me deixa cair. E se o dia for triste, faça ele sorrir. (…) Eu sei, que a vida não é fácil não. Me desculpe mãe, por essa contra mão. Pedi perdão ao pai, mas ainda estou bem, Pois nessa escola da vida sempre sonhei em ser alguém. Dificuldade pra mim nunca me diminuiu.(…) O covarde vive muito nesse mundo louco. Mas, eu prefiro morrer, pra nascer de novo. Sem limites, eu sempre fui um moleque sem limites. Acostumado a viver no crime, e sem ter hora pra voltar. São Jorge protetor, tem sempre meu valor. Eu tatuei em mim, pra nunca sentir dor. Pai de revoluções, quem crê diga amém. E se ele lutou, eu vou lutar também. Vou fazer rico beijar o pé de quem é pobre. E quem é pobre subir, mas nunca ser esnobe. Eu imagino um vendedor de picolé de praia, Tendo de tudo que há de luxo dentro da sua casa. Quem crê diga amém sempre pro nosso bem, O mundo que nós vivemos é o mesmo do além Não desisti não tu sabe como é que é essas palavras É do grande Chico Xavier.
Eu não estou aqui para dizer que Kiko é uma vítima. Kiko já foi vítima, mas hoje é ele quem faz suas vítimas. Ele conta que a primeira vez que rendeu uma pessoa, tremia dos pés á cabeça, suava frio, sentia pena. Hoje, “age pelo psicológico, botando medo”.
A violência das grandes cidades é um problema gravíssimo. A banalização dos assaltos inibe o direito fundamental de ir e vir de milhões de brasileiros que são rendidos covardemente. Meu ponto nesta discussão é, simplesmente, argumentar que esse quadro não vai mudar com a redução da maioridade penal. Ao contrário: vai piorar.
Encarcerar um menino como Kiko numa penitenciária só vai torná-lo uma pessoa ainda mais fria e destemida. Ele jura nunca ter matado ninguém, mas após uma experiência como a prisão no Brasil, é bem provável que fará isso com certa facilidade. Desde o século 19, é provado que as prisões não diminuem a violência. A redução da maioridade penal só piora um quadro que já é crítico, superlotando celas com milhares de meninos assaltantes que vivem o auge de uma fase da vida em que se descobrem homens, viris, machos. É na juventude que armas e produtos de marca fazem mais sentido do que qualquer outra fase da vida. É um momento de autoafirmação da trajetória. Nega-se a pobreza e a humilhação vivida. Inverte-se o jogo.
Como pesquisadoras de bondes e rolezinhos, eu e minha colega Lúcia Scalco temos observado que, para a maioria dos jovens, essa vida de assaltos, pichação, consumo ostentação e baile funk é uma fase da vida, que passa quando se tornam pais. Muitos meninos podem mudar seu destino. Colocar esses adolescentes junto a infratores mais experientes significa produzir bandidos, e não contê-los. Não acredite que o problema da violência urbana é a impunidade. Os jovens infratores da aprenderam a ser destemidos e sem limites.
A violência urbana é fruto da desigualdade social, o que se soma a um modelo ideológico perverso em que ter é poder. Kiko é apenas um, entre milhares de brasileiros, que sobreviveu e que cansou de ser um ninguém. Hoje, ele reproduz a mesma violência que rodeou a sua vida, a de seus familiares e vizinhos. A violência que ele recebeu na infância na periferia é retribuída à sociedade na transição à vida adulta. É esse ciclo de violência praticada tanto pelo Estado quanto pelo tráfico que precisa ser cortado. E todos nós sabemos disso, então, por que levar adiante essa ideia absurda?
A única metáfora que nos descreve é a do Alienista. Não há mais lugar para aprisionamento. Somos todos parte de uma sociedade violenta, da qual sofremos e reproduzimos todos os dias. Violência urbana só se resolve com política e justiça social.

Rosana Pinheiro - Machado 

Te Contei, não ? - Engajamento e olhar crítico



Guia do Estudante  2016 

Te Contei, não ? - Racismo no Brasil: tentativas de disfarce de uma violência explícita


O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Esse fato histórico, aparentemente longínquo, deixou, na verdade, profundas marcas na sociedade brasileira. Para entendê-las, é preciso não esquecer os navios negreiros e os objetos de tortura. É preciso lembrar que a abolição foi lenta. Mas é preciso também pensar o lugar que a ciência ocupou na consolidação do preconceito contra os negros. Para que se lute contra o racismo é preciso primeiramente reconhecer que ele existe. Sem essa “confissão” tira-se do foco o alvo que se quer atingir.

A partir de meados do século XVI e, oficialmente, até 1850 &– data da lei que aboliu o tráfico de escravos negros &–, chegaram ao Brasil milhões de pessoas vindas de diferentes partes do continente africano. Nesse período, a forma de relação com o escravo é muito clara, pois ele é visto como “peça”, tratado como coisa que tem um proprietário: é alugado, vendido, comprado, entra na contabilidade das fazendas ao lado das cabeças de gado, das ferramentas e outros bens materiais.

O panorama geral da escravidão no Brasil, recomposto por vários historiadores, mostra que o regime escravista não foi menos violento do que em outros países. Ao contrário, podemos perceber uma violência cotidiana, multiforme e naturalizada, que nos dá pistas para o entendimento do racismo brasileiro atual.

A esperada cidadania após a abolição não aconteceu e, até hoje, é uma luta constante em uma sociedade em que a desigualdade racial é arraigada e as tentativas de apagar a memória da barbárie contra os escravos são permanentes, quer pela eliminação de documentos, quer pela disseminação do mito da democracia racial.

Pouco depois da Lei Áurea, e já na vigência do regime republicano, mais exatamente em 14 de dezembro de 1890, Ruy Barbosa, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda e Presidente do Tribunal do Tesouro Nacional, queimou documentos oficiais que eram prova da escravidão, sob a justificativa de apagar da história do Brasil um período vergonhoso (ver Costa, 1996). No mesmo ano, o Hino à República diz: “Nós nem cremos que escravos outrora/ tenha havido em tão nobre país”. A este respeito, Costa (1996) afirma:

... o Estado apropria-se da História, controla e manipula o entendimento do processo histórico, confunde a noção de temporalidade e impinge o esquecimento. Garante, assim, a continuidade do mesmo sistema sob nova e atual roupagem: sem escravos e, logo depois, sem rei. Para dominar, há que se tornar senhor da memória e do esquecimento. (p. 84)

Mudaram as aparências, mas a essência das relações sociais não mudou. A atitude do Estado para a situação do negro “liberto” sempre foi omissa: a miséria material, a discriminação e a humilhação vividas pelos afrodescendentes são reduzidas à culpa deles mesmos, por meio de uma manobra ideológica que transforma o que é da esfera das relações de poder em algo natural, inerente à raça.2 A ideologia republicana pedia um projeto de nação que, por sua vez, requeria que se repensasse o homem brasileiro. Coube aos cientistas da época fazer esta reflexão.

Raimundo Nina Rodrigues, médico baiano renomado, estudioso do negro e da criminalidade e grande adepto das idéias do antropólogo criminal italiano Cesare Lombroso, foi representante importante das teorias raciais no Brasil. Lutou pela implantação da Medicina Legal nos currículos das Faculdades de Medicina e defendeu a criação de dois códigos penais brasileiros: um para os brancos e outro para os negros, pois pressupunha que as diferenças raciais levavam a diferenças comportamentais e morais tão grandes que não se podiam fazer as mesmas exigências para ambas as raças. Para ele, como para outros cientistas de sua época, a igualdade de direitos e deveres era uma ilusão.

Em Africanos no Brasil, publicado em 1935, destaco um capítulo: “Valor social das raças e povos negros que colonisaram o Brazil, e dos seus descendentes”. O objetivo é pensar a influência do negro na constituição do povo brasileiro, tendo em vista contribuir para a grande questão política daquele momento: a natureza desse povo e suas possibilidades de evolução.

Ao fazer esta discussão, ele contribuiu para a instituição da Antropologia no país, detendo-se no estudo dos povos africanos trazidos para o Brasil: os chamitas, os bantus e os sudanezes. Por considerá-los mais inteligentes e capazes de organização, ele defende a tese de que boa parte dos negros que chegaram ao país tinha razoável nível evolutivo. É assim que Rodrigues, nesse capítulo, consegue conciliar a questão da degeneração e inferioridade do negro - tão divulgada por diferentes autores e reafirmada por ele mesmo - com a possibilidade de pensar sem tanto pessimismo o futuro do país.

Para ele, a inferioridade social do negro é um fato incontestável: “De facto, não é a inferioridade social dos negros que está em discussão. Ninguém se lembrou ainda de contestá-la. E tanto importaria contestar a própria evidência” (Rodrigues, 1935, p. 388). Sua discussão da questão da inferioridade do negro gira em torno da capacidade de civilizar-se desta raça. O ideal de civilização é o de povos da Europa: será que o negro é capaz de civilizar-se como o europeu? Entre as duas versões dominantes &– a que concebe a inferioridade como “transitória e remediável” e a que a vê como inerente à constituição orgânica e, por isso, não há como remediá-la &–, Rodrigues toma o que interessa das duas, de modo a ver saídas para o país, sem negar a hierarquia entre as raças.

Diante de autores que justificam a inferioridade do negro pela “ossificação precoce das suturas craneanas” (Rodrigues, 1935, p. 389) e a tomam como causa da incapacidade dos negros de “assimilar a civilisação dos diversos povos com que estiveram em contacto” e tampouco de “crear cultura própria”, Rodrigues argumenta que a ossificação precoce não é causa da inferioridade, mas é conseqüência desta: “A ossificação será precoce mas não prematura, pois ocorre em tempo e em harmonia com o reduzido desenvolvimento mental de que os povos negros são dotados” (p. 389).

Em relação à impossibilidade de civilização do negro, Rodrigues (1935) afirma que a ciência ainda não tem elementos para respondê-la. No entanto, é categórico na crítica às concepções otimistas de desenvolvimento do negro:

A allegação de que por largo praso viveu a raça branca, a mais culta das secções do genero humano, em condições não menos precarias de atraso e barbaria; o facto de que muitos povos negros já andam bem proximos do que foram os brancos no limiar do periodo historico; mais ainda a crença de que os povos negros mais cultos repetem na Africa a phase da organisação politica medieval das modernas nações européas (Beranger Feraud), não justificam as esperanças de que os negros possam herdar a civilisação europea e, menos ainda, possam attingir a maioridade social no convivio dos povos cultos. (p. 390)

Rodrigues toma existência de níveis de desenvolvimento diferenciados entre os povos negros como prova de que são capazes de civilizar-se. No entanto, por ser muito morosa, o grau de civilização alcançado pelos negros não será o da raça branca. É assim que ele justifica a hierarquia entre raças e se opõe a argumentos igualitários: “A geral desaparição do índio em toda a América, a lenta e gradual sujeição dos povos negros á administração intelligente e exploradora dos povos brancos, tem sido a resposta pratica a essas divagações sentimentaes” (p. 391). Tanto a escravidão do negro quanto a diminuição dos povos indígenas são entendidas como sinais de inferioridade dessas duas raças.

O problema da mestiçagem e de suas conseqüências sobre o atraso do país também é objeto de sua atenção: “quanto de inferioridade lhe advem da difficuldade de civilisar-se por parte da população negra que possue e se de todo fica essa inferioridade compensada pelo mestiçamento” (pp. 391-392).

Para falar da diferença de capacidade de evolução do negro e do branco, Rodrigues (1935) vale-se de autores favoráveis aos grupos negros. Para um deles, o povo negro é degenerado devido a influências desfavoráveis externas, sendo necessários séculos de desenvolvimento para superar a degeneração resultante. A conversão dos negros ao cristianismo não faria com que as características morais (que são transmitidas geneticamente) mudem, pois “o negro convertido rebaixa invariável e necessariamente a nova religião ao nível de sua própria cultura mental” (p. 394). A capacidade de evolução do negro, embora admitida, só ocorre de forma gradual: “pois só quando um passo avante está dado com segurança é que o caráter de raça torna-se firme e capaz de sofrer novo impulso” (p. 394). Assim, não adianta tentar impor a civilização ao negro, porque é importante que ele passe por todas as fases de evolução a fim de que a raça sofra as transformações necessárias para chegar ao estágio de civilização do branco.

Para falar sobre o negro na América, Rodrigues (1935) recorre a autores que defendem a tese de que aqui o negro teve progressos pelo seu convívio com as raças superiores, embora continue sendo culturalmente inferior, situado no estágio infantil de humanidade e, por isso, “não se pode resolver a tratar de igual para igual com uma gente tão inferior a elles, do mesmo modo que o adulto não trata a creança de igual para igual, nem as classes superiores ás inferiores” (p. 396). Negros e crianças têm em comum “a leviandade, o capricho, a impr evidência, a volubilidade, a intelligencia ao mesmo tempo viva e limitada” (p. 395), concepção que teve forte influência sobre Rodrigues, principalmente em sua defesa de um código penal especial para os negros. Mas esse progresso será sempre limitado e inferior ao do branco, pois, segundo estudiosos citados por Rodrigues, o negro só poderia alcançar o branco se o branco perdesse a capacidade de evoluir, hipótese vista como impossível por eles. Por isso, enquanto o branco dá passos largos evolutivos, o negro só consegue dar pequenos passos quando em contato com os civilizados, o que faz com que o atraso em relação ao branco seja irreversível. Assim Rodrigues conclui sobre as vantagens da vinda dos negros para a América, “onde (...) estão collocados em condições de meio e cultura a todos os respeitos mais favoráveis do que os da Africa” (p. 395). Esses autores pressupõem que a convivência com o branco civilizado &– ainda que seja como escravo &– é melhor para o negro do que viver livre em culturas primitivas.

Os autores citados pelo médico baiano têm em comum a crença no processo gradual de civilização das raças - influência clara do evolucionismo social - e no constante atraso a que o negro está irremediavelmente submetido, seja por características biológicas, seja por atraso evolutivo. Não falta a eles esta ambiguidade. A influência do darwinismo social aparece em citações como esta: “O negro principalmente é inferior ao Branco, a começar da massa encephalica que pesa menos e do apparelho mastigatorio que possue caracteres animalescos, até ás faculdades de abstracção, que nelle é tão pobre e tão fraca” (Rodrigues, 1935, p. 396). A contribuição de Rodrigues a esta discussão foi afirmar que uma nação constituída por maioria negra será tanto mais atrasada quanto “mais inferior e degradado tiver sido o elemento africano introduzido pelo trafico” (p. 397). No caso brasileiro, diz ele, não vieram apenas povos africanos degradados, mas também “poucos negros dos mais adiantados e mais do que isso mestiços chamitas convertidos ao Islamismo e provenientes de estados africanos bárbaros sim, porém dos mais adiantados” (p. 398).

Foi assim que esse antropólogo e médico da Bahia fez parte do contigente de “homens de sciencia” que se valeram do que o darwinismo social e o evolucionismo tinham de mais relevante para administrar as questões sociais e políticas do primeiro período da República brasileira.

A partir daí, outros momentos políticos, outras ideologias nas ciências humanas e movimentos sociais em defesa da cidadania levaram à tendência crescente de negar a existência de preconceito racial no Brasil. Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933/2003), é uma obra que deu força à crença na democracia racial brasileira. Nesta direção, Schwarcz (1996) apresenta uma pesquisa sobre racismo em que 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito e 98% afirmaram conhecer pessoas preconceituosas, como amigos, namorados e parentes próximos. A partir desses resultados, a autora conclui: “Todo brasileiro se sente como em uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados” (p. 155).

Apesar do discurso que nega ou ameniza a presença do preconceito e da discriminação racial no país, não é difícil ver manifestações de racismo no dia-a-dia da vida social brasileira. Ora ele é escancarado, como nos massacres freqüentes, ora é silencioso, como no olhar policial que põe constantemente os negros sob suspeita. Pesquisa recente concluiu que há diferença de tratamento, por parte da justiça, de brancos e negros. Estes são tratados com mais severidade, desde a instância policial até o tribunal, como se a criminalidade e a possibilidade de “perturbar a ordem social” lhes fosse inerente (ver Adorno, 1996).

Em 2003, o cartaz de uma campanha publicitária contra o uso de drogas dá continuidade à relação entre negritude e criminalidade: a mão que empunha a arma é negra; a que sustenta é branca


Sylvia da Silveira Nunes 

domingo, 23 de agosto de 2015

Te Contei, não ? - " O dia em que papai não voltou " - Marcelo Rubens Paiva - Revista Época

As memórias do desaparecimento do pai na ditadura militar estão no novo livro de Marcelo Rubens Paiva, 'Ainda estou aqui', da editora Objetiva. Marcelo e duas irmãs relatam a ÉPOCA o feriado mais triste da infância deles

MARCELO, VERA E ELIANA PAIVA EM DEPOIMENTO A ALINE RIBEIRO

Crônica do Dia - Vontade de votar ? - Walcyr Carrasco

A sensação é de que não adianta nada. Não é somente minha. Com as pessoas com quem converso, a ideia de votar parece inútil. Não é nova, mas acentuou-se nos últimos tempos. Muitas vezes, ao votar, em São Paulo, encontrei gente reclamando. Uma prima disse:
– Já que é feriado, eu queria aproveitar uma praia.

Te Contei, não ? - A África clama por solidariedade - Marcelo Barros

Nós, brasileiros, temos uma dívida social com a África que nos ajudou a construir o nosso país. Depois da guerra, por exigência da justiça internacional, os judeus foram "indenizados" por tudo o que perderam na perseguição nazista. A África nunca foi indenizada pelas invasões, pelo colonialismo e pela estrutura escravagista que seqüestrou milhões de seus filhos. Como crentes no Deus da vida, somos chamados a inventar novas formas de solidariedade que seja força de ressurreição para o continente africano.

sábado, 22 de agosto de 2015

Crônica do Dia - Amor em tempos de 'gadgets' - Flávia Oliveira

Na era da informação, a tecnologia tomou de assalto as relações e virou o terceiro vértice de um triângulo que une e separa casais
O fim de

Crônica do Dia - Netflix produz documentário poderoso sobre Nina Simone - Ricardo Cota

Nina tornou-se um emblema dos tempos modernos e diante da reação sanguinária ao ‘black power’


O DIA
Rio - Não está em cartaz nas telas do cinema, mas pode ser acessado em poucos cliques um dos melhores lançamentos de 2015: o documentário ‘What Happened, Miss Simone?’ (O que Aconteceu, Miss Simone?), disponibilizado pela plataforma de conteúdo Netflix. O filme traça um voo rasante na vida da talentosa pianista, compositora, intérprete e ativista social que entrou para a história conjugando virtuosismo, técnica e atitude num período de ventos nada favoráveis às mulheres negras norte-americanas.

Te Contei, não ? - Estado Islâmico institui estupro como parte de sua doutrina religiosa

Vítima de 12 anos contou que agressor disse que não fazia 'nada de errado'. Segundo terroristas, Corão encoraja ato

T

O DIA
Síria - Abusar sexualmente de mulheres deixou de ser apenas parte da "cultura" do Estado Islâmico, que agora foi além e instituiu, nesta quinta-feira, o ato como parte de sua doutrina religiosa. Segundo os terroristas fanáticos, o Corão "congratula e encoraja" aqueles que atacarem mulheres que não sejam muçulmanas.
O comunicado do grupo acontece após uma menina de 12 anos, de etnia yazidi, ser estuprada no Iraque. Na ocasião o agressor declarou que não fazia nada de errado pois a criança não praticava a religião islâmica.
Mulheres de minoria étnica yazidi resgatadas de cativeiro do Estado Islâmico em abril deste ano
Foto:  Reuters
A menina de 12 anos conseguiu fugir para um campo de refugiados após 11 meses de cativeiro. "Eu falava para ele que estava me machucando e pedia para, por favor, parar. Ele me disse que o Islã permite que estupre uma descrente", contou ela em entrevista ao "New York Times".
"Ele falou que me estuprar estava o levando para mais perto de Deus", completou a vítima.
Outra vítima, de 15 anos, contou que confrontou seu agressor quando passou por uma situação de horror semelhante. "Ele (o estuprador) me disse que me estuprar era sua oração para Deus. Eu declarei que isso não iria aproximá-lo de Deus, mas ele respondeu que 'não, é permitido'", disse a adolescente.
Cerca de 5 mil mulheres e crianças de minorias étnicas foram sequestradas e feitas escravas sexuais pelo grupo em 2014. Eles chegaram a invadir um vilarejo iraquiano e arrastar crianças e mulheres em carros abertos.

Artigo de Opinião - Fala sério ! - Leda Nagle

Fica tudo por isso mesmo. Seguem todos como se nada houvesse de errado no seu erro. Afinal, quem erra é o outro

Te Contei, não ? - O Quinze

Publicado em 1930, o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, renovou a ficção regionalista. Possui cenas e episódios característicos da região, com a procissão de pedir chuva, são traços descritivos da condição do retirante. O sentido reivindicatório, entretanto não traz soluções prontas, preferindo apontar os males da região através de observação narrativa.

Artigo de Opinião - A maldição de Pinóquio e a sociedade da mentira

São muitos os Pinóquios com narizes que tentam furar os olhos da sociedade para cegá-la

Artigo de Opinião - Terceirização de escolas como solução do ensino

Não se trata de uma experiência de transformação de uma escola pública numa unidade de ensino particular simplesmente por causa deste gestor autônomo

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Artigo de Opinião - Conciliação ou Ruptura - Arnaldo Bloch

A atual conjuntura, que tem a ma-fé do endemoninhado Eduardo Cunha no centro do forno da nação, sugere, pede, implora, por moderação

Conciliação e ruptura são duas palavras que marcam a história de qualquer país, e especialmente a do Brasil desde a redemocratização. Na iminência da primeira eleição de Lula, o medo da ruptura (de contratos, de direitos adquiridos, de ordem institucional, de sistema de governo, de laços com o empresariado ou da estabilidade conquistada nos mandatos de FH, com uma possível volta da inflação desenfreada) assombrou a classe dominante, e Regina Duarte foi a porta-voz destes temores.

Temores aplacados com a famosa “Carta ao povo brasileiro”, que Lula, em linhas gerais, cumpriu, e foi além: com uma popularidade que resvalava nos 90%, podia ter taxado fortunas, por exemplo, entre outras medidas que boa parte do capital estava até admitindo de razoável grado, desde que as regras do jogo básico não fossem feridas.

Pois bem. Do ponto de vista econômico, Lula governou em três faces: a face do continuísmo, mantendo a estabilidade e os alicerces do Real e da política monetária (depois, meio que puxando para o seu lado a sardinha da invenção da nova moeda); a face conciliadora, através da qual mostrou que não apenas não romperia as regras, mas realizaria os sonhos dos bancos e trataria a elite com as melhores benesses, irritando correligionários; e a face distributivista, através do programa Bolsa-Família, que diminuiu a pobreza e trouxe para a faixa do consumo aquela que ficou conhecida como Nova Classe C (depois, foi reivindicada pelo PSDB, cujo programa-protótipo, com outro nome, contudo, não tinha a amplitude que o tornou efetivo sob nova batuta). Por outro lado, Lula promoveu um grave retrocesso político através de outro tipo de conciliação: o PT, partido que nasce sob a égide da ruptura, trocaria a ruptura pela instalação de uma república sindical. Se não é possível mudar o regime, que sejamos pagos por nossas lutas para levar a classe trabalhadora ao paraíso. Se o paraíso não pode de fato ser concedido à classe trabalhadora, que nos seja concedido, e depois veremos o que se pode fazer.

Isso não bastou: nas mãos de uma troika de ideólogos, o aparelhamento do Estado foi usado para aparelhar também o Congresso, através da compra da base aliada e de um outro sistema distributivo que emporcalhou o grande orgulho nacional que representava a Petrobras — que já era a emporcalhadora de nossos mares mas, até então, aparentemente ilibada do ponto de vista de seus usos e costumes, e um colosso do ponto de vista econômico e financeiro.

Dilma, que sucedeu Lula, herdou parte desses malfeitos. Isso, contudo, não exclui o fato de que os anos FH-Lula tiveram algo em comum: neles, o país esteve sob condução de governantes. Cada um, à sua maneira, contribuiu para um ciclo socioeconômico positivo, teve seus percalços, enfrentou crises, fez bobagens, mas atravessou seu período tendo o país sob as rédeas. O quanto foram bons ou ruins os dois governos (penso que ambos foram, essencialmente, bons) fica ao critério de cada um, mais ou menos parcial, de acordo com seu juízo, sua convicção política, sua consciência, seus gostos, seus preconceitos. O que é claro é que Dilma, diferentemente de seus antecessores, é má governante. É inepta. É forte de caráter, forte de biografia, forte de coragem, mas fraca de recursos mentais, de ouvido, de jogo de cintura, de discurso. Por que Lula a escolheu? Dizem que para evitar que um nome petista forte arriscasse seu legado com um grande governo, ameaçando seu retorno adiante. É a tese do poste. Seja como for, deu errado.

A questão que se propõe agora nos remete, de novo, ao binômio “conciliação ou ruptura”. É caso de se empurrar a presidente janela afora? Se pensarmos no impeachment de Collor, que teve, é claro, beneficiários políticos, será impossível esquecer que, por outro lado, ali o imperativo era moral acima de tudo: o país se vestiu e se pintou de preto quando o presidente convocou uma festa verde-amarela. A desfaçatez individual do caçador de marajás (ou de maracujás, como alertara Lula) estava na cara, comprovada. Impeachment era o que mais cabia ali.

Não é o caso de Dilma. Não ainda. E a atual conjuntura político-parlamentar — que tem a ma-fé do endemoninhado Eduardo Cunha no centro do forno da nação — sugere, pede, clama, implora, por moderação, não só por parte da classe política, mas de todos os que, neste momento, opinam e têm o poder, assim, de lançar fagulhas no perigoso caldeirão da ruptura. Aparentemente, vêm os primeiros sinais de fumaça, sejam eles da parte dos honestos, dos investigados, dos fisiologistas, da oposição, de que o caminho deve passar pela conciliação, e que o Brasil deve se unir e apontar para um tipo de evolução que olha para a História e se recorda de que a herança maldita data de 515 anos. Não uma década.





domingo, 16 de agosto de 2015

Te Contei, não ? - A Farsa de Inês Pereira

Tendo como mote um ditado popular, “mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube”, Gil Vicente escreveu esta comédia de costumes retratando o comportamento amoral da degradante sociedade da época.




Crônica do Dia - História mal contada - Flávia Oliveira

Pesquisadores encontram lacunas no conteúdo sobre a ditadura militar em livros didáticos dos ensinos fundamental e médio
A História e

Te Contei, não ? - Influência da Cultura Africana na Cultura Brasileira



Moleque, quiabo, fubá, caçula e angu. Cachaça, dengoso, quitute, berimbau e maracatu. Todas essas palavras do vocabulário brasileiro têm origem africana ou referem-se a alguma prática desenvolvida pelos africanos escravizados que vieram para o Brasil durante o período colonial e imperial. Elas expressam a grande influência africana que há na cultura brasileira.

Artigo de Opinião - Não somos vira - latas - Márcia Vieira

Tom Jobim, um sábio, chamou nossa atenção ainda nos anos 1980, ao ser criticado por ter vendido os direitos de “Águas de março” para uma gigante de refrigerantes. Sofremos do complexo de vira-latas. Somos sempre os piores. Falta de educação no metrô? Coisa de brasileiro mal-educado. Fechar o cruzamento? Só aqui, neste trânsito ensandecido do Rio. Há poucos dias, uma jovem atriz reforçou o complexo depois de, parada na alfândega do Rio, ser obrigada, como manda a lei, a pagar imposto por um computador comprado lá fora. “País de m…”, carregou ela na ofensa numa rede social. A globalização parece ter acirrado esse sentimento crônico de inferioridade. Mas, calma lá, a coisa não é bem assim.

Artigo de Opinião - Ensinar limites às crianças é fundamental -


O DIA
Rio - Estava ministrando uma palestra para pais em uma escola privada quando, atrasada, uma mãe entrou no auditório, esbaforida, quebrando o grande silêncio e a enorme atenção da plateia. “Nossa, o trânsito está horrível!” Começou a dar adeusinhos para outras mães e sentou-se na primeira fileira, colocando uma bolsa na cadeira da direita e seu casaco na da esquerda, gritando: “Não sei onde estava com a cabeça ao trazer esse casaco!”. Como se não bastasse, puxou outra cadeira para colocar os pés. Após alguns cochichos e pequena agitação, o público voltou ao silêncio e à atenção ao que eu estava falando. 
Três outros pais chegaram atrasados, e os únicos lugares vazios eram o da bolsa, o do casaco e o dos pés da espaçosa mãe. Ao perceber isso, falei, ao microfone, para o trio, que já estava em pé, que havia três lugares na frente. Precisei lembrar à mãe que os lugares eram as cadeiras extras que ela ocupava. 

A palestra era sobre como ensinar limites aos nossos filhos e, por alguns instantes, pensei em como aquela senhora faria isso se ‘limite’ parecia ser uma palavra que ela não conhecia. 
Limites são necessários para que possamos viver civilizadamente em sociedade. Precisamos ter consciência dos nossos espaços e dos nossos direitos para não invadir os dos outros e nos tornar pessoas, como dizem, ‘sem noção’. A criança precisa de limites para que se desenvolva saudavelmente.

De início, ela precisa descobrir que o mundo não lhe pertence e, para isso, deve saber esperar sua vez e não pegar o que não lhe pertence. Outra função essencial dos limites na infância é dar segurança. Se a criança sente que ela pode fazer tudo o que quer, ela se sente a pessoa mais poderosa da casa e desenvolve pensamentos do tipo: “Se sou a pessoa mais poderosa aqui, quem vai me salvar se eu estiver em perigo?” É fundamental a criança sentir que os pais são mais poderosos para se sentir segura. 
Não aprender limites na infância gera falta de persistência e necessidade de manipular para obter o que se quer na vida adulta. Gera, também, a falta de consciência e sensibilidade. Graças à noção de limites, aprendemos que só temos direito a uma cadeira e sermos discretos ao chegar atrasado. 
Júlio Furtado é professor e escritor 

Artigo de Opinião - Leitura e escrita na ' Pátria Educadora'

Não podem ser vistas ou entendidas como algo obrigatório e circunscrito apenas à sala de aula






O DIA
Rio - Nesta semana, o MEC divulgou os resultados do Enem de 2014 por escola. A notícia não foi boa. Cerca de 50% das instituições — públicas e particulares, vejam só — não conseguiram alcançar a média de 500 pontos (numa escala que vai até mil) na nota da Redação. A situação é delicada, já que os números mostram uma progressão. Nos dois últimos anos, a taxa estava em torno dos 35%. 
Como explicar os resultados? Fácil culpar os professores que não exercitam a leitura e a escrita em sala e pouco ou nada planejam estrategicamente para aproximar crianças e jovens dos livros e da escrita. Da mesma forma, fácil também é jogar a conta nos estudantes: uma geração que não é interessada, pouco ou nada lê e não consegue escrever de forma coerente e contundente.
Tais argumentos não são falsos nem verdadeiros. A matemática das notas baixas na Redação é mais complexa do que encontrar culpados e extrapola a atuação professor-aluno. Pelo Brasil, há centenas de boas práticas, professores comprometidos e estudantes engajados. 

Mas da mesma forma também faltam incentivos. Em alguns casos, da própria escola como instituição e dos pais e ou responsáveis que acreditam que só basta matricular os filhos e cobrar nota. Não é assim. 
Sabe-se que a performance da leitura e da escrita de crianças e jovens depende, prioritariamente, de professores qualificados que tenham conhecimento do assunto e saibam encantar. No entanto, a leitura e a escrita se desenvolvem de forma mais contundente à medida que os estudantes são incentivados e instigados pela família. Não podem ser vistas ou entendidas como algo obrigatório e circunscrito apenas à sala de aula. 

Soma-se a isso a necessidade de crianças e jovens terem acesso à cultura e à informação de forma ampla, diversa e contínua, o que não necessariamente está ligado a um maior ou menor poder aquisitivo, mas que passa por ele: o chamado capital cultural é importante e essencial para que os estudantes possam também ampliar suas reflexões, parâmetros e conhecimentos, contribuindo para a constituição de um repertório maior de imagens, pensamentos, falas e textos. Será que nossas crianças e jovens têm este acesso? 
Cadê a Pátria Educadora?
Marcus Tavares é professor e jornalista 

Crônicas do Dia - É preciso determinar - Frei David Santos

Estatuto da Igualdade Racial tem artigos que apenas autorizam, e não determinam

POR 
O Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado num contexto ruim para a comunidade negra e sua relação com os poderes partidários no Congresso. A esquerda só conseguia fazer passar bons projetos fazendo grandes concessões. Desfigurou a proposta original. Quase todos os artigos que eram determinativos, a oposição, com o silêncio do governo, mudou, tornando-os autorizativos. Isso comprometeu muito a eficácia do documento.
Estamos agora, após estes cinco anos de aprovação, buscando bons e éticos parlamentares, em todos os partidos, inclusive no PSDB, para costurar uma boa e eficaz reforma no estatuto. Os partidos precisam refletir: 53,7% do Brasil são compostos por afrodescendentes. É inaceitável, por exemplo, que os afrodescendentes somos apenas pouco mais de 1% entre os professores universitários de todo o Brasil, segundo o pesquisador José Jorge de Carvalho, Ph.D. em Antropologia, professor da UnB e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Infelizmente, a direita e a esquerda não tiveram e nem têm interesse nos direitos do povo negro. É um estatuto autorizativo. Com leis determinativas, podemos recorrer ao Ministério Público e exigir que sejam colocadas em prática. O estatuto é uma lei autorizativa e que beneficia 53,7% do povo brasileiro que estão economicamente despossuídos e, consequentemente, sem poder político.
Todas as cotas para negros que conquistamos foram sem ajuda do estatuto. Setores da militância tiveram que “ralar muito” para fazer avançar as conquistas das cotas! Infelizmente, podemos dizer que é questionável a importância deste falso estatuto que a esquerda e a direita nos empurrou goela abaixo.

O governo cedeu demais. Até os parlamentares afrodescendentes de esquerda, com raríssimas exceções, de todos os partidos, foram omissos na luta pelo mínimo de dignidade em prol dos direitos do seu povo negro. Nem digo “na luta pelo estatuto ideal”, mas um estatuto mais justo com 53,7% do povo brasileiro. Em troca de favores, espaço e migalhas, os líderes dos partidos deixaram passar o texto que a classe dominante queria.

Para valorizar todos os esforços da militância, empreendidos por anos, criamos a frase: “É melhor um estatuto ruim em ação do que o ideal engavetado”. Esta frase ajudou-nos a refletir que nosso poder político, enquanto negros, no Congresso Nacional é muito baixo. O estatuto está no mesmo nível do nosso poder político. Infelizmente.
Todos os pontos ficaram negligenciados. Os meios de comunicação, por exemplo, continuam descaradamente se omitindo no dever de incluir o povo negro. Os bancos particulares, abusivamente, depois do estatuto, engavetaram um belo plano com metas de inclusão. Os governos federal, estaduais e municipais têm em suas mãos um volume imenso de cargos de confiança e relutam em fazer a inclusão pluriétnica neste filé mignon que é usado para barganha na baixa política praticada pelos que estão no poder no Brasil.
Frei David Santos é especialista em ações afirmativas





Editorial - Má gestão explica crise na Educação - O Globo


Escola municipal de Santíssimo, Zona Oeste, dá enorme salto na avaliação da qualidade do ensino sem adotar qualquer método desconhecido ou revolucionário

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Te Contei, não ? - A era da grosseria

Parece um duelo do Velho Oeste. No lugar da arma, é o dedo no mouse ou na tela do celular. Navegamos pelas redes sociais como se estivéssemos num filme de bangue-bangue. Aguardamos o adversário chegar armado para nos surpreender. Ao sinal de ameaça, “pá!”, ou melhor, “clique!”. Assim, compartilhamos textos esdrúxulos sem ler porque o título é provocativo. Distribuímos fotomontagens malfeitas achando que são imagens reais. Assinamos petições on-line sem saber do que se trata. “É golpe militar? Achei que fosse impeachment.” Quem veste camisa da Seleção Brasileira e vai para a rua é “coxinha”. Quem bate panela em discurso de político é “reaça”. E quem não bate? “Petralha”. Queremos protestar contra os religiosos intolerantes. O que fazemos? Enchemos uma rede social voltada ao público evangélico de filmes pornôs. Destruímos relacionamentos que levaram anos para ser construídos só por causa de um “curtir” ou de um “compartilhar”. E talvez não estejamos nos dando conta disso.
Lá se vai uma década em que as redes sociais passaram a fazer parte de nossas vidas. Em muitos aspectos, elas trouxeram coisas positivas. Sites como Facebook e Twitter aproximaram pessoas que jamais se encontrariam nos tempos off-line. Também serviram de base para novos negócios. Tornaram nosso trabalho mais produtivo (o.k., nem todos os trabalhos). Mas o efeito colateral é evidente a qualquer um que frequente um desses botecos virtuais: estamos diante da “era da grosseria”. Em algum momento dos últimos anos, grupos na internet voltaram a se comportar como uma horda de visigodos com ímpeto para exterminar adversários em potencial. É a era da polarização, do pensamento binário: ou pensas como eu ou te tornas um inimigo. Se é a favor do PSDB, você automaticamente é contra as ciclovias, a favor da redução da maioridade penal e quer o impeachment da presidente. Se simpatiza com o PT, defende a corrupção e o aparelhamento do Estado. Nesse mundo em preto e branco, não há espaço para os tons de cinza.
Esses chatos não são a maioria dos que usam as redes sociais, mas acabam sendo a parcela que mais chama a atenção. São os “idiotas da aldeia”, como descreveu o escritor e filósofo italiano Umberto Ecoao receber o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, no último mês de junho. “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, disse. “Antes, eles falavam apenas em um bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade. Agora, têm o mesmo direito à palavra de um prêmio Nobel.”
Muitos criticaram a opinião de Eco. Lembraram que talvez a grande contribuição da internet foi ter dado oportunidade a pessoas comuns de ter o mesmo espaço que um prêmio Nobel. Eco justificou-se, depois das críticas, dizendo que se referia a um pequeno e barulhento grupo de chatos que se sobrepunham à maioria. É importante ressaltar que apenas publicar opiniões não faz das redes um espaço democrático. Democracia também pressupõe o debate de ideias, que não costuma ocorrer no Facebook.
Diariamente, nossos contatos postam, em média, 1.500 conteúdos. Mas só recebemos cerca de 300
Além disso, a impressão de Eco faz sentido na medida em que as redes sociais não são, há muito tempo, uma plataforma em que as informações transitam de forma isonômica. Algumas coisas chamam mais a atenção que outras. Os sites tendem a priorizar essas informações para poder ter mais audiência e, assim, gerar mais receita com publicidade. Pessoas com comportamento mais agressivo, independentemente de seu viés político e religioso, repercutem mais. Pode existir a impressão de que elas são a maioria. “As redes sociais privilegiam aquilo que é considerado socialmente relevante, que vai gerar comentários e interação”, diz Raquel Recuero, professora da Universidade Católica de Pelotas, Rio Grande do Sul. “Temas polêmicos tendem a gerar debate e brigas dentro da mesma rede, e isso pode produzir comentários agressivos”, diz.
O grande motor dessa forma mais recente de como a informação trafega no mundo é o Facebook. O site tem quase 1,5 bilhão de usuários cadastrados. Um bilhão o acessa diariamente. No Brasil, oito em cada dez internautas têm uma conta no “Feice”. São cerca de 90 milhões de brasileiros que acessam as redes especialmente pelo telefone celular, segundo dados da consultoria eMarketer. A forma de organizar todo o conteúdo publicado por essa massa de usuários foi a criação de um algoritmo, uma fórmula para distribuir as postagens entre os usuários. Ele aprende com a rotina on-line do usuário que tipo de conteúdo ele mais acessa. Esse algoritmo recebeu o nome de News Feed. A justificativa do Facebook é que seria impossível para uma pessoa acompanhar tudo o que seus amigos publicam. Diariamente, nossos contatos postam em média 1.500 conteúdos. Mas o Facebook os filtra para nós. Só recebemos cerca de 300 deles. O resto nunca veremos.
O aprendizado do algoritmo é baseado em fatores óbvios, como o grau de proximidade que você tem com a pessoa que publicou o conteúdo e o tipo de conteúdo que você mais gosta. Se você clica mais em fotos que em vídeos, o Facebook vai mostrar mais amigos que publicaram fotos. Há também fatores menos óbvios, como a infraestrutura de acesso. Se a rede de seu celular está ruim, seu perfil passa a priorizar textos e fotos no lugar de vídeos mais pesados, que consomem mais conexão. Se alguém comenta “Parabéns” numa publicação, é provável que ela se trate de alguma celebração. Como isso gera muitas “curtidas”, o Facebook tende a promover o post. As páginas que você curte também são levadas em consideração pelo algoritmo.  Posts de perfis que pagam ao Facebook também têm mais chance de chegar a você. E aqui vem o ponto central para a “era da grosseria”: se a comunidade tem uma determinada visão política ou ideológica, é provável que você tenha contato com mais publicações relacionadas ao tema.
Uma pesquisa mostrou que 62% dos americanos não sabiam da existência do algoritmo do Facebook
O problema, segundo especialistas, é que essa obsessão por oferecer ao usuário apenas o que ele quer clicar tende a criar ilhas de opiniões. As pessoas têm a falsa sensação de que o mundo inteiro pensa como elas, já que o algoritmo não as confronta com outras ideias. Como efeito colateral subsequente, passam a publicar conteúdos que seriam aceitos num determinado grupo, e não pelo público em geral. É o que a pesquisadora americana Danah Boyd, fundadora do Data & Society Research Institute, chama de audiências invisíveis. No mundo off-line, você costuma ajustar o tom de seu discurso de acordo com a audiência. No mundo on-line, você acha que sabe com que audiência está falando. Mas alguém que não faça parte desse grupo pode ter acesso àquele conteúdo, interpretá-lo de uma forma diferente e expor a uma situação de conflito. É um caso comum em discussões sobre política. O comentário de uma pessoa com uma visão mais à esquerda pode receber diversas curtidas em seu hábitat no algoritmo. Mas, se um amigo mais à direita compartilha a mesma opinião em sua página, chovem críticas e ironias. De um lado, os histéricos de esquerda, que fantasiam, de forma delirante, um novo golpe militar no Brasil. De outro, os histéricos de direita, com seu indefectível bordão: “Vá para Cuba!”.
Não é só o Facebook que usa um algoritmo desse tipo. Google, Twitter, AmazonUber e outras empresas de tecnologiadesenvolveram sistemas com o objetivo de facilitar a vida do usuário numa ponta e gerar mais receita na outra. Mas ela se torna um problema quando as pessoas não sabem que estão tendo acesso a um conteúdo enviesado. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pela pesquisadora Karrie Karahalios, da Universidade de Illinois, mostrou que 62% dos americanos que usavam o Facebook não sabiam da existência de filtros pelo algoritmo. “Recebi uma série de respostas viscerais quando expliquei para as pessoas como o algoritmo do Facebook funcionava”, disse Karrie, numa entrevista para a revistaTime. “Algumas passaram cinco minutos em choque, pensando sobre aquilo.”
Há pouco mais de um ano, o Facebook divulgou um estudo realizado em 2012 com 700 mil usuários que tinha como objetivo entender como funcionavam as reações emocionais das pessoas na internet. Para isso, a companhia manipulou as páginas de metade deles com notícias e comentários positivos dos contatos. Os outros 350 mil receberam notícias e comentários mais tristes. A ideia de entender como as emoções contagiavam os usuários virou um escândalo. O cientista americano Jaron Lanier, em artigo publicado no jornal The New York Times, se lembrou dos riscos envolvidos. “A manipulação das emoções não é algo pequeno. Cerca de 60% dos suicídios são precedidos de algum tipo de distúrbio de humor”, escreveu. Com a repercussão negativa, Sheryl Sandberg, braço direito de Mark Zuckerberg, pediu desculpas. Desde então, o Facebook criou políticas mais transparentes para seu algoritmo. Além da ferramenta “Deixar de seguir”, que já existia e dava mais controle ao que o usuário acessa em sua página, a empresa implementou o “Veja primeiro”, em que o usuário pode selecionar um grupo de amigos para acompanhar com prioridade.
Não há um consenso sobre a relação de causa-efeito entre a tecnologia usada pelas redes sociais e uma eventual mudança de comportamento de seus usuários. Nas últimas semanas, ÉPOCA conversou com uma dezena de especialistas em comportamento, sociólogos e estudiosos da internet, e a maioria acredita que os algoritmos são apenas uma ferramenta na mão de uma sociedade que há tempos carece de ponderação na discussão de ideias. Leonardo Lazarte, professor de internet e sociedade na Universidade de Brasília (UnB), lembra que o ambiente em algumas dessas comunidades nas redes sociais é muito semelhante ao visto em gangues. A pessoa entra no grupo e precisa passar por provas para ganhar a confiança dos outros. “A diferença é que isso é amplificado no mundo virtual”, diz.
De acordo com dados da SaferNet, ONG dedicada à defesa de direitos na internet, o Facebook domina hoje quase 50% das denúncias de páginas e perfis dedicados ao ódio e à intolerância. Entre 2013 e 2014, o número de denúncias de páginas e perfis no Facebook saltou de 16.600 para 26.800. Os destaques negativos ficaram para asdenúncias relacionadas a racismo (de 6.800 para 12 mil denúncias) e xenofobia (de 336 para 4.500). Segundo Rodrigo Nejm, diretor da SaferNet, o número reflete também a existência de novos canais para registrar os crimes. “O discurso de ódio sempre existiu, mas é um novo ambiente social. Isso reflete a postura das pessoas usando essas ferramentas”, diz. “É fundamental que as pessoas tenham noções de cidadania desde os primeiros cliques. Também é preciso incorporar políticas públicas para tratar de direitos humanos e liberdade de expressão.” O Facebook diz que criou mecanismos para receber denúncias de ódio, racismo e intolerância. “Queremos promover uma plataforma livre, aberta e segura para as pessoas”, diz Bruno Magrani, diretor de políticas públicas do Facebook Brasil. Falta pensar em algo que promova o debate de ideias que caracteriza um espaço genuinamente democrático.
O Brasil sofre de um problema crônico de educação virtual. Somos imaturos. A sensação de segurança mistura-se a uma falsa ideia sobre a liberdade de expressão. Sérgio Ferreira do Amaral, professor do Departamento de Ciências Sociais na Educação da Unicamp, explica que a ideia de estar livre para disseminar comentários maldosos acontece porque a pessoa acredita que não será encontrada, já que a internet é uma plataforma recente.
Além disso, a sociedade precisa aprender a se reorganizar em rede. Para o cientista social Marco Aurélio Nogueira, da Universidade de São Paulo, a internet se popularizou em meio ao enfraquecimento de instituições que tradicionalmente ajudavam a organizar comunidades. A escola, a igreja, a família, os sindicatos e os partidos estão perdendo a influência. As pessoas estão buscando as respostas na internet. “A cultura brasileira, tradicionalmente, nunca incorporou o conflito e a divergência, algo inerente ao ambiente de internet”, diz Nogueira. “A cultura de rede ainda não se fixou em termos éticos na vida brasileira. Não temos uma cultura de boas maneiras. A gente nem sequer sabe o que queremos da vida em rede.”  Precisamos repensar o papel social das redes sociais. Caso contrário, a internet, que cresceu e se desenvolveu como uma poderosa ferramenta democrática, corre o risco de alimentar o ódio, a intolerância e o autoritarismo.