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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Artigo de Opinião - O preconceito racial - Heleieth I.B. Saffioti

O preconceito racial

Diz-se, à boca miúda, que no Brasil há democracia racial. Nada seria mais inverídico do que esta afirmação. Basta examinar as estatísticas para se verificar que os negros estão nas ocupações menos prestigiadas e mais mal remuneradas, que apresentam graus baixos de escolaridade, que não participam do poder político. Existem clubes que não aceitam servir negros, barrando-os na porta ou fazendo-os esperar indefinitivamente à mesa.
Alguns ditos populares expressam eloquentemente o preconceito de que é alvo o negro brasileiro: “Negro, quando não suja na entrada, suja na saída”;” A situação está negra”; “Ele é um negro de alma branca”
(...)
Para justificar as discriminações praticadas contra negros e pardos, evocam-se, frequentemente, fatos do gênero “ negro é sujo”, “negro é pouco inteligente”, negro é supersticioso”. Rigorosamente, deve-se inverter o raciocínio, pois tais características, ao invés de terem sua origem na raça, são conseqüências da desigualdade social entre os brancos, que dominam os negros, que sofrem a dominação.
Obviamente, se um grupo social tem menor número de oportunidades na vida, em função dos preconceitos que pesam sobre ele, encontram-se em seu interior maior número de miseráveis, grandes contingentes de analfabetos e de pessoas pouco escolarizadas, massas imensas de pessoas vivendo em condições de promiscuidade. Assim, se os negros forem, efetivamente, proporcionalmente mais sujos que os brancos, esse fenômeno deriva das condições sociais em que vivem. Tomar banho diariamente é fácil para aqueles que dispõem de água corrente em casa. Não encontram a mesma facilidade aqueles que residem em favelas, sem água encanada, sem energia elétrica. Assim, a higiene pessoal não é reflexo da raça, mas sim das condições sociais de existência.
Quando ao negro se oferecem boas condições de desenvolvimento, ele poderá revelar-se tão bom ou melhor que o branco.
Na sociedade brasileira não são apenas os negros e mulatos que sofrem discriminações. Estas existem contra índios, contra negros e mulatos, já que, somados, eles perfazem cerca de 45% da população nacional.


(Heleieth, I.B. Saffioti. O poder do macho. São Paulo. Moderna. 1987, p. 51-2)

Tá na Hora do Poeta - Meus oito e poucos anos

Meus oito e poucos anos


Oh! Que saudades eu tenho
Da época sem preocupãção
Em que não me estressava na escola
E passava o dia todo jogando bola.

Tudo era providenciado, quarto organizado,
sapato lavado
E eu inocente
Correndo em círculos e pulando igual a um "demente".

Que época boa! Era feliz e não sabia
Mesmo nos dias em que me ralava
Tinha minha mãe que me cuidava.

Sempre tinha o que fazer
Quebra cabeça, carrinho, tudo para me proporcionar lazer.
Não tinha que me preocupar com dever
E feliz queria viver.

Ai que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Daquele tempo bom
Que não vai voltar mais.

Hoje estou cheio de responsabilidades
E minha mãe não me entende,
Só faz gritar "Vai estudar, menino!"
Qual a graça de crescer, de não ser mais criança
Se ainda tenho que obedecer ?

Oh! Que saudades que tenho
Da época ensolarada da minha vida
Da minha infância amiga
Que os anos levaram rápido demais!

Pedro Chaves Folkerts
Turma 802 / Ativo / 2012

Tá na Hora do Poeta - Toda briga exige uma desculpa

Toda briga exige uma desculpa

Oxum calma
como sempre,
mas Odé nervoso
pelo rio,
que fica entre sua floresta.

Odé odiava suas enchentes
e de raiva
não parava de roer os dentes,
queria que ela fosse embora
parasse com sua missão,
mas depois da briga que ele fez,
não se perdoa, não.


Oxum não queria se separar,
não queria deixar
os seus animais amigos
mas o sacrifício tinha
de ser feito.
Odé tinha que pensar
nos seus erros antigos
Mas depois dos animais
morrerem de sede
Odé parou para pensar
e depois de pedir
bastante
Oxum pode perdoar...

Justin Elias Rosa Mccarthy
Turma 801 / Ativo / 2012


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Tá na Hora do Poeta - Oxóssi

Oxóssi
 
Olorum gerou Oxóssi
Usou sua fartura
Fazendo dele
Uma grande criatura.
 
Seu tempo foi curto
Na sua morada interior
tornou - se um jovem ágil
E muito protetor.
 
Sendo ele
Muito ágil e expedito
Foi nomeado a Orixá
Um nome também bonito.
 
 
Sempre na frente
Andando com carinho
Apontando o perigo
Escolhendo o melhor caminho.
 
Yemanjá sua devota
O procura sempre
Para evitar
uma derrota.
 
 
Vagareza e acomodação
Não fazem parte
de seu coração
 
Aprendeu com Yemanjá
a andar sobre as águas
sem se molhar e sem se afogar
 
Leva sempre para ela
Um presente
Copiado por nós
Que presenteamos muita gente.
 
Oxóssi
nunca se perde numa mata fechada
Afinal ele é o Orixá da caçada
 
Ele é amado
pelas ninfas dos vegetais
Elas o abraçam 
E não querem soltá - lo jamais.
 
 
 
Quem seguir
os passos de Oxóssi
pelas matas
ganha uma prenda.
Ou será que é apenas uma lenda?
 
 
Angelo Moreno Bastos
Turma 801 / Ativo / 2012
 
 

Tá na Hora do Poeta - Oxum - Gabriela Boechat

Oxum
 
Oxum - deusa da água doce,
sua beleza encantadora,
seus cabelos brilhantes
e sua voz conquistadora
a tornam bem interessante.
 
 
Sobre a arte da adivinhação
queria saber Oxum.
Depois de horas pensando
lembrou-se de Exu.
Oxum interessada,
foi logo querer saber da "parada".
 
A proposta de Exu era clara,
sete anos em seus domínios
E Oxum aprenderia sobre a adivinhação,
mas com uma condição:
Oxum deveria lavar e arrumar a casa,
sem poder dizer "não".
 
Findando-se os sete anos,
o apego dos dois era tanto
que Oxum resolve ficar,
assim os dois começaram a se amar.
 
Certo dia quando ela estava a lavar roupa,
Xangô avistou Oxum
Com sua voz encantadora
Xangô se apaixonou,
Olhou direito e logo se aproximou.
 
Oxum contou-lhe do seu amor,
Sentindo - se negado Xangô logo a raptou
Sem pena, no alto da torre Oxum trancada ficou
Sentiu - se triste, pois havia sido enganada.
 
Exu a procurou no mundo todo,
quando estava para desistir,
deitou - se à sombra de uma árvore,
quando escutou o belo canto de Oxum,
sentiu que deveria ir.
 
Oxum estava trancada em um círculo mágico
As esperanças de Exu foram embora,
mas graças a um pó mágico
Oxum virou uma pomba,
Voltou para casa
E eles viveram felizes para toda glória.
 
 
 
Gabriela Boechat
Turma 801 / Ativo / 2012
 
 
 
 

Te Contei, não ? - Educação Étnico Racial: Momento Crucial - Mauricio Pestana



Se o caminho para a erradicação da pobreza, da miséria e do racismo é a educação, nunca esta estrada foi tão pontuada como na atualidade. A lei 10.639 – que obriga o ensino da História da África e seus descendentes – prestes a completar dez anos, começa a ser avaliada. Paralelamente, medidas como a recente aprovação das cotas nas universidades federais pelo Supremo Tribunal Federal apontam para um novo momento em que a sociedade civil, por meio dos movimentos sociais, tem cumprido papel essencial para esses avanços.
Se por um lado a pressão e a vigilância desses setores têm demonstrado resultados excepcionais como os 10 a 0 na votação das cotas no Supremo ou no clima que envolveu o pedido de retirada do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, é na sala de aula que esse progresso encontrou os maiores obstáculos ao se deparar com o inimigo mortal para o seu desenvolvimento: a falta de investimento na formação, no treinamento e na atualização do elemento mais importante desse processo, o professor (a).
Isso fica evidente em um recente estudo realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais, em que se concluiu que a lei não é aplicada na maioria das escolas brasileiras. Quando feito, é realizada de forma isolada por professores engajados na luta antirracista e que, em muitos casos, encontram resistência nos próprios estabelecimentos escolares, seja por parte da direção ou dos colegas de ensino.
Outro dado preocupante da pesquisa é o caráter unicamente festivo e, por vezes, até folclórico em que a lei é disseminada em alguns ambientes escolares, como se fossem, apenas, realizadas palestras, exposições ou encenação teatral sobre o assunto ou apenas no período do “20 de novembro” e não o ano inteiro, cumprindo seu ideário de transformar brasileiros em seres mais conhecedores de suas origens e contribuindo na convivência entre negros e brancos, derrubando obstáculos culturais que impedem nossa aproximação com a África.

Se esses princípios da lei fossem seguidos, episódios como o da professora universitária do Pará que gritou aos berros com um segurança, chamando-o de “macaco”, não aconteceriam, assim como o caso de Contagem (região metropolitana de Belo Horizonte) em que uma avó, também aos berros e indignada, chegou a uma escola infantil gritando: “Quero saber por que deixaram uma negra, preta horrorosa e feia dançar quadrilha com meu neto.” O fato revoltou funcionários do Centro de Educação Infantil e levou a mãe da criança a denunciar a mulher à polícia. A direção da escola também foi acusada de não ter feito nada para impedir as ofensas racistas e ainda ter tentado abafar o ocorrido.
São episódios que demonstram que a lei, invejável por países como os Estados Unidos (recentemente a secretária adjunta, Russlynn Ali, responsável pela poderosa agência que fiscaliza o emprego de milhões de dólares na educação norteamericana, teceu elogios à lei brasileira, numa reunião em Brasília), é avançada na teoria, porém, na prática...
A grande questão que se coloca é a seguinte: se parte dos esforços para a aplicação da Lei 10.639 não forem direcionados para a preparação e o desenvolvimento do professor (a), continuaremos assistindo, ou não (uma vez que não existe monitoramento também de como se está aplicando a lei) cenas lamentáveis como o da professora Daniela Cordovil que, pasmem, leciona na Universidade Federal do Pará matéria sobre religião afro, o que demonstra o tamanho do absurdo a que chegamos.

Revista Raça Brasil

Tá na Hora do Poeta - Omulu

OMULU

Omulu saiu de casa
De cidade em cidade
Procurava emprego
Para sua necessidade.

Não lhe davam o que fazer
Acabou passando fome
Teve que pedir esmola
Para sobreviver

Foi viver na mata
Com seu cachorro querido
Comia o que a mata oferecia
Mas estava cada vez mais ficando ferido

Omulu estava dormindo
E ouviu uma voz misteriosa
Quando acordou não tinha mais feridas
E saiu para cuidar do povo que foi uma missão trabalhosa

Omulu foi o escolhido
Para curar uma peste que infestava a terra
Ele salvou o povo
E criou um mundo novo

Omulu de "mendigo"
Passa a curador
Todos o recebiam com festa
E louvor.

Até quem negou a dar esmola
Implorava para ser curado
E Omulu com seu carinho
Salvava os necessitados.




Pedro Chaves Folkerts
Turma 802 / Ativo / 2012

sábado, 3 de novembro de 2012

Te Contei, não ? - Cenas da infância sul - africana


Cenas da infância sul – africana

Fernando Rossetti
De Johasnesburgo

Quem tem mais de 4 anos na África do Sul  nasceu em um pais onde tudo era dividido pela cor da pessoa. Por exemplo: havia escola só para alunos brancos e escola só para negros.
As maiores cidades eram habitadas só pelos brancos.
Em volta das cidades ainda existem grandes favelas, onde moram os negros. Havia também bairros de pessoas “amarelas” e de pessoas mulatas ( mistura de branco com negro ).
As crianças de cada cor eram proibidas de brincar umas com as outras. Como a vida inteira elas ficavam separadas, acabavam sendo preconceituosas sobre as crianças de outras cores.
Preconceito é uma opinião ou ideia que a pessoa tem sem conhecer como as coisas são de verdade.
Isso tudo que acontecia na África do Sul se chamava “apartheid”. Era um conjunto de leis que impedia as pessoas de diferentes cores de se misturarem durante mais de 40 anos.
Desde 1990, a África do Sul começou a mudar essas leis. Este ano, pela primeira vez, foi eleito um presidente negro, chamado Nelson Mandela.
Agora, crianças brancas começam a ficar amigas das crianças negras. Ela já podem ir a mesma escola, usar o mesmo clube, atravessar a mesma ponte ( até isso era dividido ).
Mas ainda é muito difícil encontrar crianças brancas e negras fazendo coisas juntas.
O problema é que os brancos são mais ricos do que os negros. A pobreza dos negros torna o lugar onde eles vivem muito violento, parece algumas favelas do Brasil.
Com o fim do apartheid, há esperança de que as diferenças acabem e que a próxima geração de crianças possa viver em um país onde todos sejam amigos, independente da cor da pele.

Publicado no Jornal Folha de S.Paulo, Folhinha, 28/10;1994.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Te Contei, não ? - Ecos da Escravidao


No anúncio de tevê feito para atrair turistas pelo governo da Bahia, o menino dizia que, quando crescesse, queria ser capoeirista como o pai. Por volta das 10 da noite de 21 de novembro do ano passado, Mestre Ninha, pai de Joel da Conceição Castro, chamou os filhos para dentro de casa, no instante em que a polícia fazia uma incursão pelo bairro onde mora a família, Nordeste de Amaralina, um dos mais violentos de Salvador. Segundos depois, o garoto foi atingido por uma bala perdida e morreu. Tinha 10 anos de idade.
A história do menino que não realizou seu sonho por não ter crescido, infelizmente, não é exceção. Como ele, cerca de outras 50 mil crianças, jovens e adultos, morrem vítimas de assassinato todos os anos no País, brancos e negros. Mas negros, como Joel, morrem em proporção muito maior. E o pior: a diferença tem aumentado nos últimos anos. Em 2002, foram assassinados 46% mais negros do que brancos. Em 2008, a porcentagem atingiu 103%. Ou, em outras palavras, para cada três mortos, dois tinham a pele escura. Quem maneja os dados preliminares de 2009 diz que a situação piorou ainda mais.
Não bastasse, os crescentes investimentos em segurança pública feita pelos estados e pela União parecem ter beneficiado, como de costume, a “elite branca”, como definiu o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo. Entre 2002 e 2008, o número de brancos assassinados caiu 22,3%. A morte de negros cresceu em proporção semelhante: os índices foram 20% maiores, em média. Em algumas unidades da federação, os números se aproximam de características de extermínio: na Paraíba, campeã dessa triste estatística, são mortos 1.083% (isso mesmo) mais negros do que brancos. Em Alagoas, 974% mais. E na Bahia, a terra do menino Joel, os assassinatos de negros superam em 439,8% os de brancos.
Até mesmo entre os suicidas os negros mortos superaram os brancos. Houve crescimento de 8,6% nos suicídios de cidadãos brancos, mas, entre os negros, os que tiraram a própria vida aumentaram 51,3%.
Os critérios utilizados para definir a “cor” das vítimas de violência são os mesmos do censo do IBGE. Nos atestados de óbito do Brasil, a partir de 1996, mais notadamente desde 2002, passaram a ser apontadas as características físicas dos mortos. Foram considerados no estudo todos os classificados como “pardos”, “pretos” e “negros” para chegar a esses números que assustam, em um País onde, como alguns insistem em dizer, principalmente nestes dias de carnaval, “não existe racismo”. Os passistas, puxadores de samba e operários das escolas de samba, que serão saudados como exemplos do “congraçamento de raças” são os mais propensos a perder a vida, sem confete, sem serpentina e em alguma esquina escura da periferia.
Surpreende que os indicadores tenham piorado mesmo com as políticas de ação afirmativa promovidas pelo governo Lula desde 2002 e com a melhora nos índices de Desenvolvimento Humano no Nordeste, região em que a violência mais cresceu, segundo os dados oficiais.
Obviamente, a desigualdade é um dos fatores a explicar esse abismo. Quanto mais um país enriquece e proporciona condições semelhantes a seus cidadãos, mais a criminalidade tende a diminuir. Mas ela não é o único fator a ser levado em conta. O Brasil experimentou um bom crescimento da economia nos últimos anos, associado a uma maior distribuição de renda. Mesmo assim, a melhora nos números de violência tem sido pontual, quando não cresce, a depender da localidade analisada. “A ineficácia das instituições de coerção também tem um peso importante no estado das coisas”, diz o cientista político José Maria Nóbrega, professor da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba.
Sobre a incrível curva ascendente dos homicídios em seu estado natal, sobretudo no Maranhão, que já foi o mais tranquilo e em dez anos quadruplicou os assassinatos, Nóbrega é partidário da mesma teoria de vários de seus colegas estudiosos da violência: como ampliou-se o cerco nas maiores capitais do País – Rio e São Paulo, onde diminuíram os homicídios –, o foco da criminalidade deslocou-se para as cidades menores e para outras regiões. “A violência não migrou apenas do Sudeste para o Nordeste, mas das áreas metropolitanas para o interior. A Paraíba é uma exceção, porque ainda não se aplicaram políticas sérias contra o crime na capital.”
O resultado é que tanto em João Pessoa quanto em municípios menores os índices explodiram nos últimos anos. No Mapa da Violência, a capital paraibana aparece como a quarta onde os homicídios mais cresceram entre 1998 e 2008. Mas um município como Bayeux, na região metropolitana, com cerca de 95 mil habitantes, teve 84 assassinatos por 100 mil habitantes em 2009, um índice “avassalador”, segundo Nóbrega, comparado à média nacional, de 26,4 homicídios anuais.
Nas páginas policiais dos jornais, volta e meia aparecem notícias sobre a descoberta de grupos criminosos originários do Sul e Sudeste. Há duas semanas, a Polícia Federal desarticulou, em Salgueiro, Pernambuco, uma quadrilha ligada ao PCC paulista instalada em pleno sertão. Ao todo, 13 suspeitos foram presos. O esquema consistia em importar drogas de São Paulo e, a partir da pequena Salgueiro, com 52 mil habitantes, redistribuir para a Bahia, Pernambuco e Piauí.
“Os criminosos seguem táticas de guerrilha”, explica o sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz, que estuda a violência no Brasil há 15 anos e é o autor do Mapa da Violência. “Lembra-se daquela cena dos traficantes fugindo para o mato quando a polícia ocupou o Morro do Alemão? Então, o crime só parte para o confronto quando possui superioridade numérica. Quando tem minoria, submerge. Como em algumas capitais eles ficaram em situação de inferioridade, migraram para outras.”
Para o caso da mortandade dos negros mais especificamente, Waiselfisz levanta duas hipóteses. A primeira delas, compartilhada por diversos especialistas, é que acontece  com a segurança o mesmo ocorrido com a educação e a saúde: a privatização. Assim como quem possui condições financeiras vai a escolas particula-res, tem plano de saúde e por isso acesso a melhores hospitais, também se protege melhor do crime quem tem mais dinheiro. As guaritas, grades, carros blindados, os filhos com celular e os seguranças privados (em geral policiais fazendo bicos) protegem da violência as classes sociais mais altas e mais brancas.
Se essa é uma causa, digamos, privada, a outra razão é de responsabilidade direta do poder público.
“Tudo indica que as políticas que estamos desenvolvendo desde 2002 no setor de segurança, em muitos estados, se dirigem fundamentalmente aos setores mais abastados da sociedade”, critica o sociólogo. “Se a maioria dos negros é pobre, é óbvio que não serão beneficiados.”
Realmente, o problema no Brasil não parece ser a escassez de investimentos, mas a sua aplicação. No ano passado, os governos municipais investiram cerca de 2 bilhões de reais no setor, segundo cálculos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Renato Sérgio de Lima, secretário-geral do Fórum, reforça a tese da assimetria: “Os investimentos historicamente ficaram concentrados nas capitais e regiões metropolitanas. Com o crescimento das cidades do interior, era natural que os índices de violência aumentassem. Mas eles só atingiram esse patamar tão elevado porque os municípios não estavam preparados para o problema”.
O caso de Salvador corrobora a opinião de Waiselfisz. Uma análise das chamadas Áreas Integradas de Segurança Pública (Aisp), criadas em 2009, leva à impressão de que se tem na capital baiana um verdadeiro apartheid por bairro, em termos da relação entre o número de policiais e habitantes. Enquanto os bairros onde moram os mais ricos, como a Barra e a Graça, possuem a proporção de um policial para cada 200 habitantes, bairros mais populares, como Liberdade e Pirajá, têm um policial para cada 2,1 mil habitantes.
Há algo mais grave, segundo Carlos Alberto da Costa Gomes, coordenador do Observatório de Violência da Bahia e professor de Desenvolvimento Urbano na Universidade de Salvador. “O policiamento na capital da Bahia é centrado em viaturas. Isso, na cidade oficial, que tem ruas, é eficiente. Mas, no que chamo de ‘cidade informal’, onde moram 70% dos soteropolitanos, as viaturas não chegam, o acesso é difícil a automóveis. Isto favorece o surgimento de enclaves propícios à criminalidade. E, é claro, a maioria dos que vivem neles é negra.”
Agora, em virtude do carnaval em Salvador, espanta-se Costa Gomes, o governo estadual prometeu deslocar 23 mil policiais para salvaguardar a folia. Sendo o efetivo total no estado de 33 mil policiais militares e 6 mil civis, não são poucos os que se perguntam: como fica o restante da sociedade? “Todo o efetivo policial vai ser colocado a serviço de algo no qual quem lucra é o empresário, a iniciativa privada”, afirma Gomes. “Não sou contra o carnaval, mas estamos mesmo adotando o modelo correto?”
Junta-se aos assassinatos em brigas de grupos rivais, dívidas de tráfico ou vinganças a ocorrência da violência policial, de que também são vítimas uma maioria de negros. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), a proporção de pretos e pardos mortos pela polícia é maior do que na população em geral.
A socióloga Luiza Bairros, ministra da Igualdade Racial, opina que o problema começa na forma como os policiais são treinados para enxergar o negro. “A imagem utilizada para compor o criminoso é calcada na pessoa negra, mais especificamente no homem negro. O negro foi caracterizado como perigoso em estudos de criminologia e o lugar onde ele mora é visto como suspeito. É automaticamente enquadrado nas três possibilidades de construção da suspeição: lugar, características físicas e atitude. Ou seja, como o racismo institucional existe, acaba moldando o comportamento de boa parte da corporação.”
Em São Paulo, em abril do ano passado, o motoboy Eduardo Luís Pinheiro dos Santos, de 30 anos, foi espancado até a morte no 9º Batalhão da PM, no bairro da Casa Verde. Havia sido detido, ao lado de outros dois suspeitos, para investigação de um furto de bicicleta. Para ocultar o crime, os policiais abandonaram o corpo de Santos a duas quadras do batalhão. Depois, o levaram já morto a um hospital e registraram um boletim de ocorrência falso, como se o motoboy tivesse sido encontrado na rua inconsciente, mas ainda com vida. O Ministério Público denunciou 12 PMs pelo homicídio. A Ouvidoria da Polícia não descarta a possibilidade de as agressões terem sido motivadas por preconceito racial.
“O motoboy era um negro próximo do local onde uma bicicleta foi furtada, logo um suspeito em potencial para a polícia”, afirma o ouvidor da polícia, Luiz Gonzaga Dantas. “Infelizmente, muitos policiais ainda se portam como verdadeiros capitães do mato dos tempos da escravidão. O negro, pobre e marginalizado, é sempre visto como suspeito e rotineiramente é vítima de abordagens truculentas.”
Apenas no ano passado, a polícia paulista matou 495 indivíduos. O número é menor que a média registrada em 2009, quando 524 foram mortos em operações policiais, mas não há motivo para comemoração. “Trata-se de um índice de letalidade altíssimo, um dos maiores do mundo. E devemos recordar que, em 2008, o número de homicídios cometidos pela polícia era bem menor, 371”, comenta Dantas. “Não concluímos o levantamento, mas posso garantir que a grande maioria das vítimas tem o mesmo perfil: homem, jovem, negro e pobre.”
A ministra da Igualdade Racial lembra que sempre houve, dentro do movimento negro, muitos policiais que conseguem entender o racismo institucionalizado e que lutam contra ele. “Em todos os países onde isso mudou, como na Inglaterra, foi porque houve ação e organização dos policiais negros. Se o movimento é criado dentro da corporação tem maior legitimidade.”
Para Luiza Bairros, a política de cotas não foi suficiente para diminuir os índices de criminalidade entre a população negra porque atinge apenas a parcela que conseguiu concluir o ensino médio. E em termos populacionais, a parcela incapaz de concluí-lo é muito maior. “Existe um fenômeno nas cidades de diminuição das matrículas no ensino fundamental nos turnos vespertino e noturno. E as pessoas fora da escola são exatamente o contingente mais atingido pela criminalidade”, afirma a ministra. “Por isso, acho oportuno que o governo fortaleça agora o ensino médio e profissionalizante.”
É possível, no entanto, que para reduzir os homicídios de negros as políticas de ação afirmativa na área da educação precisem, de alguma forma, ser reproduzidas na segurança pública. Os especialistas criticam o foco na investigação do crime já ocorrido, em vez de, estrategicamente, analisar os locais que favorecem o seu surgimento e agir preventivamente. A solução mais consagrada atualmente é o policiamento comunitário, inspirado nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro. As UPPs estimulam a criação de laços com a comunidade do local protegido e aumentam a confiança dos moradores na polícia, o que pode diminuir a antiga relação de conflito com a população negra. É preciso também acabar com a sensação generalizada de impunidade.
A propósito, a bala que matou o menino negro Joel, concluiu em janeiro o inquérito feito pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia, saiu da arma de um policial. A única punição para os nove envolvidos, até o momento, foi o afastamento de operações nas ruas. Passaram a fazer trabalhos internos na PM, mas podem voltar a “proteger” os baianos em 60 dias. Inclusive o soldado Eraldo Meneses Souza, autor do disparo.


* Colaboraram Manuca Ferreira, de Salvador, e Rodrigo Martins, de São Paulo

REvista Carta Capital

Resenhando - O Brasil do quiproquó



Antologia exibe e analisa pioneiros do humor

Livro reúne nove comédias do século 19 escritas por nomes como Machado de Assis, José de Alencar e Martins Pena

Se num grupo mais afeito ao baixo cômico alinham-se Pena e Macedo, em outra frente, de comédia de viés mais moralizante, aferram-se Alencar e Machado
LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
Pioneiros do humor nacional. Com "Antologia do Teatro Brasileiro (séc. XIX) - Comédia", a editora Companhia das Letras entra firme em terreno que vinha sendo ocupado, sem concorrência, pelos selos editoriais da Martins Fontes: a dramaturgia brasileira do século 19.
Em um primeiro volume da série, organizado por Alexandre Mate e Pedro Moritz Schwarcz, contempla-se o gênero da comédia. O livro reúne nove peças de sete autores, numa amostra do que de mais significativo os comediógrafos do oitocentos pátrio já produziram.
Além dos textos de Martins Pena (1815 -1848), Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), José de Alencar (1829 - 1877), Machado de Assis (1839-1908), França Júnior (1838-1890), Artur Azevedo (1855-1908) e Qorpo-Santo (1829-1883), o volume traz excelente introdução de João Roberto Faria, um dos especialistas mais autorizados no assunto em questão.
Faria é o legítimo herdeiro do saudoso crítico e ensaísta Décio de Almeida Prado nos estudos da literatura dramática do nosso país, principalmente daquela produzida pelas escolas romântica e realista, que predominaram no período enfocado.
O estudioso descreve e analisa em minúcia as peças publicadas e as contextualiza na obra de seus autores, comparando-as com o seus outros textos dramáticos relevantes. Ele também explicita a tensão entre autores que utilizaram em suas comédias expedientes populares e outros que os evitaram.
Se num grupo de comediantes mais afeitos ao baixo cômico alinham-se Pena, Macedo, França Júnior e Azevedo, em outra frente, que favorece uma comédia de viés mais moralizante, aferram-se Alencar e Machado.
Como um híbrido dessas duas tendências, Qorpo-Santo combina pulsões moralistas com recursos estilísticos da farsa e da paródia.
SÁTIRA DE COSTUMES
Assim, por exemplo, as duas peças de Pena incluídas, "O Noviço" e "Os Ciúmes de um Pedestre", são representativas da combinação de sátira de costumes com elementos farsescos que caracteriza a produção desse desbravador do cômico nacional.
O mesmo se aplica a "O Primo da Califórnia", de Macedo, e "Maldita Parentela" de França Júnior.
De outro lado, "Verso e Reverso", primeira das comédias de Alencar, exemplifica as intenções edificantes do autor, sintetizadas na proposta de com ela "fazer rir, sem fazer corar".
"Caminho da Porta", de Machado, é exemplar do modelo francês de provérbios que o inspirava, gerador do que Faria nomeia de "comicidade de linguagem".
No caso das duas peças de Qorpo-Santo, "Um Credor da Fazenda Nacional" e "O Marinheiro Escritor", ressaltam as características ambíguas do autor.
Descoberto só nos anos 1960, ele mira o realismo de Alencar, mas opera com as ferramentas de Pena. De fato, escreve para o futuro e é o que mais dialoga com o teatro contemporâneo.

ANTOLOGIA DO TEATRO BRASILEIRO (SÉCULO XIX) - COMÉDIA

ORGANIZAÇÃO Pedro Moritz Schwarcz e Alexandre Mate

EDITORA Companhia das Letras

Jornal Folha de São Paulo

Você já sabe disso ? - Libertados pela arte


Mesmo quando obedece aos dogmas do classicismo ditados pelas escolas de arte mais tradicionais e conservadoras, não se pode negar que, ao fazer arte, o artista expõe o que habita no mais profundo de sua mente e de sua alma. Do Brasil colônia até o período imperial, vários escravizados africanos ou aqui nascidos utilizavam seus aprendizados de artesão para se dedicar à arte da escultura. Segundo o Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, do sociólogo e historiador Clóvis Moura, ao visitar o Rio de Janeiro, em 1846, o viajante inglês radicado nos EUA, Thomas Ewbank relatou: "Esculturas em pedra e imagens de santos em madeira são frequentemente feitas por escravos e negros livres." Identificou como "excelente escultor" e "artista consagrado" um velho africano que vivia no Catete, conhecido por João Vermelho, que o impressionou tanto pela qualidade dos santos que esculpia quanto pelos ex-votos expostos na Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

O MESTRE MAIOR DO BARROCO

Mais de um século antes dessa viagem, porém, nascia em Vila Rica - hoje Ouro Preto - o mestiço Antonio Francisco Lisboa, que ficou conhecido como "Aleijadinho", considerado o maior escultor barroco das Américas. Filho do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa com sua escrava de prenome Izabel, Aleijadinho nasceu escravo - condição conferida a todos os filhos de escravas -, mas foi alforriado pelo pai. Além de exercer seu talento nas artes, integrou a infantaria do Regimento de Homens Pardos de Ouro Preto, frequentava bailes populares e apreciava o álcool. Já na meia idade, foi acometido pela hanseníase, que deformou seu corpo todo, e também por outra doença chamada porfiria. Até morrer, aos 76 anos - ou 84, segundo outras fontes -, debilitou-se tanto que, para que pudesse esculpir, seus ajudantes amarravam as ferramentas no que restou de seus braços carcomidos pela doença.
A despeito desses males, produziu com intensidade em pedra-sabão e realizou entalhes em cedro, deixando um legado de valor inestimável nas igrejas de Vila Rica e em outras cidades mineiras como São João Del Rei, Congonhas do Campo, Sabará e Mariana, entre outras. Também recebeu menções elogiosas de viajantes estrangeiros como o botânico e naturalista francês Auguste Saint-Hilaire e o geólogo alemão Barão de Eschwege. Além de imagens de profetas, santos e vias sacras, há belíssimos portais, adros de igrejas, monumentais frontispícios, imponentes altares e chafarizes.
São também desse período pintores negros como Jesuíno Francisco de Paula Gusmão (1764 - 1819), José Teófilo de Jesus (1758 - 1847), Mestre Valentim (1745 - 1813) e Veríssimo de Souza Freitas (sem registro de nascimento e morte), cujos entalhes, esculturas, quadros e afrescos podem ser vistos em igrejas e algumas edificações antigas. menções elogiosas de viajantes estrangeiros como o botânico Auguste Saint-Hilaire e o geólogo alemão Barão imagens de profetas, santos e vias sacras, há belíssimos portais, adros de igrejas, monumentais frontispícios, São também desse período Jesuíno Francisco de Paula Gusmão (1764 - 1819), José Teófilo de Jesus (1758 - 1847), Mestre Valentim

MÃOS NEGRAS E CLÁSSICAS
Não fosse a dedicação quase obsessiva do também escultor, museólogo e curador do Museu Afro-Brasil, Emanoel Araújo, à pesquisa e também construção de um riquíssimo acervo da arte produzida pela mão afro-brasileira, jamais tomaríamos conhecimento de algumas dezenas de nomes de artistas afro-brasileiros que produziram arte em todas as linguagens e técnicas, alguns dos quais até com algum reconhecimento sem, porém, figurar nas listas dos que mereceram estudos mais aprofundados nas escolas de Belas Artes. Obras desses artistas figuram entre as preciosidades do acervo do museu que tem a curadoria de Emanoel que, por sua vez, não só organizou exposições específicas como elaborou e publicou o livro ricamente ilustrado A Mão Afro-brasileira, já em segunda edição, com dois volumes, num total de 868 páginas.
Entre a segunda metade do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, por exemplo, artistas afro-brasileiros se destacaram na produção clássica, mas jamais foram estudados nem mencionados por historiadores que se dedicam às artes plásticas. Na apresentação de uma exposição de suas obras, Emanuel Araújo foi enfático: "Os maus-tratos, a ignorância e a insensibilidade com que se trata, no Brasil, a história e a memória iconográfica" seriam os responsáveis pelo ostracismo a que foram relegados esses personagens, cuja vida "foi uma interminável batalha, um grande esforço pessoal, de uma tenacidade inimaginável, pela afirmação e reconhecimento de suas obras." A mesma sociedade que estigmatiza um povo, com base em preconceitos construídos por meio de factoides, deveria resgatá-lo a partir de seus valores socio-culturais. E Emanuel conclui: "O fato de seus nomes permanecerem já credencia a raça negra ao reconhecimento da nação pela sua contribuição à construção da cultura brasileira."

Assim tomamos conhecimento de que, naquelas décadas de passagem de séculos, pintores negros e mestiços estudaram na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia Imperial de Belas Artes, viajaram para a Europa e a maioria continuou seus estudos em Paris. Nomes como os irmãos Arthur Timótheo (1882 - 1922) e João Timótheo (1879 - 1932), que morreram num manicômio; Benedito José Tobias (1894 - 1963); Benedito José de Andrade (1906 - 1979); Emmanuel Zamor (1840 - 1917), sobrenome herdado de seus pais adotivos; Estevão Silva (1845 - 1891); Firmino Monteiro (1855 - 1888); Horácio Hora (1853 - 1890); Rafael Pinto Bandeira (1863 - 1896) e Wilson Tibério (1923 - 2005). Este último, gaúcho, se envolveu em movimento revolucionário no Senegal, foi expulso daquele país e retornou à França, onde viveu por anos e permaneceu até morrer.

NEGRITUDE, TEMA RECORRENTE
Seja qual for a linguagem artística escolhida para expressar-se, uma grande quantidade de artistas colocou e coloca nas telas e em esculturas, modelagens ou instalações, de forma figurativa ou não, imagens, signos, cores e formas que registram suas vivências, seus sentimentos, suas crenças, as manifestações culturais de seus povos. Negro ou mestiço, homem ou mulher, hétero ou homossexual, cristão ou devoto de alguma religião de matriz africana, suas produções artísticas, geralmente, estão impregnadas de informações que os revelam. Por isso, a possibilidade de mencionar uma "arte negra", mesmo que sincrética.
Nossas manifestações populares foram registradas, por exemplo, nas telas naif do compositor Heitor dos Prazeres (1898 -1965), muitas delas adquiridas pela rainha Elizabeth. Os signos do candomblé estão em cores vivas nos quadros de Abdias do Nascimento (1914 - 2011), expressão máxima da militância negra brasileira dos séculos 20 e 21, assim como nas máscaras e esculturas de inspiração africana de Agnaldo Manoel dos Santos (1926 - 1962) e na arte emblemática do sacerdote do candomblé Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos), filho de Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, famosa iyalorixá do Ilê Opô Afonjá, exaltada por poetas e intelectuais.
Impossível não mencionar artistas plásticos negros de gerações mais recentes que mantêm viva a herança pictórica afro, como Sidnei Lizardo, o Lizar (1939), cuja inspiração maior é a capoeira, elogiado pelo New York Times; Yêdamaria (1936), que em sua obra expressa a ancestralidade e a feminilidade; Octávio Ferreira de Araújo (1926), que foi assistente de Cândido Portinari e estudou na França, na China e na Rússia; o premiado Jorge dos Anjos (1957), autor de obras como o Monumento Zumbi Liberdade e Resistência - 300 anos, instalado na Avenida Brasil, em Belo Horizonte; Samuel Santiago (1951), autor de máscaras e obras inspiradas nos corpos negros, que ensinou arte a internos da Febem, entre tantos outros.
Não podemos esquecer também os artistas que se valem da linguagem da fotografia para revelar-se e nos revelar, como Walter Firmo, Bauer Sá, Wagner Celestino, Januário Garcia, Luiz Paulo Lima, Mario Espinosa e muitos outros. Enfim, com talento reconhecido ou não, milhares de mãos, mentes e almas negras foram e são fundamentais na construção desse monumento que se constitui nas tão aclamadas, mas igualmente tão pouco conhecidas, artes plásticas brasileiras.

ARTISTAS DE HOJE
SÉRGIO SOAREZ
RELIGIOSIDADE NAS ARTES

As entidades do candomblé sempre foram fontes de inspiração na concepção das esculturas, pinturas e ilustrações do artista plástico e pesquisador, Sérgio Soarez. "Sou do candomblé e guiado pelas divindades Oxossi e Ogum, que me ajudam espiritualmente e condicionam minhas obras." Os primeiros passos do baiano no mundo das artes foram dados por volta de seus 17 para 18 anos, em Salvador, quando decidiu fazer um curso de escultura em madeira no Museu de Arte Moderna (MAM), da Bahia. Outros cursos vieram e ajudaram a complementar sua formação. Em 2010, foi citado pelo diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, no segundo volume do livro A Mão Afro-brasileira, editado pelo Museu: "Suas assemblagens, dedicadas à mitologia dos deuses da religião afro-brasileira, são uma, entre outras, das elaborações estéticas já experimentadas pelo artista. Nelas, alia seu conhecimento e sua prática religiosa numa experimentação estética bem concebida, bem articulada, na união de diferentes matérias, como os fragmentos em madeira, já vividos em outros objetos de diferentes usos nos quais ele trabalha o sagrado com a devoção de seu conhecimento."
Os elementos que representam as duas divindades, Oxossi e Ogum, a madeira e o ferro, respectivamente, são os materiais principais que o artista utiliza nas suas esculturas. "É uma forma de reverenciar esses dois orixás", explica Sérgio. Esses dois materiais muitas vezes já foram utilizados na confecção de outros objetos, portanto, serviram para outros fins. Mas ao serem reutilizados pelo artista como material reciclado, ganham outras utilidades e, principalmente, significados. Sérgio Soarez luta muito para levar sua arte às pessoas. Muitas vezes ficou sem poder fazer uma obra por falta de dinheiro, pois precisava pagar as contas básicas e comer. "O artista negro não tem condições de viver de arte. Muitas vezes ele não tem dinheiro para comprar material para fazer as suas obras. Não tem condições de se qualificar. Ou come ou compra uma ferramenta para fazer seu trabalho, que antecede sua criação", lamenta. Na dualidade entre o fazer artístico e tocar a vida, Sérgio vai tocando o barco, produzindo a sua arte e se aprimorando. Ele, que mora em Salvador, vai de tempos em tempos para São Paulo e Rio de Janeiro visitar exposições, comprar catálogos, fazer algum curso. Quando não pode viajar para o sudeste, se vira vasculhando a internet, segundo ele, uma excelente ferramenta para quem não tem grana para viajar. "Ser negro e artista é um labor constante, mas não queria ter outra vida, ser outra pessoa, adoro o que faço e o que sou", sintetiza.

Lídia Lisboa
o lúdico do lúdico
Ao som do tango Adios Nonino, do compositor e bandeonista argentino, Ástor Piazzolla, ela define seu trabalho: "Eu sou minha própria arte"

Seja como artista plástica - cerâmica, pinturas, crochês de pedaços de tecidos, com miçangas, colares de botões -, como atriz, modelo vivo, ou realizando performances, não há comparativos entre o que ela produz e outros fazeres artísticos. Quem mais poderia ouvir do premiadíssimo pintor e desenhista cearense, Aldemir Martins, de quem foi discípula por 12 anos: "Você vai ser herdeira do meu saber"? Para essa paranaense de 41 anos, nascida em Guaíra, residente em São Paulo desde 1986, fazer arte é semelhante a respirar, ao pulsar do coração. Intensa, além da aplicação de técnicas, ela se atira de corpo e alma, sem rede de proteção, como a mais ousada trapezista. "Não estou presa a nada. Sou livre no meu trabalho. Não tenho de agradar ninguém. Só tenho de agradar a mim mesma. Desculpe-me por eu ser tão verdadeira." Ao falar da instalação Vila das Oyas,projeto vencedor do II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, da Fundação Cultural Palmares, sua exposição de 52 cerâmicas, que ocupou por um mês a paulistana Fibra Galeria e deverá viajar por outros estados do País, seus olhos se enchem de lágrimas: "Me emociono ao me lembrar dos cupinzeiros de minha infância. Me vem à mente a casa de chão batido, de dois cômodos, em que vivia minha família, na Vila Guarani, em Guaíra, cercada por um pasto repleto de cupinzeiros. Um abacateiro era a única árvore que se sobressaía naquele cenário", explica.

CUPINZEIROS INDESTRUTÍVEIS
Seja no sertão brasileiro ou nas savanas africanas, os cupinzeiros lembram a própria resistência do ser humano. Construídos com terra e a saliva dos cupins, eles ganham formas e dimensões inimagináveis, além de uma dureza que os torna indestrutíveis. Com o aporte de Bárbara de Paula, Lídia produziu esse projeto com base na lenda do orixá Oya - também chamada de Iansã - que comanda os ventos e as tempestades, esposa de Ogum e depois de Xangô. Diz a lenda que ela se transformava em búfalo e, quando voltava à forma feminina, escondia sua pele e seus chifres em um cupinzeiro. No projeto, as autoras homenageiam as mulheres, em particular as mulheres negras, provedoras de suas famílias, às quais protegem em fortalezas invisíveis, mas indestrutíveis como os cupinzeiros. Na instalação, os cupinzeiros de cerâmica, em formatos arredondados femininos, são colocados de maneira a lembrar vilarejos ou aldeias. "Eu própria, como minha mãe, sou uma dessas Oyas - afirma Lídia - Vivo de meu trabalho e, mãe solteira desde os 13 anos, criei sozinha minha filha, a atriz Lidi Lisboa (Lidiane Rafaela Lisboa) - a Gracinha da novela Cheias de Charme, da Rede Globo - uma guerreira como eu." Desde 1995, Lídia Lisboa produz peças de cerâmica e decidiu resgatar os cupinzeiros, recriando-os em vários formatos e tamanhos, alguns fálicos, outros mais arredondados como os seios femininos ou a barriga de uma grávida. "O primeiro que fiz, tem 80 centímetros e está na casa de uma amiga, protegido por uma caixa de vidro", comenta emocionada. Mais velha de cinco irmãos, ela se lembra de que foram crianças criadas livres. "Aos seis anos, fiz minha primeira instalação: forrei a cama de campanha de meu tio Paizinho, com folhas de feijão guandu - conta a artista. Ele ficou super intrigado e disse à minha mãe que cuidasse de mim, porque eu não era desse mundo. Anos depois, visitou meu apartamento em São Paulo, e desabafou: 'Agora entendi quem era aquela menina. Era uma artista'. Fiquei superfeliz por ele finalmente ter entendido."
Seu método de trabalho é muito particular, como explica ao falar sobre as cerâmicas da exposição, criadas em cinco meses: "Não faço nenhum estudo anterior. A peça vai nascendo enquanto é produzida. Vira quase uma obsessão. Simplesmente realizo o que idealizo. Farei cupinzeiros até morrer. Terão outras formas, talvez outras misturas de barros. A próxima série será inspirada na Capadócia, que lembra muito cumpizeiros. Quero também me inspirar no mito da Medeia. Hoje estou criando casulos de filó."

TUDO JUNTO E MISTURADO
O pintor, gravador e arquiteto, Gilberto Salvador afirma que Lídia Lisboa "é uma artista que utiliza suas origens, seu feminismo e sua sensualidade para criar obras que nos seduzem, mas que nos impedem a pensar de forma construtiva um universo de formas inusitadas, mas que, apesar das provocações, nos confrontam e nos obrigam a reler de forma brasileira e essencialmente feminina."
Ora segurando as lágrimas, ora rindo desbragadamente de seu próprio comportamento, explica que sua terapia é sua arte e que "quando tenho de ser dura, não há ninguém melhor que eu." Depois, admite que, por algum tempo, submeteu-se à análise, o que a ajudou a superar seus medos. "Tinha medo de coisas boas, inclusive do sucesso e de elogios. Mas descobri que a força maior do universo conspira a meu favor."

LUIS MARTINS - A LITERATURA NAS ARTES
Ele não gosta de dizer que é um artista plástico, termo muito amplo para designar o que faz. "Sou um escultor, desenhista e gravador, apesar de já ter pintado e feito outras coisas. Acho que essas funções das artes plásticas representam melhor o que faço." Luis chegou a São Paulo quando tinha 17 anos, vindo de Machacalis, cidadezinha das Minas Gerais. Trabalhou com um pouco de tudo e teve a sorte de ter contato com outros artistas plásticos como Zélio Alves, de quem foi assistente. "Sou autodidata, apesar de ter feitos alguns cursos. Minha arte foi sedimentada nas observações, pesquisas e nas minhas experimentações de artesão. Aprendi fazendo, lendo e pesquisando", explica. O artista já fez várias exposições individuais no Brasil, como a que realizou no Museu Brasileiro da Escultura (MuBE) e na Caixa Cultural de São Paulo. Também já expôs em alguns países da Europa, como Dinamarca e Áustria. Em Viena, Luiz Martins encontrou o lugar ideal para divulgar suas obras. "A Europa tem várias culturas e esse choque cultural te ajuda a reciclar a tua obra e te mostra outros caminhos para tua arte." Atualmente, Luiz está com dois projetos: a exposição e instalação Ethlos.33, que consiste de 33 desenhos novos que irá trazer um cubo de bronze de três metros de aresta. Dentro desse cubo escuro, o artista vai mostrar quatro esculturas revestidas de bronze. A fonte de inspiração surgiu das leituras que fez nos últimos anos. "Adoro filosofia, principalmente as obras de Friedrich Nietzsche. Numa dessas leituras tomei conhecimento do poeta grego Treogus, que fala sobre esse termo, ´Ethlos` que tem um significado bem amplo e simbólico. Trata da ideia de uma existência plena, tangível, seja no campo simbólico do catolicismo ou nas reflexões que Friedrich Nietzsche recupera do poeta grego Theogus." A curadoria dessa nova exposição do artista ficará a cargo de Paulo Miyada, doutorando do curso de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP). O outro projeto é um livro que recupera parte da obra de Luiz Martins nessas mais de duas décadas.


(Por: Amilton Pinheiro)

Revista Raça Brasil