Rio - Um recente achado histórico deixou o mundo da literatura agitado e pode despertar novos estudos sobre outro estilo de Carlos Drummond de Andrade, que morreu em 1987, no Rio, e é tido por muitos como o mais influente poeta brasileiro do século 20. Três poemas desconhecidos dele, não publicados em livros, foram achados, por acaso, por Mayra de Souza Fontebasso, de 25 anos, aluna do penúltimo ano do curso de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Te Contei, não ? - Amor filial e pedidos de votos
A correspondência inédita de Carlos Drummond de Andrade revela aspectos de sua atuação política e de seu relacionamento com a mãe
MARCELO BORTOLOTI

sábado, 10 de agosto de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Te Contei, não ? - Cara de paisagem
Maiá Menezes
Publicado:

segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Te Contei, não ? A pré - história de Drummond
Há um anjo protetor dos literatos novos, escreveu certa vez Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Ocupa-se em dar sumiço a textos juvenis para salvar autores do embaraço de se confrontar, anos depois, com a própria imaturidade. O que um dos maiores poetas da língua portuguesa deixou de prever foi a existência de um anjo protetor dos leitores, a operar atrás desse material perdido para colocá-lo nas mãos de um editor.
Um desconhecido (e único) volume escrito pelo moço Drummond chegou faz pouco tempo até Antonio Carlos Secchin, ensaísta e crítico literário dedicado a abastecer de raridades sua biblioteca em Copacabana, no Rio de Janeiro – um oásis que abriga 12 mil obras de literatura brasileira. Encadernadas numa firma de bairro, sob capa elegantemente azul, as páginas de aprendiz reuniam versos datilografados por uma jovem Dolores Dutra de Morais, já noiva do poeta de Itabira (MG). Esses mesmos 25 Poemas da Triste Alegria, assim intitulados, saem em meados deste mês, quase um século depois de concebidos, pela Cosac Naify. A edição é a nata de uma série de lançamentos e relançamentos que, desde o início de 2012, vem celebrando os 110 anos do escritor. Ele também receberá justíssima homenagem na 10ª Festa Literária Internacional de Paraty, programada para o começo de julho.
No meio do caminho que vai desde 1924, quando se deu a publicação artesanal, até os dias atuais, o tal volume único foi presenteado por Drummond ao amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade – e este o emprestou a uma terceira pessoa ou o devolveu ao poeta, segundo diferentes versões. Ao menos dois outros autores modernistas leram os poemas: Mário de Andrade, que enviou carta a Drummond com uma apreciação quase demolidora em 1926, e Manuel Bandeira, que se referiu a alguns em tom mais ameno numa crônica de 1958. Quem forneceu o exemplar a Secchin é outro bibliófilo, cuja identidade o crítico prefere manter em sigilo. “Gosto de dizer que livro raro não tem procedência. Tem destino”, brinca o estudioso, que jamais ouvira falar da obra até vê-la pela primeira vez. “O bibliófilo que descobre um livro desses, exemplar único, comprova que o paraíso existe, mas fica na Terra.”
PIOR COISA DO MUNDO
Inusitada por revelar a face extraviada do aprendiz de poeta, a obra carrega graça e valor adicionais por aquilo que ocupa seus espaços em branco: os comentários ao lado de cada poema feitos à mão pelo próprio Drummond, quando teve o volume novamente consigo em algum momento de 1937. Nas muitas linhas, que preenchem às vezes página inteira, ele ironiza o jovem que havia sido 13 anos antes. Mário de Andrade figura entre os mais citados nas anotações: “(O poema) Momento Feliz é a coisa pior deste mundo”, escreve o literato mineiro, concordando com a crítica do autor de Macunaíma, que ameaçara romper a amizade se aquilo fosse publicado. Mais adiante, ao reler versos de Convite Semanal, Quase Noturno e Ninguém Sabe, Drummond confessa sentir orgulho por ter abandonado a retórica, o penumbrismo (corrente literária fortemente intimista de inícios do século 20) “e outras covardias intelectuais”. Esforça-se para encontrar ali alguma “substância mais vivida do que literária”, e não acha.
No prefácio que redigiu para o lançamento da Cosac Naify, Secchin define Os 25 Poemas da Triste Alegria como um “quase livro de pré-poeta”, constituído de dois livros paralelos. Um é o do jovem e hesitante autor, antes de ser modernista. Outro, o do crítico de si mesmo. Ambos os ângulos podem ser contemplados pelo leitor nessa reedição, fac-similar. As imagens das páginas originais – que se espalham ao longo de todo o novo volume – foram fotografadas por Vicente de Mello, especialista em reproduzir obras de arte. A caligrafia pequena do escritor não deverá causar desconforto. A parte manuscrita é mantida, mas há também sua transcrição em letra de fôrma para que se tenha mais uma opção de leitura, explica o editor Milton Ohata. O livro inclui, ainda, textos de época assinados por Drummond e encontrados em arquivos mineiros, que ajudam a compreender o que ele pensava sobre poesia.
O poeta aprovaria tal inconfidência? “O método infalível para proscrever um livro juvenil é destruir os originais”, responde Secchin. “Se não o fez, e ainda por cima o repassou a outrem, quem sabe até para evitar tentações predatórias, é porque desejava preservá-lo.” Se é menor o valor literário, avalia, é muito maior o valor como documento da formação do autor. Desde a redescoberta do livro, a ideia da reedição agradou à família Drummond.
PEITO ABERTO
De trajetória clandestina, lembrado muito esparsamente pelo escritor e pelos amigos que viram esses primeiros versos, o novo volume de inéditos surpreenderá até seus leitores mais dedicados. Entre lembranças, entusiasmo e humor, poetas e críticos que há décadas acompanham a obra do mineiro receberam parte da edição pela internet para comentá-la livremente, a pedido de BRAVO!. “O fac-símile me levou de volta aos 20 anos, quando organizei uma coletânea de minhas poesias e mandei os originais a Drummond”, recorda-se a paranaense Josely Vianna Baptista, autora de Ar, Corpografia e do recente Roça Barroca.
Ela conta que o poeta lhe escreveu uma carta amistosa, “com aquela mesma letrinha inconfundível de 1937”, na qual citava versos seus dos quais não a salvou o anjo protetor dos literatos novos. “Vêm-me à cabeça as frases, entre gentis e travessas, em que ele dizia ser importante não ‘temer malambas nem remandiolas’, palavras que cometi no tal poema e que, revisitadas de próprio punho por Drummond, com o tempo passaram a me parecer brejeiramente irreverentes.” Sobre a correspondência entre Drummond e Mário de Andrade, observa: “Interlocução de primeira, sem suscetibilidades nem narcisismos feridos, séria, sincera e nada sisuda”.
Poeta drummondiano nascido no Rio, Armando Freitas Filho, autor de obras como A Mão Livre e Lar, garante que nada falaria sobre o livro oculto se Drummond estivesse vivo, “pois ele brigaria comigo”. Como teme que o fantasma do amigo venha lhe puxar o pé, ele diz o “óbvio e verdadeiro”: ninguém analisa melhor os poemas do que o próprio autor. “Ouso, contudo, afirmar que esse Drummond inicial esboçou em Ninguém Sabe a potência que irromperia em José, muitos anos depois. Que poeta aprendiz conseguiria tamanho feito, com tal excelência, sobre sua poética futura? Uma antevisão desse teor não é meramente inconsciente, mas fruto coeso de uma vocação irrepreensível e insuperável.”
Para os estudiosos, o valor do livro como documento de formação é o que mais sobressai. “Trata-se de uma coletânea fascinante”, comemora John Gledson, crítico literário inglês que traduz e estuda, além do poeta mineiro, o romancista carioca Machado de Assis. O que, naqueles versos juvenis, seria estranho ao Drummond mais conhecido? “A adesão a uma estética penumbrista, a influência avassaladora de Álvaro Moreyra, de Ronald de Carvalho e de Guilherme de Almeida, as repetições de certas palavras, como ‘ironia’ e ‘indiferença’, além das indefectíveis menções a paisagens crepusculares, jardins e estrelas”, responde Gledson.
Os inéditos também reforçam ângulos do poeta ainda pouco estudados. “Nenhum desses poemas terá feito qualquer falta à obra de Drummond, mas todos interessam por demonstrarem que o jovem escritor sabia bem o que fazer com a música e o ritmo das palavras”, afirma Alcides Villaça, crítico literário da Universidade de São Paulo e autor, entre outros, da coletânea de ensaios Passos de Drummond.
Na opinião de Sérgio Alcides, crítico literário da Universidade Federal de Minas Gerais, o mais emocionante no livro são os comentários do Drummond maduro, ou nem tão maduro, mas já “feito”. “Há mistura de carinho e repulsa nesse reencontro consigo mesmo. O maior desconforto do poeta, ao reler suas tentativas antigas, é que elas são ‘meramente literárias’ (no mau sentido).” Os artigos de crítica incluídos na edição também merecem atenção, pois mostram que Drummond se expõe mais do que passaria a fazer depois da década de 1940, diz o professor da UFMG. “Os textos revelam a atenção que um jovem poeta de província dedicava ao contemporâneo, aos debates do seu tempo, com muita ânsia de participação, de tomada de posição. Ele escrevia de peito aberto, mas sem nenhuma leviandade – o que é muito bonito e raro numa pessoa assim tão jovem.”
Os poemas que acompanham esta reportagem são fac-símiles da edição do autor (como A Sombra do Homem que Sorriu) ou transcrições que mantêm a grafia original (caso de Primavera nas Folhinhas e nos Jardins).

PRIMAVERAS NAS FOLHINHAS E NOS JARDINS
O PERFUME DAS ROSAS ENTRA-ME PELO QUARTO,
NUMA LUFADA DE PRIMAVERA.
E EU FICO, DESVAIRADO, A SENTIR O PERFUME,
O PERFUME DAS ROSAS, PELO QUARTO...
NUMA LUFADA DE PRIMAVERA!
QUE BOM, LER OS POETAS SADÍOS,
E NÃO SABER DA LUA, DAS ESTRELLAS,
E NÃO SABER DO AMOR! E NÃO SABER DE TI!
(DE TI QUE ÉS PALLIDA E FEIA,
PALLIDAMENTE FEIA E MELANCOLICA.)
MAS APENAS SENTIR, ALLUCINANTE E FORTE,
O PERFUME DAS ROSAS, PELO QUARTO
NUMA LUFADA DE PRIMAVERA!

VÊ COMO A AGUA SUSSURRA
VÊ COMO A AGUA SUSSURRA NO FUNDO DOS TANQUES ERMOS,
COMO A AGUA, INTIMAMENTE, CHÓRA.
E NA FACE DOS TANQUES ERMOS
BOIAM FLORES AZUES, GRANDES FLORES INDIFFERENTES.
A AGUA ESPADANA NO AR, EM FLORIDO REPUXO.
A ALEGRIA DA AGUA, SUBINDO
SOBRE A INDIFFERENÇA AZUL DAS GRANDES FLORES!
- VÊ O REPUXO CAHINDO
NOVAMENTE, SOBRE OS TANQUES ERMOS.
NOS JARDINS,
A IRONIA DA VIDA É FEITA DE BELLEZA.
(QUE RIDICULO PENSAMENTO...)

A MULHER DO ELEVADOR
A QUE FICOU LÁ LONGE, NA GRANDE CIDADE...
A QUE EU VI APENAS UM MINUTO, UM MINUTO SOMENTE,
NO ELEVADOR QUE SUBIA.
COM QUE SAUDADE INEDITA EU ME LEMBRO
DA QUE NÃO FOI NEM UMA SOMBRA, UMA SOMBRA FUGAZ,
NO MEU DESTINO.
DA QUE FICOU, SORRINDO, COM UM POUCO DE MIM,
COM UM POUCO DO MEU SER ANONYMO E VULGAR,
A MILHARES DE KILOMETROS, NA GRANDE CIDADE...
Josélia Aguiar é jornalista e doutoranda em história. Edita o blog Livros Etc. na Folha.com.
O Livro: Os 25 Poemas da Triste Alegria, de Carlos Drummond de Andrade. Editora Cosac Naify, 255 páginas, R$ 79,90.
REvista Bravo
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Poetando - Ter ou não ter namorado ? Eis a questão
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Resenhando - O que interessa
Este 110º aniversário do nascimento de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) tem sido pródigo em lançamentos e homenagens. A Globo acaba de publicar sua correspondência com o romancista Cyro dos Anjos, na qual Drummond mostra uma franqueza ácida, quase nunca vista em textos publicados, na avaliação de escritores seus contemporâneos.
A CosacNaify editou Os 25 Poemas da Triste Alegria, versos inéditos, anteriores à estreia em Alguma Poesia, em 1930. São lançamentos importantes, mas se destinam sobretudo a admiradores inveterados ou a estudiosos acadêmicos de Drummond, que dessa forma têm acesso às suas opiniões mais reservadas e à dimensão, digamos, arqueológica de sua obra.
Homenageado na semana passada na Feira Literária Internacional de Paraty, o poeta mineiro também vem tendo sua obra relançada pela Companhia das Letras (e os livros da editora anterior, a Record, ainda nem sumiram das livrarias).
Mas o livro obrigatório tanto na estante especializada de críticos e poetas quanto nas prateleiras mais ecléticas do leitor comum é Poesia 1930-62 – Edição Crítica (CosacNaify; 1 024 páginas; 179 reais).
Para ser lido de cabo a rabo e depois revisitado com prazer
É a edição cuidada e criteriosa que um autor como Drummond – para todos os efeitos, o poeta central do modernismo brasileiro – exigia fazia muito tempo. Compreende dez livros e praticamente toda a estupefaciante variedade de registros do poeta, do modernismo irônico (mas desde sempre melancólico) de Alguma Poesia aos flertes com o concretismo em Lição de Coisas, passando pela alta poesia de teor político em A Rosa do Povo e pelos metros e temas mais “clássicos” de Claro Enigma.
Depois de Lição de Coisas, Drummond embarcaria no longo e rebarbativo ciclo memorialístico de Boitempo, e diluiria a si mesmo em outras tantas coletâneas. Continuou produzindo alguns bons poemas, mas não publicou mais nenhum grande livro de poesia.
Uma edição crítica é aquela que fixa a versão de cada poema que se supõe a mais próxima possível da vontade final do autor e ao mesmo tempo registra todas as suas variantes publicadas ou manuscritas.
Organizado pelo crítico Júlio Castañon Guimarães, pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, o livro beneficia-se de um elegante planejamento gráfico, com as variações de cada verso claras e acessíveis no rodapé, mas sempre preservando a legibilidade do corpo do poema.
O preço, 179 reais, parece salgado – mas não quando se considera que, dos dez livros coligidos aqui, a Companhia das Letras lançou só quatro, que já somam 107 reais.
E este é um calhamaço para ser lido de cabo a rabo e depois revisitado com prazer por toda a vida do leitor. Estão lá os antologizados No Meio do Caminho e José – mas também poemas extraordinários porém menos citados, como Noturno à Janela do Apartamento, Resíduo, Tarde de Maio, Escada e Ciclo. Em um volume, praticamente tudo o que interessa de Drummond.
E Drummond interessa.
Revista Veja
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Tá na hora do poeta - Adeus a sete quedas - Carlos Drummond de Andrade
Sete quedas por mim passaram,
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.
Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertadas sem contrato.
Uma beleza-em-si, fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre coito à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento.
E desfaz-se
por ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.
Faz-se do movimento uma represa,
da agitação faz-se um silêncio
empresarial, de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem que não tem preço
nem resgate, empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquecê-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos,
de bilhões de touros brancos integrados,
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará, que resta
senão da natureza a dor sem gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?
Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural
hoje cartão-postal a cores, melancólico,
mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídas
e o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá...
Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.

e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.
Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertadas sem contrato.
Uma beleza-em-si, fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre coito à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento.
E desfaz-se
por ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.
Faz-se do movimento uma represa,
da agitação faz-se um silêncio
empresarial, de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem que não tem preço
nem resgate, empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquecê-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos,
de bilhões de touros brancos integrados,
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará, que resta
senão da natureza a dor sem gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?
Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural
hoje cartão-postal a cores, melancólico,
mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídas
e o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá...
Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.
| Adeus a Sete Quedas | ||
Sete damas por mim passaram,
E todas sete me beijaram.
Alphonsus de Guimaraens
Aqui outrora retumbaram hinos. Raimundo Correia | ||
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Te Contei, não ? - Minha homenagem a Festa Literária Internacional de Paraty
A pedra no caminho, de Drummond
Marcelo Flores
No meio do caminho da poesia
selva selvaggia
Território adrede
Desarrumado
Onde palavras-feras nos agridem
Encontrei Carlos Drummond de Andrade
esquipático
fino
flexiível
ácido
lúcido
até o osso.
(Murilo Mendes, “Murilograma a Carlos Drummond de Andrade”, 1965).
selva selvaggia
Território adrede
Desarrumado
Onde palavras-feras nos agridem
Encontrei Carlos Drummond de Andrade
esquipático
fino
flexiível
ácido
lúcido
até o osso.
(Murilo Mendes, “Murilograma a Carlos Drummond de Andrade”, 1965).
Carlos Drummond de Andrade foi atacado e perseguido de diversas formas por conta de sua poesia: recebeu epítetos como “autor do falso poema da pedra” e “gênio fantasma” e tanto por suas tendências políticas de esquerda e seu “gauchisme”, quanto por sua poesia, em certos períodos, de vanguarda foi acusado de farsante, ridículo, intruso, obscuro e poeta ilegítimo, incapaz de escrever verdadeira poesia. Seus acusadores, em geral, eram favoráveis a uma poesia canônica, preciosista e conservadora: “Céus! Hoje não se rima como nos velhos tempos!” – o que é comum à figura caricatural do poeta ‘sonetista’, romântico ou parnasiano, que há no Brasil desde velhos tempos e está comodamente ligado à manutenção do coronelismo cultural.
Os ataques, orquestrados ora pela, então nova, “geração de 45” – que escolhera a figura de Drummond como avatar do modernismo e arqui-inimigo –, ora por parnaso-conservadores, se concentraram, em boa parte, sobre o poema “No meio do caminho” que, como afirma Arnaldo Saraiva, representa o “pomo da discórdia modernista-antimodernista” no Brasil. Percebendo isso, seu autor resolveu, num ímpeto de jornalista/arquivista/documentarista, selecionar e organizar em volume o que ele encontrou publicado sobre esse poema. Chamou a obra de Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um poema.
Essa biografia ganhou, em 2010, nova edição – ampliada e de luxo – feita por Eucanaã Ferraz para editora do Instituto Moreira Salles. Ela traz ao público do século XXI um vasto registro crítico e jornalístico em torno das discussões que conferiram a esse poema de Drummond, publicado em Alguma Poesia (1930), o status de marco – o que Ferraz, em sua apresentação, chama de monumento de afirmação da poesia moderna. A edição do autor, de 1967, vinha com uma apresentação do escritor português Arnaldo Saraiva, mantida pela edição ampliada de Ferraz, que, após uma análise precisa do poema, o lê como objetivação material de uma monotonia que “não era, portanto, do poema: era antes do (resultante do) acontecimento a que o poema se referia: era a vida”.
Mais para o fim do livro há duas seções novas, introduzidas pelo editor, “Ainda a Pedra”, que reúne alguma fortuna crítica sobre a peça, e “Biografia da biografia”, que nos fornece resenhas sobre a edição de 1967. Nessa penúltima seção há um artigo de Gilberto Mendonça Teles que dialoga com as palavras de Saraiva acima citadas e acrescenta: “A repetição é aí quase absoluta e faculta toda espécie de recriação por parte do leitor. [...] sua estrutura se auto-organiza pela repetição, não de palavras, mas de [...] uma cadeia de elementos linguísticos contrastantes”. Ou seja, o poema dá a ver, como a poesia de Gertrude Stein, a sintaxe como mecanismo de interação lírica, a sintaxe como jogo, a língua como móbile.
As primeiras seções do livro, que começa com uma série de traduções que “No meio do caminho” recebeu para idiomas como o Árabe, o Alemão, o Italiano, o Espanhol, o Inglês e até o Vietnamês, se dão pela exposição das várias manifestações geradas pelo poema. São a coleção de textos impressos em revistas especializadas, livros e, em maioria, cadernos culturais dos jornais das principais capitais do Brasil. Alguns dos capítulos que se seguem são “Deus”, “Reação pelo ridículo”, “Muita gente irritada”, “Crítica Pessoal”, “Das incompreensões” e por aí se segue.
Entre gargalhadas e alguma indignação, o leitor depara com comentários como “esta pescaria feita na obra dos mais graduados representantes da lírica moderna tem ao menos uma utilidade: é provar que, em matéria de poesia, longe de avançarmos, voltamos à idade da pedra...”, de Oswaldo Orico, um dos maiores inimigos do poema, ou “A questão da pedra no Brasil é quase uma questão de petróleo. O Sr. Drummond tem recebido várias propostas, principalmente de certos cavalheiros que são contra o cimento armado, contra o asfalto e a argila seca”, de Joel Silveira, que aqui aproveita o clima de confusão para se permitir o escracho.
O livro também estampa diversas charges que mencionam o poema – que os jornais e os políticos utilizaram diversas vezes como metáfora para os problemas político-econômicos do Brasil, como se lê na seção “Na política” – e um fac-símile, junto à sua posterior crítica musical, da partitura da canção feita a partir de “No meio do caminho” por Francisco Mignone. Compositor paulistano muito conhecido por sua ópera e sua música nacionalista, nos anos 1930 estabeleceu diversas parcerias com Mário de Andrade – que, além de importante poeta, foi o primeiro musicólogo do país. Nesse período Mignone compôs um ciclo de canções futuristas, no qual se inscreve a canção “No meio do caminho”.
Esse poema de dez versos provocou todo tipo de polêmica sobre sua legitimidade e sobre os valores da produção poética no Brasil. Pode ser visto como deboche, mas, ao mesmo tempo, carrega uma dimensão obscura, de nonsense, de mistério a ser decifrado pela participação do leitor. É um poema monótono, repetitivo, tedioso. E, por assim ser, expõe seus leitores – sobretudo aqueles que não o conseguem compreender – ao ridículo do tédio cultural a que esse próprio texto reage em sua ironia. Pode-se imaginar que essa obra, no contexto cultural brasileiro dos anos 1930 e 1940, tenha causado verdadeiro ódio e levado muitos críticos e beletristas a travarem verdadeira guerra para destruí-la. A esses tantos ataques Drummond respondeu dura e ironicamente:
[O referido poema] corre o mundo e é considerado ora obra de gênio, ora monumento de estupidez. Na realidade não é nenhuma dessas coisas [...]. Com efeito, quem se der ao trabalho de examinar-lhe o texto verificará que se trata tão somente da repetição, oito vezes seguidas, dos substantivos “meio”, “caminho” e “pedra”, ligados por preposições, artigos e um verbo. Não há nisso poema algum, bom ou mau. Há apenas alguns vocábulos, que podem ser encontrados facilmente no Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, revisto pelo Sr. Aurélio Buarque de Holanda. (Carlos Drummond de Andrade, “Autorretrato. Carlos Drummond visto por Carlos Drummond”, Leitura, Rio de Janeiro, VI, 1943).
Mas além de tanta ofensa, há também elogios e comentários importantes de amigos e escritores. Mesmo com muitos contras, o pequeno poema despertou reconhecimento e admiração em diversos artistas, escritores e críticos de seu tempo que, de pronto, reconheceram seus índices de ironia e novidade. Sobre esse poema Manuel Bandeira afirmou em carta a Drummond: “[Eu] soube que o Mário [de Andrade] lhe desaconselhara a publicação do poema, por julgá-lo o melhor exemplo de cansaço cerebral. De fato assim é. [...] Há ocasiões em que no cansaço cerebral só fica uma célula lírica aporrinhando com uma baita força emotiva!”. E Murilo Mendes: “é o tipo de poema no meio da cabeça da gente. Nunca me esquecerei. Não sai”.
É preciso dizer que esse documentário em forma de biografia tem sua importância nos dias de hoje justamente por dar a ver a dimensão da luta cultural travada pelas gerações de artistas brasileiros da primeira metade do século passado. A certa altura, a poesia era um assunto de revolta e comentário em torno do qual Drummond atingiu seus universais, e esse poema é uma prova material disso.
Em seu ensaio “Da função moderna da poesia”, João Cabral de Melo Neto, poeta que assumidamente escreveu sua obra, digamos, ‘a partir’ da poesia de Drummond, apresenta o problema da poesia moderna como um abismo entre as necessidades das descobertas técnicas e de expansão do domínio técnico da arte por meio da experimentação e a necessidade de comunicação com o público leitor.
Esse problema, formalizado em ensaio por Cabral anos depois da fatura de “No meio do caminho”, desde os anos 1930, foi percebido e explorado por Drummond que, no “malfadado” poema da pedra, já estava a refletir sobre esse abismo. É por isso que nesse poema exemplar se nota uma apropriação de técnicas de paralelismo próprias da cultura popular ou da música coral – que, em geral, tem uma via de comunicação acessível ao leitor/ouvinte – para a transmissão de um conteúdo poético complexo. Por meio da vazão da fragilidade do eu lírico, expressa-se um misto de tédio exterior e altíssima densidade “metafísica” interior.
Poucos, ou nenhum, foram os poemas que tiveram sua própria biografia. Poucos são os poetas capazes de fazê-lo. Por isso Drummond permanece, no século XXI, um obstáculo no caminho da mediocridade poética, embora sua “pedra” precise ser recriada em outros termos, o que não costuma ocorrer, de modo geral. Sua obra, registrada, em parte, nessa biografia, fornece aos jovens escritores – como foi o caso do jovem João Cabral – um ponto de referência que faça ver a possibilidade de uma criação poética desprovida de ingenuidade lírica, rica em técnica e forma e, ainda assim altamente expressiva e pulsante, que seja capaz de interagir de modo não superficial com as contradições da realidade moderna.
Mário Quintana atesta a ideia de que esse poeta e esse poema transformaram as perspectivas nacionais: “aquela pedra foi um marco histórico na poesia brasileira. Desde então, como depois da bomba atômica, nunca mais fomos os mesmos. [...] – Continue, Carlos, continue... E não lhe chamemos, por favor, de coisa nenhuma: seria impróprio adjetivar um poeta tão substantivo como Carlos Drummond de Andrade”. A seguir, como não poderia ser de outra forma, vai uma transcrição do pequeno gigante.
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Minha homenagem a FLIP/2012
sábado, 16 de junho de 2012
Te Contei, não ? - A Revolução de 1932 - Roberto Pomeu de Toledo
No dia 24 de fevereiro de 1932, o poeta Mário de Andrade aderiu ao plãoque-plãoque. A expressão é dele. Escreveu, ao seu modo modernista: “Toda a gente da rua se dirigia pro comício e não se via uma cara só. O que se via era aquele ruminante ondular de ombros, e os passos batebatendo plãoque-plãoque no revestimento caro da rua plãoque-plãoque, plãoque-plãoque”.
A cidade de São Paulo estava tomada de uma febre. Sucediam-se os comícios contra o regime de Getúlio Vargas.
No dia 9 de julho, as manifestações desembocaram numa guerra. São Paulo pegou em armas e, nos quase três meses seguintes, lutou contra o resto do Brasil.
A chamada Revolução de 1932 completa oitenta anos no mês que vem. Se a ideia era não mais do que a reconstitucionalização do país, como apregoavam as lideranças paulistas, ou a reação de uma oligarquia que se imaginava ameaçada, é assunto para outros e mais doutos espaços. Neste, mais modesto, vai interessar o lado em que estavam certos personagens, e o comportamento que tiveram.
Mário de Andrade, de um lado, e Drummond, de outro
Entre os poetas, se a causa de São Paulo tinha Mário de Andrade, a do resto do Brasil tinha Carlos Drummond de Andrade. Como principal assessor do então secretário da Justiça de Minas Gerais, Gustavo Capanema, Drummond esteve, em agosto, em visita ao túnel ferroviário da Mantiqueira — local de uma longa batalha, na divisa entre Minas e São Paulo.
Drummond redigiu um texto a respeito, e leu-o no rádio: “Eu estive diante do Túnel e vi o soldado lutando. E o soldado não me viu porque estava lutando. (…) Mineiros estão lutando lá longe, nas alturas, aonde não chegam boatos nem se insinuam as vacilações. (…) Vamos ser, como esse soldado, diretos e positivos”.
Concentração de ancestrais de futuros presidentes
Em posições de destaque, no conflito, temos uma curiosa concentração de ancestrais de futuros presidentes da República. Um dos principais chefes militares do lado rebelde era o coronel Euclides Figueiredo, pai do futuro presidente João Figueiredo.
Euclides, como o filho, era carioca, mas alinhou-se do lado paulista. Do mesmo lado estava Lindolfo Collor, avô do futuro presidente Fernando Collor de Melo. Lindolfo era gaúcho e, com um grupo de outros dissidentes do Rio Grande do Sul, lutou em vão para alinhá-lo com São Paulo.
Do lado oposto, o general Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, tio-avô do futuro presidente Fernando Henrique Cardoso, era o ministro da Guerra de Getúlio. Fernando Henrique nasceu no Rio de Janeiro, mas cresceu e fez carreira em São Paulo. Já o tio-avô combatia São Paulo. A diversidade de origens e posições no conflito reflete a barafunda própria das guerras civis.
O homem que matou Euclides da Cunha e um futuro prefeito de São Paulo
Entre figuras em papéis de menor destaque no episódio vamos encontrar, lutando entre as forças governistas, o capitão Dilermando de Assis. No Exército ele foi apenas mais um, mas na história do Brasil já assegurara seu lugar, como o homem que matou Euclides da Cunha.
Em seu excelente livro 1932—A Guerra Civil Brasileira, o brasilianista Stanley Hilton registra uma declaração de Dilermando a propósito da crueldade das “requisições”’ de bens de particulares em apoio ao esforço de guerra: “As requisições transformaram-se em verdadeiro saque oficializado, documentado, porque o governo em geral não nas (sic) paga”. Era a reincidência no crime. Não contente em matar o autor de Os Sertões, investia agora contra a língua portuguesa, um dos grandes amores do escritor.
Outro personagem menor no conflito foi um oficial de 23 anos. José Vicente de Faria Lima. Esse oficial, destinado a uma carreira na Força Aérea em que chegaria a brigadeiro, não é outro senão o operoso prefeito de São Paulo que, entre outras obras, rasgou a majestosa avenida que leva seu nome. Em 1932, o carioca Faria Lima estava engajado em missões de bombardeio da aviação governista contra posições paulistas.
Dias depois do 9 de julho, Santos Dumont se suicida
Em terra, por falar em aviões, encontrava-se Alberto Santos Dumont, o Pai da Aviação. Com a saúde física e mental abalada, fora alojado pela família numa casa alugada no então sossegado balneário do Guarujá.
No dia 14 de julho, ele redigiu um apelo pela concórdia entre os litigantes. O trecho em que disse que “somente pela lei magna” os problemas nacionais poderiam ser resolvidos foi interpretado como apoio à causa paulista.
Pode ser. No dia 23 de julho, burlando a vigilância do sobrinho que o acompanhava, refugiou-se no banheiro e enforcou-se com uma gravata. Dizem que não aguentou o ronco dos aviões que rondavam o Porto de Santos, ali perto. Pode ser.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Te Contei, não ? - Drummond inédito

Quando se imaginava que toda a produção literária do poeta Carlos Drummond de Andrade era conhecida, uma raridade de sua autoria chega às livrarias na quinta-feira 21. Sob o nome de “Os 25 Poemas da Triste Alegria” (CosacNaify), a obra inédita reúne os primeiros trabalhos de Drummond – ela foi encadernada pelo próprio autor em 1924 (tinha 22 anos de idade) e permaneceu oculta na forma de original. Sua existência era conhecida pelo círculo mais íntimo do poeta, mas chegou-se a pensar que fora perdida – isso até ser descoberta há quatro anos pelo professor de literatura da UFRJ Antonio Carlos Secchin na casa de um bibliófilo que prefere o anonimato.
O que o leitor terá em mãos, contudo, não é esse trabalho inaugural, mas uma “edição comentada” – não apenas pelo próprio Drummond, mas também pelo seu amigo e romancista Mario de Andrade, um dos articuladores do modernismo brasileiro. As notas, escritas à mão às margens dos poemas, datam de 1937. Ou seja: foram feitas quando Drummond já era um autor consagrado e podia avaliar com distanciamento crítico e existencial os versos da juventude. O volume traz 12 poemas inéditos escritos na época em que ele se mudou de Itabira, no interior de Minas Gerais, para Belo Horizonte. Foi datilografado pela sua noiva, Dolores Dutra de Morais, com quem se casaria e dividiria a maior parte de sua vida. Os outros 13 trabalhos que completam o livro foram publicados em jornais locais, como o “Diário de Minas”.
Apesar do tom saudosista de seus comentários, Drummond é duro na avaliação a posteriori da obra – e, nesse aspecto, teve o reforço considerável de Mario de Andrade, que não poupava o trabalho de amigos. Assim ele classificou “Longe do Asphalto”: “Não é ruim, porém não se poderá falar que seja de você. E os outros já falaram isso melhor”. Em “A Sombra do Homem que Sorriu”, Drummond se vale de uma virulenta acidez: “É impossível não ter pena do pobre poeta que os escreveu”. Tanto quanto a raridade dos escritos, é a ironia do Drummond maduro que valoriza essa edição facsimilar. Sempre econômico em suas apreciações, ele é sucinto em relação à “Canção do Grego Desencantado”: “Se um inimigo apanhasse esses versos”, lamentaria ao avaliar as rimas vacilantes. Não imaginava que, décadas mais tarde, não um inimigo, mas um estudioso da poesia brasileira os teria em mãos para mostrar ao mundo como nasceu – e o quanto cresceu – um dos maiores poetas do País.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Te Contei, não ? - O despertar de Drummond
Aos 15 anos, um jovem interno do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, publicou seu primeiro texto. "Vida nova" — que saiu no dia 14 de abril de 1918 no jornal "Aurora Collegial" — falava da expectativa da chegada à nova escola, "com a alma povoada de esperanças miríficas e sonhos maravilhosos". Sonhos esses que terminariam em 1919, quando Carlos Drummond de Andrade foi expulso por "insubordinação mental", após discutir com um professor.Foram apenas dois anos de Anchieta, período em que ele escreveu pelo menos dez crônicas. Graças ao esforço de Nelson Bohrer, presidente da Fundação D. João VI, de Friburgo, nove delas foram recuperadas, digitalizadas e estarão disponíveis a partir desta semana no portal www.djoaovi.com.br. Ele teve acesso a exemplares do jornal, feito pelos alunos do colégio entre 1905 e 1922. Vários volumes estavam embrulhados em papel de jornal. Alguns exemplares haviam se rasgado.
— Higienizei, consertei e devolvi tudo recuperado — diz ele, que prefere não revelar como conseguiu o material, guardado pela escola. — Só não foi possível encontrar a crônica "Extraordinária visita", publicada em 10 de junho de 1919. Ou o jornal veio para mim só com as páginas 1, 2, 5 e 6 ou no processo de digitalização foram puladas as páginas 3 e 4, onde estava a crônica.
"Extraordinária visita" descreve um sonho em que aparece o corvo de Edgar Alan Poe. Ele responde com a frase do poema — "Nevermore" — às perguntas do autor sobre seu sucesso nos exames.
Drummond não tinha muito apreço por seus primeiros textos.
— Ele nunca se interessou por eles. Considerava-os infantis demais — diz o poeta, crítico e tradutor Fernando Py, de 76 anos, autor da "Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade", que cataloga os textos de 1918 a 1934 e onde cada um saiu publicado.
Mas se estão longe de entrar numa antologia das melhores crônicas brasileiras, seu valor documental, histórico e biográfico é inegável. Ao fazer seu livro, Py listou os nomes das crônicas e as datas em que saíram no "Aurora Collegial".
— Drummond não queria que eu tomasse conhecimento delas. Dei como exemplo Machado de Assis, que teve toda sua bibliografia publicada em 1955. Ele me respondeu: "Eu não tenho a importância de Machado de Assis!" Mas tudo que se refere a ele é interessante.
Nas colaborações para o "Periódico Quinzenal da divisão dos Maiores", como o "Aurora Collegial" se autointitulava, ele assinava Carlos Drummond Andrade, sem o "de". No caso de "Uma noite na Senegambia", de 31 de julho de 1919, anotou CêdêÁ. Às vezes, aparecia "74", referência a seu número como aluno, e 2 ano Ginasial. Em "Uma data", de 17 de agosto de 1919, artigo comemorativo do número 200 do periódico, Drummond fala com simpatia do jornal: "Duzentas alvoradas tingiram de oiro e púrpura o céu friburguense, e duzentas vezes gemeram os prelos para que viessem à luz da publicidade duas centenas de números da ‘Aurora’."
Em nenhuma crônica há sinal de interferência ou de censura da direção do jornal. No entanto, em "Estréia literária", poema de "Fria Friburgo", de 1979, é denunciada a intromissão em pelo menos um de seus textos: "O padre-redator introduziu/ Certas mimosas flores estilísticas/ No meu jardim de verbos e adjetivos." Devia estar se referindo a "Maio", de 30 de abril de 1918, talvez a crônica mais derramada, em que há a mistura de clichês líricos com arroubos "poéticos" que certamente ele renegaria depois: "Há gemidos vagos em toda a natureza", "súbito, a grande voz dos sinos, na altura nevoenta dos campanários", "o bimbalhar sonoro dos sinos, a música álacre dos pássaros, a alegria triunfal do mundo", "a terra reverdece e se adorna de mimosas flores".
Em outro poema, a denúncia é de censura na correspondência: "Não te mando esta carta/ que um padre leria certamente./ E me põe de castigo uma semana/ (e nem tenho coragem de escrever)./ Esta carta é só pensada."
— Ele era censurado ideológica e estilisticamente — diz o professor emérito da Universidade do Porto, o português Arnaldo Saraiva, de 72 anos, sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.
Fernando Py confirma que os textos eram "deturpados". Mais tarde, Drummond se queixaria de uma emenda: "Um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão ‘tímidas cecéns’, que me indignou." A passagem pela escola foi citada na "Revista Acadêmica": "Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. Mas ganhei vida e fiz alguns amigos inesquecíveis."
As primeiras crônicas de Drummond, publicadas no "Aurora Collegial", exibem sua erudição precoce, citando o crítico Sainte-Beuve, o filósofo Nietzsche, os sábios de Hélade e a Biblioteca de Alexandria. Mas, de modo geral, abordam temas frugais e variados, como a volta às aulas, a primavera e o mês de maio.
Em "História do pinto pelado", de 25 de maio de 1919, Drummond fala de um pintinho "desprezado dos irmãos e de todos, que vivia uma vida d’isolamento, lá no seu cantinho" e que se imagina pássaro, borboleta, flor ou raio de sol, até que volta à dura realidade, "à sua primitiva pequenez ignorada... Era de novo pinto sem penas".
"Calor, exames e o nariz de Cleópatra", de 30 de setembro de 1919, traz comentários sobre o tempo em Friburgo: "Isto de calor em pleno setembro é uma pilhéria de mau gosto, que nos faz perder o sono e comer consideravelmente menos." Ele também fala do nariz de Cleópatra: "Os apêndices nasais desta senhora desviaram o curso da história do mundo. Ah! Se Cleópatra não tivesse nariz!"
‘Profissão d’encher linguiça’
Em "Conversa fiada", a última delas, de 19 de outubro de 1919, Drummond inaugura, antes de Rubem Braga, a crônica sobre a falta de assunto, que é "cousa rara como carne de vaca na Rússia de hoje". Com autoironia, ele explica que se vê "constrangido a exercer a tristíssima profissão d’encher linguiça". E, como não pode apresentar um "suculento prato de árdua confecção", ele cita a conversa que teve com um vagalume — em "Primavera", de 18 de setembro de 1919, ele já havia falado com um lírio. Aqui, depois de dialogar com o pirilampo, o autor o despacha com humor, por estar com sono, "pois tive aula de latim hoje".
No texto "As prosas colegiais de Carlos Drummond de Andrade", o professor Arnaldo Saraiva diz que há um desnível artístico entre as duas primeiras crônicas, "Vida nova" e "Maio" — que "denunciam a inexperiência e a ingenuidade de um principiante" —, e as restantes, que trazem referências a Eça de Queiroz e são revolucionárias, no sentido de que "reagiam pela justeza, pela medida, pela elegância, pela descontração contra a solenidade, a pompa, o derrame sentimental, o foguetório verborraico dos prosadores da época".
Das dez crônicas, Fernando Py, autor da "Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade", diz que somente "Maio" foi republicada, no dia 2 de dezembro de 1979, no jornal "O Estado de S. Paulo". Saraiva incluiu nove delas — não conseguiu ter acesso a "Uma noite na Senegambia" — em sua tese "Carlos Drummond de Andrade: do berço ao livro — Subsídios para a história do modernismo no Brasil", apresentada em 1968 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas o material teve circulação restrita.
— A tese não foi impressa porque Drummond não gostaria de ver esses textos juvenis publicados. Ele os desvalorizava — explica Saraiva.
Ele fez 20 exemplares, em edição mimeografada. Ficou com dois, entregou outros para a banca e para o arquivo da faculdade, enviou alguns a amigos e estudiosos e mandou cinco para o Brasil.
— Duas, eu sei que se conservam na biblioteca que era de Plínio Doyle e na de Gilberto Mendonça Teles.
Se nas crônicas não há referências à passagem pelo educandário dos jesuítas, nos 40 poemas de "Fria Friburgo" Drummond abre o verbo para se queixar. Ele relata o que chama de "dois anos jogados fora", traduzidos em trechos ora amargos, ora irônicos, ora sarcásticos. Do triste período escolar, ele teria guardado até o modo de andar com os braços colados às pernas e a cabeça baixa. Foram anos de inadequação e sofrimento. A certa altura, ele pergunta: "Quando termina, se é que termina, o meu exílio?".
Desde o começo, o aluno "74", apelidado de "O anarquista", manifesta seu desassossego. Em "Terceiro dia", já não suporta mais a saudade, o frio, o dormitório que lembra um hospital, o travesseiro que ele ensopou de "lágrimas ardentes", o banho de madrugada no chuveiro gelado. "Mamãe, quero voltar/ Imediatamente/ Diz a Papai que venha me buscar." A saída do colégio se deu de forma brusca, como lembra Saraiva:
— As notas eram lidas em voz alta. Drummond me contou que o professor de português, após a leitura, disse: "Essa nota foi dada por comiseração." Ele respondeu: "Eu não quero nota por comiseração, eu quero uma nota justa."
Segundo Pedro Drummond, neto do poeta, os jesuítas mandaram que se retratasse, senão seria expulso. Ele se retratou — e foi expulso. Drummond se sentiu traído.
— Meu avô disse que foi um ato tipicamente jesuíta. Nos anos 1980, no aniversário do colégio, ele foi convidado, mas recusou: "Não vou voltar a um lugar do qual fui expulso."
Helenio Campos da Silva, que passou 22 de seus 81 anos como professor de biologia do Anchieta, diz que "insubordinação mental" era um termo muito comum na época, referente a um tipo de indisciplina considerado grave. O episódio parece ter deixado marcas também na escola. No livro "Colégio Anchieta 1886/1986", lê-se: "Entre os alunos que se tornaram célebres não podemos omitir os nomes do Dr. Sobral Pinto, Almirante Amaral Peixoto, os senadores Mozar Lago e Artur Bernardes Filho, os Drs. Vilhena de Morais e Bandeira Vaughan, os Padres Gentil e Leonel Franca, Sabóia de Medeiros, Vioti e Aguiar, e tantos outros." Drummond entrou para a categoria "tantos outros".
Nelson Bohrer, presidente da Fundação D. João VI de Friburgo, teve acesso ao material quando começou a digitalizar todo o acervo do Arquivo Pró-Memória, que guarda quase meio século da história da cidade. Ele está digitalizando 1,5 milhão de itens, como os exemplares de mais de 40 jornais diferentes de Friburgo, entre eles o "Aurora Collegial".
Jornal O Globo
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Aconteceu, no LiterAtivo apareceu - Os óculos quebrados, mais uma vez
Vândalos depredaram mais uma vez a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana. Toda a metade direita dos óculos, incluindo o aro e haste, foi arrancada. Ontem à tarde, guardas municipais estiveram no calçadão da Avenida Atlântica, onde o monumento está instalado, e constataram o ataque. Esta é a nona vez que a escultura do poeta é danificada.
Na última vez em que foi atacada, em janeiro de 2009, a estátua teve os óculos roubados e o braço direito danificado: uma rachadura indicava que alguém havia tantado arrancá-lo. Uma fabricante de lentes para óculos adotou o monumento e arcou com os reparos, que levaram cerca de 11 meses para serem concluídos. Além de repor os óculos, a empresa também instalou duas câmeras de segurança no canteiro central da avenida, em frente à Avenida Rainha Elizabeth, para monitorar a escultura e evitar novas ações de vândalos. A reposição e as câmeras custaram R$ 30 mil. Isso, no entanto, não impediu o novo ataque.
A estátua foi instalada em outubro de 2002, em comemoração aos 100 anos de nascimento do poeta. Dois dias após a inauguração, o monumento amanheceu pichado. Um mês depois, vândalos arrancaram uma das hastes dos óculos, que eram uma característica do poeta.
O monumento é feito de bronze, em tamanho natural, e reproduz a figura de Drummond sentado, de costas para o mar, num dos bancos do calçadão de Copacabana. O local era o preferido pelo poeta em seus passeios de fim de tarde.
Fonte: O Globo
sexta-feira, 16 de março de 2012
Tá na hora do Poeta - No meio do caminho - Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond de Andrade
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