sábado, 26 de maio de 2012

Varios olhares sobre Castro Alves



Responsável pela incorporação definitiva do negro à literatura brasileira, Castro Alves viveu intensamente. Morreu jovem, mas a tempo de transformar o coração machucado em criação lírica e ocupar lugar importante na literatura brasileira.

Nascido em 14 de março de 1847, na
Bahia, aos treze anos, presencia cena que o marcaria: um escravo castigado no tronco. Em 1862, parte com o irmão para o Recife, a fim de cursar Direito. Antônio sai, José fica trancado em casa lendo, fumando e bebendo conhaque. Deprimido, suicida-se em fevereiro de 1864.

Reprovado duas vezes, Castro Alves freqüenta teatros e, num deles, encontra sua maior paixão: a atriz Eugênia Câmara. Ele está com 16 anos, ela 26. Eugênia cede aos encantos do poeta. Vão morar juntos e ele escreve a peça Gonzaga, ou A Revolução de Minas. Ao lado da luta pela Independência, coloca o que mais lhe interessa: a abolição da escravatura. Em 1867, Gonzaga estréia com êxito em Salvador. Ele sofre de ciúmes ao ver Eugênia cercada por admiradores. Cansada dos ciúmes, ela o dispensa. É o fim do romance.

7 de setembro de 1868. Diante da aristocracia paulistana, o poeta declama O Navio Negreiro, em que se dirige ao pavilhão brasileiro hasteado pelos traficantes de escravos em seus navios: Antes te houvessem roto na batalha / Que servires a um povo de mortalha! (...) Andrada! Arranca esse pendão dos ares!...

Os colegas carregam Castro Alves pelas ruas. O Gonzaga repete o êxito de Salvador. Em 11 de novembro de 1868, sai para caçar nas matas do futuro bairro do Brás. Ao saltar um riacho, a espingarda dispara e lhe atinge o calcanhar. O ferimento à-toa piora devido à tuberculose.

Os médicos o transferem para o Rio e, lá, amputam-lhe o pé. Convalesce escrevendo e ruma para a Bahia. Organiza Espumas Flutuantes. No fim de junho de 1871, piora. Pede que ponham a cama perto da janela, para ver o sol. Delira. Num momento de lucidez, ora:

"Dai-me, meu Deus, mais dois anos para escrever tudo o que eu tenho na cabeça."

Que pena, não deu tempo. Morreu em 6 de julho de 1871.

Fonte: almanaquebrasil


Castro Alves

Castro Alves (Antônio Frederico de C. A.), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da Cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos.

Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro barão de Macaúbas, onde foi colega de
Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia.

Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se na Faculdade de Direito em 1864.
Cursou o 1o ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto.

Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos.

Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social.

Escreveu o drama Gonzaga e, em 1868, vai para o Sul em companhia da amada, matriculando-se no 3o ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara.

Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi afinal amputado no Rio, em meados de 1869.

De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a saúde comprometida pela tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.

Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri.
Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
Ainda em 1870, numa das fazendas em que repousava, havia completado A cascata de Paulo Afonso, que saiu em 1876 com o título A cachoeira de Paulo, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: "Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio."

Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada da sensualidade de um autêntico filho dos trópicos, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloqüência épica.
Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando completamente o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire.

A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.

Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de "Cantor dos escravos".

A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.

Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento.

A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da história. Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século. O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, não se podia elevar a objeto estético. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.

Obras: Espumas flutuantes (1870); Gonzaga ou a Revolução de Minas (1876); A cachoeira de Paulo Afonso (1876); Os escravos, obra dividida em duas partes: 1. A cachoeira de Paulo Afonso; 2. Manuscritos de Stênio (1883). Obras completas Edição do cinqüentenário da morte de Castro Alves, comentada, anotada e com numerosos inéditos, por Afrânio Peixoto, em 2 vols.

Fonte: biblio


Castro Alves (Por MANUEL BANDEIRA)

Aos quatorze dias do mês de março, no ano de 1847, nasceu Antônio de Castro Alves, na fazenda Cabaceiras, a sete léguas da vila de Curralinho, hoje cidade de Castro Alves.  Era filho do Dr. Antônio José Alves e D. Clélia Brasília da Silva Castro. Passou a infância no sertão natal, e em 1854 iniciou os estudos na capital baiana. Aos dezesseis anos foi mandado para o Recife.  Ia completar os preparatórios para se habilitar à matrícula na Academia de Direito. A liberdade aos 16 anos é coisa perigosa. O poeta achou a cidade insípida.  Como ocupava os seus dias? Disse-o em carta a um amigo da Bahia: "Minha vida passo-a aqui numa rede olhando o telhado, lendo pouco fumando muito. O meu ?cinismo? passa a misantropia. Acho-me bastante afetado do peito, tenho sofrido muito. Esta apatia mata-me. De vez em quando vou à Soledade." Que era a Soledade? Um bairro do Recife, onde o poeta tinha uma namorada.  O resultado dessa vadiagem foi a reprovação no exame de geometria. Mas em 1864 consegue o adolescente matricular-se no Curso Jurídico. Se era tido por mau estudante, já começava a ser notado como poeta Em 1862 escrevera o poema "A Destruição de Jerusalém", em 1863 "Pesadelo", "Meu Segredo", já inspirado pela atriz Eugênia Câmara, "Cansaço", "Noite de Amor", "A Canção do Africano" e outros. Tudo isso era, verdade seja, poesia muito ruim ainda.  O menino atirava alto. "A poesia", dizia, "é um sacerdócio ? seu Deus, o belo ? seu tributário, o Poeta." O Poeta derramando sempre uma lágrima sobre as dores do mundo. "É que", acrescentava, "para chorar as dores pequenas, Deus criou a afeição, para chorar a humanidade ? a poesia."  Mas, no dia 9 de novembro de 1864, ao toque da meia-noite, na sotéia em que morava, o poeta, que sem dúvida se balançava na rede, fumando muito, sentiu doer-lhe o peito, e um pressentimento sinistro passou-lhe na alma.  Pela primeira vez ia beber inspiração nas fontes da grande poesia: essa a importância do poema "Mocidade e Morte" na obra de Castro Alves. Uma dor individual, dessas para as quais "Deus criou a afeição", despertou no poeta os acentos supremos, que ele depois saberá estender às dores da humanidade, aos sofrimentos dos negros escravos (O Navio Negreiro), ao martírio de todo um continente (Vozes d"África). 

Não era mais o menino que brincava de poesia, era já o poeta-condor, que iniciava os seus vôos nos céus da verdadeira poesia. Naquela mesma noite escreve o poema, tema pessoal, logo alargado na antítese mocidade-morte, a mocidade borbulhante de gênio, sedenta de justiça, de amor e de glória, dolorosamente frustrada pela morte sete anos depois.

A versão primitiva do Poema foi conservada em autógrafo, documento precioso porque revela duas coisas: o poeta não se contentava com a forma em que lhe saíam os versos no primeiro momento da inspiração; na tarefa de os corrigir e completar procedia com segura intuição e fino gosto. 

Cotejada a primeira versão com a que foi publicada pelo poeta em São Paulo, por volta de 1868-69, verifica-se que todas as emendas foram para melhor. Baste um exemplo: o sexto verso da segunda oitava era na primeira versão "Adornada" com os prantos do arrebol, substituído na definitiva por "Que" banharam de prantos as alvoradas, verso que forma com o anterior um dístico de raro sortilégio verbal.

 "vem! formosa mulher ? camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas".

Quase a meio do curso, em 1867, o poeta, apaixonado pela portuguesa Eugênia Câmara, parte com ela para a Bahia, onde faz representar um mau drama em prosa ? "Gonzaga" ou a "Revolução de Minas".  Era sua intenção concluir o bacharelato em São Paulo, aonde chegou no ano seguinte.  A sua passagem pelo Rio assinalou-se pelos mesmos triunfos já alcançados em
Pernambuco.  Em São Paulo, nos fins de 1868, feriu-se num pé com um tiro acidental por ocasião de uma caçada, do que resultou longa enfermidade, em que teve o poeta que se submeter a várias intervenções cirúrgicas e finalmente à amputação do pé.  O depauperamento das forças conduziu-o à tuberculose pulmonar, a que sucumbiu em 1871 no sertão de sua província natal. 

Antes de regressar a ela, publicara, em 1870, o livro "Espumas Flutuantes", cantos por ele definidos como rebentando por vezes, ao estalar fatídico do látego da desgraça", refletindo por vezes "o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo".

Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça ? as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão.  Mas este último tema não figurava nas "Espumas Flutuantes".  As composições em que o tratava deveriam formar o poema "Os Escravos", o qual teria como remate "A Cachoeira de Paulo Afonso", publicada postumamente. 

Deixava ainda o poeta outras poesias avulsas, que era seu propósito reunir em outro livro intitulado "Hinos do Equador".

Ao livro "Os Escravos" pertenceriam "Vozes dÁfrica" e "O Navio Negreiro", os dois poemas em que o poeta atingiu a maior altura de seu estro. 

O primeiro é uma soberba apóstrofe do continente escravizado, a implorar justiça de Deus. O que indignava o poeta era ver que o Novo Mundo, "talhado para as grandezas, pra crescer, criar, subir", a América, que conquistara a liberdade com formidável heroísmo, se manchava no mesmo crime da Europa.

No "O Navio Negreiro" evocava o poeta os sofrimentos dos negros na travessia da África para o Brasil. Sabe-se que os infelizes vinham amontoados no porão e só subiam ao convés uma vez ao dia para o exercício higiênico, a dança forçada sob o chicote dos capatazes.

Em Castro Alves cumpre distinguir o lírico amoroso, que se exprimia quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar simplicidade, como no formoso quadro do poema "Adormecida", o poeta descritivo, pintando com admirável verdade e poesia a nossa paisagem, tal em "O Crepúsculo Sertanejo", cumpre distingui-lo do épico social desmedindo-se em violentas antíteses, em retumbantes onomatopéias. 

A este último aspecto há que levar em conta a intenção pragmática dos seus cantos, escritos para serem declamados na praça pública, em teatros ou grandes salas ?, verdadeiros discursos de poeta-tribuno. E há que reconhecer nele, mau grado os excessos e o mau-gosto ocasional, a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira.

Fonte: jornaldepoesia
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE
CASTRO ALVES

Por Antonio Carlos Secchin

Morri no dia 6 de julho de 1871, às três e meia da tarde, na cidade de Salvador.
Nasci no dia 14 de março de 1847, na fazenda das Cabaceiras, perto de Curralinho, cidade que hoje tem o meu nome.
Não estranhem o fato de eu começar minhas memórias pela data da morte. Diante da eternidade, não há muita diferença entre o que é princípio e o que é fim: tudo se mistura, se apaga e se acaba na roda-viva dos séculos.
Meus pais foram o doutor Antônio José Alves e dona Clélia Castro, filha de um sargento que foi um dos heróis da Independência da Bahia, conquistada em 2 de julho de 1823.
Em muitas províncias os portugueses não acataram a proclamação do Sete de Setembro, e queriam nos manter atados à Coroa lusitana.
Na Bahia, meu avô materno José Antônio da Silva Castro ajudou a derrotar o general Madeira, comandante das tropas inimigas, para assim confirmar a independência do Brasil.
Papai foi um médico famoso. Estudou na Europa, de onde enviava cartas bem românticas à minha futura mãe.
Casaram-se, e logo encomendaram a prole: José Antônio foi o primeiro; eu, Antônio, o segundo; Guilherme, o terceiro; sem esquecer João, de morte
prematura. Essa seqüência masculina só foi quebrada em 1852, com o nascimento de Elisa.
A vida na fazenda começava a ficar limitada demais para a ambição de meu pai.
No começo de 1854, fomos morar em Salvador, no solar Boa Vista. Essa casa, que marcaria de forma definitiva a minha vida, era cheia de lendas e mistérios: uma linda moça, Júlia Feital, nela foi assassinada pelo noivo, que, louco de ciúmes, a teria fulminado com uma bala de ouro.
No solar nasceram minha querida irmã Adelaide e a caçula Amélia, em 1855, empatando em 3 x 3 o jogo entre homens e mulheres.
Além de praticar a ciência, papai era dado à pintura. Em 1856, foi um dos fundadores da Sociedade das Belas-Artes da Bahia, mesmo ano em que iniciei os estudos no Colégio Sabrão.
Mas logo me transferi para o Ginásio Baiano, do doutor Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas.
Para a época (1858) as idéias do doutor eram o máximo: estudávamos várias matérias ao mesmo tempo, não recebíamos castigos físicos, éramos
incentivados a participar de torneios literários.
Para mim, que já trazia o amor à arte cultivado em família, foi uma espécie de preliminar (desculpem a imodéstia) para a glória futura.
Celebrávamos principalmente as datas cívicas, e esse amor prematuro aos feitos brasileiros deixou sementes que iriam germinar na minha poesia de adulto.
Eu já gostava de falar em público, de recitar poemas que, cuidadosamente, anotava num caderninho.
Mais tarde, tive a sabedoria de dar fim a essa poesia, impedindo que os primeiros textos de Cecéu (como eu era conhecido) fossem publicados em livro.
Desse período, a péssima notícia foi a morte de mamãe, em 1859, aos 33 anos.
Desesperado, meu irmão tentou o suicídio. Não gosto de falar disso. Diferente de outros poetas, me incomodaria retratar minha mãe nos poemas. E o mano teve uma reação de louco.
Loucura e morte eram os temas da moda: eu sofri os dois na carne.
A grande mudança, que me arrancou em definitivo das indecisões e devaneios do fim da infância, se deu em 1862, quando fomos, eu e José Antônio, morar no Recife para seguir os cursos preparatórios à Faculdade de Direito. Fomos trocando de endereço até nos estabelecermos numa "república" de estudantes.
No ano seguinte publiquei no número 1 de um jornal acadêmico, A Primavera, meu primeiro poema contra a escravidão: "A canção do africano".
Devo dizer que, à época, estava repetindo o curso de geometria, pois tinha levado bomba em 1862. Como a grande maioria da humanidade, sempre tive graves problemas na hora de me entender com a matemática e seus derivados.
O consolo é que, para fazer poesia, quase nunca é preciso contar além de 12 sílabas, e esse número basta para acolher o universo inteiro.
Um grande prazer, não só meu, mas de todos os companheiros de geração, era o teatro. O divino Victor Hugo, fonte inesgotável de inspiração, já havia escrito muita coisa sobre o drama romântico. Exemplo desse drama era Dalila, de Octave Feuillet, que foi à cena
no teatro Santa Isabel com a atriz Eugênia Câmara.
Difícil descrever o impacto que a presença dela exerceu sobre mim. Digo apenas que ela foi a mulher mais importante de minha vida, a musa celeste que me arrastou, como um turbilhão, ao mais profundo fundo dos cafundós do inferno.
Mas isso é história para mais tarde: por enquanto, tenho apenas 16 anos,e corre o ano de 1864. Sou um rapaz bonito, talentoso, querido pelos colegas (apesar de me acharem orgulhoso em excesso) e marcado por duas novas perdas: a do ano letivo na Faculdade de Direito e a do meu irmão José, morto em fevereiro.
Quanto à primeira,paciência! Estive na Bahia, faltei mesmo mais do que devia, e as faltas não foram abonadas.
Mas meu irmão... Em outubro do ano anterior já dava sinais de desequilíbrio. O jeito foi mandá-lo ao Rio, a ver se melhorava. Acabou suicidando-se. Sofri, me lembrei da primeira tentativa; a segunda, desgraçadamente, dera certo. Loucura e morte se abraçaram, e comemoraram as bodas em cima do cadáver de José.
Para compensar tanto infortúnio, 1865 correspondeu a um período de grande felicidade. Repetente, já sabia as matérias do primeiro ano de Direito; sobrava-me tempo para desenvolver o projeto do livro Os escravos. Morava no bairro de Santo Amaro, em
companhia da dengosa Idalina, a quem homenageei n"As aves de arribação". Eu brincava
dizendo que estava muito bem instalado entre mortos e doidos: a casa ficava entre um
hospício e o cemitério.
Em 11 de agosto, obtive meu primeiro grande sucesso público: recitei "O século" na
sessão comemorativa da abertura dos cursos jurídicos; nove dias depois, foi a vez de "Aos
estudantes voluntários", no teatro Santa Isabel. Voluntários, é claro, da guerra do Paraguai:
até eu me alistei no Batalhão. "O século", que reservei para abrir meu livro Os escravos, é um
grito de crença na juventude e no futuro, é uma aposta na força do novo. Apesar do sangue
militar do avô materno, nunca fui um apologista da guerra. Cantei, sim, os feitos heróicos, as
batalhas vitoriosas contra a opressão - só em louvor do Dois de Julho escrevi cinco poemas.
Se acham que exagerei, saibam que num único livro de outro poeta, Félix da Cunha, há 7
poemas dedicados ao Sete de Setembro! Naquele tempo a palavra da poesia, além de ser
íntima, também devia ser cívica. Daí tantas confissões de amor à pátria num tom vibrante,
que os críticos, décadas depois, me censuraram. Mas não era com sussurros que se incendiava
o público: era com entusiasmo, dramaticidade, retórica. Eu tinha consciência de que fazia
alguns poemas para voz alta, e não para leitura com um chá no aconchego das cadeiras de
balanço. Mais tarde, num deles, lido na rua ("Pesadelo de Humaitá"), cheguei a anotar: "Não
se publica". Foram publicados... O poeta, quando muito, é o dono dos versos, mas não é
nunca o dono do destino do poema.
A guerra do Paraguai foi o último grande conflito externo que atingiu o reinado de D.
Pedro II. As lutas internas (a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Farroupilha) já haviam
sido sufocadas e, derrotado o Paraguai, desenhou-se para o país um longo período de letárgica
e superficial tranqüilidade. Sim, porque agora o inimigo estava dentro de nós, em nossas
famílias, sorvendo o sangue e o suor de uma raça em tempos de suposta paz. Como acreditar
em paz, tendo ao lado os guerreiros negros vencidos pela escravidão? É certo que, desde 1850,
já se proibira o tráfico de escravos. Pouco antes de minha morte, eu ainda comemoraria, em
1869, a proibição da venda de seres humanos em pregão público. Mas era pouco. Para mim,
abolição e república eram palavras quase irmãs: uma puxava a outra, naturalmente. Alguns
poetas falavam mal do Governo; para eles, uma troca de Gabinete resolveria a contento a
questão. Eu não queria trocar um Gabinete: queria mudar de regime. Abaixo a monarquia!
Chamaram-me de "o poeta dos escravos", e eu me orgulho do epíteto. Acho, porém, que ele
Blecaute
Uma Revista de Literatura e Artes Campina Grande (PB) - Ano III - Nº10 - Dezembro 2011
23
não diz tudo: sempre quis ser "o poeta da
liberdade". A escravidão era uma das
mazelas, talvez a mais horrenda, que
devíamos combater em prol da liberdade.
Mas, além da liberdade social, era preciso
lutar pela econômica, pela política, pela
(por que não?) afetiva... Muitos dizem que
minha obra está composta de uma parte
política e de uma parte lírica. Eu penso
que vigora sempre o mesmo amor à
humanidade, sob roupagens diversas: amor
coletivo e amor pessoal, e não saberia dizer
qual o mais importante.
Mas voltemos às minhas dores: em
1866, eu, que já era semi-órfão, tornei-me
órfão por inteiro. Assisti a morte de papai
em janeiro, na Bahia, durante as férias da
Faculdade. Procurei não transportar o
peso de tantas perdas para a minha poesia.
Particularmente, achava exagerado o gosto
pelo doentio que os poetas da geração
anterior à minha desenvolveram. Eu
queria apostar na vida, mas vivia perdendo
a aposta... De vez em quando, porém, eu
ganhava. E o prêmio, no caso, não foi pequeno: o amor de Eugênia Câmara. Após um longo
período de indecisões e recuos, que nunca soube com clareza se eram meus ou dela,
finalmente consegui arrancá-la do empresário com quem vivia, e levei-a, junto com a filha,
para morar comigo num subúrbio do Recife. Dediquei-lhe muitos poemas, alguns recitados
em público, e que, na paixão do amor ou no desespero da perda, testemunham a intensidade
da nossa relação: "Dalila", "Meu segredo", "Amemos", "O vôo do gênio", "A uma atriz",
"Fatalidade", "O adeus de Teresa", "O gondoleiro do amor". Para ela escrevi, no fim do ano, o
drama Gonzaga ou a revolução de Minas, onde falo de liberdade, escravidão, traição, paixões...
em suma, de tudo que atormentava ou deliciava minha existência, e se confundia com a
própria Eugênia, para quem, é evidente, eu havia reservado o papel principal. Sonhava vê-la
em cena interpretando meu texto com seu talento fulgurante, decerto bem superior ao da
http://www.onordeste.com
Blecaute
Uma Revista de Literatura e Artes Campina Grande (PB) - Ano III - Nº10 - Dezembro 2011
24
concorrente Adelaide Amaral, atriz aclamada pelo poeta Tobias Barreto. Durante algum
tempo, aliás, minha sina foi entrar em conflito com Tobias. Começamos como amigos -
temos inclusive poesias dedicadas um ao outro; passamos a colegas, tornamo-nos rivais e
acabamos inimigos. Intrigas pessoais e literárias. O Tobias era feio, velho, escrevia mal e
declamava pior ainda. Nos recitativos ficava nervoso, tinha um jeito desastrado, não
controlava a voz. Já eu, que possuía domínio cênico, entrava vestido de negro, com uma flor
na lapela, óleo nos cabelos, madeixas minuciosamente espontâneas e pó-de-arroz no rosto,
para parecer mais pálido. Por modéstia, não direi que freqüentemente as moças ficavam tão
próximas do delírio quanto os rapazes, da inveja. Mas nem depois de morto eu descansei do
Tobias: um historiador literário, Sílvio Romero, sergipano como o poeta, resolveu promovêlo
postumamente às minhas custas, afirmando a superioridade do conterrâneo sobre mim.
Até hoje, todos só se lembram de Barreto por isso, naturalmente para discordar de Romero
(aqui, sou o primeiro da fila).
Continuava devotado às causas sociais. Fundei, com Rui Barbosa e outros colegas da
Faculdade, uma sociedade abolicionista e participei de um comício republicano dissolvido
pela polícia, quando criei de improviso os versos de "O povo do poder". No terreno
sentimental e seria desse modo até o fim - vivia em sobressaltos. A companhia teatral de
Eugênia iria excursionar ao sul do país, e necessitava de sua maior estrela; nessas
circunstâncias, eu não poderia acompanhá-la. Para meu alívio, Eugênia rompeu com o
empresário e decidiu ficar definitivamente (até quando?) comigo. Motivado, arrematei o
Gonzaga em fevereiro de 1867 e deixei o Recife, aonde nunca mais voltaria, na direção da
Bahia, levando minha mulher e uma certeza: iríamos conseguir encenar o texto em Salvador.
Depois de curto período no hotel Figueredo, instalamo-nos no solar Boa Vista, casa
de minha infância, então semi-abandonada pela família. O impacto desse reencontro eu
registrei no poema "A Boa Vista". Ao lado de Eugênia, eu sentia minha carreira se fortalecer.
Nesse período, esbocei A cachoeira de Paulo Afonso, que só seria publicada cinco anos após meu
falecimento. Um grande sucesso foi a declamação de "Quem dá aos pobres, empresta a
Deus", numa sessão beneficente no mês de outubro, em prol das famílias dos mortos na
guerra do Paraguai. Mas a verdadeira consagração ocorreu no dia 7 de setembro, quando
finalmente subiu à cena, no teatro São João, o meu Gonzaga, tendo à frente do elenco Eugênia
e, no papel de Tomás Antônio Gonzaga o esquecido Eliziário Pinto, ator e poeta, cujo belo
"Festim de Baltazar" permaneceu como uma espécie de filho único do autor, reproduzido em
muitas antologias do começo do século XX. Pobre Eliziário, de tanto brilho naquele 7 de
setembro, e hoje sem qualquer migalha no festim da literatura...
Imaginam um autor delirantemente aplaudido após a estréia? Multipliquem por
mil, e ainda será pouco. Fui chamado à cena depois de cada ato, sob estrondosa ovação. Não
Blecaute
Uma Revista de Literatura e Artes Campina Grande (PB) - Ano III - Nº10 - Dezembro 2011
25
satisfeita, a multidão carregou-me em triunfo, sobre os ombros, até minha casa. Era a glória,
mas baiana. Quem sabe eu não seria bafejado pela consagração nacional?
Decidi prosseguir os estudos de Direito, interrompidos na temporada em Salvador,
na cidade de São Paulo. Incluí no roteiro de viagem uma visita ao Rio de Janeiro, onde
tencionava conhecer nosso maior escritor, o cearense José de Alencar. Em fevereiro de 1868
já estávamos no Rio, Eugênia e eu. Munido de uma carta de apresentação, visitei Alencar,
então residindo na Tijuca, sabendo que tocava numa corda sensível do mestre: li para ele o
Gonzaga. Meu anfitrião era um obcecado pela construção de um teatro brasileiro, mesmo
tendo fracassado na tentativa. Pregava um teatro baseado em nossa História exatamente o
que eu fizera, ao invocar em meu drama a Inconfidência Mineira. A receptividade foi muito
boa, a ponto de Alencar encaminhar-me a outro talento que se firmava na literatura
fluminense: o jovem Machado de Assis, a quem visitei no domingo de carnaval. O resultado
desses encontros se traduziu nas crônicas publicadas no Correio Mercantil, a de José em 22 de
fevereiro e a de Joaquim em 1 de março, ambas muito favoráveis ao Gonzaga. Isso contribuiu
para que, em São Paulo, minha acolhida superasse toda expectativa. Lá cheguei em fins de
março. Joaquim Nabuco, bem mais tarde, diria que eu era "o eleito da mocidade" e que
representava "a dignidade e a independência das letras". Outro colega chamou-me "mais um
semideus do que um poeta". Lúcio de Mendonça, que seria o fundador da Academia
Brasileira de Letras, escreveu que quando eu me exibia à multidão "era grande e belo como um
Deus de Homero". Creio que há algum exagero nisso tudo, mas, para corresponder a tanto
carinho, ofereci à Paulicéia o melhor do que dispunha: meus versos. Em abril, compus a
"Tragédia no mar", que todos insistem em conhecer pelo subtítulo, "O navio negreiro"; eu
recitaria esses versos no dia 7 de setembro, no Grêmio Literário da Faculdade de Direito de
São Paulo. Em junho declamei, no teatro São José, a "Ode ao dous de julho", meu mais
conhecido poema sobre a data, e, no mesmo mês, escrevi "Vozes d'África". Para culminar,
Gonzaga foi representado com o maior ator da época, Joaquim Augusto.
Tudo estaria perfeito, não fossem as cada vez mais constantes desavenças com
Eugênia. Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações. Sopravam-me histórias
de adultério. No entanto, sei que ela me amou, como sei que, talvez, meu amor tenha sido
insuficiente para sua paixão. Não a recrimino. Em determinado momento, largou a carreira
para me seguir. Agora me largava para seguir a si própria. Abatido, desgostoso, procurei
refúgio em algumas distrações: caçadas, por exemplo. Maldito dia de novembro, quando fui
ao Brás. Sem querer, ao transpor uma vala, acionei o gatilho e a bala se cravou no meu pé
esquerdo. Resultado: plantei ali a semente de chumbo da minha morte. Nunca me curei de
todo, e à ferida do pé se acrescentaram problemas infecciosos e pulmonares. Sem Eugênia,
prostrado ao leito em seis meses de sofrimento, disse adeus a São Paulo e fui tratar-me no Rio,
Blecaute
Uma Revista de Literatura e Artes Campina Grande (PB) - Ano III - Nº10 - Dezembro 2011
26
em maio de 1869. Os médicos concluíram que a única alternativa seria a amputação do terço
inferior da perna, e eu concordei: ficaria com menos matéria do que o resto da humanidade.
Ainda permaneci no Rio até o fim do ano, quando decidi retornar à Bahia. Com o navio se
afastando da Guanabara, visualizei, repentinamente, duas tristezas: a da noite, que descia dos
céus, e a da solidão, que subia do oceano. Entre mar e céu, vaga e vento, brotou-me um nome,
Espumas flutuantes, para assim chamar o livro que reuniria meus poemas. Em Salvador,
aquecido pelo calor dos trópicos e da família, cheguei a sonhar que me curaria. Dediquei-me
com afinco à preparação da obra; em fevereiro de 1870 redigi o "Prólogo", em que aludi aos
tempos felizes no Sul, à transitoriedade da dor e da alegria. Fiz questão de assinalar data e
local de muitos poemas, como se, com isso, estivesse dizendo que escrevi o que a vida me
ditou, e a cada dia o ditado foi diverso.
Encarreguei o amigo Augusto Guimarães de acompanhar a publicação do livro em
seus detalhes: tipografia, papel, tiragem, e meti-me no interior da Bahia, de volta a
Curralinho, em busca de sossego mental e regeneração física. Revi Leonídia Fraga,
namoradinha de infância, que me inspirou "O hóspede". Na fazenda Santa Isabel dei por
encerrada A cachoeira de Paulo Afonso.
Retornei a Salvador em setembro. À medida que me enfraquecia, o livro ganhava
corpo: nasceu forte e belo. Em novembro despachei para o Rio os primeiros exemplares das
Espumas flutuantes. Nessa altura, a doença abandonava a marcha lenta e já galopava, feroz, no
meu corpo. Recolhi-me em definitivo ao abrigo da família, e só abri uma exceção no dia 1 de
fevereiro de 1871, quando, combalido, arranquei forças para declamar em público um poema
em solidariedade às crianças vítimas da guerra franco-prussiana. Na minha vida pessoal, fui
ainda aquinhoado com um amor diverso de todos os que até então vivera: apaixonei-me por
Agnèse Murri, viúva, jovem, linda, italiana. Professora de canto e piano da mana Adelaide, foi
a casta musa para quem compus "Noite de maio", "Versos para música", "Remorsos", "Gesso e
bronze", "Aquela mão", "Longe de ti", "Em que pensas?". Nunca foi minha, mas, na memória
inesgotável do desejo, será minha para sempre.
Seis de julho de 1871, três e vinte da tarde. Daqui a dez minutos vou morrer. Peço à
mana que me ajude a levantar da cama, quero ir à janela e ver ainda uma vez o sol. Com
grande esforço apóio-me ao parapeito; a respiração ofegante, o suor, o suor, essa dor no peito.
Imóvel, sinto que a luz do sol se escurece, ou talvez seja eu que esteja escurecendo dentro do
dia que insiste em brilhar. Três e meia. Castro Alves não existe mais.
Bem. E depois? Cada um seguiu seu rumo. Leonídia, por exemplo, se casou cinco
anos após minha morte. O solar Boa Vista virou hospício, e um dia internou uma mulher
velhinha e doida Leonídia. Quando faleceu, encontraram em seus pertences cópias
amarelecidas de versos meus. Agnèse voltou para a Itália, e hoje em dia deve estar regendo o
Blecaute
Uma Revista de Literatura e Artes Campina Grande (PB) - Ano III - Nº10 - Dezembro 2011
coro dos querubins.
Versos publicados, esquecidos, fracassados, traduzidos, improvisados, não escritos.
Talvez a biografia de um poeta seja a soma de seus versos e a multiplicação de seus sonhos.
Em meio a tantas tempestades, ouso dizer que fui feliz. Tive a bênção de ser o último poeta a
casar povo e poesia, e já estava bem morto à época do divórcio. Por isso, se ainda quiserem
saber de mim, não me ouçam mais tratem de ouvir meus versos, porque, em minha vida, eu
afirmei:
Último trono é o poema!
Último asilo a Canção!

Antonio Carlos Secchin (Rio de Janeiro). Ensaísta, poeta e Professor de Literatura. Membro da Academia Brasileira de
Letras. Publicou: 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (Galo Branco, 2006), Memórias de um leitor de poesia e outros ensaios
(Topbooks/ABL, 2010) entre outros. O texto acima foi publicado juntamente com antologia de Castro Alves, pela
Fundação Banco do Brasil/ Organização Odebrecht em 1997.
Fonte: Revista Blecaute

Te Contei, não ? - Doutor, psicanalista, louco, racista? Afinal, quem é Heverton Campos Menezes??



O médico Heverton Campos Menezes, de 62 anos,  tem um vasto currículo profissional, diretamente proporcional as suas ocorrências policiais, envolvendo injúrias, brigas e xingamentos, revelando uma personalidade ao menos bastante complicada. No último domingo de abril (dia 29), Campos Menezes tentou furar a fila, na entrada de um cinema num shopping em Brasília, e, repreendido por uma funcionária do estabelecimento, Marina Serafim Reis, uma jovem e bonita garota da cor negra, descambou a lher dizer as piores ofensas e desaforos de cunho racial, humilhando-a na frente do público presente, valendo-se de  expressões como: a de que a jovem não teria capacidade para lidar com pessoas, mas sim com animais e que ela deveria estar na África, lidando com orangotangos; segundo a versão da vítima e suas testemunhas. À primeira vista, o chilique do mal educado médico e psicanalista poderia parecer um episódio até risível, mas não é.


Segundo a imprensa divulgou recentemente, Campos Menezes tem mais de sete processos criminais por injúria qualificada por racismo, seja por insultar mesários e eleitores em dias de eleição, chamando o Brasil de republiqueta de bananas repleta de "neguinhos"; ou mesmo insultando nordestinos em restaurantes, falando que os habitantes daquela região deveriam ser exterminados como Hitler fez com os judeus; ou seja, na câmara de gás.

Flagrado por câmeras do shopping, que visualizaram um amedrontado Menezes fugindo desajeitadamente do estabelecimento, após a cena armada e a reprovação geral das pessoas que presenciaram o fato, nos dias seguintes o médico apareceu perante emissoras de televisão, acompanhado de seu advogado, limitando-se a ler uma lacônica nota, onde pedia desculpas à funcionária ofendida, bem como chegou ao disparate de dizer que todas as injúrias alegadas pela vítima seriam fruto de sua imaginação.

No Brasil, racismo é crime e ofensa de origem racial também o é. Segundo o Código Penal, a injúria qualificada mediante racismo encontra-se prevista no art. 140, §3º ("Se a injúria consiste na utilização de elementos refentes à raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência"). É, sobretudo, a criminalização do politicamente incorreto, mas também revela a necessidade de sanções penais não somente para quem discrimina abertamente ( proibindo, por exemplo, uma pessoa de ingressar num determinado estabelecimento ou emprego por conta de sua cor), mas também para quem injuria alguém, ofendendo sua dignidade a partir de insultos baseados em preconceitos de cor. Nesse quesito, parece que o "doutor" Campos Menezes é recordista, praticando uma conduta delitiva cuja pena vai de 1 (um) a 3 (três) anos e multa.
Talvez por saber que poderia ser autuado em flagrante, o médico Heverton Campos Menezes correu em disparada após ser flagrado ofendendo covardemente uma funcionária de cinema, tão somente por conta da cor de sua pele. Revela-se que o suposto psicanalista (cuja segunda profissão não é reconhecida pelo Conselho de Psicanálise) possui uma conduta errante, no mínimo revelando graus de uma certa psicopatia, além de um preconceito racial latente, que não é atributo tão somente do esbaforado doutor em ofensas raciais. Sabe-se que, no Brasil, ainda temos, infelizmente, muitas pessoas de classe média que fazem distinções de raça ou cor, discriminando pessoas por serem negras ou por virem de regiões onde essa etnia é mais evidente, como o Rio de Janeiro ou o Nordeste brasileiro. É triste ver como pessoas como o médico do DF ainda permanecem nas ruas, escapando de uma responsabilização penal, ou por convencerem suas vítimas com esfarrapados pedidos de desculpas públicas, ou pela força da impunidade, já que muitos dos que são humilhados são pessoas simples e exercem empregos subalternos, tendo um medo natural de se envolver em problemas, ao processar "distintos cidadãos" como o desagradável senhor Campos Menezes.

Que a inédita visibilidade midiática da trapalhada cometida por um médico racista e desequilibrado, se não o levar para a cadeia ( o que é difícil), que ao menos sirva para conscientizar a sociedade brasileira da necessidade de reprimir veementemente condutas como a apresentada por Campos Menezes, relegando-o como maior punição o ostracismo. Que pessoas assim seja desmoralizadas perante a opinião pública, e tenham a vaidade totalmente subjugada pelo peso de suas próprias responsabilidades. O Estado de Direito reclama isso e tais indíviduos devem ser exemplarmente punidos pela lei, ao menos a título de indenização. Vais sofrer no bolso e na credibilidade profissional, "doutor" Campos Menezes!! Detalhe: caso algum dia o senhor me chame de neguinho, só tenho algo a lhe dizer: "Black is beautiful!!", meu querido. Racismo, não!!

Te Contei, não ? - Algo de insustentável no ar


Mais de cem pneus, 21 sofás, televisor, balde, banheira e caixa d"água parcialmente encoberta por vegetação. O material foi encontrado num percurso de um quilômetro, feito de barco, ao longo da Lagoa da Tijuca, na Barra, na semana passada. O trajeto, acompanhado pelo biólogo Mário Moscatelli, foi interrompido cinco vezes: três por atolamento e duas porque uma almofada e um pedaço de plástico se enroscaram na hélice do motor. Na antessala do Riocentro, sede da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que começa daqui a exatamente um mês, as condições de lagoas, canais e rios da Baixada de Jacarepaguá são ecologicamente insustentáveis. O esgoto e o lixo despejados e acumulados ao longo dos anos tornaram esses lugares tão rasos que a média de profundidade oscila entre zero e 50 centímetros, de acordo com batimetria feita pela Secretaria estadual do Ambiente para que possam ser executados serviços de dragagem. O estudo identificou ainda que, em alguns trechos, formam-se ilhas de até 20 centímetros acima do espelho d"água.

De cima, fica nítido o tamanho do estrago ambiental numa área que concentrará a maioria dos equipamentos das Olimpíadas de 2016. Num sobrevoo de helicóptero, também na companhia de Moscatelli, repórteres do GLOBO viram galerias pluviais despejando esgoto em canais e lagoas; manchas de poluição no complexo lagunar e na Praia do Pepê; os canais do Portelo e do Cortado, que, de tão assoreados, praticamente desapareceram; e favelas se expandindo. Garças e biguás passeavam sobre sedimentos, onde deveria haver água. Sem falar na Lagoa de Jacarepaguá, em frente ao Riocentro, cuja água verde reflete a alta reprodução de cianobactérias, que podem provocar até hepatite. Um quadro que, segundo autoridades e ambientalistas, só piorou desde a realização da Rio 92, com o acúmulo de sedimentos e o aumento populacional.

Dragagem: inícioaté novembro

Dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) não deixam dúvidas. O último boletim, de março, mostra que o índice de coliformes fecais encontrado indica condições impróprias das lagoas, mesmo para o contato secundário (eventual). O índice de conformidade, consolidado de 2007 a 2011, obtido pelo instituto a partir de medições em sete pontos, revela também que a qualidade da água era péssima na maior parte do tempo.

- Os cursos d"água da região são valões de esgoto - lamenta Moscatelli. - É possível recuperá-los até 2016. Mas, para isso, além de dragar adequadamente, é preciso concluir o programa de saneamento e implantar outras Unidades de Tratamento de Rios (há apenas uma, no Arroio Fundo).

Uma opinião compartilhada pela bióloga Sandra Azevedo, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ:

- Se investirmos só nas lagoas, estaremos enxugando gelo. Mas tenho esperança de que os eventos previstos tragam melhorias ambientais.

A última dragagem na região foi feita há cerca de oito anos e se limitou a um trecho da Lagoa da Tijuca. O novo serviço deve começar em outubro ou novembro, segundo o secretário do Ambiente, Carlos Minc. Com recursos assegurados, ela custará R$ 550 milhões. Está em andamento a licitação para a escolha de uma empresa que fará, em quatro meses, um relatório ambiental simplificado. A etapa seguinte é a contratação da dragagem.

O subsecretário do Ambiente, Antonio da Hora, explica que serão dragados 5,6 milhões de metros cúbicos de sedimentos das quatro lagoas da região (Tijuca, Marapendi, Jacarepaguá e Camorim) e do Canal da Joatinga: 30% são lodo e material fino (argila e silte); e o restante areia. O projeto inclui o prolongamento do atual Quebra-Mar em 190 metros, usando pedras das obras de expansão da Linha 4 do metrô. A construção de um quebra-mar na Praia da Macumba, prevista no projeto, ficará para uma próxima etapa, se for considerada necessária. Com a conclusão da dragagem, que deverá durar dois anos, a profundidade do complexo lagunar vai variar de 1,5 a 3,5 metros. O subsecretário acrescenta que, para evitar que o revolvimento de sedimentos provoque cheiro de ovo podre, será adotada a mesma solução usada no Canal do Fundão:

- O odor não será mais forte do que é hoje. Sempre que identificarmos o aumento do cheiro, lançaremos um produto químico que, no contato com o gás sulfídrico, o torna inodoro.

Hora assegura ainda que a maior parte do material dragado será usado para implantar uma ilha, de 450 mil metros quadrados, na Lagoa da Tijuca, próximo à área da Península. O que puder ser aproveitado em obras públicas, diz ele, será entregue à prefeitura.

- Criaremos um espaço ecológico na Lagoa da Tijuca. A dragagem vai recuperar ambientalmente as lagoas da Baixada de Jacarepaguá, que se tornarão navegáveis e propícias à pesca. Teremos uma Cancún carioca. O mar da Barra também ficará próprio a maior parte do tempo - acrescenta Minc.

Quanto ao esgoto, Minc diz que metade está interligada à estação de tratamento e ao emissário submarino. Nas contas da Cedae, a rede atende a 85% da Barra, 70% do Recreio e 50% de Jacarepaguá.

- O saneamento da região, hoje, é muito diferente de cinco anos atrás. Em 2015, teremos 100% dos clientes da Baixada de Jacarepaguá atendidos - garante o presidente da Cedae, Wagner Victer.

O cenário, no entanto, não é tão otimista, segundo a deputada Aspásia Camargo, presidente da Comissão de Saneamento Ambiental da Assembleia:

- A coleta do esgoto ainda é muito precária, porque nem todos os imóveis são interligados à rede da Cedae, à medida que ela é implantada. Há pessoas reclamando de poluição. Recebemos também a informação de que a estação de tratamento de esgoto está sendo subutilizada.

Já a Fundação Rio-Águas, órgão da prefeitura, informa que a Unidade de Tratamento de Rio (UTR) do Arroio Fundo trata 1.800 litros de água por segundo desde 2010, conseguindo reduzir em 88% a turbidez e em 90% a sua carga orgânica. Porém, a água tratada do Arroio Fundo se encontra com o poluído Rio Anil, que desemboca na Lagoa do Camorim. Até 2016, está prevista a instalação de mais quatro UTRs: nos rios Arroio Pavuna, das Pedras e Anil; e no Canal Pavuninha.

Jornal O Globo , em 13 de maio de 2012

Te Contei, não ? - Os malefícios da Maconha

 

"A maconha reduz a defesa das pessoas às doenças. E mesmo consumida em doses mínimas, pode prejudicar a capacidade de dirigir, pois ataca a concentração, atenção e juízo dos motoristas, diminuindo as faculdades de percepção e movimento. A probabilidade de que os usuários experimentam outras drogas é grande. Entre elas o haxixe, alucinógenos, anfetaminas, barbitúricos e heroína. Apesar de por si só não levar às demais a maconha age como ponte. A maconha associada ao álcool prejudica física e psicologicamente. Um mal que ataca milhares de pessoas em todo o mundo. É muito difícil que o consumo de maconha seja legalizado. Porque junto com tabaco (fumo) e álcool, corre-se o risco de se criar uma sociedade de doentes físicos e mentas."

Princípio Ativo
A maconha é uma erva de nome científico Cannabis sativa que, dependendo das condições de cultivo, pode sintetizar uma porcentagem maior ou menor de uma substância denominada THC, ou tetrahidrocanabinol, que é a principal responsável pelos efeitos da droga no organismo humano.

A forma de consumo varia desde a inalação de sua fumaça por meio de cigarro ou incensos. Pode ser também ingerida sob forma de chá ou comprimido. Os usuários fumam em cigarros feitos artesanalmente pelos próprios consumidores ou com a ajuda de objetos como cachimbos.

Efeitos
Os efeitos causados pelo consumo da maconha, bem como a sua intensidade, são os mais variáveis e estão intimamente ligados à dose utilizada, à concentração de THC na erva consumida e à reação do organismo do consumidor com a presença da droga.

Os efeitos físicos mais freqüentes são avermelhamento dos olhos, ressecamento da boca e taquicardia (elevação dos batimentos cardíacos, que sobem de 60 - 80 por minuto para 120 - 140 batidas por minuto).

Com o uso contínuo, alguns órgãos como o pulmão passam a ser afetados mais seriamente pela maconha. Devido à contínua exposição com a fumaça tóxica da droga, o sistema respiratório do usuário começa a apresentar problemas como bronquite e perda da capacidade respiratória. Além disso, por absorver uma quantidade considerável de alcatrão, presente na fumaça de maconha, os usuários da droga estão mais sujeitos a desenvolver o câncer de pulmão.

O consumo de maconha também diminui a produção de testosterona. A testosterona é um hormônio masculino que é responsável, entre outras coisas, pela produção de espermatozóides. Portanto, com a diminuição da quantidade de testosterona, o homem que consome continuamente maconha apresenta uma capacidade reprodutiva menor.

Os efeitos psíquicos são os mais variados, sendo que a sua manifestação depende do organismo e das características da erva consumida. As sensações mais comuns são um bem-estar inicial, relaxamento, calma e vontade de rir. Pode-se sentir angústia, desespero, pânico e letargia. Ocorre ainda uma perda da noção do tempo e espaço além de um prejuízo na memória e latente falta de atenção.

Em um longo prazo, o consumo de maconha pode reduzir a capacidade de aprendizado e memorização além de passar a apresentar uma falta de motivação para desempenhar as tarefas mais simples do cotidiano.

Histórico
A maconha, como a maioria das drogas, tem seus primeiros indícios há mais de cinco mil anos, quando povos como os chineses e persas usavam a droga como incenso em cerimônias religiosas. Era também utilizada como recompensa para mercenários, para fins medicinais.

Seu uso na medicina perdurou até o início do século XX, quando a droga passou a ser consumida apenas para alterar o estado mental do usuário.

No Brasil, a droga também foi muito utilizada, no século passado, como medicamento para vários males, mas devido ao crescente número de usuários que passaram a consumir a droga abusivamente e para fins não medicinais, ela foi proibida. Em todo o Ocidente a droga foi proibida na década de 40.

Nos anos 70, os hippies começaram a usar a maconha não só para alterar seu estado mental, mas também como uma demonstração de protesto contra o sistema social e político vigente na época.

Não use DROGAS! Você não precisa de DROGAS para ser feliz!
Texto retirado da revista: Decisão - Edição Especial
Editor: Márcio Dias Guarda - Editora: Casa

Entrevista - Heraldo Pereira - Por um jornalismo insento




Estamos acostumados a vê-lo tranquilo e sempre contido nas palavras e nos gestos quando apresenta, entre outras coisas, o quadro Pinga-Fogo, que vai ao ar no Jornal da Globo.

No entanto, Heraldo Pereira, de 50 anos de idade e mais de 30 anos de carreira, saiu um pouco dessa postura de calmaria inabalável para falar sobre o episódio envolvendo o jornalista Paulo Henrique Amorim, que, em fevereiro, foi condenado pelo Tribunal de Justiça de Brasília a se retratar e a pagar uma indenização de R$30 mil a Heraldo (doada a uma instituição de caridade). "No mundo de hoje, ninguém pode ser ofendido como fui, pelo fato de ser negro. O agressor não faz uma análise profissional, política ou comportamental da minha pessoa. Ele faz uma leitura intolerante a partir da racialidade. Destaca sempre como fato a ser distinguido a cor da minha pele e desmerece a minha pessoa num gesto de crueldade", protestou o jornalista.

Nessa entrevista, Heraldo Pereira lembra do início da sua carreira, fala sobre cotas e revela: "Eu, como jornalista, não gosto de dar opinião. Sou um jornalista que não gosta de expressar meu ponto de vista. O que eu gosto é descrever os fatos, com o máximo de isenção possível."

"VOCÊ SÓ TEM EVOLUÇÃO COM A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA. NÃO VAI ENCONTRAR REFERÊNCIA DE CIDADANIA NA FIGURA QUE ESTÁ NA POLÍTICA. VOCÊ VAI ENCONTRAR REFERÊNCIA DE CIDADANIA NO ELEITOR, NÉ? ACHO QUE A COISA MAIS FANTÁSTICA É A CONSCIENTIZAÇÃO CADA VEZ MAIOR DO ELEITOR. É A PARTIR DAÍ QUE IREMOS CONSTRUIR UMA POLÍTICA NUM NÍVEL MELHOR DO QUE SE VÊ HOJE"

São quantos anos de jornalismo?

Essa pergunta me faz lembrar que estou ficando velho. Comecei minha carreira em 1978, na Rádio Renascença, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Depois fui trabalhar em jornal. E, logo em seguida, fui para uma filiada da Globo, em Ribeiro Preto, que era, na época, TV Ribeirão. Faz tempo, em 1978!
(diz, pausadamente, para depois cair na gargalhada).

Você começou cobrindo o quê?

Comecei cobrindo política na Câmara Municipal de Ribeirão Preto e os assuntos políticos da região.

Então, já iniciou o jornalismo na política?

Eu gostava muito de política. Cobria a Câmara Municipal, que era no centro de Ribeirão Preto. Eu gosto de política. Gosto de política, não, gosto de fazer cobertura política (risos).

Com tantos anos fazendo cobertura da política brasileira, você nunca ficou indignado a ponto de pensar em deixar o jornalismo político?

Você pode não acreditar, mas independentemente de minha indignação, nunca deixaria de cobrir a política brasileira. Sou cidadão. Tenho os mesmos sentimentos que as pessoas de modo geral têm. E faço da atividade política meu trabalho; o contato com as figuras do cenário político. Sou muito brasileiro, adoro o Brasil. Não aguento ficar muito tempo fora. Quando viajo, gosto de voltar logo para casa.

Aproveitando que você falou sobre o Brasil, o que pensa a respeito das transformações que o país está passando nas últimas duas décadas?

Acho que a gente está numa evolução importante. Você só tem evolução com a construção da cidadania. Não vai encontrar referência de cidadania na figura que está na política. Você vai encontrar referência de cidadania no eleitor, né? Acho que a coisa mais fantástica é a conscientização cada vez maior do eleitor. É a partir daí que iremos construir uma política num nível melhor do que se vê hoje.

Como você consegue ter "estômago" para entrevistar tantos políticos corruptos em Brasília?

Eu acabei fazendo o curso de direito. E isso de alguma maneira me ajuda quando vou entrevistar um político. Tento entrevistar todos, independentemente de ele ser ou não desonesto. Faço isso sempre em nome do "fim". O fim é a informação, o fim é o público, é a população. Não tenho reparos aos elementos, do meio político, do meio social, do meio artístico.

Em todos esses anos fazendo o Pinga-Fogo no Jornal da Globo, nunca aconteceu de alguma briga entre os políticos entrevistados impossibilitar de o quadro ir ao ar?

Eu já vi cada "pau" de figuras políticas no cafezinho e nos corredores de Brasília. Mas acho que a câmera inibe um pouco as pessoas, sejam políticos ou não (Heraldo olha para o meu gravador e diz): A própria figura do jornalista inibe um pouco as pessoas. Na hora que a gente vai fazer o Pinga- Fogo, os políticos dão meio que uma baixada na discussão, e a conversa fica um pouco civilizada. Peguei políticos que antes estavam quebrando o maior pau e, na hora de começar a gravar o quadro, ficaram mais serenos. Acho que o elemento da comunicação, o jornalista inibe uma briga pra valer dos políticos. Até agora nenhum quadro do Pinga-Fogo deixou de ir ao ar por causa de brigas dos políticos entrevistados. Mas é bom ficar esperto, porque qualquer dia o pau pode estourar e o quadro não poder ir ao ar (risos).

Como você consegue conciliar e aplacar os ânimos mais exaustados dos políticos adversários entrevistados para o quadro?

É muito complicado. As pessoas no ambiente político têm suas contradições, mas elas não estão acostumadas a juntar essas contradições no mesmo lugar.

De onde surgiu a ideia do quadro pinga-fogo?

Essa foi uma ideia de um jornalista chamado Erick Preta. Ele atualmente é diretor da TV Globo do Rio de Janeiro. Na época ele era o editor-chefe do Jornal da Globo. Há alguns anos, ele chegou para mim e disse: "Olha, a gente poderia fazer um quadro em que pudéssemos pôr os políticos de confrontos de opiniões e ideias...". Eu falava para ele que não seria possível juntar políticos assim numa mesma entrevista, lado a lado.

'NUMA DAS PEÇAS DE SUA DEFESA, O RÉU CHEGOU A DIZER QUE AO USAR A EXPRESSÃO 'NEGRO DE ALMA BRANCA', O FEZ PARA ME ELOGIAR. PODE ISSO? SÓ EU E A MINHA FAMÍLIA SABEMOS A DOR QUE SOFRI AO LER TODO AQUELE LIXO EM FORMATO DE TEXTO. É ALGO INDESCRITÍVEL E QUE, NO FUNDO, JAMAIS SERÁ REPARADO, EU BEM SEI"

Você não teve fé na ideia dele?

Não, não mesmo. Não acreditava muito, porque político é ensebado, meio desconfiado. Mas ele acreditou na ideia e me convenceu.

Quando o primeiro quadro do pinga-fogo foi ao ar?

Ah, já tem alguns anos. Não me lembro quando o primeiro foi ao ar. Ele, Erick Preta, inclusive, usou o nome Pinga-Fogo, que foi tirado de uma expressão parlamentar. É um dos momentos da atividade parlamentar, quando acontecem os debates. Na Câmara, nas assembleias, tem o momento do "pinga-fogo"; na Câmara de Ribeirão Preto, tinha o "pinga-fogo" nos momentos das discussões parlamentares. O nome do quadro serviu perfeitamente para a proposta dele. É um quadro interessante. Nem sempre a gente consegue um belo Pinga-Fogo.

Você sente falta de exercer um jornalismo mais opinativo, no qual pudesse expressar mais suas ideias, poder falar de um assunto de forma mais pessoal?

Eu, como jornalista, não gosto de dar opinião. Sou um jornalista que não gosta de expressar meu ponto de vista. O que eu gosto é de descrever os fatos, com o máximo de isenção possível. Eu sei também que a isenção é uma meta a ser atingida. Nós temos as nossas ideologias, nossos preconceitos, nossos conceitos. Então, busco sempre essa isenção "ideal". O que gosto é de descrever fatos. Se alguma vez tenho que dar opinião, fico incomodado. Eu sempre tento ver a maturidade do receptor da informação e não a formatação que eu vou dar. Prefiro que o receptor da informação, no caso o público, tenha uma abordagem crítica, que faça a crítica. Posso até identificar o jornalista que está dizendo isso, porque ele apurou ou porque tem uma ideologia. Mas prefiro que o público possa fazer esse lado crítico. Sou contrário aos que dizem "Virou jornalista para dar opinião". O público tem maturidade para identificar as informações que passamos e tirar suas conclusões com base nelas.

Há quanto tempo você mora em Brasília?

Lá vem você fazer perguntas que me fazem lembrar que estou ficando velho (risos). Mas vamos lá: eu cheguei em Brasília em 1988, mas antes fui cobrir a Constituinte, em 1986. Depois, mudei para São Paulo, aí que fui de vez para Brasília. Estou lá até agora.

"NÃO VOU PERMITIR QUE UM INDIVÍDUO QUE FAZ PROPAGANDA DO QUE É SER NEGRO EM SUAS RODINHAS DE CONVERTIDOS TARDIOS AO ESQUERDISMO, TODOS CRIADOS EM BERÇO DE OURO, VENHA ME DIZER O QUE É SER NEGRO. NAS MINHAS VEIAS CORREM, COM MUITO ORGULHO, SANGUE DE QUEM FOI ESCRAVO E AJUDOU A FAZER DESTE O NOSSO PAÍS"

O que a cidade de Brasília representa para você?

Eu adoro Brasília! Minhas filhas nasceram lá. A cidade é magnífica. As pessoas dizem "Pô, os políticos de Brasília são isso, são aquilo". Os políticos de Brasília, os realmente da cidade, são três senadores e oito deputados distritais. Todos os demais políticos foram eleitos nos seus respectivos estados e mandados para lá. Daí a responsabilidade do eleitor em votar no político honesto. Acho que Brasília deu uma arrumada no Brasil, sabia? Porque no centro do Brasil não havia, antes de Brasília, o desenvolvimento que acontecia em regiões do Sudeste, do Sul, do Nordeste. Acho que Brasília sintetiza todas as regiões do país e o povo desses lugares. Não devemos nunca esquecer que a cidade tem 52 anos, apenas.

Como recebeu a notícia sobre a condenação do jornalista Paulo Henrique Amorim, que teve que se retratar e pagar uma indenização de R$ 30 mil. O que esse episódio representou para você?

Para ser exato, antes que o juiz civil julgasse a ação indenizatória, por danos moral e à imagem, o réu aceitou tudo aquilo que eu exigia como forma de reparação pela grande injúria que sofri: pagamento de R$ 30 mil reais para uma instituição de caridade, retratação cabal feita no próprio blog dele, que vai permanecer em arquivo por mais de dois anos, e a publicação da mesma retratação, cujos termos falam por si só, nos jornais Folha de S. Paulo e Correio Braziliense. Tudo pago por ele.

Você ficou satisfeito com a condenação?

O que eu buscava com uma condenação, consegui. Ele teve que se retratar. É uma sentença definitiva. Claro, houve sobressaltos. Apesar de assinar o acordo em que nega tudo o que afirmara por longos três anos, meu ofensor fez outros comentários junto à retratação no blog em vez de publicá-la pura e simplesmente como mandou a decisão judicial. Meu advogado, Dr. Paulo Roque Khouri, imediatamente, deu ciência ao juiz Daniel Felipe Machado, da 5ª Vara Civil do TJDFT, que mandou retirar os comentários. No Correio Braziliense, isso não aconteceu. E, na Folha de S. Paulo, a retratação só foi publicada com atraso e na edição paulista. Tudo isso ainda voltou para que o juiz examinasse se o acordo foi honrado. De todo modo, creio que a Justiça que eu esperava na área cível foi feita em boa parte. E, agora, aguardo a definição do processo criminal, movido pelo Núcleo de Enfrentamento à Discriminação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. Tenho para mim que na esfera criminal a ofensa será dupla e qualificadamente punida por crimes de racismo e injúria racial.

O que o racismo do Paulo Henrique Amorim representou para você?

No mundo de hoje, ninguém pode ser ofendido, como fui, pelo fato de ser negro. O agressor não faz uma análise profissional, política ou comportamental da minha pessoa. Ele faz uma leitura intolerante a partir da racialidade. Destaca sempre como fato a ser distinguido a cor da minha pele e desmerece a minha pessoa num gesto de crueldade. Nós negros sabemos bem qual foi a intenção do réu ao dizer que eu, com mais de 30 anos de carreira jornalística e um título de mestre em direito constitucional, não tenho "nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde". São expressões racistas que foram seguidas de um jargão máximo da intolerância: "é um negro de alma branca". É algo abjeto, que não posso admitir, sobretudo, partindo de quem deve fazer da comunicação um ofício ético e democrático e não uma ferramenta da intolerância. Fora as outras agressões raciais que ele fez diretamente e admitiu em forma de comentários em seu blog no papel de moderador. Sou negro, sempre me empenhei em todas as lutas contra os preconceitos e as intolerâncias desde garoto. Sou de uma família de operárias, empregadas domésticas, pessoas residentes em conjunto habitacional de Cohab e que sempre sofreram o racismo na carne. Não vou permitir que um indivíduo que faz propaganda do que é ser negro em suas rodinhas de convertidos tardios ao esquerdismo, todos criados em berço de ouro, venha me dizer o que é ser negro. Nas minhas veias correm, com muito orgulho, sangue de quem foi escravo e ajudou a fazer deste o nosso país. Exigimos respeito com a história de quem construiu o Brasil. Por isso, não poderia deixar essa campanha imunda, com contornos de inveja, passar como se nada tivesse acontecido. Não honraria o meu passado e nem a luta de negros e brancos que combatem o racismo. O meu agressor chegou a dizer, em sua defesa judicial, que se considera um expoente da luta pela igualdade racial, num gesto de arrogância desmedida. E recebeu uma firme reprimenda do juiz criminal do TJDFT, Márcio Evangelista Ferreira da Silva, para quem, só adere à Lula pela igualdade racial, os que veem diferença entre raças, fato já rechaçado pela genética. Numa das peças de sua defesa, o réu chegou a dizer que ao usar a expressão "negro de alma branca", o fez para me elogiar. Pode isso? Só eu e a minha família sabemos a dor que sofri ao ler todo aquele lixo em formato de texto. É algo indescritível e que, no fundo, jamais será reparado, eu bem sei. O próprio juiz Daniel Felipe no julgamento da ação civil disse isso. Entretanto, eu sempre acreditei na Justiça e continuo acreditando.

Foi difícil seu começo no jornalismo. Houve muito preconceito. Como você lidava com isso?

Sempre é difícil começar na carreira. A jovialidade, a insegurança, o frio na barriga. Quem nunca passou por isso? Na TV, comecei cedo, em 1980, aos 18 nos. Entrei na EPTV Ribeirão e não me lembro de ter enfrentado qualquer tipo de discriminação pelo fato de ser negro. Na Globo sempre fui visto como uma promessa profissional. Aprendi lá dentro que a competência e o esforço falam mais alto. E assim deve ser. Devo muito a profissionais do jornalismo que estão hoje na Globo e a tantos outros que passaram por nossas redações, O único caso de ressentimento, intolerância e pequenez que vivi na profissão foi este em evidência. Esse indivíduo parece fazer parte do grupo que quer perpetuar a perseguição aos negros deste país. Fomos tratados como objeto por séculos e marginalizados após a escravidão. O padrão social em nosso país esteve sempre de costas para a África. Daí a intolerância para com a nossa cor de pele, nossa feição e nosso cabelo. Só servíamos para o que eu passei a rotular de práticas músico-esportivo-servis. Portanto, ser jornalista, para esse grupo, é uma agressão, afinal, estou fora do "cercado estabelecido por eles". Nesta dimensão, a intolerância prospera e o preconceito é inevitável. Para superar a toda esta dura e revoltante realidade, procurei me agarrar a duas alternativas: trabalhar mais e estudar mais. O estudo me persegue até hoje, prova é a minha participação atual em grupos de estudo no Departamento de Direito da Universidade Brasília. Na minha redação da Globo Brasília tento manter o empenho de quando comecei na profissão. No ano passado, tive o privilégio de ser escalado para cobrir a Copa do Mundo da África do Sul. Pude voltar àquele país que aprendi a amar e que me marcou profundamente pelo que era e pelo que se propõe a ser. Quando estive na África do Sul pela primeira vez, em 1991, o regime segregacionista do apartheid estava no fim, Nelson Mandela havia acabado de ser libertado. E eu, com colegas brancos na equipe de TV, andava em lugares que eles não poderiam entrar e vice-versa. Conhecemos a face mais brutal da agressão aos direitos humanos. Foi terrível. Décadas mais tarde, na Copa do Mundo, volto e encontro pessoas dispostas a superar o passado racista, numa aposta inclusive que é exemplo para o mundo. Fico muito tocado por esta possibilidade e tentado a pensar que temos, no Brasil, possibilidades ainda maiores de superar as intolerâncias e os preconceitos contra os descendentes de escravos. Afinal, temos uma só amálgama, não é mesmo? Quem, em sã consciência, é capaz de negar, como valores máximos de nossa cultura, o samba que nos deu a ginga, o gosto da nossa feijoada e a proteção de Nossa Senhora Aparecida?

"NOSSO DESAFIO É INSTITUIR OS DIREITOS HUMANOS COMO PANO DE FUNDO PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA CIDADANIA ADULTA QUE, AO REFUTAR TODAS AS FORMAS DE RACISMO E DE INTOLERÂNCIA, POSSAM ADMITIR PRÁTICAS DE INCLUSÃO PARTICIPATIVAS CADA VEZ MAIS SIGNIFICATIVAS NUMA ESFERA PÚBLICA"

O que você acha das cotas e dos movimentos negros?

Sou francamente favorável às cotas, porém, respeito os que pensam em outro sentido. O aumento da participação do negro na esfera pública é um desafio que está colocado àqueles que pensam num projeto de nação para o Brasil. Sempre defendi este ponto de vista. Não sou propagandista de ocasião. Quem me convenceu sobre a necessidade de uma ferramenta para aumentar a representação de negros nos postos-chave da nossa sociedade foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No intervalo de uma das viagens com o ex-presidente, quando eu cobria a rotina presidencial, falamos sobre o tema. Ele, em tom professoral, discorreu longamente sobre as políticas de inclusão que deveriam ter sido implementadas desde o Primeiro Império. Agora o Brasil mostrou amadurecimento para tal ação e fez das cotas uma realidade, com aprovação da sociedade. Precisamos, daqui para a frente, implementar práticas daí decorrentes. Penso sempre que é positiva uma medida que pode levar mais educação aos negros, e educação é tudo. É preciso, entretanto, fazer uma separação entre a defesa de cotas, que é ampla hoje em dia, e a necessidade de se incentivar todo movimento que tenha por objetivo acabar com o racismo.
Também neste aspecto devemos estar unidos, todos nós, cidadãos brancos e negros. Sou contra radicalismos, coisa que, sejamos justos, não vejo em certas organizações que se travestem de movimentos negros no rótulo e que não poderiam agir livremente para propagar ainda mais formas de intolerância revestidas em ódio. O nosso desafio é instituir os direitos humanos como pano de fundo para a construção de uma cidadania adulta que, ao refutar todas as formas de racismo e de intolerância, possam admitir práticas de inclusão participativas cada vez mais significativas numa esfera pública com a qual todos nós sonhamos. Gostaria, para encerrar este episódio de discriminação que me envolveu, de lembrar figuras de expressão da intelectualidade brasileira como Sueli Carneiro. Ela diz que "um negro pode ser corrupto, se posicionar contra os interesses de sua gente. O que podemos fazer, diante disso, é lamentar e combatê-lo politicamente, jamais atribuir essa característica à sua condição racial. Aí mora o racismo, ao tentar encontrar a razão da "falha" na negritude da pessoa ou na suposta ausência dessa negritude em uma regra como propõe a frase, "negro de alma branca." Ana Maria Gonçalves quando se referiu a este episódio sintetizou: "Paulo Henrique Amorim usou a cor de Heraldo Pereira para atacá-lo. É racismo e ponto. Tá na lei. Quem não concorda deve brigar para mudar a lei, e não para que Paulo Henrique Amorim esteja acima dela. Que o defendam porque o acham bom amigo, bom jornalista, bom ser humano; mas que entendam que pessoas assim também podem ter atitudes racistas." Estou com as duas!

                                           Revista Raça Brasil

Ainda é tempo de saber - A marcha ( sem rumo ) da maconha



No próximo sábado transcorre, na Zona Sul do Rio, mais uma Marcha da Maconha, estando proibido, obviamente, qualquer tipo de apologia ou consumo da droga durante a manifestação. É bom lembrar que fazer apologia, comercializar, trazer consigo, cultivar ou fazer uso da Cannabis constitui crime previsto na Lei 11. 343/2006, a Lei Antidrogas.

Até aqui tais atos, agora liberados pelo Supremo Tribunal Federal, inclusive no que tange a passeatas reivindicatórias sobre descriminalização e legalização de outras drogas ilícitas, surtiram pouco ou nenhum efeito. Não há nenhuma movimentação no Congresso Nacional que faça entusiasmar a chamada corrente progressista da droga, encabeçada por intelectuais, ONGs e ex-autoridades, com vistas a atender ao pleito.

Os altos impostos que todos pagamos com o tratamento e recuperação de vítimas do alcoolismo e do tabagismo no País já seriam exemplo suficiente para inviabilizar a descriminalização e legalização da maconha. Legalizar drogas é sinônimo de aumento de consumo, do número de dependentes e de doenças psiquiátricas. O Estado não pode ser o indutor (legal) do uso da droga. Deve trabalhar em sua missão de prevenção, tratamento terapêutico de dependentes e repressão qualificada ao tráfico, com base na inteligência policial.

A busca do ‘mundo colorido’ através do uso de drogas é falso. Legalizá-las é escancarar a porteira de perigoso caminho e contribuir para a criação de legião de drogados sem rumo. A permissividade com drogas constitui grave ameaça à sociedade brasileira. Uma emenda pior que o soneto.

Milton Corrêa da Costa é coronel da Reserva da Polícia Militar do Estado do Rio

Jornal O Dia em 1/5/12

Te Contei, não ? - Expurgo no saber



Comemoramos, no fim de abril, o Dia da Educação, homenagem aos professores que trabalham por uma educação de qualidade para todos os jovens brasileiros. A mídia registrou o evento, mas noticiou também, com dados do IBGE, que quase metade da população (45%) não tem o Ensino Fundamental completo.

Segundo Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o processo inevitável de envelhecimento da população brasileira, em 2030, resultará numa massa de trabalhadores adultos desqualificados, pois avançaram de forma insuficiente na Educação. Considerando que, hoje, só 35% têm o Ensino Médio completo, a maior parte da população estará fora do mercado de trabalho ou no subemprego.

Afora essa triste realidade, a presidente da República e seu ministro da Educação fizeram publicar no Diário Oficial da União decreto que transcrevo em seu artigo 1º: “As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido...”. Será o gosto de ser chamada de presidenta? Que motivo levou Dilma Rousseff a expurgar os ensinamentos dos mestres Aurélio, Houaiss e Bechara? Pretendeu valorizar as mulheres? Terá nossa presidente o gosto pela linguística? Quer libertar-se dos grilhões das regras gramaticais?

Nossa época se deixou perturbar pela cupidez da novidade, em que a Educação perde o rumo, seduzida pelo extravagante e pelo inaudito. A autoridade, tentada pela glória de ser criadora de um novo método, pretende ter descoberto o processo infalível de resolver problemas no campo da educação.

O pouco-caso pela linguagem no magistério de hoje é uma das causas da fraqueza docente de nossos colégios. A escola é uma estrutura artística, mas não artificial. O que o governo e suas autoridades têm que entender é que a escola perdeu o endereço de seu ponto de partida e se esqueceu do endereço da casa para onde ia. Está perdida. E as autoridades também.

Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor