sábado, 7 de abril de 2012

Te Contei, não ? - Através de uma curiosa filosofia o personagem Stroibus tenta provar que a essência das capacidades e dos atos humanos está nos animais






Quando se lê alguma prosa machadiana, percebe-se que em alguns casos Machado de Assis retoma temas e ideias anteriores, tratando-os com desenvoltura em qualquer situação. Histórias sem data é um livro de contos publicado em 1884. Nele há um conto intrigante, "Conto Alexandrino", uma espécie de patinho feio dos contos machadianos, se comparado com outros contos badalados pela crítica.

Em rápida síntese, para que o leitor possa entender com algum conhecimento de causa o que se diz a seguir, é a história de dois filósofos, Stroibus e Pítias, que querem provar que todas as essências humanas encontram-se nos bichos. Para desenvolver uma essência qualquer, basta beber o sangue do animal escolhido. Assim, o rato faria o ladrão; o pavão faria o enfatuado; o boi faria o paciente; a aranha faria o músico, o geômetra, o sábio etc. Os dois beberam o sangue de rato e viraram ladrões, foram presos e sacrificados com o mesmo processo que usaram para sacrificar milhares de ratos para a sua experiência, isto é, através da vivissecção, para estudos e proveito da própria humanidade. Tudo é válido em prol da ciência, que, em meados do século XIX, passou a ser a deusa da verdade. O ideal é mesmo você ler esse conto! ( ver Marcadores = Conto / Machado de Assis / Realismo )

Para este ensaio, escolhemos dois motes que se repetem nas histórias de Machado de Assis: a criação fictícia de pseudoteorias científico-filosóficas e o uso do rato como símbolo da exploração do homem pelo homem.

Essências humanas nos bichos

Ainda sabemos pouco sobre os laços emocionais dos animais vertebrados - sabemos que são seres sencientes, ou seja, que sentem, mas não pensam. Não têm consciência como os humanos, mas eles conseguem avaliar as ações dos outros e de lembrar suas próprias ações e consequências, alem de saber avaliar riscos. Os primatas têm sentimento de perda, como comprovam inúmeros casos em que um deles, perdendo um parente entram em desespero e depressão. Cães e gatos domésticos costumam ter reações semelhantes, quando perdem seus donos ou outros animais de companhia.

A CRIAÇÃO FICTÍCIA DE PSEUDOTEORIAS CIENTÍFICO-FILOSÓFICAS

Leem-se muitos estudos sobre "A Igreja do Diabo", "A Causa Secreta", "Noite de Almirante" e tantos outros contos, mas quase nada sobre "Conto Alexandrino". No entanto, é um conto tão lapidar quanto os citados e no qual Machado de Assis também desenvolve, criticamente, uma de suas marcas irônicas na ficção: as pseudoteorias científico-filosóficas.

Criticamente porque, por trás de teorias engendradas por seus personagens, transparece uma fina ironia sobre as correntes científicas e filosóficas reais (hoje aceitas ou não, como o Positivismo, o Determinismo, a Hereditariedade, a Teoria do Criminoso Nato, o Evolucionismo etc.) que grassavam na época machadiana, muitas vezes usadas na literatura, na imprensa e até nas discussões jurídicas sem o entendimento profundo que tais doutrinas requeriam. Era a partir desse desconhecimento que as personagens machadianas tripudiavam.

No "Conto Alexandrino", o narrador também nos mostra uma curiosa filosofia através da qual o personagem Stroibus tenta provar que a essência das capacidades e dos atos humanos está nos animais:

"Em suma, os deuses puseram nos bichos da terra, da água e do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais são as letras soltas do alfabeto; o homem é a sintaxe." (p. 411)

Stroibus e Pítias queriam provar que beber sangue de animais faria adquirir as características desses animais. Beberam sangue de rato e tornaram-se ladrões, espertíssimos gatunos. Tão espertos que não assumem imediatamente essa condição de ladrões porque suas primeiras ações como gatunos foram registrar como suas criações intelectuais alheias, ação mais conhecida como plágio, que é uma forma eufemística de roubo:

"A própria denominação de plágio é um indício de que os homens compreendem a dificuldade de confundir esse embrião da ladroeira com a ladroeira formal." (p. 414)

Como o próprio autor nos chama a atenção na Advertência da 1.ª Edição, em Histórias sem data os contos dessa coletânea têm data, exceto dois. Porém, essas datas não aparecem e fica difícil saber se o "Conto Alexandrino" é anterior ou posterior ao romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual aparece outra curiosa filosofia, o Humanitismo (mais desenvolvido posteriormente no livro Quincas Borba , teoria do filósofo Quintas Borba, segundo a qual "um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível" [QB, p. 646]), do qual todos emanamos, Humanitas, a tudo justifica:

Talvez, pior do que essa criatividade irônica de pseudoteorias seja a crítica mais exacerbada à teoria do Dr. Lombroso , que inventa a criminalidade nata, justificando pela hereditariedade as monstruosidades de assassinos perversos. Eles não tinham culpa dos seus atos, eram atavicamente assassinos, isto é, despertaram neles genes de cruéis antepassados.

Dr. Lombroso

O italiano Cesare Lombroso (1835-1909) foi professor universitário, criminologista e médico psiquiatra. Ficou célebre pelos seus estudos e teorias que relacionavam as características físicas dos indivíduos com comportamento antissocial, estudos esses que se tornaram conhecidos como antropologia criminal. Suas teorias foram cientificamente desacreditadas, porém, serviram para estudos jurídicos e influenciaram o Direito Penal. Ainda hoje, Lombroso costuma ser citado nos estudos científicos que investigam mentes criminosas.

E tanto em Memórias Póstumas, quanto no "Conto Alexandrino" podemos captar a noção sobre os seres que são considerados pessoas humanas e os que não o são. A ação no trato com os escravos é similar à de Herófilo, quando faz vivissecção em pessoas, alegando que os prisioneiros utilizados para esse ofício não eram humanos, pois lhes faltavam a razão e a virtude:

"Já não são cidadãos, nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois principais característicos humanos, eles os perderam, infringindo a lei e a moral." (p. 415)

Os escravos também não eram considerados humanos e sim mercadoria.


OS RATOS E (MAIS) INTERTEXTUALIDADE

Neste ensaio, que tem o "Conto Alexandrino" como pretexto, não há como escapar da teratologia. Herófilo, que, na vida real e pelo Método Científico, fazia dissecação em cadáveres, na ficção, aproveitando a filosofia de Stroibus, parte para a vivissecção, tudo em nome da ciência, a verdade das verdades, pela qual todo e qualquer sacrifício é válido.

E, juntando tudo, temos narrativas cruéis. É cruelmente descrita a vivissecção dos ratos para fins de comprovação de tese científica feita por Stroibus e Pítias. Depois, muito mais cruel, é a descrição da vivissecção nos prisioneiros e no próprio filósofo Stroibus, com dupla finalidade: contribui para as descobertas científicas, com "notável" proveito para a humanidade, e inibe a criminalidade, pelo horror de se submeter a tão terrível castigo.

Stroibus e Pítias, na vivissecção de ratos, com requintes de crueldade, têm um companheiro de maldade, Fortunato, de outro intrigante conto machadiano, "A Causa Secreta", o qual, tendo um rato pendurado pelo rabo na ponta de um barbante, ia cortando-lhe as patas, uma a uma, e baixando-o ao fogo e afastando-o dele, para que ele não morresse rápido, a fim de poder prolongar o efeito da dor.

O rato atua firme como uma espécie de símbolo de exploração do homem pelo homem, pelos mais diversos interesses, grandes ou pequenas e particulares ditaduras. Fortunato é essencialmente monstro, mas socialmente normal, por ter posses e bons relacionamentos, e sentia enorme prazer, mas um prazer exageradamente deleitoso, quando percebia a dor alheia; Stroibus e Pítias, a pretexto de que a experiência não estava completa, ampliaram absurdamente o sacrifício dos ratos. Uma imolação tanto no "Conto Alexandrino" quanto no "A Causa Secreta". Só que Stroibus e Pítias depois foram imolados, submetidos ao mesmo sacrifício, enquanto Fortunato, aparentemente, continuou sua vida socialmente normal.


O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Mesmo sendo símbolo de exploração do homem pelo homem, o rato ganha certo status nas palavras de um poeta que não se caracteriza pela poesia social, Manuel Bandeira, o qual, no intenso poema "O Bicho", também registra que o animal que está engolindo vorazmente, sem examinar nem cheirar, comidas catadas entre os detritos dum lixão não é um cão, não é um gato, não é um rato; o bicho, ó Deus, é um homem! Ou seja, a degradação do homem explorado, excluído socialmente, e que, por isso, numa espécie de hierarquia ontológica dos animais próximos, o cão em primeiro, o gato em segundo, o rato em terceiro, o homem só aparece depois do rato, um símbolo literário de exploração.

Para finalizar, mesmo nesse "Conto Alexandrino", não se pode deixar de lado outra possibilidade, porque bem machadiana, de que o rato, ou o seu sangue, represente os próprios seres humanos, isto é, os dois filósofos se transformaram em ladrões porque essa seria a essência da maioria, por caráter fenotípico puro. E, para que não nos acusem de maldoso, não estamos nos referindo a políticos, e sim à ideia possível de que havia massacrante falta de ética nos homens.

É bom relembrar duas coisas aqui: que a ética é pontual, cada época tem a sua; e que essa última interpretação é apenas um lampejo e não algo elaborado.


* Prof. Leo Ricino é Mestre em Comunicação e Letras e professor da Fecap - Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado.

Revista de Literatura / UFRJ

Quem conta um conto ... - Conto Alexandrino - Machado de Assis


CONTO ALEXANDRINO
Capítulo I
No mar

— O quê, meu caro Stroibus! Não, impossível. Nunca jamais ninguém acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro.
— Em primeiro lugar, Pítias, tu omites uma condição: — é que o rato deve expirar debaixo do escalpelo, para que o sangue traga o seu princípio. Essa condição é essencial.
Em segundo lugar, uma vez que me apontas o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com ele uma experiência, e cheguei a produzir um ladrão...
— Ladrão autêntico?
— Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior alegria do mundo: — a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade imortal. Sim, meu caro Pítias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na águia...
— Os do sábio na coruja, interrompeu Pítias sorrindo.
— Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudéssemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous, faço-te de um caseiro um viajeiro. O princípio da fidelidade conjugal está no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões... Em suma, os deuses puseram nos bichos da terra, da água e do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais são as letras soltas do alfabeto; o homem é a sintaxe.
Esta é a minha filosofia recente; esta é a que vou divulgar na corte do grande Ptolomeu.
Pítias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em direitura a  Alexandria, com essa carga preciosa de dois filósofos, que iam levar àquele regaço do saber os frutos da razão esclarecida. Eram amigos, viúvos e qüinquagenários. Cultivavam especialmente a metafísica, mas conheciam a física, a química, a medicina e a música; um deles, Stroibus, chegara a ser excelente anatomista, tendo lido muitas vezes os tratados do
mestre Herófilo. Chipre era a pátria de ambos; mas, tão certo é que ninguém é profeta em sua terra, Chipre não dava o merecido respeito aos dois filósofos. Ao contrário, desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir deles. Não foi esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a pátria. Um dia, Pítias, voltando de uma viagem, propôs ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e as ciências eram grandemente honradas.
Stroibus aderiu, e embarcaram. Só agora, depois de embarcados, é que o inventor da nova doutrina expô-la ao amigo, com todas as suas recentes cogitações e experiências.
— Está feito, disse Pítias, levantando a cabeça, não afirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a desenvolvê-la e divulgá-la.
— Viva Hélios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu discípulo.

Capítulo II
Experiência

Os garotos alexandrinos não trataram os dois sábios com o escárnio dos garotos cipriotas. A terra era grave como a íbis pousada numa só pata, pensativa como a esfinge, circunspecta como as múmias, dura como as pirâmides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e corte, que desde muito tinham notícia dos nossos dois amigos, fizeram-lhes um recebimento régio, mostraram conhecer os seus escritos, discutiram as suas idéias,
mandaram-lhes muitos presentes, papiros, crocodilos, zebras, púrpuras. Eles, porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a filosofia bastava ao filósofo, e que o supérfluo era um dissolvente. Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos sábios como aos principais e à mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra coisa se podia esperar de dois homens tão sublimes, que em seus magníficos tratados...
— Temos coisa melhor do que esses tratados, interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.
— Não é esse o ofício dos deuses? objetava um.
— Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a sintaxe da natureza, eu descobri as leis da gramática divina...
— Explica-te.
— Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando minha doutrina estiver completa, divulgá-la-ei como a maior riqueza que os homens jamais poderão receber de um homem.
Imaginem a expectação pública e a curiosidade dos outros filósofos, embora incrédulos de que a verdade recente viesse aposentar as que eles mesmos possuíam.
Entretanto, esperavam todos. Os dois hóspedes eram apontados na rua até pelas crianças.
Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um varão os desvarios de uma dama, porque o Egito, desde os Faraós até aos Lágides, era a terra de Putifar, da mulher de Putifar, da capa de José, e do resto.
Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.
Pítias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:
— Metafisicamente, a tua doutrina é um despropósito; mas estou pronto a admitir uma experiência, contando que seja decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, há só um meio.
Tu e eu, tanto pelo cultivo de razão como pela rigidez do caráter, somos o que há mais oposto ao vício do furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vício, não será preciso  mais; se não conseguires nada (e pode crê-lo, porque é um absurdo) recuarás de semelhante doutrina, e tornarás às nossas velhas meditações.
Stroibus aceitou a proposta.
— O meu sacrifício é o mais penoso, disse ele, pois estou certo do resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é imortal; o homem é um breve momento...
Os ratos egípcios, se pudessem saber de um tal acordo, teriam imitado os primitivos hebreus, aceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova filosofia. E podemos crer que seria um desastre. A ciência, como a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorância dos ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e física dos dois filósofos eram outras tantas vantagens na experiência que ia começar, cumpria não perder tão boa ocasião de saber se efetivamente o princípio das paixões e das virtudes humanas estava distribuído pelas várias espécies de animais, e se era possível transmiti-lo.
Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de pano no focinho do paciente; em seguida, os pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal à tábua da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração, porque era opinião dele que a morte instantânea corrompia o sangue e retirava-lhe o princípio. Hábil anatomista, operava com uma firmeza digna do propósito científico. Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as contorções de dor e de agonia tornavam difícil o meneio do escalpelo; mas essa era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e prático.
Ao lado dele, Pítias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de papiro; e assim ganhava a ciência de duas maneiras. Às vezes, por divergência de apreciação, eram obrigados a escalpelar maior número de ratos do que o necessário; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só desses casos mostrará a consciência com que eles procediam. Pítias observara que a retina do rato agonizante mudava de cor até chegar ao azul claro, ao passo que a observação de Stroibus dava a cor de canela como o tom final da morte. Estavam na última operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não obstante o cansaço, fizeram sucessivamente dezenove experiências sem resultado definitivo; Pítias insistia pela cor azul, e Stroibus pela cor de canela. O vigésimo rato esteve prestes a pô-los de acordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição era agora diferente, retificou-a e escalpelaram mais vinte e cinco. Destes, o primeiro ainda os deixou em dúvida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a cor final não era canela nem azul, mas um lírio roxo, tirando a claro.
A descrição exagerada das experimentações deu rebate à porção sentimental da cidade, e excitou a loqüela de alguns sofistas; mas o grave Stroibus (com brandura, para não agravar uma disposição própria da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os rouxinóis, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar a ciência, ganhava a cidade, vendo diminuída a praga de um animal tão daninho; e, se a mesma consideração não se dava com outros animais, como, por exemplo, as rolas e os cães, que eles iam escalpelar daí a tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescritíveis. A natureza não há de ser só a mesa de jantar, concluía em forma de aforismo, mas também a mesa da ciência.
E continuavam a extrair o sangue e a bebê-lo. Não o bebiam puro, mas diluído em um cozimento de cinamomo, suco de acácia e bálsamo, que lhe tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diárias e diminutas; tinham, portanto, de aguardar um longo prazo antes de produzido o efeito. Pítias, impaciente e incrédulo, mofava do amigo.
— Então? nada?
— Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vício como se cose um par de sandálias.

Capítulo III
Vitória


Enfim, venceu Stroibus! A experiência provou a doutrina. E Pítias foi o primeiro que deu mostras da realidade do efeito, atribuindo-se umas três idéias ouvidas ao próprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro comparações e uma teoria dos ventos.
Nada mais científico do que essas estréias. As idéias alheias, por isso mesmo que não foram compradas na esquina, trazem um certo ar comum; e é muito natural começar por elas antes de passar aos livros emprestados, às galinhas, aos papéis falsos, às províncias, etc. A própria denominação de plágio é um indício de que os homens compreendem a dificuldade de confundir esse embrião da ladroeira com a ladroeira formal.
Duro é dizê-lo; mas a verdade é que eles deitaram ao Nilo a bagagem metafísica, e dentro de pouco estavam larápios acabados. Concertavam-se de véspera, e iam aos mantos, aos bronzes, às ânforas de vinho, às mercadorias do porto, às boas dracmas. Como furtassem sem estrépito, ninguém dava por eles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como fazê-lo crer aos outros? Já então Ptolomeu coligira na biblioteca muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordená-las, designou para isso cinco gramáticos e cinco  filósofos, entre estes os nossos dois amigos. Estes últimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os últimos que saíam, e ficando ali muitas noites, ao clarão da lâmpada, decifrando, coligindo, classificando. Ptolomeu, entusiasmado, meditava para eles os mais altos destinos.
Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves: — um exemplar de Homero, três rolos de manuscritos persas, dois de samaritanos, uma soberba coleção de cartas originais de Alexandre, cópias de leis atenienses, o 2º e o 3º livros da
Mas a inveja de outros filósofos não dormia; deu rebate às suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo. Stroibus e Pítias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes daqueles dois varões ilustres; Ptolomeu entregou-os à justiça com ordem de os passar logo ao carrasco. Foi então que interveio Herófilo, inventor da anatomia.

República de Platão, etc., etc. A autoridade pôs-se à espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um organismo superior, era naturalmente maior, e os dois ilustres gatunos zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito filosófico de não sair dali com as mãos vazias; traziam sempre alguma coisa, uma fábula, quando menos. Enfim, estando a sair um navio para Chipre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de voltar, coseram os livros dentro de couros de hipopótamo, puseram-lhes rótulos falsos, e trataram de fugir.
Capítulo IV
Plus Ultra!

— Senhor, disse ele a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora escalpelar cadáveres.
Mas o cadáver dá-me a estrutura, não me dá a vida; dá-me os órgãos, não me dá as funções.
Eu preciso das funções e da vida.
— Que me dizes? redargüiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus?
— Não, senhor; não quero estripar os ratos.
— Os cães? os gansos? as lebres?...
— Nada; peço alguns homens vivos.
— Vivos? não é possível...
— Vou demonstrar que não só é possível, mas até legítimo e necessário. As prisões egípcias estão cheias de criminosos, e os criminosos ocupam, na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois principais característicos humanos, eles os perderam, infringindo a lei e a moral. Além disso, uma vez que têm de expiar com a morte os seus crimes, não é justo que prestem algum serviço à verdade e à ciência? A verdade é imortal; ela vale não só todos os ratos, como todos os delinqüentes do universo.
Ptolomeu achou o raciocínio exato, e ordenou que os criminosos fossem entregues a Herófilo e seus discípulos. O grande anatomista agradeceu tão insigne obséquio, e começou a escalpelar os réus. Grande foi o assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbais, não houve nenhuma manifestação contra a medida. Herófilo repetia o que dissera a Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus à experiência anatômica era até um modo indireto de servir à moral, visto que o terror do escalpelo impediria a prática de muitos crimes.
Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino científico que o esperava. Saíam um por um; às vezes dois a dois, ou três a três. Muitos deles, estendidos e atados à mesa da operação, não chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo gênero de execução sumária. Só quando os anatomistas definiam o objeto do estudo do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os desgraçados adquiriam a consciência da situação. Os que se lembravam de ter visto as experiências dos ratos, padeciam em dobro, porque a imaginação juntava à dor presente o espetáculo passado.
Para conciliar os interesses da ciência com os impulsos da piedade, os réus não eram escalpelados à vista uns dos outros, mas sucessivamente. Quando vinham aos dois ou aos três, não ficavam em lugar donde os que esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem muitas vezes abafados por meio de aparelhos; mas se eram abafados, não eram suprimidos, e em certos casos, o próprio objeto da experiência exigia que a emissão da voz fosse franca. Às vezes as operações eram simultâneas; mas então faziam-se em lugares distanciados.
Tinham sido escalpelados cerca de cinqüenta réus, quando chegou a vez de Stroibus e Pítias. Vieram buscá-los; eles supuseram que era para a morte judiciária, e encomendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e explicaram o caso alegando que era um impulso da fome; adiante, porém, subtraíram uma flauta, e essa outra ação não a puderam explicar satisfatoriamente. Todavia, a astúcia do larápio é infinita, e Stroibus, para justificar a ação, tentou extrair algumas notas do instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não ignoravam a sorte que iam ter. A notícia desses dois novos delitos foi narrada por Herófilo, e abalou a todos os seus discípulos.
— Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinário, um caso lindíssimo. Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...
O ponto era saber se o nervo do latrocínio residia na palma da mão ou na extremidade dos dedos; problema esse sugerido por um dos discípulos. Stroibus foi o primeiro sujeito à operação. Compreendeu tudo, desde que entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte ínfima, pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um filósofo. Mas Herófilo, com um grande poder de dialética, disse-lhe mais ou menos isto: — Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o único meio para resgatar o crime de iludir a um príncipe esclarecido, presta-te ao escalpelo; no segundo caso, não deves ignorar que a obrigação do filósofo é servir à filosofia, e que o corpo é nada em comparação com o entendimento.
Dito isto, começaram pela experiência das mãos, que produziu ótimos resultados, coligidos em livros, que se perderam com a queda dos Ptolomeus. Também as mãos de Pítias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os infelizes berravam, choravam, suplicavam; mas Herófilo dizia-lhes pacificamente que a obrigação do filósofo era servir à filosofia, e que para os fins da ciência, eles valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato para o homem. E continuou a rasgá-los fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir
praticamente uma teoria sobre a conformação interior do órgão. Não falo da extração do estômago de ambos, por se tratar de problemas relativamente secundários, e em todo caso
estudados e resolvidos em cinco ou seis indivíduos escalpelados antes deles.
Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso aflitivo e doloroso com danças e festas, a que convidaram alguns cães, rolas, pavões e outros animais ameaçados de igual destino, e outrossim, que nenhum dos convidados aceitou o convite, por sugestão de um cachorro, que lhes disse melancolicamente: — "Século virá em que a mesma coisa nos aconteça". Ao que retorquiu um rato: "Mas até lá, riamos!"

Machado de Assis




Te Contei, não ? - Saga Crepúsculo - Vampiros Modernos e Romantismo Clássico





Crepúsculo, obra publicada em 2005, dispensa apresentações: as vendas dos livros da série falam por si só, sendo superada apenas por Harry Potter , pouco menos de uma década antes. Trata-se de uma história de amor com toque sobrenatural, ainda que este aspecto fique em segundo plano no casal; o fio condutor da obra é a paixão avassaladora entre os dois personagens adolescentes, um amor que os consome e, com isso, atrai uma legião de fãs, de todas as idades. Isto soa familiar?

O período literário batizado Romantismo surgiu na Europa no pós-Revolução Francesa, no início do século XIX. O movimento foi consagrado e simultaneamente consagrou autores como Lord Byron , na Europa, e Álvares de Azevedo, no Brasil. Contrário ao movimento que lhe deu sucessão, o Realismo, o período Romântico é recheado de características como a idealização, sentimentalismo exacerbado, fusão do grotesco e do sublime. Aqui, pretendemos ver como, realizando a leitura de qualquer dos quatro livros pertencentes à saga Crepúsculo, pode-se notar a presença dessas características e tantas outras que marcaram o século XIX literariamente.

Lord Byron George Gordon Byron (1788-1824), foi um dos maiores poetas da língua inglesa, líder do movimento Romântico e uma de suas figuras mais influentes. Toda a obra de Byron exprime o pessimismo do Romantismo. Rebelde, opôs-se vigorosamente durante toda a sua vida contra as convenções morais e religiosas. Perseguido por seus excessos e escândalos, Byron impôs-se um auto-exílio, tendo morrido na Guerra da Independência da Grécia, em 1824, quando lutava a favor dos gregos contra os turcos.

Individualismo e Egocentrismo

Características marcantes do Romantismo, que tinha seu foco no ser humano e suas emoções particulares, o individualismo e o egocentrismo aparecem em Crepúsculo desde o primeiro capítulo, na personagem Isabella Swan, protagonista da saga. Ao iniciarmos a leitura, o primeiro aspecto individualista já aparece: o livro é narrado em primeira pessoa, com quase nenhuma consideração ou menção ao que os demais personagens possam pensar sobre as cenas. O ponto de vista é exclusivamente da protagonista.

"Nunca pensei muito em como morreria - embora nos últimos meses tivesse motivos suficientes para isso -, mas, mesmo que tivesse pensado, não teria imaginado que seria assim. [...] Sem dúvida era uma boa forma de morrer, no lugar de outra pessoa, de alguém que eu amava." (MEYER, 2008, p.3)

No trecho acima, já se percebe como toda a trama é centrada apenas nos desejos, pensamentos e anseios da protagonista. Mesmo diante do que ela imagina ser a morte certa, ainda se destaca sua visão particular dos fatos. O desenvolvimento da personagem de Bella Swan é inteiramente individualista e egocentrista, mesmo quando ela interage com seu par romântico, Edward Cullen, também um exemplo claro do individualismo. Antes de assumir sua atração por Swan, Cullen toma atitudes voltadas apenas para o que seria melhor para ele e sua família, em um segundo plano. No livro da saga não publicado por ter "vazado" para a internet, Midnight Sun, percebe-se ainda mais acentuadamente o caráter individualista e egocêntrico de Edward. Seguindo o mesmo padrão dos quatro livros anteriores: centrado no personagem de Edward Cullen e contado em primeira pessoa, Midnight Sun mostra a personalidade não revelada de Edward, quando vista de fora por Isabella.

"Eu me afastei dela com asco - revoltado com o monstro desesperado para tomá-la. Por que ela tinha de vir até aqui? Por que ela tinha de existir? [...] Por que esta humana irritante tinha de ter até mesmo nascido? (MEYER, 2008, p.13)

No trecho acima fica clara a maneira como Edward vê as pessoas - em especial os humanos - ao seu redor: detalhes em seu caminho, onde a única pessoa que realmente importa é ele. Mesmo o cuidado que ele tem para com a sua família nasce do desejo de se provar para seu pai adotivo, Carlisle Cullen. Conforme o livro progride - tanto Crepúsculo, quanto Midnight Sun, que tratam do mesmo espaço temporal - a maneira como Edward vê Bella se transforma, mas tal transformação não ocorre por apreço a outros indivíduos em geral, mas apenas por apreço aos indivíduos que interessam ao protagonista da vez.

Nos demais livros da saga, as atitudes dos dois protagonistas podem ser vistas como notadamente individualistas e egocêntricas. O fim do primeiro livro, onde Bella e Edward fogem, não leva em consideração o estado emocional do pai da personagem principal, ou mesmo de sua mãe, ou amigos. "Repeti as últimas palavras de minha mãe quando ela saiu pela mesma porta tantos anos atrás. [...] Minhas palavras cruéis fizeram seu trabalho - Charlie ficou paralisado na soleira da porta, atordoado, enquanto eu corria para a noite." (MEYER, 2008, p.293-294). Edward, ao decidir morrer no final do segundo livro, Lua Nova, pensa muito pouco sobre o impacto que sua morte teria sobre o restante de sua família. "Pensei que já tivesse explicado com clareza. Bella, não posso viver num mundo onde você não exista." (MEYER, 2008, p. 411)

Com um sem-número de exemplos nos cinco livros que contam sua história, os dois personagens demonstram de diversas maneiras que, apesar da maneira como são retratados, idealizados, característica que será tratada no próximo item de discussão, ambos estão centrados apenas em si, e naqueles que importam para eles.

IDEALIZAÇÃO

Traço que é o mais marcante durante toda a obra, a idealização dos protagonistas da saga Crepúsculo deixa algumas idealizações classicamente Românticas parecendo quase realistas em seus exageros.

"O cabelo era dourado, caindo delicadamente em ondas até o meio das costas. [...] Fiquei olhando porque seus rostos, tão diferentes, tão parecidos, eram completa, arrasadora e inumanamente lindos. [...] Era difícil decidir quem era o mais bonito - talvez a loura perfeita, ou o garoto de cabelo cor de bronze." (MEYER, 2008, p.19)

O trecho acima é a primeira visualização da família Cullen com que o leitor entra em contato. As descrições da autora são idealizadamente perfeitas, levando em consideração não apenas a beleza clássica mítica de vampiros em geral, mas principalmente referências a estilos de beleza da época atual, em que o livro foi escrito. A partir deste momento, a cada vez que os Cullen são de alguma forma citados - em especial Edward - é raro que não haja menções à beleza, riqueza, educação, porte ou bom gosto deste núcleo de personagens.

Ao longo da história, percebe-se que não apenas a beleza de Edward se destaca, mas também seu senso de humor, seu gosto musical, educação, força e coragem. Edward é perfeito e idealizado até mesmo em sua condição de vampiro: onde o mito clássico morre dolorosamente ao entrar em contato com a luz do sol, a espécie de Edward apenas brilha, com um efeito que Swan descreve como "uma miragem, lindo demais para ser real." (MEYER, 2008, p.196). Além da beleza física, Edward também tenta se afastar de Bella a princípio, demonstrando indícios de um cavalheirismo que parece não estar presente em Midnight Sun, mas que aos olhos de Bella é encantador. Sua família também se afasta do mito de vilão vampiresco pelo fato de que não se alimentam de pessoas, mas sim do sangue de animais, sendo chamados de "vegetarianos". Edward é um ser perfeito em todas as dimensões da palavra.

Isabella Swan, como personagem, reúne características que soam como a conjunção das idealizações de todos os tempos: moderna, independente até certo ponto, mas por outro lado inocente e dada a tarefas domésticas. Bonita, mas modesta, inteligente, mas humilde, amigável, divertida e profundamente dedicada às pessoas que ama, não se importando em morrer por elas. Após a sua transformação, no último livro publicado da série, Bella alcança a idealização completa, onde além de todas as qualidades físicas de um vampiro, ela também parece ter uma afinidade natural com sua nova espécie, não tendo nem mesmo que se esforçar para não atacar humanos.

MEDIEVALISMO

A retomada de feitos dos grandes cavaleiros da época medieval era uma constante em obras Românticas. Na saga Crepúsculo, ela aparece com frequência nas ações de Edward e Bella, geralmente sendo ação e reação de uma mesma sequência de eventos. Bella é uma personagem construída para ser a donzela em perigo e Edward, seu cavaleiro, sempre pronto para resgatá-la. A primeira vez que tal posição ocorre é ainda no primeiro livro da saga, em uma cena onde Edward resgata Bella de uma situação de perigo com desconhecidos. Depois do resgate, Edward, em uma demonstração da mais pura nobreza, deixa que os agressores sigam, sem machucá-los.

"Eu não ia cair sem levar alguém comigo. Tentei engolir para poder formar um grito decente. De repente faróis apareceram na esquina, o carro quase batendo no atarrancado, obrigando-o a pular para a calçada. Mergulhei na rua - este carro ia parar ou me atropelaria. Mas o carro inesperadamente deu uma guinada, cantando pneu, e parou com a porta do carona aberta a pouca distância de mim. 'Entra', ordenou uma voz furiosa." (MEYER, 2008, p. 121)

Coven

Aquilo que pertence à Idade Média, assim chamada porque marca a transição entre a Idade Antiga, constituída pela cultura greco-romana, e a Idade Moderna, que inicia com o Renascimento italiano. Ocupa quase um milênio: do século V ao XV. Foi o tempo de gênios da criação poética, da produção artística e do pensamento filosófico, como Petrarca, Dante, Boccaccio, Santo Tomás de Aquino, apesar de a Idade Média estar culturalmente relacionada com o Obscurantismo.

Esta cena de resgate é apenas a primeira de uma cadeia de situações em que Edward resgata Bella de perigos diversos, inclusive de sua própria família. A partir do ponto de vista de Isabella, nos livros, ela soa como uma moça corajosa que tenta, ao menos, se livrar sozinha dos perigos. Com o desaparecimento de Edward depois de resgatar Bella de ser atacada pelo seu "irmão" - ato que reforça a característica do Medievalismo em Edward - Bella retoma uma amizade com Jacob Black, um nativo americano que mais tarde se revela também um ser sobrenatural. Jacob resgata Bella não apenas física, mas emocionalmente em diversas ocasiões, colocando-o em lugar de destaque na obra como um todo.

Sentimentalismo exacerbado e Byronismo

Lendo a saga de Meyer, torna-se difícil encontrar algum momento dos livros em que o sentimentalismo exacerbado não apareça. Edward é um personagem conflitante, com emoções fortes sobre as questões mais simples. Suas reações a pequenos problemas do dia a dia tendem a ser absolutamente exageradas e fora de proporção. Isabella sofre do mesmo mal. Além do exagero sentimental, os dois personagens são dados a momentos de contemplação sobre a vida e o amor, sem o qual nada parece valer à pena.

Uma das maiores demonstrações de tais características são as reações dos personagens centrais aos acontecimentos do segundo livro da série, Lua Nova. Ao ver Isabella quase ser atacada por Jasper, um de seus irmãos adotivos e também vampiro, Edward decide ir embora para que Bella possa ser mais feliz sem os riscos que traz estar ao lado de um vampiro. A ação em si não parece ser algo trágico tanto quanto seria lógica. No entanto, a maneira como Edward a faz é carregada de sentimentalismo, dor e agonia. A maneira como Bella reage à partida de Edward também mostra o quanto a personagem pensa não poder viver sem aquele que julga ser o amor de sua vida.

"Ele se fora. Com as pernas trêmulas, ignorando o fato de que minha atitude era inútil, eu o segui para a floresta. O sinal de sua passagem desapareceu de imediato. Não havia pegadas, as folhas estavam imóveis de novo, mas avancei sem pensar. [...] Se parasse de procurar por ele, estaria tudo acabado. O amor, a vida, o significado... acabados." (MEYER, 2008, p.64)

 Em um dos momentos mais inspirados da saga, Meyer coloca a sequência de meses após a partida de Edward (outubro, novembro, dezembro, janeiro) em páginas separadas e, com exceção do nome do mês, também em branco, demonstrando claramente o vazio na vida de Bella agora que Edward já não está mais ali. O tempo apenas passa, mas Bella já não vive, porque nada mais parece valer à pena, quando Edward se vai.

Mesmo a melhora que Isabella tem de seu quadro depressivo não é feita em razão da superação de seu amor. Isabella, depois de retomar a amizade com Jacob Black, passa então a arriscar sua vida constantemente; uma lembrança dos tempos em que quando ela se arriscava, Edward a resgatava.

"Eu estava ansiosa para tentar de novo; agir com imprudência mostrou ser melhor do que eu pensava. Podia deixar a trapaça de lado. Talvez eu tivesse encontrado uma forma de gerar as alucinações - isso era muito mais importante. [...] 'Vá para a casa de Charlie', ordenou a voz. Sua mera beleza me maravilhou. Eu não podia deixar que minha lembrança se perdesse, qualquer que fosse o preço. [...] Tinha de ser essa a receita para a alucinação: adrenalina mais perigo mais estupidez. Alguma combinação parecida com essa, de qualquer modo." (MEYER, 2008, p.151, 152, 153)

No trecho acima, retirado de Lua Nova, Isabella começa a se recuperar de seu quadro de depressão, mas reforça ainda mais a noção de que a vida só valia a pena ao lado de Edward. As "alucinações" a que ela se refere são o eco da voz de Edward em sua mente, que ela julga ouvir ao se colocar em perigo. Repetidamente, ela arrisca a sua vida apenas para ouvir a voz de seu amado.

Se Bella tem momentos byronescos, Edward é a própria personificação de tal característica. Abandona a amada pelo seu bem, mas sofre a tal ponto por ela que, ao ouvir que ela morrera, busca também morrer, certo de que a vida sem sua amada não vale nada.

FUSÃO DO GROTESCO E DO SUBLIME

Edward Cullen é, para colocarmos de maneira simples, a representação perfeita desta característica romântica. Enquanto Isabella parece fugir deste traço em particular, já que até mesmo como vampira ela tem uma resistência maior à tentação de matar, Edward se sente culpado por tudo de errado que aconteça com aqueles com quem se importa, por se julgar um monstro. Em uma das frases mais famosas da saga, "E então o leão se apaixonou pelo cordeiro." (MEYER, 2008, p. 206), Edward já se coloca na posição em que permanece até o fim da saga: o monstro, o predador, na imagem de um anjo.

São inúmeras as referências de Edward à sua qualidade de "monstro". Em um dos momentos mais pretensamente profundos da obra, Edward e Carlisle assumem ter uma discussão sem fim sobre a questão da alma imortal. Edward julga que, por ser um monstro - palavra a que ele recorre em diversas ocasiões - ele já não tem alma, e merece ser condenado. Este é, na verdade, um dos maiores argumentos de que Edward se vale para não transformar Bella em uma vampira: de que ela, ao ser transformada, perderia sua alma imortal, condenando-a ao sofrimento eterno que Edward imagina que o espera. Ele se imagina o monstro e predador perfeito, e sofre por isso infinitamente.

A contraposição de imagem idealizada e comportamento cavalheiresco com a auto-imagem de monstro que Edward cria perdura por todas as cinco obras lidas, e fica claramente evidente em Midnight Sun, em que sua imagem negativa é refletida através de suas próprias palavras.

"Eu esperei pela sua resposta, dividido em dois - desejando que ela finalmente ouvisse e entendesse [que ele não era bom para ela], pensando que eu poderia morrer se ela o fizesse. Que melodramático. Eu estava me tornando tão humano." (MEYER, 2008, p. 120)

Ao lermos a obra do ponto de vista de Edward não há, na verdade, um único trecho em que a maneira como ele se julga errado, monstruoso e perigoso não apareça. Seu principal referencial para esta auto-imagem é a época em que ele diz ter se rebelado contra a maneira como Carlisle e o resto de seu Coven viviam, alimentando-se apenas de animais. Neste período, Edward decidiu alimentar-se de sangue humano - claramente mais "saboroso" do que o animal. No entanto, mesmo em sua rebeldia e comprovada monstruosidade, Edward não assassinava qualquer humano: ele se alimentava apenas daqueles que ele sabia serem malfeitores, o que ele conseguia distinguir por ter o poder de ler mentes.

"Sentou-se sinuosamente, com movimentos deliberadamente lentos, até que nossos rostos estivessem no mesmo nível, a trinta centímetros de distância. 'Perdoe-me, por favor', disse formalmente. 'Eu posso me controlar. Você me pegou de guarda baixa. Mas agora estou me comportando melhor." (MEYER, 2008, p.198-199)

Fica claro em qualquer trecho que Edward mostre suas características de monstro que ele, na verdade, não o é. Ele é um vampiro, mas se alimenta apenas de sangue de animais selvagens. É um predador, mas mesmo quando matava humanos, matava apenas os maus. Deseja o sangue de Bella mais do que qualquer outro, mas nega-se a tomá-lo para preservar sua vida. Finalmente, é um ser sobrenatural com inclinações assassinas, mas tem beleza divina. Ele é, desde a sua composição até suas ações, a personificação deste traço Romântico, unindo à perfeição o sublime e o grotesco.

LEAH CLEARWATER E A NEGAÇÃO DO ROMANTISMO

Apesar de a saga Crepúsculo ser profundamente Romântica quando se referindo aos seus protagonistas, há nela personagens que quebram esses paradigmas. O maior exemplo deles é Leah Clearwater, uma personagem secundária de história, interessante e quase trágica, sem traços caracteristicamente Românticos.

Leah aparece pela primeira vez na saga em Lua Nova, na página 197, quando seu nome é mencionado em referência à família de Henry Clearwater, que acabara de sofrer um ataque cardíaco. Parte do núcleo de habitantes de La Push, Leah tem uma história nada convencional: descendente indígena, ela perde o noivo para a própria prima, quando o tal noivo, depois de transformar-se em um dos defensores de La Push - um lobisomem -, acaba por ter o que no livro se define por imprinting, o encontro de sua alma gêmea, algo que os lobisomens não controlam, mas também não podem negar. Ela ainda sofre um segundo trauma: diferentemente das outras índias, torna-se uma lobisomem junto com os homens jovens de sua tribo. Com isso, Leah perde a capacidade de envelhecer e amadurecer - e também a capacidade de gerar filhos.

Leah é, como personagem, a antítese da idealização. Amargurada, sarcástica, geralmente revoltada e sempre com raiva, ela perde tudo que já quis ter e, até o fim da saga, não recebe nada em troca. Sua mãe termina a trama com o pai de Bella. Seu irmão mais novo, Seth, é um dos personagens que fica feliz ao se saber um lobisomem. Todos os demais personagens têm, de uma maneira ou outra, um final feliz - com a exceção de Leah, a única personagem de toda a trama que foge em absoluto de todos os traços Românticos. Não é estonteantemente bela, nem perdoa com facilidade. Não se encaixa no padrão de donzela em perigo, nem tampouco salva as pessoas pelo prazer de ajudar. Ela é, de certa forma, a personagem mais humana e real de toda a trama, não dando mais do que recebe em troca e, por isso, paga o preço: em uma trama em que todos recebem o que merecem, Leah ganha apenas solidão, amargura e infelicidade, como fica claro neste trecho, de Amanhecer, "[...] Diga-me quem me quer por perto, e eu vou embora." (MEYER, 2008, p.169).

Um final nada Romântico, para a única personagem não idealizada de toda a trama.

Revista Conhecimento Prático de Literatura

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Crônica do dia - Quem rouba da saúde, mata




Aprendi que devemos ser diretos quando desejamos comunicar e minimizar interpretações equivocadas. Também aprendi que, se desejarmos reter a atenção do leitor, em meio a tantas coisas interessantes e estímulos, nós temos que encantar já no primeiro parágrafo. Como eu não sou jornalista e nem escritor, resta-me pedir que você tenha um pouco de paciência e não desista de ler este artigo até o final, sinceramente preciso de sua atenção. 

 A reportagem “Como é feita a fraude em licitações de Saúde pública”, veiculada pela TV Globo no programa “Fantástico” do dia 18 de março, teve muitos desdobramentos. Para quem não viu vale um resumo. O repórter Eduardo Faustini, autorizado por mim, e sem o conhecimento da Reitoria, por dois meses utilizou uma sala do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro para produzir a matéria. Passando-se por gestor de compras, convidou – utilizando critérios que desconheço – várias empresas para participar de licitações emergenciais. Foi um Deus nos acuda, choveram ofertas de propinas, e fomos apresentados a uma nova definição de “ética” de deixar qualquer pessoa, de princípio, estarrecida. Ficou claro que as leis vigentes impedem que tenhamos agilidade na gestão pública, porém não evitam, de forma alguma, que gestores desonestos se locupletem sem deixar rastros. “Eu protejo o meu cliente e o meu cliente me protege, é assim que eu faço e ensino aos meus filhos”, um deles falou com a maior tranquilidade do mundo e dentro da “ética” do mercado. 

Preciso deixar claro quatro pontos: 

 Os funcionários do Instituto de Pediatria da UFRJ não compactuam com práticas escusas; 

 O Instituto de Pediatria da UFRJ, por decisão do diretor e do vice, franqueou uma sala para realização da reportagem. Em momento algum houve, por parte do nosso Instituto, denúncia ou indicação de empresas para a pseudoconcorrência; 

 O reitor da UFRJ, professor Carlos Levi, embora comunicado que a matéria iria ao ar no sábado, dia 17 de março, apenas no domingo à noite é que assistiu à reportagem; 

 As empresas citadas na matéria não fornecem para a UFRJ. 

 A indignação tomou conta de todas as pessoas, o Ministério Público, Ministério da Educação, Defensoria Pública, Polícia Federal, entidades de classe, sociedades organizadas, OAB-RJ, cidadãos comuns, governadores e prefeitos e, até mesmo, a Presidência da República (presidente Dilma e o vice-presidente Michel Temer) manifestaram suas insatisfações. 

Vale ressaltar que concordamos em ceder o espaço para a reportagem objetivando a esclarecer um roubo de cento e vinte mil reais (R$120.000) ocorrido em julho de 2011 e denunciado para a Polícia Federal e Auditoria da UFRJ na mesma época. Seis meses após, sem nenhuma resposta, fomos dominados pela angústia da espera e vimos na imprensa, reconhecidamente o quarto poder, a saída para o impasse. Logramos êxito, apenas três dias após a veiculação da matéria soubemos que a Polícia Federal, de forma brilhante, tinha desvendado o crime e identificado o culpado. A ferramenta por nós utilizada acabou revelando outra mazela: a corrupção institucionalizada, uma ferida infectada, fétida, necrosada, que não cicatriza. 

Perdoem-me os que nos criticam, não temos que pedir desculpas por termos permitido que a reportagem fosse feita, quem tem que se desculpar e se justificar são as pessoas que praticam e/ou compactuam com a corrupção e atos ilícitos e fazem lesa-pátria. 

Finalizando, a minha leitura é que a Universidade Federal do Rio de Janeiro, através do Instituto de Pediatria-UFRJ, saiu fortalecida deste episódio marcante ao permitir que tal reportagem fosse feita. Até porque não compactuar com a corrupção é uma das melhores formas de exercer cidadania. Quem rouba da Saúde mata pessoas. 

 EDMILSON MIGOWSKI é diretor do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro 

Crônica do Dia - Millôr: do riso e da amargura




Não posso falar de Millôr Fernandes como amigo, igual a muitos colegas que estão compondo homenagens, sobretudo aqueles um pouco mais velhos. Ironicamente, aliás, cresci ouvindo cobras e lagartos a seu respeito. Entes próximos e amados diziam que ele era inimigo da família e que chamara publicamente meu tio de “Adolpho Bloch Hitler”. Uma piada eticamente bem arriscada para se fazer com um judeu, ainda mais um judeu russo. Em sua tirania (alternada com humildade extremada) Adolpho estava mais para um híbrido de “Pedro, o Grande” com Aleksei Ivánovitch, o protagonista de “O jogador”, de Dostoievski. Mas fazer o quê?, ele se chamava Adolpho (adaptação de Avram, seu nome de imigrante), o que dava o mote: como é que Millôr ia perder o trocadilho, ele que era o rei dos jogos de palavras e que, mesmo com os amigos e até nos mais rasgados elogios jamais perdia a oportunidade de espinafrar o próximo? Além disso, toda semana meu pai trazia o “Pasquim”. Sejamos francos: não havia quem não lesse o Millôr, fruindo do sabor agridoce da admiração temperada de mágoa. Claro que, à medida que começamos a nos afastar da cartilha estrita da família (quando isso é possível) passamos a fazer um juízo próprio das pessoas, e, no meu caso, este foi se construindo não através da relação pessoal, da inflamação ideológica ou das birras tribais, mas do gosto pela obra. Mal completara 15 anos e, na onda da abertura lenta, gradual e irrestrita e do fim da censura, assisti a “Os órfãos de Jânio” no Teatro dos Quatro. Chorei com o retrato que Millôr ali fazia das gerações que precederam a minha, cujos feitos, heroicos ou não — fechado que estava no casulo familiar — eu não tinha a mais vaga consciência, a não ser por uns laivos em conversas cifradas com o Cony, um luminar que frequentava a casa. Chorei também com a “Marcha da Quartafeira de Cinzas”, de Vinicius e Lyra, que coroava o final da peça com a forte melancolia de suas palavras e aquele arrastão em tom menor, afeito às marchas-rancho. Cheio de fôlego juvenil, eu descobria no teatro tudo ao mesmo tempo: Millôr, Vianninha, Brecht, Ionesco. Os originais que xerocava na SBAT eram a minha bíblia de um Brasil desconhecido que mofava nos porões. Passei a ler tudo de Millôr e em pouco tempo consegui ficar próximo o suficiente (na qualidade de público) para sacar que seu humor, nos cartuns, no frasismo, nos desenhos, no teatro, no anedotário e nas sátiras era crivado por uma forte amargura da qual ninguém, nem ele, escapava. É a mesma amargura que está em sua expressão facial, semítica, aquele tipo de desgosto que ao mesmo tempo parece um sorriso. Seria judaico se não fosse mouro. Ele mesmo captou esta particularidade fisionômica na sua autocaricatura, transformada em marca pictórica do seu pensamento, dublê gráfico, porta-voz de si mesmo. Isso é que era bom em Millôr: não se faz omelete sem quebrar ovos. Não se faz diferença apostando no senso comum, no aplauso de todos. Se o veneno existe, ele está espalhado na corrente psicossocial da civilização e precisa ser destilado. Do contrário morreremos todos intoxicados pela mentira a respeito da nobreza de nossas almas e de sermos todos, sempre, bons e ilibados cidadãos. Os que assumem o papel de purgar o mal comum levam muito chumbo mas, se sobrevivem à linha de tiro, terminam por abrir espaços absolutamente novos, singulares, que, uma vez inaugurados, permanecem, como castelos de uma areia quase imune à arrebentação do mar e resistentes ao tempo e ao vento. Ao passo que os arautos do óbvio-obscuro desaparecem com a primeira brisa. Só estive com Millôr pessoalmente em princípios dos anos 2000, num único jantar. Uma vez confirmado o encontro, passei momentos de ansiedade, de medo e até de culpa. Na hora H, com vinho e cavaquinha à mesa do hoje extinto Gibo, na Praça General Osório, ele me tratou com extrema cordialidade, mas me sacaneou um bocadinho, o que me honrou. Contou todo tipo de histórias, sorriu torto várias vezes e riu um riso esganado, gutural, que, por uma arrepiante ironia, lembrou-me o riso “mudo” de Adolpho, que era um choro. Os olhos de Millôr brilhavam, daquele brilho dos que, escaldados com a tal da amargura, amam a vida só pelo fato de ela existir e de proporcionar a chance de constatar a desgraceira que é. Passaram-se dez anos deste encontro. Foi a última vez que vi Millôr. Sua partida trouxe o outono, que tem muito da sua aquarela, triste e risonha, com folhas cadentes em tom pastel

Crônica do Dia - Posto, logo existo -



Começam a pipocar alguns debates sobre as consequências de se passar tanto tempo conectado à internet. Já se fala em “saturação social”, inspirado pelo recente depoimento de um jornalista do “The New York Times” que afirmou que sua produtividade no trabalho estava caindo por causa do tempo consumido por Facebook, Twitter e agregados, e que se vê hoje diante da escolha entre cortar seus passeios de bicicleta ou “alguns desses hábitos digitais que estão me comendo vivo”. 

 Antropofagia virtual. O Brasil, pra variar, está atrasado (aqui, dois terços dos usuários ainda atualizam seus perfis semanalmente), pois no resto do mundo já começa a ser articulado um movimento de desaceleração dessa tara por conexão: hotéis europeus prometem quartos sem wi-fi como garantia de férias tranquilas, empresas americanas desenvolvem programas de softwares que restringem o acesso a web, e na Ásia crescem os centros de recuperação de viciados em internet. Tudo isso por uma simples razão: existir é uma coisa, viver é outra. 

Penso, logo existo. Descartes teria que reavaliar esse seu cogito, ergo sum, pois as pessoas trocaram o verbo pensar por postar. Posto, logo existo. 

Tão preocupadas em existir para os outros, as pessoas estão perdendo um tempo valioso em que poderiam estar vivendo, ou seja, namorando, indo à praia, trabalhando, viajando, lendo, estudando, cercados não por milhares de seguidores, mas por umas poucas dezenas de amigos. Isso não pode ter se tornado tão obsoleto. 

Claro que muitos usam as redes sociais como uma forma de aproximação, de resgate e de compartilhamento — numa boa. Se a pessoa está no controle do seu tempo e não troca o virtual pelo real, está fazendo bom uso da ferramenta. Mas não tem sido a regra. Adolescentes deixam de ir a um parque para ficarem trancafiados em seus quartos, numa solidão disfarçada de socialização. Isso acontece dentro da minha casa também, com minhas filhas, e não adianta me descabelar, elas são frutos da sua época, os amigos se comunicam assim, e nem batendo com um gato morto na cabeça delas para fazê-las entender que a vida está lá fora. Lá fora!! Não me interessa que elas existam pra Tati, pra Rô, pro Cauê. Quero que elas vivam. 

O grau de envolvimento delas com a internet ainda é mediano e controlado, mas tem sido agudo entre muitos jovens sem noção, que se deixam fotografar portando armas, fazendo sexo, mostrando o resultado de suas pichações, num exibicionismo triste, pobre, desvirtuado. São garotos e garotas que não se sentem com a existência comprovada, e para isso se valem de bizarrices na esperança de deixarem de ser “ninguém” para se tornarem “alguém”, mesmo que alguém medíocre. 

Casos avulsos, extremos, mas estão aí, ao nosso redor. Gente que não percebe a diferença entre existir e viver. Não entendem que é preferível viver, mesmo que discretamente, do que existir de mentirinha para 17.870 que não estão nem aí.

Martha Medeiros 
Jornal O Globo 

Te Contei, não ? - Faces da Ditadura





“Os militares”, afirma a historiadora francesa Maud Chirio, são uma categoria tão vaga quanto “os civis”. Quando se fala em ditadura nos anos 1960 e 70 no Brasil, no entanto, a homogeneização permite, segundo ela, que culpados sejam apontados de forma mais abstrata. A outra categoria, a dos “civis”, nem costuma aparecer como parte da repressão política no país, apesar de o explícito apoio de setores da população ter sido crucial para a legitimação da ditadura — que, por esse motivo, seria erroneamente classificada como apenas “militar”, de acordo com o historiador Daniel Aarão Reis. Maud e Reis buscam a complexidade das relações de sustentação da repressão no Brasil, entre militares ou civis. 

 Em “A política nos quartéis — Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira” (Zahar), lançado esta semana, Maud Chirio analisa como os oficiais de patentes mais baixas integraram conspirações e contribuíram fortemente para o golpe militar de 1964, que hoje completa 48 anos. Em entrevista, a historiadora de 31 anos, que esteve no Rio para o lançamento, fala sobre essa participação política — que, nos anos de chumbo, radicalizou-se à direita —, derrubando o mito do apolitismo das Forças Armadas e de que a ditadura foi delineada apenas por generais. Maud, que já pesquisara sobre os exilados brasileiros, passou para um lado mais difícil da investigação histórica e precisou buscar fontes alternativas aos fechados arquivos militares. 

Em artigo para O GLOBO, Daniel Aarão Reis analisa o apoio de civis à ditadura, sejam membros de partidos políticos, empresários ou entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O historiador sustenta que o medo guiou grande parte das milhares de pessoas que, por todo o país, marcharam contra as reformas e em comemoração ao golpe. Ao afirmar que a ditadura é mais do que militar, Reis ressalta que não se trata de corrigir um “equívoco”, mas de perceber a construção histórica de uma memória que, como sempre, é “seletiva e conveniente”, com reflexos até hoje na democracia, como na decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2010, de não rever a Lei da Anistia. Na última quinta-feira, o Supremo julgaria se a lei também se aplica a crimes da ditadura que envolvem desaparecimentos — e que por isso ainda estariam em curso —, mas o julgamento foi adiado.


Caderno Prosa & Verso 
Jornal O Globo