segunda-feira, 26 de março de 2012

Te Contei, não ? As dúvidas de Oswaldo Cruz



Na virada do século XIX para o XX, o Rio de Janeiro era visto como um verdadeiro inferno pelos estrangeiros. Quente, úmida, suja e assolada por epidemias, a então capital da República assustava os poucos visitantes, que levavam de volta para a Europa uma imagem tão negativa da cidade e do país que atrapalhava a política de atração de imigrantes europeus para substituir a mão de obra escrava no campo e nas cidades. Uma ciência nascente, porém, prometia encontrar a solução para algumas das doenças que tomavam o Rio, como a peste bubônica, a febre amarela e a varíola. Era a microbiologia, que tinha no médico Oswaldo Cruz um de seus principais defensores e divulgadores. 

Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral da Saúde Pública (DGSP) em 1903 tendo como principal objetivo livrar o Rio destes males. Mas, apesar de mostrar confiança absoluta na nova ciência publicamente, sua correspondência com outros cientistas da época demonstra muitas dúvidas sobre sua eficácia e segurança, como atesta Jorge Augusto Carreta, professor de História da Universidade de Campinas e autor de tese de doutorado que analisou as cartas trocadas por Oswaldo Cruz com pesquisadores como Miguel Pereira, Vital Brazil e Francisco Fajardo. 

— Havia muita incerteza e desconfiança em torno dos produtos gerados pelas pesquisas — conta Carreta. — A correspondência de Oswaldo Cruz revela que enquanto seu discurso público era de que os incidentes relacionados às vacinas eram isolados e desimportantes, entre os cientistas eles eram encarados com grande preocupação. 

 Fajardo morreu após tomar vacina 

 Um desses incidentes envolveu o próprio Farjado. Médico e cientista de prestígio, em 6 de novembro de 1906 ele atendia a mulher do jornalista Joaquim de Lacerda quando pediu licença para se auto-vacinar, pois iria atender um doente suspeito de estar com peste bubônica. O procedimento foi acompanhado por Lacerda. Logo após voltar à consulta, Fajardo começou a passar mal, vindo a falecer horas depois. O mal súbito de Fajardo disparou o sinal de alerta na comunidade científica, entre políticos e autoridades e na própria população, que dois anos antes havia se rebelado contra as primeiras medidas de Oswaldo Cruz à frente da DGSP (a vacinação compulsória contra a varíola), episódio que ficou conhecido como a “Revolta da vacina”. — 

A morte de Fajardo alimentou ainda mais a debate em torno da nova ciência — diz Carreta. — Em Manguinhos, foi grande o mal-estar entre os pesquisadores, com briga de vaidades entre eles e acusações de má preparação do soro antipestoso usado por Fajardo. 

 A morte do colaborador e amigo deu munição aos desafetos de Oswaldo Cruz. Um dos ataques mais duros veio de Benjamin da Rocha Faria, seu ex-professor e titular da cadeira de Higiene da Faculdade de Medicina, como registra o próprio sanitarista em carta a Henrique da Rocha Lima, que estava na Alemanha: “O Rocha Faria, que prestara socorros ao Fajardo, doutrinando, como é seu hábito, exclamou: 'Veja mais esta beleza de seu Oswaldo, que anda querendo iludir a todos nós!'. A maledicência vem logo arquitetando perversidades sobre a morte de Fajardo. Ainda hoje, fervilham as mais desencontradas versões e esqueceram-se completamente de nós. De que morreu o Fajardo? Não sei. De nefrite? De choque peritoneal? Falava-se em anafilaxia. Quero apurar isto, mas ainda não ousei abordar o (Miguel) Couto, que deu como causa mortis: toxemia, sideração (aniquilação) dos centros bulbares.” 

Segundo Carreta, a imagem pública de confiança que Oswaldo Cruz procurava passar era tanto uma estratégia de autopreservação quanto fruto de sua própria personalidade. 

— Na época, a ciência não era um conhecimento neutro que se impunha só pela eficácia. Havia a interferência de diversos fatores não científicos, como projetos políticos e ambições pessoais — lembra Carreta. — Neste ponto, Oswaldo Cruz precisava se mostrar seguro do que estava fazendo e tinha uma grande vantagem: além de ser um cientista extremamente competente, ele operava nos aspectos não científicos da questão e tinha o dom da ubiquidade humanizada, atuando em diferentes espaços com diferentes interlocutores. 

 Carreta destaca ainda que Oswaldo Cruz estava preocupado em consolidar uma nova forma de fazer ciência e promover a saúde pública no país, defendendo um projeto de ensino e pesquisa que se opunha à tradição da Faculdade de Medicina, que se preocupava apenas em formar médicos. 

— Ele não podia revelar que o conhecimento em que se baseava ainda era precário e qualquer tipo de vacilo ou indecisão atrairia a ira de seus inimigos — comenta. — Oswaldo Cruz queria formar discípulos na medicina experimental, baseada em resultados empíricos, somando esse conhecimento à atuação essencialmente clínica de então, baseada na observação do doente ao pé do leito, seus sintomas e diagnóstico, um estilo que considerava infrutífero e ultrapassado. Não é que ele rejeitasse a medicina clínica, mas havia todo um projeto de prevenção e profilaxia que se chocava com a atuação do médico só após uma doença se estabelecer. Aos poucos suas ideias começaram a ser aceitas. 

 Embora o episódio da Revolta da vacina não seja citado explicitamente na correspondência entre os cientistas, ela assombrou Oswaldo Cruz e seus colegas durante muito tempo, conta Carreta. 

— A ideia da vacinação enfrentava resistência mesmo dentro da Faculdade de Medicina — diz. — No caso da revolta, porém, o momento estava relacionado não só à desconfiança quanto à microbiologia como também à maneira como se comportou a DGSP nos anos anteriores. As equipes de Oswaldo Cruzeram temidas, havia a invasão de lares e a obrigatoriedade da vacinação era vista como um atentado contra a liberdade individual. 

 Para Carreta, no entanto, é difícil que algo do tipo se repita atualmente, mesmo com o Rio enfrentando outra grande epidemia, desta vez de dengue. 

— Em um século, a consciência sobre nossos direitos mudou muito — avalia. — Hoje, se o agente de saúde tem sua entrada recusada em uma casa, ele tem que ir embora e só pode voltar com autorização judicial. Não há como forçar a entrada. A diminuição no número de incidentes e a melhoria da qualidade dos soros fez com que a nova ciência paulatinamente começasse a ser aceita. 

De simples desenho à palco da ciência 

Imagens inéditas mostram atuação de pesquisadores brasileiros no início do século XX 

 Cláudio Motta claudio.motta@oglobo.com.br 

 Onde hoje passa a Avenida Brasil, havia a Baía de Guanabara. E, antes de ser um imponente castelo — palco de produção fundamental da pesquisa brasileira —, a Fiocruz não passava de um desenho de Oswaldo Cruz, que mais lembrava os rabiscos de uma criança. As imagens que documentam a história da ciência brasileira, além da memória da cidade, estão gravadas em oito mil negativos de vidro, produzidos nas duas primeiras décadas do século XX. Este acervo, sob os cuidados da Casa de Oswaldo Cruz (COC), deverá estar disponível na internet até junho de 2013. 

 O próprio Oswaldo Cruz instalou um laboratório fotográfico, conta Paulo Elian, vice-diretor de Pesquisa, Educação e Divulgação da COC. A técnica que grava a imagem em negativos de vidro, era popular na segunda metade do século XIX, mas continuou sendo empregada mesmo depois da invenção dos negativos de base plástica. 

— O Instituto Oswaldo Cruz foi criado em 1900 e teve amplo registro fotográfico. Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto, foi quem produziu parte considerável deste acervo, que permaneceu em Manguinhos — lembra Elian. — Certamente houve alguma perda, mas, quando a COC, que é de 1986, começou o trabalho de identificação do material, localizou o conjunto de negativos de vidros, guardados com zelo pelos funcionários. 

Parte destes negativos de vidro já foi transformada em positivo. Mas há registros que sequer foram identificados. O conteúdo, inédito, mostra importantes cientistas em trabalho de campo e em laboratório, produzindo vacinas e soros. As fotos também detalham o crescimento da cidade. 

— Tem o registro da visita do Einstein, fotos de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Adolpho Lutz e outros tantos pesquisadores importantes. Há imagens das expedições científicas feitas ao interior do país. Talvez seja, no Brasil, o conteúdo mais expressivo relacionado à atividade biomédica e da saúde — exalta Elian. 

 O acesso a este material pode gerar novas pesquisas, sobretudo no campo histórico — seja do país, da fotografia ou da própria divulgação científica. É possível obter informações sobre como os sanitaristas atuavam, por exemplo, no combate à peste e à malária. 

 Mais do que imagens soltas, há informações complementares, que enriquecem a importância histórica das fotografias, ressalta Maria da Conceição Castro, chefe do departamento de arquivo e documentação da COC: 

 O desenho original do castelo, com dois pavimentos e duas torres, foi feito de próprio punho por Oswaldo Cruz e, posteriormente, adaptado por um arquiteto. O desenho é uma das preciosidades do arquivo. 

 De um conjunto de 80 mil imagens, 13 mil negativos serão digitalizados e estarão disponíveis no site www.coc.fiocruz.br.

Jornal O Globo

Crônica do Dia - Como lidar com a raiva ?




Rio - Desde muito cedo fomos ensinados que sentir raiva é errado e precisamos a todo custo erradicar esse sentimento de nossas vidas. Que o certo é engolir todas as injustiças e dar a outra face para bater. 

 Em teoria, as pessoas acham lindo, mas no momento em que somos traídos, rejeitados, preteridos, prejudicados, injustiçados, tendo nossos mais caros sentimentos machucados, torna-se difícil agir dessa forma. A indignação surge forte, trazendo ideias de confronto. 

 A lembrança do fato desagradável permanece viva, atormentando a cabeça e pensamentos dramáticos de reação violenta trazem a vontade de destruir as pessoas que nos ofenderam. 

 Partir para a violência iguala o agredido ao agressor e só pode agravar a situação. A solução não é por aí. Por outro lado, acovardar-se sufocando qualquer reação é desvalorizar-se diante do próprio conceito e sentir-se fracassado. Então, como lidar com esse sentimento? 

 É preciso entender que a raiva é a manifestação da força do nosso espírito. Aparece sempre que os valores mais profundos da nossa alma sejam desrespeitados e tem a função de defender nossa dignidade. É uma energia de força que precisa ser utilizada em favor do nosso progresso. Não dá para ignorá-la, mas é preciso saber usá-la. 

 A indignação justa é sempre útil se usada com inteligência. Ela faz a diferença e tem transformado pessoas comuns em heróis que romperam o atraso e contribuíram para o progresso da humanidade. Se você está se sentindo injuriado, faça o mesmo. 

 Saia da posição de vítima, utilize a força da raiva para dar a volta por cima e progredir na vida. Essa será a melhor vitória! Ao mesmo tempo, será útil rever sua maneira de lidar com as pessoas. Não esperar obter mais do que elas têm a capacidade de oferecer é evitar iludir-se. A ilusão atrai a verdade e a verdade revela seus pontos fracos, que precisam ser melhorados. Não se culpe. Fique do seu lado, coloque-se em primeiro lugar. Mude seu enfoque, dê prioridade ao seu espírito. Ele é uma força viva da essência divina e tem o poder de comandar a matéria. 

 O corpo se dissolve quando ele o abandona. Tenha consciência do poder do seu espírito, permita que ele se expresse em toda sua plenitude. 

 Como fazer? O sentir é a linguagem do espírito. Entre no seu coração e sinta o que seu espírito quer. Seja verdadeiro, respeite seus sentimentos e permitirá que o seu espírito se expresse. Creia que tem o apoio divino e foi preparado para ter sucesso em todas as áreas de sua vida. Não perca tempo, comece agora! Experimente e verá! 

 Zibia Gasparetto é escritora espiritualista

Te Contei, não ? - Fique de olho nos óculos de sol: falsificados fazem mal



Não importa a estação: os cuidados com os olhos devem ser mantidos em qualquer época do ano — faça chuva ou faça sol. O maior inimigo da visão é a radiação ultravioleta (UVA e UVB). Para evitar os riscos, só mesmo usando óculos de sol. Mas não vale aqueles comprados no camelô: as lentes escuras precisam ter qualidade para impedir que a radiação entre nos olhos. Caso contrário, os danos podem ser até maiores do que os sofridos por quem não usa óculos nunca. 

 “As lentes escurecidas fazem com que a pupila se dilate, já que supostamente melhoram a visão. Isso aumenta a penetração dos raios solares nos olhos, se as lentes não contarem com proteção. Essa radiação aumenta o risco de doenças”, diz o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, em São Paulo. 

 Alguns problemas causados pelos raios solares podem ser sentidos imediatamente, como queimadura das pálpebras, o que eleva o risco de câncer de pele na região. Além disso, pode ocorrer a fotoceratite — inflamação da córnea que ocorre após seis horas ininterruptas de exposição dos olhos ao sol cujos sintomas são vermelhidão, ressecamento e sensação de areia na vista. 

 O jogador de futebol André Oliveira, 18 anos, concorda. Apesar de não se incomodar de comprar óculos de camelô, ele acredita que uma boa lente faz diferença. “Quando os óculos são bons, você sente a vista descansar. Os óculos de camelô às vezes incomodam”, diz. 

 “A pessoa que se expõe ao sol sem se proteger pode ter muitos problemas a longo prazo”, alerta Leôncio. Os principais são catarata senil e degeneração macular (perda de visão no centro do campo de visão). “A falta de proteção aumenta em 60% a chance de o problema surgir precocemente. Bonés também ajudam a proteger a vista”, ensina. 

 Segundo o especialista, é preciso estar muito atento na hora de escolher óculos: nem sempre preço alto é garantia de qualidade. Por isso, é preciso ficar de olho no produto escolhido.“É preciso levar os óculos ao oftalmologista, que tem equipamento que mede a eficácia das lentes”, diz.  

Tire suas dúvidas sobre fotoproteção dos olhos 

Quais os óculos de sol mais adequados?

 Eles devem ter lentes com 100% de proteção UV. São mais caros que os vendidos no mercado paralelo, porque as lentes passam por controle de qualidade e recebem resinas incolores e/ou tonalizantes que, além da radiação UV, absorvem parte da luz azul que provoca doenças oculares. 

Como posso garantir que estou usando par de óculos de qualidade? 

A forma mais segura de garantir a qualidade das lentes é verificar se têm a certificação NBR ISO 15111. 

 Usar óculos ruins é pior do que não usar nada? 

Sim. Lentes sem proteção são piores do que não usar os óculos de sol. A lente escura provoca a dilatação da pupila e permite a penetração de uma maior quantidade de radiação nos olhos, o que leva a danos. 

 Óculos grandes protegem mais do sol? 

Protegem, pois criam uma barreira física que evita a degeneração da pele. Não podemos nos esquecer que as pálpebras são mecanismos de defesa aos olhos, e elas podem ser alvo de cancêr de pele. 

 Que óculos devo usar no dia a dia? E quando está nublado? 

Para o dia a dia, as melhores cores são: âmbar, marrom e cinza, que permitem boa visão de contraste e profundidade, além de reduzirem reflexos. Para dirigir em dias nublados, lentes cinza são as ideais por permitirem melhor visão de contraste. No entardecer, lentes amarelas reduzem o ofuscamento provocados pela luz dos faróis. 

 O uso de filtro solar na região dos olhos pode causar problemas? 

A forma mais segura de proteger simultaneamente a pele e a visão é usar filtros solares que refletem a radiação, em vez de filtros químicos, que a absorvem. A dica é verificar se a fórmula contém somente óxido de zinco e dióxido de titânio, que caracterizam o bloqueador físico. Como têm PH neutro, evitam irritações oculares.  

Fonte: O Dia

Te Contei, não ? - Negro na propaganda, morô?



Há nas redes sociais quem estranhe que a nova cara das Óticas do Povo seja a modelo e atriz Fernanda Lima, a bela loura gaúcha de 34 anos. É que a cadeia popular de venda de óculos era mais conhecida no meio publicitário por ter garotos-propagandas negros, como Grande Otelo, Cosme dos Santos e Jair Rodrigues, que popularizaram o bordão “Óticas do Povo, morô?” 

 A mudança ocorre justamente numa hora em que a empresa, preferida da classe C, com mais de 90 lojas no país, tenta reposicionar sua marca para alcançar outras classes sociais. Mas o empresário Manoel Carlos Pessanha, de 67 anos, diz que a escolha foi feita intuitivamente — e que sempre, desde a fundação da empresa, há 35 anos, andou na contramão da publicidade: 

 — Numa época em que não existia negro na TV, chamei o Grande Otelo. Um ícone, uma lenda que representava o povo brasileiro e atendia às classes menos favorecidas. Mas acho que o Brasil acolhe todas as raças e pessoas. Já tivemos também a Regina Duarte e a Paloma Duarte. Agora, que há vários negros na TV, escolhi Fernanda Lima. Acho que ela passa credibilidade, é carismática, é família e atinge, sobretudo, os jovens. 

 Um pouco de história

 Não faz muito, as Óticas do Povo eram quase exemplo isolado de empresa brasileira que usava negro em seus anúncios. Nos últimos anos, a propaganda tem refletido um pouco mais a diversidade racial brasileira. 

 O músico e ator Toni Garrido, negro, acha que a juventude afro-brasileira está com a autoestima tão em alta que é impossível o mercado ignorar. “Está longe do ideal. Mas está melhor, me sinto mais bem acompanhado”, diz ele, que tem feito muitos anúncios (Guaraná Antártica, Havaianas, Olympikus, iG, Vivo e Coca-Cola). 

 Na verdade, não há muitos estudos sobre o negro na publicidade brasileira. Pesquisa feita durante 20 anos (1985-2005) pelo professor Carlos Augusto Martins, mestre em comunicação pela USP, concluiu que os brancos interpretam todos os tipos de personagens, mas poucos negros conseguem fugir de cinco estereótipos na publicidade na TV (trabalhador braçal, por exemplo). Ainda assim, a pesquisa mostra evolução. Em 1985, havia 3% de anúncios com negros. Em 2005, este percentual subiu para 13%. De qualquer forma, lembra Martins, “é muito pouco se a gente pensar na realidade populacional do Brasil”.

Ana Claudia Guimarães / 
Jornal O Globo 

Te Contei, não ? - Um passado que a cidade não conhece



RIO - Quatro canhões de ferro fundido, que teriam permanecidos três séculos enterrados na Zona Portuária, foram encontrados por arqueólogos e operários da Secretaria municipal de Obras em fevereiro e este mês na Rua Sacadura Cabral, na altura do Largo de São Francisco da Prainha, durante obras da prefeitura na região. A descoberta, que remete ao tempo em que o bairro da Saúde tinha uma praia, intrigou historiadores e estudiosos da área de patrimônio. Qual seria a origem dessas peças de artilharia, já que não há referência em documentos e livros à presença de qualquer forte naquele lugar no começo do século XVII? 

Segundo especialistas, na área só havia registro da existência da Bateria da Prainha (construída após a invasão francesa, em 1711), situada onde hoje está o Edifício A Noite, na Praça Mauá. Local onde, em janeiro, foi descoberto um outro canhão. Com isso, a cidade reencontrou cinco relíquias. 

Assim que os dois primeiros canhões foram achados durante obras de revitalização da Zona Portuária, em 13 de fevereiro, a arqueóloga Tânia Andrade Lima, que acompanha as escavações, ficou surpresa, pois só esperava encontrar por ali peças do século XIX, relacionadas à vida cotidiana e às áreas de trabalho nos trapiches, além de objetos ligados a escravos. Para tentar esclarecer a presença dos canhões, ela pediu ajuda a um especialista em fortificações e armas, o historiador e pesquisador do Iphan Adler Homero Fonseca de Castro. Onze dias depois, outro canhão foi encontrado numa área bem próxima. E, no dia 8 deste mês, um quarto exemplar foi desenterrado. 

Numa primeira análise, Adler identificou as peças como canhões de estilo inglês, de um período entre os séculos XVI e XVII. Uma das hipóteses que ele investiga é a da existência de uma bateria na região, já que havia quatro canhões juntos: 

— Ainda preciso fazer nova análise para determinar a datação correta. Mas essa descoberta abriu uma linha de pesquisa para quem estuda a urbanização do Rio, pois, pelos registros históricos, naquela região não havia nada no começo do século XVII. A cidade surgiu entre o Morro do Castelo e o de São Bento. Aquela região está fora da cidade antiga. Se havia ca$ões ali, e até uma bateria, é sinal de que havia algo que merecia ser protegido. Ou armazéns ou um local de desembarque. 

Para o pesquisador, os canhões podem ter sido jogados ao mar depois de desativados. A tese do descarte é compartilhada por Tânia. Ela conta que os canhões foram localizados abaixo dos trapiches do século XIX e que eles estavam com a boca voltada para o continente, o que indica que não foram achados na posição de uso. 

— Naquela época, o mar era a grande lixeira da cidade — diz Tânia, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da UFRJ. 

O subsecretário de Patrimônio Cultural, Washington Fajardo, acredita que os canhões podem ter sido usados numa artilharia secundária de defesa da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição: 

— A descoberta confirma o que mostram mapas e documentos históricos: havia baterias na Prainha. O Morro da Conceição era então encimado pela Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição. Mas havia no sopé do morro baterias militares. 

O historiador Nireu Cavalcanti diz que, até que se determine com exatidão de que período são os canhões, muitas poderão ser as hipóteses: 

— Se forem do século XVIII, podem, por exemplo, ter sido de algum navio que soçobrou na região. Muitos navios usavam $ões para se defender. 

Há, ainda, a possibilidade de os canhões serem de uma data e a bateria de outra, já que, como se tratava de armamento caro, era comum as peças serem reutilizadas. Ou seja: podem ser canhões do século XVII que foram usados numa fortificação construída no século XVIII. 

Sobre a origem do canhão encontrado na Praça Mauá, nas escavações das obras do Porto Maravilha, a hipótese mais provável, segundo um relatório da arqueóloga Erika Marion Robrahn-González, é que seja do século XVIII, "por causa do comprimento de dois metros, já que os canhões do século XIX são mais curtos". De acordo com a arqueóloga, a peça pode ter sido usada na Bateria Prainha da Marinha, localizada no entorno da Praça Mauá e que dava apoio de fogo ao Morro da Conceição. 

Para a superintendente do Iphan no Rio, Cristina Lodi, essas e outras descobertas arqueológicas na Zona Portuária têm o efeito positivo de divulgar a riqueza histórica da cidade: 

— Esses achados estão evidenciando um passado da cidade que era desconhecido. Estava tudo embaixo da terra adormecido, para que pudéssemos tornar visível e transformar em conhecimento esse pedaço da história da cidade. Esse passado faz com que a gente entenda aonde estamos chegando — analisa. 

Jornal O Globo

Te Contei, não ? - Exercício para vista cansada




TEL AVIV, Israel — Os olhos se esforçam, a testa se enruga, mas as letrinhas do jornal continuam embaçadas. A luz não parece ser suficiente, mesmo acendendo as lâmpadas da sala. Você sente uma leve dor de cabeça e afasta a página do rosto, na esperança de conseguir mais foco. Não tem jeito. Trata-se de um caso certeiro de presbiopia ou, simplesmente, vista cansada, na linguagem popular. Mas, segundo uma pesquisa inovadora, em vez de tolerar o desconforto da condição, é possível superar ou pelo menos minimizar o problema por meio de exercícios visuais desenvolvidos especialmente para quem está cansado de gastar dinheiro e carregar constantemente na bolsa óculos de leitura ou bifocais. 
A presbiopia, palavra que vem do grego “olho envelhecendo”, é a degeneração da visão de curto alcance que acontece naturalmente com a idade. O motivo é a perda da elasticidade na lente do olho, o cristalino, o que dificulta focar em objetos próximos. Esta lente precisa mudar de comprimento e de formato toda vez que o olho mira em algo diferente. E é esta flexibilidade que se perde com o tempo.
Segundo especialistas, a condição afeta nada menos do que 80% das pessoas com mais de 42 anos e 99% com mais de 51. Há quem sustente, no entanto, que a anomalia tem começado cada vez mais cedo. Muitos reclamam da vista cansada aos 35 anos. A vida moderna, com a multiplicação de gadgets, computadores, games, iPads e iPhones, pode estar na raiz do problema. 
— O olho humano não é projetado para durar 80, 90 anos, principalmente se fica se esforçando para ler em telas de computador que, mesmo modernas, têm resolução ainda baixa demais — diz o professor Uri Polat, especialista em doenças visuais da Universidade de Tel Aviv. — Não há cura para essa deterioração, mas é possível treinar o cérebro para compensar esse problema. 
Para provar sua teoria, Polat conduziu, entre 2010 e 2011, uma experiência nos laboratórios da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que pode devolver as esperanças de uma visão mais certeira por mais tempo. Ele e o colega americano Dennis Levi reuniram 30 voluntários com idade média de 51 anos (entre 40 a 60 anos) que sofrem de vista cansada e as fez praticarem o que chamaram de “treinamento perceptivo”. Por três meses, os participantes do estudo realizaram exercícios visuais específicos pelo menos três vezes por semana, por 30 minutos em cada uma das sessões. 
Os exercícios consistiam em olhar para a tela de um computador e perceber o momento em que apareciam os chamados “padrões Gabor”, pequenos desenhos quadrados, em preto e branco, considerados básicos para o sistema visual. Os participantes tinham que olhar fixamente para a tela e discernir o momento em que um desses padrões — que simulam a sensação de profundidade através do contraste entre o preto e o branco — aparecia. Com o tempo, os exercícios se tornavam mais complexos, com diversos padrões aparecendo simultaneamente, sempre por fracções de segundo. Segundo os pesquisadores, o esforço visual para a percepção dos desenhos estimula o córtex visual, a área do cérebro especializada no processamento de imagens. Com o tempo, o cérebro aprende a focar nos padrões com mais clareza e rapidez. 
Ao final de três meses de trabalho, Polat comparou a visão dos participantes com a de sete jovens com visão perfeita e três adultos com presbiopia que não praticaram os exercícios. Os resultados, publicados na revista especializada “Scientific Reports”, foram surpreendentes: todos os 30 voluntários passaram a ler de perto perfeitamente, sem a ajuda de óculos bifocais, alguns deles na mesma rapidez dos jovens. Os três adultos que não se exercitaram, por sua vez, apresentaram piora na visão de curto alcance. 
Segundo Polat, a melhora não aconteceu por causa de uma “cura” na performance do olho, mas sim da possibilidade que o cérebro tem de manter plasticidade suficiente para superar a deterioração biológica natural. Na verdade, é o cérebro que aprende a decodificar melhor a imagem que recebe, mesmo que borrada. 
— A visão não acontece no olho, e, sim, no cérebro — explica Polat. — O olho captura a luz e a transmite para que ele a decodifique e processe as imagens. O que podemos fazer é ensinar o cérebro a compensar, contrabalançar, o enrijecimento do cristalino. Não há limite de idade para ensinar algo novo ao cérebro. 
Ele salienta, no entanto, que idosos podem sofrer com outros problemas de visão com a idade, como catarata e glaucoma, que não podem ser melhorados dessa forma. 
Para provar que seu método atua sobre o cérebro e não sobre a fisiologia do olho, Polat pediu a assistência do renomado optometrista americano Clifton Schor, que constatou que, ao fim da experiência, não houve nenhuma mudança física nos olhos dos participantes. A melhoria na sua capacidade de leitura se deveu apenas a um aumento no ritmo de processamento de imagens no cérebro, aliado a uma maior sensibilidade dos neurônios. 
Polat está desenvolvendo um software para ajudar o público a exercitar o cérebro e superar a vista cansada. A previsão é que o primeiro produto, o aplicativo GlassesOff, criado para smartphones, seja lançado nos próximos meses. Com o auxílio do programa, pessoas com presbiopia poderão se exercitar três vezes por semana, onde quer que estejam. E poderão abandonar os óculos. 
— As pessoas vão até ler mais rápido, numa média de 12 palavras a mais por minuto. Isso significa que quem se exercitar poderá terminar de ler um texto de duas mil palavras, sem óculos, nove minutos antes do que era capaz anteriormente — profetiza o CEO da empresa, Nimrod Madar. 

Jornal O Globo

domingo, 25 de março de 2012

Crônica do Dia - Até as pedras sabem




RUTH DE AQUINO  

 O bom-senso venceu. Apenas por um voto: 6 a 5. O Supremo Tribunal Federal correspondeu ao anseio geral pela transparência. Temia-se uma decisão que pudesse favorecer juízes acusados de desvio de conduta. A questão parecia simples, mas era capciosa. Pode o Conselho Nacional de Justiça abrir investigação contra juízes suspeitos de corrupção, abuso de poder, fraude, mau uso de verba pública? Ou só as corregedorias estaduais podem iniciar o processo? 
A estrela da votação foi o ministro Gilmar Mendes. A sociedade já divergiu dele em vários momentos. Mendes foi contra a aplicação da Ficha Limpa na última eleição. Mas seu argumento contra a impunidade na quinta-feira foi o mais pé no chão. “Até as pedras sabem que as corregedorias não funcionam quando se cuida de investigar os próprios pares. Jornalistas e jornaleiros dizem isso toda hora”, afirmou Mendes. É uma declaração sensata que reforça a independência do CNJ. 
Essa é uma briga que vai deixar feridos. O presidente do STF, Cezar Peluso, tinha feito na véspera um brado retumbante. Peluso parecia um arauto do fim do mundo com seu alerta contra o suicídio da nação. Para ele, “o processo de degradação do Judiciário” seria “um caminho nefasto” que “aniquilaria a segurança jurídica” e “significaria um retorno à massa informe da barbárie”. 
É muita palavra longa, pesada e barroca. Dá manchete de jornal, mas não convence milhões de brasileiros. Peluso negou qualquer crise no Judiciário e afirmou que o Poder é “transparente, controlado e tem o dever de enfrentar pressões do autoritarismo”. 
Até as pedras sabem que era um discurso contra o poder do CNJ e da corregedora e ministra Eliana Calmon. Ela dissera algo explosivo, mas de senso tão comum que se ouve até em roda de samba: existem “bandidos escondidos atrás da toga” e há manobras para esvaziar investigações independentes e livrá-los de processo. Não é um ataque pessoal nem suicida. Há bandidos vestidos de tudo que é jeito no Brasil. Piora quando eles se acham acima do bem e do mal. Por que não haveria os bandidos de capa preta e canudo universitário, com domínio das letras e das leis? 
Pelo rebuliço que provocou, Eliana virou símbolo de moralização para a plebe. E persona non grata para associações de magistrados e juízes. Abriu-se uma investigação contra ela. Foi acusada de quebra ilegal de sigilo de juízes e servidores. Na última terça-feira, foi arquivado o pedido de investigação contra Eliana. E a OAB, com 300 na plateia, pediu a preservação dos poderes do CNJ. 
O STF votou outra questão contra o corporativismo: todas as sessões do CNJ serão abertas. A Associação dos Magistrados (AMB) queria manter a portas fechadas os julgamentos de juízes. “Esse tipo de processo era das catacumbas. Isso é próprio de ditadura, não é próprio de democracia”, disse Carmen Lúcia, ministra do STF. 
O voto do STF não basta para moralizar a Justiça, mas atende ao anseio da população por transparência Até as pedras sabem que o voto do STF não basta para moralizar o Judiciário. O Tribunal de Justiça de São Paulo começa a julgar nesta semana 29 magistrados que receberam pagamentos polpudos, às vezes superiores até a R$ 1 milhão, sem registro nos contracheques. Até as pedras sabem quem correu para apoiar Peluso, em vão. Primeiro, sua turma no STF: Marco Aurélio Mello e Luiz Fux, que votam sempre em uníssono. E, fora do Judiciário, o vice-presidente, Michel Temer, o presidente da Câmara, Marco Maia, e o presidente do Senado, José Sarney. Todos eles sempre acharam que devem ser julgados por seus pares. Há um pânico da “subversão” que cobra moralidade, legalidade e fim de mordomias nos Três Poderes. Sarney disse que “ataques e contestações ao STF visam ao enfraquecimento da autoridade”. O presidente vitalício do Senado anda de mal com o Brasil. Sente-se injustiçado. Acha que o país não prestigia os velhos homens públicos como ele, que dedicaram a vida à política e sempre estiveram de bem com quem manda. 
Até as pedras sabem que não é normal um governo perder em seu primeiro ano sete ministros acusados de irregularidades, favorecimentos, desvios de verba, incompetência e abuso de poder. Todos herdados do ex-presidente Lula. O último, Mário Negromonte, das Cidades, se dizia “mais firme do que as pirâmides do Egito”, mas ele não devia estar acompanhando o noticiário nas ruas e nos estádios do Egito. Caiu, ruiu, desabou. Até as pedras sabem, hoje, que esses ministros só podiam estar blindados por Lula – até cair no colo menos maternal de Dilma. Não é uma caça às bruxas, mas uma faxina ética. Eficiência e imparcialidade nos julgamentos de juízes, ministros e congressistas, todos servidores públicos, não têm como degradar o Poder. Servem para legitimar o Poder. Até as pedras sabem disso.

Te contei, não ? - Ler não serve pra nada !!!!



Redassão, um ato de excrever.
Como eu vejo este problema? Eu não vejo. Num tá com nada quem andou espa-lhando por aí que nós não temos o hábito de leitura. A gente não tem hábito por causa que ninguém escreve pros jovens. Uma vez em 1977 eu entrei numa livraria  e só tinha livro pra adulto e pra criança. Aí eu pedi um livro para mim e o vendedor trouxe um, dum cara chamado Robson Cruzeiro que morava numa ilha deserta e teve um caso com um índio. Aí eu disse pro vendedor: escuta meu irmão, isso não tem nada a ver, eu moro na Barata Ribeiro e não tem índio em Copacabana.
Acho que os jovens e os livros transaram um encontro errado: os jovens foram prum lado e os livros pro outro. Mas os adultos é que devem responder a essa pergunta. Se vocês, caras, que são adultos não sabem, se soubessem não tavam perguntando, que dirá eu que nunca li nem um livro de cheque. Aliás, tô achando esse tema muito devagar. Livro num tá com nada. Meu avô me disse que o mundo era muito melhor quando não havia livros. Os astecas nunca leram um livro fizeram uma civilização porreta. Os incas também nunca entraram numa livraria. Deviam mais era pegar esses caras que se metem a escrever livros e jogar na lavoura. Se por cada página de livro fosse plantado um pé de tomate tava resolvido o problema da fome. Depois que todo mundo acabasse de comer aí então a gente ia fazer a digestão lendo um livrinho que pode ser, deixa ver se me lembro de algum? Ah, sim, podia ser o Livro de Ouro da minha avó.
Acho também que a falta de hábito de leitura é por causa que ler não é fácil. Ler é uma transa muito complicada. Tanto é, que no Brasil tem mais de 50 milhões de pessoas que não sabem ler. A gente tinha que mudar esse alfabeto. Fazer umas letras e umas palavras que o analfabeto também pudesse entender. Esse alfabeto é muito careta, antigão e quadrado. O mundo mudou muito nestas últimas décadas só o alfabeto continua o mesmo. Eu não agento mais. A televisão que começou muito depois do livro tá mandando ver. Há dez anos que a gente já tem tevê a cores. O livro continua em preto e branco. A gente abre, é aquela coisa monótona, as páginas brancas e as letrinhas pretas. Só a capa é que é bonita. Por isso eu só gosto de ler capa de livro. Acho que os jovens iam ler mais se os livros só tivessem capa.
Carlos Eduardo Novaes 
Em Democracia à vista. 
Rio de Janeiro.
 Nórdica. 1981.



Produza um texto , em prosa, com mínimo de 35 linhas, posicionando - se a respeito do assunto do texto acima .

Te Contei, não ? - Como ensinar Literatura




Vocês perdoem, por favor, o título pretensioso. Por isso, corrijo um pouco. Deveria ter escrito “Como ensinar literatura para alunos colegiais”. Mas isso ainda é muito.  Então esclareço desde já: tentarei escrever alguma coisa sobre a minha experiência com literatura para estudantes. E passo a anotar duas ou três coisas.
Em minhas – na falta de melhor nome – aulas, a primeira coisa que aprendi foi que não se deve falar de literatura como um produto que sai dos livros. Deixe-se isso para os professores de cursinhos, que pensam ensinar enquanto põem o pobre do estudante a decorar nomes, datas, movimentos e obras principais. Isso não é literatura, não serve à literatura, nem serve ao conhecimento. Serve a um sistema estéril e formador de burros. Não se deve jamais falar de literatura com esse nome cheio de pompa e reverência, A Literatura. Fale-se da vida, dos problemas vividos por todos nós, velhos, jovens, crianças, homens, mulheres, animais e gente. Se não for assim, será mais pedagógico contar anedotas da tradução popular de Bocage e de Camões, em lugar dos livros desses excelentes poetas.
Só se deve falar sobre aquilo que apaixona a gente. Por favor, se o professor não descobriu a lírica de Camões, se não maturou no peito Manuel Bandeira, se não vê a beleza de Ascenso Ferreira, se não é capaz de curtir e amar Machado de Assis, se não se emociona até as lágrimas com Lima Barreto, por favor, mantenha distância desses criadores. O silêncio sobre eles fará um dano menor que a citação burocrática. Melhor para o mestre seria cantar Roberto Carlos, equilibrar mesas na ponta do nariz, imitar cornetas com um pente sobre a boca, fazer graça com arrotos cavalares. Seria mais pedagógico.
Um autor deve ser apresentado a partir de um problema, vivido por todos nós. Ora, se querem saber, nada como o conto “Missa do Galo”, de Machado, para todos os adolescentes. Eles entenderão até a última linha, vírgula e pontinho das reticências. Eles vão respirar todos os movimentos implícitos e insinuados da conversa da mulher solitária com um jovem. Eles são esse jovem. Eles sonham com essa noite ideal em que os espere uma senhora sozinha. Elas compreendem esse jovem e essa mulher. O conto tem todos os elementos de promessa de sexo e conflito com o pecado antes de uma missa devota.
Os contos, quando lidos, devem ser muito bem lidos. Quero dizer, com pausas, entonações, vozes, risos, pulos – o que o diabo achar necessário – como um ator de rádio. Isso quer dizer que o professor comanda a narração, faz uma leitura prévia, e pede para que ela continue em volta. Digo que começa com o professor porque nas escolas se perdeu o necessário e fundamental hábito de leitura em voz alta, todos os dias. Então é comum que um jovem estudante não saiba o valor de um ponto, de uma exclamação, de uma vírgula, de uma pausa – o valor ponderado de uma palavraem determinado contexto. Comopoderão entender a maravilha de Manuel Bandeira, na infância com o coração a bater, se não souberem que a moça nua lhe fez o primeiro… ALUMBRAMENTO?
Mas entendam, a dramatização dos textos nada tem de dramático. Quero dizer, nada é artifício, artificioso, operístico, melodramático, falso. Ou se fala do que se conhece e do que se vive ou não se fala. Ponto. Deve-se falar do amor, sempre. E nisso não vai nenhum romantismo. Deve-se falar do amor, sempre, porque toda obra é a sua busca ou a sua negação, a sua falta ou plenitude. Mesmo quando se fale da guerra, da violência mais brutal, não se pode esquecer que os meninos no tráfico, por exemplo, amolecem como flores diante de suas mães. Que o bandido mais cruel é capaz de virar o mais perfeito idiota ante a mulher – ou o homem – por quem tenha amor.
Apesar de até aqui ter falado de minha própria experiência, devo terminar com duas coisas ainda mais pessoais. Primeira: não consigo até hoje falar de Andersen com profissionalismo, isenção e distância, quando me refiro ao conto “A pequena vendedora de fósforos”. Aquela trajetória da pequena menina que sai a vender fósforos em uma véspera de Ano Bom, nas ruas geladas de uma cidade, que vislumbra pelo vidro embaciado das janelas a ceia posta nas casas burguesas e com profunda fome fica encantada… sei não. E me fere mais, e aí não consigo ir adiante, quando Andersen realiza aquela imagem extraordinária: enregelada, morta, a pequena vendedora sobe “em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo”. Esse é um conto que por várias vezes tentei ler em voz alta, em aulas de português para adolescentes pobres, e por mais de uma vez não consegui. Eu lhes dizia: “adiante”, e me virava para a lousa.
Segunda. Certa vez, li para alunos com idades em torno de 11 anos o meu conto Daniel. Claro, expurguei os termos mais fortes, chulos, grosseiros. Quando eu li
“Da turma, Daniel era o mais gordo. Ainda que sob protestos, ele crescera pelos lados, elastecendo um círculo de carnes. Em seu rosto largo destacavam-se sobrancelhas peludas, que se uniam simetricamente num ponto de inflexão, ficando a sobrancelha esquerda e a sobrancelha direita ligadas como asas dum pássaro, movendo-se no espaço da fronte”,
na sala não se ouvia um só riso, apenas respirações ofegantes. Então eu ia para o quadro e desenhava as sobrancelhas, à Monteiro Lobato, para eles verem. Depois, já ao fim, quando acrescentava que Daniel raspara aqui e ali o seu estigma, e que “a cirurgia dera nascimento a dois pontos de interrogação deitados, quase dois acentos circunflexos incompletos, sem acomodação”, voltava ao quadro para desenhar os dois pequenos ganchos que ficaram no lugar das sobrancelhas do personagem.
O melhor digo agora no fim. Vocês não vão acreditar no lirismo de que é capaz a infância. Os meninos rebatizaram o conto.Em lugar de Daniel, eles me pediam sempre para ouvir, de novo, “O menino-passarinho”.
***
Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Tá na Hora do Poeta - Buracos - Gabriel Martins Pires Figueiredo



Buracos

De dentro do carro
Das janelas de minha casa
Percebo que na rua tem algo errado.

Os carros passam
Fazem barulhos
Ou desviam sem atenção
Na rua, sempre uma reclamação
Para os motoristas, aquilo não é chão.

O nome é espacial
O nome tem cheiro de queijo
Já não estamos mais na Terra
O tal "chão" não existe
O que dizem é a Lua
Que com qualquer chuvinha
Já dá uma grande inundação.

O tal chamado quebra - mola
Não precisa mais não
Porque na Lua o quebra - mola
É dentro do chão.

O pior de tudo é que se na Lua estivéssemos
Estaria bem,
Mas, pessoal, aqui a Lua não é,
Nós estamos em Macaé.


Gabriel Martins Pires Figueiredo
Turma 702 / Colégio Ativo / 702

sábado, 24 de março de 2012

Se liga na canção - Todo camburão tem um pouco de Navio Negreiro - Marcelo Yuka




Tudo começou quando a gente conversava
Naquela esquina alí
De frente àquela praça
Veio os homens
E nos pararam
Documento por favor
Então a gente apresentou
Mas eles não paravam
Qual é negão? qual é negão?
O que que tá pegando?
Qual é negão? qual é negão?
É mole de ver
Que em qualquer dura
O tempo passa mais lento pro negão
Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista
Pra passar na revista
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
É mole de ver
Que para o negro
Mesmo a aids possui hierarquia
Na áfrica a doença corre solta
E a imprensa mundial
Dispensa poucas linhas
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Ou das colunas sociais
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro