quinta-feira, 30 de maio de 2013

Te Contei, não ? - Estado tem pelo menos 4 grupos neonazistas

Vera Araújo
 

Na 77ª DP (Icaraí), o grupo de acusados faz fila ao lado do material de propaganda nazista apreendido pela polícia: maioria tem tatuagens de suásticas e a cabeça raspada
Foto: Luiz Ackermann/27-04-2013 / O Globo
Na 77ª DP (Icaraí), o grupo de acusados faz fila ao lado do material de propaganda nazista apreendido pela polícia: maioria tem tatuagens de suásticas e a cabeça raspada Luiz Ackermann/27-04-2013 / O Globo
RIO — Há exatamente um mês, a prisão em Niterói de seis homens e uma mulher chamou a atenção para a existência de grupos até então desconhecidos no Rio: os de neonazistas. A maioria dos detidos vestia camisas de exaltação à ideologia, e alguns tinham tatuagens com o símbolo da suástica e a cabeça raspada, imitando os skinheads. A média de idade deles é de 30 anos: o mais velho tem 34 e há, ainda, um menor de 16. Eles trabalham em empregos de baixa remuneração e dois são universitários.
Os alvos do bando são nordestinos, negros e homossexuais. Por ironia, um dos acusados é alagoano e outro é filho e neto de negras, mas todos são contra as chamadas minorias. Numa analogia à Alemanha de Adolph Hitler, a grosso modo, os grupos enaltecem a raça pura. Há informações de pelo menos quatro deles atuando no estado: eles estão em Niterói e São Gonçalo, na Região dos Lagos, na Baixada Fluminense e até na capital. A Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) investiga se há crime por incitação ao preconceito.

Não há estatísticas que revelem exatamente quantas pessoas foram vítimas desses grupos, mas, de acordo com levantamento exclusivo solicitado pelo GLOBO à Polícia Civil, de 9 de fevereiro do ano passado até a última sexta-feira, foram registrados 386 casos só de homofobia no estado, praticamente um caso por dia. Desse total, 123 vítimas foram mulheres que denunciaram crimes de injúria, ameaça ou lesão corporal. A contagem só pôde ser feita porque a chefe de Polícia Civil, Martha Rocha, instaurou a portaria 574, criando um campo no registro de ocorrência para a inserção do termo homofobia, referente ao crime presumido. Também foi determinada a inclusão do nome social de travestis e transexuais no boletim. Mas, por enquanto, para crimes de racismo, não é possível fazer a mesma contagem, pois não há um espaço específico para esse tipo de anotação.
Habeas corpus negado pelo TJ
O crime de racismo, um dos delitos pelo qual responde o grupo de Niterói, é inafiançável. Os integrantes foram flagrados agredindo o potiguar Cirley Santos de Araújo, de 33 anos, por ironia, aos pés da estátua do índio Arariboia, em frente à estação das barcas do município, numa manhã de sábado. Eles continuam presos. Passaram quatro dias em Bangu 2 e, no momento, aguardam julgamento no presídio da Água Santa, depois de dois pedidos de habeas corpus negados pelo Tribunal de Justiça do Rio. Além dos crimes de racismo e formação de quadrilha, eles são réus em processo que corre na 1ª Vara Criminal de Niterói por lesão corporal leve e corrupção de menor. Apenas um deles, o estudante de gastronomia Caio Souza Prado, de 24 anos, tem antecedentes criminais por lesão corporal e injúria.
No passado, o desempregado Cirley foi amigo de um dos agressores, Tiago Borges Dias Pitta, de 32 anos. Mas, segundo a vítima, ao perceber a intolerância de Tiago a negros e gays, acabou se afastando. Em consequência disso, o nordestino conta que passou a ser perseguido. Ao reencontrá-lo no dia 27 de abril, foi xingado e agredido:
— Tiago gritou que eu era um nordestino de merda e me deu um soco na cara. Depois, falou “Heil Hitler” (saudação nazista que significa salve Hitler), erguendo um dos braços. Há três anos, ele já tinha me atacado com um canivete. Dessa vez, eles me pegaram de surpresa — disse Cirley, que, na agressão, teve a lente direita dos óculos escuros quebrada.
Material de propaganda nazista
A amizade entre Cirley e Tiago vinha desde 1999, embalada pelo rock de bandas heavy metal. Um frequentava a casa do outro, inclusive nos aniversários. A mudança de Tiago começou há cerca de sete anos, quando ele passou a enaltecer ideologias neonazistas.
— Ele dizia pertencer ao grupo White Power, poder branco. Há pelo menos uns quatro grupos desse tipo aqui no Rio — contou Cirley, que pesquisou as gangues.
No dia em que Tiago, Caio, Carlos Luís Bastos, de 34 anos; Davi Ribeiro de Morais, de 32; Philipe Ferreira Ferros de Lima, de 22; Jéssica Oliveira Charles Ribeiro, de 27; e um menor foram detidos, a polícia apreendeu farto material de propaganda nazista no carro de um deles. Havia cartazes, duas bandeiras com a suástica (símbolo do nazismo) e cartilhas com alusão a Hitler, além de quatro facas, bastões e um soco inglês. Os integrantes alegaram que estavam indo para um churrasco, mas a mãe de Davi, a dona de casa Iracema de Morais, de 60 anos, desconfia que o evento seria uma espécie de “iniciação” para a inclusão de novos adeptos ao neonazismo, incluindo o filho dela:
— Davi sempre foi sério e calado, mas trabalhador. Não bebe, não fuma. Nem palavrão ele fala. Ele não tem tatuagem pelo corpo, nem cabelo raspado. Não consigo entender o que aconteceu. Eu e a avó dele somos negras. Que preconceito é esse? Só posso atribuir isso à cabeça fraca dele, pois ele é facilmente influenciado. Só podem ser más companhias.
Davi trabalha como estoquista, ganha salário mínimo e cursa faculdade de fisioterapia. É pai de um menino de 7 anos. Recentemente, ele reclamou que teve a conta do Facebook cancelada.
— Eu perguntei por que isso aconteceu. Ele respondeu que havia escrito umas bobagens — disse sua mãe.
O pai dele, Durval de Morais, trabalha com população de rua e diz que vai resgatar o filho. Para os pais de Davi e de Philipe, o grupo se formou a partir de encontros em shows de rock. Depois de se conhecerem, os integrantes passaram a trocar mensagens racistas pelos sites de relacionamento.
— Ele é alagoano e filho de nordestinos. Meu bisavô era neto de escravos. É um menino calmo. Quer fazer faculdade de administração. Só pode ter sido o rock. Eu preferiria que ele tivesse morrido num acidente a passar por tudo isso. Estou vendendo até o carro para pagar o advogado — disse X., pai de Philipe, pedindo para não ser identificado.
As defesas dos réus dizem que todos têm emprego e endereço fixos. Tiago, que deu endereço errado à polícia, é administrador. Jéssica é telefonista e namorada do estudante M.P.B., de 16 anos. Morador da Zona Sul, Carlos ganha a vida como enfermeiro, enquanto Philipe é atendente.
Ataque em ônibus
Há cerca de um ano, o ativista de direitos humanos Felipe Gomes, de 32 anos, foi vítima de um grupo homofóbico — formado por dois homens e uma mulher — ao defender um cadeirante que embarcava num ônibus, em São Cristóvão:
— Eles começaram a gritar com o motorista e o deficiente físico por causa da demora. Eu perguntei: “será que vocês não veem que ninguém está isento disso?” Um dos homens me disse: “Você não é nem homem para se defender. É um veado, e ainda quer defender os outros”. Depois, me jogaram do ônibus em movimento.
Felipe disse que procurou a polícia, mas, na hora de identificar os agressores, foi desencorajado a denunciar, pois disseram que seria difícil chegar aos autores. O registro acabou não sendo feito.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/estado-tem-pelo-menos-quatro-grupos-neonazistas-8519436#ixzz2UmTfMxrE

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vale a pena assistir - África - uma história rejeitada


Te Contei, não ? - 10 ideias errôneas sobre a África

Uma jornalista da Namíbia, Christine Vrey, estava revoltada com a ignorância das pessoas com quem já conversou a respeito de seu continente natal, a África. Segundo ela, o mundo ocidental sabe muito menos do que deveria sobre o continente africano, pecando por ignorância e preconceitos. Pensando nisso, Christine elaborou uma lista com dez ideias enganosas sobre o continente. Confira:
 
 
10 – A ÁFRICA É UM PAÍS
 
Pode parecer inacreditável, mas muitas pessoas, segundo ela, ainda pensam que a África inteira é um país só. Na verdade, o continente africano tem 61 países ou territórios dependentes, e população superior a um bilhão de habitantes (o que faz deles o segundo continente mais populoso, atrás apenas da Ásia).

9 – A ÁFRICA INTEIRA É UM DESERTO
 
 
 
 
 
 
Dependendo das referências (alguns filmes, por exemplo), um leigo pode imaginar que a África inteira seja um deserto escassamente povoado por beduínos e camelos. Mas apenas as porções norte e sudoeste do continente (desertos do Saara e da Namíbia, respectivamente) são assim; a África apresenta um rico ecossistema com florestas, savanas e até montanhas onde há neve no cume.

8 – TODOS OS AFRICANOS VIVEM EM CABANAS
 
 
 
 
A fama de continente atrasado permite, segundo Vrey, que muitas pessoas achem que a população inteira habite cabanas com paredes de terra e teto de palha. A África, no entanto, tem moderníssimos centros urbanos nos quais vive, na realidade, a maior parte da população. As pessoas que habitam tais cabanas geralmente vêm de grupos tribais que conservam suas vilas no mesmo estado há muitas décadas.

7 – OS AFRICANOS TÊM COMIDAS ESTRANHAS
 
 
 
 
 
 
Uma cidade africana, de acordo com a jornalista, se assemelha a qualquer outra localidade ocidental no quesito alimentação: pode-se encontrar qualquer lanchonete de fast food, por exemplo. Christine explica que os hábitos alimentares dos africanos não diferem muito do nosso, exceto pelo que se come em algumas refeições, como o “braai” (o equivalente ao nosso churrasco).

6 – HÁ ANIMAIS SELVAGENS POR TODA PARTE
 
 
 
 
 
 
Em uma cidade africana, você verá o mesmo número de leões ou zebras que encontraria nas ruas de qualquer metrópole mundial: zero. Não há absolutamente nenhuma condição favorável para eles nos centros urbanos, é óbvio que vivem apenas em seus habitat naturais. Se você quiser ir à África com o intuito de observar animais selvagens, terá que fazer uma viagem específica para esse fim.

5 – A ÁFRICA É UMA EXCLUÍDA DIGITAL

 
 
 

 
A jornalista Christine conta que ainda conversa com pessoas, pela internet, que ficam surpresas pelo simples fato de que ela, uma africana, tem acesso a computadores e internet! Um dos interlocutores da jornalista chegou a perguntar se ela usava um computador movido a vapor. Ela explica que a tecnologia não perde muito tempo em fazer seus produtos mais modernos chegarem até a África, e que eles estão cada vez menos atrasados em relação ao resto do mundo.

4 – EXISTE O “IDIOMA AFRICANO”
 
 
 
 
 
 
 
Da mesma forma que ainda há gente que considera a África um único país, também existem pessoas que imaginam todos os habitantes do continente falando a mesma língua. Christine explica que apenas na Namíbia, de onde ela veio, há mais de 20 idiomas usuais, incluindo mais de um “importado” e alguns nativos. Nenhum país do continente tem menos de cinco dialetos correntes.

3 – A ÁFRICA TEM POUCOS HOTÉIS
 
 
 
 
 
 
Não é uma missão impossível encontrar hospedaria em uma visita ao continente africano. As maiores cidades do continente dispõem de dezenas de hotéis disponíveis para turistas. Só nas oito maiores cidades da África do Sul, segundo Vrey, existem 372 hoteis.

2 – OS AFRICANOS NÃO SABEM O QUE É UM BANHEIRO
 
 
 
 
 
 
Há quem pense, de acordo com a jornalista, que todos os africanos sejam obrigados a fazer suas necessidades atrás do arbusto ou em latrinas a céu aberto. Isso vale, segundo ela, apenas para as áreas desérticas e vilarejos afastados. No geral, uma casa na África dispõe de um vaso sanitário muito semelhante ao seu.

1 – TODOS OS AFRICANOS SÃO NEGROS
 
 
 
 
 
 
 
 
Da mesma forma que houve miscigenação de raças na América, devido às intensas migrações de europeus, a África também recebeu essas misturas. Na Namíbia, por exemplo, há famílias africanas brancas descendentes de franceses, holandeses e portugueses. Mas não há apenas isso: o continente também abriga grandes comunidades de indianos, chineses e malaios, de modo que não se pode falar em “raça africana”.
Christine Vrey também explica que não existe uma “raça negra”. Muitas pessoas, de acordo com a jornalista, acham que todos os negros são da mesma raça ou grupo étnico. Ela conta que já ouviu pessoas descreverem a própria descendência como sendo, por exemplo, ¼ britânicos, ¼ hispânicos, ¼ russos e ¼ “negros”.
Isso é um engano: há várias características físicas dissonantes entre os povos de pele escura. As diferenças começam pela própria tonalidade: alguns povos têm a pele mais “avermelhada” ou mais marrom do que outros, e alguns são menos escuros, sem levar em conta a miscigenação. Não é possível falar, portanto, em “negros” simplesmente. [Listverse]
 
 
 

Te Contei, não ? - Jvens demais para beber

Pais omissos são culpados

O Dia
Rio - Só um golinho para provar. Pedido recorrente dos filhos e concessão inconsequente dos pais, o hábito de oferecer bebida a menores pode gerar danos irreversíveis. Experimentar álcool antes dos 12 anos aumenta em 60% o risco de abuso na adolescência. E o pior: o uso excessivo da substância está ligado à falta de punição pelos responsáveis
 
O alerta faz parte de pesquisa do Centro Brasileiro de Informações Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 51 mil alunos, de idades entre 10 e 18 anos. O abuso de álcool, chamado de ‘binge’, foi analisado apenas entre adolescentes de 12 e 18 anos, cerca de 17 mil pessoas.
“Os dados são assustadores. Não faz sentido uma criança beber e 11% dos adolescentes começaram a usar álcool na infância”, disse Zila Sanchez, professora da Unifesp e responsável pelo levantamento.
De acordo com a pesquisa, feita em 2010 e divulgada este ano, 35% dos adolescentes praticaram o ‘binge’ pelo menos uma vez na vida, e 32% exageraram em 2009. Cerca de 20% beberam em excesso um mês antes de responder ao questionário. Desses, 5% abusaram até cinco vezes no mês. Zila alerta que, entre os estudantes com pais permissivos, o consumo de álcool é maior.
Para ela, é dever dos responsáveis retardar o primeiro gole. A especialista afirma que não há limite tolerável de álcool para menores de 18 anos. “São adolescentes que não serão punidos se beberem ou que veem os pais bebendo muito. Para adolescentes, a regra é a abstinência”, declara.
Chefe da Psiquiatria Infanto-Juvenil da Santa Casa da Misericórdia, Fábio Barbirato afirma que jovens com depressão, ansiedade e timidez podem encontrar no álcool uma espécie de ‘automedicação’ e solução imediata dos problemas. Segundo Barbirato, o uso precoce do álcool favorece a dependência porque, na infância e adolescência, ocorre formação intensa do sistema nervoso central. “Tudo o que a pessoa aprende nessa fase é retido, inclusive as coisas ruins. É como se o cérebro ficasse condicionado”, explica.
Sobre o tratamento do alcoolismo, ele disse que o empenho dos pais é fundamental. “Achar que o abuso de álcool vai passar com o tempo é medíocre. Pais permissivos atrapalham”, aponta.
Para os estudantes, bar e boates (25%) e casa de amigos (21%) são os locais preferidos para beber. Quase 10% afirmaram que consomem álcool na casa de parentes. E 8%, na própria residência. Em relação aos companheiros de copo, amigos correspondem a 33% e parentes, a quase 30%. As bebidas mais consumidas são cerveja (28%), ice (29%), e vodca (21%).
Clínica do Hospital Balbino, na Tijuca, Liliane Guimarães, explica que o abuso entre adolescente pode lesionar o estômago, causar hipoglicemia e, em longo prazo, cirrose. “Em apenas uma noite, já atendi cinco adolescentes em coma alcoólico, muitas vezes sem repressão dos pais”, conta.

sábado, 25 de maio de 2013

Te Contei, não ? - Novelas de Cavalaria

Imagem / Foto: Cavaleiro medieval 3D - Capa para Linha do Tempo - Timeline do Facebook
 
 
Surgidas na Idade Média, as novelas de cavalaria, originárias da França e da Inglaterra, narravam as histórias e os feitos de cavaleiros andante heroicos e perfeitos, que passavam por situações perigosas para defender o bem e vencer o mal, sempre dedicando a uma dama seus atos de bravura. Essas novelas eram reciadas durante as festas que aconteciam nos castelos. Nelas, eram  evidenciados alguns valores como lealdade, coragem, castidade, o respeito pela figura feminina, a amizade incondicional, além do amor exaltado.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Vale a pena assistir - José de Alencar: o múltiplo


Vale a pena assistir - Um pouquinho de Lima Barreto


FALOU E DISSE - O menor e a criminalidade

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, declarou que a "criminalidade não tem respostas  simplistas". Isto é fácil dizer quando se vive sob a proteção do governo, com equipes de segurança e carros blindados. Nessa redoma oficial não há problema em justificar ideologicamente as razões da crescente criminalidade no Brasil. Sejam complicadas ou simples, o cidadão atualmente indefeso, que paga pesados impostos, exige uma resposta que lhe dê mais segurança para que sua família viva e trabalhe sem maiores riscos. As leis não podem continuar flexíveis e brandas por causa de problemas de origem histórica e social. Vivemos no hoje e exigimos soluções para o agora e o amanhã. O resto é contemporização, ou sinal de irresponsabilidade.
 
 
SILVANO CORREA / São Paulo / SP / Jornal O Globo  










quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tá na Hora do Poeta - O Rato da cidade e o Rato do campo

 
O Rato da cidade e o Rato do campo

Estava um lindo dia, o rato do campo decidiu convidar
O seu amigo da cidade para almoçar.
No dia combinado, o rato foi para o campo a saltitar.
Esperava um banquete, com comidas para se deliciar.

Chegando lá, se decepcionou, a comida era simples,
Lentilha sem sal foi tudo o que encontrou.
O rato do campo disse que era isso que comia,
A comida era simples, mas se satisfazia.

Inconformado com a situação, o rato da cidade achou uma solução.
Convidou seu amigo para morar consigo!
O ratinho do campo aceitou sem demora
Ele arrumou suas coisas, e saiu na mesma hora.

Chegando na luxuosa casa, foram direto para a cozinha.
O rato do campo ficou boquiaberto ao se deparar com as comidas que ele tinha.
Os ratos decidiram deliciar o maravilhoso banquete.
Mas antes de comerem, alguém entrou na cozinha obrigando os dois a se esconderem.



O buraco que acharam era tão apertado que mal podia - se respirar
Mas tiveram que aguentar até a dona da casa se dispersar.
Tentaram outra vez, foram para a cozinha comer o queijo parmesão,
Mas foram expulsos pela empregada que tinha vassoura na mão.


Tiveram que se esconder em um buraco menor, ficaram lá um longo tempo
O rato do campo estava cansado de viver esse momento.
Ele decidiu voltar para sua casa no campo, onde tinha paz.
Saiu logo da cidade, não conseguia ficar lá nem um minuto a mais.


Amanda Monteiro
Turma 701 / Ativo 2013

Crônicas do Dia - Marcas da tortura - Maria Helena Gomes de Souza

Ex- deputado federal Rubens Paiva
 
Esta é uma tentativa de expor a tortura que vivo desde que meu falecido marido Amílcar Lobo fez sua denúncia sobre a morte do deputado federal Rubens Paiva (PTB-SP), cassado pelo regime militar em 1964, preso em sua casa no Rio em 20 de janeiro de 1971 e desde então desaparecido.
Meu marido cumpriu o serviço militar obrigatório na Polícia do Exército, no quartel da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Lá ouviu falar, escutou e presenciou o lamento de jovens contrários à ditadura então estabelecida no país, enquanto eram barbaramente torturados. Esse fato que marcou a vida do jovem tenente-médico Amílcar Lobo de forma extremamente negativa.
Durante a ditadura (1964-1985) calou-se com medo das possíveis represálias — afinal, conhecia de perto os métodos aplicados àqueles que não compartilhavam do mesmo pensamento. Foi omisso, por medo. Medo pela sua vida e de seus familiares, mas carregou consigo a memória do som insuportável dos gemidos, das cenas de violação dos direitos humanos ao grau máximo.
Meu marido não queria guardar consigo estes desmandos — escreveu um livro com episódios, como o encontro com Rubens Paiva torturado na prisão. Não buscava punir ninguém. Desejou até os últimos dias expiar sua culpa, mas a sociedade não queria ouvi-lo.
Havia uma ardente necessidade de punir, de dar o exemplo, mostrar que nós, sociedade brasileira, éramos capazes de fazer justiça. E assim o condenaram, o acusaram de forma vil.
Hoje, ainda vivo na expectativa de que novamente irão nos acusar. Mudei o status de esposa de torturador para viúva de torturador. Sou apontada, evitada por muitos como tal, porque não o abandonei e abracei sua causa como minha, de acordo com os ensinamentos cristãos que recebi.
Fomos casados na alegria e na dor e assim permaneço, acuada, subjugada, aviltada pela esquerda por dar o caso como concluído, vangloriando-se da vitória, e pelos militares por sermos “traidores da pátria”.
Por vezes já ouvi que devo me conformar, mas minha consciência diz que devo lutar para elucidar a atuação do meu falecido marido, pagando, sim, pelos seus erros e pondo um ponto final neste triste episódio.
Não é possível quebrar paradigmas sem discuti-los à exaustão. E é com essa certeza que venho lutando, batendo em várias portas sem encontrar nenhum acolhimento. Só o que recebo é repúdio ou silêncio. Ninguém quer meter o dedo na ferida, avaliar os fatos com imparcialidade, verificar o que poderia ser feito no contexto da época.
Minha esperança agora é que a Comissão da Verdade abra realmente um amplo debate nacional sobre a questão da tortura.
A tortura me persegue até hoje e precisa ter um fim. Não posso ignorá-la, pois permanece, pairando, clamando por justiça a partir de uma investigação a fundo. É preciso essa investigação. Não só para que eu tenha paz e deixe de ser apontada como a viúva de torturador, mas para que a sociedade passe efetivamente a repudiar a tortura no cotidiano, não permitindo que se repita.
Evitar falar no assunto, negar ou defendê-la não nos levará a mudanças. É preciso conscientizar, apontar erros e acertos de ambos os lados, sair deste dualismo entre o bem e o mal e ir em frente buscando uma sociedade mais humana e fraterna.
Costumava contar uma história aos meus alunos sobre um incêndio na floresta. Enquanto o incêndio tomava conta de grande parte da mata, os animais corriam para se abrigar no rio e dali ficavam olhando o fogo destruir tudo. Ao contrário, um passarinho voava desesperadamente de um lado para o outro carregando no bico algumas gotinhas de água.
Um leão que observava a situação disse ao passarinho que deixasse de ser bobo, que ele não conseguiria apagar o incêndio com apenas poucas gotinhas. O passarinho, sem parar com sua batalha, respondeu: “Não importa. Mesmo que eu não consiga, quero ter a certeza de que fiz o que pude.”
Quero fazer a minha parte, expor minha opinião e ouvir versões diferentes para, juntos, chegarmos a uma conclusão. Quero ter a certeza do dever cumprido. Aí, sim, poder reconstruir minha vida.



Maria Helena Gomes de Souza é professora.

Artigo de Opinião - Médicos Cubanos

O Conselho Federal de Medicina (CFM) está indignado com o anúncio da presidenta Dilma Rousseff de que o governo trará 6.000 médicos de Cuba, e outros tantos de Portugal e Espanha, para atuar em municípios carentes de profissionais da saúde. Por que a grita contra esses médicos cubanos? Detalhe: 40% dos médicos do Reino Unido são estrangeiros.
O CFM reclama da suposta validação automática dos diplomas dos médicos cubanos. Em nenhum momento isso foi defendido pelo governo. O ministro Padilha deixou claro que pretende seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissionais.
Estudos do próprio CFM sobre a “demografia médica no Brasil” demonstram que, em 2011, o Brasil dispunha de 1,8 médico para cada 1.000 habitantes. Temos de esperar até 2021 para que o índice chegue a 2,5/1.000. Segundo projeções, só em 2050 teremos 4,3/1.000. Em 2005, a Argentina tinha mais de 3/1.000, índice que o Brasil só alcançará em 2031.
Dos 372 mil médicos registrados no Brasil em 2011, 209 mil se concentravam nas regiões Sul e Sudeste, e pouco mais de 15 mil na região Norte.
O governo federal se empenha em melhorar essa distribuição de profissionais da saúde, oferecendo salário inicial de R$ 8 mil e pontos de progressão na carreira, para incentivá-los a prestar serviços de atenção primária à população de 1.407 municípios brasileiros. Mais de 4 mil médicos já aderiram.
O Brasil, antes de reclamar de medidas que beneficiam a população mais pobre, deveria se olhar no espelho. No ranking da OMS (dados de 2011), o melhor sistema de saúde do mundo é o da França. O Brasil, o 125º lugar!
Os médicos cubanos virão tratar de verminose e malária, diarreia e desidratação, para reduzir as mortalidades infantil e materna, aplicar vacinas e ensinar cuidados de higiene.
Frei Betto é escritor, autor de ‘O que a vida me ensinou’

Te Contei, não ? - Juventudade atrás das grades

Elenilce Bottari
 
 

Adolescentes chegam à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, levados pela PM: maioria dos menores apreendidos tem envolvimento com o tráfico
Foto: Marcelo Carnaval / O Globo
Adolescentes chegam à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, levados pela PM: maioria dos menores apreendidos tem envolvimento com o tráfico Marcelo Carnaval / O Globo
RIO — Na manhã da última quinta-feira, denúncias levaram policiais do 5º BPM (Praça da Harmonia) a realizar uma operação na região da Central do Brasil, onde dez adolescentes estariam praticando furtos e pequenos roubos. Eles foram capturados e levados para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), a cerca de 700 metros dali, para confirmar o que todos na ação e na delegacia já sabiam: os menores detidos já tinham passagens por furtos ou roubos, mas, por não haver flagrantes ou qualquer mandado de apreensão contra o grupo, foram liberados. Até o fim do dia, no entanto, pelo menos outros dez foram flagrados cometendo infrações e levados para o Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), que tem a responsabilidade de acolher e recuperar o adolescente em conflito com a lei.

As estatísticas oficiais revelam um crescimento do número de apreensões de jovens nos primeiros três meses deste ano no estado (1.730) em comparação com o total do mesmo período de 2011 (739). O aumento chega a 134,1% no estado e a 237,61% na capital, onde passou de 210 apreensões para 709. No primeiro trimestre de 2012, 342 menores foram apreendidos na capital e 1.021 no estado.
Em média, são 22 novas detenções por dia. Com isso, o Degase viu o número de internos dobrar de 500 para mil em dois anos, estourando em mais de 60% a previsão de aumento de sua massa carcerária. Análises do próprio Degase, do Instituto de Segurança Pública (ISP), da DPCA e do Ministério Público identificaram que, na capital, o crescimento de jovens envolvidos com crimes está ligado às alterações na estrutura do tráfico de drogas, após as pacificações de favelas.
Estudo realizado pelo ISP mostra uma mudança no perfil do adolescente apreendido no estado. Se antes os crimes contra o patrimônio estavam entre as principais causas, hoje o tráfico é o crime mais comum.
— O que puxou esse aumento foi o tráfico. Vimos também uma certa mudança de função. Antes, os adolescentes trabalhavam mais como fogueteiros ou como radiocomunicadores. Nas comunidades pacificadas, essas funções não existem mais. Eles estão trabalhando na venda direta de drogas. Aqui no Centro, a Providência ainda tem uma outra característica. Eles (jovens) desceram a favela e ocuparam casarões e outras áreas abandonadas do Centro para vender drogas. Assim, acabam mais expostos — explicou a titular da DPCA, Bárbara Lomba.
Segundo a delegada, também aumentaram as apreensões de adolescentes em áreas pacificadas.
— Se compararmos dois anos fechados, 2011 e 2012, o número de apreensões em áreas pacificadas triplicou na capital — contou Lomba, citando como exemplos as comunidades da Mangueira e da Cidade de Deus.
Tráfico superou roubo
De acordo com o pesquisador Renato Dirk, organizador do Dossiê Criança & Adolescente 2012 do ISP, hoje o tráfico responde por 40% de todas as apreensões de jovens no estado, seguido pelo roubo, com 18,6% dos casos, e do furto, com 12%.
— Na década de 80, a maioria dos apreendidos tinha mais histórico de roubo. Hoje é o tráfico. Como no Rio muitos homicídios estão relacionados ao tráfico de drogas, o combate a este crime passa também pelo combate sistemático ao tráfico, aumentando assim as apreensões de jovens envolvidos — explicou Renato Dirk.
No interior, o problema se repete. Em janeiro, fevereiro e março deste ano, foram apreendidos 376 adolescentes, quase o dobro do número de apreensões (200) nos três primeiros meses de 2011.
Sistema está no limite
Com um crescimento fora do previsto, nem mesmo a inauguração de uma unidade do Degase, em Campos, na última quarta-feira, conseguiu mudar a situação de quase colapso do sistema:
— Quando o plano de descentralização foi iniciado há dois anos, ele foi projetado para atender a uma demanda 40% maior do que a daquele momento. Só que houve um crescimento inesperado de 100%. Ou seja, mesmo com a inauguração da unidade de Campos, que trouxe mais 80 vagas, que vão atender a 25 municípios da região, ainda estamos trabalhando no limite. São cerca de mil adolescentes, entre provisórios e internos, para uma capacidade de 911 vagas — explicou o subdiretor-geral do Degase, Roberto Bassan.
O aumento expressivo foi apontado também pelo próprio Degase entre as causas para a evasão de nove adolescentes, em duas fugas ocorridas este mês no Instituto João Luiz Alves, na Ilha. Para reduzir as situações de risco, além das rotinas de procedimentos de segurança dentro das unidades, Bassan informou que foi ampliado o número de vagas de trabalho.
— A estrutura irá ficar melhor, porque vamos inaugurar em julho a unidade de Volta Redonda. Também vamos chamar mais 376 profissionais aprovados no último concurso — explicou Bassan.
Levantamento feito pelo GLOBO em abril passado, com base em dados oficiais obtidos com os governos de oito estados, revelou que o crescimento no número de menores apreendidos no país foi mais de duas vezes superior ao de prisões de adultos. Em 2012, houve um aumento, em relação a 2011, de 14,3% no número de apreensões de crianças e adolescentes por crimes como vandalismo, desacato, tráfico, lesão corporal, furto, roubo e homicídio. No Estado do Rio, as apreensões de menores passaram de 3.466 em 2011 para 5.042 em 2012.
Histórias de vida em comum
Com 14 anos de idade, ele já é bastante conhecido entre policiais do 5º BPM ou mesmo da DPCA, para onde foi levado na última quinta-feira junto com outros seis adolescentes e três jovens com 18 anos. Morador de Vila Campinho, em Cascadura, A. entrou definitivamente no crime há quase três anos, quando completou a idade mínima — 12 anos — para apreensão. De lá para cá, coleciona sete passagens pela polícia: três assaltos, seis furtos e um dano a patrimônio. Sua ficha diz que ele não tem pai e que a maconha é um vício.
A folha corrida de A. não é muito diferente da dos outros seis meninos entre 14 e 17 anos apreendidos com ele durante operação policial na região da Central. Oriundos de comunidades pobres, outros três disseram não conhecer o pai e cinco confessaram algum tipo de vício.
Com poucas perspectivas de futuro, eles são o retrato dos jovens detidos no Rio.
— A percepção que temos, quando examinamos um processo, é que estamos tratando da mesma pessoa. Eles vêm de lares desfeitos, muitas vezes sofrem violência doméstica e, nas ruas, continuam tendo os direitos desrespeitados. São tão segregados que quase não conseguem se comunicar. É comum usarem a expressão “tavo” para informar onde estavam ou o que faziam no momento em que foram apreendidos — comentou a promotora de Execução de Medidas Socioeducativas, Denise de Mattos Geraci, responsável pela capital.


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Crônica do Dia - Quase nada - Caetano Veloso

As palavras de Marina Silva sobre o caso Feliciano são sensatas e dizem o que deve ser dito. A imprensa deu um tom suspeito nas manchetes e os malucos das redes sociais (segundo me contam) entraram em surto. Meu amigo Rafael Rodriguez acha que querem desqualificar Marina para que se mantenha a disputa eleitoral ente PT e PSDB. Isso parece com o que eu dizia quando o nome de Mangabeira Unger era limado de minhas entrevistas, algumas eleições atrás: os jornalistas são petistas e os donos dos jornais são tucanos, não há lugar para terceiros nomes. Mas Mangabeira é uma referência incontornável e Marina é um peso político-eleitoral difícil de destruir. Não estou nem aí.
Gostei muito foi do comentário de Elio Gaspari sobre cotistas. A reportagem que parecia comprovar que cotas só servem para destruir a meritocracia revela-se vazia de conteúdo diante da pesagem das estatísticas feita pelo grande jornalista. Aliás, o artigo dele sobre a substituição, pelo governo Dilma, do secretário executivo do Ministério da Fazenda é de leitura obrigatória (eu, que pouco sei sobre essas coisas, fiquei mais inteligente ao lê-lo).
Voltando: será que alguém crê que Marina Silva está assinando embaixo de declarações inaceitáveis feitas por Feliciano só porque ele é evangélico? Esses doidos não podem fingir que acreditam nisso. De repente é como se Marina apoiasse a interpretação do assassinato de John Lennon feita pelo pastor. Impossível. Ele disse que o crime era uma manifestação da Santíssima Trindade. Que queria estar lá quando acharam o corpo do cantor e dizer: “Este primeiro tiro é em nome do Pai, o segundo é em nome do Filho e o terceiro é em nome do Espírito Santo”. O “Não matarás” da Bíblia fica assim desvalorizado, submetido à ideia de um Deus ciumento e vingativo, tão pré-cristão e tão anticristão, como se os nossos valores morais se baseassem nas punições contra quem, na conquista da Terra Prometida, deixasse de matar, por piedade, mesmo “uma criança de peito”. O pecado ingênuo de um adolescente (dizer que seu grupo de rock estava mais popular do que Jesus Cristo) é tido, assim, como mais grave do que o assassinato a sangue frio. Como a compassiva Marina iria compactuar com essa interpretação dos ensinamentos bíblicos? O que ela diz é que Feliciano não representa o pensamento de todos os evangélicos. Nem mesmo da maioria. Marina defende o Estado laico. E o diz com todas as letras. Por que querer criar confusão onde há tanta clareza?
Outro dia li um jornalista reclamando que falo sobre tudo e mais alguma coisa. A piada da “Piauí”, em que apareço com uma capa de magistrado do STF (que, aliás, na montagem fotográfica me caiu muito bem), sob uma manchete que dava conta de que uma decisão momentosa ia ser arbitrada por mim, é engraçadaça. Me mostraram um vídeo no YouTube em que estou dizendo a alguém “Você é burro, cara”. Eu repetia que o cara era burro e dizia que ele formulara a pergunta de modo tão burro que eu não conseguia sequer memorizar. Meu amigo Eduardo Sá achou de onde tiraram esse clipe. Foi de um programa de TV chamado “Vox Populi”. É dos anos 1970. Eu tinha o cabelo muito longo, muito preto e muito cacheado (esses dois últimos atributos sendo os de que tenho mais saudade). E falava com uma mistura um tanto estranha de moleza e arrogância. O quadro do período explica minha atitude. Eu tinha começado o trabalho com A Outra Banda da Terra sob apedrejamento crítico. O disco “Muito” foi achincalhado como sendo a prova final de minha inépcia e falta de inspiração. “Sampa” e “Terra” estavam sendo lançadas nesse disco. Anteontem reli um artigo de Tárik de Souza em que ele avalia, com forte espírito de corpo jornalístico, minhas brigas com a imprensa da fase que se seguiu a esse lançamento. Quem eu tinha chamado de burro era Geraldo Mayrink, da “Veja”, que destacava frases de músicas de Ary Barroso, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que eu citara em minhas letras, como exemplos de maus versos, crendo que eram meus (eram de músicas muito conhecidas por quem atentasse para a MPB). Sei que eu estava certo, mas não me senti bem vendo o vídeo. Valeu para eu poder mostrar a meu filho mais novo meu pai falando (ele aparece fazendo pergunta íntima). Mas meu desejo de desprezar as opiniões negativas sobre meu trabalho me irritou um pouco. Preferi ver um “Roda Viva” em que eu, mais velho (com o cabelo já liso mas ainda todo preto), falo “de tudo”, mas em tom mais modesto.
O que vale o que eu penso sobre Gaspari ou Marina? Creio que quase nada. Mas alegra-me poder repetir o nome de Marina Silva quando páginas de jornal e telas de computadores esperneiam para que o apaguemos.


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Te Conte, não ? - O b^-à-ba da repressão nos anos de chumbo

Logo que as organizações de esquerda intensificaram as ações armadas contra o regime, no fim dos anos 1960, os militares se apressaram em criar centros especializados e formar agentes destinados a combatê-las. Por essas escolas da repressão, ativas até 1989, passaram nomes que, mais tarde, figurariam nas listas de torturadores. Nas aulas, eles aprenderam a conduzir interrogatórios, a disfarçar-se, a penetrar em residências sem deixar vestígios e a pensar e agir como guerrilheiros, razão pela qual estudaram textos proscritos no país, de autores como Che Guevara e Mao Tse Tung.
Um pedido com base na Lei de Acesso à Informação franqueou ao GLOBO os planos de aulas, as apostilas e a bibliografia dos cursos oferecidos pela Escola Nacional de Informações (EsNI), a formadora dos agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) a partir de1972 e herdeira do curso de Informações do Exército, que funcionou até o ano anterior no Forte do Leme (RJ). Das oito caixas de documentos consultados, emerge a pedagogia da segurança interna, a paranoia dos militares com a ameaça comunista e a necessidade de uma guerra sem limites contra o inimigo.
Os cursos da EsNI eram divididos em quatro categorias: A, B, C1 e C2. As duas últimas, reservadas a oficiais e suboficiais de Operações (responsáveis por interrogatórios e missões de rua), tinham em média uma carga de 800 horas — o mesmo tempo de um ano letivo escolar fixado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
No curso C1, para oficiais, 300 horas eram dedicadas à disciplina “Operações de Informações”, que reservava 40 horas para aulas de “Interrogatório” e outras 38 horas para “Vigilância”. Já no curso C2, além do foco em Operações, os agentes (sargentos e civis do mesmo nível no SNI), eram especializados em utilização de meios cinefotográficos (uso de câmeras fotográficas e de imagem, além de gravadores de som). Com 43 horas, as aulas de interrogatório representavam a maior carga horária da disciplina.
inspiração em Escola dos eua
Criada pelo decreto 68.448, em 31 de março de 1971, a EsNI era inspirada na Escola das Américas, que funcionou de 1946 a 1984 no Forte Gullick, território americano no Canal do Panamá. Entre os 60 mil militares latinos treinados no forte, aparece o nome do brigadeiro João Paulo Burnier, ex-comandante da Base Aérea do Galeão em 1971 e acusado pelo desaparecimento do militante do MR-8 Stuart Angel Jones.
Em 17 anos de atividades (1972-1989) no SNI, em Brasília, a EsNI promoveu 83 cursos, a maior quantidade para as categorias B (analistas e coordenadores regionais de Informação) , C1 e C2 — a categoria A era destinada a oficiais de alta patente, diplomatas e outras autoridades. Os planos de aula continham 12 disciplinas semelhantes, variando apenas em carga horária e tópicos, e dividiam os estudos em dois ciclos: conhecimentos gerais e especializados. O primeiro incluía conteúdos relacionados à estrutura do governo, à filosofia, ao marxismo, à realidade brasileira, entre outros.
Ao ser fundada, a EsNI absorveu as demais escolas de Informação existentes no país, entre as quais a do Centro de Estudos de Pessoal (CEP), no Forte do Leme. Os cursos eram tão minuciosos que as aulas contemplavam noções de psicologia para entender a formação da personalidade e as influências familiares na adolescência. Eram obrigatórias as aulas de idiomas estrangeiros (com opção até para o chinês), tiro e lutas. No final, os formandos faziam uma viagem.
Os cursos tinham como público alvo militares e civis, agentes do SNI. O objetivo era formar quadros para diferentes níveis da rede de repressão.
O curso A, por exemplo, formava agentes para as funções de analista e chefia de informações. O curso B visava às funções de analista e planejador de nível regional e setorial. Os cursos C1 e C2 formavam as chefias de seções de operações e os agentes que iam a campo, respectivamente. Após a formação, os agentes atuavam em diferentes locais, entre outros nos conhecidos DOI e Codi (Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna).
Ao folhear alguns planos de aulas da disciplina “Operações de Segurança Interna”, de 1975, por exemplo, foi possível notar entre os itens citados as experiências extraídas do combate às guerrilhas rurais brasileiras: “Primeiras tentativas — Caparaó — Registro”, “Tentativa do MR8 em Brotas de Macaúba” e “Tentativa Xambioá”.
Os livros depois de 1975 também já fazem referências às operações do Araguaia, e um deles chega a dizer que Maurício Grabois, um dirigente do PCdoB desaparecido, foi morto em combate.
O GLOBO pediu acesso aos nomes dos instrutores dos cursos, mas a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), herdeira do SNI, não forneceu, justificando que as informações estão sob sigilo por segurança da sociedade e do Estado. Já o Exército se negou a fornecer os dados da escola que funcionou no Leme.


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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Te Contei, não ? - CALABAR - Põe as mãos em mim





 
 
 
RIO - Com lotação esgotada para a estreia, no dia 8 de novembro de 1973, e mais quatro sessões já vendidas, a peça “Calabar: o elogio da traição”, de Ruy Guerra e Chico Buarque, não pôde abrir as cortinas. Naquela noite, o Teatro João Caetano, sede do espetáculo, tornou-se palco de um dos maiores crimes contra a liberdade de expressão da história do teatro brasileiro. Por determinação do general de brigada Antônio Bandeira, então diretor-geral da Polícia Federal, o espetáculo, produzido por Fernando Torres (1927-2008) ao custo de três milhões de cruzeiros, foi interditado — e assim ficou por sete anos. Depois de dois meses de ensaios sob o comando do diretor Fernando Peixoto (1937-2012) e a direção musical de Dori Caymmi, uma trupe de 48 atores, entre eles Betty Faria, viu o sonho de encenar um musical brasileiro se desmanchar. Esse sonho perdido alimenta a montagem, já em andamento, que irá celebrar os 40 anos do espetáculo, com direção do próprio Guerra. (Ouça acima 'Fado tropical', da trilha do musical)
A estreia será também em novembro e no mesmo João Caetano que deveria ter abrigado a saga de Domingos Fernandes Calabar (1600-1635). Realizador de marcos do cinema nacional como “Os fuzis” (1964), Guerra já convidou Letícia Sabatella para integrar o elenco, no papel de Bárbara, vivida por Tetê Medina na versão proibida.


— Em 1973, queríamos que a Censura viesse logo, já nos ensaios, para evitar uma proibição depois que já tivéssemos levantado o espetáculo inteiro. Corremos atrás dos censores para que eles nos vissem e decidissem logo o que seria da peça, mas eles adiaram até o último minuto, deixando todos no prejuízo — conta Guerra, que escreveu o texto na então casa de Chico, na Lagoa. — Durante meses, trabalhamos sentados um na frente do outro, cada um numa máquina de escrever. Pesquisamos muito sobre a primeira metade do século XVII. Cheguei a ir a Minas atrás de livros raros, e pedimos a opinião do pai do Chico (o historiador Sérgio Buarque de Holanda).
Parceira de Torres na produção (e sua mulher), Fernanda Montenegro dimensiona o prejuízo:
— Perdemos muita grana com a proibição. O que nos salvou foi uma montagem de “O amante de madame Vidal”, cujo sucesso pagou as dívidas. Mas o desespero após a censura foi tanto, pelo prejuízo e pelo medo de uma retaliação mais violenta, que sequer guardamos a documentação da peça.
Entre as justificativas dadas pelos censores à produção havia a suspeita de que a montagem teria sido financiada por comunistas, direto de Moscou.
— Cozinharam a gente por muito tempo na Censura porque não queriam caracterizar a intervenção à peça como proibição, e sim como um abandono da nossa parte, pela incapacidade de sustentar a produção — acusa Ruy, lembrando que a coreografia do espetáculo era do bailarino tcheco Zdenek Hampl (1946-2007).
Com cenas de batalha, a peça foi cenografada por Hélio Eichbauer, que assinava ainda os figurinos, ao lado de Rosa Magalhães. Calabar não aparece em cena. Os feitos do personagem que se aliou aos holandeses contra os portugueses são cantados por figuras também reais, como Mathias de Albuquerque, Felipe Camarão e Maurício de Nassau. Mas a trama se debruça sobre a ligação entre ele, que conhecia as entranhas das matas brasileiras, e os invasores vindos da Holanda, em meio a conflitos contra Portugal pela posse do Brasil. Por isso, segundo a Censura, “os responsáveis pela peça se situam entre os que optariam de bom grado pela colonização holandesa em detrimento dos portugueses”.
“No tempo mais duro da Censura havia sempre uma história oficial que a gente sabia não corresponder à verdade”, disse à época Chico Buarque, atualmente envolvido na produção de um novo romance.
Orquestração de Edu Lobo
Intérprete de Ana de Amsterdam, Betty Faria era um dos rostos principais de uma trupe formada por Hélio Ari, Antônio Ganzarolli, Lutero Luiz, Odilon Wagner, Flávio São-Tiago e Anselmo Vasconcelos. A orquestração era comandada por Edu Lobo. E entre os músicos estava o pianista Tenório Jr., que desapareceu em 1976, na Argentina (sob ditadura).
— Numa noite, 48 pessoas ficaram desempregadas — lembra Betty. — Ensaiamos em Ipanema, onde hoje é a Casa de Cultura Laura Alvim, numa animação plena. Aí, na véspera, o veto chegou. Foi ridículo.
Até 13 de novembro de 1973, o elenco ensaiou, com a esperança de que os advogados da produção pudessem reverter a decisão da Censura. Mas o esforço foi em vão.
— Confesso que, quando a interdição veio, não estávamos no ponto, musicalmente — admite Dori Caymmi. — Eu tinha invertido o ritmo da música “Ana de Amsterdam” e tinha medo de atrapalhar a Betty. Mesmo assim, as músicas que fizemos ficaram célebres.
Caymmi se refere a canções que, no próprio ano de 1973, foram gravadas no disco “Chico canta”, como “Tatuagem”, “Tira as mãos de mim” e “Fado tropical”, que, no LP, inclui versos declamados com a voz do próprio Guerra.
— Originalmente, o disco se chamava “Chico canta Calabar”, mas os censores vetaram pelas iniciais, CCC, que poderiam fazer alusão a Comando de Caça aos Comunistas. O nome Calabar foi proibido de ser mencionado, pois, segundo eles, evocava traição. E, quando gravamos o disco, a palavra “sífilis” teve que sair de “Fado tropical”. No disco original, em vez de “sífilis” ouvia-se um chiado, algo como “shishsishs” — conta Guerra, nascido em Moçambique, há 81 anos.
Lançado com uma capa dupla, projetada pela artista Regina Vater (e que serviu de base para a arte que ilustra a capa do Segundo Caderno), com o nome “Calabar” pichado num muro, o LP do musical foi proibido e relançado, ainda em 1973, com outra capa (branca) já com o título “Chico canta”. No encarte original, a canção “Vence na vida quem diz sim” veio sem a letra, que foi censurada, e “Bárbara”, que escancara a primeira relação lésbica na MPB, foi mutilada no verso “no poço escuro de nós duas”. O livro da peça também foi patrulhado, mas sobreviveu nas livrarias, foi adotado em escolas e está na 34ª edição.
— Uma vez, eu fui chamado para fazer um debate sobre o livro num colégio. Cheguei lá crente que ia discutir com estudantes maduros. Quando vi, era uma turma com meninos entre 9 e 12 anos — diz Ruy, que irá montar a peça com a ajuda dos produtores Rafael Cannigia e Diogo Oliveira.
Direito à rebeldia
Sete anos após a censura, em 24 de janeiro de 1980, o texto foi anistiado e liberado para uma montagem no Teatro São Pedro, em São Paulo, com Martha Overbeck, Othon Bastos e Renato Borghi no elenco e direção do próprio Peixoto. A peça estreou quatro meses depois. E outras montagens se seguiram. Mas só agora seu criador vai pôr as mãos na trama novamente.
— É a primeira vez que enfrento o texto depois de tê-lo escrito com Chico — diz Guerra, que também se prepara para rodar, no início de 2014, o longa “Quase memória”, adaptação do livro homônimo de Carlos Heitor Cony, com Murilo Benício como protagonista. — Escrachado como uma sátira da História, “Calabar” preservou seu substrato analítico sobre o direito do indivíduo à rebeldia, à liberdade ideológica.
Cortes notáveis no teatro:
“Rasga coração”
Concluída em 1974, a peça de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, ficou cinco anos proibida. Nesse período, se tornou um dos textos nacionais mais lidos e discutidos do país, até ser encenada por José Renato (1926-2011) em 1979, com Raul Cortez (1931-2006) no papel de Manguary Pistolão.
“Patética”
Apreendido antes de se tornar público, em concurso de dramaturgia em 1977, o texto de João Ribeiro Chaves Netto ficou proibido até 1980 por abordar a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, nos porões do DOI-CODI. Chaves era cunhado de Herzog.
“Prova de fogo”
Texto de estreia de Consuelo de Castro, cronista de conflitos da classe média, a peça foi levada para o Teatro Oficina em 1968, mas vetada por falar do movimento estudantil. Circulou o país em leituras clandestinas. Só em 1993 foi montada, por Aimar Labaki.
“Abajur lilás”
Escrita por Plínio Marcos (1935-1999) em 1969, auge da repressão, a peça, com foco no universo das garotas de programa, seria montada no mesmo ano por Paulo Goulart, mas foi proibida. Em 1975, Antônio Abujamra tentou reviver o texto, de novo vetado. A liberação só veio em 1980.


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