terça-feira, 5 de junho de 2012

Personalidades - Manoel Carlos - O observador da vida

Era nosso terceiro encontro. Nos dois primeiros, a conversa foi tão boa que já me dava por satisfeita. Mas, naquela terça-feira de março, o novelista Manoel Carlos me telefonou sugerindo um novo encontro no fim da tarde, na livraria Argumento, no Leblon. Quando cheguei, Maneco – como é chamado pelos amigos – já estava lá, numa mesinha de canto, me olhando. A atriz Fernanda Montenegro tem razão. “Os olhos de Maneco são como ventosas. Ele se expõe pouco e observa muito”, diz ela. Neste último encontro, Manoel Carlos pergunta mais de mim do que eu dele. Quer saber de minha rotina de trabalho e como faço para trabalhar e criar os filhos. É bom ouvinte. Presa na armadilha, conto os detalhes, pensando se inspirarei algum personagem. “As melhores histórias estão aqui e ali”, diz ele.

Famílias como a minha e a sua lhe interessam. Os laços de família – título de uma de suas novelas de maior su-cesso – são a matéria-prima de suas histórias. Talvez por isso nenhum outro produto da dramaturgia mundial tenha tantas cenas de café da manhã, almoço e jantar quanto suas histórias. Nos lares se desenvolvem tanto as tramas mais trágicas quanto a discussão trivial sobre o aumento do pão. Os gêmeos separados no berço de Baila comigo, a mãe que troca de bebê com a filha que perdeu sua criança no parto de Por amor, a filha amada que fica tetraplégica em Viver a vida – todos esses dramas se misturam à crônica de questões íntimas como o vazio feminino, a mulher que não consegue ser fiel, o homem que espera a mulher idealizada. Agora, quase aos 80 anos (que completará no ano que vem), Manoel Carlos diz que quer escrever só mais uma novela. Acompanhadas diariamente por 50 milhões de telespectadores, as novelas das 9 da noite da TV Globo, o horário mais nobre da televisão brasileira, saem da pena de poucos autores. Trata-se de trabalho cansativo, cercado de pressão por todos os lados. Nesse seleto time de autores – as “ararinhas-azuis”, raras e em extinção, como o escritor Aguinaldo Silva definiu –, Maneco é o mais velho.
EM CASA O novelista Manoel Carlos, de 79 anos, em seu apartamento no Leblon, Rio de Janeiro.  Ele escreverá sua última novela em 2013  (Foto: Tomás Rangel/ÉPOCA)

Ele entregará no fim deste mês a sinopse de seu último folhetim, previsto para ir ao ar em 2013. Será sua derra-deira Helena, nome comum a todas as suas protagonistas desde Baila comigo, de 1981. Vividas por estrelas como Regina Duarte, Vera Fischer e Maitê Proença (leia a galeria abaixo), elas são apresentadas ao público e amadas por ele a cada três anos, mais ou menos. Helena, ele costuma repetir, não foi nome de namorada, mulher, nem de alguém da família. “Escolhi por ser um nome forte. É referência a Helena de Troia”, diz. Uma curiosidade: em 1952, com menos de 20 anos, Maneco adaptou para a antiga TV Paulista o livro Helena, de Machado de Assis. Era teleteatro, representado ao vivo diante das câmeras. “Essa Helena não está diretamente relacionada às Helenas das novelas”, diz ele. Agora, 60 anos depois, já escolheu a atriz que interpretará sua última Helena: Julia Lemmertz, filha de uma de suas mais queridas Helenas, Lilian Lemmertz, morta em 1986. Ela encabeçava o elenco de Baila comigo, primeira novela de Maneco no horário das 9.

Manoel Carlos ouve por vício profissional e, pela mesma razão, é também um narrador fascinante. É visível que narra suas histórias menos para impressionar que pelo prazer de lembrar dos acontecimentos e dos amigos – muitos já morreram. Se prende a detalhes saborosos, como o apelido dado a Chico Buarque e Nara Leão no programa Para ver a banda passar, de 1967, na TV Record. “Como dois tímidos poderiam estar à frente de uma atração? Eles eram ótimos, mas falavam pouco e baixo. Ganharam o apelido de desanimadores de auditório”, diz. Maneco também parece viajar no tempo ao falar sobre a morte de Jardel Filho, em 1983. Jardel era o galã de sua novela Sol de verão. Vivia um mecânico doce e rústico, par romântico da protagonista rica. O casal ganhara o Brasil, e a audiên¬cia ia muito bem. Num domingo de fevereiro, Maneco saiu de casa cedo para comprar os jornais. Em tempo pré-internet, passava numa banca de Ipanema e levava várias publicações. “Os jornais são sempre fonte de enredos e personagens”, afirma. Naquele dia, não chegou a ler nenhum. No rádio do carro, era anunciada a morte de “Jardel Filho, o Heitor de Sol de verão, aos 56 anos, de infarto”. Ficou catatônico por dez minutos, sem saber o que fazer. Uma hora depois, estava na casa de Jardel com os amigos Tony Ramos e Paulo Figueiredo, que também faziam parte do elenco. Antes que o corpo fosse levado, fizeram a barba do amigo morto. “Estava grande. Jardel era bonito demais para se despedir daquele jeito”, diz. Maneco não escreveu o fim da história. Não conseguiu. Foi substituído por Lauro Cezar Muniz.
   
Não seria a primeira nem a última vez que ele teria de lidar com a morte precoce de gente amada. Quando seus filhos ainda eram adolescentes, perderam a mãe, a ex-mulher Maria de Lourdes, artista plástica. Com apenas 36 anos, ela caiu da escada, em casa, quando saía para uma festa. Os dois haviam se casado quando ele tinha 19 anos, e ela 17. “Ela estava grávida e resolvemos ficar juntos”, diz. O bebê que os unira, Manoel Carlos Filho, o Manequinho, morrera em março, três semanas antes de nossa primeira conversa, de infarto. Tinha 59 anos. “A morte de um filho é uma armadilha no fim de um corredor escuro”, afirma Maneco. Uma armadilha que, para ele, veio duas vezes: em 1988, seu segundo filho, Ricardo, ator, morreu por complicações da aids. A filha Júlia, também atriz, deu dois sustos – duas meningites na infância, que também quase a levaram. Maneco tem ainda mais dois filhos – Maria Carolina, roteirista, de seu casamento com Cidinha Campos, e Pedro, irmão de Júlia, de seu atual casamento, com Bety Almeida. Instintivamente, lhe digo que, com tantos dramas, sua vida poderia ser uma novela. Por trás dos aros grossos de seus óculos, seu olhar me diz que meu comentário nada tem de inédito.
     
Manoel Carlos Gonçalves de Almeida começou na televisão meses depois que a novidade foi ao ar pela primeira vez no Brasil. Era um ator de teatro de 20 anos, que largara a escola antes do que hoje seria o ensino médio. Já tinha mulher, dois filhos e precisava de dinheiro. Entre o jovem leitor voraz dos clássicos da literatura de 1951 e o campeão de audiência de hoje, trabalhou em projetos tão importantes que suas oito décadas até parecem curtas.
 
Depois do teleteatro e dos programas humorísticos nos anos 1950, passou na década seguinte para a linha de musicais. Roteirizava, entre outras coisas, os textos de Elis Regina no legendário O fino da bossa. Em 1971, dirigiu o primeiro show de Chico Buarque no tradicional Canecão, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, já roteirista consa-grado, foi levado pelas mãos do então todo-poderoso da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para ser o primeiro diretor-geral de um programa novo, que misturava jornalismo, dramaturgia e show: o Fantástico. Ele criava, dirigia e alinhavava o programa. As novelas começaram em 1978 – também por iniciativa de Boni. Dois anos depois, participou de um dos projetos mais ousados da época, a série Malu mulher, que tratava da emancipação feminina. “Manoel Carlos pode fazer o que quiser. Seu talento não tem limites”, diz Boni.

Revista Época

Crônica do dia - O beijo que vira rosnado - Walcyr Carrasco


Nunca fui casado, mas já vivi separações. Com a lei atual, ter estado diante de um juiz faz pouca diferença na discussão dos bens. Vale a existência de uma relação conjugal. E, se houver, um contrato prévio, que determine os direitos de cada um. O ideal, segundo meu advogado, é pedir a assinatura assim que a relação se tornar séria. Acho difícil determinar esse momento, porque para mim as coisas vão acontecendo. Para os românticos, que se apaixonam à primeira vista, seria na primeira noite?

– No começo é mais fácil – disse meu advogado.
Advogados têm uma lógica inacreditável. Deveria ser, sim. Mas, e a paixão, onde fica? Como acordar no fim da primeira semana, depois de uma noite inesquecível, estender a caneta e pedir:

– Assine aqui, por favor.
– Ahnnn... o quê?
– É só um contrato dizendo que você não tem direito a nada se a gente se separar. Hummm... Mas, como vamos ficar juntos para sempre, é só uma coisinha burocrática. Assine... hum... meu amor!
 

A paixão, eis o problema. No auge, é difícil ser tão prático! E depois, ah, depois! Tive um amigo jornalista que se casou com uma chilena. Anos depois, separaram-se. Ela voltou para o Chile com o filho. Meu amigo economizava centavos para ver o garoto e, claro, enviar a mesada. Trabalhamos juntos algum tempo. Comentava-se, referindo-se aos constantes pedidos de dinheiro da ex-amada:
– Filho é igual a refém.
   
Nada se compara à fúria de um casal separado. Mesmo que tudo comece amigavelmente, aos poucos as boas maneiras explodem em rosnados e botes de parte a parte. Ela se julga injustiçada na divisão dos bens. Ele acha que ela está levando muito. Quem nunca aprontou uma baixaria em situações como essa que atire a primeira pedra. Já vi um grande empresário fugir com o computador da ex, antes de qualquer decisão judicial. A recém-separada também vira um furacão. Principalmente se ele sai com uma garota mais nova. Fala coisas horrendas. Outro dia ouvi uma furiosa:

– Ela passou por todos os homens da empresa até chegar nele, que é o dono.

– Pelo menos a moça tem bastante experiência. Ele deve estar se divertindo! – disse.
 

Perdi a amiga.

Mulher brava é capaz de espalhar intimidades. Num atual caso de separação milionária, que move toda a sociedade paulistana, a ex comenta que ele não tem outra, mas outro. Um rapaz. Deve ser uma delícia para os filhos ouvir a mãe no auge das acusações! Homens não ficam atrás no comportamento execrável. Cansei de ver amigos fugir das mesadas, despesas escolares etc. Agem como se não tivessem nenhuma responsabilidade sobre os filhos. Não é à toa que a lei manda para a cadeia os faltosos. Sempre é uma questão delicada para os filhos ver o pai preso por denúncia da mãe.

Certos pais fazem chantagem emocional. Convencem os pimpolhos a interceder. Já vi um garoto de 12 anos chorando para a mãe não botar o pai na cadeia. Emocionada, ela abandonou a ideia – e ficou pendurada em dívidas.

A vida política é repleta de mulheres furiosas que denunciam os ex. No mundo empresarial, há processos por milhões. Advogados especializados nesse tipo de causa ganham muito, mesmo porque recebem sobre o valor do que é conseguido. Muitas vezes a mulher passa um ano guardando recibos de todas as despesas para mais tarde provar judicialmente que estava acostumada a determinado nível de vida. Não entendo como alguém é capaz de conviver com alguém que amou, viajar, fazer sexo, enquanto secretamente armazena faturas de cartão de crédito, contas de luz, canhotos de passagens, recibos de cabeleireiros. Tudo para mais tarde ganhar o processo. E os ex-maridos, depois? Recebem por fora, fraudam bônus da empresa. Conheço um personal trainer que pede depósitos na conta da irmã, para a ex não descobrir quanto ele ganha e exigir a parte correspondente.
 

Por outro lado, muitas ex são pouco sensíveis às crises financeiras do antigo parceiro. Soube de um caso em que ele teve dificuldades para pagar o combinado, devido a problemas na empresa. Ela o acionou. Ele botou todos os bens ainda disponíveis na conta da nova mulher. Morreu pouco depois. A ex hoje vive da ajuda da família. Os filhos ficaram sem nada.

Impossível entender esse comportamento entre casais que já se amaram. A questão financeira supera tudo. Até o cuidado com os filhos. Se houve um amor, não deveria restar dignidade?

Muita gente diz que o amor está acima de tudo. Mas, na hora H, o mais forte é a conta bancária

Cronica do Dia - A Justiça do amor - Ruth Aquino


Um pai foi condenado a pagar à filha R$ 200 mil de indenização por abandono afetivo. A decisão, inédita, é do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Essa história mexe com sentimentos – e não com reconhecimento de paternidade ou pensão alimentícia. Não deveria pertencer à Justiça, e sim à vida e à consciência de cada um. Como legislar sobre a prática do amor?

É um caso comum. Uma professora de 38 anos, Luciane Nunes, que mora em Votorantim, interior paulista, decidiu há dez anos processar o pai, Antônio Carlos Jamas dos Santos, dono de postos de combustível em quatro Estados, por não ter cuidado dela direito, na infância e na adolescência. Luciane havia nascido de uma longa relação extraconjugal do pai, que durou oito anos.

A mágoa da menina foi agravada por ciúme e rejeição. Os filhos que o pai teve em casamento formal com outra mulher estudaram nas melhores escolas, aprenderam várias línguas. Ela não. Além de uma vida mais confortável, seus meio-irmãos tiveram a atenção paterna em casa. As brincadeiras, as broncas, os carinhos, os conflitos. Ela não.

Luciane cresceu, casou, teve filhos. Mas não superou o ressentimento. Decidiu colocar o pai de castigo numa sala de tribunal. Mostrar publicamente que, como empresário, ele pode ser bem-sucedido e morar em condomínio de luxo. Mas, como pai, embora a tenha reconhecido, não a amou o suficiente. Não a educou. Deixou a tarefa a cargo da mãe. Antônio Carlos conta uma história bem diferente: diz que tentou se aproximar várias vezes da filha, mas a mãe não permitia e era agressiva.

Como encontrar a verdade? Não invejo a juíza Nancy Andrighi, do STJ, que justificou a sentença. “Amar é faculdade, cuidar é dever.” A juíza está certa, não há como discordar. Ela listou algumas obrigações constitucionais da paternidade, “deveres inerentes ao poder familiar”: convívio, cuidado, criação e educação dos filhos. É melhor pensar direito antes de engravidar. Para dar à luz e não às trevas.
 
Luciane é hoje uma mulher que conseguiu, após uma década de processo, uma vitória judicial importante. Mas não o amor do pai nem a paz interna. A indenização, fixada inicialmente em R$ 415 mil, foi reduzida à metade. Antônio Carlos diz que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF). Se o Supremo julgar e der razão a Luciane, abrirá caminho para uma enxurrada de filhos que não se sentem amados.

Por enquanto, o abandono afetivo não é previsto em lei. Há dois projetos. Um deles propõe detenção de até seis meses para pais acusados de não dar afeto ao filho menor. O outro propõe indenizar por danos morais os filhos e os idosos sem afeto. Quantos velhos são esquecidos em asilos sem receber visita ou ouvir uma só palavra de filhos e netos?
É complicado legislar sobre o exercício do amor e suas subjetividades. Se todos decidíssemos pedir indenização por uma carência temporária ou persistente de afeto, as Varas de Justiça teriam de fechar. Não dariam conta.

O sentimento de abandono nem sempre traduz a realidade. Algumas pessoas acham que amar pressupõe um contato diário. É preciso falar todos os dias. Pessoalmente, pelo telefone ou computador. Há quem se sinta sempre abandonado, mesmo com dezenas de amigos.
O trauma é maior se quem não demonstra amor é o pai ou a mãe. A falta de afeto pode causar profundos estragos emocionais nas crianças e nos adolescentes. Alguém duvida disso, mesmo sem ser psicanalista ou psicólogo?

Para ser pai e mãe, não basta dar nome e dinheiro. Tem de acompanhar, conversar, orientar, ouvir, disciplinar, brigar, beijar, rir e chorar. Ajudar no dever de casa. Consolar, estimular. Não é nada fácil ser pai ou mãe. Todos erramos em alguma medida, por excesso ou falta de zelo. Como somos humanos, dificilmente encontraremos o equilíbrio certo para cada filho, todos diferentes entre si.

Não sei se a mãe de Luciane bloqueou o acesso do pai à filha. Muitas mulheres agem assim, por vingança e ignorância. Mas conheço um número maior de mães que se esforçam, em vão, para o pai se envolver mais na educação do filho. Há homens, separados, que acham que, para ser pai, basta almoçar uma vez por mês com os filhos, compartilhar fotos e trocar uma ideia pelo Facebook, mesmo morando na mesma cidade. Não basta.

A decisão que beneficia Luciane, nas palavras da juíza Nancy, “abre um caminho para a humanização da Justiça”. Talvez abra caminho também para injustiças. Uma indenização não muda sentimentos. Não obriga ninguém a passar a amar. Ao contrário, azeda uma aproximação futura.

Se existe algum benefício na decisão do STJ de São Paulo, é levar as famílias a uma reflexão. Já que amar é cuidar, por acaso sou omisso ou negligente com meus filhos? E com meus pais? O Dia das Mães é um bom domingo para pensar se cuidamos direito de quem mais amamos.

Revista Época - 07 de maio de 2012

sábado, 2 de junho de 2012

Vale a pena assistir - José de Alencar, o cara do Romantismo brasileiro






Um pouco sobre
 José de Alencar



Vale a pena assistir - O Guarani de José de Alencar













Vale a pena assistir - O Santo Graal

Te Contei, não ? - A demanda do Santo Graal





Novela mística, tem começo numa visão celestial de José de Arimateia e no recebimento dum pequeno livro (A Demanda do Santo Graal). José parte para Jerusalém; convive com Cristo, acompanha-lhe o martírio da Cruz, e recolhe-lhe o sangue no Santo Vaso. Deus ordena-lhe que o esconda. Tendo-o feito, morre em Sarras. O relato termina com a morte de Lancelote: seu filho, Galaaz, irá em busca do Santo Graal.
A Demanda do Santo Graal corresponde, assim, à terceira parte da trilogia. A lenda, de remotas origens célticas, foi inicialmente cantada em verso, tendo Perceval como herói. A volta de 1220, em França, por influxo clerical, opera-se a prosificação da lenda, da autoria presuntiva de Gautier Map, e então Galaaz substitui Perceval.
A lenda, até então de cunho nitidamente pagão, cristianiza-se, passando seus principais símbolos (o Vaso, a Espada, o Escudo, etc.) a assumir valor místico. Com isso, em vez de aventuras marcadas por um realismo profano, tem-se a presença da ascese, traduzida no desprezo do corpo e no culto da vida espiritual, e exercida como processo de experimentação das forças físicas e morais de cada cavaleiro no sentido da Eucaristia, fim último anelado por todos.
A Demanda do Santo Graal constitui-se, por isso, numa novela de cavalaria mística e simbólica. Os cavaleiros lutam por chegar à Comunhão sobrenatural, mas só um, Galaaz, a alcança. Homem "escolhido", dotado dum nome de ascendência bíblica (Galaad significa o "puro dos puros", o próprio Messias), simboliza um novo Cristo, ou um Cristo sempre vivo, em peregrinação mística pelo mundo. Próximos dele em grandeza física e moral, situam-se Boorz e Perceval, e mais distantes, embora com seu quinhão de glória, Lancelote, Tristão, Palamades, Erec, Galvão, Ivam, Estor, Morderet, Meraugis e outros.
Em síntese, A Demanda do Santo Graal contém o seguinte: em torno da "távola redonda", em Camelot, reino do Rei Artur, reúnem-se dezenas de cavaleiros. É véspera de Pentecostes. Chega uma donzela à Corte e procura por Lancelote do Lago. Saem ambos e vão a uma igre-ja, onde Lancelote arma Galaaz cavaleiro e regressa com Boorz a Camelot. Um escudeiro anuncia o encontro de maravilhosa espada fincada numa pedra de mármore boiando n'água. Lancelote e os outros tentam arrancá-la debalde.
Nisto Galaaz chega sem se fazer anunciar e ocupa a seeda perigosa (= cadeira perigosa) que estava reservada para o cavaleiro "escolhido": das 150 cadeiras, apenas faltava preencher uma, destinada a Tristão. Galaaz vai ao rio e arranca a espada do pedrão. A seguir, entregam-se ao torneio. Surge Tristão para ocupar o último assento vazio. Em meio ao repasto, os cavaleiros são alvoroçados e extasiados com a aérea aparição do Graal (= cálice), cuja luminosidade sobrenatural os transfigura e alimenta, posto que dure só um breve momento. Galvão sugere que todos saiam à demanda (= à procura) do Santo Graal. No dia seguinte, após ouvirem missa, partem todos, cada qual por seu lado. Daí para a frente, a narração se entrelaça, se emaranha, a fim de acompanhar as desencontradas aventuras dos cavaleiros do Rei Artur, até que, ao cabo, por perecimento ou exaustão, ficam reduzidos a um peque no número. E Galaaz, em Sarras, na plenitude do ofício religioso, tem o privilégio exclusivo de receber a presença do Santo Vaso, símbolo da Eucaristia, e, portanto, da consagração de uma vida inteira dedicada ao culto das virtudes morais, espirituais e tísicas. A novela ainda continua por algumas páginas, com a narrativa do adulterino caso amoroso de Lancelote, pai de Galaaz, e de D. Ginebra, esposa do Rei Artur.
Tudo termina com a morte deste último. Tal excrescência contém o resumo de outra novela, - A Morte do Rei Artur, ou La Mort le Roi Artu, novela Francesa do século XIII. Justificaria sua presença como apêndice da Demanda o seguinte fato: na intricada selva da matéria cavaleiresca, havia-se formado uma trilogia, intitulada Lancelote em Prosa, que continha o Lancelote, a Demanda e A Morte do Rei Artur. Parece evidente que o tradutor português, ao executar sua tarefa, teve diante dos olhos a segunda e a terceira parte do tríptico, e resolveu resumir a última, certamente por considerá-la desnecessária à compreensão do núcleo episódico e dramático da Demanda.

A Demanda corresponde precisamente à reacção da Igreja Católica contra o desvirtuamento da Cavalaria. Os cavaleiros-andantes feudais não raro acabaram por se transformar em indivíduos desocupados, quando não autênticos bandoleiros, vivendo ao sabor do acaso, amedrontando, pilhando, assaltando. A fim de trazê-los à civilização, reconvertendo-os aos bons costumes, o Concílio de Clermont, em 1095, decidiu a organização da primeira Cruzada e a correspondente formação duma cavalaria cristã. Inicia-se uma vasta pregação de ideais de altruísmo e respeito às instituições. A Demanda, cristianizando a lenda pagã do Santo Graal, colabora intimamente com o processo restaurador da Cavalaria andante: caracteriza-se por ser uma novela mística, em que se contém uma especial noção de herói antifeudal, qualificado por seu estoicismo inquebrantável e sua total ânsia da perfeição. Novela a serviço do movimento renovador do espírito cavaleiresco, em que o herói também está a serviço, não mais do senhor feudal mas de sua salvação sobrenatural, uma brisa de teolo-gismo varre-a de ponta a ponta, o que não impede, porém, a existência de circunstanciais jactos líricos e eróticos, nem algumas notas de fantástico ou mágico, em que o real e o imaginário se cruzam de modo surpreendente. Cenas de grande tensão mística contracenam com outras dum realismo vivo e quente, em que a fortaleza de ânimo dos cavaleiros é posta à prova, como, por exemplo, o episódio no castelo do Rei Brutos, em que a filha deste, enfebrecida de paixão, penetra de noite nos aposentos de Galaaz (capítulos 106-116).

Novela de alto vigor narrativo e de elevada intenção, acabou por ser o retrato definido da Idade Média mística, e o maior monumento literário que a época nos legou no campo da ficção, porquanto traduz um soberbo ideal de vida expresso de forma artisticamente superior, a ponto de alcançar um grau de perfeição estética não muito frequente na prosa do tempo.
A Demanda só foi publicada inteiramente (embora ainda com truncamentos quem sabe pro-positados, tendo em vista convicções morais do seu editor) em 1944, no Rio de Janeiro. O manuscrito que lhe serviu de base é o de n.º 2594, existente na Biblioteca Nacional de Viena da Áustria, e corresponde a uma das cópias da tradução e adaptação do original Francês, levada a efeito no século XIII, certamente refundida em fins do XIV e princípios do XV.

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo

Te Contei, não ? - Novelas de Cavalaria

 


Além de tão magnífica floração lírica, a época do Trovadorismo ainda se caracteriza pelo aparecimento e cultivo das novelas de cavalaria.

Originárias da Inglaterra ou/e da França, e de carácter tipicamente medieval, nasceram da prosificação e metamorfose das canções de gesta (poesia de temas guerreiros) estas, alargadas e desdobradas a um grau que transcendia qualquer memória individual, deixaram de ser expressas por meio de versos para o ser em prosa, e deixaram de ser cantadas para ser lidas. Dessa mudança resultaram as novelas de cavalaria, que penetraram em Portugal no século XIII, durante o reinado de Afonso III. Seu meio de circulação era a fidalguia e a realeza. Traduzidas do Francês, era natural que na tradução e cópia sofressem voluntárias e involuntárias alterações com o objectivo de aclimatá-las à realidade histórico-cultural portuguesa. Nessa época, não há notícia de qualquer novela de cavalaria autenticamente portuguesa: eram todas vertidas do Francês.

Convencionou-se dividir a matéria cavaleiresca em três ciclos:
  • ciclo bretão ou arturiano, tendo o Rei Artur e seus cavaleiros como protagonistas;
  • ciclo carolíngio em torno de Carlos Magno e os doze pares de França;
  • ciclo clássico, referente a novelas de temas Greco-latinos.
Tratando-se da Literatura Portuguesa, essa divisão não tem cabimento, pois só o ciclo arturiano deixou marcas vivas de sua passagem em Portugal. Sabe-se que os demais ciclos foram conhecidos e exerceram alguma influência, mas apenas na poesia do tempo, visto que não se conhece em vernáculo nenhuma novela de tema carolíngio ou clássico.
Sabe-se, ainda, que na biblioteca de D. Duarte (1391-1438) existiam exemplares de algumas novelas como Tristão, o Livro de Galaax, o Mago Merlim, o que revela o alto apreço em que eram tidas e a grande influência que exerceram sobre os hábitos e costumes palacianos da Idade Média portuguesa. Exceptuando o Amadis de Gaula somente permaneceram as seguintes: História de Merlim, José de Arimateia e A Demanda do Santo Graal.

A versão portuguesa da História de Merlim desapareceu novela só temos a tradução espanhola, calcada sobre a portuguesa O José de Arimateia (ms. n.0 634 da Torre do Tombo, Lisboa) foi publicado finalmente em 1967: teria sido traduzido no século XIV, mas a cópia existente foi executada no século XVI, pelo Dr. Manuel Alvares; pertence a outra trilogia. no início posta em verso e depois em prosa, formada com a História de Merlim e A Demanda do Santo Graal, precisamente as novelas que nos restaram.

Um resumo dela pode ser encontrado no Livro de Vespasiano (1496). Novela mística, tem começo numa visão celestial de José de Arimateia e no recebimento dum pequeno livro (A Demanda do Santo Graal). José parte para Jerusalém; convive com Cristo, acompanha-lhe o martírio da Cruz, e recolhe-lhe o sangue no Santo Vaso. Deus ordena-lhe que o esconda. Tendo-o feito, morre em Sarras. O relato termina com a morte de Lancelote: seu filho, Galaaz, irá em busca do Santo Graal.

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa

Te Contei, não ? - Por que o jovem não deve ler ? - Ulisses Tavares



Calma, prezado leitor, nem você leu errado, nem eu pirei de vez. Este artigo pretende isso mesmo: dar novos motivos para que os moços e moças de nosso Brasil continuem lendo apenas o suficiente para não bombar na escola.
Continuem, jovens, vendo a leitura como algo completamente estapafúrdio, irrelevante, anacrônico, e permaneçam habitando o universo ágrafo dos hedonistas incensados nos reality shows.
(Epa, acho que exagerei. Afinal, quem não lê, muito dificilmente vai conseguir compreender essa última frase. Desculpem aí, manos: eu quis dizer que os carinhas, hoje, precisam de dicionário pra entender gibi da Mônica, na onda dos sarados e popozudas que veem na telinha, e que vou dar uma força pra essa parada aí, porra.)
Explico mais ainda: é que, aproveitando o gancho do Salão do Livro InfantoJuvenil, no Parque do Ibirapuera, Sampa, pensei em escrever sobre a importância da leitura. Algo leve mas suficiente para despertar em meia dúzia de jovens o gosto pela leitura (de quê? De tudo! De jornais a livros de filosofia; de bulas de remédio a conselhos religiosos; de revistas a tratados de física quântica; de autores clássicos a paulos coelhos).
Daí aconteceram três coisas que me fizeram mudar de rumo e de ideia.
Primeiro, eu li que fizeram, alguns meses atrás, um teste de leitura com estudantes do ensino fundamental de uma dezena de países. Era para avaliar se eles entendiam de verdade o que estavam lendo. Adivinhem quem tirou o último lugar, até mesmo atrás de paizinhos miseráveis e perdidos no mapa- múndi? Acertou, bródi: o nosso Brasil.
Saída única
Logo depois, li uma notícia boa, que, na verdade, é ruim: o (des)governo de São Paulo anuncia maior número de crianças na escola, mas adotou a política da não reprovação. Traduzindo: neguinho passa de ano, sim, mas continua tecnicamente analfabeto. Porque ler sem raciocinar é como preencher um cheque sem saber quanto se tem no banco.
E, por último, li, em pesquisa publicada recentemente nos jornais, que, para 56% dos brasileiros entre 18 e 25 anos, comprar mais significa mais felicidade, pouco se importando com problemas ambientais e sociais do consumo desenfreado. Ou seja, o jovem brasileirinho gosta de comprar muitas latinhas de cerveja, mas toma todas e joga todas nas ruas ou nas estradas, sem remorso.
Viram como ler atrapalha? A gente fica sabendo de fatos que, se não soubesse, teria mais tempo para curtir o próprio umbigo numa boa, sem ficar indignado e preocupado com a situação atual de boa parte de nossa juventude.
E também faz o tico e o teco (nossos dois neurônios que ainda funcionam, já que, se dividirmos o quociente de inteligência nacional pelo número de habitantes, não deve sobrar mais que isso per capita) malharem e suarem, em vez de ficarmos admirando o crescimento do bumbum e do muque no espelho das academias de musculação.
Por isso que, num momento de desalento, decidi que de agora em diante, como escritor e professor, nunca mais vou recomendar a ninguém que leia mais, que abra livros para abrir a cabeça.
A realidade é brutal e desmentiria em seguida qualquer motivo que eu desse para um jovem tupiniquim trocar a alienação pela leitura.
Reconheço: a maioria está certa em não ler. E tem, no mínimo, cinco razões poderosas, maiores e melhores que meus frágeis argumentos ao contrário:
1. Se ler, vai querer participar como cidadão dos destinos do país. Não vale a pena o esforço. Como disse Lula (que não teve muita escola, mas sempre leu pra caramba), a juventude não gosta de política, mas os políticos adoram. Por isso que eles mandam e desmandam há séculos;
2. Se ler, vai saber que estão mentindo e matando montes de jovens todos os dias em todos os lugares do Brasil, impunemente; principalmente, porque esses jovens não percebem nem têm como saber (a não ser lendo) a tremenda cilada que é acreditar que bacana é mentir e matar também;
3. Se ler, vai acordar um dia e se perguntar que diabo é isso que anda acontecendo neste lugar, onde só ladrões, corruptos, prostitutas e ignorantes aparecem na mídia;
4. Se ler, vai ficar mais humano e, horror dos horrores, é até capaz de sentir vontade de se engajar num trabalho comunitário, voluntário e parar de ser egoísta;
5. Se ler, vai comparar opiniões, acontecimentos, impressões e emoções e acabar descobrindo que sua vida andava meio torta, meio gado feliz.
O espaço está acabando e me deu vontade de lembrar que ninguém – nem mesmo alguém que não vê utilidade na leitura – pode achar que há um belo futuro aguardando uma juventude que vai de revólver pra escola e, lá, absorve não conhecimentos mas um baseado ou uma carreirinha maneira. Sim, é outra pesquisa que li, esta dando conta de que sete entre dez estudantes brasileiros andam armados, três entre dez se drogam na escola, sete entre dez bebem regularmente.
Mas paro por aqui, já que, apesar desses tristes tempos verdes e amarelos (as cores do vômito, papito), lembro também de tantos poetas, jornalistas e escritores que, ao longo de minha vida de leitor apaixonado, me deram toques de esperança, força e fé na mudança.
De um especialmente – o poeta Thiago de Melo –, com seu verso comovido e repleto de coragem: “Faz escuro, mas eu canto!”
Talvez meu pequeno cantar sirva de guia do homem (e mulher) de amanhã. E que, lendo mais, ele/ela evite ter como única alternativa para mudar de vida dar a bunda (e a alma) ou engolir baratas (e a dignidade) diante das câmeras.
***
[Ulisses Tavares é poeta, jornalista, publicitário, roteirista de televisão e professor]

Crônica do Dia - A bomba desarmada



Depois de três anos de debates intensos no Congresso e entre grupos de produtores rurais, ambientalistas e cientistas o Brasil finamente ganhou aquilo que se convencionou chamar de “segurança jurídica” para o uso do solo. O novo Código Florestal assinado pela presidenta Dilma em 25 de maio, e que foi publicado com veto a seus pontos mais polêmicos, passa a valer imediatamente, mas, como foi editado juntamente com uma medida provisória, tem 60 dias para ser aprovado no legislativo. “Foram 12 vetos e 32 modificações, das quais 14 recuperam o texto do Senado, cinco correspondem a dispositivos novos e 13 são ajustes ou adequações de conteúdo”, resumiu o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, ao anunciar as decisões. Pelo caminho ficaram baixas na fileira ambientalistas, que queriam mais blindagem para as florestas e trabalhavam por um veto total do texto aprovado pela Câmara, e entre os ruralistas o clima também não é de festa. Dilma aparou arestas e arrancou pontas vivas que poderiam causar danos tanto à preservação ambiental como à produção rural.
Alguns dos principais pontos alterados têm relação com a extensão de áreas de proteção ao longo dos rios, manguezais e nascentes, que pelo gosto dos ruralistas não deveriam ter tratamento especial. Foram reconduzidos pelo governo a sua posição de espaços frágeis e de grande interesse ambiental. Outro ponto de honra para o governo, que já estava anunciado pela própria presidenta, é que não seriam admitidas anistias a desmatadores. O novo texto torna obrigatória a recomposição de áreas de preservação permanente (APP) de margens de rios em extensão compatível com a largura de cada rio. O texto que saiu da Câmara previa apenas 15 metros de recomposição não importando a largura do rio.
Outro ponto importante é que o texto presidencial restabelece a como fundamental para a gestão fundiária o Cadastro Ambiental Rural (CAR), onde todas as propriedades devem apresentar em seus municípios um detalhado relato de suas áreas, composições florestais e de produção, Áreas de Preservação Permanente e outros pontos de interesse. Caso isso não seja feito a propriedade não poderá receber créditos para suas atividades. Os produtores tem agora o prazo de cinco anos para se adequar à lei. Pelo texto da Câmara não havia prazo para realização do cadastro e nenhuma punição para quem não fizesse.
Apesar de aguardado com ansiedade, o veto da presidenta e a publicação da MP restabelecendo os acordos feitos quando o Código Florestal transitou no Senado podem não ser ainda o capítulo final da novela. Esse passo deu ao governo o fôlego necessário para superar o mês de junho, quando o Brasil recebe representantes de 193 países e milhares de ativistas ambientais e sociais que participarão das atividades da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, mas os próximos 60 dias devem ser de muita articulação entre governo e bancada ruralista. De um lado o governo não pode se arriscar a ter os vetos derrubados pelos deputados e, de outro, já se levanta novamente a senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura, que aponta no novo texto prejuízos para o setor produtivo. A principal articulação agora é para indicar o relator no Congresso da comissão que vai examinar os vetos.
Sob a ótica dos ambientalistas a produção rural e o agronegócio já dispõem de território suficiente para expandir sua produtividade e garantir a oferta de alimentos e de insumos para bioenergia, sem precisar avançar sobre espaços virgens ou desrespeitar as áreas de preservação. Essa vertente se apoia principalmente em alguns números como o crescimento da rentabilidade e da produtividade do agronegócio nos últimos anos. Dados do Ministério da Agricultura e da Pecuária e do IBGE mostram que em 2000 o setor exportava US$ 20,6 bilhões, em 2008 esse número chegou a US$ 69,4 bilhões e, em 2011, esse número bateu em US$ 94,59 bilhões. Os números do IBGE mostram que a colheita de 2011 foi um recorde de quase 160 milhões de toneladas, com um crescimento de 24% em rentabilidade financeira sobre 2010 e a área plantada no ano passado chegou a 48,7 milhões de hectares, com 90% da produção concentrada em soja, milho e arroz. A expectativa do IBGE para 2012 é que a produção chegue a 160,3 milhões de toneladas e que as exportações superem a barreira dos US$ 100 bilhões. E todos esses ganhos foram conseguidos dentro da vigência do Código Florestal de 1965.
Mesmo parecendo que a disputa pelo Código Florestal envolve apenas ruralistas e ambientalistas, na realidade houve muitos outros atores importantes nesse debate. A comunidade científica, representada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Associação Brasileira da Ciência (ABC), reuniu um grupo de renomados especialistas que após estudos editou uma publicação chamada “O Código Florestal e a Ciência – Contribuições para o Diálogo”, que praticamente foi ignorada durante a tramitação do texto entre os deputados federais. O atual ministro dos Esportes e antigo relator da matéria na Câmara, deputado Aldo Rebelo, costumava tratar como farinha do mesmo saco ambientalistas e cientistas. A boa notícia é que alguns dos itens apontados pelos cientistas foram atendidos pelo veto presidencial, como por exemplo a necessidade de manutenção de Áreas de Reserva legal e de Preservação Permanente.
Começa agora outra disputa, para garantir a preservação do texto do Código Florestal assim como está proposto pela Presidência da República. Afinal, a legislação federal é apenas um parâmetro para Estados e municípios, que podem também legislar sobre o tema, desde que não estabeleçam leis conflituosas com a legislação federal. Podem ser mais rigorosos, se assim quiserem.


Dal Marconces - Revista Carta Capital

Te Contei, não ? - O despertar da primavera



Se durante o regime militar (1964-1985) a democracia era a bandeira dos movimentos estudantis, hoje boa parte dos estudantes é apática às questões políticas, se dispersa em pequenos grêmios ou filia-se a entidades pouco representativas para conseguir meia-entrada em eventos culturais. No Paraná, a Secretaria de Educação está em campanha para reverter esse quadro. Até 2014, a Secretaria de Educação pretende que 100% das escolas públicas possuam um grêmio para representar os estudantes no conselho escolar. “Nosso desejo é que todas as escolas tenham grêmios efetivos. Porém, sua criação, historicamente, não é algo forçado. Nosso grande trabalho é de incentivo, de mostrar para os estudantes o quão importante é o grêmio”, explica Antônio Lopes Júnior, coordenador de gestão escolar da Secretaria de Educação do Paraná. Atualmente, apenas 44% das escolas públicas do estado possuem agremiações estudantis.
A ação de incentivo, segundo Lopes Júnior, começou moderada. Inicialmente foi realizado um levantamento do número de grêmios já existentes e, depois, a Secretaria aproximou-se dos técnicos responsáveis pelos grêmios que já trabalham em cada um dos 32 núcleos do estado do Paraná, para que eles entrassem em contato com as escolas. “A partir do próximo ano, lançaremos a campanha de incentivo nas escolas”, garante. A sensibilização envolverá, além dos alunos, professores e gestores escolares. “Muitas vezes os participantes do grêmio são vistos pela direção como aqueles alunos causadores de confusão”, conta Lopes Júnior. Por isso, a campanha paranaense envolverá toda a comunidade escolar.
Em outros estados, há estudantes que abraçam bandeiras como a redução do preço da passagem de ônibus, melhorias dentro de suas escolas, a luta contra a homofobia e até pelo direito de acesso a poesia, música e cinema. Para articular essa nova militância, jornais e panfletos andam lado a lado com a criação de eventos no Facebook e e-mails. E grande parte dessa nova leva não gosta de comparações simplistas com os movimentos estudantis das décadas de 60 e 70. É o caso de Beatriz Demasi, de 16 anos, aluna do Colégio Equipe, escola particular paulista marcada pela agitação cultural e política dos estudantes desde a década de 1970. “Acho ruim comparar. São outras pessoas, outras questões, outra época”, conta a adolescente, participante do Grêmio Pão de Milho no Colégio Equipe.
BOLACHA E PÃO DE MILHO
No Equipe, o grêmio é apartidário, horizontal (não há chapas, presidentes e eleições regulares) e não tem ligação com as grandes entidades estudantis tradicionais. Lá, desde 2009, o grêmio é uma livre associação de alunos que podem participar de qualquer reunião, sem hierarquia. Todas as quintas-feiras, depois do horário de aula, uma grande roda é feita com pelo menos 15 participantes que discutem problemas e organizam palestras e saraus enquanto comem bolachas e pão de milho.
O mesmo modelo existe na Poligremia, que reúne os grêmios de dez escolas públicas e particulares de São Paulo e -procura sair da esfera de influência de partidos e grandes organizações. Utilizando as redes sociais, desde o ano passado, os alunos já rea-lizaram um festival de curtas-metragens e, articulados com o Movimento Passe Livre, organizaram pequenos e participaram de grandes atos contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo (que passou de 2,70 para 3 reais em março de 2011). Apesar de não ter conseguido a redução da passagem, Helena Velic, de 15 anos, acha que valeu a pena. “Os atos tiveram presença de muita gente e foi importante para chamar a atenção”, opina a aluna do segundo ano do Ensino Médio e membro do grêmio da Escola Técnica Estadual Paulista.
A escola técnica em que Helena estuda também carrega certa tradição de movimentação social – em 2010, 100% dos alunos do terceiro ano anularam a prova do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar (Saresp), por não concordar com a avaliação do governo do estado.
Para o estudante de Ciências Sociais da USP, Caio Dias, de 27 anos, contudo, a despolitização marca os jovens. “As pessoas ficam pouco tempo na escola, que em geral restringe a atividade dos grêmios. O estudante não sabe que pode ser de outra forma e acha isso natural”, afirma o militante do PSTU e participante da Assembleia Nacional de Estudantes Livre, que conta ter despertado para o movimento estudantil a partir da ocupação da reitoria da USP em 2007. “A gente viu que tinha mais poder de influenciar do que imaginava.”
DESPOLITIZAÇÃO X PARTIDARISMO
Especialmente fora do âmbito da universidade, o movimento estudantil chamado de “secundarista” sempre foi puxado por duas discussões fundamentais. A primeira diz respeito aos problemas do dia a dia dos alunos. A outra se pauta em temas políticos nacionais. “O aluno comum se sente de certa forma traído pelo movimento estudantil. Não sabe exatamente o que significa pois perdeu-se um pouco a trajetória”, explica o mestre em História Social pela USP Daniel Sevillano. A partidarização que permeia muitas entidades também acaba afastando uma parcela dos estudantes. “O movimento não tem um objetivo claro para as pessoas. Deixa de defender bandeiras estudantis e passa a defender problemas diversos do País”, explica.
Para o coordenador de gestão escolar da Secretaria de Educação do Paraná, a despolitização da juventude é um dos maiores obstáculos para a efetiva participação dos grêmios nas escolas. “É uma geração diferente da minha, por exemplo, que tinha de brigar pelo que queria. Politicamente, hoje os jovens não têm tanto interesse pela participação”, analisa Lopes Júnior.
Presidente do Grêmio José Montenegro de Lima do colégio Magister, na zona sul de São Paulo, Gustavo Ferreira, de 16 anos, enfrentou resistência de colegas quando tentou organizar uma chapa para a primeira eleição de representantes discentes da escola. “Muitos consideram movimento estudantil algo subversivo, de partido de esquerda. Aqui o grêmio não tem nenhuma tendência política, defende os ideais dos alunos dentro da escola”, esclarece. Entretanto, para grande parte dos entrevistados, a discussão e a vivência política ajudaram a abrir horizontes. “Um mês de militância valeu por dois anos de escola. Lá aprendi a me expressar e a discutir”, conta Pedro Gebrim, de 17 anos, aluno do Equipe e militante do Poligremia e do MPL. “Você passa a ocupar a cidade melhor e conhece outros lugares e pessoas. Não fica mais fechado no seu mundinho de colégio particular”, acrescenta Tamara Ganhito, de 16 anos. Gabriel Ferreirinho, de 15 anos, completa: “Todo adolescente tem vontade de mudar o mundo. No grêmio, você sente que está começando essa mudança”

Revista Carta Capital

Crônica do Dia - Um minuto de silêncio para os livros de papel



Um dos assuntos que mais provoca debates acalorados hoje em dia é o futuro do mercado editorial e dos livros físicos ou e-books. Para onde está indo esse mercado? Os livros digitais vieram para ficar? Os livros físicos tendem à falibilidade? Essas e outras perguntas transitam na cabeça de editores, jornalistas, professores, de bibliotecárias e amantes da leitura em geral. E com esse texto, procuro não trazer respostas, mas polemizar ainda mais esse debate.
Como professor, posso dizer que o livro é a água que mata nossa sede de conhecimento. Os livros e seus autores são elementos que ancoram todas as discussões que provocamos no mundo acadêmico. Eles são a nossa razão de ser, e os livros digitais são tudo isso, só que digitais, e não analógicos. Os livros físicos são bonitos, são charmosos, enfeitam nossas mesinhas de centro etc. Mas os livros físicos pesam nas mochilas e nossas costas doem. Os livros físicos são combustíveis para possíveis incêndios. Os livros físicos são feitos de papel e, sob a ótica da sustentabilidade, isso não é politicamente correto. Os livros físicos ocupam milhões de metros quadrados em prateleiras de bibliotecas. Livros físicos empoeiram.
E os livros digitais? Ah, os e-books são mais fáceis de compartilhar, mais fáceis de carregar e HILLER possuem exatamente o mesmo conteúdo do livro de papel. E quem disse que um iPad não fica bonito na nossa mesinha de centro? Fica sim.
Uma informação para os saudosistas do livro de papel. Há cerca de um ano, a Borders, simplesmente a segunda maior livraria dos Estados Unidos, pediu falência. Entre os vários motivos que levaram a essa quebra está o de maior peso: a Borders subestimou os e-books e não entrou de forma efetiva nesse mercado.
Algumas pessoas falam que ler em uma tela cansa a vista por causa do brilho. Experimente ler no Kindle, da Amazon, que tem a mesma opacidade da página de papel — você não volta para o papel. Recentemente, me peguei em uma discussão com uma professora do Senac, em que eu defendia os livros digitais e ela defendia que os livros físicos são imortais. No meio da discussão perguntei a ela: “a senhora já mexeu em um iPad?”. E ela respondeu que não. Ora, fica complicado discutir e tentar contra-argumentar com uma pessoa que forma opinião sobre assuntos que desconhece.
Não conhece, não fala. Na minha opinião, os livros físicos estão, sim, com os dias contados. Assim como a TV analógica. Um minuto de silêncio, por favor.
Marcos Hiller é coordenador do MBA em Gestão de Marcas (branding) da Trevisan Escola de Negócios (@marcoshiller).
Professor, se você tem alguma experiência que quer compartilhar com outros docentes, envie-nos os detalhes no e-mail lportuguesa@criativo.art.br

Crônica do Dia - Palma de Ouro - Artur Xexéo



Em 1962, não era de conhecimento comum o sincretismo religioso que dominava a Bahia. Nem todo o Brasil sabia que Iansã e Santa Bárbara eram a mesma divindade. A gente não tratava com muita intimidade o berimbau e não tinha muita noção do que fazia um capoeirista. Talvez por isso “O pagador de promessas”, o filme de Anselmo Duarte, tenha sido tão surpreendente. É verdade que aquela história e os elementos que a compunham já tinham aparecido no teatro, três anos antes, na peça de Dias Gomes que deu origem à produção cinematográfica. Mas cinema, mesmo o de 50 anos atrás, atinge uma plateia muito superior que a do teatro. Pelo menos o cinema de sucesso. E “O pagador de promessas” foi um retumbante sucesso.

Visto hoje, o filme é tão atual que chega a causar espanto o fato de não ser mais celebrado. Mesmo no momento em que ele completa 50 anos. Na saga de Zé do Burro para cumprir sua promessa discutem-se com veemência a intolerância religiosa, a ética na imprensa, as diferenças do Brasil urbano e do Brasil rural, com argumentos que poderiam ser usados ainda hoje. “O pagador de promessas” é o mais cinemanovista dos filmes que não fizeram parte do Cinema Novo. E, para desgosto de muitos líderes do movimento,
ainda é o único filme brasileiro que, nas 65 edições do Festival de Cannes, ganhou uma Palma de Ouro. Muitos cinemanovistas chegaram perto, mas só Anselmo Duarte levou.

Dizem que a sessão principal do filme não teve uma plateia muito grande. Os convidados do festival preferiram assistir a “Divórcio à italiana”, de Pietro Germi, que foi exibido no mesmo horário. Germi era apenas um dos destaques do grupo de cineastas que concorria à Palma naquele ano. Foi mesmo um ano
extraordinário para Cannes. Para ganhar a Palma, era preciso vencer “Electra”, de Mi- chael Cacoyannis, “O processo de Joana d’Arc”, de Robert Bresson, “Um gosto de mel”, de Tony Richardson, “Os inocentes”, de Jack Clayton, “O anjo exterminador”, de Luis Buñuel, “Cleo de 5 às 7”, de Agnès Varda, “O eclipse”, de Michelangelo Antonioni, “Tempestade sobre Washington”, de Otto Preminger, “Anjo violento”, de John Frankenheimer, “Longa jornada noite adentro”, de Sidney Lumet, além da comédia de Germi. “O pagador...” era mesmo um azarão.

A lenda diz que o júri se dividiu entre “O eclipse” e “O anjo exterminador”, e que foi François Truffaut, um dos jurados, quem veio com a ideia de se premiar, então, uma terceira opção, um filme do emergente cinema do Terceiro Mundo. Pode ser. Mas não se pode negar também que “O pagador...” foi muito bem recebido, teve ótimas críticas e que todo mundo achou justo o resultado.

Eu me lembro muito bem do clima de Copa do Mundo que cercou o país com a chegada da equipe do filme. Não éramos bons só no futebol. Fazíamos bom cinema também. Ninguém podia segurar este país. Da noite para o dia, Leonardo Villar, Glória Menezes, Norma Bengell, Geraldo Del Rey viraram ídolos populares. Anselmo Duarte já era conhecidíssimo como o maior galã das chanchadas.

Cinquenta anos depois, “O pagador de promessas” continua sendo nossa única Palma de Ouro. E continua sendo um ótimo filme.

Jornal O Globo

Crônica do Dia - Morrer de amor - Regina Navarro Lins



O filme 'O Artista', que ganhou o Oscar, ainda está em cartaz nos cinemas. Conta a história de George Valentin, uma das maiores estrelas do cinema mudo na Hollywood dos anos 20, que cai no esquecimento após o surgimento do cinema falado.


O cinema foi uma invenção do final do século XIX e multiplicou as possibilidades do erotismo artístico, antes limitado à pintura e gravuras. A imagem em movimento trouxe um realismo impensável ao erotismo. Em 1910, o cinema invadiu a América e a Europa. O primeiro símbolo sexual masculino do cinema foi Rodolfo Valentino ( 1895 - 1926 ). O Sheik, misterioso personagem vivido por ele, era adorado por uma geração inteira de mulheres, que suspiravam quando o viam na tela.

Ele tinha um olhar sedutor que parecia dizer: "Te amo, te desejo". Muitos homens americanos se julgavam sheiks e beijavam a mão de suas namoradas, imitando o personagem. Mas Valentino acabou sendo visto também como uma ameaça ao homem americano. Os que se sentiam ameaçados evitavam levar suas mulheres ao cinema nos filmes dele, porque elas ignoravam seus maridos ali ao lado e ficavam extasiadas com o ídolo.

Os jornais acusaram o astro de ser bissexual e macular o bom nome de macho americano. Rodolfo Valentino morreu de úlcera aos 31 anos. E essas críticas quanto à sua orientação sexual, numa época muito preconceituosa, não impediram o suicídio de várias mulheres americanas e nem impediu que muitas outras, no mundo inteiro, derramassem lágrimas copiosas. Mais de 30 mil fãs acompanharam o funeral. Hollywood, aproveitando a publicidade, fez seu esquife percorrer todo o país, muitas vezes.

Mas o suicídio pelos ídolos não era novidade. O livro "Os sofrimentos do jovem Werther", do escritor alemão Goethe, foi lançado no século XVIII e causou furor. No final, o jovem Werther, ao saber que sua amada Lotte preferiu outro, se suicida por amor com um tiro na cabeça. Toda uma geração de jovens adultos alemães, franceses e ingleses caiu numa "febre de Werther". Menos inofensivo do que copiar os sentimentos de Werther alguns leitores acharam que tinham de seguir o infeliz heroi até o final, suicidando-se após a leitura. Para tentar evitar atitudes radicais como estas, as edições seguintes vieram com a advertência: "Seja homem e não me siga".


Regina Navarro Lins  

Crônica do Dia - Mude sua vida com positividade - Zibia Gasparetto

 

 

Há momentos na vida em que precisamos tomar decisões e temos dificuldade de descobrir o caminho melhor. É que, envolvidos emocionalmente nos fatos, nem sempre conseguimos enxergar a realidade. Vários fatores interferem, mas é fundamental analisar como você vê e interpreta os acontecimentos.

Quando um desafio aparece, a primeira reação que temos é fruto das experiências desagradáveis do passado. Elas estão em nosso subconsciente e se manifestam através do nosso instinto de defesa natural, fazendo-nos temer o pior. Reaja a essas energias. Diga a si mesmo que é uma situação nova, que tem vários lados, você vai analisá-la muito bem antes de tomar qualquer atitude.

Jogue fora todos os pensamentos negativos que surgirem, acredite que para todas as situações, existe uma boa solução. Qual é? É a que oferece a todos os envolvidos a lição que cada um precisa aprender.

Fazer isso não é de sua responsabilidade e você não tem essa pretensão. Mas está em suas mãos pedir a inspiração divina, primeiro para deixar as impressões do passado e o temor do futuro ir em embora e ter o caminho aberto para enxergar a verdade.

Depois,quando sentir que deixou de interpretar os fatos, imagine que deu um passo atrás, é outra pessoa, está do lado de fora, só observando. Então comece a analisar os acontecimentos, em seus vários aspectos, tanto os positivos como os negativos.
Aos poucos, o que lhe parecia complicado pode ter se tornado mais simples. Assim como poderá também descobrir que a solução de mandar á tempo e não será possível naquele momento. Aconteça o que acontecer, você terá uma visão clara da realidade no primeiro caso, a solução será fácil e satisfatória. Já no segundo, precisará ser paciente, fazer o que for possível e entregar o impossível nas mãos de Deus.

Você não tem o poder de mudar os outros. Mas pode mudar a maneira de relacionar-se com pessoas maldosas, com as quais não tem nenhuma afinidade, a fim de preservar sua paz. Quando elas vivem próximas de você e for difícil libertar-se, deixe de reclamar, de criticá-las, para não alimentar a ligação, e comece a não dar importância ao que fazem ou dizem.

Escreva uma carta para Deus, entregue a situação nas mãos Dele e continue agindo positivamente, não se deixando contaminar pela maldade. Peça-lhe também que lhe mostre qual a lição que precisa aprender para poder libertar-se e assine. Por alguns dias vá para um lugar sossegado, entre em seu coração, ligue-se com Deus ele ia a carta, depois, guarde-a e esqueça. Ou a pessoa passará a entrar em sintonia com você, ou se mudará para longe. Experimente e verá!

Zibia Gasparetto é escritora

Crônica do Dia - Alimentos nocivos - Frei Betto



“As crianças de todas as regiões das Américas estão sujeitas à publicidade invasiva e implacável de alimentos de baixo ou nenhum valor nutricional, ricos em gordura, açúcar ou sal”, constata pesquisa da Organização Pan-Americana da Saúde (2012).
Um dos fatores que mais influenciam maus hábitos alimentares nesta faixa etária é a publicidade de produtos de baixo valor nutritivo, como cereais matinais já adoçados, refrigerantes, doces, sorvetes, salgadinhos e fast-food. Eles ‘enchem’ a barriga e trazem sensação de saciedade — sem, no entanto, suprir as necessidades nutricionais básicas.
O mais poderoso veículo de promoção de alimentos nocivos é a TV. Expostas excessivamente a ela, as crianças tendem a querer consumir as marcas ali anunciadas. Segundo relatório do Ministério da Saúde (2008), durante um ano, no Brasil, mais de 4 mil comerciais de alimentos foram veiculados na TV e em revistas, dos quais 72% referiam-se a alimentos não saudáveis.
No Brasil, regulamentação vigente obriga colocar advertências nos comerciais de alimentos, mas a Abia, principal associação da indústria de alimentação do País, ainda se recusa a fazê-lo. A decisão final depende agora da Justiça.
É preciso que famílias e escolas se dediquem à educação nutricional das crianças. A Organização Pan-Americana da Saúde recomenda que sejam anunciados os alimentos naturais, aqueles nos quais não há adição de adoçantes, açúcar, sal ou gordura. São eles: frutas, legumes, grãos integrais, laticínios sem gordura ou com baixo teor, peixes, carnes, ovos, frutas secas, sementes e favas.
O que esperar de uma família ou escola que oferece na mesa e na cantina os mesmos produtos nocivos vendidos pelo camelô da esquina?
Escritor, autor de ‘Alfabetto: autobiografia escolar’

Resenha - A alegre sabedoria popular de um clássico do teatro brasileiro



O “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, é um dos dois únicos “clássicos” do teatro brasileiro (o outro é o “Vestido de noiva”, de Nelson Rodrigues), e o que mais montagens tem recebido desde sua memorável estreia, há pouco mais de 50 anos. Sua qualidade dramatúrgica e sua extraordinária brasilidade são fontes de permanente tentação para quem faz teatro, e seu diálogo com o público é garantido em todo o território nacional. Suassuna mescla as formas medievais do auto e da moralidade com a riqueza do folclore nordestino, com sua irônica e risonha sabedoria popular, criando um texto que diverte ao mesmo tempo em que chama a atenção para a imoralidade da corrupção.


Exagero na linha circense

Esta aparece tanto nos que têm o gozo de alguma parcela de poder (que pode ser a do pequeno patrão, como o padeiro, ou de considerável alcance, como as do padre e do bispo), comparada com o comportamento dos que o desamparo obriga a pequenos golpes a fim de poder sobreviver. João Grilo é parente do bravo soldado Schweik, como de Figaro; e se a Compadecida não consegue mandá-lo para o céu, dá-lhe ao menos uma nova oportunidade.

Há mais de 20 anos mantendo atividades regulares, com certa especialização em Suassuna, a Cia. Limite 151 está agora na Sala 1 do Teatro Fashion Mall, com uma montagem que busca ser fiel à concepção do autor, que fala da tradição do “drama” no circo. A cenografia de José Dias é simples e eficiente, com cortina, três pequenos segmentos de arquibancada e quatro lindos estandartes que evocam o local da ação, formando uma moldura justa para os coloridos figurinos de Samuel Abrantes. A música de Wagner Campos é discreta, e a luz de Aurelio de Simoni, eficiente como sempre. A direção de Sidney Cruz é razoável, mantendo a linha circense um pouco forte demais em certos momentos em que, principalmente na segunda metade da peça, é necessário um maior comprometimento com a verdade de cada um.

Um elenco de 12 atores, hoje em dia, é um ato de coragem, e, com melhor ou pior rendimento, o grupo se mantém, de modo geral, ligado à intenção do autor. Glaucia Rodrigues, naturalmente, destaca-se nas espertices de João Grilo, mas além do Chicó de Marco Pigossi, também Edmundo Lippi, Renato Peres, Bruno Ganem, Janaína Prado, Samuel de Assis, Lucci Ferreira, Luiz Machado, Jacqueline Brandão, André Frazzi e Arnaldo Marques procuram servir Suassuna. Com base em um texto excepcional, o espetáculo resulta alegre e agradável.

Barbara Heliodora / Jornal O Globo