Rio - Ao longo de 58 anos como imperador do Brasil, D. Pedro II colecionou diversos carimbos em seu passaporte. Como um intelectual amante de artes e tecnologia, ele fazia questão de anotar com riqueza de detalhes tudo o que via nos países que visitava. Durante todos esses anos, o imperador escreveu 43 cadernetas com suas impressões da Europa, do Oriente Médio e do Brasil.
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quinta-feira, 18 de junho de 2015
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Te Contei, não ? - Para ajudar a entender o romance Iracema de José de Alencar
"Numa atmosfera lendária, de exótica e delicada poesia, desenrola-se a história triste dos amores de Martim, primeiro colonizador português do Ceará, e Iracema, jovem e bela índia tabajara, filha de Araquém, pajé da tribo. Martim saíra à caça com seu amigo Poti, guerreiro pitiguara, e perdera-se do companheiro, indo ter aos campos dos inimigos tabajaras. Encontra Iracema, que o acolhe na cabana de Araquém, enquanto volta Caubi , seu irmão, que reconduziria o guerreiro branco, são e salvo às terras pitiguaras. Iracema, porém, apaixona-se por Martim, traindo o segredo de jurema, que guardava como virgem de Tupã. Acompanha o esposo, deixando na sua tribo um ambiente de revolta, acirrado pelos ciúmes de Irapuã, destemido chefe tabajara. Desencadeia-se a guerra da vingança, e os tabajaras são derrotados; Iracema confunde as venturas do amor com as amargas tristezas que despertam os campos juncados de cadáveres de seus irmãos. Ao remorso e saudade outra dor se lhe acrescenta; o arrefecimento do amor de Martim que, para amenizar a nostalgia da pátria distante, ausenta-se em longas e demoradas jornadas. Num dos seus regressos, encontra Iracema às portas da morte, - exausta pelo esforço que fizera para alimentar o filhinho recém-nascido, a quem dera o nome de Moacir, literalmente na sua língua, filho da dor. Martim enterra o corpo da esposa e parte, levando o filho e a saudade da fiel companheira.
(Extraído do Pequeno Dicionário da Literatura Brasileira - Ed. Culturix)
ORGANIZAÇÃO
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Te Contei, não ? - A avó do Barbudo
Bárbara Pereira de Alencar foi uma revolucionária da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Mãe de José Martiniano Pereira de Alencar, Tristão Gonçalves e Carlos José dos Santos também revolucionários. Avó do escritor José de Alencar.
Te contei, não ? - O Teatro Alencariano - outros olhares
José de Alencar exerceu a carreira de dramaturgo juntamente com o ofício de romancista. Veja-se a representação do escravo nas tragédias burguesas Mãe; e Demônio Familiar
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terça-feira, 14 de abril de 2015
Te Contei, não ? - José de Alencar- um "escravocrata" abolicionista
José de Alencar, um "escravocrata" abolicionista
O fundador do romance nacional é injusta e precariamente tido como escravagista. É o que defende, em artigo, o pesquisador Nathan Matos
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domingo, 12 de abril de 2015
Te Contei, não ? - Diva
O romance urbano de Alencar segue muitas vezes o padrão do típico romance de folhetim, retratando a alta sociedade carioca com todas as suas belas fantasias de amor. O romancista, no entanto, vai além: por trás de toda a pompa e final feliz onde todos os segredos e suspenses que se desenvolvem nas complicadas tramas são desvendados, está a crítica, a denúncia da hipocrisia, da ambição e desigualdade social. Alencar se especializou também na análise psicológica de suas personagens femininas, revelando seus conflitos interiores. Essa análise de caráter mais psicológico do interior das personagens remete sua obra a características peculiares dos romances realistas, sobretudo de Machado de Assis.
Diva
A protagonista Emília, personagem central do romance, é uma jovem mimada, filha de um rico capitalista do Rio de Janeiro. Busca incansavelmente um marido mais interessado em amor que em dinheiro.
Em Diva, José de Alencar, tem um narrador, Amaral, que conta toda as suas aventuras romanescas com Emília, para Paulo, o personagem que Lúcia amou, em Lucíola. A história do médico Amaral e Mila é apresentada por Paulo.
"Foi em março de 1856. Havia dois meses que eu tinha perdido a minha Lúcia. Sentia a necessidade de dar ao calor da família uma nova têmpera à minha alma usada pela dor. Parti para o Recife. A bordo encontrei o Dr. Amaral, que vira algumas vezes nas melhores salas da Corte. Formado em medicina, ela ia a paris fazer o estádio quase obrigatório dos jovens médicos brasileiros. [...] Um belo dia recebi uma carta de Amaral; envolvia um volumoso manuscrito, que é o que lhe envio agora, um retrato ao natural, a que a senhora dará como ao outro, a graciosa moldura".
Amaral, moço de vinte e três anos, negro apaixona-se por Emília, moça rica que não era muito provida de beleza, mesmo porque, a sua prima Júlia, a chamava de "esguicho de gente". Contudo, os anos passaram-se, aquela que era feia, tornou-se a bela dos salões, uma verdadeira beldade.
"Quando aos dezoito anos ela pôs o remate a esse primor de escultura viva e poliu a estátua de sua beleza, havia atingido ao sublime da arte. Podia então, e devia, ter o nobre orgulho do gênio criador. Ela criara o ideal da Vênus moderna, a diva dos salões".
Te Contei, não ? - A Pata da Gazela de José de Alencar
O romance A Pata da Gazela
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Te Contei, não ? - As mulheres de José de Alencar
O romancista e dramaturgo José de Alencar (1829-1877), que até hoje desfruta de boa popularidade, foi visto como imoral em sua época e em parte do século XX, irritando conservadores e moralistas pelas cenas, inclusive de erotismo, que produziu, especialmente em perfis de mulheres, como Lucíola, Diva e Senhora.
Conhecendo um pouco melhor o Barbudo do Segundo Império
José Martiniano de Alencar (Messejana1 CE 1829 - Rio de Janeiro 1877). Romancista, cronista, dramaturgo, ensaísta e político. Seus primeiros anos de vida são marcados por mudanças e viagens, determinadas pela vida política do pai, também José Martiniano de Alencar, até que, em 1839, se muda definitivamente para o Rio de Janeiro.
Personalidades - José de Alencar
José de Alencar se envolveu em diversas polêmicas literárias e políticas: entre 1850 e 1870, as três décadas de sua atividade intelectual, seu nome esteve confrontado com grandes vultos contemporâneos: Gonçalves de Magalhães, D. Pedro II, Franklin Távora, Joaquim Nabuco e outros. As contendas incidiam nas questões mais urgentes da época: a Abolição, a identidade nacional, a representação literária do índio e dos tipos regionais, a constituição da língua brasileira, etc. Na maioria dos casos, Alencar pouco traiu suas convicções: foi quase sempre conservador e romântico.
Personalidades - José de Alencar
por Luiz Ruffato
Lembro-me que nos meus tempos de escola ainda se discutia qual o maior escritor brasileiro de todos os tempos, se José de Alencar, se Machado de Assis, ambos os lados defendidos com ardor por leitores e especialistas. Com o tempo, cresceu o prestígio do autor de Dom Casmurro - sua complexa obra, cada vez mais estudada, no Brasil e no exterior, vem alçando alturas impensáveis, assegurando- lhe o legítimo lugar no panteão da literatura universal. A fama do autor de Iracema injustamente decaiu. Escasseiam os trabalhos acadêmicos e seu nome ainda circula quase exclusivamente em função da obrigatoriedade da leitura nas escolas. Por isso, a importância de O inimigo do rei, do jornalista Lira Neto, que se junta às pouco mais de uma dezena de biografias de José de Alencar, um número minúsculo dada a importância do personagem.
Te Contei, não ? - Os desencontros de José de Alencar e Dom Pedro II
O escritor José de Alencar (1829-1877), autor de O guarani, Iracema, Senhora e mais 17 romances, morreu com fama de polemista. Viveu numa época em que os leitores dos jornais da Corte acompanhavam avidamente os exaltados debates conduzidos por “homens de letras” sobre os mais variados assuntos da vida política e cultural. O historiador Antônio Edmilson Rodrigues definiu José de Alencar como um “poeta armado”, por deixar sua pena sempre à disposição de um bom combate, na imprensa ou no Parlamento, como forma de defender suas idéias e levantar questões nacionais.
Te Contei, não ? - Os desencontros entre José de Alencar e Dom Pedro II
Muitos, da geração atual, não sabem que José de Alencar (Messejana) (1829-1877) morreu jovem, aos 48 anos, teve um grande desentendimento com o Imperador dom Pedro II.
Te Contei, não ? - Conhecendo um pouco mais do Barbudo !!!
A prosa de ficção surgiu no Brasil por meio de um gênero literário, o romance, e nosso primeiro romancista foi o fluminense Joaquim Manuel de Macedo, com o best-seller (1865)" e "Ubirajara", de Alencar (1874);
terça-feira, 24 de março de 2015
O Demônio familiar - Novos Olhares
A peça de José de Alencar reúne alguns dos ingredientes românticos mais convencionais. Todo o enredo é montado sobre tensões, maledicências, fofocas, mal-entendidos, que lhe dão o ritmo rocambolesco e complicado das narrativas folhetinescas do Romantismo. Estão presentes, ainda, os inescapáveis obstáculos para a realização amorosa do par central, como o projetado casamento da heroína com Azevedo e as atitudes de Pedro, que fazem com que o herói não se sinta amado por Henriqueta.
Mas Alencar conduz as confusões da narrativa até o nível das contradições, que fazem com que a peça atinja um nível superior, ao expor ao espectador diferentes perspectivas a respeito dos conceitos em jogo. Assim, o amor romântico aparece em duas formas distintas: de um lado, o amor contido e conformado de Henriqueta, que se submete às vontades do destino; de outro, o amor decidido e ativo de Carlotinha, que luta por seu amor, não se rendendo às circunstâncias que conduziam à inevitável separação. A peça vai ainda além: há, de um lado, o amor ornamental defendido por Azevedo; de outro, o amor que é pura sinceridade proposto por Alfredo. Os dois rapazes personificam ainda duas posições contrárias a respeito da arte brasileira: o afrancesado Azevedo vê nela apenas imitação de modelos europeus, enquanto Alfredo – nesse sentido, porta-voz do autor – destaca seus traços de originalidade e nacionalismo.
A peça consegue ainda registrar os novos costumes de uma sociedade que se urbaniza com rapidez. A novidade capitalista atinge as relações sociais, colocando em foco a chamada question d’argent (problemas financeiros), um dos temas mais frequentes do nascente Realismo francês. Ressalve-se que essa questão é focalizada de uma perspectiva romântica, na medida em que desvia os homens de sentimentos verdadeiros. Além disso, há uma cena em que se relata o interesse que as vitrines coloridas despertam em Pedro – sugestão de que aqueles novos hábitos teriam contribuição decisiva nos desvios morais do menino.
A moral da peça é justamente esta: os efeitos do progresso sobre as relações sociais, principalmente para quem – como Pedro – não tem consciência plenamente formada pela educação. Esse argumento caminha no sentido da defesa da escravidão, como forma de tutela sobre o negro que, de outra maneira, estaria submetido aos desvios morais fornecidos pela liberdade plena. Na transmissão dessa moralidade tão peculiar, destaca-se a imagem do herói, Eduardo, moço equilibrado e honrado, cuja nobreza de caráter contrasta com os maus princípios defendidos por Azevedo, com manias europeizadas.
O livro está disponível para download, confira.
No plano da linguagem, é louvável o esforço de Alencar no sentido de mostrar as potencialidades da língua brasileira, que serve tanto ao coloquialismo desregrado de Pedro quanto à retórica mais educada de Eduardo.
Fernando Marcílio
Mestre em Teoria Literária pela Unicamp
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Te Contei, não ? - O demônio familiar - comédia de costumes no Teatro Alencariano
Vera Moraes
Algumas vezes mal interpretado por ousar demais, quanto ao tema e seus desdobramentos, José de Alencar intercalou sucessos e fracassos em sua carreira teatral. Passou pelo desgosto de ver algumas de suas peças retiradas sumariamente de cartaz, sob alegação de escancarar faces da corrupção do mundo social e politico diante de famílias presentes ao espetáculo teatral - fato que feria convenções impostas por instituições e pela sociedade da 2ª metade do século XIX:
D e pois de se projetar no meio intelectual do Rio de Janeiro como cronista e romancista, José de Alencar tornou-se um dramaturgo igualmente respeitado pelos seus contemporâneos. Entre 1857 e 1865, ele escreveu seis comédias e dois dramas, nos quais dialogou com o Romantismo e o Realismo, abordando principalmente assuntos que lhe possibilitavam debater os costumes e a vida social de seu tempo. (FARIA: 2005)
O teatro tinha muita importância na vida cultural e social do Rio de Janeiro e havia grande rivalidade entre as duas principais agremiações teatrais daquele tempo: o Teatro São Pedro de Alcântara e o Teatro Ginásio Dramático- esse último procurava oferecer ao público fluminense novidades da cena francesa. As comédias tinham a intenção de divertir o espectador e, na estréia da peça O Demônio Familiar, em 5 de novembro de 1857, a boa receptividade do público e da crítica provocou, de imediato, grande ressonância nos meios culturais da Corte.
Alencar cultivou a comédia realista de temas contemporâneos, tendo sempre, como objetivo principal, a denúncia das desordens da sociedade de seu tempo, no sentido de reafirmar a moral e os bons costumes que deveriam imperar na família brasileira.
Achando que deveria também mostrar a parte corrupta da população, Alencar pagou caro por sua ousadia ao retratar a prostituição, com As asas de um anjo, inspirada no romance francês A Dama das Camélias. Para surpresa do escritor, a peça foi retirada de cartaz depois da terceira apresentação, por ser considerada constrangedora à sociedade fluminense. Em sua defesa, José de Alencar escreveu um longo artigo explicando que "mostrava o vício para melhor castigá-lo".
A Literatura Clássica considerava de mau gosto apresentar cenas que viessem a causar constrangimentos ao público. Na Epístola aos Pisões, Horácio declarava que acontecimentos muito trágicos ou grotescos deveriam chegar à platéia através de uma carta, de um mensageiro, de um comentário, etc, mas, de forma alguma, a cena deveria ser exposta, de forma crua, aos olhares da platéia.
Também Aristóteles argumentava, em sua Arte Poética, que o pathos da tragédia de\·eria causar uma comoção específica - definida por ele como "terror" e "piedade" - ao espectador aturdido por fatos horrendos encadeados pela ação dramática. Mas esses fatos não deveriam ser representados ao vivo - a notícia chegaria na voz de alguém que presenciara a cena e que correria a espalhar a notícia, seguindo-se, em cascata, ações igualmente trágicas, precipitando o efeito catártico do desfecho. Sob essa perspectiva tradicional, o teatro inovador de José de Alencar parecia deslocado, aos olhos daquela sociedade, por ser demasiadamente ousado, distanciando-se dos padrões de comportamento ,vigentes.
Para João Roberto Faria, O Demônio familiar fez a crítica da escravidão doméstica num quadro de costumes em que se discutiam também as relações entre o amor, o casamento e o dinheiro. Ora, a escravidão
doméstica, no Brasil, revelou-se singular, no sentido em que escravos, sinhazinhas, rapazes da família e mesmo a senhora/ sinhá conviviam
de forma (quase) natural e pacifica com essa situação, a ponto de, no dizer de Gilberto Freire, ser o escravo considerado, muitas vezes, um agregado querido e necessário à família. Em vista desse quadro, muitos escravos abusavam da situação peculiar, procurando tirar vantagens, de todas as formas possíveis, das regalias que gozavam no ambiente doméstico.
Na peça O Demônio Familiar, Eduardo, apaixonado por Henriqueta, encontra-se separado da moça, em conseqüência de astúcias articuladas pelo moleque Pedro, escravo doméstico de confiança da família, que se infiltra em todos os ambientes da casa, tecendo uma rede de mal-entendidos e de intrigas. Nada lhe escapa, uma vez que é inteligente, sagaz, muito esperto e engendra planos mirabolantes que jogam com a vida das personagens. Pedro parece ser o embrião do "malandro", nome firmado por Antonio Candido em relação à personagem Leonardo Pataca, do romance Memórias de um Sargento de milícias. No ensaio A dia/ética da malandragem, Candido enfoca toda a desordem provocada pelo protagonista que, continuamente, desacata a ordem estabelecida pela sociedade daquela época, ironizando valores moralistas e cívicos arraigados em algumas personagens do romance.
Vejamos como se delineia o caráter do moleque Pedro, em algumas passagens da peça. No diálogo estabelecido entre Henriqueta e sua grande amiga Carlotinha, irmã de Eduardo, percebemos que tarefas domésticas não constituem exatamente o ponto forte daquele escravo.
CARLOTINHA - Anda lá! ... Oh! Meu deus! Que desordem! Aquele moleque não arranja o quarto do senhor,· depois mano vem e fica maçado.
HENRIQUETA - Vamos nós arranjá-lo?
CARLOTINHA - Está dito; ele nunca teve criadas desta ordem.
HENRIQUETA- (a meia voz) - Porque não quis!
CARLOTINHA - Que dizes? ... Cá está uma gravata.
HENRIQUETA - Um par de luvas.
CARLOTINHA -As botinas em cima da cadeira.
HENRIQUETA- Os livros no chão.
Como vemos, a desordem é grande! Não cumprindo a contento suas tarefas e estando sempre afastado do local de trabalho, somos levados a constatar que não existe punição para a desobediência do moleque, que é sempre tratado com carinho e condescendência por todos. Em outra passagem, mais uma vez verificamos que o malandrinho Pedro tem certa autonomia e não se preocupa com os horários da família e a disciplina da casa:
CARLOTINHA (entrando) - O que quer, mano? Pedro saiu.
EDUARDO- Onde foi?
CARLOTINHA -Não sei.
EDUARDO - Por que o deixaste sair?
CARLOTINHA - Oral Há quem possa com aquele seu moleque? É um azougue,· nem à mamãe tem respeito.
EDUARDO - Realmente é insuportável; já não o posso aturar. Pedro articula namoros, assina bilhetes, não lhe escapa um mínimo detalhe importante, é persuasivo e, além de tudo, ganha uns bons trocados por informações preciosas que repassa aos pretendentes enamorados:
CARLOTINHA - Moleque, se tu me falares mais em semelhante coisa, conto a teu senhor. Olha lá!
PEDRO - Está bom, nhanhã; não precisa se zangar. Eu digo ao moço que nhanhà não gosta dele, que ele tem uma cara de frasquinho de cheiro ...
CARLOTINHA - Dize o que tu quiseres, contanto que não me contes mais histórias.
PEDRO - Mas agora como há de ser! ... Ele me deu dez mil-réis.
CARLOTINHA - Para quê?
PEDRO - Para entregar bilhete a nhanhã. (Tira o bilhete). Bilhetinho
cheiroso;pape! todo bordado!
E o moleque Pedro termina confessando sua verdadeira intenção em tramar o casamento de Carlotinha com o moço rico Alfredo: ele quer ser promovido a cocheiro de sinhá D. Carlotinha:
PEDRO- Isto é um instante! Mas nhanhã precisa casar! Com um moço rico como Sr. Alfredo, que ponha nhanhã mesmo no tom,fazendo figuração.
Nhanhã há de ter uma casa grande, grande, com jardim na frente, moleque de gesso no telhado; quatro carros na cocheira; duas parelhas, e Pedro cocheiro de nhanhã.
CARLOTINHA - Mas tu não és meu, és do mano Eduardo.
PEDRO - Não Jaz mal,· nhanhã fica rica, compra Pedro; manda fazer para ele sobrecasaca preta à inglesa: bota de canhão até aqui (marca o joelho); chapéu de castor,· tope de sinhá, tope azul no ombro. E Pedro só, trás, zaz zaz! E moleque da rua dizendo "Eh! Cocheiro de sinhá D. Carlotinha!"
Segundo seu projeto de uma dramaturgia de cunho realista, José de Alencar criou três tipos de comédia: a "comédia de rua", com a peça O Rio de janeiro, Verso e Reverso; a "comédia do interior da casa" com O Demônio Familiar e também a "comédia de sala" com O Crédito. O público, a família e a sociedade estão desenhados nessa trilogia.
Em outra peça teatral, Alencar voltou ao tema da escravidão, dessa vez no drama Mãe, que recebeu a seguinte apreciação de Machado de Assis: "melhor de todos os dramas nacionais até hoje representados - uma obra verdadeiramente dramática, profundamente humana, bem concebida, bem executada, bem concluída". E finaliza: "Para quem estava acostumado a ver no Sr. José de Alencar o chefe da nossa literatura dramática, a nova peça resgatava todas as divergências anteriores". Segundo Afrânio Coutinho, no livro A polêmica AlencarNabuco, a comédia realista O Demônio Familiar e o drama Mãe são peças irmãs, não só porque abordam problemas da escravidão, mas porque combinam esse elemento com aspirações nobres da pureza da família e da regeneração da sociedade.
José de Alencar dedicou a peça O Demônio Familiar à Imperatriz D. Teresa Cristina, pedindo-lhe permissão para tornar pública a reverência. O fato de Alencar dar o nome de Pedro - o mesmo do Imperador - ao moleque endiabrado da comédia, motivou uma série de insinuações maldosas entre seus desafetos, especialmente por parte do crítico Paula Brito, em longo artigo publicado no jornal A Marmota.
O dramaturgo Artur Azevedo também acolheu essa idéia, afirmando que D. Pedro II teria ficado seriamente ofendido com a coincidência de nomes, fato que teria provocado a animosidade que o Imperador sempre demonstrou em relação a José de Alencar. Segundo Flávio Aguiar (1984), essas insinuações calaram fundo em Alencar, pois O Demônio Familiar fora dedicada à Imperatriz, nos termos mais sublimes: "Ela vos pertence, pois, Senhora, e por dois títulos: - porque sois a mãe da grande família brasileira, e porque vossa vida é um exemplo sublime de virtudes domésticas".
As reações polêmicas foram, entretanto, isoladas, pois, ao término do espetáculo, a peça e seu autor foram aplaudidos com entusiasmo pela platéia. O público afirmava que O Demônio Familiar era diferente de tudo quanto a dramaturgia brasileira havia produzido até então e seus propósitos renovador e nacionalista não passaram despercebidos da crítica teatral.
Entretanto, José de Alencar, incomodado com as acusações do crítico Paula Brito, publicou, no Diário do Rio de Janeiro, um ensaio intitulado A Comédia Brasileira, em que se defendia polidamente das ofensas recebidas, ao mesmo tempo em que justificava o tema abordado: com essa peça, deixava de lado o gênero ligeiro de Verso e Reverso e introduzia, na dramaturgia brasileira, a comédia realista, cujas características fundamentais eram a moralidade e a naturalidade.
Machado de Assis, também em comentários vinculados na imprensa, anotou semelhanças entre as personagens Pedro e Fígaro de O Barbeiro de Sevilha. Essa ideia passou a circular, aumentando o ma lestar causado pela coincidência de nomes, uma vez que, tanto Fígaro quanto Pedro, articularam-se sempre em torno da calúnia. No caso de Pedro, ao usar essa arma, ele aproxima e afasta pessoas, ameaçando, no final, o equilibrio da família que o acolhe. Seria apenas ingenuidade da personagem a construção de uma série de intrigas que sustentam e perpassam a ação de O Demônio Familiar? Não parece ser, a exemplo
da passagem em que o moleque afasta Eduardo de Henriqueta, moça pobre, para aproximá-lo de uma viúva rica. Suas mentiras vão, assim, desatando nós e formando novos equívocos.
JORGE- Deixa ver! Bravo! ... Que belo! (Tirando um papel). Que é isto?
PEDRO - Um verso! ... Oh! Pedro vai levar à viúva!
JORGE -Que viúva?
PEDRO - Essa que mora aqui adiante!
JORGE- Para que?
PEDRO- Nhonhô não sabe? Ela tem paixão forte por Sr. moço Eduardo; quando vê ele passar. coração faz tuco, tuco, tuco! Quer casar com doutor.
JORGE - E mano vai casar com ela?
PEDRO - Pois então! Mas não vá agora contar a todo o mundo.
JORGE -E ele gosta daquela mulher tão feia? Antes fosse com D. Henriqueta.
PEDRO - Menino não entende disto! Sinhá Henriqueta é moça bonita mas é pobre! A viúva é rica, duzentos contos! Sr. Moço casa com ela e fica capitalista, com dinheiro grosso! Compra carro e faz Pedro cocheiro! ... Leia o verso, nhonhô.
Comentando o episódio sobre o nome do escravo, Flávio Aguiar afirma que esse incidente pareceu a José de Alencar intriga bem articulada e intencional de seus desafetos, motivando a redação de uma carta intitulada A Comédia Brasileira, publicada no Diário do Rio de Janeiro, a 14 de novembro de 1857, em que Alencar qualifica o fato de "crítica de esquina". Anteriormente, o escritor Francisco Otaviano, em crítica publicada no dia 7 do mesmo mês, no Correio Mercantil, assim expressou sua opinião:
Os caracteres que ele descreve são nobres; as paixões de seus protagonistas são confessáveis: nenhum sentimento mau lhe desbota as faces.
Somente há ali dous tipos necessários para o enredo, que mostram que não há belo sem senão; que a sociedade fluminense tem no meio de suas galas algumas misérias bem feias. Um desses tipos é apenas ridículo; o outro é perverso, e o que é mais, perverso sem o saber,
sem o querer, como por instinto, como por desejo de fazer o bem!
A peça O Demônio Familiar, como já foi dito anteriormente, absorve características do teatro realista francês que havia lançado a moda do raisonne11r- uma personagem cuja função seria acompanhar
o desenvolvimento da intriga, formulando exemplos de ordem moral,
construindo chaves de ouro, sabedorias do cotidiano, etc. O raisonner atuaria ora como um alter ego do autor, ora como porta-voz da opinião pública e da moral social. Na peça analisada, essa função caberia ao protagonista Eduardo, que assume, dessa forma, duplo papel. O herói, nessa concepção de teatro, apresenta-se como um dos catalisadores da ascensão da sociedade brasileira ao mundo da civilização e da cultura.
No desfecho, a alforria de Pedro levanta mais uma vez a questão sobre atitudes de José de Alencar em relação ao tema da escravidão.
Depois de tantas trapalhadas de Pedro, Eduardo alforriou o escravo para que ele fosse livre, sendo, assim, premiado pelas contravenções? (e aí teríamos a confirmação de uma atitude abolicionista de Alencar).
Ou, segundo outra interpretação, o afastamento de Pedro seria uma punição por suas levianas mentiras, fazendo com que ele perdesse as regalias domésticas e o protecionismo de toda a família? Esse modo de ver faz jus ao comentário final de Eduardo:
EDUARDO- E agora, meus amigos, façamos votos para que o demônio familiar das nossas casas desapareça um dia, deixando o nosso lar doméstico protegido por Deus e por esses anjos tutelares que, sob as formas de mães, de esposas e de irmãs, velarão sobre a felicidade de nossos filhos! ...
Alencar também faz a apologia do "amor romântico", quando devolve, a uma personagem da peça, o Sr. Azevedo, pretendente rico de Henriqueta, a quantia em dinheiro que seu pai tomara emprestado a esse
senhor. Em conseqüência da ação, Henriqueta tornara-se devedora de Azevedo, não podendo, dessa forma, desfazer a promessa de casamento.
O final moralista evidencia as intenções de José de Alencar, que afasta o caluniador, repondo o equilibrio no meio doméstico, condenando transações sentimentais enredadas ao poder do dinheiro e ao prestígio econômico:
EDUARDO- Sim, meu amigo. Eu amo Henriqueta e para mim esse casamento (referindo-se ao compromisso da moça dom o Sr. Azevedo) sena
uma desgraça; para o senhor era uma pequena questão de gosto e para seu pai um compromisso de honra. Hoje mesmo pretendia solver essa obrigação.
Aqui está uma ordem sobre o Souto; o Sr. Vasconcelos nada lhe deve.
VASCONCELOS - Como? Fico então seu devedor?
EDUARDO- Essa divida é o dote de sua filha.
HENRIQUETA - Oh! Que nobre coração!
EDUARDO-Quem mo deu?
HENRIQUETA- Sou eu que sinto orgulho em lhe pertencer, Eduardo.
D. MARIA - Mas, meu filho, dispões assim da tua pequena fortuna. O que te resta?
EDUARDO - Minha mãe, uma esposa e uma irmã. A pobreza, o trabalho e a felicidade.
Na visão de Flávio Aguiar, essa peça é abolicionista, mas de modo conservador: olha a escravidão enquanto "mal social", embora esse olhar se aproxime mais do senhor branco e sua pureza familiar que dos inconvenientes para o negro escravo. O movimento da peça aponta para uma melhor forma de organização social, tida como mais civilizada e libertadora frente à prisão moral da escravidão, porque além de o escravo ascender ao mundo do trabalho livre, o senhor também ficaria livre daquele escravo e dos inconvenientes causados por suas intrigas.
O Demônio Familiar também aponta para cenas do cotidiano brasileiro, de acordo com o programa de nacionalização de nossa cultura e
de nossa arte proposto por José-de Alencar. O autor consegue, assim, estabelecer um equilibrio entre o propósito renovador da arte dramática do século XIX e a formação de uma Nação autêntica, com identidade própria, idéias veiculadas e legitimadas pela trama dessa bem
sucedida comédia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Paulo: Ática, 1984.
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São Paulo: Martins Fontes, 2005. (Coleção Dramaturgos do Brasil).
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ARISTÓTELES. A poética cláJSica/ Aristóteles, Horácio, Longino. Por
Roberto de Oliveira Brandão. Tradução direta do grego e do latim por
Jaime Bruna. São Paulo: CultrL'<, 1997.
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. Literatura e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1976.
. O Romantismo no Bra.•il São Paulo: Humanitas/FFLCH/SP,
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FARIA, João Roberto. José de Almcar e o teatro. São Paulo: Perspectiva:
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REMÍGIO, Ana e :.IOR.A..ES, \'era (Organizadoras). Discurso e memória
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ROBERTO, Schwarz. ''A Importação do romance e suas contradições
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ln: Uma literatura nos Trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1989.
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racismo,
Romantismo,
Teatro
Te Contei, não ? - O OUTRO PAPEL DA MULHER EM JOSÉ DE ALENCAR E ROBERTO DRUMMOND
A mulher,
nos tempos atuais, vem se manifestando incessantemente em defesa de seu espaço, buscando maior autonomia e participação mais ativa na sociedade. Já no Romantismo, podemos encontrar alguns traços dessa autonomia, como vemos nos romances urbanos de José de Alencar. Assim também o observamos em obras da contemporaneidade, como no texto ficcional de Roberto Drummond.quinta-feira, 19 de março de 2015
Te Contei, não ? - O Teatro de José de Alencar
A origem do teatro alencariano: o ‘teatro ao correr da
pena’ e a fundação do Ginásio Dramático
Em 1857, José de Alencar já era um escritor
consagrado entre o público. Iniciara sua carreira na
seção Ao correr da pena, como folhetinista das páginas
dos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro
entre 1854 e 1855.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Personalidades - Bárbara Pereira Alencar
A heroína Bárbara Pereira de Alencar
foi, sem dúvida, o maior símbolo da mulher cratense. Guerreira, idealista, líder da revolução de 1817 no Cariri, Bárbara de Alencar terminou sendo presa em nome dos seus ideais libertários. Apesar da sua importância no contexto histórico do Ceará, restaram poucas lembranças da heroína. Até a casa onde ela morou, no Crato, localizada na Praça da Sé e, segundo os historiadores, primeira construção de cal e pedra da cidade, foi demolida. Em seu lugar foi erguido o prédio da Secretaria da Fazenda do Estado. No Sítio Pau Seco, hoje Município de Juazeiro do Norte, restam somente os escombros da velha casa de campo, onde ela e os filhos planejaram e sonharam com os ideais republicanos.Personalidades - José Martiniano Pereira de Alencar
Você certamente já ouviu falar o nome José de Alencar, mais precisamente José Martiniano Pereira de Alencar. É normal que, ao ouvir este nome, lembremos do escritor homônimo. No entanto, gostaria de traçar alguma linhas sobre seu pai, o Senador José de Alencar,
um grande expoente da Política do Império.
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