Mostrando postagens com marcador NONO ANO 2012 / ATIVO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NONO ANO 2012 / ATIVO. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de janeiro de 2014

Entrevista - Maria Helena Bandeira

Entrevista

                 
              Maria Helena Bandeira
                                            
 
Entrevista conduzida por Isabel Furini, do Bondenews

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Te Contei, não ? - Literatura monumental

Começa a voltar às livrarias A Comédia Humana, o ambicioso ciclo de romances com que Honoré de Balzac fundou o realismo e retratou a França de seu tempo

Para um jovem francês de 20 anos, aluno medíocre e filho de funcionário público, a profissão de notário era das mais promissoras que o século XIX poderia oferecer. Os pais do rapaz entusiasmaram-se quando um amigo ofereceu ao filho o cargo de assessor em um cartório, com a promessa de que depois de alguns anos este se tornaria propriedade do aprendiz. Para desespero da familia, porém, Honoré de Balzac (1799-1850) recusou a generosa oficina em prol de uma quimera: queria ser escritor. De forma relutante,seus pais lhe deram um voto de confiança, permitindo que ele fosse morar em um quartinho alugado em Paris enquanto exercitava a pena. Passados pouco mais de vinte anos, no prefácio de 1842 para o longo ciclo de
contos, novelas e romances que batizou de A Comédia Humana o homem
que não quis ganhar a vida em um cartório sugere que a tarefa do escritor é ”fazer concorrência ao registro civil”. Com sua profusão de tipos das mais variadas profissões (padres, médicos, donas de pensão, aspirantes a artista, financistas), procedências (de Paris, das províncias e de fora da França, incluindo um personagem brasileiro em A Prima Beue) e extrações sociais (pobres diabos, burgueses, nobres decadentes, e muitos, muitos arrivistas), esse prodigioso painel literário, composto de 89 livros, foi escrito em cerca de vinte anos de serões estimulados por muito café. Pedra fundamental da literatura moderna, A Comédia Humana ganhou, em meados do século passado, uma edição brasileira exemplar, digna de sua monumental idade. Reeditada em 1989 e desde há muito fora de catálogo, a tradução coordenada pelo exilado hl1ngaro Paulo Rónai retoma agora às livrarias pela Biblioteca
Azul, selo da Editora Globo.
A edição original foi publicada de 1946 a 1955 pela antiga Globo de Porto Alegre (a editora amal de mesmo nome, pertencente às Organizações Globo, tem sede em São Paulo). Eram dezessete volumes, organizados segundo o plano de Balzac e traduzidos para o ponuguês por um corpo de tradutores que incluiu os poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade (ambos, aliás; participaram também de outra tradução heróica de um clássico francês publicado pela Globo: Em Busca do Tempo Perdido. de MareeI Proust). O próprio Rónai, embora fosse um especialista em Balzac (veja o quadro ao lado), não traduziu nenhum deis livros, mas revisou os textos, impôs padrões – uniformizando nomes de personagens e lugares -, escreveu introduções esclarecedoras para cada um dos 89 livros e elaborou cerca de 12000 notas para auxiliar o leitor. A reedição que começa agora, também em dezessete volumes, deve se completar em dois anos. Já estão nas
livrarias os volumes de I a 4 (com 872, 832, 912 e 768 páginas, custam, cada um deles, 74.90 reais). Correspondem à seção que Balzac intitulou Cenas da Vida Privado e trazem dois dos romances mais populares do ciclo: O Pai Goriot e A Mulher de Trinca Anos. O primeiro é magistral; o segundo, uma obra menor do autor, que deve sua fama ao fato de ter popularizado o adjetivo “balzaquiana” para se referir, de forma meio cafajeste, a mulheres maduras mas ainda, digamos, ativas (hoje ali balzacas já estão na casa dos 50). Em março do ano que vem, devem ser publicados Cenas da Vida Provinciana mais três volumes, que incluem romances célebres como Eugênia Grande e Ilusões Perdidas.
O leitor não precisa se preocupar com essas divisões, em boa medida arbitrárias. Ilusões Perdidas, cuja ação se passa em pane na província, em pane na capital, bem poderia estar em Cenas da Vida Parisiense – que igualmente poderia abrigar quase todos os livros  lançados agora nas cenas privadas. Quando Balzac começou a escrever esses livros.,.pelo fim dos anos 1820, não tinha ainda uma noção de conjunto. Foi só em 1833que teve a ideia de um ciclo romanesco que capturasse a história da vida e dos costumes da França contemporânea. “Saúdem-me, pois estou seriamente na iminência de me tomar um gênio”, disse então, ao entrar na casa de sua irmã Laure Surville. Seu esforço desmesurado foi o de criar, pelo meio da ficção, não só um retrato, mas uma espécie de simulacro perfeito da sociedade francesa. A ilusão de vida “real” que as páginas da Comédia transmitem é reforçada pelo expediente de fazer com que os diferentes personagens transitem de um livro para o outro. Um exemplo: uma certa senhor Finniani que dá titulo a um conto o novela curta reaparece em papel secundário em O Pai Gortot (as notas de Rónai, aliás, ajudam muito a mapear esse personagens transeuntes). O leitor d Comédia conta com a liberdade de  os livros na ordem que desejar, de puk títulos e até volumes. Mas a experiência do ciclo de BaIzac ganha em profunda de e prazer com a leitura de pelo me nos uma meia dúzia de livros, quando então se forma nitidamente o alcance d forma inventada pelo escritor.
Dândi que tomava senhoras da na pobreza (em geral casadas) como amante e alternava a vida frívola de Paris cor temporadas de isolamento, trabalho cafeína em localidades da província Balzac calcou seus personagens na  a servação direta de tipos sociais. O já citado A Sra. Firmiani consiste e
grande parte de um catálogo aleatório dessas categorias: os Duques, os Invejosos, os Flanadores, os Tolos. Por graça do duplo dom do testemunho pessoa e da recriação ficcional, Balzac tomou se – ao lado do contemporâneo Stendhal – um pilar-do realismo. Ante deles, não era comum que os escritores se voltassem com seriedade e sem filtros idealizadores para os aspectos mai comezinhos da vida cotidiana. Balzac sobretudo, foi o grande cronista do pó der ascendente do dinheiro como mol mestra da sociedade burguesa. Com uma minudencia tão vulgar quanto deli ciosa, ele se detém sobre todo tipo di cifras: rendimentos, salários, dívidas Informa que o desgraçado Goriot, que dilapida sua forruna para sustentar ~ dispendioso estilo de vida das filhas in gratas, entrou na pensão Vauquer ocupando confortáveis aposentos por 120
francos mensais, mas depois de alguns anos foi obrigado a se transferir par: um cubículo de 45 francos. É sensacional a morte do avarento pai de Eugênio Grandet na hora da extrema-unção. E tenta se agarrar ao crucifixo que o cura da aldeia lhe apresenta – não por devoção, mas porque a peça é feita de prata
Não estranha que. com:esse exame crítico dos mecanismos,pecuniários da sociedade francesa, BalIa· se tomasse, um dos escritores tavoIkos da dupla
Marx e Engels. Mas não tinha a mínima simpatia pela revolução, e nem
mesmo pela republica. “Escrevo à luz de duas. Verdades eternas a religião e a
monarquia”, clamou  Ao modo de tantos artistas Tom Anticos mas parasitários de sua obra (sobretudo Rastignac, que aparece em vários livros), Balzac tinha uma fascinação quase patológica pelos hábitos e instituições periclitantes da nobreza ao tempo da restauração monárquica. Seu nome.de batismo seria “Honoré Balzae”, e não “de Balzac”a partícula “de”, marca nobiliárquica, foi uma de suas muitas imposturas. Esnobe, vivia endividado. Antes da fama como escritor, perdeu muito dinheiro tentando se lançar como editor e impressor. O sucesso de público de obras como a escandalosa (para a época)
Fisiologia do Casamento teria bastado para saldar todos os débitos e ganhava autor uma vida para lá de confortável;~ c era um esbanjador
compulsivo, sempre comprando bibelôs, móveis, tapetes para seu apartamento
em Paris. Figura das mais extravagantes entre tantos excêntricos que povoam a história natural, Balzac era, segundo o contemporâneo Baudelaire, o maior personagem de Balzac. A comparação, porém, é temerária: sua galeria de personagens passa de 3000.
“O que ele não pôde cumprir com a espada, eu o acabarei com a pena”. Inscreveu Balzac sob uma estatueta de Napoleão Bonaparte que tinha em seu gabinete. Essa ambição desenfreada realizou-se: Honoré de Balzac é o imperador do realismo.

REvista Veja

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Você já está sabendo ? - Cinco centarrus ... dez centarrus ...


Um dos mais populares programas encontrados pelos que zapeiam os canais da TV brasileira em busca de diversão aos finais de semana é, sem dúvida, o Zorra Total. Veiculado na noite de sábado pela Rede Globo de Televisão, a atração tem, inegavelmente, no mínimo um grande mérito: o de revelar e oferecer oportunidade de atuação profissional para novos talentos. E, dependendo do caso, consagrá-los como grandes humoristas.
É bem verdade que, precedendo Zorra Total, o humor brasileiro ganhou popularidade também por meio de programas televisivos com formatos e concepções diversos. A fórmula atual do humorístico junta diferentes tipos humanos, os travestem com roupagem caricatural e os colocam num vagão de metrô, pilotado por uma caricatural Dilma Rousseff, interpretada pela atriz Fabiana Carla. A atmosfera vai do popularesco clima de “feira livre” ao “grotesco”, categoria estética pautada pela aberração, justificando, assim, o nome do programa.
Antes, porém, no universo televisivo global, tivemos Chico City, Chico Total, Viva o Gordo, TV Pirata, passando pela A Grande Família, Casseta e Planeta, além de uma diversidade de séries, entre as quais se incluem Entre tapas e beijos e Ó pai ó. Entretanto, independentemente do gosto pessoal e da avaliação comparativa que se faça de Zorra Total com outros humorísticos, não há como negar: milhões de brasileiros têm dado muitas gargalhadas, asseguradas por alguns de seus personagens já aclamados pelo gosto popular, como a Valéria e a Adelaide, ambos encarnados pelo talentoso ator Rodrigo Sant’Anna.
 
Não há também como negar o fato de, assim como Grande Otelo, Tião Macalé e Mussum, Rodrigo Sant´Anna, de 32 anos, já ter garantido seu lugar na galeria de artistas afrodescendentes filhos das classes populares e com vocação para extrair doses maciças de riso do povo de seu país. A lista de grandes cômicos afro-brasileiros inclui, ainda, Hélio de La Penna, oriundo de uma escola de humor mais sofisticada, é bem verdade, mas nem por isso, menos talentoso, irreverente e pouco afeito aos princípios do politicamente correto, em seu ofício.
E se o talento de Rodrigo Sant´Anna – nascido e criado na comunidade do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte carioca – reverbera entre a população, é, de certa forma, esta “identificação”, esta “empatia” com o criador da personagem Adelaide que vem sendo considerada por alguns, circunstancialmente “problemática”, digamos assim. Uma questão que, a princípio, tinha as redes sociais como lugar de debate, migrou para os fóruns da Justiça do Brasil: até que ponto a veiculação da imagem de uma figura como a de Adelaide estimula os estereótipos e práticas racistas no seio da sociedade? A personagem, na opinião de alguns segmentos do público, ativistas dos movimentos negros e formadores de opinião, parece ter sido modelada na conhecida argamassa do preconceito racial, como dizem. Entretanto, esta avaliação está longe de ser consensual. Para muita gente, buscar preconceito racial em Adelaide é pura perda de tempo, entre outras inutilidades. Há questões mais graves na pauta dos movimentos negros com as quais militantes e parcelas do público deveriam se preocupar, contra-argumenta-se. Tem ainda os que entraram na discussão, saindo em defesa do “historicamente sagrado” direito à liberdade artística. Uma parte destes, por sua vez, imputa, inclusive, às audiências de todo o Brasil, o direito de mudar de canal, se a Adelaide lhes incomodar.

CRIADOR E CRIATURA
O ATOR RODRIGO SANT´ANNA FOI DIRETO AO ASSUNTO:
“Nasci e fui criado no Morro dos Macacos até os 18 anos. Na sequência, parti em direção ao subúrbio carioca, onde estive até meus 24 anos. Meus familiares, assim como eu, ou são afrodescendentes, como é o caso da minha avó Adélia, que serviu de inspiração para a Adelaide, ou apresentam traços da raça. Logo, meus personagens vêm de tudo que vivi e convivi, portanto, não vejo como uma ofensa utilizar pessoas que fizeram parte da minha história para ajudar a compor meus personagens, mas sim como uma homenagem à ‘minha gente’, pessoas das quais me orgulho pela história de vida, independentemente da cor de pele, do nariz exagerado, do português errado ou da falta de dente, todos requisitos preenchidos pela Adélia, o personagem da vida real em quem me inspirei.
O humor foi a maneira que encontrei de transgredir as minhas tragédias sem esquecer da minha história. Se, a partir de agora, contar a minha história através da minha arte é denegrir a imagem de um determinado grupo, eu realmente me pergunto de onde vem o preconceito, porque meus personagens serão sim: afrodescendentes, pobres, transexuais.
Nas minhas composições, ao contrário do que as perguntas sugerem, eu procuro não ter preconceitos. Mas, talvez, se eu tivesse uma avó loira de olhos azuis, não estivesse respondendo a perguntas tão hostis e preconceituosas.”

QUEM É ADELAIDE?
Para quem desconhece a personagem, trata-se de uma gaiata que saltou, mesmo sem ter sido avisada, do vagão de trem de metrô em circulação no mundo da ficção cômica de Zorra Total, para a polêmica – esta bastante real – na internet e também na Justiça. Adelaide é uma senhora desdentada, com a pele acentuadamente enegrecida à base de tinta e feições negroides destacadas por um nariz caricaturalmente largo. No que se refere ao conteúdo de sua fala, durante os minutos dos quais a personagem usufrui para, dentro do metrô, promover a mais “descarada” das mendicâncias, Adelaide o faz com um português cheio de erros. Consumista de gadgets, como o tablet de última geração que carrega consigo, ela se desvia do perfil do pedinte tradicional e se insere, subliminarmente, no mundo da trambicagem. Provoca indignação e questionamento dos outros passageiros quando, “pobre, pobre de marré de si”, tira da bolsa seu tablet e mostra-se em sintonia com o admirável mundo novo da tecnologia digital. Ou quando compartilha, com os demais usuários do metrô, a informação de que seu marido alcoólatra consome bebidas finas, como whisky de boa qualidade, não muito usuais no mundo dos mais desfavorecidos. Muito menos dos mendigos, é claro!

O MAU HUMOR E CRÍTICA DA MILITÂNCIA NEGRA
Mas nem toda a graça provocada pela personagem e o endosso dos que saíram em sua defesa não conseguiram desfazer nem a cara feia, nem as providências jurídicas tomadas pela militância negra. Os cyberativistas postaram na rede acusações frontais de racismo aos criadores de Adelaide – entre eles, Rodrigo Sant´Anna, que lhe cede o corpo, a alma e informa ter se inspirado na avó para lhe dar vida. A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR) entrou com representação na Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), pedindo que se avaliasse a eventual suspensão da veiculação do quadro em que Adelaide rouba a cena.
Já o advogado Humberto Adami, até o final do fechamento desta edição, preparava a petição por meio da qual pretende entrar com ação coletiva na Justiça pedindo reparação de danos morais.
“Calma gente”, avisou o jornalista Anselmo Góis em nota, publicada em sua coluna, no jornal O Globo, na edição de quatro de setembro. Nela, Góis informava aos leitores mais um procedimento jurídico tomado contra a Adelaide. A nota dizia que a promotora Cristiane Monnerat – a mesma que cuidou do suposto estupro na última edição do Big Brother Brasil, instaurou procedimento sobre a personagem Adelaide, em Zorra Total, interpretada por Rodrigo Sant´Anna. Investiga queixas de alguns telespectadores de eventual procedimento racista da personagem.
Depois de acompanhar a postagem de críticas à personagem em blogs, redes sociais e site de ONGs, como o Portal Geledés, RAÇA BRASIL foi atrás dos envolvidos diretos: o ator que vive a negra Adelaide e o diretor do programa, Maurício Sherman, que não respondeu à revista até o fechamento dessa edição.

“Esse personagem Adelaide, do Zorra Total, já ultrapassou o limite do aceitável. Não há outros personagens negros femininos no programa, e a caricatura só reforça o preconceito contra a mulher negra, pobre e sem trabalho.Não há escusas para a Rede Globo, nem para o silêncio de grande parte do Movimento Negro brasileiro, e das instituições ligadas ao enfrentamento do racismo no Brasil. Essas imagens levadas ao plano internacional envergonhariam qualquer nacional.
A representação ao Ministério Público, acompanhada de eficiente ação de reparação de dano coletivo, nos moldes do caso Tiririca & Sony, já passou da hora. Não há como se fugir ao debate da ‘liberdade de expressão, censura e liberdade artística’, que por certo será levantado, mas sim impor a reparação do dano coletivo, com os rigores de expressiva jurisprudência nacional a respeito. A quem o personagem faz rir? Àqueles que não se comovem com o sofrimento e a luta das mulheres negras brasileiras. E que ainda lhe imputam a responsabilidade pela situação de descuido.
Única personagem negra do programa, a Rede Globo sabe perfeitamente onde (sic) quer chegar, tanto que, no mesmo quadro, incluiu uma mulher índia, que fica sorrindo o tempo todo, de forma infantilizada, reforçando também o preconceito contra indígenas. Creio que a Globo se prepara para o debate, já sabendo o que virá por aí. Na verdade, todo o Capítulo VI do Estatuto da Igualdade Racial, a lei 12.288, abaixo reproduzido, vem sendo desrespeitado. (...) nem cobrado, por quem devia estar cobrando, de forma institucional.
Penso que as entidades de mulheres, negras em especial, (mas não apenas essas), possam promover uma representação ao MP, e a ação de reparação de dano coletivo, cujo limites já ultrapassaram o aceitável.”
(Artigo postado pelo advogado Humberto Adami em seu blog)

A REPRESENTAÇÃO E A PRESENÇA DOS NEGROS NOS MEIOS AUDIOVISUAIS
Numa das visitas feitas ao Brasil, o ex-premier da Itália Silvio Berlusconi, depois de assistir televisão no seu quarto de hotel, foi passear pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Estarrecido, comentaria depois do passeio: “A televisão de vocês parece a de um país nórdico”, dizia ele, um dos maiores empresários de comunicação da Europa, referindo-se à diferença entre a cor da população local e a figura de apresentadores, atores, jornalistas, entre outros profissionais, que frequentam há décadas, com preferência de escolha por parte das emissoras, a nossa telinha. Entretanto, o fato é que o sistema televisivo do país vem recebendo críticas muito mais positivas do que a feita pelo italiano. A televisão brasileira – sobretudo, a Rede Globo de Televisão – é há muito elogiada (internacionalmente, inclusive) quando o assunto é alta qualidade e apuro de suas produções. As telenovelas globais são um exemplo do êxito de público e crítica, até mesmo quando comercializadas fora de nossas fronteiras.
Entretanto, na avaliação de muitos, esta mesma TV tão avançada tecnologicamente, e que reúne talentos humanos de alto calibre, no que diz respeito ao conteúdo de suas mensagens relacionadas a minorias, pode ser considerada “semiologicamente bastante atrasada”. Se formos tomar a questão da representação de grupos e figuras humanas na telinha como exemplo, fica mais fácil entender este tipo de crítica, endossada por acadêmicos, inclusive. Tomando como parâmetro a trajetória da TV brasileira, para muitos especialistas da área faz sentido responsabilizar a emissora de Zorra Total, entre outros canais, por continuar a apostar em personagens negros que acabam por reforçar estereótipos pra lá de questionados.
Refratária a democratizar o acesso de diferentes grupos étnicos a seus quadros profissionais , a televisão brasileira também reedita em figuras como Adelaide a imagem desdentada de Tião Macalé, veiculada durante anos. Daí o questionamento trazido pela negra do humorístico: nossas emissoras não estariam alheias a uma luta histórica dos movimentos sociais por uma identificação mais positiva – e menos grotesca, diriam os radicais – com personagens de filmes, minisséries e outros programas televisivos, a ser feita por uma parcela da população que já é numericamente majoritária?

COM A PALAVRA, A ATRIZ LÉA GARCIA:
“Eu não assisto ao programa, mas conheço a personagem. Minha empregada assiste e gosta.
Não há dúvidas de que se trata de um programa de péssima qualidade, de mau gosto e que ironiza a mulher ‘gostosa’, o homem traído, o índio, o gay, entre outros tipos e grupos humanos. Particularmente, não gosto deste tipo de humor, prefiro o humor mais inteligente. Nós tínhamos, exibidos pela mesma emissora, Viva o Gordo, TV Pirata, Chico Anísio, que eram muito mais interessantes, com um humor menos pastelão, menos bobo. Aliás, de um tempo para cá vem piorando. Mas na vida há gosto para tudo.
Entretanto, não fiquei, em absoluto, assustada com o visual da personagem, já que o ator é negro. Portanto, ele acentuar a cor da pele e o tamanho do nariz, para mim, não significa um problema, isto não me chocou. Por outro lado, quando se é ator, tem-se a liberdade de interpretar qualquer papel. O Romeu Evaristo, por exemplo, faz personagens muito questionáveis e ninguém fala nada!
Mas tem outro aspecto nesta discussão que acho que vale a pena pontuar: a nossa comunidade negra se ressente, por vezes, demais de coisas desimportantes. Temos coisas muito, muito mais relevantes e urgentes para as quais voltar a nossa atenção. Muito mais do que para uma personagem de Zorra Total. O assassinato e a exclusão social de jovens negros, crianças negras, isso sim, é digno de nossa discussão urgente!”

“Faz sentido, a discussão. No meu cotidiano de trabalho, que é a fotografia, esta é uma expressão de arte que tem a capacidade de intervir no tempo, congelar o tempo. E isso significa que aquele momento será eterno. Já disseram que uma imagem vale mais do que mil palavras. E nós sabemos que no processo de veiculação e perpetuação do racismo como ideologia social, a imagem é muito importante. Acho que a Adelaide está situada neste contexto. Acredito que haja várias Adelaides espalhadas pelo país, mas que não aparecem na tela da TV. A personagem está ligada a símbolos em circulação em nossa sociedade que tomam o negro como uma pessoa que chegou ao Brasil na condição de escravo despossuído de sua humanidade, vista como uma peça, uma coisa. Imagem esta que está perpetuada no inconsciente das pessoas, e que é reproduzida em várias atividades e situações. Não é que o negro não queira se ver como a Adelaide, mas o que ocorre é que a televisão quer mostrar à população brasileira que o negro é uma Adelaide. Por isso, a gente questiona.
Januário Garcia é fotógrafo e militante negro, pioneiro por levar o processo de discussão da questão racial para dentro das grandes agências de publicidade e propaganda já a partir dos anos 70.
“Não faz sentido nenhum, porque não acho que seja uma personagem que queira agredir ninguém, não foi criada para isso. É uma sátira, foi feita só para divertir as pessoas, não para agredir ninguém, muito menos a comunidade. Não tem relação, a meu ver, com racismo. E há outra questão: o ator Rodrigo Sant`Anna não é branco, portanto, como é possível ele se predispor a fazer uma coisa destas com a própria raiz, com a avó, que deve tê-lo criado? Não faz sentido nenhum uma personagem interpretada por ele ter este tipo de objetivo. Talvez as pessoas que estejam levantando esta questão sejam mais preconceituosas do que o ator em si. Parece que gostam de mexer na ferida, não colocam as coisas para frente. Não levantam polêmica em cima de discriminações escancaradas. Acho melhor os afro-brasileiros se voltarem para coisas mais graves que estão acontecendo na sociedade, como perseguição e o preconceito enormes contra as religiões de matriz africana em pleno século 21.”
Juraci de Paula Barbosa tem 50 anos. Bacharel em música, assiste ao quadro do programa regularmente.
Eu gosto dos dois personagens interpretados pelo ator, a Valéria e a Adelaide. Não acho que a Adelaide esteja debochando de nenhuma classe social, de nenhuma raça. Ela quer mostrar que os pobres têm direitos iguais, inclusive de consumo de tecnologia, e isso acontece quando ela tira o tablet da bolsa ou quando faz referência à bebida do marido. Ou seja, contesta também esta história de que pobre só bebe cachaça. Quanto à aparência da personagem, acho que faz sentido, pois existem até hoje pessoas nessas condições. Quem diz que não existe, que é preconceito, está querendo tapar o sol com a peneira. Há negros desdentados, brancos desdentados, pessoas de todos os grupos falando errado. Trata-se de um alerta feito, de forma cômica, pela Adelaide. E o fato de ela sacar o tablet produz uma situação que, ao causar riso, contrabalança com a agressividade da imagem dela. No meu modo de ver, é uma forma divertida de amenizar os traços, de fato, muito agressivos de sua fisionomia.”
Dolores Pires Augusto é médica pediatra e assiste ao programa regularmente.
“Vejo algumas semelhanças entre o quadro de Zorra Total e o da personagem da música Veja o cabelo dela, de autoria do hoje deputado federal Tiririca. Ele argumentou que fez a música para a mulher dele, quando acusado de racismo na letra na qual se referia a uma mulher que só tinha dois dentinhos, o cabelo parecia Bombril de arear panela e fedia igual a gambá. Num determinado momento, organizações de mulheres negras se engajaram no processo, mostrando-se ofendidas e esta não seria a primeira vez, já que existem várias músicas tratando pejorativamente a imagem da mulher negra. Ambos os casos fortalecem os mecanismos de representação da mulher negra, enfraquecendo, com este tipo de discriminação, o racismo como crime. Por outro lado, não acho ruim o Rodrigo Sant´Anna interpretar uma mulher negra. Longe disso. O que acontece é a forma que ele a representa. Também acredito que não foi por causa da avó dele que Adelaide foi criada. Se o fosse, ele não o faria: pois quem quer uma avó fragilizada, analfabeta? Ninguém! Não acho que haja nada de ‘especial’ nesses personagens, a não ser que trazem elementos importantes da discriminação, da maneira de a sociedade pensar determinados grupos.
Lúcia Xavier é assistente social, ativista e diretora da ONG Criola.




Revista Raça Brasil

Sandra Almada (autora dessa matéria) é jornalista, mestre em comunicação e cultura pela ECO/UFRJ e professora de teorias da comunicação

Te Contei, não ? - Educação Étnico Racial: Momento Crucial - Mauricio Pestana



Se o caminho para a erradicação da pobreza, da miséria e do racismo é a educação, nunca esta estrada foi tão pontuada como na atualidade. A lei 10.639 – que obriga o ensino da História da África e seus descendentes – prestes a completar dez anos, começa a ser avaliada. Paralelamente, medidas como a recente aprovação das cotas nas universidades federais pelo Supremo Tribunal Federal apontam para um novo momento em que a sociedade civil, por meio dos movimentos sociais, tem cumprido papel essencial para esses avanços.
Se por um lado a pressão e a vigilância desses setores têm demonstrado resultados excepcionais como os 10 a 0 na votação das cotas no Supremo ou no clima que envolveu o pedido de retirada do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, é na sala de aula que esse progresso encontrou os maiores obstáculos ao se deparar com o inimigo mortal para o seu desenvolvimento: a falta de investimento na formação, no treinamento e na atualização do elemento mais importante desse processo, o professor (a).
Isso fica evidente em um recente estudo realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais, em que se concluiu que a lei não é aplicada na maioria das escolas brasileiras. Quando feito, é realizada de forma isolada por professores engajados na luta antirracista e que, em muitos casos, encontram resistência nos próprios estabelecimentos escolares, seja por parte da direção ou dos colegas de ensino.
Outro dado preocupante da pesquisa é o caráter unicamente festivo e, por vezes, até folclórico em que a lei é disseminada em alguns ambientes escolares, como se fossem, apenas, realizadas palestras, exposições ou encenação teatral sobre o assunto ou apenas no período do “20 de novembro” e não o ano inteiro, cumprindo seu ideário de transformar brasileiros em seres mais conhecedores de suas origens e contribuindo na convivência entre negros e brancos, derrubando obstáculos culturais que impedem nossa aproximação com a África.

Se esses princípios da lei fossem seguidos, episódios como o da professora universitária do Pará que gritou aos berros com um segurança, chamando-o de “macaco”, não aconteceriam, assim como o caso de Contagem (região metropolitana de Belo Horizonte) em que uma avó, também aos berros e indignada, chegou a uma escola infantil gritando: “Quero saber por que deixaram uma negra, preta horrorosa e feia dançar quadrilha com meu neto.” O fato revoltou funcionários do Centro de Educação Infantil e levou a mãe da criança a denunciar a mulher à polícia. A direção da escola também foi acusada de não ter feito nada para impedir as ofensas racistas e ainda ter tentado abafar o ocorrido.
São episódios que demonstram que a lei, invejável por países como os Estados Unidos (recentemente a secretária adjunta, Russlynn Ali, responsável pela poderosa agência que fiscaliza o emprego de milhões de dólares na educação norteamericana, teceu elogios à lei brasileira, numa reunião em Brasília), é avançada na teoria, porém, na prática...
A grande questão que se coloca é a seguinte: se parte dos esforços para a aplicação da Lei 10.639 não forem direcionados para a preparação e o desenvolvimento do professor (a), continuaremos assistindo, ou não (uma vez que não existe monitoramento também de como se está aplicando a lei) cenas lamentáveis como o da professora Daniela Cordovil que, pasmem, leciona na Universidade Federal do Pará matéria sobre religião afro, o que demonstra o tamanho do absurdo a que chegamos.

Revista Raça Brasil

sábado, 3 de novembro de 2012

Personalidades - Nelson Rodrigues - a cara do Brasil real

IMPÉRIO DA FANTASIA -- O pernambucano Nelson em seu habitat, as ruas do Rio de Janeiro, noa anos 70 (Foto: Amiccuci Gallo)

O dramaturgo Nelson Rodrigues inventou o teatro brasileiro em 1943, com a peça Vestido de Noiva. O romancista, com o pseudônimo Suzana Flag ou sem camuflagens, devassou e simultaneamente seduziu o universo habitado por aquela que muitos anos depois seria batizada de “nova classe média”. O cronista do Brasil real – enquanto colecionava achados metafóricos que o transformariam num frasista incomparável e concebia imagens magnificamente exatas – pariu criaturas que, conjugadas, mostram não o que os nativos da terra gostariam de ser, mas o que efetivamente são.
O torcedor apaixonado do Fluminense descobriu que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana” e foi o primeiro a coroar Pelé. Ele foi e fez tudo isso – e muito mais – em apenas 68 anos de vida. É compreensível que o dia da morte física de Nelson Rodrigues tenha sido também o primeiro dia do resto de sua eternidade.
A imortalidade de Nelson Falcão Rodrigues, nascido no Recife em 23 de agosto de 1912, é reafirmada pelo centenário do gênio. Diferentemente das efemérides do gênero, desta vez não foi preciso reapresentar o país a outra vítima da amnésia endêmica que chegou com as primeiras caravelas. Desde a década de 70, quando começou a transformar-se numa prova contundente de que nem toda unanimidade é burra, Nelson está livre da temporada no limbo a que são condenados os grandes mortos.
De lá para cá, não se passou um só dia sem que estivessem em cartaz peças teatrais ou filmes baseados em sua obra, ou sem que fossem vendidos exemplares dos livros que continuaram a multiplicar-se em edições sucessivas. Também é certo que neste momento, em alguma esquina ou mesa de botequim, alguém está animando a roda de conversa com a evocação de uma frase ou criatura de Nelson Rodrigues. Ou apenas Nelson, porque basta o prenome para a identificação de um velho conhecido.

A admiração por Nelson hoje é compartilhada por todos os brasileiros com mais de dez neurônios – sejam quais forem a idade, a filiação política, a tendência ideológica, o signo, o peso e a estatura. E assim sempre será, porque os muitos grandes momentos de Nelson Rodrigues nunca ficarão grisalhos.
A crítica de teatro Barbara Heliodora prevê que, como ocorre com a obra de William Shakespeare, pelo menos quatro peças de Nelson – Vestido de Noiva, Boca de Ouro, A Falecida e O Beijo no Asfalto – continuarão encantando plateias daqui a 500 anos. Os descendentes dos nossos tetranetos reconhecerão uma similar de Engraçadinha na garota ao lado, ou dormirão imaginando que espécie de veículo estará transportando Solange, a dama que, no Brasil do século XX, caçava aventuras no lotação.
“Ele será sempre um grande autor”, afirma Barbara Heliodora, que atribui a Nelson Rodrigues a subida aos palcos dos diálogos que reproduzem a língua falada pelas plateias. “Nelson era um repórter extraordinário, e foi muito influenciado pela experiência como jornalista”, diz. “Tinha um ouvido tão maravilhoso que conseguiu captar o brasileiro falando. Nós aprendíamos na escola que poderíamos falar errado, mas deveríamos escrever corretamente. Os autores escreviam certo, esquecidos de que aquilo era para ser falado.” Só depois de Vestido de Noiva os atores começaram a falar o português das ruas. A descoberta do diálogo em brasileiro fez de Nelson Rodrigues, segundo o crítico Sábato Magaldi, “um autor seminal, que fecundou a nossa dramaturgia”.
Se Barbara Heliodora consegue distinguir o jornalista do dramaturgo, os amigos do singularíssimo pernambucano criado no Rio de Janeiro sempre enxergaram um Nelson só, que parecia vários por ser, na definição do jornalista e escritor Otto Lara Resende, um feixe de paradoxos. “É um profundo in­di­vi­dua­lista e vive da emoção coletiva”, disse Otto. “Foi um conservador e tem uma obra revolucionária. Orgulha-se de ser um reacionário e foi um dos autores mais censurados do Brasil.” O psicanalista e escritor Hélio Pellegrino achava que todas as versões do amigo viviam sob “o império da fantasia, em que realidade e invenção sempre se misturam”. Se a opção se impunha, a realidade sofria outra derrota: “Nelson é fiel à sua imaginação”.
Nelson Rodrigues era perigosamente imaginoso tanto com desafetos quanto com os mais íntimos amigos. Um deles só descobriu que fora transformado no nome alternativo da peça que entraria em cartaz naquela noite ao ler o enorme letreiro em neon: “Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Resende”.
A brincadeira que ultrapassara os limites do sarcasmo suspendeu por algumas semanas as conversas diárias entre o autor da homenagem e o integrante do grupo que reunia o que a usina de superlativos qualificava de “amigos além da vida e além da morte”. Anistias concedidas por Nelson Rodrigues eram amplas e irrestritas, mas tinham prazo de validade. Consertado o estrago, o parceiro ofendido não demorava a pousar em alguma história contada por quem sempre desprezou a fronteira que separa o real do imaginado.

“A crônica policial piorou porque os repórteres de hoje não mentem”, lastimava o homem que ainda menino enfeitava com detalhes fantasiosos histórias de casais que se matavam por amor. Nas crônicas ou nos romances de Nelson, o verdadeiro tirava o irreal para dançar o tempo todo.
Com um sotaque lisboeta que nunca existiu, Otto Lara Resende era repatriado de Portugal para contracenar com a cabra vadia, única espectadora de entrevistas imaginárias conduzidas em um suposto terreno baldio – ou, ainda, para testemunhar mais um assombro provocado pelo Sobrenatural de Almeida, que alterava bruscamente uma situação ou o resultado de um jogo do Botafogo.
Passados mais de trinta anos, está claro que histórias e personagens jamais ficarão datados. As criaturas que se tornaram inverossímeis num Brasil menos primitivo viraram documentos de época.
Tem lugar assegurado no Museu Nacional do Maniqueísmo, por exemplo, o padre de passeata, religioso que comparecia em trajes civis às manifestações de rua contra a ditadura militar. Estará ao lado de sua versão feminina, a freira de minissaia, e a poucos metros da estudante de psicologia da PUC, que queria saber o que o cronista achava da morte de Deus, e da estagiária de calcanhar sujo, que se formara em jornalismo para esbanjar autossuficiência e mau humor nas redações. Todos nascidos em 1968, são filhotes do direitista atormentado pelas atividades clandestinas do primogênito, engajado na luta armada. Em alguns episódios, Nelson foi longe demais na louvação de uma ditadura que torturava e matava inimigos. Mas o conjunto da obra é tão luminoso que revoga as manchas escuras.
Outras invenções do ficcionista delirante são atemporais e continuarão por aí durante séculos. O idiota da objetividade, por exemplo. A vizinha gorda e patusca. Palhares, tão definitivamente canalha que, na casa do irmão, beija à força o pescoço da cunhada que passa pelo corredor. Esses seguirão contracenando com personagens que iluminam a face do Brasil que tenta, inutilmente, esconder as taras, as vergonhas familiares, a guerra conjugal, o adultério, os preconceitos, a sexualidade reprimida, a mesquinhez patológica. “Se todo mundo conhecesse a vida íntima de todo mundo, ninguém cumprimentaria ninguém”, resumiu Nelson Rodrigues.
Os habitantes desse universo fantástico têm o olho rútilo e o lábio trêmulo, reagem à adversidade com arrancos de cachorro atropelado, seu pensamento é tão raso que uma formiguinha poderia atravessá-lo com água pelas canelas. Grã-finas com narinas de cadáver suportam maridos com três papadas e três bochechas em cada lado do rosto.
A cabeça dos intelectuais tem a aridez de três desertos, os especialmente infelizes se sentam no meio-fio para chorar lágrimas de esguicho, caem tempestades de quinto ato do Rigoletto, há homens bonitos como havaiano de cinema, faz um calor de rachar catedrais e existe gente varada de luz como santo de vitral. Um mundo assim, espalhado por dezessete peças, nove romances, sete livros de contos e crônicas e milhares de artigos em jornais, merece mais que uma única vez sobre a face da Terra.

O mundo maravilhoso que Nelson Rodrigues criou merece existir para sempre.

Obsessivo confesso e sem cura, obcecado especialmente pela morte, Nelson jurava que, durante a infância, fugia da escola para assistir a velórios. Aos 13 anos, estreou como repórter de polícia no jornal do pai, cobrindo um caso de suicídio passional. Adolescente, ouviu o som do tiro de revólver disparado por uma mulher que, inconformada com o noticiário que lhe devassara a vida íntima, resolveu vingar-se com o assassinato do dono do jornal, Mário Rodrigues, ou de algum de seus filhos.
À morte do irmão, o ilustrador Roberto Rodrigues, seguiu-se a do pai. Depois vieram os anos de pobreza, a tuberculose que lhe impôs duas internações em Campos do Jordão, as chuvas do trágico verão carioca de 1966 que mataram o irmão Paulo e toda a família, o fim angustiante do primeiro casamento, as turbulências do segundo, o nascimento da filha cega, as torturas infligidas ao seu filho Nelsinho no cárcere. Em 21 de dezembro de 1980, o homem que passou a vida inteira pensando na morte se foi. Nunca se saberá se já tinha descoberto que era imortal


O PROVOCADOR VOCACIONAL


“A companhia de um paulista é a pior forma de solidão”
“Só os profetas enxergam o óbvio”
“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”
“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”
“Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma”
“Nada nos humilha mais do que a coragem alheia”
“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral”
“O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro”
“Acho a liberdade mais importante que o pão”
“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”
“A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia”
“Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância”
“Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro”
“Jovens: envelheçam rapidamente!”
“Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista”

O APAIXONADO CÍNICO

“Amar é ser fiel a quem nos trai”
“Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar”
“Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível”
“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”
“Todo tímido é candidato a um crime sexual”

Revista Veja

Te Contei, não ? - Cenas da infância sul - africana


Cenas da infância sul – africana

Fernando Rossetti
De Johasnesburgo

Quem tem mais de 4 anos na África do Sul  nasceu em um pais onde tudo era dividido pela cor da pessoa. Por exemplo: havia escola só para alunos brancos e escola só para negros.
As maiores cidades eram habitadas só pelos brancos.
Em volta das cidades ainda existem grandes favelas, onde moram os negros. Havia também bairros de pessoas “amarelas” e de pessoas mulatas ( mistura de branco com negro ).
As crianças de cada cor eram proibidas de brincar umas com as outras. Como a vida inteira elas ficavam separadas, acabavam sendo preconceituosas sobre as crianças de outras cores.
Preconceito é uma opinião ou ideia que a pessoa tem sem conhecer como as coisas são de verdade.
Isso tudo que acontecia na África do Sul se chamava “apartheid”. Era um conjunto de leis que impedia as pessoas de diferentes cores de se misturarem durante mais de 40 anos.
Desde 1990, a África do Sul começou a mudar essas leis. Este ano, pela primeira vez, foi eleito um presidente negro, chamado Nelson Mandela.
Agora, crianças brancas começam a ficar amigas das crianças negras. Ela já podem ir a mesma escola, usar o mesmo clube, atravessar a mesma ponte ( até isso era dividido ).
Mas ainda é muito difícil encontrar crianças brancas e negras fazendo coisas juntas.
O problema é que os brancos são mais ricos do que os negros. A pobreza dos negros torna o lugar onde eles vivem muito violento, parece algumas favelas do Brasil.
Com o fim do apartheid, há esperança de que as diferenças acabem e que a próxima geração de crianças possa viver em um país onde todos sejam amigos, independente da cor da pele.

Publicado no Jornal Folha de S.Paulo, Folhinha, 28/10;1994.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Te Contei, não ? A pré - história de Drummond




Px
Há um anjo protetor dos literatos novos, escreveu certa vez Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Ocupa-se em dar sumiço a textos juvenis para salvar autores do embaraço de se confrontar, anos depois, com a própria imaturidade. O que um dos maiores poetas da língua portuguesa deixou de prever foi a existência de um anjo protetor dos leitores, a operar atrás desse material perdido para colocá-lo nas mãos de um editor.
Um desconhecido (e único) volume escrito pelo moço Drummond chegou faz pouco tempo até Antonio Carlos Secchin, ensaísta e crítico literário dedicado a abastecer de raridades sua biblioteca em Copacabana, no Rio de Janeiro – um oásis que abriga 12 mil obras de literatura brasileira. Encadernadas numa firma de bairro, sob capa elegantemente azul, as páginas de aprendiz reuniam versos datilografados por uma jovem Dolores Dutra de Morais, já noiva do poeta de Itabira (MG). Esses mesmos 25 Poemas da Triste Alegria, assim intitulados, saem em meados deste mês, quase um século depois de concebidos, pela Cosac Naify. A edição é a nata de uma série de lançamentos e relançamentos que, desde o início de 2012, vem celebrando os 110 anos do escritor. Ele também receberá justíssima homenagem na 10ª Festa Literária Internacional de Paraty, programada para o começo de julho.
No meio do caminho que vai desde 1924, quando se deu a publicação artesanal, até os dias atuais, o tal volume único foi presenteado por Drummond ao amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade – e este o emprestou a uma terceira pessoa ou o devolveu ao poeta, segundo diferentes versões. Ao menos dois outros autores modernistas leram os poemas: Mário de Andrade, que enviou carta a Drummond com uma apreciação quase demolidora em 1926, e Manuel Bandeira, que se referiu a alguns em tom mais ameno numa crônica de 1958. Quem forneceu o exemplar a Secchin é outro bibliófilo, cuja identidade o crítico prefere manter em sigilo. “Gosto de dizer que livro raro não tem procedência. Tem destino”, brinca o estudioso, que jamais ouvira falar da obra até vê-la pela primeira vez. “O bibliófilo que descobre um livro desses, exemplar único, comprova que o paraíso existe, mas fica na Terra.”

PIOR COISA DO MUNDO
Inusitada por revelar a face extraviada do aprendiz de poeta, a obra carrega graça e valor adicionais por aquilo que ocupa seus espaços em branco: os comentários ao lado de cada poema feitos à mão pelo próprio Drummond, quando teve o volume novamente consigo em algum momento de 1937. Nas muitas linhas, que preenchem às vezes página inteira, ele ironiza o jovem que havia sido 13 anos antes. Mário de Andrade figura entre os mais citados nas anotações: “(O poema) Momento Feliz é a coisa pior deste mundo”, escreve o literato mineiro, concordando com a crítica do autor de Macunaíma, que ameaçara romper a amizade se aquilo fosse publicado. Mais adiante, ao reler versos de Convite Semanal, Quase Noturno e Ninguém Sabe, Drummond confessa sentir orgulho por ter abandonado a retórica, o penumbrismo (corrente literária fortemente intimista de inícios do século 20) “e outras covardias intelectuais”. Esforça-se para encontrar ali alguma “substância mais vivida do que literária”, e não acha.
No prefácio que redigiu para o lançamento da Cosac Naify, Secchin define Os 25 Poemas da Triste Alegria como um “quase livro de pré-poeta”, constituído de dois livros paralelos. Um é o do jovem e hesitante autor, antes de ser modernista. Outro, o do crítico de si mesmo. Ambos os ângulos podem ser contemplados pelo leitor nessa reedição, fac-similar. As imagens das páginas originais – que se espalham ao longo de todo o novo volume – foram fotografadas por Vicente de Mello, especialista em reproduzir obras de arte. A caligrafia pequena do escritor não deverá causar desconforto. A parte manuscrita é mantida, mas há também sua transcrição em letra de fôrma para que se tenha mais uma opção de leitura, explica o editor Milton Ohata. O livro inclui, ainda, textos de época assinados por Drummond e encontrados em arquivos mineiros, que ajudam a compreender o que ele pensava sobre poesia.
O poeta aprovaria tal inconfidência? “O método infalível para proscrever um livro juvenil é destruir os originais”, responde Secchin. “Se não o fez, e ainda por cima o repassou a outrem, quem sabe até para evitar tentações predatórias, é porque desejava preservá-lo.” Se é menor o valor literário, avalia, é muito maior o valor como documento da formação do autor. Desde a redescoberta do livro, a ideia da reedição agradou à família Drummond.

PEITO ABERTO
De trajetória clandestina, lembrado muito esparsamente pelo escritor e pelos amigos que viram esses primeiros versos, o novo volume de inéditos surpreenderá até seus leitores mais dedicados. Entre lembranças, entusiasmo e humor, poetas e críticos que há décadas acompanham a obra do mineiro receberam parte da edição pela internet para comentá-la livremente, a pedido de BRAVO!. “O fac-símile me levou de volta aos 20 anos, quando organizei uma coletânea de minhas poesias e mandei os originais a Drummond”, recorda-se a paranaense Josely Vianna Baptista, autora de Ar, Corpografia e do recente Roça Barroca.
Ela conta que o poeta lhe escreveu uma carta amistosa, “com aquela mesma letrinha inconfundível de 1937”, na qual citava versos seus dos quais não a salvou o anjo protetor dos literatos novos. “Vêm-me à cabeça as frases, entre gentis e travessas, em que ele dizia ser importante não ‘temer malambas nem remandiolas’, palavras que cometi no tal poema e que, revisitadas de próprio punho por Drummond, com o tempo passaram a me parecer brejeiramente irreverentes.” Sobre a correspondência entre Drummond e Mário de Andrade, observa: “Interlocução de primeira, sem suscetibilidades nem narcisismos feridos, séria, sincera e nada sisuda”.
Poeta drummondiano nascido no Rio, Armando Freitas Filho, autor de obras como A Mão Livre e Lar, garante que nada falaria sobre o livro oculto se Drummond estivesse vivo, “pois ele brigaria comigo”. Como teme que o fantasma do amigo venha lhe puxar o pé, ele diz o “óbvio e verdadeiro”: ninguém analisa melhor os poemas do que o próprio autor. “Ouso, contudo, afirmar que esse Drummond inicial esboçou em Ninguém Sabe a potência que irromperia em José, muitos anos depois. Que poeta aprendiz conseguiria tamanho feito, com tal excelência, sobre sua poética futura? Uma antevisão desse teor não é meramente inconsciente, mas fruto coeso de uma vocação irrepreensível e insuperável.”
Para os estudiosos, o valor do livro como documento de formação é o que mais sobressai. “Trata-se de uma coletânea fascinante”, comemora John Gledson, crítico literário inglês que traduz e estuda, além do poeta mineiro, o romancista carioca Machado de Assis. O que, naqueles versos juvenis, seria estranho ao Drummond mais conhecido? “A adesão a uma estética penumbrista, a influência avassaladora de Álvaro Moreyra, de Ronald de Carvalho e de Guilherme de Almeida, as repetições de certas palavras, como ‘ironia’ e ‘indiferença’, além das indefectíveis menções a paisagens crepusculares, jardins e estrelas”, responde Gledson.
Os inéditos também reforçam ângulos do poeta ainda pouco estudados. “Nenhum desses poemas terá feito qualquer falta à obra de Drummond, mas todos interessam por demonstrarem que o jovem escritor sabia bem o que fazer com a música e o ritmo das palavras”, afirma Alcides Villaça, crítico literário da Universidade de São Paulo e autor, entre outros, da coletânea de ensaios Passos de Drummond.
Na opinião de Sérgio Alcides, crítico literário da Universidade Federal de Minas Gerais, o mais emocionante no livro são os comentários do Drummond maduro, ou nem tão maduro, mas já “feito”. “Há mistura de carinho e repulsa nesse reencontro consigo mesmo. O maior desconforto do poeta, ao reler suas tentativas antigas, é que elas são ‘meramente literárias’ (no mau sentido).” Os artigos de crítica incluídos na edição também merecem atenção, pois mostram que Drummond se expõe mais do que passaria a fazer depois da década de 1940, diz o professor da UFMG. “Os textos revelam a atenção que um jovem poeta de província dedicava ao contemporâneo, aos debates do seu tempo, com muita ânsia de participação, de tomada de posição. Ele escrevia de peito aberto, mas sem nenhuma leviandade – o que é muito bonito e raro numa pessoa assim tão jovem.”



Os poemas que acompanham esta reportagem são ­­­­fac-símiles­ da edição do autor (como A Sombra do Homem que Sorriu) ou transcrições que mantêm a grafia original (caso de Primavera nas Folhinhas e nos Jardins).
li-poema-drummond-1
PRIMAVERAS NAS FOLHINHAS E NOS JARDINS
O PERFUME DAS ROSAS ENTRA-ME PELO QUARTO,
NUMA LUFADA DE PRIMAVERA.
E EU FICO, DESVAIRADO, A SENTIR O PERFUME,
O PERFUME DAS ROSAS, PELO QUARTO...

NUMA LUFADA DE PRIMAVERA!

QUE BOM, LER OS POETAS SADÍOS,
E NÃO SABER DA LUA, DAS ESTRELLAS,
E NÃO SABER DO AMOR! E NÃO SABER DE TI!
(DE TI QUE ÉS PALLIDA E FEIA,
PALLIDAMENTE FEIA E MELANCOLICA.)
MAS APENAS SENTIR, ALLUCINANTE E FORTE,
O PERFUME DAS ROSAS, PELO QUARTO
NUMA LUFADA DE PRIMAVERA!

li-poema-drummond-2
VÊ COMO A AGUA SUSSURRA
VÊ COMO A AGUA SUSSURRA NO FUNDO DOS TANQUES ERMOS,
COMO A AGUA, INTIMAMENTE, CHÓRA.
E NA FACE DOS TANQUES ERMOS
BOIAM FLORES AZUES, GRANDES FLORES INDIFFERENTES.

A AGUA ESPADANA NO AR, EM FLORIDO REPUXO.
A ALEGRIA DA AGUA, SUBINDO
SOBRE A INDIFFERENÇA AZUL DAS GRANDES FLORES!
- VÊ O REPUXO CAHINDO
NOVAMENTE, SOBRE OS TANQUES ERMOS.

NOS JARDINS,
A IRONIA DA VIDA É FEITA DE BELLEZA.

(QUE RIDICULO PENSAMENTO...)

li-poema-drummond-3
A MULHER DO ELEVADOR
A QUE FICOU LÁ LONGE, NA GRANDE CIDADE...

A QUE EU VI APENAS UM MINUTO, UM MINUTO SOMENTE,
NO ELEVADOR QUE SUBIA.

COM QUE SAUDADE INEDITA EU ME LEMBRO
DA QUE NÃO FOI NEM UMA SOMBRA, UMA SOMBRA FUGAZ,
NO MEU DESTINO.

DA QUE FICOU, SORRINDO, COM UM POUCO DE MIM,
COM UM POUCO DO MEU SER ANONYMO E VULGAR,
A MILHARES DE KILOMETROS, NA GRANDE CIDADE...

Josélia Aguiar é jornalista e doutoranda em história. Edita o blog Livros Etc. na Folha.com.

O Livro: Os 25 Poemas da Triste Alegria, de Carlos ­Drummond de Andrade. Editora Cosac Naify, 255 páginas, R$ 79,90.


REvista Bravo