sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou ......




Ouvindo a musiquinha da Rede Bobo, ops, perdoe - me, Rede Globo, vou na contramão do clima e concluo que não existe ano novo para a natureza.

É tudo um fluxo só. O mundo não sabe que o ano vai mudar. A gente é que o supõe para abastecer o farnel das esperanças combalidas. Para a natureza, o novo é cada estação, primavera, verão, outono, inverno. Aí tudo muda.

O único ente da natureza que comemora ...o ano novo é o homem. A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos. Já viu flor comemorando ano novo?

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definitivo, monobloco; que o "ano novo" te ensine a aceitar o conflito como condição lúcida da existência. Tanto mais lúcida quanto mais complexa. Tanto mais complexa quanto mais consciente. Tanto mais consciente quanto mais dificil. Tanto mais dificil quanto mais grandiosa.

 E já que é quase impossível fugir desta energia criada pelo homem ... Que no "ano novo", aquele garoto que nao come, coma. Que aquele cara que mata, nao mate. Que aquela "amiga" que é falsa, vil e traiçoeira recilce-se. Que a dor da perda se perca. Que aquela timidez do pobre, passe. Que o aluno esforçado, se forme. Que o jovem, jovie. Que o velho, velhe. Que a moça, moce. Que a luz, luza. Que a paz, paze. Que o som, soe. Que a mãe, manhe corretamente. Que o pai, paie corretamente. Que o sol, sole. Que o filho, filhe. Que a árvore, arvore. Que o ninho, ninhe. Que o mar, mare. Que a flor, flora. Que o coração, coraçõe. Que tudo, tudo vire verbo e verbe. Como a esperança. E se ano novo não existe, exceto na imaginação da gente e se nesta tudo é possivel, então que ele sirva para transformar tudo em Verbo. Como no princípio. Pois do jeito que o mundo vai, dá uma vontade danada de apagar tudo e começar tudo de novo .....


A Crônica do dia - A Literatura e a vida - Betty Milan



( artigo de BETTY MILAN - psicanalista/ escritora- artigo Revista VEJA 14/12/2011)

 Por que ler os clássicos? O que há neles de fundamental para nós? Com essa questão em mente, reli HAMLET, anotando os seus ensinamentos.

Antes de dizer adeus a Ofélia, Hamlet envia a ela um poema: "Duvida de que os astros sejam chamas/Duvida de que o sol gira/ Duvida da própria verdade /Mas não duvida de que eu te amo". Algumas poucas linhas para dizer o essencial sobre o amor. Ou seja, que ele não suporta a dúvida, a desconfiança. Como é patente, aliás, na história de EROS e PSIQUÊ, que vale rememorar.

Sendo o mais terno dos amantes, Eros não deseja ser visto e só vai ao encontro de Psiquê à noite. Desconfiada de que Eros seja um monstro, Psiquê se vale do sono dele para iluminar seu rosto. Surpreendida pela beleza que se revela, deixa cair da lamparina uma gota de óleo quente no ombro do amante, que acorda assustado e vai embora enfurecido.

Também sobre a vida e a morte SHAKESPEARE diz o essencial em poucas linhas. Assim é no diálogo de Hamlet com a rainha, sua mãe. Para fazê-lo aceitar a morte do pai assassinado, a rainha diz: "...tudo o que vive deve morrer, ser levado pela natureza para a eternidade". Palavras sábias. Tanto quanto serão as do novo marido da rainha, o assassino, o rei usurpador, que, temendo a vingança de Hamlet, procura apaziguá-lo com as seguintes palavras: "Viver a tristeza do luto, durante algum tempo, é uma obrigação filial, mas perseverar numa aflição obstinada é indício de teimosia... de um coração sem humildade, de uma alma sem resignação, de um julgamento fraco e malformado".

A leitura dos clássicos se faz necessária pela sabedoria que eles contêm. Em especial, a sabedoria que se refere aos sentimentos humanos. Ela nos faz refletir e viver melhor. HAMLET ensina a não fazer pouco do amor e a não desperdiçar a vida, chorando infidavelmente a morte e a perda.

Te Contei, não ? - Professores são educadores, nao babás



Autor do 2º artigo mais compartilhado no Facebook em 2011, americano diz que pais desrespeitam regras de escolas, pondo em risco o futuro dos filhos Nathalia Goulart Ron Clark e seus alunos: em defesa de mais cooperação entre pais e professores (Divulgação/Ron Clark Academy)

"Hoje, existe uma preocupação grande com a autoestima da criança. Por isso, muitas pessoas se veem obrigadas a dizer aos pequenos que eles fizeram um ótimo trabalho e que são brilhantes, mesmo quando isso não é verdade"

O segundo artigo mais compartilhado em 2011 por usuários americanos do Facebook foi escrito por um professor, Ron Clark (o primeiro trazia fotos da usina de Fukushima). Mais de 600.000 pessoas curtiram o texto na rede, escrito a pedido da rede de TV CNN e intitulado "O que os professores realmente querem dizer aos pais".

O artigo descreve um cenário de guerra, travada entre pais e professores. Na visão de Clark, os pais vêm transferindo suas responsabilidades para a escola, sem, contudo, aceitar que seus filhos se submetam de fato às regras da instituição. Por isso, assim que surge a primeira nota vermelha ou uma advertência, invadem a sala de aula culpando os professores – a pretexto de preservar a reputação e o orgulho de seus filhos.

"Precisamos estar mais atentos à excelência acadêmica e menos preocupados com a autoestima das crianças", diz o professor, na entrevista concedida a VEJA.com e reproduzida a seguir.

"Essas crianças deixam de aprender que é preciso se esforçar muito para conseguir bons resultados. No futuro, elas não terão sucesso porque, em nenhum momento, exigiu-se excelência delas."

Clark conhece sua profissão. Aos 39 anos, vinte deles dedicados à carreira, o americano já lecionou na zona rural da Carolina do Norte, nos subúrbios de Nova York e atualmente comanda uma escola modelo no estado da Geórgia que oferece treinamento a educadores. Graças à função, manteve, desde 2007, contato com cerca de 10.000 educadores de diversas partes do mundo, incluindo brasileiros.

Em seu artigo, o senhor fala de um ambiente escolar em que pais e professores não se entendem mais. O que tornou a situação insustentável, como o senhor descreve?

 A sociedade se transformou. Hoje, vemos pais muito jovens, temos adolescentes que se veem obrigados a criar uma criança sem ao menos estarem preparados para isso. São pessoas imaturas. Por outro lado, temos famílias abastadas, em que pais trabalham fora e são bem-sucedidos profissionalmente. Pela falta de tempo para lidar com os filhos, empurram toda a responsabilidade da educação para a escola, mas querem ditar as regras da instituição. Ou seja, eles querem que a escola eduque, mas não dão autonomia a ela.

Que tipo de comportamento dos pais irrita os professores?

Acho que o ponto principal são as desculpas que os pais criam para livrar os filhos das punições que a escola prevê. Se um aluno tira nota baixa, por exemplo, ou deixa de entregar um trabalho, os pais vão à escola e descarregam todo tipo de desculpa: dizem que o filho precisava se divertir, que a escola é muito rigorosa ou que a criança está passando por um momento difícil. Ou, ainda, culpam os professores, dizendo que eles não são capazes de ensinar a matéria. Mas nunca culpam seus próprios filhos. É muito frustrante para os professores ver que os pais não querem assumir suas responsabilidades.

Problemas com notas são bastante frequentes?

Sim. Certa vez tive uma aluna que estava indo mal em matemática. A mãe dela justificou-se dizendo que, na escola em que a filha estudara antes, ela só tirava boas notas, sugerindo, assim, que o problema éramos nós, os novos professores. Infelizmente, essa ideia se instalou na nossa sociedade. Se a nota é boa, o mérito é do aluno; se é baixa, o problema está com o professor. E quando as notas ruins surgem, os pais ficam furiosos com os professores. O resultado disso é que muitos profissionais estão evitando dar nota baixa para não entrar em rota de colisão com os pais, que nos Estados Unidos chegam a levar advogados para intimidar a escola.

Os pais poupam os filhos de lidar com fracassos?

Hoje, existe uma preocupação grande com a autoestima da criança. Por isso, muitas pessoas se veem obrigadas a dizer aos pequenos que eles fizeram um ótimo trabalho e que são brilhantes, mesmo quando isso não é verdade. Essas crianças deixam de aprender que é preciso se esforçar muito para conseguir bons resultados. No futuro, elas não terão sucesso porque, em nenhum momento, exigiu-se excelência delas. Precisamos estar mais atentos à excelência acadêmica e menos preocupados com a autoestima das crianças.

Que conselho o senhor dá aos professores?

É possível evitar que os pais surtem diante de notas ruins e do mau comportamento dos filhos se for construída uma relação de confiança. Em vez de só procurar os pais quando as crianças vão mal na escola, oriento que os professores conversem com os responsáveis também quando a criança vai bem. Na minha escola, procuro conhecer os pais de todos os meus alunos. Procuro encontrá-los com frequência e envio cartas a eles com boas notícias. Assim, quando tenho que dizer que a criança não está rendendo o esperado, eles me darão credibilidade e confiarão na minha avaliação.

É possível determinar quando termina a responsabilidade dos pais e começa a da escola?

As duas partes precisam trabalhar em conjunto. Os pais precisam da escola e a escola precisa do apoio da família para realizar um bom trabalho. Um conselho que sempre dou aos pais é que nunca falem mal da instituição de ensino ou do professor na frente dos filhos. Se a criança ouve os próprios pais desmerecerem seus mestres, perde o respeito por eles. O contrário também é verdadeiro. Os professores precisam respeitar os pais, porque eles são parte fundamental na educação de uma criança. Em algumas situações a discussão sobre responsabilidades da família e da escola surge com muita força. Em casos de bullying, por exemplo, pais e professores trocam acusações.

Sobre quem recai a maior parte da responsabilidade nesses casos?

A minha resposta novamente é que precisamos trabalhar em conjunto. Quando o bullying acontece na escola, é obrigação dos professores intervir imediatamente. Mas muitos não agem assim porque querem evitar conflitos com os pais. E isso é muito grave. O bullying está devastando nossas crianças. Precisamos combatê-lo. Para que os professores tenham liberdade para agir, precisam do apoio dos pais. Mas você sabe o que acontece? Muitas vezes, quando os pais são chamados na escola para serem alertados de que seu filho está praticando bullying contra um colega de classe, o que ouvimos é: "Mas qual o problema disso? Tenho certeza de que outros colegas também zombam do meu filho e ele não se sente mal por isso." Mais uma vez, vemos os pais se esquivando da responsabilidade.

 A que o senhor atribui o sucesso do artigo que estourou no Facebook?

 Eu escrevi o que todos os professores tinham vontade de dizer aos pais, mas não podiam dizer, porque isso os enfureceria. O que eu fiz foi dar voz a milhões de profissionais. Fiquei sabendo que muitas escolas imprimiram o texto e enviaram uma cópia a cada família. Na internet, pessoas de outros países também compartilharam a minha mensagem.

O senhor criou uma escola modelo, a Ron Clark Academy. Como é a relação de seus professores com os pais?

Procuramos estabelecer uma relação próxima. Como eu disse, estamos constantemente em contato com os pais, nos bons e nos maus momentos. Também promovemos encontros semanalmente, nos quais ofereço aos pais a oportunidade de assistir a uma aula na escola, destinada exclusivamente a eles, para que acompanhem o que está sendo ensinado a seus filhos. Ou seja, trabalhamos muito para conquistar uma relação harmônica. Não estou dizendo que é fácil lidar com os pais. Alguns deles podem ser bem malucos.

O senhor, na sua escola, recebe professores de diversas partes dos Estados Unidos e tambem de outros países, como o Brasil. Além dos problemas de relacionamento com os pais, do que mais professores de todo o mundo reclamam?

 As avaliações tiram o sono dos professores. Não sei exatamente como funciona no Brasil, mas nos Estados Unidos os professores são constantemente cobrados a melhorar o desempenho de suas escolas em testes padronizados. E todo o processo educacional passa a girar em torno de algumas provas. Isso é massacrante, para os alunos e para os professores. Os professores precisam de mais diversão na sala de aula.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Te contei, não ? Castro Alves na ABL



Castro Alves (Antônio Frederico de C. A.), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871.
É o patrono da Cadeira n. 7 da Academia Brasileira de Letras , por escolha do fundador Valentim Magalhães.
Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1o ano em 65, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 66, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama Gonzaga e, em 68, vai para o Sul em companhia da amada, matriculando-se no 3o ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa.
No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi afinal amputado no Rio, em meados de 69. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 70 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a saúde comprometida pela tuberculose.
 Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores. Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
Ainda em 70, numa das fazendas em que repousava, havia completado A cascata de Paulo Afonso, que saiu em 76 com o título A cachoeira de Paulo, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: “Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.” Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada da sensualidade de um autêntico filho dos trópicos, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloqüência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando completamente o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire. A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas. Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de “Cantor dos escravos”. A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.
Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da história.
Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século.
 O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, não se podia elevar a objeto estético. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Te contei, não ? - História do Natal



Em diversas culturas espalhadas pelo mundo, a celebração da passagem do ano ou das estações é feita com o intuito de estabelecer a renovação do mundo e o revigoramento dos valores que agregam uma determinada civilização. Semelhantemente, o Natal também incorpora esse mesmo princípio de renovação ao celebrar o nascimento de uma das figuras centrais do cristianismo, Jesus Cristo. De fato, em diversas manifestações natalinas podemos também enxergar a reafirmação desse mesmo valor. Dessa maneira, podemos observar que os princípios natalinos se configuraram em diferentes culturas ao longo do tempo. Os mesopotâmicos, por exemplo, celebravam nessa mesma época o Zagmuk. Segundo a tradição mesopotâmica, o fim do ano era marcado pelo despertar de monstros terríveis a serem combatidos por Marduk, sua principal divindade. Durante a festividade, um homem era escolhido para ser vestido e tratado como rei, para depois ser sacrificado, levando todos os pecados do povo consigo. Nas civilizações nórdicas, o Yule – marcado para o dia 21 de dezembro – marcava o retorno do sol. Para celebrar a mudança, grandes toras de madeiras eram amontoadas para a montagem de grandes fogueiras que tinham em suas labaredas a representação de novas colheitas e rebanhos a serem consumidos no ano seguinte. Marcando o início do inverno, a celebração reafirmava uma grande esperança nas novas conquistas a serem obtidas no novo ano que se iniciava. Na Roma Antiga, a data de 25 de dezembro marcava o início das celebrações em homenagem ao nascimento do deus Sol, conhecido como “Natalis Solis Invcti” (O Nascimento do Sol Invencível). Nessa mesma época, entre os dias 17 e 24 de dezembro, também ocorriam as festividades da Saturnália, celebração cercada de muita comida e bebida onde as normas do mundo formal eram subvertidas com o intuito de promover a renovação dos valores por meio de festas marcadas pela inversão dos padrões vigentes. Com a oficialização do cristianismo no interior do Império Romano, várias destas datas foram incorporadas com o propósito de alargar o número de convertidos à nova religião do Estado. Nesse processo, o dia 25 de dezembro foi instituído como a data em que se comemorara o nascimento de Jesus Cristo. Na verdade, várias analogias entre as tradições pagãs e os valores cristãos oferecem uma grande proximidade entre os significados atribuídos a Cristo e as divindades anteriormente cultuadas. Assim como Jesus Cristo, Mitra era reconhecida como uma grande divindade mediadora espiritual para os romanos. Da mesma forma, Jesus, considerado “O Messias”, teria a mesma função de conceder a salvação espiritual a todos aqueles que acreditassem em seus ensinamentos por meio da conversão. Com isso, a absorção dos princípios e referenciais religiosos da cultura romana influenciou na ordenação das festividades e divindades do Cristianismo. Mesmo a Bíblia não especificando o nascimento de Cristo, as autoridades cristãs fizeram a escolha desta data, que foi mais tarde reconhecida pelo Papa Julius I (337 -352). Com o processo de expansão e regulamentação das tradições do cristianismo, o feriado natalino ganhou enorme força ao seguir o próprio processo de expansão da nascente religião. Dessa maneira, o Natal conseguiu se transformar em uma das principais datas a serem comemoradas pelos cristãos de todo o mundo. Por Rainer Sousa Graduado em História

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Crônica do dia - O espírito natalino não vale para os cachorros ? - Walcyr Carrasco


WALCYR CARRASCO é jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão

O rottweiler Lobo foi arrastado pelo carro do mecânico Cláudio César Messias, em Piracicaba, interior de São Paulo. Morreu após sua perna ser amputada. A cadela Titã, de 4 meses, foi enterrada viva por seu dono, o aposentado Orlando Santos, em Araçatuba, no mesmo Estado. Salva após 12 horas, perdeu a pelagem e corre o risco de ficar cega. Também em Araçatuba, a vira-lata Júlia foi amarrada e arrastada por uma moto dirigida pelo porteiro de um condomínio. Em Poços de Caldas, Minas Gerais, a polícia encontrou 43 cães presos e abandonados numa casa. Famintos. Resgataram-se dois pit-bulls de outra casa abandonada, em condições deploráveis, no Recife. Em Guarulhos, ainda em São Paulo, o cão George também foi amarrado a um carro e arrastado. Está internado. Todos esses fatos aconteceram em 2011. Outros relatos de crueldade com cães multiplicam-se pelo país. No final de novembro, centenas de pessoas se reuniram na Avenida Paulista, em São Paulo, para protestar contra os maus-tratos a animais. Um abaixo-assinado pelo endurecimento de punições corre na internet, denominado, apropriadamente, Lei Lobo. A crueldade com cães envergonha o país. Não dá para entender o que leva alguém a torturar um bicho Sou apaixonado por cães e gatos. Lógico que é bom o abaixo-assinado. Tenho dúvidas sobre a eficácia de uma mudança legal. Minha impressão, como a de muita gente, é que o Brasil tem leis ótimas que não são aplicadas. O Código Penal prevê pena de seis meses a um ano de reclusão para quem comete crimes ambientais, categoria na qual se inserem as torturas caninas. Multas também são previstas. No caso do falecido Lobo, o Ministério Público multou o culpado em cerca de R$ 1.500 e condenou-o a prestar 120 horas de serviço comunitário no canil municipal. No da cadela Titã, seu dono defendeu-se dizendo que não a enterrara viva. Segundo afirma, Titã costumava fazer buracos no quintal e, ao vê-la caída em um deles, julgou que estava morta. Legalmente, também existem muitas atenuantes que facilitam a defesa de quem maltrata bichos. Se até quem machuca gente consegue sair ileso, que se dirá dos que torturam animais? O sujeito pode até ter alguma dor de cabeça e ficar de mal com os vizinhos. Mas só. Acredito que a solução está na educação e na consciência. E na valorização da sensibilidade. Até órgãos oficiais são indiferentes à dor dos animais. Na Bahia já houve um Inquérito Civil, instaurado pelo Ministério Público, para apurar denúncias de associações protetoras de animais contra maus-tratos e contra o sacrifício sistemático e indiscriminado de cães, realizado pelo Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria de Saúde Municipal. Entre outras coisas, acusa o centro de abater cães e gatos com injeções letais, câmara de gás, câmara de compressão a vácuo, espancamentos, choques elétricos. A realidade de outros centros de controle de zoonoses não parece ser diferente. Não me choca só a tortura explícita. Há aquela sem pancadaria, mas também sem nenhum sentimento. Muitas pessoas compram um filhotinho. Tratam como um filho. Levam ao veterinário, botam roupinhas, até brincam de fazer “au-au”. De repente, surge uma viagem. Ou uma mudança. Ou não aparece coisa alguma. O dono simplesmente se cansa do bichinho. Solta na rua, bem longe de casa. Joga fora, como se fosse lixo. Sentimento não há, da parte do humano. Só do animal, que late desesperado, porque, todos sabemos, o cão ama devotadamente seu dono. O problema não ocorre só nas grandes cidades. Em Pelotas, Rio Grande do Sul, a Associação SOS Animais luta contra a facilidade com que cidadãos abandonam seus pets na sarjeta. Existem pessoas dispostas a se doar, como minha amiga Vera, casada com o ator Fúlvio Stefanini, que já entrou numa favela, durante a noite, para resgatar uma cadela que sofria maus-tratos. Ou a atriz Nicole Puzzi, que tem um lar para 500 cães abandonados. Recentemente, salvou do sacrifício 100 filhotes de chihuahuas, deixados por um canil falido. Seus amigos do Twitter e Facebook já sabem. Quem quiser um chihuahua é só pedir, com a promessa de tratar bem. Sem custos. Nicole é contra a venda. Nesta época do ano, em que tanto se fala de amor e fraternidade, é tão estranho saber que alguém machucou um cãozinho, ou o jogou nas ruas, no intervalo das compras dos presentes de Natal. O tal espírito natalino não vale para cachorros? Simplesmente não entendo o que leva alguém a torturar um bicho. E penso na frase de Guimarães Rosa: “Se todo animal inspira ternura, o que houve então com os homens?”.

Crônica do dia - Você tem medo de fantasma ? - Ruth Aquino


RUTH DE AQUINO REVISTA ÉPOCA 

Eles se infiltraram em todos os Poderes da República. Invisíveis, só aparecem quando são denunciados 

Sabe o Pluft, o fantasminha camarada que tem medo de gente? Pois ele sentiria hoje muita vergonha se soubesse o que foi feito com a categoria no Brasil. Estamos cercados de fantasmas menos fofinhos e mais espertos que o Pluft. Eles se infiltraram em todos os Poderes da República. Como são invisíveis, só aparecem quando denunciados. Às vezes ganham prestígio graças ao toma lá dá cá. O Judiciário ajuda o Legislativo, que ajuda o Executivo, que ajuda o Legislativo, que ajuda o Judiciário. Todos querem aumentos muito acima do possível no mundo real. Não só nos subsídios, mas nas mordomias. E quem paga os fantasmas são pessoas de carne e osso, contribuintes, eleitores, cidadãos. Que começam a perceber seu poder. Na semana passada, a Câmara desistiu de aprovar o pacote de quase R$ 400 milhões de aumento para assessores dos deputados. Isso aumentaria a verba mensal de gabinete de cada deputado de R$ 60 mil para até R$ 90 mil. O recuo foi por causa dos protestos. Mas atenção: a Câmara só adiou a votação do pacote natalino para fevereiro, mês de folia, verão e Carnaval. Quantos fantasmas a Câmara e o Senado abrigam – e nós financiamos? Quem não reagir terá de se fantasiar de palhaço. Eis o bloco animado dos fantasmas. 

■ Jader Barbalho, fantasma na categoria ficha suja. Ex-governador do Pará, foi liberado pelo mesmo Supremo Tribunal Federal que o havia barrado. “É um ato de justiça”, disse Jader, preso por 16 horas em 2002 por dilapidar os cofres públicos. O pior é que Jader está certo. O STF decidiu no ano passado que a Ficha Limpa não poderia ser aplicada em 2010. Jader é um fantasma que ganhou novamente status de senador. 

■ O Supremo Tribunal Federal, fantasma na categoria omissão. É inacreditável e vergonhoso que os juízes não tenham até agora conseguido votar a Lei da Ficha Limpa, aprovada pelo povo brasileiro, mas deem um jeitinho para reentronizar Jader Barbalho no Senado. O voto duplo do presidente do STF, Cezar Peluso, aconteceu um dia depois da visita da cúpula do PMDB. Peluso pediu apoio do PMDB ao aumento dos servidores do Judiciário. Por que o STF não vota logo então a Ficha Limpa? Ah, é preciso esperar pela juíza Rosa Weber. Ora, ministro Peluso, cadê seu voto de qualidade? A mesma lerdeza dos homens de toga leva o ministro Ricardo Lewandowski a dizer que o processo do mensalão pode cair por “prescrição”, porque não será julgado antes de 2013. É a Justiça fantasma. 

■ Os 38 réus do mensalão, fantasmas na categoria formação de quadrilha. Esses são acusados de comprar votos, uma tradição antiga no país segundo o ex-presidente Lula. Quase como o jogo do bicho. Os réus contam com a falta total de vontade de alguns ministros do STF de julgá-los. Talvez porque os juízes achem que Lula tem razão. Sempre se comprou voto no Brasil. A ideia parece ser: sempre fomos corruptos, por que o PT não pode também ser corrupto? Vamos continuar todos sendo corruptos, porque a ética nada tem a ver com política. 

■ As ONGs, fantasmas na categoria laranja. Endereços inexistentes, atividades inventadas só para justificar desvios. O governo federal divulgou suas auditorias: pelo menos R$ 7,3 bilhões repassados a Estados e municípios foram desviados nos últimos dez anos. A maior parte em convênios com “entidades”. Só no ano de 2011, o governo federal tenta recuperar R$ 1,4 bilhão de convênios irregulares, na Saúde, no Esporte, no Turismo... Sabe quando esse dinheiro fantasma vai reaparecer?

■ Os seis ministros exonerados por desvio de verba, fantasmas na categoria injustiça. Todos saíram “com a consciência limpa e a cabeça erguida”. Todos injustiçados pela imprensa e pelo fogo amigo e inimigo. Como não devolveram nada aos cofres públicos e como alguns até indicaram seus sucessores, são fantasmas que choram a perda das mamatas, mas sonham reencarnar em grande estilo. 

■ Fernando Pimentel, fantasma na categoria palestrante. O ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Robson Andrade, disse que Pimentel deu uma série de palestras em 2009, como parte do contrato de consultoria de R$ 1 milhão. Mas Pimentel não falou em lugar nenhum e ninguém escutou. Ninguém esclarece as palestras fantasmas porque “as explicações já foram todas dadas”. 

■ As sextas-feiras em Brasília, fantasmas na categoria abandono. Ministros quase não aparecem em solenidades às sextas-feiras. Dilma mandou recado: sexta é dia de trabalho, e eles têm de estar em Brasília. Mas será que Dilma nunca percebeu que o plenário no Congresso fica às moscas às segundas e sextas?

 É muito camarada fantasma assombrando o Brasil. Mas, igual ao Pluft, eles têm medo de gente. Vamos assombrar essa turma em 2012.

Te contei, não? - Tretas e rixas do povo - Memórias de um sargento de milicias mostra costumes alegres dos brasileiros e tambem suas condutas deploráveis


Tretas e rixas do povo

'Memórias de um sargento de milícias' mostra costumes alegres dos brasileiros e também suas condutas deploráveis

 Edu Teruki Otsuka 28/11/2011 

Memórias de um sargento de milícias é uma obra em que sempre se reconheceu a presença de traços característicos da vida brasileira. O romance de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) ainda é capaz de surpreender, 150 anos depois de publicado. Durante muito tempo, o livro foi considerado um registro de costumes risonhos do povo, devido ao colorido das cenas e à vivacidade dos personagens. Mas, hoje, o que chama a atenção são os aspectos deploráveis do comportamento rixento e vingativo dos mesmos personagens. Apesar de Memórias destacar a sociabilidade expansiva e alegre da camada popular, não são menos significativos os impulsos agressivos que acompanham a feição brincalhona dos relacionamentos. Ao contrário do que se poderia imaginar, o fundo de rivalidades e conflitos não destoa do tom engraçado da narração. A história que se conta em Memórias é apresentada com simplicidade e leveza, ou seja, sem a ornamentação retórica e o viés moralista predominantes na literatura da época. Ambientado no Rio de Janeiro do período joanino (1808-1821), mas narrado a partir de um ponto de vista de meados do século XIX, o romance traça um paralelo entre o “tempo do rei” e o tempo do autor e de seus primeiros leitores. Apesar da aparente singeleza, a representação humorística dos costumes e condutas do passado não era inocente, pois continha um comentário implícito sobre o Brasil dos anos 1850, que vivia um surto modernizador, com a entrada maciça de mercadorias estrangeiras e a disseminação das ideias burguesas. Em artigo jornalístico intitulado “O riso” (13/08/1854), Manuel Antônio observa que “o ridículo daquilo que nos arranca uma gargalhada reverte um pouco sobre nós mesmos.” No centro da trama estão dois Leonardos, pai e filho, que experimentam agruras e satisfações próprias de uma sociedade na qual as normas parecem estar sempre aquém ou além da realidade: Leonardo Pataca, o pai, mascate português que emigra para o Brasil, onde passa a ganhar a vida como meirinho (fiscal da Justiça); e Leonardo, o filho, menino peralta que obtém um lugar ao sol e se torna sargento de milícias. Manuel Antônio de Almeida descrever uma classe média que fica entre a dependência de um poderoso e a necessidade de reconhecimento. Entre o lícito e o ilícito A vida atribulada do filho até certo ponto espelha a do pai, embora não a repita de maneira idêntica. Ambos vivem deslizando entre o lícito e o ilícito, entre a lei e a transgressão, sendo lançados de um polo a outro num vaivém incessante. Ao mesmo tempo, a narração acompanha os personagens e oscila na avaliação moral de seus atos, de modo que as referências se embaralham e as fronteiras entre o “certo” e o “errado” se diluem. Na história, os personagens da camada popular frequentemente enfrentam a vigilância repressiva do major Vidigal, chefe de polícia truculento que procura impor a ordem numa sociedade fissurada pela ineficácia das normas. O resultado é que regras e irregularidades se mostram equivalentes e íntimas umas das outras. Depois de ser o menino traquinas sustentado pelo padrinho barbeiro, ajudante de sacristão, empregado da despensa da Casa Real, Leonardo é preso por vadiagem e incorporado à guarda como soldado, sob as ordens de Vidigal. Ele também se entrega às relações amorosas com Vidinha, moça do povo que encanta o protagonista, e, no campo das famílias respeitáveis, com Luisinha, herdeira rica, o primeiro amor do herói. No final, o protagonista acaba por desposá-la, num reencontro triunfante que completa o destino ascendente de Leonardo, agora acomodado em posição social vantajosa. Se Leonardo consegue ascender socialmente, passando de zé-ninguém a herdeiro de fortunas e sargento de milícias, isso ocorre simplesmente como decorrência dos vários arranjos e trocas de favores que pautam as condutas e as relações dos pobres com os poderosos, e não como resultado do esforço do protagonista. Essas relações são mostradas como resultado da organização social particular do Brasil. O narrador observa: “Já naquele tempo (e dizem que é defeito nosso), o empenho, o compadresco eram uma mola real de todo o movimento social”. Junto com a trajetória enviesada do protagonista, o romance apresenta episódios que compõem breve painel da cidade do Rio de Janeiro do início do século XIX. O livro deixa de fora os escravos, que aparecem apenas no pano de fundo, e os proprietários, representados somente na figura de D. Maria, única personagem abastada com papel desenvolvido na história. Sem ser exaustivo no mapeamento da sociedade, o romance centra o foco na camada intermediária: a pequena burguesia, o povo miúdo e os desclassificados. Por isso mesmo, apreende e incorpora o sentido profundo de certos comportamentos predominantes na vida brasileira. Discussões, confusões e implicâncias É certo que os personagens encarnam tipos sociais representativos da época – como o chefe de polícia, o meirinho, o barbeiro, a beata e os ciganos –, mas é nas relações entre elas que se pode discernir o que o romance tem de original na representação literária do Brasil. Mais do que os tipos fixos, interessa observar a dinâmica dos relacionamentos, pois é na movimentação dos personagens que se revela de que modo o romance imagina profundamente a sociedade brasileira. Os personagens estão constantemente criando confusão, discutindo e implicando uns com os outros. Essa disposição briguenta se aquieta momentaneamente quando se alcança o triunfo numa disputa. Bisbilhotices, maledicências, intrigas, achincalhes, zombarias e humilhações, levando a revides e desforras, fazem parte da conduta geral dos personagens. Todos parecem empenhados em sempre levar vantagem sobre os outros, estabelecendo relações de rivalidades e rixas. Como consequência do sistema escravista, que moldava a vida social no Brasil oitocentista, a camada intermediária focalizada nas Memórias encontrava-se em situação peculiar. Sem dispor de poder efetivo nem de meios para sobreviver de maneira independente, muitas vezes as pessoas de condição modesta careciam da proteção de algum poderoso. Nas relações com as figuras de poder, estabeleciam alianças ou tentavam se beneficiar, mas permaneciam sempre em posição subalterna. A elas faltavam quaisquer possibilidades de alcançar alguma espécie de reconhecimento social por meio de suas atividades, ao mesmo tempo em que sempre pairava a ameaça da humilhação no confronto com a autoridade. Era somente nas disputas com seus próprios pares que o pobre podia obter um sucedâneo do reconhecimento social ao rebaixar seu rival, recolhendo o apoio dos demais. A superioridade assim obtida é quase sempre momentânea e ilusória, mas nem por isso a satisfação do triunfo na rixa é menos real. No mundo das Memórias, as superioridades sociais, reais ou ilusórias, servem para a autoafirmação das pessoas por meio da humilhação dos outros. Por isso, predomina a hostilidade entre aqueles que se encontram em posição social equivalente. É esse conjunto problemático de relações que compõe o espetáculo do romance, em parte simpático às malandragens, mas nem sempre aderindo ao que narra; em parte aparando as arestas da truculência, mas sem ocultá-la. A atualidade do romance está exatamente nesses traços intrincados da vida brasileira. Embora o Rio joanino esteja muito distante no tempo, é como se os problemas mostrados nas Memórias ainda ecoassem nos pequenos conflitos sociais que fervilham no presente.

 Edu Teruki Otsuka é professor de Teoria Literária e Literatura da Universidade de São Paulo e autor de Era no tempo do rei: atualidade das Memórias de um sargento de milícias (Ateliê Editorial, no prelo). 

 Saiba Mais CANDIDO, Antonio. “Dialética da malandragem”, in: O discurso e a cidade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, pp. 17-46. SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da malandragem’”, in: Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 129-155. Internet: Memórias de um sargento de milíciasestá disponível em Domínio Público. www.dominiopublico.gov.br

Te contei, não ? - Áfricas ocultas



Áfricas ocultas 

 Escola municipal de Salvador é um caso raro de ensino exemplar de história e cultura africanas: sem preconceitos 

Juliana Barreto Farias 17/11/2011 

Quando chega à sala Iyá Obá Biyi, do primeiro ano do ensino fundamental, a vice-diretora Iraildes Nascimento saúda os pequenos alunos com um yá agô (com licença). Ao que todos logo respondem: agô yá (licença concedida). Por toda a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, essas e outras “palavras básicas de convivência” da língua iorubá são lembradas em murais e cartazes pendurados ao lado de fotos de mães de santo. Perto dali, numa escola estadual na Estrada das Barreiras, a professora de História Luciana Araújo até tenta falar sobre candomblé e religiões africanas com as turmas de adolescentes. Mas, quase sempre, alguém debocha e pergunta: “Você é macumbeira, não é?”
 O bairro é Cabula, localizado na área central de Salvador, entre a rodovia BR-324 (que liga a capital à cidade de Feira de Santana) e a movimentada Avenida Paralela. Mesmo tendo uma população de mais de 90% de negros e pardos, boa parte dos professores das escolas públicas da região ainda encontra resistência ao trazer a história e a cultura africanas e afro-brasileiras para as salas de aula. Mais de oito anos após a promulgação da Lei 10.639 – que tornou obrigatório o estudo desses temas nos ensinos médio e fundamental –, eles continuam esbarrando na falta de apoio efetivo dos governos, no preconceito e no desinteresse de coordenadores, pais, alunos e até dos próprios professores. A Escola Eugênia Anna dos Santos é praticamente uma exceção nesse cenário. Instalada desde a década de 1970 no tradicional terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, é uma referência na capital baiana e mesmo fora do Brasil. Tudo começou com o desejo de Mãe Aninha (1869-1938), fundadora do terreiro em 1910, de ver seus “filhos com anel no dedo aos pés de Xangô [seu orixá]”. Seguindo esses passos, Maria Stella de Azevedo Santos, a Mãe Stella, que lidera o Axé desde 1974, concretizou o sonho da primeira ialorixá (mãe de santo). De início, foi montada uma creche, a Minicomunidade Obá Biyi, que abrigava crianças filhas do terreiro, com idades que iam de poucos meses até cinco anos. Em 1986, esse pequeno espaço se transformou numa escola de 1ª a 4ª série do ensino fundamental e ganhou o nome de sua inspiradora. Mais tarde, foi incorporada à rede municipal de Salvador. Mitos africanos na escola Na mesma época, a educadora e historiadora Vanda Machado começou a frequentar o terreiro. E não demorou a escolher o local como objeto de suas pesquisas de mestrado. A ideia inicial era desenvolver atividades a partir das próprias vivências das crianças, do saber e da cultura da comunidade, e tomá-los como “suportes para aquisição de novos conhecimentos”. Nascia aí o projeto político-pedagógico Irê Ayó (ou Caminho de Alegria), elaborado junto com Carlos Petrovich e adotado na escola a partir de 1999. “Nossa proposta maior é a formação de sujeitos autônomos e solidários, com o sentido de pertencer e participar de seu lugar. Isso tudo foi inspirado no que víamos no terreiro, onde a solidariedade acontece naturalmente”, explica a pesquisadora, filha de Oxum e ebomi (pessoa mais velha no santo) da comunidade. Trabalhos dos alunos da Escola Eugênia Anna dos Santos. Divulgação Enquanto conversava e compartilhava experiências com homens e mulheres do Opô Afonjá, Vanda ia registrando e recriando histórias, mitos dos orixás e africanos. No fim, esse rico material virou o ponto de partida de todo o projeto educativo da Escola Eugênia Anna. “A cada bimestre, trabalhamos um desses mitos. Os alunos também fazem uma relação com a vida lá fora. Isso acaba, de alguma forma, chegando às famílias. Resgatar e apresentar o mito é atravessar os muros do terreiro, da sala de aula. Esta é a intenção do Irê Ayó”, afirma Iraildes Nascimento, vice-diretora da escola e única funcionária que também é filha de santo. E as histórias não são selecionadas de forma aleatória. “Procuramos sempre estudar a atmosfera, o que está acontecendo ao redor da escola. ‘Iansã criando a democracia’ veio na época em que a campanha presidencial estava efervescente”, lembra a professora Cláudia Castro. Nos primeiros meses deste ano, a “transformação da Conquén” inspirou todas as atividades escolares. Os professores e coordenadores começaram a perceber que algumas “palavras mágicas” – com licença (yá agô), obrigado (adupé), desculpa (pe leô) – estavam sendo esquecidas. Então, nada melhor do que resgatar a história da galinha d’angola que vivia reclamando do mundo e não lhe dava nenhuma contribuição. Depois de encontrar o Oluô, ela finalmente descobriu que não estava só, precisava apenas melhorar suas relações. “O mito da Conquén foi o norte para alavancar nossa dinâmica, desenvolver o conteúdo das aulas. Essa é a parte objetiva. Mas tem também o lado mais subjetivo, um ganho difícil de mensurar. Assim como a galinha se transformou, nós também nos transformamos com sua história”, completa Cláudia Castro. Além dos livros didáticos No fim das contas, o mito é uma porta de entrada mais que eficiente para trabalhar a Lei 10.639. “A partir dele, podemos recuperar todo o legado dos africanos e dos afrodescendentes. Se o livro didático não traz os assuntos, buscamos em outros lugares. Trabalho em outra escola, mas lá não consigo efetivar a lei. Sempre ouço: ‘Já fazemos isso na Consciência Negra’. É complicado lidar com essa resistência”, lamenta Catarina Pedreira, professora do 4º ano. De fato, a situação é bem diferente em outros colégios públicos, e também nos particulares, espalhados por Salvador. Para começar, boa parte dos professores não recebe qualquer tipo de formação ou capacitação. Como faltam apoios oficiais e dos próprios coordenadores escolares, as iniciativas são, em geral, individuais e esporádicas. O resultado disso são profissionais desmotivados e alunos desinteressados. “Não quero nadar, nadar e morrer na praia. Ou fico brigando ou deixo para lá, numa atitude meio egoísta. Quando você pode, flui na sua aula do jeito que acha, sem saber se está correto ou não. De alguma forma, quando se fala da escravidão, já se toca um pouco na questão. Infelizmente, esta é a realidade de mais de 80% das escolas”, lamenta a professora de História Luciana Araújo. E como as instituições também têm estruturas muito precárias, a obrigatoriedade trazida pela lei acaba ficando praticamente no fim de uma longa lista de problemas e prioridades. A escola estadual em que Luciana trabalha, na Estrada das Barreiras, está instalada em dois prédios separados por uma pista asfaltada. Há onze anos a comunidade espera a construção de um novo espaço. Nas salas de aula não há cadeiras para todo mundo. Em geral, apenas vinte estudantes conseguem lugar para sentar. Em dias de prova, aparecem cinquenta. A solução é fazer um rodízio. “Nós, professores, também não temos cadeira e nem mesa. Coloco a minha bolsa no chão. É nessa escola sem suporte nenhum que querem que eu ofereça um ensino de boa qualidade”, alerta Luciana. Investimentos próprios Para contornar tantas dificuldades, alguns docentes investem em pós-graduações com dinheiro do próprio bolso, compram uns poucos livros (bem poucos, já que seus baixos salários não acompanham os preços das obras especializadas) ou simplesmente recorrem à Internet. Outra estratégia tem sido levar pesquisadores, professores universitários e mesmo africanos que vivem no Brasil para conversar com os alunos. Morando em Salvador desde 2002, o ganês Justine Lloyd Ankai-MacAidoo, mais conhecido como DJ Sankofa, volta e meia é convidado para contar suas experiências nas escolas públicas da cidade, quando aproveita para apresentar a diversidade musical africana e exibir suas habilidades como chef de cozinha. As atividades começaram meio por acaso, quando, em novembro de 2004, na Semana da Consciência Negra, foi chamado por um grupode estudantes do bairro de Águas Claras para ajudá-los com informações sobre a África numa espécie de competição entre países e continentes. De lá para cá, já deu aulas de inglês a partir das histórias africanas na ONG Pracatum, do músico Carlinhos Brown, participou de eventos em diversas escolas da capital (inclusive na Escola Eugênia Anna) e de outras regiões, como o Vale do Capão, na Chapada Diamantina. Em todos os lugares, procurou usar sempre os mesmos recursos: histórias, música e comida. “Essas são coisas que chamam a atenção. A estratégia é usar minha própria experiência, mais prática”, diz, num português com sotaque. No Capão, ele pretende transformar tudo isso num projeto regular. Em parceria com o ponto de cultura Circo do Capão, mas ainda sem patrocínios, ele vai, a cada mês, preparar comidas típicas de Togo, Benim, Gana ou Nigéria, e também apresentar danças e ritmos africanos, como semba, juju music, funana ou kizomba, em colégios públicos e particulares. “Não será só contar uma história e ir embora. Vai fazer o que com isso? Em Lauro de Freitas [município perto de Salvador], uma menina de 14 anos ficou tão interessada que resolveu, com a ajuda dos pais, estudar dança folclórica no Congo. Ficou lá dois anos. Quero que as pessoas tenham outra visão da África. Não somos coitados. Somos orgulho, muito orgulho”, reafirma o ganês, que é um dos sócios do Bar Sankofa, no Pelourinho, especializado em música africana. Os educadores da Eugênia Anna e de outros colégios de Salvador também acreditam que a chave está mesmo na autoestima. Mas não basta botar as crianças para desfilar no dia de Zumbi, vestidas de torso na cabeça e roupa colorida. “Isso não muda nada. Só vale quando ela fala: ‘eu sou igual, porque sou igual. Eu tenho a mesma origem’, destaca Vanda Machado. E os profissionais de educação também precisam se conscientizar. “É o primeiro passo: reconhecer que essa história é sua. Se isso não acontece, vou contar a história do outro”, diz a professora Catarina Pedreira. Falta de identidade Talvez por isso, Luciana Araújo encontre tantas dificuldades em “aplicar” a lei nas instituições em que atua. Muitos de seus colegas de trabalho, especialmente das áreas “exatas”, acham que não têm nada com o assunto. E os alunos também pouco se identificam. “Morando na periferia, 95% ou mais desses estudantes são afrodescendentes. Ainda assim, não têm essa identidade de pertencimento. Até entendem um pouco sobre o negro, mas, ao mesmo tempo, não aceitam a cultura, têm ojeriza ao candomblé. Como durante muitos anos o candomblé foi reprimido e visto de forma preconceituosa, eles tentam negar até hoje. Mesmo se entendendo como negros, ainda se envergonham da religião”, conta a professora. No próprio Opô Afonjá, as crianças muitas vezes são rotuladas como “alunos da escola da macumba”. Logo que chegam, algumas mães se mostram reticentes. Em pouco tempo, passam a ter outra atitude. Mesmo as evangélicas. Aliás, apenas cinco alunos entre os 350 matriculados são filhos do terreiro. “Tudo muda quando a família percebe que é uma instituição de formação sistêmica, mas com um diferencial, um grande pátio, um recreio no terreiro, museu, biblioteca, e essa bela reserva atlântica ao redor”, enumera Iraildes Nascimento. Mais do que um amplo e acolhedor espaço físico, o que certamente garante o cumprimento da lei – antes mesmo de sua promulgação! – na Escola Eugênia Anna é o envolvimento de toda a comunidade, desde os filhos do terreiro, o porteiro, a merendeira até os pais dos estudantes, os diretores e o governo municipal. “Não dá para cada um fazer alguma coisa em seu cantinho. É preciso ter essa solidariedade, um sentido coletivo. E isso só acontecerá se nos juntarmos para construir outra realidade de escola. Não se trata de história para brancos ou para negros, mas da possibilidade de entender a nossa história de outro ponto de vista”, arremata a educadora Vanda Machado. Juliana Barreto Farias é jornalista e coautora de No labirinto das nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro. (Editora do Arquivo Nacional, 2005)


Uma escrava linda,de curvas acentuadas,sedutora e devoradota de homens.Assim é Chica da Silva representada por Cacá Diegues no filme Xica da Silva,de 1976.Tal sensualidade écontestada pela historiadora Júnia Ferreira,no livro Chica da Silva e o contratador de Diamantes.''Ao reescrever a história,ele comete vários erros,afirma a historiadora, o primeiro foi: Chica não era negra,mas mestiça,filha de um português com uma escrava.A ideia de sensualidade não se sustenta.Nos 15 anos em que viveu com o contratador de diamantes João Fernandes,teve 13 filhos,a história de Chica nem mesmo é única.Em Diamantina,assim como em outras áreas de garimpo,era comum o facínio de estrangeiros por negras e mestiças. 

Revista Aventuras na História 

Crônica do dia - O que vale mais um preso ou um estudante ? - Ruth Aquino


Alguns números falam mais do que mil palavras. No Brasil, um preso federal custa o triplo de um aluno do ensino superior. E um preso estadual demanda quase nove vezes o custo de um estudante do ensino médio. A princípio, o que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Há carência de recursos tanto em escolas quanto em prisões. Mas o absurdo maior é a negligência do Brasil com o saber, com o conhecimento. Quando essa equação vai fechar? Vamos gastar muito mais com os presidiários se quisermos tornar as cadeias brasileiras menos degradantes. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, prometeu que “agora vai”. Não sei se você, assim como eu, sente vergonha ao ver as cenas de mãos saindo pelas grades. São seres humanos empilhados, espremidos e seminus. É um circo dos horrores. E piora nos rincões remotos do Norte e Nordeste, longe das câmeras. Mesmo assim, o Estado gasta mais de R$ 40 mil por ano com cada preso em presídio federal. E R$ 21 mil com cada preso em presídio estadual. Esses valores, absolutos, não significam nada para nós. Mas, se dermos uma olhada no nível de instrução dos 417.112 presos, ficará claro como os dois mundos, o das escolas e o das prisões, estão intimamente ligados. Dos nossos detentos, mais da metade (254.177) é analfabeta ou não completou o ensino fundamental. O menor grupo é o que concluiu a faculdade: 1.715 presos. Esses números estão no relatório do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) do ano passado. Os presídios são um retrato de nossa sociedade. Do lado de fora, poucos têm acesso a universidades. E criminosos ricos e influentes podem pagar bons advogados. Poderíamos ficar resignados a nosso destino de país pobre em desenvolvimento humano. Poderíamos também construir macropresídios seguros para prender cada vez mais gente em cômodos amplos, com direito a boa alimentação, pátios, esportes e reeducação. Poderíamos melhorar a gestão penitenciária e reduzir a roubalheira. Em algumas cidades, os presos começam a ser soltos por falta de espaço. O mais complicado de tudo, mesmo, é prevenir a criminalidade. Porque seria preciso investir forte na educação universal e de qualidade. Os últimos números do IBGE, do Censo 2010, deixam clara uma urgência: entre nossas crianças com 10 anos de idade, 6,52% são analfabetas. Você, que lê este artigo, quando se alfabetizou? Provavelmente entre os 5 e 7 anos de idade, como acontece nas maiores economias do mundo – aquele grupo privilegiado em que o Brasil se insere com orgulho. Há carência de recursos em escolas e prisões. O absurdo é a negligência do Brasil com o conhecimento Essa criançada brasileira que não sabe escrever nem seu nome não faz ideia de que está trancada na prisão da ignorância. Sem cometer crime algum, as crianças foram condenadas à marginalidade perpétua. Isso não significa que serão desonestas ou hóspedes dos presídios-modelos que o ministro da Justiça promete construir. Mas que chance o Estado dá a elas? Esse porcentual de 6,52% nada tem a ver com heranças malditas. São crianças que nasceram na década de Lula. Por mais que se comemorem avanços na Educação, em uma década o total de analfabetos no Brasil caiu menos de 1 milhão. Eram quase 15 milhões e hoje são 14 milhões que não sabem ler ou escrever – esse total equivale a duas vezes a população inteira do Paraguai. Em dez anos de investimento e dois mandatos de governo do “tudo pelo social”? Não dá para festejar. Entre os brasileiros com mais de 15 anos, continuamos mais analfabetos que Zimbábue, Panamá e Guiné Equatorial. As disparidades regionais são outra preocupação. Em analfabetismo, segundo o Censo 2010, o Maranhão do clã Sarney está em 24º lugar e só perde para Paraíba, Piauí e Alagoas. Há 19,31% de analfabetos no Maranhão, porcentual maior que na República do Congo, na África. No programa do PMDB em rede nacional de televisão, na quinta-feira passada, o presidente “vitalício” do Senado, José Sarney, afirmou: “O bom homem público olha e vive para seu país”. Eu já ficaria satisfeita se o homem incomum, blindado por Lula e aliado de Dilma, olhasse para o Estado onde nasceu. Em mortalidade infantil, o Maranhão da governadora Roseana Sarney só perde para Alagoas. De cada 1.000 maranhenses que nascem, 36 bebês morrem antes de completar o primeiro ano de vida. Não sei como a dinastia que controla esse Estado há 45 anos consegue dormir em paz. No programa do PMDB, Roseana disse que uma mulher no poder “significa uma visão mais humana de governar”. A esperança é que o Brasil amadureça e passe a investir logo em suas crianças e seus estudantes para um dia, talvez, reduzir a superlotação dos presídios. Não é uma fórmula infalível, mas parece ser uma aposta sensata.

Te Contei, não ? - O predador do predador



O tubarão é o grande predador dos mares, sim — mas o maior predador dele somos nós, seres humanos 

Sempre que um tubarão ataca um banhista, evoca-se sua condição de grande predador dos mares. A reputação é justa, já que ele é carnívoro e está no topo da cadeia alimentar dos oceanos. A imagem da fera que ronda as praias à espreita de humanos desavisados para lhes mastigar os membros, porém, é falsa. Os ataques de tubarões a mergulhadores são acidentais. Ocorrem quando eles são confundidos com focas, tartarugas, leões-marinhos e peixes de grande porte. Em comparação com suas presas favoritas, o ser humano tem pouca gordura no corpo e não agrada ao paladar dos tubarões. É por isso que suas vítimas não são devoradas — quando o ataque acaba em morte, é por hemorragia ou afogamento. Eles surgiram antes dos dinossauros, e agora estão ameaçados Se os tubarões atacam o ser humano por acidente, a recíproca não é verdadeira. Esses peixes contam-se entre as maiores vítimas da pesca predatória no planeta. Uma preciosidade da evolução, os tubarões surgiram antes mesmo dos dinossauros, há 400 milhões de anos, e agora começam a sucumbir à sanha destruidora do ambiente do bicho homem. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Nova Southeastern e da Universidade Stony Brook, ambas nos Estados Unidos, concluiu que todo ano 73 milhões de tubarões são pescados. Das 465 espécies já identificadas pela ciência, 74 estão ameaçadas de extinção. Apenas uma parte ínfima dos animais é pescada para que sua carne se transforme em alimento — no Brasil, essa carne chega à mesa sob o nome de cação. Prática cruel: cortar as barbatanas e lançar o tubarão mutilado ao mar O principal objetivo dos pescadores é a retirada das barbatanas, valiosas porque a sopa feita com elas é consumida como iguaria na China e, em escala menor, no Japão, em Taiwan e em Singapura. Em geral, os pescadores lanção mão de uma prática extremamente cruel na pesca aos tubarões: capturam os animais, arrancam suas barbatanas e os devolvem agonizantes ao oceano. Barbatanas de tubarão: a sopa é sinal de status na China, e o consumo predatório aumenta (Foto: Morrison World News) Um quilo de barbatanas vale, em média, 450 dólares. A sopa, um prato caro, é aguada, quase sem gosto e tem fibras gelatinosas que lembram os finos fios do macarrão oriental. Para os chineses, a sopa de barbatanas de tubarão não significa sabor, mas tradição. Na época das dinastias Sung (960-1279) e Ming (1368-1644), ela era consumida apenas nos banquetes oferecidos pela elite chinesa. Hoje, como reflexo daquela época, é sinal de status. É servida frequentemente em casamentos e chega a responder por 20% dos gastos da cerimônia. Com o crescimento econômico da China, a demanda pelas barbatanas não para de crescer. “Aqui, no Brasil, se quero mostrar aos amigos que estou bem de vida, sirvo caviar e lagosta. Na China, eles servem sopa de barbatana de tubarão”, compara o biólogo marinho Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Aqualung. Não há lei internacional que vede a prática Os tubarões são particularmente sensíveis à pesca predatória porque têm poucos filhotes e o tempo de gestação é relativamente longo, de oito a onze meses, dependendo da espécie. Não existe lei internacional que restrinja a pesca do tubarão para a retirada das barbatanas. Alguns países, porém, têm tomado medidas para evitar a rápida diminuição das populações do animal. Quatro Estados americanos, Califórnia, Havaí, Washington e Oregon, proibiram neste ano o comércio de barbatanas e a sopa não pode mais ser oferecida pelos restaurantes. No Caribe, as Bahamas proibiram a pesca de tubarão, inclusive para uso da carne, em julho deste ano. Do outro lado do planeta, Maldivas e Palau também proíbem a pesca. Os três países contam com o tubarão para atrair turistas. Nas Bahamas, os mergulhos de observação rendem 80 milhões de dólares por ano à economia do país. No Brasil, também se pratica a pesca para a retirada de barbatanas. Em agosto do ano passado, o Ibama apreendeu 1 400 quilos de barbatanas congeladas que seriam remetidos irregularmente para Hong Kong. A empresa pesqueira responsável foi multada em 128 000 reais porque não conseguiu mostrar as carcaças correspondentes — o que leva a crer que os tubarões mutilados haviam sido jogados de volta ao mar. Uma portaria do Ibama determina que não se podem descartar carcaças de tubarão sem barbatanas e que, no desembarque, o peso das barbatanas tem de corresponder a 5% do peso das carcaças. Outros países adotam normas semelhantes. Carinho no focinho: a mergulhadora italiana Cristina Zenato - domadora de tubarões (Foto: Matthew Meier / Caters News) Seu desaparecimento seria catastrófico O desaparecimento dos tubarões traria alterações catastróficas ao ecossistema oceânico. Como figuram no topo da cadeia alimentar, eles influenciam a sobrevivência de todos os animais marinhos que estão em sua base. Um caso ilustrativo ocorreu na ilha australiana da Tasmânia há vinte anos. A pesca exagerada de tubarões levou à superpopulação de uma de suas principais presas, os polvos, que por sua vez praticamente acabaram com as lagostas da região. O desaparecimento dos tubarões quase levou à falência a indústria da pesca da lagosta na Tasmânia. Má reputação, mas podem ser inofensivos Ao contrário do que ocorre com as baleias, a preservação dos tubarões não desperta a mesma mobilização das entidades ambientais. Em parte, isso se deve à má reputação do animal. E também à sua aparência assustadora, atribuída basicamente ao fato de ele nadar de boca aberta. Ele o faz simplesmente porque de boca fechada não consegue respirar. A maioria dos peixes respira por meio dos opérculos, aberturas localizadas nos dois lados da cabeça, que criam um fluxo e puxam a água para dentro da boca. Os tubarões não têm esse mecanismo. Precisam ficar o tempo todo nadando — e com a boca aberta — para que a água passe pelas fendas branquiais. Na verdade, os tubarões podem ser inofensivos em contato próximo com os humanos. Que o diga a mergulhadora italiana Cristina Zenato, que consegue transformá-los em animais dóceis a seus carinhos. Seu segredo: massagear seu focinho para estimular uma estrutura chamada ampola de Lorenzini, sensível ao campo eletromagnético produzido por outros seres vivos. Numa espécie de transe, o predador terrível se transforma num peixinho de aquário. 

 (Reportagem publicada na edição impressa de VEJA que está nas bancas, de autoria de Ricardo Westin e Carolina Melo)

Te contei, não ? - O que revela o mito do herói Steve Jobs - Roberto DaMatta


Todo herói cultural – como o Quincas Berro d’Água, de Jorge Amado – morre muitas vezes. Steve Jobs, tal como Jefferson, Washington, Lincoln, Roosevelt, os Kennedys, Frank Capra e o Pato Donald, tem a mesma sorte. Hoje, portanto, vou enterrar Jobs mais uma vez. De perto, sabemos, nem os deuses escapam da contradição e, sobretudo, do narcisismo. Mas o bom e o mau enterro daqueles em quem a sociedade se projeta – positiva ou negativamente – revelam como uma sociedade lida com ela própria. No caso de Steve Jobs e tantos outros, a América revela uma surpreendente e invejável fé em si mesma e, assim, estampa com gosto as palmas e seu afeto. Entre nós, brasileiros, ocorre justo o oposto. Nesta terra dos compadrios e companheiros e dos que “já nascem feitos”, o sucesso é – como dizia Tom Jobim – como uma ofensa pessoal. É algo fora do sistema que já determina quem vai perder ou ganhar e, por isso, odeia o mérito e a igualdade competitiva. A biografia de Jobs – contraditória, aventureira e bilionária – exprime o modelo do êxito vigente na cultura americana. Eis a vida daquele que, marcado pela rejeição, retornou ao sistema como um de seus maiores e mais bem-sucedidos criadores. A consciência da marginalidade e da morte, rara numa cultura que cultiva o otimismo, o lado solar da vida e o final feliz, revelou-se dramaticamente quando, em 2005, Jobs pronunciou seu discurso-testamento como paraninfo da Universidade Stanford. No púlpito, solenemente confessou suas contradições, falou abertamente nos desafetos e, trágico como um Schopenhauer, afirmou que “a melhor invenção da vida é a morte”. Para arrematar, com a sabedoria que resulta dessa consciência da vida com a morte, Steve ensinou que o mais importante de tudo é amar o que se faz. O sucesso, como a magia, transformou sua vida em exemplo. A biografia de Jobs exprime o modelo do êxito da cultura americana. Aqui, o sucesso é uma ofensa No nome de sua empresa, a Apple, inverteu o emblema bíblico: em vez de a maçã mordida promover a expulsão do Jardim do Éden, com os iMacs e iPods, a maçã maldita tornou-se o símbolo de um encontro não previsto entre indivíduos e computadores. Engenhos que, até o advento da Apple, eram vistos como aparelhos demoníacos a serviço das grandes corporações. Máquinas que um dia venceriam perversamente a humanidade, como no filme 2001 – Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick. Até que Jobs, o rejeitado e o egocêntrico obrigado a conviver com o anúncio de sua própria morte, revelou, como um profeta Jeremias, que tudo aquilo que é humano pode voltar a ser humano. Que a máquina pode mesmo estar a nosso serviço. Êxito significa saída. É uma porta que permite conjugar aquilo que nosso mundo tornou tão difícil. Fama e fortuna. Presente e futuro. Rotina e festa. Egoísmo e altruísmo. Sexo e amor. O dever como obrigação e como gosto. A parte, revelada no indivíduo cidadão com direito à felicidade, e o todo, concretizado na casa, na família e no país que impõem deveres. Numa sociedade em que a igualdade é um ideal e princípio ordenador, como a americana, o sucesso é a saída da mediocridade. É um modo de escapar do reinado do “homem comum”, cinzento como um personagem de Kafka, que, acomodado e dócil, vive medianamente e existe em meio a uma normalidade imposta pelo estilo de vida que resulta da soma de individualismo com a igualdade competitiva, conforme percebeu pioneiramente Alexis de Tocqueville no magistral Democracia na América. O sucesso é, talvez, o principal contraponto entre o comum (a maioria) e o extraordinário, material de que é feito a minoria. É a exceção em que poucos, conhecidos como VIPs – very important people –, celebrizam-se, como “bad guys” (bandidos) ou “good guys” (heróis). No caso de Steve Jobs, trata-se de uma transgressão positiva. Uma ultrapassagem exemplificada por ousadia, risco, determinação, confiança e originalidade. E, obviamente, muito narcisismo, ganância e onipotência. Tais são os ingredientes básicos do empreendedorismo e da meritocracia. No caso de Jobs, os próprios produtos vinham estampados com o “i”, a primeira pessoa do singular, mas escrita com minúscula, não com a maiúscula que reza a gramática do inglês. Esses “eus” que Jobs genialmente acoplou nos iMacs, iPods, iPads, iTouchs, iCloud. Não foi certamente por acaso que essa consciência aguda (e certamente sofrida) de um “eu” fosse a fonte de máquinas que fizeram mais uma revolução dentro do individualismo ocidental, permitindo uma interação em que é o dono que controla e possui um aparelho que segue seus desejos e intuições. O INDIVÍDUO Jobs no dia 1º de abril de 1989, 13 anos depois de fundar a Apple. Ele foi um transgressor com ousadia, determinação e originalidade (Foto: Ed Kashi/Corbis) Quando uma sociedade adota o sucesso como valor, o passado irreparável das sociedades aristocráticas, governadas por reis e papas garantidos por Deus e sangue azul, é substituído pela competição do presente. Nas democracias, como disse o próprio Jobs em seu famoso discurso, tudo é construído. O segredo é ligar os pontos soltos, como fazem os bons calígrafos. Pois o próprio sistema é feito de pontos (indivíduos) que se ordenam livremente num mercado. Todos os dias ele tem de ser reafirmado ou refeito. Toda democracia precisa de ajustes diários e vive em permanente metamorfose. Senão, como fazer com que um sistema fundado em “eus” possa virar um “nós”, um conjunto capaz de conter, sem coação indesejável ou injusta, os planos de todos? Abrimos a porta do sucesso quando trocamos o passado pelo futuro, como fez Jobs. Mas não se trata de um êxito grupal ou familiar, mas individual. Aqui – e esse ponto é muito importante para nós, brasileiros –, o sucesso não é da Apple, mas de quem a inventou. Assim como o “fordismo”, sinônimo de produção em massa e de acesso de todos a um carro, traduzia-se em Henry Ford. No Brasil, por contraste, o êxito ainda tem muito a ver com “estar por cima”, “se dar bem” e “se arrumar”. Ele implica subir ou descer. É a “escada”, o “pistolão” ou o “compadre” – e não a riqueza ou a inovação – que tornam possível a ascensão para o poder e para o dinheiro. A subida vem por meio da “mão amiga” – e a queda, quando ocorre, decorre de ausência – usemos a palavra da moda – de “blindagem”. Até hoje, oscilamos entre individualidades e relações reveladoras de grupos e partidos. Nosso centro não está nos “I” de Jobs, mas em algum “nós” que permite driblar a responsabilidade e assumir a existência como algo arriscado e, acima de tudo, dependente de nossa finitude. O “I” de Steve Jobs dissipou-se pela morte. Seus “i” vão ficar conosco por muito tempo.

Crônica do dia - O detestável público - Eugenio Bucci


EUGÊNIO BUCCI REVISTA ÉPOCA 


 Dizem os pessimistas que a política é um circo – de horrores, talvez. Pois estão errados, e a culpa é, em grande parte, do público. No circo, a plateia é chamada de “respeitável público” e faz por merecer o tratamento. Ela come pipoca, bate palmas, ri do palhaço, arregala os olhos quando o leão entra no picadeiro, suspira com os volteios da trapezista, de pernas esguias e biografia misteriosa. No circo, o público é família. Mesmo no circo romano, o Coliseu, os espectadores costumavam se dar algum respeito – e eram respeitados pelo imperador, que, vez ou outra, consultava o povo sedento de sangue para saber se um gladiador imobilizado pelo oponente deveria ou não deveria ser executado na arena. Os lutadores e o soberano se dobravam às predileções da turba, que não estava lá para contemplar mesuras e boas maneiras. De sorte que até mesmo ali, a seu modo rude e animalesco, o público era respeitável. A política de nossos dias não é um circo, nem mesmo de horrores: ela é pior, e isso não porque os políticos desrespeitem o público, mas porque o público abdicou do próprio respeito. Às vezes temos a sensação de que o público em nome do qual se faz a tal política é repugnante, talvez mais do que as pequenas multidões que gargalhavam quando a cabeça dos nobres tamborilava aos pés da guilhotina, no terror da Revolução Francesa. O público é detestável. Na semana passada, tivemos mais uma prova abrasiva dessa verdade. Imediatamente após a divulgação da notícia de que o ex-presidente Lula contraiu câncer na laringe, entrou em atividade, na internet, um vulcão de baixarias preconceituosas, ofensivas, injuriosas, para agredir um ser humano que adoeceu. Nas redes sociais, um grupo lançou uma campanha para tripudiar. Entre outras maldições, sentenciaram Lula a ir procurar seu tratamento no SUS, e proclamaram: “É melhor ele continuar vivo, ainda que sem voz, e parar de envenenar o mundo com suas palavras ignorantes”. É claro que não podemos generalizar: não é a totalidade dos frequentadores das redes sociais que se comportam como hienas histéricas, como urubus descompensados, como trogloditas virtuais. Mas é claro, também, que são muitos. São milhares. Tanto que se tornou impossível ignorá-los. Eles constituem um sintoma grave – sintoma em todos os sentidos, do farmacológico ao psicanalítico – em que o ódio de classe atropela o debate das ideias. Sim, ódio de classe. Quem manda Lula ir se tratar no SUS declara ódio contra Lula e também contra o SUS, contra a lei, contra tudo o que guarde uma reminiscência de assistência social e de pobreza. Esse discurso reedita a velha máxima brasileira: “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”. Traduzindo: o SUS é a lei, e a lei só pode fazer mal; o SUS é como as penitenciárias; todo serviço público é odioso. Essa gente se recusa a admitir que, no SUS, muitos de nós já nos tratamos com sucesso, nem que tenha sido uma única vez na vida, embora a administração pública ainda padeça os males causados pelos ladrões e pelos parasitas incompetentes. Essa gente se enfurece porque Lula foi atendido num hospital de elite, mais ou menos como a personagem caricata da novela das 9, Tereza Cristina, se destempera, aos urros, porque a ex-pobretona Griselda ganhou na loteria e comprou uma casa no mesmo condomínio de luxo em que ela, a afetadíssima Tereza Cristina, tem sua mansão. O detestável público que agora insulta Luiz Inácio Lula da Silva é uma massa ignara de Terezas Cristinas esbravejantes, defendendo aos tapas seu condomínio imaginário. Condomínio que, honestamente, é uma favela moral de palácios com vidro à prova de bala (o SUS é melhor, inclusive para a saúde). Antes falávamos do câncer e da aids como metáforas de fenômenos menos visíveis. Agora somos forçados a decifrar, na internet, de onde vem a metáfora do ódio e, pior, para onde ela aponta. Um câncer de laringe num líder populista é metáfora? Evidentemente, sim, mas a fúria espalhafatosa que ele atrai é presságio de doença mais preocupante. Faz décadas, Nelson Rodrigues caçoou de Otto Lara Resende atribuindo a ele uma frase que se tornaria célebre: “O mineiro só é solidário no câncer”. Naquele tempo, o público ia ao teatro. Hoje, o público não sabe o que é solidariedade. Nem no câncer. Se ele não se der ao respeito, não haverá mais política. O debate de ideias sucumbirá ao desejo de exterminar o outro. E a voz do povo será a voz da treva.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Te contei, não ? - Uma noite na Cracolândia - Walcyr Carrasco




  São 11 horas da noite de uma sexta-feira. Estou em frente à Estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo. O desembargador Antônio Carlos Malheiros chega acompanhado de sua mulher, Cristina. Junta-se a nós o pastor evangélico Daniel Checchio, acompanhado de dois jovens missionários. Vamos percorrer a Cracolândia sozinhos, sem escolta policial. São poucas ruas no bairro dos Campos Elíseos, onde os cachimbeiros, noias, zumbis, como se chamam os viciados em crack, instalaram-se. Quem manda é o crime organizado, cuja lei não escrita determina que lá só se pode comercializar crack, mesclado (com maconha) ou óxi (uma droga próxima ao crack, em cuja composição entra querosene – mais barata e mais letal). Os preços: R$ 5 a pedra de crack, R$ 3 a de óxi. Sem escolta, vamos sentir a realidade da Cracolândia na pele. Andamos poucas quadras. Paro espantado na esquina da Rua Helvétia. Vejo uma montanha de lixo. Cerca de 700 pessoas esquálidas, sujas, em farrapos, estão encostadas às paredes, nas sarjetas ou andando na rua. Dois grupos tocam pagode. O cheiro de urina e de metal queimado – vindo dos cachimbos aquecidos pelo crack – invade minhas narinas, gruda-se em minha pele. Um carro vermelho para. O motorista faz um sinal. Um homem entrega um pacotinho com algumas pedras. O motorista paga e parte. Alguém bate em meu ombro, me cutuca as costas. Não me viro. Há casarões invadidos. As janelas e portas foram fechadas por tijolos. Mas nas paredes foram cavadas imensas aberturas. Em um casarão, fico sabendo, moram de 200 a 300 pessoas. Descubro que estou numa feira miserável. No chão, acumulam-se sapatos velhos, latas de sardinha abertas, pilhas, eletrônicos, pães de queijo murchos, tomates quase podres. Ironicamente, entre a miscelânea, uma revista de alta gastronomia. Ergo os olhos e vejo a pichação: WELCOME TO CRACKO CITY Sinto um arrepio. Neste mundo com leis próprias, um olhar mal interpretado pode resultar em golpes de estilete. Mas é impossível não observar. No meio de um grupo de adolescentes acampado entre cobertores rasgados, vejo uma menina de uns 15 anos, o olhar perdido. – Deveria estar na escola, constato. Um casal de negros vende roupas expostas no chão, surpreendentemente limpas. Senta-se num sofá na calçada. – É onde moram, diz Daniel. Aqui a casa das pessoas é o espaço que conseguem na rua. Neste mundo com leis próprias, um olhar mal interpretado pode resultar em golpes de estilete Na outra calçada, uma jovem de costas me chama a atenção. Mechas loiras. Veste um bustiê preto e jeans. Olho para seus pés. Botas de camurça. Novas. Provavelmente, de shopping. Ela se volta em minha direção. A pele de seu rosto é dourada, adorna as orelhas com argolas de prata. É linda e muito jovem. Certamente, há pouco tempo ainda morava com a família, tinha a cama arrumada, almoço e jantar, passava temporadas na praia. Agora está ali: os cabelos já sujos, a aparência decaí­da. Encaminha-se para um grupo de homens cadavéricos, imundos. Eles acenam. Ela fará tudo por algumas pedras. Um homem com uma facada na testa surge na esquina. Pede socorro. Sangra. Um dos missionários o leva a um posto médico a algumas quadras. Aproxima-se de nós um rapaz de uns 30 anos. Conta que chegou a ficar um tempo livre das drogas. Recaiu, não pela primeira vez, há 28 dias. – Não vou sair dessa – afirma. Vem de uma família de classe média. Fala corretamente, é bem articulado. Foi corretor de seguros. Há seis anos está nas ruas. Vive de pedir dinheiro na rua. Vende coisas que cata no lixo. – Sou soropositivo há nove anos. – Se você quiser ficar limpo, a gente pode ajudar, diz Malheiros. – Já tentei, não dá. Eu tenho todos os documentos. Mas perdi a identidade. Nossa noite na Cracolândia só reafirma a decisão do desembargador Malheiros. Vai implantar tribunais de rua. Usar a autoridade do Judiciário para conseguir reconduzir crianças para suas famílias ou encaminhar para abrigos. Doentes para vagas no sistema de saúde público. Quer entender esse mundo antes de iniciar o projeto. O pastor Daniel aplaude: – Toda noite morrem pelo menos três pessoas aqui. Mas não adianta algum político mandar a polícia expulsar as pessoas, simplesmente. É preciso um trabalho social. Volto para casa. Ficamos quase três horas na Cracolândia. Sinto meu corpo pesado. Passo o resto da noite olhando as estrelas do meu terraço. Tenho vontade de chorar. É doloroso conviver com a miséria humana.