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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Te Contei, não ? - Lobato no banco dos réus


Após dois pareceres do Conselho Nacional de Educação (CNE) enviados ao Ministério da Educação (MEC), um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) e dois anos de indefinição, será especificada a distribuição para escolas públicas do livro “Caçadas de Pedrinho” (1933), de Monteiro Lobato. A polêmica sobre o conteúdo racista atribuído à obra, em discussão desde 2010, será debatida em uma audiência de conciliação convocada pelo ministro Luiz Fux, terça-feira, dia 11, no STF.

A partir da decisão da Justiça, notas explicativas poderão ser incluídas nas novas edições do livro, e o MEC deverá promover a capacitação de professores a fim de sistematizar a abordagem da questão racial na educação básica. A denúncia de trechos depreciativos contra os negros, principalmente em relação à personagem Tia Nastácia (como “Lá é isso é — resmungou a preta, pendurando o beiço”), foi feita pelo técnico em gestão educacional Antonio Gomes da Costa Neto à ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) em 2010. De acordo com a avaliação de Costa, o livro incita o preconceito racial e não poderia ser financiado e distribuído pelo Programa Nacional Biblioteca Escola (PNBE), como foi feito nos editais de 1998 e 2003.

— É como se o governo financiasse a ideologia da obra. O uso do livro da maneira como se dá nas escolas é inconstitucional — diz Costa Neto ao referir-se ao preconceito racial, criminalizado pela Constituição de 1988.

A discussão sobre a discriminação contra os negros na obra do autor considerado o pai da literatura infantojuvenil brasileira traz à tona questionamentos sobre os limites do politicamente correto nas narrativas, além de provocar reflexões sobre como a obra de Lobato pode ser interpretada nos dias de hoje. A abordagem nas escolas de conceitos, tais como o racismo, que aparecem não somente na obra dele, mas na de outros autores como Lima Barreto e Aluísio Azevedo, também voltam ao debate com a audiência do STF.


Debate suscita releituras da obra do autor

Curadora da obra de Lobato e responsável pela edição dos livros do autor, publicados pela Globo Livros, Márcia Camargos defende que a interpretação racista do texto se contrapõe às intenções do escritor.

— Lobato sempre prezou pela educação infantil e por isso construiu uma obra tão vasta. Antes de as crianças se confrontarem com o preconceito, já censuramos o pensamento delas. Acho que aqui a questão é mais profunda do que colocar o Lobato contra a parede. A pergunta é: que tipo de adultos queremos criar? — indaga Márcia.

O questionamento proposto por Márcia encontra eco na reflexão de Ilan Brenman, autor de “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil” (Aletria), entre outros títulos. De acordo com Brenman, a tentativa de fazer com que as histórias se transformem em um reflexo do mundo politicamente correto idealizado pelas experiências sociais dos adultos apenas reprime o pensamento crítico infantil.

— Nós problematizamos a questão antes que a criança, por ela mesma, consiga enxergar como uma temática social. Os adultos são incorretos, temos medos, paixões e preconceitos, assim como os pequenos. Acredito que a literatura seja um reflexo da complexidade desses sentimentos, e Lobato foi honesto a isso e ao seu tempo. Devemos provocar a criança, fazer com que ela reflita, e não dar a resposta pronta, pasteurizada — afirma ele, ao alertar que a mudança de “Caçadas”, abriria um precedente para que a obra de escritores como Aluísio Azevedo e Castro Alves sejam avaliadas.

A questão da formação dos professores, um dos pontos do processo, é o que mais preocupa a especialista em formação do leitor e literatura infantil Regina Zilberman.

— Os professores deveriam ser capacitados para debater não só a temática racista, mas a deficiência física, visual e outras questões da sociedade — alerta Regina.

Apesar do estigma racista que poderá marcar os livros e o próprio Lobato, Márcia afirma que o debate tem o seu lado bom. Para ela, este é um momento oportuno para que a crítica literária reflita sobre os múltiplos aspectos sociais da obra lobatiana.

— No fundo, este debate é pertinente porque nos dá a oportunidade de enxergarmos um pouco além do racismo e de outros preconceitos e compreendermos a dimensão do universo criado por ele — reflete Márcia.

Caderno Prosa / Jornal O Globo

sábado, 3 de março de 2012

Te Contei, não ? - A música e o livro !!!!


Dor de Cotovelo

Caetano Veloso 


O ciúme dói nos cotovelos, 
na raiz dos cabelos, 
gela a sola dos pés. 
 Faz os músculos ficarem moles, 
e o estômago vão e sem fome. 
Dói da flor da pele ao pó do osso. 
Rói do cóccix até o pescoço 
Acende uma luz branca em seu umbigo, 
Você ama o inimigo e se torna inimigo do amor. O ciúme dói do leito à margem, 
dói pra fora na paisagem, 
arde ao sol do fim do dia. 
 Corre pelas veias na ramagem, 
atravessa a voz e a melodia.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Te Contei, não ? - Real evolução da feitura da obra Dom Casmurro


REAL EVOLUÇÃO DA FEITURA DA OBRA DOM CASMURRO
O escrever este pequeno comentário se prendeu ao desejo fortíssimo que tenho em ver a obra Dom Casmurro analisada com profundidade nos seus mínimos detalhes, os julgados importantes por aquele que a escreveu  ─  o nosso genialíssimo Joaquim Maria Machado de Assis.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
  Perdoe-me não concordar com a leitura que se tem feito no decorrer da história da obra Dom Casmurro. Nisto ou considerando isto informo que o objetivo principal desta espécie de chamamento de atenção é  para dar a idéia de como vejo o importante uso da Hermenêutica na sua mais elementar aplicação; quer no Direito, Teologia e demais obras escritas ou qualquer investigação de fatos ou como se construiu isso ou aquilo, ainda que no campo da ficção.  

AGRADECIMENTO
Aproveito de igual modo, para agradecer de todo meu coração à forma receptiva e carinhosa como os meus atuais catorze Blogs de estudos estão sendo visitados por milhares de pessoas no Brasil, e em mais vinte e oito (28) países  ─  alguns dos Temas, mais visitados no exterior do que no Brasil.  Isto enseja o meu muito obrigado, e ouso ainda lhes pedir mais, que divulguem esses meus estudos  sobre Temas (assuntos) específicos, porquanto, como pode ser constatado nos mesmos, eles foram e são produzidos com a máxima seriedade na direção de ser útil a todos nós seres humanos... Também lhes informo que estou aberto às contestações sérias que visem ajudar esse intercâmbio de idéias e conseqüentemente a todos nós como indivíduos... Também informo, que em função da saudável controvérsia suscitada por mim para a questão Obra Aberta, que está tendo conseqüências; acresci o estudo nesse pormenor no final deste Blog.   
 Para acessar os demais, dos atuais doze Blogs, clique no link perfil geral do autor (abaixo da minha foto) e a lista aparecerá, bastando clicar no título de cada um para acessá-lo. 

PRÓLOGO
1
Na realidade (sendo repetitivo), o que estou buscando fazer neste pequeno trabalho é unir o útil ao agradável; ou seja, falar das particularidades da obra Dom Casmurro e ao mesmo tempo usar esse pequeno estudo para marcar a importância da Hermenêutica; não só para o Direito e Teologia (repetitivo mais uma vez), como também para o estudo de qualquer texto escrito, inclusive deLiteratura. Como mostrarei a pertinência do que digo ao fazer essa pequena analise ─ levantando pontos relevantes, inclusive, quanto à sua feitura (coisas fora dela)  ─, da emblemática obra Dom Casmurro do nosso grande escritor Joaquim Maria Machado de Assis... Comente isto com outras pessoas.     

QUESTÕES  BÁSICAS  RELACIONADAS  COM  A  OBRA
VERDADE I
2
Como em tudo que se escreve há uma preparação para a construção do se pretende ligado a este  trabalho,  que no caso da obra Dom Casmurro;  a primeira coisa que Machado planejou sobre esse seu livro foi que a obra seria uma adaptação de Otelo, o Mouro de Veneza de Shakespeare.

VERDADE II
3
 Na adaptação, a genialidade de Machado o levou a usar somente três personagens da obra  Otelo, justamente os mais fracos, dos quatro principais: O inseguro, pouco inteligente e fácil de manipular, Otelo; a pobre coitadinha Desdêmona que não sabia se defender de intrigas contra ela e o não menos expressivo na obra, Miguel Cássio. Isto, para esses personagens que foram adaptados por Machado; correspondendo para Desdêmona (a Capitu), mulher inteligente e de grande personalidade; para Miguel Cássio (o Escobar), alguém emDom Casmurro muito maior que o personagem de Shakespeare; e para Otelo (o Bentinho; e no intrigar-se a ação de Iago ao mesmo tempo), em função disto, se a obra Dom Casmurro fosse veiculada em quadrinhos; a sua quase totalidade seria de balões de pensamento  ─  Bentinho pensando ou falando consigo mesmo... Ainda, com relação a Iago  ─  a estrela maior de Otelo  ─, de maneira sutil Machado criou o personagem José Dias, que não é o Iago adaptado à obra, e sim o próprio Machado transitando na obra. Iludindo de forma lúdico-séria, intencionalmente a muitos intelectuais com isto. Fazendo críticas sobre diversas questões, tais como: A cigana oblíqua, que é uma crítica de Machado ao nosso gratuito ruim preconceito contra os ciganos (negativo, pois aqui o pré-conceito é para o mal)  ─  como ele diz na obra, “de cigana” e não da cigana... A título de informação: pré-conceito é o conceito antecipado sobre ou de alguma coisa com dois (2) possíveis entendimentos semânticos, bom ou mal.  Critica a hierarquia e o direito canônico do catolicismo, nos superlativos de José Dias. Critica o patrulhamento e a perseguição exercida contra a homeopatia no século XIX, isto mostrado na habilidade médica de José Dias nesta especialidade, e por fim; sua plena identificação com o personagem, cuja característica básica do seu conhecimento é a de autodidata como ele, Machado.

VERDADE III
4
Não existe nenhuma mulher oblíqua na obra Dom Casmurro, nem mesmo cigana; embora seja esta a referência, que aparece desde o capítulo vinte e cinco No Passeio Público e continua até o fim da obra: mais uma dessas jogadas da genialidade do nosso grande Machado, cuja inserção teve o objetivo informado por mim anteriormente e também brincar com intelectuais.

VERDADE IV
5
Triste é saber que a leitura errada de Dom Casmurro gerou a também errada denominação de que ser oblíquo ou oblíqua corresponde hoje a desvio de caráter, quando a realidade é que na época (fim do século XIX) do lançamento da obra Dom Casmurro, como consta no Dicionário de Cândido Figueiredo (1899) oblíquo ou oblíqua somente correspondia a coisas da geometria (mais uma das pegadinhas de Machado), ou seja, erraram os que entenderam qualquer pessoa como oblíqua na obra Dom Casmurro  ─  até porque, oblíqua (inclinada, não perpendicular não adjetiva plenamente nada) somente semi-adjetivaria  ou semi-qualificaria, e até poderia ser exatamente o contrário do que se diz, se a inclinação fosse para o bem  ─  porquanto demandaria a pergunta: inclinada a quê  ou para quê? Ainda, não haveria como vincular oblíqua a dissimulada, pelo fato de Machado ter escrito  ─  São assim de cigana oblíqua “e” dissimulada; oblíqua, seria a falsa adjetivação e (mais, conjunção aditiva  e) dissimulada, adjetivação com entendimento semântico que explico no Blog citado.    O pior quanto a isto, foi os lexicógrafos terem levado esse erro de interpretação para os Dicionários. 

VERDADE V
6
Na questão de número um (verdade I) objetivei a idéia de estabelecer uma ordem de causa e efeito para a feitura de Dom Casmurro, e de fato há essa seqüência cronológica e é possível resgatá-la... Como disse no início, a obra Dom Casmurro é uma adaptação de Otelo, o Mouro de Veneza de Shakespeare (1564 ─ 1616); a partir daí Machado resolveu que diferente dos personagens Otelo e Desdêmona, Bentinho e Capitu teriam um filho. Nisto, o existir  desse filho, na cabeça genial de Machado, em função do seu grande conhecimento de tudo ─  principalmente Teologia.  E nesse pormenor, não só o conhecimento profundo de Machado de Assis sobre a Bíblia e a Teologia de um modo geral, como também outras áreas do saber; conforme busco resgatar no estudo do Blog SÓCRATES VERSUS PLATÃO VERSUS MACHADO VERSUS O AMOR, endereço - www.socratesplataomachado.blogspot.com ... Quando se fala em Bíblia e Teologia, se torna plenamente necessário entender Hermenêutica (do grego, interpretar), no que, o exercício da Hermenêutica possibilita interagir com o passado do que foi escrito e até construir fatos desse passado ligado à feitura desses escritos. Assim como no Direito e obras históricas antigas; qualquer obra escrita, inclusive de ficção, numa criteriosa avaliação hermenêutica pode trazer à luz muitas coisas importantes não percebidas até então.
7
Preste atenção ao que vou dizer sobre a cronologia da feitura da obra Dom Casmurro. Porquanto Machado ao estabelecer a existência de um filho para o casal  ─  tudo isto antes de começar a escrevê-la  ─ ainda na faze da estruturação do Tema nos seus desdobramentos  ─, resolveu caminhar pela Teologia, a partir de uma picuinha; que no seu entender faria os intelectuais ficarem pairando nas nuvens. Sabendo Machado que no livro do profeta Ezequiel na Bíblia  (Antigo Testamento); o profeta é chamado por Deus setenta vezes de “filho do homem”. Isto permitiu a ele criar a maldosa  ilação em tom de brincadeira, contra o menino Ezequiel, na prática de alguma peraltice; quando alguém ao repreendê-lo, dizia:filho do homem não faça isto ou aquilo; na intenção da dúvida de ser o menino, não filho de Bentinho e sim fruto do adultério de Capitu com Escobar, coisa que explico com detalhes no Blog.

VERDADE VI
8
O que estou afirmando com toda a certeza é o fato de que embora esteja registrado na obra ser o nome Ezequiel dado ao menino filho de Bentinho e de Capitu decorrente do nome de Escobar, também Ezequiel, como consta no texto da obra. A verdade é que o primeiro nome de todos os personagens da obra é o do menino Ezequiel e nem mesmo o de Ezequiel Escobar o antecede; inclusive o nome Ezequiel é o único que não poderia ser mudado no decorrer da feitura da obra (coisa comum na construção de um texto em andamento), por ser parte determinante da trama com componentes bíblicos e teológicos, fortemente presente em Dom Casmurro como em todas as obras de Machado... A prova contundente quanto à proeminência do nome dado ao menino ─ explico isto no Blog citado acima ─, se define, no que, embora sendo Escobar também Ezequiel, ninguém, em momento algum fez alusão ao profeta Ezequiel em relação a Escobar, como seria perfeitamente normal brincar com coisa assim no Seminário teológico onde se estuda a Bíblia. Que no caso do menino e do profeta Ezequiel (profetizou de 595 ─ 574 a.C, durante a 2ª hegemonia babilônica, 2º Império), isto já estava literalmente ligadoao capítulo vinte e oito (28) do livro deste profeta, precisamente no versículo 15a (Ezequiel 28. 15a, b, e c, ver Bíblia), que é o texto da lápide da sepultura do menino, quando da sua morte ─ desde o dia da tua criação; tu eras perfeito nos teus caminhos (parte “a” e “b”) e a parte “c”,  não citada na obra  ─  até que em ti se achou iniqüidade.
9
Esta é a segunda base fundamental (a primeira foi na adaptação de Otelo e o casal ter um filho) na seqüência de criação da obraDom Casmurro e também a que norteia grande parte da trama nas suas críticas teológicas veementes contidas na obra, como poderá ser constatado na leitura do Blog sugerido acima por mim, no qual, detalho de maneira pormenorizada cada nuance do que estou afirmando aqui. No qual também, comento a sustentação empírica, que chamam de intertextualidade (a citação daqueles exemplos ou pessoas que é preciso ser explicado pelo editor no final da obra, e/ou nas notas de rodapé) usada por Machado em todas as suas obras; como fizeram os poetas e filósofos gregos, os escritores do Novo Testamento e foi demonstrado de maneira objetiva e didática por Nicolau Maquiavel em sua obra O Príncipe... No Blog citado acima mostro  ─  como exemplo, citando sete capítulos de Memórias Póstumas de Braz Cubas  ─, esta base empírica, na qual, a primeira referência de Machado é exatamente bíblica  ─  Deuteronômio 34. 5-8 (que ele não dá o endereço nem transcreve o texto), que pressupõe ter Moisés narrado a sua própria morte. Este é o grande Machado. Para entendê-lo você precisa conhecer de Bíblia e Teologia (religiões), senão, pelo menos se preocupe com isto ao ler o que ele escreveu.           

VERDADE VII
10
Não há absolutamente informação coerente em Dom Casmurroque identifique Capitu com adultera, pelo contrário, das duas pessoas que inevitavelmente poderiam saber a verdade sobre isto, Escobar e Capitu; ele, Escobar sugeriu a Bentinho o futuro casamento entre sua filha Capituzinha com Ezequiel, filho de Bentinho e Capitu, que nisto, seria pouco inteligente supor que Escobar sugeriria um incesto entre os filhos de ambos, se ele fosse pai de Ezequiel.  Daí concluir, sabendo inicialmente; por ter lido atentamente na obra, que “as aparentes dúvidas” sugeridas mentalmente (maquinando) pelo próprio Bentinho e por outras pessoas; serem racional e perfeitamente refutáveis à luz de todo o texto da própria obra essas pretensas dúvidas, porquanto é a da semelhança do menino ao imitar Escobar (se parece com ele quando o imita), e não só a ele, como também a outras pessoas; e mais essa contundente afirmação de Escobar quanto ao possível casamento dos filhos de ambos, que caminha na direção de elucidar de forma contundente mais essa traquinagem enigmática de Machado.

VERDADE VIII
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Sendo Dom Casmurro a que marca, ou a principal, obra do início do chamado Realismo; há muitas coisas do cotidiano contidas nela a serem comentadas, todavia para ter acesso a isto você terá que ler o Blog sugerido por mim; no qual enumero com detalhes questões do dia-a-dia, reproduzidos na obra ─ que lhe dão sem sombra de dúvidas a característica de realismo  ─, inteligentemente inserido na obra por Machado dando-lhes a sua devida identificação passo a passo da evolução da história (narrativa) que o livro propõe.

VERDADE IX
12
A obra Dom Casmurro não é aberta  ─  embora, o vício de assim pensar os faça  julgar  a mais aberta de todas ─, como nada que se escreve o é. Isto, quer dizer exatamente que o autor ao escrever qualquer texto: Seja obra de LiteraturaLivro técnicoRelatório,MemorandoBilhetinho para namoradosqualquer DiárioCarta pra vovó; enfim, tudo o que foi escrito não pode ser entendido por esse ou aquele a seu bel-prazer e sim exatamente o que o autor quis transmitir no que escreveu. Com relação à obra Dom Casmurroespecificamente, no meu Blog sugerido; ao final reproduzo uma paráfrase de parte do capítulo Convivas de Boa Memória de número cinqüenta e nove da obra; no qual, Machado desmistifica essa falsa idéia de Obra Aberta,  que eu, nesta pequena paráfrase, ao final do Blog citado, explico de maneira didática e objetiva a improcedência do erro lingüístico e literário da pseudo Obra Aberta. Coisa essa que já causou sérios problemas a Universidades, quando do uso de material de obras de autores ainda vivos, os quais,  ─  sem citar aqui quais as Universidades e autores  ─, contestaram resposta dadas como certas para questões em exames Vestibulares que não correspondiam ao escrito por eles nas suas obras. Disto resultou a cômoda e inteligente solução de hoje não mais colocar em exames Vestibulares questões de obras de autores vivos.
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Tudo isto dito por mim com relação a nenhum escrito ser aberto para várias conclusões; se aplica também determinantemente à interpretação que faço da obra Dom Casmurro e de tudo quanto leio e comento, fazendo-o não na direção de colocar a minha idéia sobre isto ou aquilo e sim buscar estabelecer a verdade daquele (o autor) que a escreveu na sua origem; caso contrário seria eu, não mais um no rol dos abridores de plantão (perdoe o coloquial) e sim, mais um que não conseguiu entender o que leu.  Ainda, com relação a essa absurda liberdade de que todos (cada um) teriam o direito de interpretar ao seu modo os diversos escritos; bom será que você dê uma olhada na entrevista concedida pela grande escritora  Clarice Lispector   ─   a qual muitos e muitos se dão ao direito de entender de mil maneiras o que ela escreveu  ─, à TV Cultura em 1977, quando nesta entrevista ela elucida algumas questões na direção do aqui ponderado... Ainda que continue sendo ouvido por nós o “Eco” (Humberto) da aleatoriedade (embora pareça estranho, também ambigüidade) do que se entende dos: Signos (1), Semiótica, Semiologia, Semântica, Entropia e etc... Entretanto, porém, mas, pois, porquanto, como disse Parmênides de Eléia na sua contraposição ao Devir de Heráclito de Éfeso (parafraseando): Nenhuma obra escrita é Aberta às aleatórias interpretações nossas, e sim, ela é o que é, exatamente (fechada) o que o seu escritor (autor) quis dizer ao escrevê-la. Senão  ─ de igual modo  ─, seria impossível entender o grande teatrólogo Eugênio Kusnet quando disse ser necessário conhecer exatamente os objetivos de cada personagem (saber o que cada um deles realmente é) no desenvolver (enredo) da obra  ─  conhecê-lo exatamente como o autor o concebeu nela; o que nos impede de  abri-la a nosso bel-prazer interpretativo.
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A coisa séria e perigosa relacionada com a chamada Obra Aberta está neste conceito e sua  prática generalizada que é tangenciada (muito próxima) pelo mar de maionese onde navega(perdoe, por favor, o coloquial) a leitura de analfabetos funcionais ─  os quais, muitas das vezes têm sido, quando lêem coisas que não entendem e seguem na ingenuidade pretensiosa, como que, criando outra obra dentro da obra verdadeira.
15
O dito aqui é presente e comum no dia-a-dia de todos nós muito mais do que se possa imaginar. Daí, a necessidade de avaliá-la  ─ com muita calma, discernimento e sinceridade  ─, e revermos conceitos que foram consolidados no decorrer do tempo com pouca base de fundamentação... Porquanto, considerando a questão Obra Aberta e/ou a leitura de Analfabeto Funcional; estamos sob o poder: Do sei ou não sei o quê, ou seja, temos realmente acreditado neste direito, e isto irá acontecer até que o bom-senso dele nos separe.       
    
VERDADE X
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Não existe, nem de leve alusão ao comportamento Patriarcal dos homens (sentido de machismo, hegemonia masculina) na obra; como querem muitos críticos literários, balizando isto no momento cultural da época, no Brasil e no exterior; porquanto  ─  numa obra de ficção só se pode ler e entender nela o que o autor intencionalmente lá colocou  ─ como algumas coisas daquele momento contemporâneo (não esta), citadas por mim no tópico verdade II  ─, e sim, pelo contrário, as mulheres em Dom Casmurro exercem plena opinião e agem normalmente sem haver contra elas alusão a este ruim preconceito, inclusive, sendo a personagem Dona Glória, mãe de Bentinho a perfeita Matriarca na obra.  
     
CONSIDERAÇÕES FINAIS
17
Creio não ser necessário avançar mais nas considerações da obra, porquanto, no meu Blog sugerido acima detalho todas essas questões sintetizadas aqui, as quais poderão ser minuciosamente lidas e estudadas no Blog citado. Para  o estudo sugerido e este chamado de atenção que aqui faço, peço toda compreensão para o meu estilo veemente de argumentação, o qual corresponde tão-somente ao acreditar no que escrevo, sem deixar de ressalvar, é claro! Se me for provado o contrário de tudo o que digo, solene e imediatamente  capitularei (perdoe a brincadeira) dos meus postulados.  Leia também o que digo sobre o meu próprio Blog, abaixo  na parte dos comentários.

APELO  VEEMENTE  FINAL
 Quanto ao conteúdo de Blogs anteriores, deste e dos futuros; no caso do uso de parte das informações dos mesmos; peço-lhe, usando a mesma força de expressão usada no Blog anterior:  ─ Desesperadamente me dê o devido crédito de tudo o que for usado ─  não somente em função do direito autoral, mas, para  que, por meio da sua citação, o anterior, este, e os futuros sejam divulgados por seu intermédio de maneira justa e legal. 

                    Jorge Vidal  ─  Escritor  Batista  autodidata   
                                                          
                                                    Email  egrojladiv@yahoo.com.br

Te Contei, não ? - O olhar de Bentinho - Luiz Felipe




A obra machadiana, seja ela qual for, requer do leitor mais do que um simples passar de olhos: requer atenção, requer espírito crítico e, mais do que isso, um saber ler as entrelinhas do texto.
Relatar a construção do olhar sobre Capitu a partir do narrador implícito, das personagens e do narrador propriamente dito, que, na obra Dom Casmurro, nada mais é que a personagem Bento Santiago (ou Dom Casmurro) exige do leitor uma postura menos inocente e mais madura para o romance em questão.
Antes de se iniciar o olhar da personagem Dom Casmurro, é preciso, primeiramente, conhecer a origem de seu nome.
Bento vem de Benedito, que é a s forma portuguesa usual e significa abençoado, bendito, consagrado ao culto por meio de uma cerimônia religiosa, favorecido pela Fortuna, próspero, abastado, que recebe as bênçãos de Deus. E esses sentidos estão presentes na personagem Bento Santiago, abençoado por Deus, já que seu nascimento foi um “milagre”. Sua mãe o entregou a Deus como gratidão pela vida dele. Assim, ele é rico por sua herança e profissão.
O sobrenome Santiago, por sua vez, pode ser dividido em duas partes: Sant-, ou seja, um santo, perfeito, correto em suas atitudes e – iago, o criador da discórdia. Iago, na história de Otelo, de William Shakespeare, é o personagem antagonista, ou seja, Bento Santiago é, ao mesmo tempo, causador e vítima de seus atos. Assim, Bento pode ser colocado como vítima e causador de todo seu tormento, uma vez que é ele quem cria um ciúme comparável àquele despertado no mouro Otelo, na obra shakesperiana.
Já outra personagem importante da trama, Capitu, que é uma redução de Capitolina, tem em seu nome o epíteto da deusa Vênus, que teve uma estátua no Capitólio, uma das sete colinas de Roma, sendo ela a mais baixa, com dois picos separados por uma depressão. Remete também à Lupa Capitolina que alimenta os dois fundadores da cidade: Rômulo e Remo. Significa também triunfo, glória, eminência, esplendor, magnificência.
Dona Glória, mãe de Bentinho e sogra de Capitu, por sua vez, possui o nome da Virgem Maria, ou seja, Maria da Glória, e é considerada santa pelo filho e santíssima, pelo agregado José Dias que possui um nome comum para a época. Não à toa José, do hebraico Yoseph, significa aquele que acrescenta – o que acontece na história – e Dias, um sobrenome mais comum, entre os brasileiros.
Já outra personagem importante, Escobar, possui em seu nome a marca daquele que possui sorte em jogos de azar ou sorteio e troca muito de amante ou namorado. Ele se casa com Sancha, amiga de Capitu e que remete à beata Sancha, de Portugal, que viveu entre 1180 e 1229 e sempre foi devotada à vida religiosa – foi ela que fundou o mosteiro de Celas -, era filha de D. Sancho I e foi beatificada, em 1705, pelo papa Clemente XI.
O olhar de Dom Casmurro
Apresentadas as personagens, passa-se agora a relatar o olhar do narrador: Dom Casmurro, cuja alcunha lhe foi dada por um poeta, segundo relata no livro, em seu primeiro capítulo, em que ele propõe ao leitor que siga sua orientação, ao escrever: “Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo mesmo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo” ( ASSIS. 1978.p.23-24).
Porém, esse artifício por ele usado é enganoso, pois casmurro também significa obstinado, teimoso – o que também caracteriza esse narrador. Basta lembrar que Bento Santiago é um advogado, profissão essa que exige uma argumentação que persuada seu interlocutor.
Barros exemplifica bem essa atitude de Dom Casmurro, ao relatar que:
(…) Bento jamais admitiu que suas suspeitas com relação a Capitu pudessem estar  erradas, seus objetivos, ao escrever o livro, são de incriminar sua esposa e se   autojustificar. De fato, “(…) formado em Direito, Bentinho é um advogado e sua  narrativa uma longa peça judiciária, num processo crime, em que ele funciona como  advogado de acusação”[1].
Esse processo aberto por Bento Santiago contra a esposa, entretanto, não abre espaço para outras vozes, como as de Capitu, Ezequiel, Escobar. Apenas a sua prevalece, como demonstra novamente Barros.
O narrador perde o espaço do domínio e só o reconquista ao escrever o livro, onde sua    voz é   a única que se faz imprimir; ele fala por si e pelos outros personagens; domina o espaço, as pessoas e, consequentemente, sua fala. Na obra, ele pode manter a arrogância de sua classe[2].
Bento Santiago, que só enxergava e ouvia pelos olhos e ouvidos de outros, como aponta Olmi (1999, p.138) era nobre de nascimento e se casou com Capitu, de classe inferior. Sempre vivendo em espaços de dominação, como era sua casa de Matacavalos, onde a figura de D. Gloŕia, sua mãe, prevalecia. Sem voz neste espaço, ele tenta tê-la ao mudar-se para o Alto da Tijuca, outro espaço alto em que poderia demonstrar sua superioridade. Porém, ele já não era mais Bentinho e sim, Bento Santiago e quem narra o romance já é outro: Dom Casmurro, um alguém que perde sua identidade, conforme relata o próprio narrador: “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo” (ASSIS, 1966, p. 25). Além disso, perde seu espaço de outrora (a casa de Matacavalos) e tenta resgatá-los,seja através do livro ou da reconstituição do lar da infância. É esse narrador que tenta convencer o leitor de sua inocência em relação à morte da mulher que, segundo sua ótica, era uma adúltera.
Assim sendo, um livro se tornará um processo de acusação de Capitu – o que já se inicia de forma sutil, no capítulo 10, em que Bento afirma “Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor…” (ASSIS, 1978, p.36). Por essa afimação torna-se árdua tarefa definir quem seria a quarta pessoa: Sancha ou Ezequiel? As três são bem claras: Capitu, Bento e Escobar.
Mais à frente, no capítulo 73, o ciúme de Bentinho é atiçado pelo aparecimento de um cavaleiro, um dandy, que chama a atenção de Capitu.
Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro, um                         dandy,como então dizíamos. Montava um belo cavalo alazão, firme na sela, rédea na mão esquerda, a                         direita à cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. (…)
Ora, o dandy do cavalo baio não passou como os outros; era a trombeta do juízo final e soou a tempo;      assim faz o Destino, que é seu próprio contrarregra. O cavaleiro não se contentou de ir andando, mas   voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu, e olhou para Capitu, e Capitu para ele; o cavalo  andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. Tal foi o segundo ciúme de que me  mordeu[3].
A visão do dandy pode ser a de Escobar, já que este não lhe era desconhecido, porém o que aqui importa é o que o ciúme de Bento vai se manifestando já na sua adolescência. A troca de olhares entre o cavaleiro e Capitu é suficiente para nele despertar mais uma ponta de ciúme.
Já no capítulo 114, ele se vale de outro argumento para incriminar sua “amiga”: o esquecimento por parte dela do pregão de Matacavalos, quando passou um vendedor de cocadas (cap. 18). Assim diz Bentinho: “Faltar ao compromisso é sempre infidelidade, mas  a alguém que tenha temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir, uma outra, desde que não meta a alma no purgatório” (ASSIS, 1978, p.180).
E seu processo de acusação vai tomando forma e os fatos se lhe fazem cada vez mais reais: a referência de José Dias a Ezequiel, como o Filho do Homem (cap.116),  os olhos de Capitu fitando Escobar, seu amigo morto no caixão (cap.123),  a fotografia de Escobar e a semelhança de Ezequiel a este (cap. 139), mesmo quando a separação já estava decidida até o apartar-se definitivo (cap.141).
O olhar de Bento sobre Capitu sempre será marcado pela convicção deste em relação à suposta traição. Toda a narrativa de Dom Casmurro terá a marca da tentativa de persuasão do leitor quanto a seu ponto de vista – que parece ser único, uma vez que as demais personagens só serão conhecidas por sua voz.
Portanto, acreditar piamente em Bentinho seria ingenuidade, uma vez que ele é um narrador distanciado temporalmente dos fatos e que, por isso mesmo, pode ter lembranças falhas – o que já leva a uma desconfiança – e que não dá voz a outras personagens, por motivos já mencionados. Narrando de forma parcial, Dom Casmurro deixa o leitor suspenso quanto à credibilidade de suas informações, ainda que queira convencê-lo de sua verdade.
Instância Autoral
O autor implícito nos dá dicas de quem era a Capitu que não está na narração de Bentinho. A suspensão da narrativa para a interferência do narrador implícito pondera entre o que é verdade e o que é criação da imaginação de Bentinho ou Bento Santiago. A instância autoral tem uma visão mais neutra, imparcial e realista.
Assim, a função da instância autoral não é de condenar o narrador, mas de nos mostrar sutilmente que em momentos da narrativa ele pode estar exagerando para dar ênfase a determinados fatos, e assim, persuadir o leitor. Quando há essas inferências são apresentados motivos que talvez o narrador possa ter ou não razão, afinal os personagens não têm voz, a voz é a que o narrador relata. Por este motivo, não conseguimos encontrar uma definição explicita da visão da instância autoral sobre Capitu.
Já no início da narrativa (segundo capítulo), o narrador implícito deixa uma primeira pista sobre esse comportamento talvez pouco confiável, ao colocar no centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero, todos traídos por suas mulheres e Massinisa, quer era uma aliado dos romanos, casado com Sofonisba, uma cartaginesa irmã de Aníbal, educada para odiar Roma. Levado por Cipião a entregar a mulher para ser submetida à vergonha pública em Roma, Massinisa, para poupá-la de tal ultraje, manda-lhe uma taça de veneno, que ela bebe de bom grado.
Senna chama a atenção para tal passagem, ao relatar:
Pergunta-se o leitor avisado, ao ler pela décima vez esse romance inesgotável: como a Desdêmona recorrentemente referida no texto, teria Sofonisba morrido inocente? Desdêmnoa morre vítima de uma mal-entendido e do caráter impetuoso do mouro Otelo, vítima por sua vez de sua própria vulnerabilidade e da maldade gratuita do veneziano Iago. O narrador Dom Casmurro sabe disse e o afirma no capítulo 135. Mas ao inserir aí essa desconhecida Sofonisba, presenteada pelo marido com uma taça de veneno não por tê-lo traído, mas para na trair seus princípios, para preservar a sua integridade, não estaria o autor Machado (a instância autoral) nos prevenindo contra seu narrador?[4]
A citação por parte da instância autoral, não do próprio autor Machado, como foi grifado neste trecho, do caso de Massinisa, deixa, no leitor, uma dúvida: seria o narrador totalmente confiável? Se esse advogado, que é Bento Santiago, tenta persuadir seu narratário com argumentos que incriminem Capitu por seu fracasso, o autor implícito dará mostras de que nem sempre se pode acreditar no que seu narrador diz.
Em outra passagem, no capítulo 33, intitulado “O Penteado”, há outra vez a presença desta instância autoral, que comenta:
“Se isto vos parece enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa… Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs.”[5]
Neste trecho o narrador cita Tétis, a mais bela ninfa da mitologia grega, que encanta Zeus e Poseidon, mas por eles é refutada, uma vez que o filho que dela nascesse seria mais poderoso que  o pai. Essa menção à ninfa serve para enfatizar a beleza e a magia que envolve os cabelos e a cabeça de Capitu.
No mesmo capítulo, a instância autoral cita Des Grieux, protagonista de Manon-Lescaut, cuja personagem-título, Manon, é encantadora e vaidosa e, como sugere Senna, “até certo ponto devassa e totalmente comprometida com o prazer, acabando por levar à perdição o pobre inocente Des Grieux” (SENNA, 2000, p.171). É importante aqui ressaltar que Capitu não é comparado a Manon e, sim, Bento a Des Grieux. Seria essa uma forma de dar veracidade aos argumentos de Dom Casmurro? Eis novamente presente a ambigüidade no romance machadiano.
Outra referência bastante importante é Otelo, o mouro, de Shakespaere, que é enganado por Iago e mata sua mulher, levado pelo ciúme. Dom Casmurro, durante sua narração, tende a colocar-se no lugar do mouro. Porém, como Iago, tenta induzir o leitor a acreditar em sua versão dos fatos. Senna, entretanto, equipara Bentinho a Hamlet, “epítome da hesitação, poço de dúvidas, como Bentinho será ‘então um poço delas’” (SENNA, 2000,p.171). Se é este narrador cheio de dúvidas, como nele confiar?
Um último exemplo que ilustra como a instância autoral deixa essa ambigüidade para o leitor está no capítulo 61, ao citar a vaca de Homero em que o guerreiro Menelau rodeia Pátroclo, companheiro ferido, decidido a matar quem se aproximasse do amigo, assim como faria uma vaca inexperiente ao ver alguém se aproximando. Porém, ao citar a visita que José Dias faz a Bentinho no seminário, o narrador distorce o episódio, ao relatar: “Podia compará-lo aqui à vaca DE Homero; andava e gemia em volta da cria que acabava de parir” (ASSIS, 1966,p.111).
Como bem recorda Senna a respeito de Dom Casmurro, narrador: “Se tem a audácia de usar em sua narrativa uma referência à narrativa matricial do Ocidente para desqualificá-la, num tratamento paródico que beira o sacrilégio intertextual, o que não poderá esse narrador para fazer mais para manipular a recepção de seu leitor?” (SENNA, 2000, p.172)
Assim sendo, o narrador implícito novamente coloca o leitor em dúvida sobre a veracidade dos fatos narrados por Bentinho que, desde o começo, não se assume como responsável pelo seu fracasso pessoal, pois o atribui à traição das duas pessoas por quem mais prezava: Capitu e Escobar. Como relata Saraiva,
(…) a narrativa explicita a ambígua concepção epistemológica que a anima, visto que o olhar é, simultaneamente, engano e revelação. É engano por sua submissão aos efeitos do sensível; é revelação porque através do olhar crítico e arguto, o espectador se conscientiza da inadequação entre verdade e aparência. Entretanto, ao registrar a impossibilidade de traçar limites entre a realidade do mundo diegético e as alucinações do protagonista; a articulação entre observador e objeto observado; a recorrência ao olhar para concretizar objetivos encobertos, a narrativa confirma que todo conhecimento é precário[6].
Se o olhar do protagonista não é totalmente confiável, como parece demonstrar o narrador implícito são justamente a ambiguidade e a dubiedade a marca da narrativa, pois não se pode delimitar, em Dom Casmurro, de forma precisa, quem são observador e objeto observado, o que é real e o que são alucinações do protagonista – o que torna a obra ainda mais fascinante.