quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Te Contei, não ? - À espera do fim do mundo

Conheça brasileiros e estrangeiros que fazem estoque de água, comida e remédios, se mudaram para cidades consideradas seguras e protegem-se em bunkers para tentar escapar do apocalipse previsto para a próxima sexta-feira 21

João Loes, Mariana Brugger e Michel Alecrim
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Assim como muitos moradores da cidade de Pirenópolis, no interior de Goiás, o empresário Hélio Teruo, 51 anos, tem uma imensa piscina de fibra de vidro em casa. O município, distante 140 quilômetros de Brasília, tem clima seco e quente como a capital federal, chamariz para um banho refrescante nas tardes de verão, quando o calor aperta. Na casa de Teruo, porém, ninguém ousa chegar perto do tanque particular. Aliás, a piscina nunca foi sequer enchida com água, pois foi adquirida para uma finalidade completamente diferente. “Comprei para usar como uma caçamba flutuante”, explica o dono da casa, um paulistano de fala rápida e ansiosa que se mudou para Pirenópolis em julho, deixando para trás uma empresa de arquitetura e construção de prédios comerciais de alto padrão na região da avenida Paulista, casa e dois de seus três carros. “Quando o tsunami chegar, meu estoque de comida estará seco e salvo dentro dela, entendeu?” Como milhares de pessoas espalhadas pelo planeta, Hélio Teruo é um dos que acreditam e se preparam para encarar o fim do mundo na próxima sexta-feira, dia 21 de dezembro de 2012. “Meu objetivo é sobreviver”, diz, em tom grave.
02.jpgENIGMA
Placas com alusão ao fim dos tempos apareceram espalhadas por
Alto Paraíso (GO), reduto de quem acredita que o apocalipse é no dia 21
Para isso, Teruo vem estocando comida, água e remédios há mais de seis meses. Arroz, milho e feijão, farinha de mandioca, amendoim e frutas secas, além de ervilhas, cenouras e salsichas em conserva começaram a ser adquiridos em grandes quantidades por ele e a mulher, Luzia, quando o casal ainda morava em São Paulo. Curativos, material de primeiros socorros e até anestésicos para procedimentos cirúrgicos também foram acumulados, bem como litros e litros de água potável. A ideia é que, com o estoque, ambos sobrevivam pelo menos dois anos sem precisar sair de dentro de casa. “Também compramos coletes salva-vidas e muita roupa de frio”, diz o empresário. Os coletes, explica, são para que ele e a mulher consigam flutuar caso as águas do tsunami de 1,5 mil metros de altura que eles esperam para o dia 21 cheguem a Pirenópolis. Já as roupas pesadas aplacarão o frio que pode gelar a cidade, caso haja uma alteração no eixo de rotação da Terra, também previsto para o dia 21. Com a mudança, até Pirenópolis, tida por Teruo como local seguro para se estar no dia do fim, pode acabar onde hoje está o Polo Norte.
03.jpgPREPARADOS
Hélio Teruo e a mulher Luzia esperam um tsunami na próxima sexta-feira
e têm estocado comida, remédios e água em Pirenópolis (GO)
O empresário paulista e sua mulher não estão sozinhos em seus preparativos para o fim do mundo iminente. Mobilizadas por profetas e municiadas por informações truncadas, milhares de pessoas estão neste exato momento acertando os últimos detalhes de seus estoques de comida, seus kits de sobrevivência e seus bunkers subterrâneos para encarar os últimos dias do planeta Terra, marcado por um entendimento questionável do fim do calendário maia para 21 de dezembro de 2012. Conhecidos como “preppers” – um neologismo criado nos Estados Unidos a partir da palavra “prepare”, que significa preparar ou planejar em inglês – esses indivíduos conversam entre si em encontros e redes sociais, compartilham técnicas de sobrevivência e alimentam a paranoia apocalíptica que tomou o mundo nos últimos meses.
04.jpgGURU
O místico professor Hirota que atendia em Atibaia (SP) mudou-se para
Pirenópolis (GO) em julho para se salvar: ele acredita que 80% da Terra será destruída
No Brasil, as pessoas que se preparam para o dia 21 de dezembro estão quase sempre vinculadas às profecias de algumas lideranças místicas. A mais forte delas, atualmente, é a do japonês radicado no Brasil Masuteru Hirota, também conhecido como Professor Hirota. Hoje com 70 anos, ele fez fama como curandeiro em Atibaia, no interior de São Paulo, e ganhou o Brasil e o mundo – já foi tema de documentários na Alemanha e na França – nos últimos meses com estrambólicas previsões do fim dos tempos. Com base em interpretações duvidosas do suposto fim do calendário maia, ele cravou que 80% da terra habitável do planeta seria destruída em 21 de dezembro de 2012 por um tsunami que matará nada menos do que seis bilhões de pessoas. Como todo bom guru, Hirota deu o mapa da salvação. Quem quiser viver, disse ele, deve se mudar para as cidades de Alto Paraíso ou Pirenópolis, ambas em Goiás, estocar comida e remédios para dois anos e esperar o fim de colete salva-vidas.
05.jpgONDA GIGANTE
Discípulos de Hirota, Daisy Simionato e o marido, Enílson Gonzales, esperam
um tsunami e estarão de coletes salva-vidas no dia 21 para não se afogarem
Foi o suficiente para que um grande número de pessoas, o maior e mais representativo do País quando o assunto é fim do mundo, largasse suas vidas estabelecidas em suas cidades e rumasse para essas localidades. Teruo, por exemplo, é um dos discípulos de Hirota que seguiram para Pirenópolis junto com o guru japonês, numa caravana que partiu do interior de São Paulo no meio do ano. Outra foi Daisy Maria Simionato, 42 anos, que foi para o Planalto Central com o marido, Enílson Gonzales, 53, e o filho, Murilo Gonzales, 14. Natural de Itu, a família se tratava com o professor em Atibaia e, nas palestras, se convenceu de que o fim do mundo estava próximo. Os preparativos começaram ainda na cidade natal, com a compra de um gerador de energia e remédios, e continuaram em Pirenópolis, com a estocagem de arroz, feijão, açúcar e outros mantimentos pouco perecíveis. “Até o dia 19, vamos estar com tudo pronto, só vão faltar os 200 litros de combustível para fazer o gerador rodar quando não tivermos mais força”, diz Daisy. Isso ela vai deixar para comprar na véspera do fim do mundo, na quinta-feira que vem.
06.jpgOFICIAL
Prefeito de São Francisco de Paula (RS), Décio Colla acredita no fim no dia 21.
Ele alertou sua cidade e estoca comida e água há meses. A oposição tentou interditá-lo
Em Alto Paraíso, casos como o de Daisy e Teruo se multiplicam a ponto de afetar a economia e a rede de abastecimento da cidade. Como reduto de místicos e alternativos há décadas, a cidade, que fica a 1,2 mil metros de altitude e está assentada sobre o que muitos garantem ser o pedaço de pedra mais estável e antigo do planeta, viu os novos apocalípticos se somarem ao volumoso fluxo de turistas e visitantes que já frequentam a localidade no fim de ano. “É tanta gente nova por aqui que já não reconheço mais os rostos das pessoas que vejo na rua”, diz o corretor Nilton Kalunga, dono da Kalunga Imóveis e morador há mais de 20 anos. Neste ano, ele viu suas vendas aumentar em 110% quando comparadas às de 2011 graças ao “efeito fim do mundo”. “Vendi muita casa para o grupo do Hirota”, diz ele – ao todo 20 residências, incluindo também locações. Até sua mulher, a paulistana Maria Helena Brandão, 56 anos, entrou na dança do apocalipse.
07.jpgDEDICADOS
O casal texano Paul Range e Gloria Haswell (acima) passa 50 horas
semanais se preparando para o apocalipse.  Eles vivem em um bunker,
têm 23 toneladas de comida e 150 mil litros de água estocados (abaixo)
e contam com quatro fontes de energia renováveis à disposição
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Segundo ela, desde que a cidade começou a encher de “preppers” e as prateleiras dos supermercados começaram a se esvaziar e água e combustível a faltar, o fim no dia 21 de dezembro deixou de parecer delírio dos outros para se tornar algo concreto. Tanto que Maria Helena passou a plantar e estocar os alimentos que a família consome, temendo a quebra nas safras e o desabastecimento depois da tragédia que se anuncia. “Cheguei aqui em 1999, temendo o apocalipse para a virada do ano 2000”, diz. “Não aconteceu, mas agora, com essa invasão na cidade, estou assustada de novo.” E põe invasão nisso. De acordo com a Secretaria de Turismo de Alto Paraíso, até a abertura oficial da temporada de fim de ano, que costuma acontecer no dia 26 de dezembro, teve de ser antecipada este ano para o dia 18, antes do suposto fim do mundo, tamanho o volume de visitantes e novos moradores. “Costumamos receber sete mil turistas nessa época”, diz Fernanda Inês Montes, secretária da pasta na cidade. Neste ano eles esperam entre 10 mil e 15 mil. “Muitos chegam bastante assustados, com medo do que pode acontecer”, diz Lucrécia Lopes, moradora há 15 anos.
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O medo e a ansiedade são a grande força motriz dos apocalípticos. Para eles, ainda que a Nasa – agência espacial norte americana – tenha vindo a público desmentir as teorias de fim dos tempos e até o Vaticano tenha emitido um comunicado oficial afirmando, categoricamente, que o mundo não acaba na próxima sexta-feira, a simples possibilidade, embora remotíssima, do fim é mais forte e atropela qualquer lampejo de racionalidade. “O medo é uma emoção de defesa do indivíduo”, diz Rosana Dório Bohrer, psicóloga e presidente da Associação Brasileira de Psicologia nas Emergências e Desastres (Abrapede). “E o temor da morte é difícil de ser superado.” É ele que se manifesta, como desdobramento da ansiedade, com grande intensidade nesses momentos. E resgatar profecias antigas é uma forma de lidar com essas ansiedades da vida moderna. “É uma maneira de projetar um fim para que haja um recomeço”, afirma a antropóloga Clara Mafra, coordenadora do programa de pós-graduação em ciências sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
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Fatores distintos, como as superproduções hollywoodianas sobre o tema e a crise econômica europeia, por exemplo, também retroalimentam essa possibilidade de que o mundo acabe a qualquer momento. “Não existe um fator pessoal, essa é uma questão das massas”, afirma o professor Marcus Vinicius de Oliveira, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em psicologia de desastres e emergências. “Antes, a insegurança era pré-estabelecida, determinada pelo panorama da Guerra Fria. Agora, com a crise do capitalismo global, há uma sensação generalizada de insegurança.” Diante da ausência de sinais asseguradores, de alguém que possa dar tranquilidade e falar que o mundo está bem, as pessoas ficam inseguras. Sendo assim, acreditar em um fim do mundo no próximo dia 21 é uma das poucas certezas que algumas pessoas podem ter, diz o professor. “Parece contraditório, mas essa convicção, esse temor e expectativa aliviam um pouco.”
Entre os “preppers” não é incomum ouvir os que falam do apocalipse como uma oportunidade de limpar a corrupção e os valores frouxos da Terra. Os americanos Paul Range e Gloria Haswell, por exemplo, não chegam a tratar o fim dos tempos como uma chance de eliminar os maus elementos da terra, mas, se for preciso, estão dispostos a participar da reconstrução da civilização pós-apocalipse em moldes diferentes dos que se tem hoje. Para isso, eles passam cerca de 50 horas semanais estocando comida, treinando para sobreviver em ambientes hostis e aprimorando o bunker que construíram usando nove contêineres à prova de bala no interior do Texas. O objetivo é estarem prontos para receber e proteger 22 pessoas escolhidas a dedo e com elas recomeçar depois da tragédia do dia 21. “Esperamos algo como uma inversão de polos seguida de uma sequên­cia de terremotos terríveis”, disse Range ao canal de televisão paga National Geographic, que o descobriu no deserto texano. Com as 23 toneladas de comida que ele e a mulher estocaram, os 150 mil litros de água em um tanque sob a terra que eles guardaram e as quatro fontes de energia renovável que já funcionam em seu complexo, suas chances são, provavelmente, maiores do que as de qualquer outro apocalíptico no mundo.
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Mas, se houver alguém mais bem preparado que eles é quase certo que essa pessoa também esteja nos Estados Unidos. Lá, ser um “prepper” é coisa séria e, de tão comum, tem quem ofereça opções mais acessíveis aos que querem sobreviver ao apocalipse, mas não podem investir pesadamente em um bunker e em mantimentos como Paul e Gloria. Na Survival Condo, por exemplo, por ­US$ 1­,5­ milhão, compra-se metade de um andar de um antigo silo de mísseis desativado totalmente reformado e transformado em um pequeno apartamento com dois quartos, dois banheiros, uma sala e uma cozinha. “Cada silo tem oito andares, já vendemos um inteiro, estamos reformando um segundo e já compramos um terceiro”, diz Robert Brown, porta-voz da empresa. Opções mais em conta podem ser encontradas na Terravivos, onde lugares, e não apartamentos, estão à venda. A partir de US$ 50 mil, garante-se um assento em um dos três bunkers ainda com vagas – o primeiro, no Estado de Indiana, já está esgotado. No Brasil, a Bunker Brasil, empresa de bunkers que acomodam até 12 pessoas e custam entre R$ 800 mil a R$ 1 milhão, diz ter vendido três bunkers para clientes temerosos.
Em último caso, para quem só puder investir tempo e esforço próprios no projeto de sobrevivência pós-apocalipse, há cursos de preparo pessoal para encarar longas caminhadas, encontrar comida em meio aos escombros das cidades e se tratar com ervas medicinais. Esse foi o plano adotado pela também americana Megan Hurwitt, moradora de um pequeno apartamento em Houston, no Texas, que resolveu correr quatro horas por dia, seis vezes por semana, para ter bom condicionamento físico e assim conseguir carregar os poucos suprimentos que tem em estoque nas costas. “Já me chamaram de louca”, disse ela, também ao National Geographic. “Mas quando o mundo acabar, eu vou saber me virar enquanto os outros, que estarão soltos na rua, passarão fome.” Assim como Megan, o prefeito de São Francisco de Paula (RS), Décio Colla (PT-RS), também tem tido sua sanidade mental colocada em dúvida. Durante este ano, ele veio a público, em mais de uma ocasião, alertar a população para uma possível alteração na atividade solar prevista para o dia 21. “Há risco de tsunamis gigantescos”, diz, fazendo eco a outras muitas previsões que se misturaram e passaram a se associar à fatídica sexta-feira 21 de dezembro de 2012. O comentário lhe rendeu um pedido de interdição por parte de Assis Tadeu Barbosa Velho (PSDB-RS), vereador da cidade.
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Trata-se de um grande mercado que se abriu em torno do apocalipse maia e se alimenta do medo do fim dos tempos. Não há números consolidados sobre ele, mas é fato que existe. Numa cidadezinha no sudoeste da França chamada Buga­rach fala-se em alienígenas que sairão de uma montanha da região no primeiro segundo do dia 21 de dezembro para resgatar quem estiver por lá. A diária de uma casa camponesa na cidade está em 1,2 mil euros (R$ 3,3 mil). No fogo cruzado de oportunistas e charlatões estão as pessoas comuns, assustadas e ansiosas com a vida moderna e mais do que propensas a cair nos golpes que se armam em tempos como este. Que fique claro: os especialistas mais respeitados do planeta não cansam de repetir que não há nada de concreto, absolutamente nada, que sugira que o mundo acabará no próximo dia 21. Mas entre resistir ao bombardeio de profecias apocalípticas e aceitar que o dia 22 será pouco diferente de todos os outros dias do ano ou ceder a ele e apostar na possibilidade de um futuro próximo como o que se vê no cinema, repleto de explosões, invasões alienígenas, ondas gigantes e gurus redentores, muitos parecem preferir a novidade.
A teoria científica
Para a ciência, o mundo tem data para acabar. Afinal, somos um planeta como qualquer outro e temos uma estrela – o Sol – da qual dependemos para sobreviver. Toda estrela tem um ciclo de vida. O Sol, por exemplo, nasceu há cerca de 4,6 bilhões de anos e deve morrer, ou pelo menos deixar de existir como o conhecemos atualmente, daqui a cerca de cinco bilhões de anos. Perto dessa data, ele passará a brilhar como uma gigante vermelha, quando seu tamanho aumentará o suficiente para engolir a Terra por completo e sua cor mudará do amarelo que conhecemos para o vermelho. Será o fim do mundo. Até lá, porém, a raça humana já estará extinta, pelo menos na superfície terrestre, há pelo menos quatro bilhões de anos. Estima-se que daqui a cerca de um bilhão de anos, o Sol terá aumentado sua temperatura o suficiente para evaporar toda a água líquida da Terra, o que tornará a vida no planeta inviável ssim como muitos moradores da cidade de Pirenópolis, no interior de Goiás, o empresário Hélio Teruo, 51 anos, tem uma imensa piscina de fibra de vidro em casa. O município, distante 140 quilômetros de Brasília, tem clima seco e quente como a capital federal, chamariz para um banho refrescante nas tardes de verão, quando o calor aperta. Na casa de Teruo, porém, ninguém ousa chegar perto do tanque particular. Aliás, a piscina nunca foi sequer enchida com água, pois foi adquirida para uma finalidade completamente diferente. “Comprei para usar como uma caçamba flutuante”, explica o dono da casa, um paulistano de fala rápida e ansiosa que se mudou para Pirenópolis em julho, deixando para trás uma empresa de arquitetura e construção de prédios comerciais de alto padrão na região da avenida Paulista, casa e dois de seus três carros. “Quando o tsunami chegar, meu estoque de comida estará seco e salvo dentro dela, entendeu?” Como milhares de pessoas espalhadas pelo planeta, Hélio Teruo é um dos que acreditam e se preparam para encarar o fim do mundo na próxima sexta-feira, dia 21 de dezembro de 2012. “Meu objetivo é sobreviver”, diz, em tom grave.
Para isso, Teruo vem estocando comida, água e remédios há mais de seis meses. Arroz, milho e feijão, farinha de mandioca, amendoim e frutas secas, além de ervilhas, cenouras e salsichas em conserva começaram a ser adquiridos em grandes quantidades por ele e a mulher, Luzia, quando o casal ainda morava em São Paulo. Curativos, material de primeiros socorros e até anestésicos para procedimentos cirúrgicos também foram acumulados, bem como litros e litros de água potável. A ideia é que, com o estoque, ambos sobrevivam pelo menos dois anos sem precisar sair de dentro de casa. “Também compramos coletes salva-vidas e muita roupa de frio”, diz o empresário. Os coletes, explica, são para que ele e a mulher consigam flutuar caso as águas do tsunami de 1,5 mil metros de altura que eles esperam para o dia 21 cheguem a Pirenópolis. Já as roupas pesadas aplacarão o frio que pode gelar a cidade, caso haja uma alteração no eixo de rotação da Terra, também previsto para o dia 21. Com a mudança, até Pirenópolis, tida por Teruo como local seguro para se estar no dia do fim, pode acabar onde hoje está o Polo Norte.
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O empresário paulista e sua mulher não estão sozinhos em seus preparativos para o fim do mundo iminente. Mobilizadas por profetas e municiadas por informações truncadas, milhares de pessoas estão neste exato momento acertando os últimos detalhes de seus estoques de comida, seus kits de sobrevivência e seus bunkers subterrâneos para encarar os últimos dias do planeta Terra, marcado por um entendimento questionável do fim do calendário maia para 21 de dezembro de 2012. Conhecidos como “preppers” – um neologismo criado nos Estados Unidos a partir da palavra “prepare”, que significa preparar ou planejar em inglês – esses indivíduos conversam entre si em encontros e redes sociais, compartilham técnicas de sobrevivência e alimentam a paranoia apocalíptica que tomou o mundo nos últimos meses.
No Brasil, as pessoas que se preparam para o dia 21 de dezembro estão quase sempre vinculadas às profecias de algumas lideranças místicas. A mais forte delas, atualmente, é a do japonês radicado no Brasil Masuteru Hirota, também conhecido como Professor Hirota. Hoje com 70 anos, ele fez fama como curandeiro em Atibaia, no interior de São Paulo, e ganhou o Brasil e o mundo – já foi tema de documentários na Alemanha e na França – nos últimos meses com estrambólicas previsões do fim dos tempos. Com base em interpretações duvidosas do suposto fim do calendário maia, ele cravou que 80% da terra habitável do planeta seria destruída em 21 de dezembro de 2012 por um tsunami que matará nada menos do que seis bilhões de pessoas. Como todo bom guru, Hirota deu o mapa da salvação. Quem quiser viver, disse ele, deve se mudar para as cidades de Alto Paraíso ou Pirenópolis, ambas em Goiás, estocar comida e remédios para dois anos e esperar o fim de colete salva-vidas.
Foi o suficiente para que um grande número de pessoas, o maior e mais representativo do País quando o assunto é fim do mundo, largasse suas vidas estabelecidas em suas cidades e rumasse para essas localidades. Teruo, por exemplo, é um dos discípulos de Hirota que seguiram para Pirenópolis junto com o guru japonês, numa caravana que partiu do interior de São Paulo no meio do ano. Outra foi Daisy Maria Simionato, 42 anos, que foi para o Planalto Central com o marido, Enílson Gonzales, 53, e o filho, Murilo Gonzales, 14. Natural de Itu, a família se tratava com o professor em Atibaia e, nas palestras, se convenceu de que o fim do mundo estava próximo. Os preparativos começaram ainda na cidade natal, com a compra de um gerador de energia e remédios, e continuaram em Pirenópolis, com a estocagem de arroz, feijão, açúcar e outros mantimentos pouco perecíveis. “Até o dia 19, vamos estar com tudo pronto, só vão faltar os 200 litros de combustível para fazer o gerador rodar quando não tivermos mais força”, diz Daisy. Isso ela vai deixar para comprar na véspera do fim do mundo, na quinta-feira que vem.
Em Alto Paraíso, casos como o de Daisy e Teruo se multiplicam a ponto de afetar a economia e a rede de abastecimento da cidade. Como reduto de místicos e alternativos há décadas, a cidade, que fica a 1,2 mil metros de altitude e está assentada sobre o que muitos garantem ser o pedaço de pedra mais estável e antigo do planeta, viu os novos apocalípticos se somarem ao volumoso fluxo de turistas e visitantes que já frequentam a localidade no fim de ano. “É tanta gente nova por aqui que já não reconheço mais os rostos das pessoas que vejo na rua”, diz o corretor Nilton Kalunga, dono da Kalunga Imóveis e morador há mais de 20 anos. Neste ano, ele viu suas vendas aumentar em 110% quando comparadas às de 2011 graças ao “efeito fim do mundo”. “Vendi muita casa para o grupo do Hirota”, diz ele – ao todo 20 residências, incluindo também locações. Até sua mulher, a paulistana Maria Helena Brandão, 56 anos, entrou na dança do apocalipse.
Segundo ela, desde que a cidade começou a encher de “preppers” e as prateleiras dos supermercados começaram a se esvaziar e água e combustível a faltar, o fim no dia 21 de dezembro deixou de parecer delírio dos outros para se tornar algo concreto. Tanto que Maria Helena passou a plantar e estocar os alimentos que a família consome, temendo a quebra nas safras e o desabastecimento depois da tragédia que se anuncia. “Cheguei aqui em 1999, temendo o apocalipse para a virada do ano 2000”, diz. “Não aconteceu, mas agora, com essa invasão na cidade, estou assustada de novo.” E põe invasão nisso. De acordo com a Secretaria de Turismo de Alto Paraíso, até a abertura oficial da temporada de fim de ano, que costuma acontecer no dia 26 de dezembro, teve de ser antecipada este ano para o dia 18, antes do suposto fim do mundo, tamanho o volume de visitantes e novos moradores. “Costumamos receber sete mil turistas nessa época”, diz Fernanda Inês Montes, secretária da pasta na cidade. Neste ano eles esperam entre 10 mil e 15 mil. “Muitos chegam bastante assustados, com medo do que pode acontecer”, diz Lucrécia Lopes, moradora há 15 anos.
09.jpgTREINAMENTO
A americana Megan Hurwitt, 25 anos, corre quatro horas por dia, seis dias
por semana de mochila para ter o condicionamento físico de um militar
O medo e a ansiedade são a grande força motriz dos apocalípticos. Para eles, ainda que a Nasa – agência espacial norte americana – tenha vindo a público desmentir as teorias de fim dos tempos e até o Vaticano tenha emitido um comunicado oficial afirmando, categoricamente, que o mundo não acaba na próxima sexta-feira, a simples possibilidade, embora remotíssima, do fim é mais forte e atropela qualquer lampejo de racionalidade. “O medo é uma emoção de defesa do indivíduo”, diz Rosana Dório Bohrer, psicóloga e presidente da Associação Brasileira de Psicologia nas Emergências e Desastres (Abrapede). “E o temor da morte é difícil de ser superado.” É ele que se manifesta, como desdobramento da ansiedade, com grande intensidade nesses momentos. E resgatar profecias antigas é uma forma de lidar com essas ansiedades da vida moderna. “É uma maneira de projetar um fim para que haja um recomeço”, afirma a antropóloga Clara Mafra, coordenadora do programa de pós-graduação em ciências sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Fatores distintos, como as superproduções hollywoodianas sobre o tema e a crise econômica europeia, por exemplo, também retroalimentam essa possibilidade de que o mundo acabe a qualquer momento. “Não existe um fator pessoal, essa é uma questão das massas”, afirma o professor Marcus Vinicius de Oliveira, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em psicologia de desastres e emergências. “Antes, a insegurança era pré-estabelecida, determinada pelo panorama da Guerra Fria. Agora, com a crise do capitalismo global, há uma sensação generalizada de insegurança.” Diante da ausência de sinais asseguradores, de alguém que possa dar tranquilidade e falar que o mundo está bem, as pessoas ficam inseguras. Sendo assim, acreditar em um fim do mundo no próximo dia 21 é uma das poucas certezas que algumas pessoas podem ter, diz o professor. “Parece contraditório, mas essa convicção, esse temor e expectativa aliviam um pouco.”
Entre os “preppers” não é incomum ouvir os que falam do apocalipse como uma oportunidade de limpar a corrupção e os valores frouxos da Terra. Os americanos Paul Range e Gloria Haswell, por exemplo, não chegam a tratar o fim dos tempos como uma chance de eliminar os maus elementos da terra, mas, se for preciso, estão dispostos a participar da reconstrução da civilização pós-apocalipse em moldes diferentes dos que se tem hoje. Para isso, eles passam cerca de 50 horas semanais estocando comida, treinando para sobreviver em ambientes hostis e aprimorando o bunker que construíram usando nove contêineres à prova de bala no interior do Texas. O objetivo é estarem prontos para receber e proteger 22 pessoas escolhidas a dedo e com elas recomeçar depois da tragédia do dia 21. “Esperamos algo como uma inversão de polos seguida de uma sequên­cia de terremotos terríveis”, disse Range ao canal de televisão paga National Geographic, que o descobriu no deserto texano. Com as 23 toneladas de comida que ele e a mulher estocaram, os 150 mil litros de água em um tanque sob a terra que eles guardaram e as quatro fontes de energia renovável que já funcionam em seu complexo, suas chances são, provavelmente, maiores do que as de qualquer outro apocalíptico no mundo.
Mas, se houver alguém mais bem preparado que eles é quase certo que essa pessoa também esteja nos Estados Unidos. Lá, ser um “prepper” é coisa séria e, de tão comum, tem quem ofereça opções mais acessíveis aos que querem sobreviver ao apocalipse, mas não podem investir pesadamente em um bunker e em mantimentos como Paul e Gloria. Na Survival Condo, por exemplo, por ­US$ 1­,5­ milhão, compra-se metade de um andar de um antigo silo de mísseis desativado totalmente reformado e transformado em um pequeno apartamento com dois quartos, dois banheiros, uma sala e uma cozinha. “Cada silo tem oito andares, já vendemos um inteiro, estamos reformando um segundo e já compramos um terceiro”, diz Robert Brown, porta-voz da empresa. Opções mais em conta podem ser encontradas na Terravivos, onde lugares, e não apartamentos, estão à venda. A partir de US$ 50 mil, garante-se um assento em um dos três bunkers ainda com vagas – o primeiro, no Estado de Indiana, já está esgotado. No Brasil, a Bunker Brasil, empresa de bunkers que acomodam até 12 pessoas e custam entre R$ 800 mil a R$ 1 milhão, diz ter vendido três bunkers para clientes temerosos.
Em último caso, para quem só puder investir tempo e esforço próprios no projeto de sobrevivência pós-apocalipse, há cursos de preparo pessoal para encarar longas caminhadas, encontrar comida em meio aos escombros das cidades e se tratar com ervas medicinais. Esse foi o plano adotado pela também americana Megan Hurwitt, moradora de um pequeno apartamento em Houston, no Texas, que resolveu correr quatro horas por dia, seis vezes por semana, para ter bom condicionamento físico e assim conseguir carregar os poucos suprimentos que tem em estoque nas costas. “Já me chamaram de louca”, disse ela, também ao National Geographic. “Mas quando o mundo acabar, eu vou saber me virar enquanto os outros, que estarão soltos na rua, passarão fome.” Assim como Megan, o prefeito de São Francisco de Paula (RS), Décio Colla (PT-RS), também tem tido sua sanidade mental colocada em dúvida. Durante este ano, ele veio a público, em mais de uma ocasião, alertar a população para uma possível alteração na atividade solar prevista para o dia 21. “Há risco de tsunamis gigantescos”, diz, fazendo eco a outras muitas previsões que se misturaram e passaram a se associar à fatídica sexta-feira 21 de dezembro de 2012. O comentário lhe rendeu um pedido de interdição por parte de Assis Tadeu Barbosa Velho (PSDB-RS), vereador da cidade.
Trata-se de um grande mercado que se abriu em torno do apocalipse maia e se alimenta do medo do fim dos tempos. Não há números consolidados sobre ele, mas é fato que existe. Numa cidadezinha no sudoeste da França chamada Buga­rach fala-se em alienígenas que sairão de uma montanha da região no primeiro segundo do dia 21 de dezembro para resgatar quem estiver por lá. A diária de uma casa camponesa na cidade está em 1,2 mil euros (R$ 3,3 mil). No fogo cruzado de oportunistas e charlatões estão as pessoas comuns, assustadas e ansiosas com a vida moderna e mais do que propensas a cair nos golpes que se armam em tempos como este. Que fique claro: os especialistas mais respeitados do planeta não cansam de repetir que não há nada de concreto, absolutamente nada, que sugira que o mundo acabará no próximo dia 21. Mas entre resistir ao bombardeio de profecias apocalípticas e aceitar que o dia 22 será pouco diferente de todos os outros dias do ano ou ceder a ele e apostar na possibilidade de um futuro próximo como o que se vê no cinema, repleto de explosões, invasões alienígenas, ondas gigantes e gurus redentores, muitos parecem preferir a novidade.


Fotos: Ho New/Reuters; Adriano Machado/Ag. Istoé; Divulgação; Adriano Machado/Ag. Istoé; Marcos Nagelstein; Divulgação; National Geographic Channel/ Sharp Entertainment; Sharp Entertainment/ Corey Wascinski;National Geographic Channel/Sharp Entertainment

Te Contei, não ? - O HIV que salva

Médicos usam o vírus da Aids para mudar o material genético de células de defesa, tornando-as capazes de vencer a leucemia

Cilene Pereira
Chamada.jpgESPERANÇA
Emma, na foto com sua mãe, Kari, fez o tratamento
e não tem sinais da doença há sete meses
Médicos da Universidade da Pennsylvania, nos Estados Unidos, anunciaram na semana passada um feito memorável. Usando uma forma alterada e inativa do HIV (não causa doença), o vírus da Aids, eles conseguiram conter a progressão da leucemia – tumor nos glóbulos brancos do sangue (leucócitos). A divulgação da façanha ocorreu durante a realização do encontro anual da Sociedade Americana de Hematologia e logo repercutiu no mundo. “É um marco”, afirmou o oncogeneticista brasileiro José Cláudio Casali da Rocha, do Hospital Erasto Gaertner, referência no tratamento do câncer em Curitiba, e do Centro Oncológico de Niterói, no Rio de Janeiro. “É usar os nossos inimigos a nosso favor.”

O que os cientistas fizeram foi utilizar o HIV como um veículo para atingir um objetivo. Os médicos queriam estimular o sistema imunológico dos pacientes a destruir as células tumorais. A maneira engendrada de fazer isso foi modificar geneticamente os linfócitos T (células de defesa) dos próprios doentes para torná-los mais aptos à tarefa. Milhões dessas células foram extraídas. Em seguida, os médicos criaram uma versão inativa do HIV e inseriram nele os genes que tornariam os linfócitos mais eficazes. Eles fizeram isso por um motivo simples: o vírus tem como alvo justamente os linfócitos T. Em seu estado natural, ele invade essas células e mistura nelas o seu material genético. A partir daí, elas viram uma espécie de fábrica de HIV, permitindo que o vírus se replique e se espalhe pelo corpo. Na versão modificada, porém, o HIV, em vez de colocar nos linfócitos seu material genético, colocou os genes que os médicos queriam.
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Depois de injetados novamente nos doentes, esses linfócitos modificados interromperam a progressão da doença em três adultos – dois não apresentam sinais da enfermidade há mais de dois anos – e em uma criança. Emma Whitehead, 7 anos, está há sete meses sem sinais da leucemia. “Nossa esperança é que o método possa substituir o transplante de medula óssea”, disse à ISTOÉ o médico David Porter, um dos coordenadores do experimento. O transplante pode curar a doença, mas apresenta riscos (o paciente tem seu sistema imunológico destruído e fica vulnerável a infecções). Já a terapia com o HIV pode causar complicações pulmonares e de pressão arterial e é também por essa razão que os médicos querem aprofundar as investigações. “Precisamos entender como lidar com os efeitos colaterais sem bloquear sua eficácia”, complementou Porter. Experimentos semelhantes estão sendo realizados no Instituto Nacional do Câncer e no Memorial Sloan-Kettering Center (Eua). 


Foto: Jeff Swensen/The New York Times/Latinstock

Te Contei, não ? - O novo golpe dos Royalties

Na quinta-feira 13, com termômetros registrando temperaturas abaixo de zero, a presidenta Dilma Rousseff afirmou, em Moscou, que não tem mais o que fazer para evitar que haja rompimento de contratos já estabelecidos na questão da distribuição dos royalties do petróleo. A declaração da presidenta foi a constatação de que em pleno Congresso Nacional está se promovendo uma manobra que joga contra o Brasil e que tem potencial para abalar de forma irreversível as finanças de Estados como Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, principalmente os dois primeiros por serem os maiores produtores de petróleo no momento. Além de indiretamente abalar a confiança de investidores internacionais, que exigem regras definidas e imutáveis para aportar seus recursos no País, a alteração proposta pelo Congresso representa uma bárbara sangria nos cofres dos Estados produtores. Para preservar as finanças desses Estados e demonstrar ao mercado internacional que no Brasil os contratos são cumpridos, a presidenta Dilma vetou, no mês passado, os artigos que alteravam a distribuição dos recursos provenientes dos campos petrolíferos já em operação. Na quarta-feira 12, porém, deputados e senadores ignoraram a Constituição, pisotearam nos trâmites administrativos da Câmara e do Senado e aprovaram um regime de urgência para apreciar os vetos propostos pela presidenta. Assim, abriram a possibilidade de na próxima semana derrubar os vetos de Dilma e criar uma legislação que altera os contratos em vigor. “Eu não tenho mais o que fazer”, alertou a presidenta. “Não há gesto mais forte do que o veto. Agora, que todos votem de acordo com sua consciência”, afirmou Dilma.

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É tradição do Congresso que os vetos presidenciais sejam votados em ordem de chegada no Parlamento, o que colocaria a questão dos royalties no fim de uma fila com mais de dois mil casos pendentes. Mas a questão não se resume à tradição legislativa. O artigo 66 da Constituição estabelece um prazo de 30 dias para que o Congresso vote para definir sobre a manutenção ou não de vetos que o Executivo venha a fazer em projetos aprovados pelo Legislativo. “Houve uma manobra inusitada na história do Congresso. Desde a redemocratização do Brasil, desde a Constituição de 1988, nunca houve uma situação em que tenha tido um requerimento para urgência em um veto com menos de um mês”, afirma o governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro. A pressão para a aprovação do requerimento foi feita quando o presidente do Congresso, José Sarney (PMDB-AP), estava fora e a sessão era presidida pela deputada Rose de Freitas (PMDB-ES), que não suportou a ação dos mais veteranos. Depois de aprovado o requerimento, a deputada entrou em contato com Sarney e lhe pediu para não colocar a questão em discussão na próxima semana. “Esse assunto tem que ser votado só no ano que vem”, disse a deputada. “Ainda há espaço para a negociação, com a participação da presidenta Dilma”.

A bancada do Rio de Janeiro fez uma leitura diferente e interpretou a declaração de Dilma em Moscou como um recado para a imediata busca de outros caminhos. Os deputados Leonardo Picciani (PMDB-RJ) e Alessandro Molon (PT-RJ) e o senador Lindberg Farias (PT-RJ) protocolaram dois mandados de segurança no Supremo Tribunal Federal com o intuito de tornar sem efeito o requerimento de urgência aprovado no Congresso. A decisão inicial caberá ao ministro relator, Luiz Fux, que também é do Rio de Janeiro. “Está havendo uma barbaridade. Não existe isso de se passar um veto na frente do outro”, afirma o senador Lindberg. “O Congresso não dispõe de liberdade para alterar a conformação básica do procedimento de apreciação dos vetos, introduzindo um regime de urgência sem nenhum amparo constitucional”, completou o deputado Molon.
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Ainda que o ministro Fux decida a favor dos parlamentares fluminenses, não há nenhum sinal de que possa haver uma solução negociada no Congresso. Trata-se apenas de uma questão de tempo. Deputados e senadores de outros Estados que não Rio, Espírito Santo e São Paulo parecem dispostos a não aceitar nenhum tipo de argumento que não o de engrossar os cofres de suas bases eleitorais. Por causa disso, a decisão final sobre a distribuição dos royalties das áreas já em exploração deverá mesmo ficar a cargo do Judiciário. O governador Sérgio Cabral já prepara uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) para dar entrada no STF tão logo o Congresso derrube os vetos feitos pela presidenta Dilma. “Se os vetos forem derrubados, entraremos imediatamente com a ação, pois o STF é o guardião da Constituição e não iremos tolerar um golpe”, afirma Cabral.


Fotos: Ailton de Freitas/Ag. O Globo; Pedro Ladeira/Frame

Te Contei, não ? - Vegetais dinossauros

1.jpgElas são raras, centenárias e algumas vezes até milenares. Com troncos gigantescos e formatos pouco comuns, despontam soberanas sobre as demais árvores de uma floresta. São sequoias como as desta página – que passaram dos 100 metros de altura – ou um cajueiro no Rio Grande do Norte que ocupa um quarteirão inteiro. Além de serem um exemplo da grandiosidade da natureza, as maiores e mais antigas árvores do planeta têm papel fundamental no ecossistema local. São responsáveis pela produção de grande parte dos frutos e absorção massiva de gases de efeito estufa. Servem também como abrigo para uma enorme quantidade de animais e espécies menores de plantas e chegam até a determinar a distribuição geográfica da floresta. Mas esse currículo de bons serviços prestados ao ambiente pode estar chegando ao fim.

O alerta foi feito por pesquisadores da Universidade James Cook, na Austrália. Em um artigo publicado na revista “Science”, os cientistas reuniram vários estudos que mostram que a morte desses exemplares é uma tendência mundial. Em áreas dos EUA, Espanha e Costa Rica, por exemplo, as árvores milenares podem desaparecer nos próximos 180 anos. Uma das ameaças gigantes são as secas. Por causa da altura, a água precisa percorrer às vezes mais de 50 metros até chegar às últimas folhas. “A mudança na direção e velocidade do vento também pode derrubá-las, já que têm a copa acima das outras árvores”, explicou à ISTOÉ Bill Laurance, pesquisador da James Cook e um dos autores do artigo.

Para piorar, ainda sabemos muito pouco a respeito dessas plantas. “Em um estudo com apenas 23 árvores da Amazônia brasileira, descobrimos espécies de 400 a 1.400 anos. Podem existir exemplares muito mais antigos no interior da mata”, diz Laurance. Outras árvores milenares podem inclusive já ter sido derrubadas. “Apesar de geralmente serem ocas por dentro, muitas ainda são alvo dos madeireiros”, alerta André Eduardo Biscaia de Lacerda, que realiza pesquisas na área de ecologia florestal na Embrapa.

Talvez a perda não fosse tão grande caso não estivéssemos também diminuindo a longevidade das árvores. Isso acontece justamente por causa da maior pressão que os ecossistemas estão sofrendo, o que faz com que as plantas jovens morram mais cedo. “Sem chance de se transformar em árvores frondosas”, completa Gustavo Schwartz, pesquisador da Embrapa em Belém e da Universidade de Wageningen, na Holanda. A lógica é simples: quanto mais desmatada a floresta, menor a chance de uma árvore sobreviver por séculos.

Há 65 bilhões de anos, os dinossauros foram extintos de modo quase instantâneo. O homem ainda não existia e, portanto, não teve nada a ver com isso. Mas pode ter um papel fundamental hoje e esticar a vida dessas árvores, que são os maiores e mais velhos seres vivos do nosso planeta.

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Revista Isto É

Resenhando - Na trinha de " A Cabana "

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Há seis meses, a lista de livros de ficção mais vendidos no Brasil vem sendo liderada pela trilogia “50 Tons”, da inglesa E.L. James. Agora, um novo título começa a ameaçar essa hegemonia – e com uma trama que foge completamente do tom erótico da série best-seller. Trata-se de “A Travessia” (Arqueiro), novo romance do escritor canadense William P. Young, que se tornou célebre com a sua obra de estreia, “A Cabana”. Misto de ficção, autoajuda e religião, o livro teve a primeira edição fixada em 300 mil exemplares. Esse número já dá ideia de seu poder de fogo: as tiragens iniciais das publicações da editora Sextante (à qual pertence o selo Arqueiro) variam entre três mil e 12 mil exemplares.

A alta aposta faz sentido. Publicado em 2008, “A Cabana” é o segundo livro mais vendido no País nos últimos dez anos, com cerca de três milhões e meio de cópias. Perde apenas para “Ágape”, de autoria do padre Marcelo Rossi, que vendeu oito milhões de exemplares. Canadense de 57 anos e filho de missionários religiosos, o escritor passou a juventude em uma tribo na Papua-Nova Guiné, trabalhou como DJ e salva-vidas até formar-se em teologia e, na sequência, tornar-se um fenômeno editorial. Quando escreveu o primeiro livro fez apenas 15 impressões do original – seis delas destinadas aos filhos. Os amigos fizeram o boca a boca, mas chegar às editoras não foi fácil: as mais independentes o achavam exageradamente religioso; as cristãs o consideraram herético. Uma delas acreditou no relato e o resultado foram 18 milhões de exemplares vendidos mundo afora.
Na mesma trilha, “A Travessia” também acompanha um homem em busca de redenção existencial e espiritual. Centra-se em Anthony Spencer, multimilionário egocêntrico que após sofrer um derrame e descobrir-se vítima de um tumor cerebral passa a ter visões de Jesus e do Espírito Santo. Premiado com uma segunda chance de voltar à vida e reparar os erros, ele passa a ter o poder da cura – mas só poderá salvar uma pessoa. Esse tipo de enredo espiritualista poderia estar em uma obra de Paulo Coelho, a quem Young é comparado. Diferentemente do autor brasileiro, ele segue uma linha cristã mais tradicionalista e menos mística, mesmo que pouco ortodoxa ao retratar figuras religiosas.
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Revista Isto É

Te Contei, não ? - Você sabe ....

Você sabe ....



... que Florianópolis significa cidade de Floriano, em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto?
É importante lembrar que o elemento grego "polis" significa "cidade". Encontramos em vários exemplos, como Teresópolis (=cidade de Teresa) e Petropólis ( = cidade de Pedro, o imperador ).
Interessante é o caso da palavra metrópole, que vem do grego metrópolis e significa "cidade mãe, cidade principal, cidade grande". O metrô vem do francês métro, que é a abreviação de métropolitain, que, por sua vez, é a forma reduzida de chemin de fer métropolitain. O metrô é um meio de transporte típico de cidades grandes.
Merece destaque também a palavra cosmopolita, que se refere ao indivíduo que ora vive num país, ora noutro, adotando seus usos e costumes. É o cidadão do mundo. Um lugar cosmopolita é aquele que apresenta aspectos comuns a vários países. Vem do grego kósmos ( = mundo, universo ) + polis ( = cidade ).
E quem nasce em Salvador pode ser salvadorense, mas a maioria prefere ser soteropolitano, que vem de Soterópolis, do grego sotérion (=salvação) + polis ( = cidade ).

Sérgio Nogueira / O Dia

Entrevista - Marta Azevedo

O contato com a cultura africana que a fotógrafa brasileira Marta Azevedo teve veio por meio do seu olhar de menina e, depois, na adolescência, quando ia visitar os parentes que moravam no bairro carioca de Madureira, que fica junto ao morro da Serrinha. Lá, Marta teve acesso ao samba (quando os morros e as favelas ainda cultuavam o samba de raiz), a umbanda e o jongo. Esses elementos da cultura e da religiosidade africana ficaram entranhados dentro dela e permaneceram vivos em seu olhar. "Sempre tive o desejo de mostrar o estilo de vida dessa etnia tão marcante", revela. E lá se foram dez anos para realizar o projeto do livro, com 108 fotografias em preto e branco. Marta fotografou negros, homens e mulheres, do Brasil e dos Estados Unidos, alguns africanos recrutados pela internet. Foram 107 fotos de pessoas anônimas, quase todas humildes. A única pessoa famosa fotografada foi a atriz Ruth de Souza que, segundo a fotógrafa, foi muito gentil e solícita.
Por que esse trabalho foi realizado durante dez anos?
Quando idealizei o trabalho, eu morava aqui no Brasil. Depois fui para os Estados Unidos e lá conheci um americano. Me casei com ele. Por conta disso, fui morar lá de vez. As primeiras fotografias que tirei para esse projeto foram utilizando luz natural e eram coloridas. Não gostei do resultado e do conceito que usei nelas. Essas fotografias eram comuns e não tinham conceito definido e próprio, parecidas com o que se fazia. Então, refiz o conceito do projeto. Comecei a tirar as fotos no estúdio, com duas luzes, uma sombrinha e um fundo preto. E foi aí que nasceu o que está agora no livro Black Faces.
Qual foi a fotografia mais antiga que você usou no livro?
A primeira foto é de uma menina de Uganda que mora em Dallas, nos Estados Unidos. Essa foto é de 2007. Fotografei negros do Brasil e dos Estados Unidos. Não fui para a África. Mas nos Estados Unidos fotografei alguns africanos. No Brasil, apenas um rapaz que nasceu em Angola. A maioria dos africanos foi de sudaneses, mas há angolanos, nigerianos e ugandeses.
Você notou diferenças significativas entre os afrodescendentes americanos dos brasileiros? Dá para ver isso nas fotografias?
Muitas diferenças! Os negros americanos são muito mais agressivos dos que os brasileiros. Eles têm mais atitudes. Os negros brasileiros são mais humildes dos que os negros americanos, que se impõem mais. Acho que essa diferença de atitude se dá por causa da segregação, que nos Estados Unidos foi bem mais forte do que no Brasil. Mas se você olhar as fotos não vai perceber essas diferenças culturais, pois as pessoas posavam para mim, que já tinha uma concepção dessas fotos. Usei elementos da cultura e da religiosidade africana, como o candomblé, a umbanda, as miçangas, a palha e a argila. Como a influência da religião africana é quase inexistente nos Estados Unidos, procurei usá-los mais nos brasileiros.
Aproveitando que você está falando em religiosidade africana, como os negros americanos absorveram essas divindades religiosas?
Como eu falei, quase não se percebe a influência cultural e religiosa do continente africano nos negros americanos. Como você deve saber, quase todos pertencem a religiões protestantes. Eles só falam em Jesus e em Deus, não é como aqui que os negros falam de divindades africanas, como Oxum, Ogum, Iansã. Eles não sabem o que é isso. Para você ter uma ideia, tive que dar aulas de geografia e de história para os negros americanos. Eles não conhecem quase nada do continente africano. Não conhecem os países, não sabem da música de lá, de sua religião, dos costumes, da política. Você não vê nenhum elemento da cultura africana nos negros americanos. Mas como eu fotografei negros africanos nos Estados Unidos, tive como usar esses elementos. O que é paradoxal é que lá há muitos livros, documentários e programas de televisão que falam sobre a escravidão, sobre a cultura africana, mas os afrodescendentes não tomam conhecimento.
Por ser branca, você foi alvo de desconfianças por parte dos negros que fotografou?
De jeito nenhum, eles me trataram muito bem, tanto os negros daqui do Brasil quanto os dos Estados Unidos. Quando ia começar a fotografar, os negros americanos me falaram que eles não gostavam de brancos, mas não tive nenhum incidente com eles. O trabalho foi tão bacana que ganhei muitos amigos.
Como essas pessoas chegaram a você?
Eu recrutei a maioria pela internet. Coloquei um anúncio no meu site e aí elas foram chegando. No site tinha fotografias de outros trabalhos meus para eles terem uma ideia do que esperar. Muitas das pessoas que fotografei querem ser modelos e a maioria era formada por pessoas humildes.
Quantas fotografias entraram no livro? A maioria era de homens ou de mulheres? Por que você optou por pessoas anônimas?
Foram 108 fotografias. Acho que está meio a meio entre homens e mulheres. Em relação a minha opção por pessoas anônimas, digamos que não foi uma opção, não tive escolha mesmo. O acesso a pessoas famosas é difícil. A única pessoa famosa que entrou foi a atriz Ruth de Souza, que veio por meio de uma amiga que, na época, estava fazendo um documentário sobre ela. Mas tinha muita vontade de fotografá-la, pois ela é uma grande personalidade, uma grande atriz, a primeira mulher negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Uma mulher e tanto...
Lembro que quando a convidei, ela prontamente disse que sim e eu perguntei quando poderia ir à casa dela para tirar as fotografias. Ruth disse: "Que tal amanhã?" Foi muito bom trabalhar com ela, disposta, não reclamou de nada, uma grande dama, um grande ser humano, uma grande atriz. Ela, inclusive, foi ao lançamento do livro aqui no Rio de Janeiro.
Você pode citar alguma fotografia especial no livro?
É difícil dizer. Gostei de ter feito todas elas. O que eu poderia dizer, nesse sentido, é que gosto muito de trabalhar com argila. Então, as fotografias que tiveram esse elemento foram especiais. A argila deixa as expressões faciais mais fortes, mais expressivas. Usei argila também no corpo de alguns fotografados, mas na maioria usei no rosto.

O que as pessoas que você fotografou acharam do resultado do trabalho?
Todas elas gostaram muito, não tive nenhuma reclamação (risos), pelo menos foi o que disseram.
Houve algum incidente com alguém fotografado?
Teve um incidente que não foi apenas com uma pessoa, mas com cinco. Aconteceu aqui no Brasil. Quando eu pedi para eles usarem os elementos com que estava trabalhando nas fotografias, por exemplo, a fitinha do Senhor do Bonfim, se recusaram, dizendo que aquilo era coisa do demônio. Eles tinham aprendido isso nas igrejas evangélicas que frequentavam. Então, nem pude mais mostrar os outros elementos do candomblé e da umbanda, imagina o que eles iam achar de mim?
O que acha dessa intolerância religiosa atual?
Fiquei surpresa com essa negação da própria cultura e religião deles. Eu falei para eles que aquilo era um absurdo, pois não podiam negar suas raízes, suas histórias. Não imaginava que as igrejas evangélicas tinham crescido tanto no Brasil. Nos Estados Unidos isso fez parte da história da formação da nação deles, mas aqui não. Espero que pare por aí essa intolerância absurda.
Isso afetou de alguma forma seu trabalho?
Não, de jeito nenhum. Essas cinco pessoas não quiseram ser fotografadas e pronto, as substituí por outras, paciência. Mas diante da constatação dessa intolerância religiosa que está existindo no Brasil, mandei trocar no texto do livro a palavra candomblé pela palavra fé, para evitar algum tipo de problema.

REvista Raça Brasil

Personalidade - Mal - humorado, mas que paixão na voz!!!

"Sei que falam de mim / Sei que zombam de mim..." e como falaram do velho José Bispo Clementino dos Santos, que em 12 de maio do próximo ano completaria 100 anos! Chico Buarque de Holanda, por exemplo, naquele 14 de junho de 2008, ao saber de seu falecimento, aos 95 anos, comentou: "Meu amigo Jamelão era um imenso cantor e o melhor mau humor do Brasil." Queria vê-lo furioso? Bastava apresentá-lo como o "puxador de samba-enredo da Mangueira". A resposta vinha na lata: "Puxador é puxador de corda, puxador de carro, puxador de fumo, puxa-saco... Eu sou é intérprete."
Saruê. Era esse o apelido do garoto negro nascido em São Cristóvão, que aos nove anos engraxava sapatos, vendia jornais e, depois, aos 15, tocava tamborim na bateria da Mangueira e aprendeu a tocar cavaquinho. Ainda na infância, acompanhava a mãe, Dona Benvinda, que brincava carnaval na Escola de Samba Deixa Malhar, no Engenho Novo. O apelido Jamelão, dado quando cantava na gafieira do Jardim do Meyer, não podia ser politicamente mais incorreto. Afinal, trata-se do fruto da árvore de mesmo nome, também conhecida por jambolão, de coloração que varia do roxo ao negro e mancha tudo que toca. Nas atividades profissionais, revezava o trabalho de escrivão de polícia com o de crooner da Orquestra Tabajara.
Com seu vozeirão potente e timbre único, cantou em todas as gafieiras do Rio de Janeiro a maioria dos ritmos da Música Popular Brasileira e da latina, em especial o samba e o samba-canção. Para o compositor Nei Lopes, "se ele não tivesse uma carreira tão ligada à escola de samba, teria reconhecimento muito maior. O samba, até por questões de mercado, o deixava meio restrito ao carnaval. Mas Jamelão era o maior cantor brasileiro. Assim como se mostrou o maior intérprete de Lupicínio Rodrigues, também foi o maior de Ary Barroso. Ele imortalizou Folha Morta."

Jamais vou esquecer o dia em que perguntei a Martinho da Vila durante uma entrevista, se escola de samba tinha intérprete ou "puxador de samba". Martinho me respondeu: "No desfile de uma escola de samba, não há espaço para interpretação. A pessoa é mesmo um 'puxador', uma voz guia para a massa não perder a melodia e se orientar em que trecho está do samba. Mas, olha, por favor, não fale mal de Jamelão. Ele é um patrimônio cultural do nosso País". Prometi que não falaria e não falei.
O que a mídia desconhecia é que Jamelão era todo simplicidade. Frequentava nossos clubes. Em São Paulo, era fácil encontrá-lo no Aristocrata ou no Coimbra, no Som de Cristal, no Paulistano da Glória. Espaços negros e populares. No Rio, era o Renascença, eram as gafieiras. Mas ele odiava badalação, pedido para dar uma canja, gente que vinha "tietar", pedir autógrafo ou posar para foto. Passava a noite toda sentado, com alguns elásticos ora no pulso ora na mão.
Apesar de ser o compositor de pelo menos meia centena de sambas, como "Quem samba fica, quem não samba vai embora", seu forte mesmo era a interpretação. De 1949 a 2003, gravou 77 discos, sem contar participação em álbuns coletivos. Também de 1949 até 2006 foi a voz da Mangueira. Diabético e hipertenso, seus cochilos em locais públicos, como bares com música ao vivo e quadras de escolas de samba, tornaram-se folclóricos. Um deles, em especial, aconteceu em 2001, no Palácio da Alvorada, após o presidente Fernando Henrique lhe entregar a medalha da Ordem do Mérito Cultural. Começaram os intermináveis discursos e ele dormiu na cadeira. Esse era o Jamelão, a mais bela e encorpada voz do Brasil. Podia cochilar, podia responder com grosseria, podia tudo. Só não podia se calar e deixar a gente com essa imensa saudade.

Revista Raça Brasil

Te Contei, não ? - Com a marinha a seus pés

Não. O lado humano nada tem a ver com a instituição, mas com parte de seus integrantes. Mais precisamente sua infantaria, os valorosos e sofridos Fuzileiros Navais. Descobri isso por meio do blog Coisa de Naval, de Gil Cordeiro Dias Ferreira, e do maravilhoso livro Mulheres Negras do Brasil, uma obra fundamental de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, publicada pela Editora Senac,em parceria com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh). Tirei essa conclusão ao tomar conhecimento da existência de Paula, a Baiana (seu nome verdadeiro, nem um nem outro revela), provavelmente do Recôncavo, como muitas que seguiram ainda jovens para o Rio de Janeiro, no século 19. Consta que sua chegada na então Capital Federal se deu em 1895. E ela foi residir numa pequena casa alugada no subúrbio de Rocha Miranda, na zona norte do Rio de Janeiro. Quituteira de mão cheia, Paula levava seu tabuleiro à porta do Cor¬po de In¬fan¬ta¬ria da Ma¬ri¬nha, na Ilha das Co¬bras, para vender aos militares esfaimados bo¬li¬nhos de ta¬pi¬o¬ca, pés de moleque, cus¬cuz, la¬ran¬jas e ba¬na¬nas, entre outras guloseimas. João Cândido certamente a conheceu. Aquela negra cativou não só a marujada, mas também o pessoal do clube dos oficiais. Assim, ela foi autorizada a montar sua pequena cantina, conhecida como Mafuá da Baiana, no pátio do Batalhão Naval.

Perfilava-se, ao lado do tabuleiro, diante das altas patentes e, aos poucos, foi conquistando respeito e admiração. Em datas cívicas, como o 7 de setembro e o 15 de novembro, vestia sua saia branca engomada, seu dólmã vermelho com botões dou¬ra¬dos, ajeitava seu turbante branco e sobre ele a cesta de vime em que carregava seus quitutes. Considerada madrinha da Infantaria, era Fuzileira Honorária e marchava ao lado das tropas, aclamada pela população. Quando não estava vendendo ou preparando as guloseimas, Paula lavava roupas na Cova da Onça, hoje uma tradição na Fortaleza São José, na Ilha das Cobras. Ao falecer, em abril de 1935, foi homenageada pelo Batalhão Naval que cruzou os fuzis cobertos de flores brancas e vermelhas sobre sua sepultura. Um bonito gesto por parte de integrantes dessa instituição de 190 anos, fundada após a Independência do Brasil. Infelizmente, em nome da segurança nacional, ela arranca famílias - com violência - de tradicionais terras quilombolas e perde a oportunidade de conhecer e reconhecer centenas de outras Paulas Baianas

Revista Raça Brasil

Te Contei, não ? - Memória encarcerada


Palácio. Em obras de recuperação da fachada e do telhado, o prédio eclético de três andares que abrigou o Dops, na Rua da Relação, é vizinho da atual sede da Polícia Civil (ao fundo, à direita)
Foto: Foto: Carlos IvanDois projetos para um só prédio. Enquanto a Polícia Civil arquiteta a reforma do Palácio da Polícia Central, no Centro, antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), para a criação de dez lojas e 18 salas comerciais, entidades de direitos humanos e a Comissão Nacional da Verdade, ligada à Presidência da República, reivindicam que a construção abrigue um memorial da repressão no Brasil. O prédio na Rua da Relação 40, um dos principais destinos dos presos políticos na ditadura de Getúlio Vargas e no regime militar, segundo o projeto da polícia, manteria traços desse passado apenas no segundo andar: lá seria preservada e aberta para visitação a carceragem que recebeu nomes como Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Mas, para ex-presos políticos e entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), o uso comercial significa apagar parte da história política do país.
No mesmo pavimento da carceragem, segundo o subchefe de Polícia Civil, delegado Sérgio Caldas, ficariam o Museu da Polícia Civil — que funcionou no espaço entre 1999 e 2010 —, um auditório para uso da corporação e um gabinete simbólico do chefe de Polícia, além de sete salas comerciais para locação. No andar abaixo, haveria mais 11 salas do mesmo tipo e um café. No térreo, seriam criadas dez lojas para aluguel a restaurantes e outras atividades comerciais, e haveria 3 quiosques.
— É um prédio que tem muito a dar em termos de história, mas também em interação com a comunidade e em recursos financeiros para nossa manutenção. No térreo, teremos salões de beleza, restaurantes, papelarias, coisas úteis para quem vai transitar ali — diz Caldas. — A carceragem será reformada, preservando as características originais. Luiz Fernando Pezão (vice-governador) entende que o caráter histórico vai ser respeitado no nosso projeto.
Vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, que ficou presa no Dops e foi torturada em uma de suas salas de interrogatório, classifica o projeto de perversidade histórica:
— É uma política para promover o esquecimento, uma junção de shopping com o Museu da Polícia. Inimaginável no momento em que o governo federal tenta esclarecer o período da ditadura.
Destino indefinido, segundo estado
Ainda segundo Caldas, o governo estadual dará isenção fiscal às empresas que financiarem a reforma interna do prédio, orçada em R$ 7 milhões. Ela foi elaborada pela construtora WTorre, que toca as obras na fachada e no telhado da edificação, como parte das melhorias no entorno das torres erguidas pela empresa para abrigar a Petrobras, ali ao lado. Aprovado pela chefe da Polícia Civil, a delegada Martha Rocha, o projeto seguirá para avaliação do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, que tombou o prédio em 1987.
Coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Claudio Fonteles encaminhou em outubro ofícios ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes recomendando que o prédio deixasse de abrigar o Museu da Polícia Civil — que saiu para as obras da WTorre — e fosse convertido num memorial, com atividades culturais. Fonteles não teve resposta. Para ele, não há sentido em fazer ali um negócio privado:
— Lamento profundamente. Temos que usar esse prédio para marcar nosso repúdio ao estado ditatorial militar.
O governo estadual confirmou, em nota, que recebeu a solicitação e informou: “Esse imóvel está afetado ao uso da Polícia Civil, que pretende transformá-lo num museu, mas para o qual não há ainda projeto. O governo ainda não definiu a destinação do prédio”. O prefeito não comentou a questão.
Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous pede que o estado abra um debate amplo sobre o futuro do prédio:
— Juridicamente, ele pertence à polícia, mas politicamente pertence à história do país. Falta essa sensibilidade.
As entidades querem evitar um desfecho parecido com o do presídio Punta Carretas, em Montevidéu, que recebia os opositores da ditadura uruguaia e foi transformado num shopping