terça-feira, 29 de abril de 2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Analisando Bandeira - Andorinha


Katelyn Ashley Nunes Nelson
Turma 802 / Ativo / 2014



Andorinha


Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais
triste!
Passei a vida à toa, à toa. . .


Manuel Bandeira 



   Quando paramos para interpretar qualquer poema precisamos primeiro ir por palavras, depois por versos, estrofes e finalmente o poema inteiro.
Lendo o poema percebemos a repetição da palavra Andorinha no singular, então esta claro que o pássaro solitário é. Isso nos leva a uma conexão com um dizer popular: “uma andorinha não faz verão”, pois elas andam em bandos. Essa andorinha está só dividindo com o poeta a solidão.
  A repetição da frase “passei o dia à toa, à toa”, refere-se a ideia de que ambos não deixaram marcas, uma num dia de vida e o outro na vida inteira. Pois a época em que Bandeira escreveu esse poema estava em profunda depressão, sozinho, sem preocupações na sua vida.
  No poema encontra se duas estrofes trazendo à diferença de espaço, a andorinha esta solitária do lado de fora da casa, porém o poeta esta isolado no interior combinando o lugar intimo da casa, da vida pessoal com a solidão.
  Com isso dito, percebemos o significado do poema em si. A junção de tudo traz a ideia de que o poeta estar em um momento da sua vida tão calmo que ele consegue ouvir os pássaros cantando e associar isso a sua solidão. 


Te Contei, não ? - Uma leitura de Tristão e Isolda

Uma leitura de Tristão e Isolda


A obra Tristão e Isolda é originária de uma tradição oral popular. Várias são as versões que daí surgiram, as mais conhecidas são Roman de Tristan, do normando Béroul, que data de 1170 et Tristan de Thomas d’Angleterre, datada de 1175. A tradução que utilizaremos é do original intitulado Le Roman de Tristan et Iseut, escrita em 1900, par Joseph Bédier.
Esse romance entra na história da literatura no século XII, quando esta deixava de ser exclusivamente em latim, que poucos compreendiam, e começava a ser escrita nas línguas ditas “vulgares”. Nesse período tivemos um tipo de narração intitulada literatura cortês, caracterizada, entre outros, pelo “amor cortês” que, apesar da oposição, não deixava de possuir alguns traços do “amor dionisíaco”.
Amor cortês foi um conceito europeu medieval de atitudes, mitos e etiqueta para enaltecer o amor, e que gerou vários gêneros de literatura medieval, incluindo o romance. Ele surgiu nas cortes ducais e principescas das regiões onde hoje se situa a França meridional, em fins do século XI. Em sua essência, o amor cortês era uma experiência contraditória entre o desejo erótico e a realização espiritual, "um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e auto-disciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente. (pt.wikipedia.org)
Este tipo de amor representa a relação apaixonada, comumente, entre uma dama casada e um homem solteiro, dito “jovem” neste contexto literário. Aí, em seu ápice, este sentimento tornou-se o terreno onde todas as perfeições morais e culturais floresceram. Devido a este estilo, o amante é puro e virtuoso.
Na época, o Teocentrismo e a Igreja, que detinha o poder, tinham uma influência muito forte sobre os atos e pensamentos humanos, como podemos observar nesse livro. É mostrado como as pessoas, tanto a plebe quanto os poderosos, vêem a religião que muitas vezes, era focalizada através do ponto de vista de um “Falso Poder”; porém, outras vezes a crença era,  realmente, fortíssima.
A Igreja, passou, nessa época, a considerar o casamento como um sacramento equivalente à ordenação eclesiástica. Conseqüentemente, a separação passou a ser proibida, e o conceito de indissolubilidade do matrimônio foi adotado. Todavia, para que fosse contraído, era obrigatório o consentimento dos noivos. Assim sendo, a mulher poderia ter a liberdade de escolher quem mais lhe agradasse ou quem fosse digno de conquistá-la.
A história nos conta que um jovem, chamado Tristão, filho do rei Rivalino e Brancaflor, ficou órfão e foi servir ao Rei Marcos que, por sua vez, ficou sabendo que Tristão era seu sobrinho, somente, quando a corte precisou de um homem forte, de família nobre, para derrotar um gigante que, já há muito tempo, estava atormentando seu castelo.
Tempos passaram e Tristão encontrou uma linda mulher, chamada Isolda, para que seu tio pudesse se casar, ganhando-a, para ele, em uma luta e, como o combinado, levou-a para Cornualha. Havia uma poção mágica, que deveria ter sido dada a Isolda e seu futuro marido, todavia, foi Tristão quem, por engano, a tomou e os dois se apaixonaram. Como Isolda era esposa do rei, eles se encontravam às escondidas.
Brangia a serviçal de Isolda foi a culpada pelo ocorrido e, com a consciência pesada, criava oportunidades para que o casal adúltero pudesse se encontrar. Mesmo correndo perigo de serem pegos nas emboscadas feitas pelos homens da corte, Tristão e Isolda se amaram até a morte.
Visamos, aqui, verificar, de maneira concisa, algumas características dos personagens, e os aspectos que nos ajudam entender a estrutura e sua importância, tais como: Ordálio, amor cortês e erótico, a religião e o valor que têm, na obra, as três Isoldas que ocupam um papel fundamental no desenrolar das ações.
Personagens
Podemos observar uma mudança de personalidade em Isolda e Tristão conforme o desenrolar da narrativa.
Falaremos, primeiramente, de Tristão, que morava com seus pais em Tintagel, até que um dia, com a morte destes, foi para a Cornualha a procura de seu tio Rei Marcos. Chegando lá, não se identificou como seu sobrinho e, mesmo assim, ganhou-lhe a confiança.
Tristão possuía as características que o definem muito bem como personagem da literatura cortês: um rapaz forte, inteligente e deveras habilidoso. Era muito confiante em si mesmo e, para provar a sua lealdade ao soberano e ao seu povo, usava desta qualidade (ser forte) para mostrar que era honesto e que jamais seria desleal.
Sendo muito esperto, disse que traiu Marcos porque estava sob efeito da poção. Ele pode ser considerado como um homem “normal”, ou seja, caracterizado como alguém que ama e um herói que luta. Entretanto, passou de fiel à infiel, coisa que era inadmissível para ele, no início da narração. A virtude, ocupando lugar de destaque nesse estilo literário, não permite que os protagonistas assumam sua culpa, direcionando-a sempre para fora de si. Enquanto herói, Tristão jamais foi traidor, tornando-se, desta forma, um mito adorado por todos.
É possível fazer uma analogia com o nome de Tristão, que seria o aumentativo de Tristeza, para assim designar a grandeza de seu sofrimento, na luta entre o amor cortês e dionisíaco, durante todo o romance.
Outra personagem central é Isolda, que morava na Irlanda, juntamente com seus pais, o Rei Gormond e Isolda (a mãe). Igualmente denotando particularidades do gênero literário cortês, era uma moça muito bonita, de cabelos loiros e, por isso, muito cobiçada por homens de todas as idades e posições sociais. Foi, juntamente com Tristão, para Cornualha, porque estava prometida a se casar com o Rei Marcos. Por causa de sua acompanhante, Brangia, que a colocou em um triângulo amoroso, a personalidade de Isolda, sofreu mudanças logo no início da história, assim prosseguindo até o final, onde já estava completamente diferente.
No começo do livro, ela era ingênua, não possuía a malícia de sair-se bem de certas situações; o convívio com sua serviçal, Brangia, e com a necessidade de ludibriar seu marido, acabou por tornar-se uma mulher sagaz, inteligente e por demais esperta, livrando-se da condenação, com grande astúcia.
Passaremos ao terceiro personagem: Marcos, o Rei de Cornualha. Vivia rodeado pelos membros da sua corte e nada fazia sem a aprovação deles. Talvez, por isso, tenha passado ao leitor, a idéia de não possuir personalidade própria. Deixava-se levar, sempre, pelas opiniões dos seus aliados. Por causa das idéias alheias, foi induzido, principalmente pelos barões, a desconfiar de sua esposa e sobrinho.
Seus conselheiros eram pessoas invejosas, calculistas e queriam ver Tristão longe da amada. Armavam todas as emboscadas para que o rei pudesse ver “com que tipo de mulher ele casara” e que seu sobrinho não era tão fiel quanto ele pensava. No entanto, a valentia destes “traidores” não durava muito quando eram postos à luta, pois eram os primeiros a darem desculpas para livrarem-se da situação.
Quanto a Brangia, possuía características psicológicas marcantes, porém, o que a distinguiu dos outros foi, justamente, seu caráter ter continuado forte desde o início até o final da história.
Serviçal de Isolda, era fiel à sua senhora e nunca demonstrou ser desleal. Causadora do triângulo amoroso, desde o ocorrido, nunca mais abandonou sua patroa. Querendo compensar sua negligência, sempre fez com que Isolda matasse seu desejo encobrindo o “pecado”. Uma das provas de fidelidade que Brangia deu à sua senhora, foi quando deitou-se com Rei Marcos para fazer as vezes de sua esposa, sendo que ela ainda era virgem.
Assim como Brangia, temos Jorvenal que, também, foi fiel até a morte de seu senhor, Tristão. Ele nunca fez nada para que Tristão desconfiasse de sua lealdade. Por isso, sua personalidade se manteve estável durante toda a narração.
Ordálio
O Ordálio consistia a fazer o acusado passar diversas provas físicas com o objetivo de mostrar sua inocência. Isso acontecia diante da divindade tutelar da justiça que, por definição, não podia deixar o inocente sucumbir ou a injustiça triunfar.  
Há quem afirme, por causa do caráter religioso e místico marcante, que era uma espécie de mandamento que a Igreja possuía para punir as pessoas que pudessem, naquela época, vir a cometer o adultério. Não obstante, sendo associado a uma violência extrema, representa, do ponto de vista teológico, um teste à bondade divina, o que é condenado claramente pela bíblia e pela Igreja Católica.
Tristão e Isolda viviam em constantes “provações e emboscadas” e, era através delas que o Rei Marcos passou a desconfiar da lealdade dois. A cada aproximação dos amantes, havia um “invejoso” que tentava mostrar a falta de Tristão, para que o tio visse, com seus próprios olhos, que estava sendo traído.
Sempre no momento em que os amantes estavam sendo emboscados, estes encontravam uma grande saída e, geralmente, eram obrigados a usar da mentira para que se livrassem dos apuros e, assim, do ordálio.
Após a noite de núpcias, Kariado[1], fiel de Marcos, com inveja dos amantes e desejando o lugar de Tristão perante o soberano, começou a lhe mostrar que estava sendo enganado pela própria mulher e sobrinho. O rei pôs em prova a lealdade da esposa, simulando uma viagem, onde Isolda se traiu pedindo que ficasse protegida pelo amado.
A estratégia, entretanto, não deu resultado porque Brangia os alertara sobre o perigo que corriam, avisando-os que Kariado maquinara tudo para que ela se entregasse. Quando o esposo veio testá-la pela segunda vez, ela já estava preparada para que não deixasse que as suspeitas levantadas pelo vassalo prosseguissem, e quando ele diz: “Bela amiga – disse -, nada me é tão profundamente caro como vós, e o pensamento de que nos vamos separar, ...(p. 61). Isolda, em sua perspicácia, responde: “Em nome de Deus, ficai ou deixai-me, cativa, ir convosco”! (p. 61).
O rei achou esquisito a esposa ter mudado de idéia quanto a ficar sob a guarda de Tristão, mas, como ela sabia que estava sendo provada, prosseguiu a conversa citando-o:
... Finge ser meu amigo porque matou o meu tio e lisonjeia-me para que não me vingue dele, pode no entanto ter isto por certo: todos os seus belos semblantes não me podem consolar da grande dor, da vergonha e do mal que causou a mim e a minha família. Se não fosse vosso sobrinho, há já muito tempo que o teria feito sentir a minha cólera. Queria nunca mais o ver, nunca mais lhe falar.( p. 61).
Kariado não se convenceu e pediu ao rei para experimentá-la pela terceira vez. Isolda, novamente, traiu-se, pois não queria que Tristão fosse embora. Tentou defender a ida do amante. Contudo, quando percebeu que estava, mais uma vez, sendo provada, soube persuadi-lo de que Tristão nada representava para ela.
As dúvidas de Marcos se foram. No entanto, a inveja que os homens da corte sentiam dos amantes não permitiu que os deixassem em paz. Assim, nova estratégia foi providenciada. Audret, outro vassalo, fez com que o soberano fosse testemunhar o encontro dos dois sob um grande pinheiro. Todavia, como Tristão era uma pessoa muito esperta, não se intimidou quando percebeu que estava em uma armadilha, soube sair-se sem deixar nenhuma dúvida de sua lealdade.
Foi armada uma quinta emboscada, em que colocaram farinha no chão pra que deixassem rastros. Tristão, tendo a característica cortês de jovem deveras astucioso, quase escapou, mas foi apanhado pelo seu próprio sangue. Desta vez, não houve saída e seu tio acabou presenciando o ocorrido.
O fato fez com que o casal amedrontado fugisse, desaparecendo por dois anos, quando o rei os encontrou deitados numa cabana na floresta e, ainda assim, mesmo depois de tudo, convenceu-se que não havia sido traído, pois os encontrou juntos, deitados como irmãos, com a espada de Tristão desembainhada entre os dois. Este ato significava “respeito” e, por conseqüência, acreditou na lealdade dos dois.
Desta forma, Isolda teve a permissão de permanecer no castelo, entretanto, Tristão teria que partir. Para que o esposo voltasse a confiar plenamente em Isolda, esta armou uma situação, onde jurou, perante o rei Arthur e a Deus, que nunca traíra seu marido. Porém, consciente de que este falso juramento seria pecaminoso, e demonstrando sua crença, usou de dúbias palavras para que não mentisse a Deus e, como sempre, saiu-se bem.
Tristão voltou a encontrar-se com Isolda, mas o rei desconfiou de sua presença e foi persuadido, pelos seus “fiéis”, a colocar lanças no chão, para mais uma tentativa de emboscada. Não obstante, a astúcia de Tristão foi maior e não se deixou pegar.
Podemos dizer que a maneira como é mostrado o Ordálio, foi feita uma crítica a um dos mandamentos da lei de Deus ou, mais especificamente, ao modo como se tentava impor e conservar o sacramento da Igreja Católica; pois, como já foi dito, sua finalidade era de punir os amantes em caso de adultério e traição.
Todo o desenrolar da obra, marcado pelas tentativas de desmascaramento e pela vitória dos “pecadores” quer mostrar que a punição não vem de Deus e este “mandamento” era a amostra de um “falso poder”: para os que mandavam (governavam) era mais fácil manter o poder fazendo com que as outras pessoas acreditassem que o Poderoso iria puní-los aqui mesmo, na terra. Este castigo, entre outros, era a fogueira. Uma vez que “Deus” fosse o responsável, a culpa deixava de ser humana.
Por outro lado, além de ser mostrado que existiam pessoas que se utilizavam da fé como uma simples forma de provar que era a lei de Deus que punia e não os homens, é apontado, também, que a fé que as pessoas desta época possuíam podia ser uma crença verdadeira ou, apenas, uma educação religiosa recebida dos pais.
A Religião e a Trindade das Isoldas
Observamos que a religião tem lugar de destaque, demonstrando a crença e o misticismo da época. Várias vezes é mencionado o nome de Deus ou falado claramente sobre a Igreja, santos, sinais religiosos ou, ainda, há muitas alusões a termos ou fatos bíblicos.
Disso, queremos destacar a trindade das Isoldas. São três mulheres de caráter bastante diferentes, mas com o mesmo objetivo: o “amor verdadeiro”. As características de cada uma destas personagens estão marcadas pelas suas ações e anseios. Poderia ser uma analogia ao Pai, Filho, Espírito Santo, cada um com suas características, todos chamados “Deus”, em busca de um mesmo alvo: não o amor verdadeiro, mas fazer conhecer esse AMOR que são eles próprios.
Tudo começou com Isolda, mãe, representando um ser mitológico que acreditava que, através da poção mágica, a sua filha iria se apaixonar pelo prometido e ser feliz. Ela estava preocupada com a preservação da família que a sua filha iria adquirir casando-se com o Rei Marcos.
Desejava, além disso, defender a moral de sua filha, pois se caso Isolda não viesse a gostar do soberano, seu casamento não iria dar certo, terminando, possivelmente, por um adultério e, conseqüentemente, pela separação. Naquela época isso seria inadmissível, escandaloso e imoral. Além do mais, Isolda, a mãe, queria a união das famílias nobres, ou seja, a união do reino Gormond com o reino de Marcos.
Isolda Loira (filha) era a imagem da sedução, sendo que todos os homens não conseguiam resistir à tal beldade. Era considerada como o símbolo da beleza. Uma mulher movida pelo amor carnal e pela paixão (o amor erótico). Amante e amada. Fiel a Tristão, pois por nada deixou de amá-lo, contudo, infiel ao Rei Marcos, porque jamais deixou de amar Tristão.
Tudo isto teve início por causa da poção mágica feita por Isolda mãe. Antes da poção, Isolda Loira possuía um amor cortês, que foi transformado no amor erótico, ou seja, o amor dionisíaco que é conduzido, não pela razão, mas por um feitiço. Um amor que se transforma numa louca paixão, onde os amantes estão sempre correndo riscos por causa dela. Assim era o sentimento entre os personagens principais. Todavia, veremos que, depois do efeito da poção, eles voltam ao estado inicial recuperando, racionalmente, o amor cortês.
Com o fim do sortilégio teve início o predomínio da razão. Tristão e Isolda Loira agora conscientes dos seus atos, não deixaram de se amar, mas sabiam que não poderiam continuar juntos ocorrendo, então, a separação.
Algum tempo depois que acabou o efeito da poção, Tristão conheceu outra Isolda, a das mãos brancas, e com ela, viveu um amor cortês. Esta Isolda era uma mulher bonita, ingênua, pura, leal e honesta. Foi iludida e aceitou a viver apenas com os carinhos de Tristão. O amor vivido por esses dois foi movido pela razão e eles acabaram se casando. Para ele, este casamento foi uma fuga, onde esperava esquecer a Isolda Loira. O amor carnal não foi concretizado e deu-se o amor cortês. Mas, esta união não deu em nada, fracassando.
Isolda das mãos brancas descobriu que estava sendo enganada e, impulsionada pelo ciúme, mentiu. A mentira levou Tristão e, em seguida, Isolda Loira à morte. A concretização do amor em Tristão e Isolda Loira só foi possível acontecer logo depois de suas mortes, sendo evidente, assim, que precisaram da terceira Isolda para que o amor perdurasse eternamente.
No túmulo de Isolda, a loira, plantou uma roseira vermelha e no de Tristão um cepo de nobre vinha. Os dois arbustos cresceram juntos e os seus ramos entrelaçaram-se tão intimamente que foi impossível separá-los; de cada vez que os podavam,  tornavam a crescer com todo o vigor e confundiam a sua folhagem. (p. 175).
Constatamos que a reunião destas três Isoldas resultou na formação da “mulher comum”, que é a verdadeira deusa. Aquela que tudo faz pelos filhos e pelo amor quando se sente traída. As ações são causadas pelas três, e cada uma delas teve fundamental importância no romance. Importância que, até então, as mulheres não tinham nas obras literárias.
Temos, no livro, a ação proveniente dos atos heróicos de Tristão. Nota-se, claramente, que todo o desencadeamento das ações teve o seu início, propriamente dito, com a vitória de Tristão sobre o Norholt. O narrador procurou mostrar todo um mundo de ficção e magia, com intuito de deixar transparecer, claramente, o sentido e a capacidade heróica de Tristão.
Esta obra foi fundamental, para a época, por retratar mudanças ideológicas, culturais e sociais que estavam ocorrendo. A mulher começava a ter um papel mais relevante na literatura e isso influenciava em todo contexto. O papel da religião, também, estava sendo questionado. Podemos, conseqüentemente, afirmar que a obra foi um grande passo para os posteriores. A inovação, a partir dela, foi constante, sobretudo, no que se refere ao lugar que a mulher, a religião e o poder passam a ocupar, literariamente, daí em diante.

Bibliografia
Tristão e Isolda. (Trad. de Mª Braamcamp Figueiredo), Rio de Janeiro. Publicações Europa-América, LDA, 1982.

domingo, 27 de abril de 2014

Te Contei, não ? - Daniel Alves e a banana

O lateral brasileiro Daniel Alves foi um dos mais importantes personagens da vitória de virada do Barcelona (3 a 2) sobre o Villarreal neste domingo. O time catalão perdia por 2 a 0 até metade do segundo tempo, quando Alves iniciou a virada.
Primeiro, ele chutou cruzado, a bola desviou no zagueiro Gabriel Paulista e entrou: 2 a 1. Depois, ele cruzou pelo alto e outro zagueiro do Villarreal cabeceou contra a própria meta: 2 a 2.
Durante a partida, o lateral também respondeu com bom humor uma provocação racista da torcida.
Uma banana foi arremessada no campo quando ele ia cobrar um escanteio. O lateral catou a banana do chão, a descascou e a comeu antes de fazer a cobrança.
Na saída do gramado, o lateral comentou seu gesto. "Estou há onze anos na Espanha, e há onze anos é igual... tem que rir desses atrasados."
Nos minutos finais da partida, o argentino Lionel Messi fez o terceiro e virou o placar.
Mesmo com a vitória improvável, o Barcelona tem poucas chances de título por que está a quatro pontos do líder Atlético de Madri a três jogos do fim do campeonato.
A partida deste domingo também foi marcada por homenagens ao ex-treinador do Barcelona Tito Vilanova que morreu na semana passada após lutar contra um câncer.

Futebol internacional neste final de semana (26 e 27/04) 55 fotos

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Com o gol vazio, meia brasileiro Willian marca o gol da vitória do Chelsea sobre o Liverpool por 2 a 0 Leia mais AFP PHOTO / ANDREW YATES

Te Contei,não ? - Neymar posta foto com banana em apoio a Daniel Alves

  • Atacante do Barcelona inicia campanha em redes sociais

Neymar posta foto com banana em apoio a Daniel Alves Foto: Reprodução Instagram

Neymar posta foto com banana em apoio a Daniel Alves Reprodução Instagram


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Te Contei, não ? - A guerra não declarada contra os jovens negros brasileiros

Recentemente um vídeo do Brasil atraiu muitas atenções em todo o mundo, contrariando a imagem que o país deseja promover com a Copa e com as Olímpiadas.

Te Contei, não ? - A violência contra jovens negros no Brasil



A cada nova divulgação dos dados sobre homicídios no Brasil a mesma informação é dada: morrem por homicídio, proporcionalmente, mais jovens negros do que jovens brancos no país. Além disso, vem se confirmando que a tendência é um crescimento desta desigualdade nas mortes por homicídios.
O diagnóstico produzido pelo Governo Federal apresentado ao Conselho Nacional de Juventude – CONJUVE mostra vetores importantes desta realidade, para além dos socioeconômicos: a condição geracional e a condição racial dos vitimizados.Em 2010, morreram no Brasil 49.932 pessoas vítimas de homicídio, ou seja, 26,2 a cada 100 mil habitantes. 70,6% das vítimas eram negras. Em 2010, 26.854 jovens entre 15 e 29 foram vítimas de homicídio, ou seja, 53,5% do total; 74,6% dos jovens assassinados eram negros e 91,3% das vítimas de homicídio eram do sexo masculino. Já as vítimas jovens (ente 15 e 29 anos) correspondem a 53% do total e a diferença entre jovens brancos e negros salta de 4.807 para 12.190 homicídios, entre 2000 e 2009. Os dados foram recolhidos do DataSUS/Ministério da Saúde e do Mapa da Violência 2011.
Podemos dizer que este tema entrou na cena pública, quando, em 2007, o Fórum Nacional da Juventude Negra - FONAJUNE lançou a campanha nacional “Contra o Genocídio da Juventude Negra”. Em 2008, foi realizada a 1ª. Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude, e das 22 prioridades eleitas nesta CNPPJ, a proposta mais votada foi a indicada pela juventude negra que tematizava justamente os homicídios de jovens negros.
Depois de passar CONJUVE, o tema foiabsorvido pelo Executivo, no final de 2010, através da Secretaria de Políticas de Igualdade Racial - SEPPIR, com a realização de uma oficina chamada “Combate à mortalidade da juventude negra”.Com a sucessão presidencial, a pauta – deixada de lado pela SEPPIR, em 2011 – foi reincorporada pela Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), ligada à Secretaria Geral da Presidência da República-SG/PR, em meados de 2011. A SNJ sugeriu que o Fórum Direitos e Cidadania (coordenado pela SG/PR), que reúne os principais ministérios ligados ao tema, tomasse para si a questão. Foi o que aconteceu, a partir da criação de uma Sala de Situação da Juventude Negra dentro do Fórum. A partir daí desencadeou-se uma agenda nos moldes participativos para o desenvolvimento de propostas que agissem pela redução da violência contra a juventude negra.
Problema velho, soluções inovadoras
Esta pauta, de início, podemos sugerir que possui um caráter especialmente participativo. Pois inicia-se com uma Conferência de participação social e passa a ser discutido pelo Conjuve. Depois, quando chega ao executivo, mantém este formato de discussão.
O problema a ser enfrentado é bem complexo. Até hoje algumas iniciativas que dialogam com este público de juventude negra. Entretanto, existe uma dissonância entre elementos fundamentais para o êxito de uma ação que vise combater os homicídios de jovens negros. Para estas políticas, quando há orçamento, não há reconhecimento de diferenças; quando o projeto aborda a juventude negra, não há recursos. E quando há reconhecimento com recursos, não existe foco nos jovens mais vulneráveis.
Assim, esta agenda deve ser trabalhada pelo poder público a partir de duas concepções distintas de políticas públicas e a partir de uma noção convergente de direitos, pois o direito à vida de certa juventude (a juventude negra) e elaborada a partir do reconhecimento de diferenças. Mas que o Estado Brasileiro através de seus quadros burocráticos, muitas vezes reluta em fazê-lo.
Uma delas a chamada transversalidade, que defende que as políticas públicas devem ser caracterizadas pelas dimensões que se pretendem reconhecer (racialmente, por gênero etc.). A outra maneira pela qual as políticas setoriais vêm sendo tratadas é pela ação afirmativa. Esta defende que é preciso criar políticas emergenciais, combinas às estruturantes para públicos específicos (negros, jovens, mulheres).
As políticas chamadas transversais carregam consigo um dilema sobre a sua autoria. Se elas devem estar em todos os campos da ação pública, quem tem o dever de realizá-las? De quem é a responsabilidade de resolver o problema dos homicídios dos jovens negros no interior de um governo? A Secretaria Nacional de Juventude, A Secretaria de Políticas de Igualdade Racial? A Secretaria de Segurança Pública?
Mas o outro lado deste assunto é que ele mostra que ações relacionadas a este tema podem partir de outros atores que não apenas o Ministério da Justiça e que o tema dos homicídios é apropriado por outros setores da sociedade e do Estado que não são os tradicionalmente ligados ao tema.
Entretanto, antes que um ou outro ministério assuma esta tarefa, é necessário ultrapassar uma barreira que muito se vê Brasil a fora:  deve-se fincar as ações de promoção de direitos e tratar o seu público “alvo” desta vez como sujeito de direitos e não como “jovens problemas”. Isso é uma tendência que os setores organizados da sociedade civil vêm defendendo, há anos, e que agora devem chegar às políticas que ligam juventude à violência. Do que decorrerá outro ponto inovador: os jovens são tratados com vítimas e não mais como os vitimizadores.
Acredito ser este um bom exemplo de como a participação social e a abertura do processo de elaboração política para diversos setores da sociedade apontam para a criação de políticas que atendam ao reconhecimento e promoção de novos direitos, com o surgimento de novos arranjos institucionais. Ainda que os problemas sejam tão antigos.



Paulo Ramos, 31, é especialista em análise política pela UnB e mestrando em sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. Foi consultor da UNESCO e da Fundação Perseu Abramo para o tema das relações raciais e de juventude.

sábado, 26 de abril de 2014

Te Contei, não ? - Padres fora !

A partir de meados do século XVII, o Brasil e as demais conquistas lusitanas enfrentaram uma série de revoltas organizadas pelos moradores contra autoridades e religiosos. Os levantes varreram São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Maranhão e Pará, mas também a África e as possessões na Ásia. No caso da América portuguesa, as revoltas estavam ligadas aos problemas que surgiam com o próprio avançar da colonização, mas se explicam também pelas transformações globais com as quais sofria o império português – voltado cada vez mais para o Atlântico.
Uma revolta simbólica do período colonial aconteceu nas capitanias do Maranhão e do Pará. Os moradores da região se levantaram contra os religiosos jesuítas, liderados pelo famoso padre Antônio Vieira (1608-1697). A agitação começou em fins de maio ou início de junho de 1661, na cidade de São Luís do Maranhão. Um grupo de moradores se dirigiu ao colégio jesuíta de Nossa Senhora da Luz e expulsou de lá os religiosos. Dias antes, moradores e vereadores haviam se reunido na Câmara e obrigado o reitor do colégio dos jesuítas a assinar um termo no qual os padres aceitavam abandonar o domínio que tinham sobre as aldeias de índios livres. Encurralados pela pressão dos vereadores e pelos representantes do “povo” – na verdade os setores da população que tinham direito à participação política, como proprietários e comerciantes, e também os homens livres brancos – os padres não tiveram alternativa a não ser firmar o documento.
A população de São Luís estava realmente enfurecida com os religiosos. Testemunha ocular dos acontecimentos, o ouvidor Diogo de Sousa e Meneses relata que, por ocasião da ida dos jesuítas à casa da Câmara, os moradores lhes teriam jogado “grande quantidade de pedradas”. Poucos dias depois, a rebelião tomou conta da cidade, apesar das tentativas de acalmar os ânimos lideradas pelo próprio governador, Dom Pedro de Melo.
Em dois meses, a revolta se espalhou para a vizinha capitania do Pará. Inspirada pelas notícias do levante em São Luís, a população de Belém se dirigiu ao colégio jesuíta de Santo Alexandre e deteve o padre Antônio Vieira, superior das missões. Imediatamente enviado a São Luís, Vieira ainda tentaria reverter sua situação no Maranhão, mas não houve jeito: embarcado e mantido à força numa nau, de lá partiu para Lisboa, de onde nunca mais voltaria ao Maranhão e Pará graças à ação de pessoas como Jorge de Sampaio e Carvalho, um dos líderes do levante, que havia sido soldado e almoxarife no Maranhão, e esteve depois implicado em outra expulsão dos padres da cidade de São Luís, em 1684.
Depois de expulsar o padre Vieira e alguns outros religiosos, os moradores de São Luís e Belém passaram a perseguir os demais padres que se encontravam no Estado do Maranhão e Pará – que reunia as duas capitanias e era separado do Estado do Brasil.
Mas, afinal, o que motivou tamanha revolta? A razão mais imediata foi a definição de uma política portuguesa em relação aos índios, em meados do século XVII. Na década de 1650, os padres jesuítas ganharam amplo controle sobre os trabalhadores nativos, com poder de determinar se os escravos indígenas feitos pelos moradores eram legítimos ou não. Também lhes cabia gerenciar o uso de trabalhadores indígenas livres que viviam nos aldeamentos missionários e serviam aos moradores.
A revolta de 1661 estava diretamente ligada ao modo como até então se organizara a conquista portuguesa das capitanias do norte. Diferentemente de outras regiões da América portuguesa, o então Estado do Maranhão e Pará se estabeleceu com base principalmente no uso de trabalhadores indígenas. Os índios eram empregados tanto nas lavouras como na extração dos produtos da floresta (as chamadas “drogas do sertão”). Por muito tempo, a principal força de trabalho na região continuou sendo a mão indígena. Por isso, a centralização do controle sobre as formas de aquisição de trabalhadores e sobre seu uso ainda geraria inúmeros conflitos entre a população e os jesuítas ao longo de todo o período colonial.
Um dos articuladores dessa política foi justamente o padre Antônio Vieira, muito próximo ao rei D. João IV. Graças à influência do jesuíta, durante o reinado deste monarca (1640-1656), definiram-se os principais aspectos da política em relação aos índios do Maranhão e Pará, que passaram a vigorar já no início da década de 1650. Daí o fato de o ódio dos moradores se dirigir principalmente contra Vieira. 
O conflito só terminou com a chegada do novo governador, Rui Vaz de Siqueira, em março de 1662. Ele tomou duas decisões assim que assumiu: concedeu perdão geral aos rebeldes e impediu a partida, no Pará, das naus que levavam os padres presos, para que fossem restituídos às suas igrejas. Em 1663, o rei D. Afonso VI confirmou o perdão, mas ordenou que Rui Vaz de Siqueira repreendesse os moradores, ameaçando-os com severas punições.
O episódio mostra como conhecer o contexto local não é suficiente para entender as causas de uma revolta. O império português sofria transformações naquele período: em 1640, Portugal se separara da Coroa espanhola, com a qual estivera unido desde 1580. A chamada Restauração de Portugal significou também um rearranjo de poderes no interior do império. Enfatizava-se a importância de um equilíbrio nas relações entre o rei (que deveria ser justo) e seus súditos (que deveriam ser obedientes); a própria aceitação do novo rei pelos súditos significava que ele deveria também atender ao bem de seus vassalos. Ao se revoltarem, os moradores de Maranhão e Pará procuravam mostrar ao rei e às autoridades por ele nomeadas que eles deveriam ouvir seus súditos e levar em conta seus problemas.
Por outro lado, a década de 1660 foi um período problemático na história da monarquia portuguesa, quando esteve em questão a sucessão de D. João IV. Em 1662, com a subida ao trono de D. Afonso VI, os jesuítas, e principalmente o padre Vieira, caíram em descrédito na Corte portuguesa. Esta nova situação ficou clara com o perdão concedido em 1663 aos revoltosos do Maranhão e Pará, e com a proibição explícita do retorno do padre Vieira àquela colônia.
Finalmente, os moradores que se revoltaram o fizeram porque estavam convencidos de que suas pretensões eram legítimas. Havia uma linguagem e um discurso que explicavam e justificavam o direito de se revoltar. Tanto antes como depois do levante, os moradores das duas capitanias fizeram suas queixas chegar aos padres, às autoridades e ao rei. Deixavam claro que eles e seus ascendentes haviam conquistado e defendido o Estado do Maranhão e Pará para a Coroa de Portugal, como escreveram numa carta, lembrando que “há tantos anos o estão servindo, derramando o seu sangue”. Queixavam-se que o rei e as autoridades nomeadas por ele não os ouviam, tendo, por diversas vezes, “clamado a Vossa Majestade” e visto que “não se deferia a tão duplicados clamores”, como escreveram numa carta ao soberano logo depois de passado o motim. Mais ainda: discordavam das políticas estabelecidas em relação aos índios, pois para eles o domínio que os padres tinham levaria à ruína todos os portugueses e à perda da própria colônia; assim, lembravam num texto os vereadores de Belém que o poder dos padres sobre os índios tinha deixado o Pará “no mais miserável estado”. Deixavam claro, dessa forma, que eles mereciam um lugar na definição dos destinos do lugar em que viviam.
Por mais violentas que sejam, revoltas populares não podem ser consideradas ações irracionais ou meros frutos de desordem. Tais quais as do presente, as manifestações de insatisfação da população no passado recorreram a símbolos, linguagens e estratégias motivados por razões profundas.

Rafael Chambouleyron é professor da Universidade Federal do Pará e autor de Povoamento, ocupação e agricultura na Amazônia colonial (1640-1706), vol. 1 (Açaí/ Centro de Memória da Amazônia/ UFPA, 2010).


Saiba mais - Bibliografia

CAETANO, Antonio Filipe Pereira (org.). Conflitos, revoltas e insurreições na América portuguesa. Maceió: EdUFAL, 2011.
COELHO, Geraldo Mártires. “A pátria do Anticristo: A expulsão dos jesuítas do Maranhão e Grão-Pará e o messianismo milenarista do Padre Vieira”. Luso-Brazilian Review, v. 37, n. 1, 2000.
FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. “O império em apuros. Notas para o estudo das alterações ultramarinas e das práticas políticas no império colonial português. Séculos XVII e XVIII”. In: FURTADO, Júnia Ferreira (org.). Diálogos oceânicos. Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do Império Ultramarino Português. Belo Horizonte: EdUFMG, 2001.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Te Contei, não ? Uma aula de ditadura e autoritarismo

Um vídeo se alastrou pela internet a partir do último dia 31 de março. Foi feito pelos alunos da Faculdade de Direito da USP, instalada no Largo de São Francisco, em São Paulo, desde 1903. Este post não se destina a divulgar esse vídeo, mas a expor fatos que sucederam sua divulgação.
O vídeo mostra protesto feito por estudantes contra o professor Eduardo Gualazzi, quem, no dia do aniversário do golpe de 1964, em vez de dar aula resolveu afrontar não só os seus alunos, mas o próprio Centro Acadêmico XI de agosto.
Para quem não sabe, o Centro Acadêmico XI de Agosto é o órgão representativo dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e recebe o nome “XI de Agosto” em homenagem à data da lei que criou as duas primeiras faculdades de Direito do Brasil, uma em São Paulo e outra em Olinda.
O XI de Agosto é o mais antigo centro acadêmico de Direito do país. Teve participação decisiva nas mais relevantes campanhas políticas nacionais, principalmente nos movimentos de defesa do Estado Democrático de Direito contra a ditadura militar que brotou do golpe de 1964.
O professor Gualazzi cometeu um desatino ao levar para leitura em sala de aula um texto de sua autoria intitulado “Continência a 1964”. O texto exalta a ditadura militar justamente em uma instituição cuja história se confunde com a luta contra essa ditadura.
A ligação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco com a luta contra o regime militar é tão forte que, enquanto Gualazzi fazia apologia àquele regime em sala de aula, o próprio reitor daquela instituição, José Rogério Cruz e Tucci, participava de protesto contra a ditadura a algumas centenas de metros daquela Faculdade.
A intenção de Gualazzi, portanto, foi claramente a de provocar. O que ele estava fazendo, quando sua “aula” foi interrompida pela manifestação dos alunos, não era ensinar. O texto que lia não continha fatos históricos, mas a sua opinião sobre a ditadura.
Professores dão opiniões em sala de aula em todos os níveis de ensino. Isso é comum. Todavia, qualquer professor que disser opiniões em classe corre sérios riscos.
Conto uma história para explicar como é perigoso um professor confundir suas opiniões com a matéria que é pago para ensinar aos seus alunos.
Há alguns anos, uma de minhas filhas, durante aula na faculdade, ouviu de uma professora críticas duras a blogueiros de esquerda e, surpresa das surpresas, também ouviu o nome de seu pai ser incluído na acusação de que tais blogueiros seriam “pagos pelo governo”. Obviamente que ela protestou com veemência na mesma hora e, depois, fez queixa formal da professora, que foi advertida pela faculdade.
Apesar de o vídeo em questão já ter sido muito visto, vale explicar, para quem não viu, que os estudantes organizaram um protesto à altura da ousadia do professor de afrontar não só a eles, mas à própria instituição em que leciona.
O protesto começou do lado de fora da sala de aula. Estudantes simularam gritos de pessoas sendo torturadas e depois entraram cantando em classe, todos vestindo capuzes iguais aos que eram colocados nos presos políticos que a ditadura torturou e/ou matou.
Quem quiser ficar em cima do muro pode dizer que os dois lados erraram. Ainda assim, terá que reconhecer que quem cometeu o primeiro erro foi o tal professor Gualazzi. Contudo, à luz do amplo repúdio (inclusive internacional) à ditadura militar iniciada em 1964, é difícil qualificar a reação dos alunos como um erro. Foi mera reação a uma afronta.
A razão deste post é a de rebater uma versão distorcida desses fatos que está sendo alardeada pela revista Veja através de seus colunistas, entre os quais Rodrigo Constantino. Ele publicou um post em seu blog, hospedado no portal da revista, em que afirma que o tal professor da USP foi “impedido de criticar o comunismo”.
Abaixo, o comentário de Constantino no portal da Veja:
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Vejam como agem os comunistas, esses seres jurássicos que ainda procriam e se espalham, colocando em xeque a teoria da evolução darwinista. São tolerantes, democratas, a favor do debate aberto. Só que não! São autoritários, intimidam quem pensa diferente, querem calar o contraditório no grito. Impediram uma aula sobre as tiranias vermelhas e o contexto de 1964. Invadiram a sala e humilharam o professor. É apenas assim que sabem agir: covardemente e em bando
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Ao fim deste post, o leitor que ainda não assistiu o vídeo em questão poderá assistir. Quem assistiu, sabe que o texto do professor Gualazzi não se destinou a criticar o comunismo e sim a fazer apologia da ditadura militar. O próprio título do texto (“Continência a 1964”) diz tudo.
Chega a ser bizarro que alguém que, como Constantino, apoia um regime cuja principal característica foi a censura por meios violentos se queixe do que enxerga como “censura”.
Aliás, o regime que Constantino defende não se valia de manifestações teatrais para censurar. Preferia métodos mais “eficientes”, tais como torturas, estupros, assassinatos. Sevícias inclusive a crianças e adolescentes diante dos pais, a esposas diante dos maridos etc.
Concluo externando a opinião deste blog sobre a iniciativa dos alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. É mais do que necessário que todos quantos possam não percam a oportunidade de denunciar a ditadura militar. Este país não pode mais conviver com apologias a um crime de lesa-humanidade como foi aquela ditadura.
Cada cidadão consciente dos horrores daquele período terrível de nossa história deve tomar para si a obrigação de não permitir que exaltem aquele processo criminoso desencadeado neste país há meio século. Pesquisas recentes sobre o que pensam os brasileiros mostra que estão divididos sobre o que aconteceu neste país. É inaceitável.
A ausência de denúncias contundentes sobre a violação da democracia e dos direitos humanos durante cerca de duas décadas é o que faz quase metade dos brasileiros julgarem de forma tão equivocada a ditadura militar.
Este blog, pois, exorta a todo aquele que sabe a verdade a que não aceite, de modo algum, apologias de quem quer que seja à ditadura. Pode ser amigo, parente, colega de trabalho etc. Se fizer apologia da ditadura deve ser contestado prontamente, mesmo ao custo da ruptura ou do esfriamento de sua relação com aquela pessoa.
Este blogueiro tem dito nas redes sociais que não tem o menor interesse em manter amizade ou qualquer outra relação com pessoas que apoiam o regime militar de 1964. Hoje há muita informação. Todos sabem dos crimes cometidos naquele período. Quem apoia aquilo, portanto, não presta. Não vale a pena manter relações com alguém assim.