domingo, 5 de junho de 2011

PAPO CARETA ?!



O PERIGO DE FUMAR NA ADOLESCÊNCIA

A adolescência é uma fase complicada. Nós, que já passamos por ela, bem sabemos suas delícias e seus perigos. Costumo dizer que por sorte não morri na adolescência, tamanhos os riscos que corri. Ano passado, esteve no Rio um especialista americano que, ao fazer uma conferência sobre a abordagem de adolescentes dependentes de drogas, finalizou seu discurso com a seguinte frase: “A adolescência é um transtorno transitório” . É um transtorno, mas passa... O que ocorre é que nessa fase nosso pensamento ainda é muito imaturo, enquanto nosso corpo começa a se tornar adulto. Tudo no mundo é novo e de tudo queremos experimentar. É a idade do risco. Idade ideal para o mercado das drogas. Ideal para se começar a fumar.
Quase toda propaganda da indústria tabagista dirige – se direta ou indiretamente a este segmento do mercado. Em 90% dos casos, o início do consumo de cigarros ocorre na adolescência , dos 13 aos 15 anos. Além da enorme quantia de dinheiro que a indústria do tabaco emprega para induzir as pessoas a fumarem, fatores especialmente relevantes para estimular o início do consumo são o fato de um dos pais fumar, ou a presença de colegas fumantes, especialmente se forem dois ou três anos mais velhos. Sempre que me perguntam o que os pais podem fazer para evitar que seus filhos fumem, mais que rapidamente responde: não fumar.
A pior notícia, entretanto, vem agora: estima – se que no mínimo um terço das pessoas que chegam a fumar um cigarro venham a se tornar dependentes. Embora o primeiro uso de um cigarro seja tipicamente marcado por efeitos desagradáveis como tosse e náusea, estes rapidamente diminuem. Isto permite novas tentativas. Segue - se um período de experimentação em que muitos jovens parecem aprender a regular os efeitos do cigarro ( aprender a tragar ) a tolerância continua a aumentar, permitindo que se estabeleça um padrão típico do consumo diário.
Num período que pode ser de poucos meses, alguns fumantes começam a tornar – se dependentes da droga que vicia o cigarro, a nicotina, e passam a apresentar os primeiros sintomas de uma síndrome de abstinência ( irritabilidade, ansiedade, inquietação, aumento de apetite e diminuição de concentração ) , toda vez que passam algumas horas sem fumar. Com efeito, 90% dos fumantes têm dificuldade de reduzir o consumo de cigarros abaixo de doze unidades por dia. Uma pesquisa feita com 800 fumantes em quatro estados do Brasil, coordenada por mim através da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, mostrou que pelo menos 50% dos jovens entre 14 e 18 anos haviam tentado deixar de fumar pelo menos uma vez. Estes jovens já não conseguem se livrar do vício.
Mas não é somente devido à dependência física da nicotina que eles têm dificuldade de abandonar os cigarros. Com o tempo, cada cigarro passa a ficar inúmeras situações de vida. Não se consegue mais pensar em estudar sem um cigarro ao lado, em tomar café sem um cigarro. Deste modo, durante a fase da dependência de nicotina, a maior parte dos fumantes repete um ciclo de uso e reforço da nicotina e sintomas de abstinência.
Aqueles que consomem mais de 20 cigarros por dia tendem a ter sintomas mais nítidos da síndrome de abstinência. Da mesma forma que aqueles que bebem derivados etílicos logo após acordar podem ser facilmente classificados como dependentes do álcool, fumar nos primeiros cinco minutos depois de levantar tende a ser evidência de dependência desta droga.
O ciclo que leva a dependência de nicotina é similar ao que leva a dependência de outras drogas, e podemos esquematizá–lo assim: uso da nicotina (sensação de bem–estar, aumento do desempenho em tarefas específicas); desenvolvimento de tolerância e dependência física; formação e reforço de associações entre diferentes estímulos e o uso de cigarros; síndrome de abstinência; a nicotina é usada como automedicação dos sintomas de abstinência; e recaída (voltar a fumar ou persistir fumando).
Podemos dizer que começar a fumar raramente é uma opção individual. A maioria dos indivíduos o faz numa fase em que as opções de vida se dão de forma conturbada. Continuar fumando também não é uma opção. O que inicialmente fazemos por busca de prazer, acaba perpetuado para se evitar o desprazer da abstinência. Conclusão: fumar, melhor não começar!

Analice Gigliotti / Psiquiatra / O GLOBO / 2002

sábado, 4 de junho de 2011

Pra entender melhor .....



sexta-feira, 18 de fevereiro 2011

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).






Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.
Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.




Pra entender melhor .....



Monteiro Lobato, racismo e CNE
Coluna do Leitor

17 de novembro de 2010 às 11:22h

Por Cesar Augusto Baldi*

Nilma Lino Gomes não é uma “sicofanta”, uma “destas burocratas de Brasília” ou uma “doidona”, como foi classificada por alguns dos maiores jornais do País. Trata-se de uma pedagoga, com mestrado em Educação (UFMG), doutorado em Antropologia Social (USP) e pós-doutora pela Universidade de Coimbra. Uma das grandes pesquisadoras, no Brasil, sobre a discussão racial na educação. E foi classificada desta forma “elegante” (seria uma censura às suas posições?), em decorrência do Parecer CNE/CE nº 15/2010.[1]
De acordo com a grande imprensa, o Conselho Nacional de Educação teria incorrido em censura, pretendendo banir o livro de Monteiro Lobato ( “Caçadas de Pedrinho”), por entender inadequado o conteúdo da obra, por seu cunho racista.
Mas o que diz, realmente, o parecer tão combatido?
Primeiro, que recebeu uma denúncia e ouviu a opinião de todos os setores educacionais envolvidos, além da Ouvidoria da SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).
Segundo, que o MEC tem que respeitar os parâmetros para escolha de livros que ele mesmo determinou. E um deles é evitar livros que disseminem preconceitos e estereótipos.
Terceiro, que as políticas públicas– seja no ensino superior, seja na educação básica- devem formar professores capazes de “lidar pedagogicamente e criticamente com o tipo de situação narrada pelo requerente, a saber, obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que apresentem estereótipos raciais”. O parecer, inclusive, cita bibliografia no sentido da necessidade de escolas e políticas públicas lidarem com narrativas, ilustrações e personagens que reforçam “lugares de subalternização do negro”. Não se esqueça, inclusive, que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é promover o bem de todos, “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” ( art. 3º, IV, CF).
Quarto, que na hipótese de obras selecionadas apresentarem estereótipos, deveria a editora responsável pela publicação inserir no texto de apresentação uma nota explicativa e de esclarecimentos “sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”. Observe-se que o livro “Caçadas de Pedrinho”, objeto do parecer, já continha informação de que a aventura narrada ocorreu em tempo “em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo IBAMA” e “nem a onça pintada era uma espécie ameaçada de extinção”. Aliás, um procedimento instituído pelo parecer nº 03/2004 e Resolução CNE nº 01/2004. Haveria algum problema, neste caso, de explicitar a questão relacionada ao racismo, se houve tamanha preocupação, pela editora, com a questão ambiental?
Quinto, que a Secretaria de Educação do Distrito Federal orientasse as escolas sobre implementação de diretrizes curriculares para educação de relações étnico-raciais e práticas pedagógicas voltadas para a diversidade étnico-racial decorrentes. Em suma: que a legislação vigente sobre ensino de história e cultura afro-brasileira e africana fosse tomada em conta como eixo transversal. E cumprida.
Sexto, que as ações fossem realizadas em conjunto com o corpo docente e a comunidade escolar, dentro, portanto, de um incremento de participação e de discussão da própria temática de diretrizes curriculares.
Sétimo, que a literatura não está fora dos “conflitos, das tensões e das hierarquias sociais e raciais nas quais o trato à diversidade se realiza”.
As críticas ao parecer vieram fundamentalmente centradas nos seguintes pontos: a) Monteiro Lobato teria sido quase proibido e não se estaria livre de um processo de censura e de expurgo de livros por parte de um tribunal literário; b) o autor não teria se afastado da mentalidade que “predominava na elite de seu tempo”; c) banir autores somente seria admitido em “casos claros de repugnante racismo”(Lya Luft); d) a medida estaria em desacordo com “nossa maneira de convivência entre as etnias”; e) Tia Nastácia encarna a “divindade criadora”, projetando a “igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor” e que “se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época”(Academia Brasileira de Letras); f) tal iniciativa decorre do multiculturalismo “que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional”, uma “imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista” (Aldo Rebelo).
Os argumentos dizem mais sobre o que ocultam do que, efetivamente, sobre o próprio parecer e suas conclusões.
Primeiro, porque reforçam a ideia de “harmonia social” e “democracia racial”, bem como a alegada inexistência de legislação racialista, ignorando o debate que tem sido feito desde a década de 1970 que denuncia as desigualdades de cunho racial no Brasil.[2]
Alexandre Emboaba da Costa destaca que tais argumentos tendem a: a) apontar a miscigenação como falta de racismo e como fator que influencia as relações sociais, esquecendo a articulação complexa entre classe, gênero, raça, sexualidade e espiritualidade : na “constituição desigual do desenvolvimento e das sociedades da América Latina”; b) divorciar o Brasil dos processos históricos de desenvolvimento global, construindo uma “especificidade histórica” como “algo isolado”, como se não houvesse qualquer inserção num sistema internacional de distribuição desigual de hierarquias; c) supervalorizar a ligação entre miscigenação e igualdade social como se fosse um processo estático, esquecendo tratar-se de “um sistema específico de dominação, com suas maneiras próprias de reproduzir a hierarquia e o poder”. Em suma: “em vez de proteger a miscigenação a qualquer custo”, necessário “examinar como as relações desiguais e hierárquicas foram reproduzidas dentro de um sistema que não visa à separação de raças como na América do Norte, mas uma suposta tendência à integração e à cordialidade.”[3]
Isto fica evidente com os dados constantes do Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil- 2005 ( “Racismo, pobreza e violência”), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento[4] :
“Entre os adultos, a porcentagem de negros com grau universitário observada no Brasil em 2001 (2,5%) foi atingida nos Estados Unidos em 1947- em plena era de segregação, intolerância e violência racial aberta, anterior ao crescimento do movimento por direitos civis e muito antes do surgimento das políticas de ação afirmativa na educação. A proporção dos brancos brasileiros com nível superior em 2001 ( 10,2%) foi alcançada pelos brancos norte-americanos em meados da década de 1960. No caso da África do Sul, em 1995, 2,2% da população negra de 30 a 49 anos de idade era portadora do grau universitário, enquanto no Brasil, no mesmo ano e na mesma faixa etária, esse índice atingia 2,9%. Como o regime do apartheid só terminou em 1994, conclui-se que o sistema universitário desse regime foi capaz de produzir, para a população negra, resultados muito semelhantes aos do sistema educacional supostamente integrado, universalista e racialmente democrático do Brasil”.
Uma pergunta a ser feita seria: não existindo nem a segregação dos EUA nem o apartheid da África do Sul, como foi possível ao Brasil, “democracia racial”, ter reproduzido o mesmo tipo de relações desiguais e hierárquicas?
Segundo, porque, ao discutir se Monteiro Lobato era ou não racista, procuram vincular o racismo ao momento em que o livro foi escrito e não assumir o caráter continuado de subalternização e discriminação de negros.
A inexistência de “raças”, conforme defendida por alguns, não impede – e nunca impediu- a prática do racismo que, conforme a Constituição, é “crime inafiançável e imprescritível” (art. 5º, XLII, CF) e seu repúdio deve reger as relações internacionais brasileiras (art. 4º, VIII, CF). E, portanto, obrigação constitucional, para todos os Poderes de Estado em todas as esferas, de: a) impedir qualquer conduta, prática ou atitude que incentive, prolifere ou constitua racismo; b) tomar todas as medidas cabíveis e possíveis para a erradicação de tal prática.
Imaginar que o racismo seja combatido apenas quando “evidente” ou “caso flagrante” significa partir do pressuposto de que um “tribunal branco” vai estabelecer qual o “sofrimento desnecessário” a partir do qual é possível à vítima da discriminação requerer um tratamento digno. É semelhante à discussão se a pena de morte somente é cruel quando ocorrer por lapidação, mas não por cadeira elétrica ou choque; ou se a tortura é necessária quando o acusado é “reconhecidamente” malvado ou se é imprescindível para obtenção de dados fundamentais ao Estado. Não é preciso lembrar o grau de “coincidência” a ascendência negra e os “autos de resistência”, as averiguações pela polícia e as torturas ou maus tratos em prisões. Justamente porque não se reconhece enquanto racismo é que piadas como a do Danilo Gentilli, do CQC- “King Kong, um macaco que depois que vai para cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”- passam apenas para uma brincadeira de mau gosto. Afinal, respondeu ele, “não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque era famoso. A cabeça de vocês é que tem preconceito”[5]… Realmente, a associação entre negro, jogador de futebol e macaco é tão incomum que os clubes europeus cujas torcidas simularam sons de macaco para determinados jogadores foram punidos por… racismo. Não é mesmo?
O racismo não “era” uma mentalidade presente apenas naquele tempo, mas uma realidade que permanece na mesma elite que se imagina não preconceituosa e “formadora de opinião.”
Terceiro, porque, em momento algum, os críticos salientam a necessidade de discutir as melhores formas para uma educação que seja crítica, antirracista- e, acrescente-se- “descolonial”. Abdias do Nascimento, em pronunciamento sobre a questão, salientou ser o momento também para discutir-se, em sala de aula, o bullying, “novo nome de uma antiga prática a que gerações de negrinhas e de negrinhos vêm sendo submetidos desde sempre nas escolas brasileiras.”[6]
Quarto, ao salientar-se que a referência a ex-escrava e negra era apenas decorrente do momento histórico, seria interessante imaginar se seria possível Dona Benta ser negra e, ao mesmo tempo, a contadora de histórias europeias e do conhecimento científico dentro da casa, e a tia Nastácia uma senhora branca, empregada doméstica, contadora de casos de folclore. Ou a mesma Dona Benta negra contadora de histórias populares ser tida como detentora de conhecimento científico e uma tia Nastácia branca narrando contos de Grimm ser tida como “contadora” de superstições. Seria possível? A “tia” era subalterna porque negra ou negra porque subalterna? Não se trata somente de luta por justiça social e histórica, mas também por “justiça cognitiva, por um estatuto epistemológico que não subalternize os conhecimentos e práticas negros, indígenas e de comunidades tradicionais.
Quinto, porque o multiculturalismo não é uma cópia servil dos EUA e tampouco uma autonomização de culturas. Exceto para aqueles que entendem que a pluralidade cultural deve ser entendida como ausência de cruzamentos de culturas, de alteração de parâmetros e, fundamentalmente, de interculturalidade. Ou que fazem elogio da miscigenação, que é tanto mais defendida e palatável, quanto mais branca for na essência, e que os elementos indígenas e negros demonstrem a “harmonia” desta “mistura genial”. Como “coadjuvantes”, é claro.
Os distintos movimentos negros e indígenas-talvez não seja do conhecimento destes críticos- desde a década de 1970 não vem defendendo a assimilação nem o aniquilamento das identidades, mas sim um processo de reconhecimento efetivo da diversidade cultural, que, em alguns países, passa pela discussão da plurinacionalidade, do constitucionalismo intercultural e da “descolonização do conhecimento” ( como Equador e Bolívia).
Imaginar uma simples cópia é desconhecer toda esta rica discussão e mesmo a criação de novos conceitos, como “amefricanidade” de Lélia Gonzalez e de “quilombismo” de Abdias do Nascimento, para revigoramento das lutas nacionais por reconhecimento da imensa demodiversidade, sociodiversidade e pluriculturalidade nacional. Por este motivo foram incluídas a proteção das manifestações culturais de indígenas e afro-brasileiros ( art. 215, § 1º, CF), a fixação de datas comemorativas de alta significação de segmentos étnicos nacionais ( art. 215, § 2º, CF) e a proteção dos quilombos ( art. 216, § 5º, CF e art. 68-ADCT). São direitos constitucionalmente reconhecidos depois de muitos anos – e séculos- de lutas. A comemoração do 20 de novembro não é uma reprodução do dia de Martin Luther King, ainda que as energias emancipatórias dos dois movimentos possam ser solidárias.
A luta não é por autonomia de culturas, mas sim contra todas as formas de sexismo, racismo e colonialismo ( tanto interno quanto externo) e por um novo patamar de relação entre igualdade e diferença, em que os conhecimentos e práticas distintos do padrão hegemônico (branco, ocidental, heterossexual, proprietário, adulto) não sejam considerados atrasados, resíduos, improdutivos, ignorantes. É a recuperação de vozes de sofrimento silenciadas, suprimidas, invisibilizadas.
Em 2006, uma campanha publicitária destacava: “levamos nosso afilhado de três anos numa festa e uma criança, da mesma idade, disse pra ele: minha mãe detesta gente preta e eu também.”. O mote da campanha era então- tanto quanto hoje- muito atual: “Onde você guarda o seu racismo? Não guarde, jogue fora!”[7]
Em momentos como este, é que se percebe o quanto é institucionalizado o racismo que sequer se vê como discriminação e que permite a manutenção de um processo contínuo de inferiorização de negros e indígenas. A luta contra os racismos é um ritual doloroso: é como colocar a mão em vespeiro ou formigueiro. Mas ela tem que começar a ser realizada. E se não for sequer em escolas e universidades, vai ser onde?
*César Augusto Baldi, mestre em Direito ( ULBRA/RS), doutorando Universidad Pablo Olavide ( Espanha), servidor do TRF-4ª Região desde 1989, é organizador do livro “Direitos humanos na sociedade cosmopolita” ( Ed. Renovar, 2004).
[1] Disponível no site: http://blog.centrodestudos.com.br/2010/11/03/cacadas-de-pedrinho-e-o-cne/
[2] HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Belo Horizonte: UFMG, 2005; SILVA, Nelson do Valle. Extensão e natureza das desigualdades raciais no Brasil. IN: LYNN, Huntley & GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo ( org). Tirando a máscara: ensaios sobre o racismo no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 33-51.
[3] COSTA, Alexandre Emboaba. Mobilizando a ancestralidade afro-brasileira para a transformação das relações sociais e o desenvolvimento global. Disponível em: http://www.orunmila.org.br/blog/?p=167
[4] Disponível no site http://www.pnud.org.br/rdh
[5] Disponível em: http://www.mulheresreais.blog.br/?p=416
[6] Disponível em: xa.yimg.com/kq/…/11_08_ABDIAS_PARECER+15_2010_CNE.doc.pdf [7] www.dialogoscontraoracismo.org.br

Diretamente do Além ..................



REINAÇÕES DE POLITICAMENTE CORRETINHO
Não sei se vocês leram que o Conselho Nacional de Educação (CNE) pediu que meu livro, Caçadas de Pedrinho, fosse retirado das escolas. Motivo? No entender do órgão, algumas frases da história são racistas, especialmente as relacionadas à personagem Tia Nastácia. Como medida conciliatória, alguns sugeriram a inclusão de uma nota explicativa sobre o contexto histórico em que o livro foi escrito, de tal forma a evitar que esse clássico da literatura infanto-juvenil deixe de circular entre os estudantes brasileiros.
Minha intenção aqui não é me defender nem tampouco alimentar o fogo dessa polêmica. Meu ponto é outro. Gostei da ideia de introduzir uma nota explicativa. Mas em vez de contextualizar o passado, talvez fosse melhor dedicá-la a contextualizar o presente. Pelo simples fato de que as crianças de hoje perderam bastante da ingenuidade e estão afastadas do convívio com a natureza.
Aquela expressão “tirem as crianças da sala” não faz mais sentido. Elas assistem a tudo na internet. Um adolescente de hoje já viu mais sexo na web do que toda a juventude sueca da década de 70 viu nas famosas revistinhas que circulavam por lá. Qualquer letra de rap ou funk é mais do que suficiente para eliminar as reservas de inocência e pureza naturais da tenra idade. Em compensação, as novas gerações só identificam uma galinha em dois formatos: jpg e bandejinha de supermercado.
Ao reler minha obra sob esse prisma, fiquei preocupado. As histórias seguem boas, mas a narrativa, os nomes dos personagens e dos lugares podem servir de munição pesada para interpretações maliciosas e piadas de duplo sentido. Entendam, quando escrevi minha coleção de livros infanto-juvenis as crianças da idade do Justin Bieber não cantavam sobre amores impossíveis e não assistiam a filmes como Tropa de Elite desacompanhadas dos pais.
Por tudo isso, decidi acatar a sugestão de alguns. Redigi a tal nota de esclarecimento que deve ser incluída nos meus livros infanto-juvenis (se é que isso ainda existe).
Nota de esclarecimento (Nota de esclarecimento sobre o termo esclarecimento. O mesmo foi aqui empregado não no sentido de tornar mais branco, mas sim no de se fazer mais explicado, com mais luz).
A personagem Dona Benta sempre esteve na história original. Ela não foi incluída posteriormente como merchandising de uma conhecida farinha de trigo.
O carinhoso apelido de Narizinho não sugere que tal personagem tem por hábito o consumo de drogas ilícitas pela via nasal. Quem o tem é a Emília, que ganhou vida ao aspirar o tal pó de pirlimpimpim.
Não há nenhuma evidência de que o Visconde de Sabugosa, apesar de falar com grande sabedoria, seja transgênico.
Marquês de Rabicó. Eu sei, é um nome complicado. Pode zoar à vontade.
Não é o que está queimando no cachimbo que faz o Saci pular sem parar. É a falta de uma perna mesmo.
Por fim, Sítio do Picapau Amarelo não é uma menção à propriedade rural de um órgão genital masculino de um oriental. Eu jamais cometeria um pleonasmo como Pica-Pau.

POSTADO POR: Monteiro Lobato

http://www.blogsdoalem.com.br/lobato/

Para Professor >>>>>>>>>>>>>>.



Professor não é incapazAna Maria Machado

10 de fevereiro de 2011 às 20:23h

Caro professor,
Recentemente causou grande polêmica um parecer do Conselho de Educação Básica e do Conselho Nacional de Educação do MEC, recomendando o banimento da leitura de Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, nas escolas do Distrito Federal. As alegações para a decisão tinham a ver com a representação de tia Nastácia na obra, por meio de estereó-tipos raciais. Incluíam também uma ressalva: o livro só poderia ser lido em sala de aula se a editora nele incluísse comentários ao texto, ressaltando seus aspectos negativos e formulando orientações específicas às escolas.
Na discussão que se seguiu, os aspectos odiosos do racismo foram tão ressaltados quanto as características inadmissíveis do dirigismo cultural por parte do governo. Não é o caso de aqui voltarmos a isso ou a detalhes da obra em si. É verdade, sim, que vários termos que o autor emprega refletem visões preconceituosas que sua época tinha em relação aos descendentes de africanos no Brasil, num momento ainda muito próximo da escravidão recente, com todas as suas sequelas sociais ainda muito vivas – como a ignorância e a pobreza em que foram mantidos. É inegável que a escola deve combater tais preconceitos e atitudes, inadmissíveis em qualquer circunstância.
O enfrentamento dessa questão, porém, não deveria passar pelo banimento do livro ou por enchê-lo de penduricalhos e comentários. Uma obra artística faz parte da história cultural. Não pode ser modificada ou corrigida a cada geração. Todo autor reflete seu tempo e por mais que alguns pretendam, não há como mudar o passado reescrevendo a História. O mundo não começou hoje. Shakespeare fala de seus personagens a partir da visão que seu tempo e sua sociedade tinham deles – e é assim que se refere ao negro Otelo, ao selvagem Calibã ou ao judeu Shylock. Euclides da Cunha, em Os Sertões, reconta a epopeia de Canudos e aprende a admirar Antônio Conselheiro e seus jagunços, mas nem por isso deixa de se referir sempre aos sertanejos e mestiços com uma carga de preconceitos que nos horrorizam hoje quando o lemos. As Mil e Uma Noites estão cheias de referências abomináveis aos escravos. Muitos grandes autores tratam a mulher em suas obras de um modo que hoje nos revolta. Os exemplos são infindáveis. Isso tudo, sem falar na Bíblia, repleta de referências mais que desairosas a vários povos, por vezes insultantes mesmo, incitando a sua destruição.
A solução não está em deixar de ler tais obras, mas em lê-las de forma crítica, contextualizada. Isso vale para obras literárias destinadas a qualquer idade, seja ou não no contexto escolar.
Mas quando essa leitura se associa à educação e aos canais burocráticos dos formuladores de políticas públicas de ensino, surge nessa recomendação da CEB/CNE outro aspecto que me parece assustador e ofensivo ao professor. Por isso quero discuti-lo nesta nossa conversa.
Fico estarrecida ao constatar que o parecer pressupõe que o professor é incapaz de exercer sozinho a sua profissão, fazendo com seus alunos uma leitura crítica e os orientando a analisar o contexto em que se insere o texto lido. Por que precisa que o editor faça isso por ele? Só há uma explicação para esse insulto ao magistério: as autoridades dispõem de uma radiografia confiável do nível precário desses mestres e, a partir dela, estariam constatando uma deficiência real na sua formação. Nesse caso, a solução está em formá-los melhor, não em tratá-los como incapazes.
Cabe ao professor desenvolver com os alunos a leitura crítica. Sem concordar com tudo o que o autor escreveu ou sua época pensava. Pelo contrário, fazendo uma viagem a esse tempo e o compreendendo, sem deixar de discordar. Supõe dialogar com a obra, distinguindo nela o que não se aprova e o que desperta identificação.
Um bom leitor de Lobato sabe que Tia Nastácia encarna a divindade criadora do Sítio do Picapau Amarelo. Ela é quem cria Emília, de uns trapos. Ela é quem cria o Visconde, de uma espiga de milho. Ela é quem cria João Faz-de-Conta, de um pedaço de pau. Ela é quem “cura” os personagens com suas costuras ou remendos, quem conta as histórias tradicionais, quem faz os bolinhos. Se é mostrada como negra e ex-escrava, é porque essa era sua cor e a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.
Em vez de proibir as crianças de saber disso, seria melhor se os professores estimulassem a leitura crítica por parte dos alunos. Mostrassem como nascem e se constroem preconceitos. Sugerissem que se pesquise a herança dessas atitudes na sociedade contemporânea. Propusessem que se analise a legislação que busca coibir tais práticas. Ou o que mais a criatividade pedagógica indicar.
Mas para tal, é preciso ler Lobato e estar familiarizado com sua obra. Para saber quanto ela enche de orgulho uma cultura. Poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento, estimulando os leitores a pensar por conta própria, mesmo para discordar. Dispensá-la sumariamente é um desperdício.
Um abraço,
Ana Maria Machado






Revista CARTA FUNDAMENTAL - Fevereiro de 2011

Já para o Dia dos Namorados ....




Soneto de Fidelidade





De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.









Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

É pra rir ou pra chorar ?














http://www.juniao.com.br/weblog/archives/charge_cartum/index.html











Versos íntimos



Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, "Eu", foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do "Eu" — desde 1919 constantemente reeditado como "Eu e outras poesias" — um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.
O poema acima foi incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", organizado por Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 61.

Li e Recomendo ....

Policarpo Quaresma entre hackers



O médico e escritor gaúcho Moacyr Scliar mostra que eler pode ser muito divertido, principalmente se o leitor for um jovem que gosta de informática. Em sua obra ATAQUE DO COMANDO P.Q. - Coleção Descobrindo os Clássicos - Ed. Ática , Scliar conta a história de Caco, um adolescente que, por sua intimidade com computadores, é convidado a desvendar as misteriosas mensagens que chegam às telas dos computadores da prefeitura, invadidos por um hacker.


Como as mensagens estão relacionadas com Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, Caco conta com a ajuda de seu professor de literatura para desvendar o mistério. Diversão certa, que vale a pena conferir.

Continuando PRA OPINAR 2 ....

Livros pra inguinorantes, por Carlos Eduardo Novaes

Jornal do Brasil

Carlos Eduardo Novaes

Confeço qui to morrendo de enveja da fessora Heloisa Ramos que escrevinhou um livro cheio de erros de Português e vendeu 485 mil ezemplares para o Minestério da Educassão. Eu dou um duro danado para não tropesssar na Gramática e nunca tive nenhum dos meus 42 livros comprados pelo Pograma Naçional do Livro Didáctico. Vai ver que é por isso: escrevo para quem sabe Portugues!
A fessora se ex-plica dizendo que previlegiou a linguagem horal sobre a escrevida. Só qui no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramática. Ou então a nossa língua vai virar um vale-tudo sem normas nem regras e agente nem precisamos ir a escola para aprender Português.
A fessora dice também que escreveu desse jeito para subestituir a nossão de “certo e errado” pela de “adequado e inadequado”. Vai ver que quis livrar a cara do Lula que agora vive dando palestas e fala muita coisa inadequada. Só que a Gramatica eziste para encinar agente como falar e escrever corretamente no idioma portugues. A Gramática é uma espéce de Constituissão do edioma pátrio e para ela não existe essa coisa de adequado e inadequado. Ou você segue direitinho a Constituição ou você está fora da lei - como se diz? - magna.
Diante do pobrema um acessor do Minestério declarou que “o ministro Fernando Adade não faz análise dos livros didáticos”. E quem pediu a ele pra fazer? Ele é um homem muito ocupado, mas deve ter alguém que fassa por ele e esse alguém com certesa só conhece a linguajem horal. O asceçor afirmou ainda que o Minestério não é dono da Verdade e o ministro seria um tirano se disseçe o que está certo e o que está errado. Que arjumento absurdo! Ele não tem que dizer nada. Tem é que ficar caladinho por causa que quem dis o que está certo é a Gramática. Até segunda ordem a Gramática é que é a dona da verdade e o Minestério que é da Educassão deve ser o primeiro a respeitar.

Cântico Negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

De onde veio a expressão ?




Pé - rapado



A expressão usada para indicar um sujeito sem dinheiro tem a ver com o ato de raspar no chão a sola do pé sujo, gesto de quem anda descalço.


No século 17, em poesia feita para Anica, mulata de quem gostava e que lhe pedia dinheiro para comprar sapatos, o poeta Gregório de Matos ( Barroco brasileiro ) escreve: "Se tens o cruzado, Anica, / manda tirar os sapatos, / e se nao, lembre-te o tempo / que andaste de pé rapado".
No século 18, o termo era muito usado pela aristocracia. Segundo o pesquisador Deonísio da Silva, no livro De onde vêm as palavras II, pés - rapados eram os trabalhadores das lavouras e das minas. Mas, por um momento, nem os ricos se livraram da pecha. Na Guerra dos Mascates ( 1710-1711), os portugueses chamavam os aristocratas rurais de Pernambuco de pés - rapados por combaterem sem botas.


Aventuas na História - Edição 95 - Junho 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Já para o Dia dos Namorados ....



Via Láctea



Soneto XIII






"Ora(direis) ouvir estrelas! Certo



Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,



Que, para ouvi - las, muita vez desperto



E abro as janelas, pálido de espanto ...






E conversamos toda a noite, enquanto



A via láctea, como um pátio aberto,



Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,



Inda as procuro pelo céu deserto.






Direis agora: "Tresloucado amigo!



Que conversas com elas? Que sentido



Tem o que dizem, quando estão contigo?"






E eu vos direi: "Amai para entendê-las!



Pois só quem ama pode ter ouvido



Capaz de ouvir e de entender estrelas."






Olavo Bilac

Te contei, não ??????



SUICÍDIO OU ASSASSINATO ?

*Casa dos Contos, em Ouro Preto, onde morreu o poeta.




Oficialmente a história registrou a morte de Cláudio Manuel da Costa - poeta do Arcadismo brasileiro - como suicídio por enforcamento. Segundo alguns, o poeta não teria resistido ao sentimento de culpa, uma vez que havia delatada, sob tortura, os participantes da conjuração. Contudo, essa versão vem sendo contestada. Conta-se em Ouro Preto que várias igrejas badalaram os sinos quando da morte do poeta. Como, por tradição, a Igreja não toca sinos a suicidas, esse fato pode ser indício de que houve assassinato e não suicídio.



Te contei, não ??????



Comparando as amostras coletadas [de DNA] dos mais diversos grupos étnicos, os cientistas verificaram serem pequenas e triviais as diferenças entre as raças. A corda pele, por exemplo, é resultado de mera adaptação ao clima - negra na África, para se proteger do sol forte; branca na Europa, para facilitar a absorção dos raios ultravioleta, que ajudam a produzir vitamina D. Ou seja, se as pesquisas estiverem certas, antes da dispersão dos hominídeos da África, éramos todos escuros.

Superinteressante, set, 1988

Toda Palavra tem uma história ....



O Trabalho histórico






A palavra "trabalho" veio do latim tripalium, tripálio, uma técnica de sofrimento obtida com três paus fincados no chão, aos quais era afixado o condenado, quando não empalado num deles até morrer. "Empalar" é espetar pelo ânus, algo comum na Antiguidade, ante o qual a crucifixão romana foi um avanço.



A etimologia latina formou-se a partir do prefixo tri-três, e palus, pau, estaca, poste, mourão. No plano mítico, este étimo, foi abandonado, porém, na Vulgata, como é conhecida a tradução da Bíblia, do hebraico para o latim, feita pela equipe de São Jerônimo, que serviu de base às traduções portuguesas durante séculos até que tivéssemos acesso a traduções vindas diretamente dos originais hebraico e grego.



Quem trouxe a condenação de Adão e Eva ao trabalho, do latim para o português, traduziu labor por trabalho, um de seus sinônimos. São Jerônimo descartou tripalium e optou por labor. Traduzir é escolher. Sua escolha evitou os vínculos de tortura, implícitos no étimo descartado, mas manteve os de sofrimento no étimo escolhido.






Deonísio Silva , na Revista Lingúa Portuguesa, nº67 - Maio de 2011



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Já para o Dia dos Namorados ....



Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
Enfim,
Tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda ...





Mário Quintana

Te contei, não ??????



O poeta inglês Lord Byron (1788-1824) foi um dos principais escritores do Romantismo europeu. Dividido entre a vida luxuosa das cortes, a literatura e as mulheres, Byron escandalizou a Inglaterra com seu estilo boêmio de vida e com suas relaçoes amorosas extraconjugais. Foi ainda acusado de pederastia e de manter relaçoes incestuosas com a irmã. Escreveu, entre outras obras, Don Juan e Jovem Haroldo.






Te contei, não ????

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tá na hora do Poeta 1 -




INCLUSÃO SOCIAL




Eu to nessa de inclusão social
Sai fora discriminaçao racial
Mesmo que você tenha Síndrome de Down
Pra mim, isso não faz mal


Deficiência auditiva
Física ou visual
Não podem te deixar de fora
Não no mundo atual


Eles têm limitações
E são especiais
Então vamos aprender
A linguagem dos sinais


Preto, vermelho ou amarelo
Formamos todos um só elo
E por que não incluir você também
O branquelo ?!


Cadeirante faz como
Pra subir a calçada?
Querem também que ele
Suba uma escada?


Tudo o que precisam
São rampas de acesso
Será que é muito
Isso que eu peço?


Sem falar na vovó
E no vovô
Bicho papão tem nome:
Computador.



Tenham paciência e respeito
Poderia ser com você
Pois ninguém é perfeito
E ajudar, vale a pena, pode crer !









Beatriz Tavassos da Costa Pinto -





Turma 703 - Ativo / 2011

















Brincando de Resenhar - O Menino Narigudo de Walcyr Carrasco



"O Menino Narigudo", de Walcyr Carrasco, Ed. Moderna, é um livro fasciante. Conta a história de um menino, chamdo Cirano, que não acreditava em si mesmo, se achava feio e pensava também que ninguém gostava dele. Um dia , uma garota nova entra em sua escola e ele e seu melhor amigo se apaixonam por ela. Porém, a menina, chamada Roxane, se apaixona pelo amigo de Cirano, Cristiano, que finge ser um menino gentil e educado como Cirano. Um garoto que ele não é.
Mas o livro não mostra apenas a história de um menino que se apaixona pela mesma garota que seu amigo. Por trás deste enredo há várias possíveis interpretações.
Uma delas é a de que nao devemos apenas gostar da nossa aparência física, até porque temos muito a mostrar para os outros a respeito do nosso interior.
A outra é que devemos nos valorizar, porque se nós não gostamos de nós mesmos, quem gostará?
O livro tem muito a ensinar a quem está disposto e tem vontade de ler. É um livro bem legal e interessante.



Caroline dos Santos Gomes & Pedro Caravelo Barbosa
- Turma 802 / Ativo 2011

O livro O menino narigudo de Walcyr Carrasco ( Editora Moderna ) fala sobre um garoto que é incomodado por ter o seu nariz muito grande e com esse fato ele acaba se afastando das pessoas por se achar inferior a elas.
Na sociedade atual, muitas pessoas pré - julgam a outra por sua aparência um pouco fora das "regras" impostas pela mídia da beleza; talvez por essa pessoa estar acima do peso ideal, ou por não ter a beleza que hoje em dia julga-se essencial.
O livro trabalha com a beleza interior e a exterior e ressalta a essência de uma pessoa, mostra que não é necessário ser bonito para conseguir amigos ou um (a) namorado(a).
Esse menino se chama Cirano, ele é tímido, gosta de escrever poemas e gosta muito de ler. Cristiano é seu melhor amigo, que é totalmente o oposto dele, descolado, bonito, esportista e não tem facilidade com a leitura.
Cristiano para conquistar Roxane, uma menina que acaba de entrar na escola e tinha interesse pela leitura e poesias, pede ajuda a Cirano para conquistá-la, mas o que Cristiano não sabia era que seu melhor amigo estava apaixonado por ela também, e no decorrer da história acontecem muitas surpressas.
É importante conferir a obra, pois há vários fatos da sociedade autal que poderão ser aproveitados. Há lições importantes neste livro, que passam uma valiosa mensagem para vida.

Julia Beatriz Leite Mora e Natalia Brandão Raposo - Turma 802 / Ativo / 2011

Continuando PRA OPINAR 2



LÍNGUA AFIADA










O que escritores premiados e especialistas falam sobre o livro que tolera erros de concordância




"Acaso cabe à escola, aos livros adotados, ao Ministério da Educação, conservar os alunos em estado indigente de pobreza cultural, a pretexto de não desmoronar suas convicções familiares ou ofender o seu meio social? Que bondade é essa do livro, que afirma ser a escrita diferente da fala, como se qualquer um de nós já não soubesse? O livro confirma a tese de que esteve sempre em curso no Brasil o projeto de manter uma legião de brasileiros como cidadãos de segunda classe"



Nelida Piñon, escritora e vencedora do Prêmio Jabuti em 2005, com o livro "Vozes do Deserto"




"Acho isso uma barbaridade. O MEC deveria retirar esse livro de circulação e responsabilizar quem o autorizou. Isso custou muito dinheiro aos cofres publicos. É um desastre e é exatamente o oposto do que é pregado por qualquer pessoa minimamente civilizada. No meio dessa luta insana para transformar a educação na preocupação número 1 do País, vem esse povo afirmar que pode falar errado. É inadmissível"



Fernando Morais, escritor e vencedor do Prêmio Jabuti em 2011, com o livro "Corações Sujos"




"Se 'nós vai" é correto então todo mundo deveria falar 'nós vai'. O livro passa a ideia de que não faz mal falar errado, de que não é problema falar de uma maneira diferente da convencional. Isso termina levando algumas pessoas a não fazer um esforço em falar o português correto e cria esse apartheid linguistico. Numa sociedade como a brasileira, acabamos criando o português do rico e do pobre. Se eu fosse ministro, colocaria uma errata na obra"




Cristovam Buarque, senador e ex- ministro da Educação



"Lendo o capítulo todo, dá para ver que não estão ensinando a falar errado, apenas registram diferenças no falar. A frase deixa de ser uma lição de professor, passa a ser a constatação de um linguista. Não é um absurdo. É só infeliz na formulação e inoportuna. Afinal, se um aluno que fala assim procura a escola, deve desejar aprender para melhorar socialmente. A questão é que os cidadãos estão fartos de entregar seus filhos a um sistema escolar que não ensina."



Ana Maria Machado, escritora e vencedora do prêmio Machado de Assis em 2001, pelo conjunto da obra




"Criou-se a ideia absurda de que o livro está ensinando o que é errado. O que você está dando para o aluno é informação sobre a formação das linguas. Fizeram um carnaval assustador do que era simplesmente uma frase dentro do quadro da linguagem. Não é função da escola controlar o que o aluno fala e sim dar a ele o domínio da língua escrita. À medida que ele vai consolidando a maneira como escreve, também vai mudando a estrutura da fala"




Cristovão Tezza, escritor e vencedor do Prêmio jabuti, em 2008, como o livro "O Filho Eterno"




"Acho estranho certas posições teóricas dos autores de livros que chegam às mãos de alunos coma chancela do Ministério da Educação. Todas as feições sociais do nosso idioma constituem objeto de disciplinas científicas, mas bem diferente é a tarefa do professor de língua portuguese, que espera encontrar no livro diático o respaldo dos usos da lingua padrão que ministra a seus discípulos. O manual que o Ministério levou às nossas escolas nao ajudará na melhoria da educação a que o País aspira"



Marcos Villaca, presidente da Academia Brasileira de Letras












Ecos de ontem ....

Racismo nos Tribunais






O número de casos de discriminaçao julgados no Brassil vem crescendo e a quantidade de acusados considerados inocentes também - quase 70% deles saem livres do banco dos réus






Solange Azevedo






Quando criança, a cabeleireira Vera Maria da Silva ouviu baterem palmas no portão e foi atender. "Podemos falar com a dona de casa?", perguntaram dois vendedores de lviros. Momentos depois, na presença deles, a mãe de Vera quis saber se a filha havia gostado dos livros. Os rapazes estranharam o questionamento da "dona de casa", uma mulher branca, e um deles se voltou contra Vera: "Olha, negrinha, você não tem de dar opinião. Quem decide é a sua patroa." Aquela foi a primeira vez que a cabeleireira lembra ter sido discriminada.



Não foi a única. No mês passado, aos 59 anos, Vera diz ter sido xingada de "macaca! e "negra imunda" pelo comerciante Claudio Kubo, de Sorocaba, no interior paulista, onde mora. Kubo sugeriu, ainda, que ela montasse "num urubu" e voltasse para a África. "Cresci ouvindo essas coisas e nunca tinha tido oportunidade de tomar providências", conta Vera. "Duas testemunhas do crime prestaram depoimento", afirma o delegado Fábio Cafisso. Autuado por injúria racial, Kubo foi preso em flagrante. Passou 24 horas na cadeira. Ele alega inocência.



Racismo - assim como injúria racial - é crime no Brasil desde a Constituição de 1988. Injúria é xingamento. Já o racismo fica caracterizado quando a vítima, por exemplo, é impedida de entrar em algum lugar ou preterida numa vaga de trabalho. Embora esse tenha sido um importante avanço na legislação, punir os agressores tem se mostrado complicado. Uma pesquisa do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relaçoes Raciais (Laeser), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revela que os julgamentos de racismo e injúria racial vêm crescendo, mas o número de acusados considerados innocentes também. Depois de passar um pente-fino nos portais dos tribunais de segunda instância de todo o País, o Laeser localizou 84 ações julgadas entre 2005 e 2006. Nos dois anos seguintes, foram 148. Enquanto no primeiro biênio os réus venceram 52,4% dos processos, em 2007 e 2008 eles levaram a melhor em 66,9%.



"Juízes conservadores têm dificuldade de lidar com esses delitos e, às vezes, desqualificam a fala das vítimas", diz Marcelo Paixão, coordenador do Laeser: "O mito da democracia racial, de que não existiria racismo no Brasil, também pode influenciar os magistrados." Cleber Julião Costa, pesquisador do Laeser e professor de Direito da Universidade Estadual da Bahia, afirma que muitos processos sao mal fundamentados porque os profissinais da área não são bem preparados para trabalhar com a temática. Por isso, na segunda instância, onde as questões técnicas têm mais peso, os réus acabam beneficiados. "Em muitos casos, o juiz muda o tipo penal de racismo para injúria qualificada. Só que o prazo para a suposta vítima propor uma ação por injúria é de 6 meses e, como o tempo de tramitação dos processos é maior do que isso, ela acaba perdendo esse direito", relata Costa. "Mas apesar disso, essas ações são importantes porque têm um caráter pedagógico para os réus e para a sociedade."



Levar esses processos adiante, no entanto, pode ser penoso para as vítimas. Em 2005, durante um jogo, o ex - atacante são paulino Grafite foi chamado de "negro de merda" e " macaco" pelo zagueiro argentino Leandro Desábato. Depois da partida, disputada no Morumbi e televisionada para vários países, Desábato foi preso em flagrante. Passou dois dias na cadeia. O episódio repercutiu mundialmente e motivou debates sobre o racismo no futebol. Menos de seis meses depois, Grafite desistiu de propor uma ação penal. "Logo depois do jogo, tinha muita gente ao meu lado", relata Grafite à ISTO É. "Mas o tempo foi passando e eu fui ficando sozinho, sem apoio. Minha filha tinha 7 anos e não queria ir à escola porque ficavam perguntando o que eu ia fazer. Fiquei com raiva de ser discriminado naquele dia, mas era muito pior quando eu não era famoso. Eu vendia sacos de lixo e muita gente olhava esquisito quando via um negro batendo no portão."






Revista ISTO É, 25/05/11