quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Te contei, não ? - Uma noite na Cracolândia - Walcyr Carrasco




  São 11 horas da noite de uma sexta-feira. Estou em frente à Estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo. O desembargador Antônio Carlos Malheiros chega acompanhado de sua mulher, Cristina. Junta-se a nós o pastor evangélico Daniel Checchio, acompanhado de dois jovens missionários. Vamos percorrer a Cracolândia sozinhos, sem escolta policial. São poucas ruas no bairro dos Campos Elíseos, onde os cachimbeiros, noias, zumbis, como se chamam os viciados em crack, instalaram-se. Quem manda é o crime organizado, cuja lei não escrita determina que lá só se pode comercializar crack, mesclado (com maconha) ou óxi (uma droga próxima ao crack, em cuja composição entra querosene – mais barata e mais letal). Os preços: R$ 5 a pedra de crack, R$ 3 a de óxi. Sem escolta, vamos sentir a realidade da Cracolândia na pele. Andamos poucas quadras. Paro espantado na esquina da Rua Helvétia. Vejo uma montanha de lixo. Cerca de 700 pessoas esquálidas, sujas, em farrapos, estão encostadas às paredes, nas sarjetas ou andando na rua. Dois grupos tocam pagode. O cheiro de urina e de metal queimado – vindo dos cachimbos aquecidos pelo crack – invade minhas narinas, gruda-se em minha pele. Um carro vermelho para. O motorista faz um sinal. Um homem entrega um pacotinho com algumas pedras. O motorista paga e parte. Alguém bate em meu ombro, me cutuca as costas. Não me viro. Há casarões invadidos. As janelas e portas foram fechadas por tijolos. Mas nas paredes foram cavadas imensas aberturas. Em um casarão, fico sabendo, moram de 200 a 300 pessoas. Descubro que estou numa feira miserável. No chão, acumulam-se sapatos velhos, latas de sardinha abertas, pilhas, eletrônicos, pães de queijo murchos, tomates quase podres. Ironicamente, entre a miscelânea, uma revista de alta gastronomia. Ergo os olhos e vejo a pichação: WELCOME TO CRACKO CITY Sinto um arrepio. Neste mundo com leis próprias, um olhar mal interpretado pode resultar em golpes de estilete. Mas é impossível não observar. No meio de um grupo de adolescentes acampado entre cobertores rasgados, vejo uma menina de uns 15 anos, o olhar perdido. – Deveria estar na escola, constato. Um casal de negros vende roupas expostas no chão, surpreendentemente limpas. Senta-se num sofá na calçada. – É onde moram, diz Daniel. Aqui a casa das pessoas é o espaço que conseguem na rua. Neste mundo com leis próprias, um olhar mal interpretado pode resultar em golpes de estilete Na outra calçada, uma jovem de costas me chama a atenção. Mechas loiras. Veste um bustiê preto e jeans. Olho para seus pés. Botas de camurça. Novas. Provavelmente, de shopping. Ela se volta em minha direção. A pele de seu rosto é dourada, adorna as orelhas com argolas de prata. É linda e muito jovem. Certamente, há pouco tempo ainda morava com a família, tinha a cama arrumada, almoço e jantar, passava temporadas na praia. Agora está ali: os cabelos já sujos, a aparência decaí­da. Encaminha-se para um grupo de homens cadavéricos, imundos. Eles acenam. Ela fará tudo por algumas pedras. Um homem com uma facada na testa surge na esquina. Pede socorro. Sangra. Um dos missionários o leva a um posto médico a algumas quadras. Aproxima-se de nós um rapaz de uns 30 anos. Conta que chegou a ficar um tempo livre das drogas. Recaiu, não pela primeira vez, há 28 dias. – Não vou sair dessa – afirma. Vem de uma família de classe média. Fala corretamente, é bem articulado. Foi corretor de seguros. Há seis anos está nas ruas. Vive de pedir dinheiro na rua. Vende coisas que cata no lixo. – Sou soropositivo há nove anos. – Se você quiser ficar limpo, a gente pode ajudar, diz Malheiros. – Já tentei, não dá. Eu tenho todos os documentos. Mas perdi a identidade. Nossa noite na Cracolândia só reafirma a decisão do desembargador Malheiros. Vai implantar tribunais de rua. Usar a autoridade do Judiciário para conseguir reconduzir crianças para suas famílias ou encaminhar para abrigos. Doentes para vagas no sistema de saúde público. Quer entender esse mundo antes de iniciar o projeto. O pastor Daniel aplaude: – Toda noite morrem pelo menos três pessoas aqui. Mas não adianta algum político mandar a polícia expulsar as pessoas, simplesmente. É preciso um trabalho social. Volto para casa. Ficamos quase três horas na Cracolândia. Sinto meu corpo pesado. Passo o resto da noite olhando as estrelas do meu terraço. Tenho vontade de chorar. É doloroso conviver com a miséria humana.

Te contei, não ? - O que é uma alimentação saudável ? - Jairo Bouer


 Já imaginou se, de um dia para outro, o preço de alguns alimentos que você está acostumado a comprar em supermercados, como queijos, manteigas e doces, subisse até 20%? Desde o início de outubro, a Dinamarca passou a taxar alimentos com mais de 2,3% de gordura saturada em sua composição. Outros países já cobram impostos sobre alimentos com açúcar e calorias em excesso. É uma tentativa de frear a epidemia de obesidade, que toma conta de boa parte do Ocidente. A estratégia desses governos é a mesma usada com bebidas alcoólicas e cigarro, categorias de produtos que fazem mal à saúde. Do ponto de vista prático, o que cada um pode fazer para manter uma alimentação mais saudável, evitar ganho de peso e não ter de pagar a conta com sua saúde ou nos caixas dos supermercados? ■ Em junho deste ano, o governo americano trocou o tradicional modelo da pirâmide alimentar por um mais simples, chamado de MyPlate (ou Meu Prato). Um prato dividido em quatro porções simboliza o que é recomendável para alguém comer numa refeição. Uma porção de frutas, uma de verdura, uma de proteínas não gordurosas (como carnes magras) e uma de grãos ou cereais integrais. Para acompanhar, um copo que representa uma porção de laticínio com pouca gordura. ■ Atenção para as porções de cada grupo de alimentos. Hoje, recomenda-se a ingestão de uma quantidade de fibras e grãos maior que a de proteínas de origem animal. Esta deve ser superior à de carboidratos e gorduras. ■ Evite se alimentar diante da TV ou do computador. Quem come trabalhando ou distraído tende a comer mais. Da mesma forma, não encare a ida às redes de fast-food como atividade de lazer com os filhos. Desse jeito, a família toda pode engordar! ■ Não confunda alimentação pouco calórica com saudável. Você pode ingerir alimentos com poucas calorias, mas ricos em gorduras saturadas (piores para a saúde que as insaturadas). Preste atenção às taxas de gordura saturada e de sódio (sal) nos rótulos dos alimentos e prefira aqueles com teores mais baixos. ■ Na medida do possível, prefira alimentos naturais (que você prepara em casa) aos industrializados. Dessa forma, você poderá ter mais controle sobre a qualidade do que ingere. Não existe uma receita para todos. Conquistar uma alimentação nutritiva e saudável é um processo que deve ser feito pelo nutricionista, de acordo com as características e necessidades individuais. Cada prato é um prato.

Te contei, não? - "Como a internet me ajudou a vencer o câncer" - Revista Época



O jornalista americano Andrew Schorr usou a rede para superar a leucemia e o medo 

ANDREW SCHORR 

"Soube que estava com leucemia em 1996, aos 45 anos. Na época, meus filhos, Ari e Ruth, tinham 6 e 2 anos. E planejávamos o terceiro. Sou jornalista, tenho uma empresa de comunicação e moro em Seattle, nos Estados Unidos. O primeiro sinal da doença apareceu quando fazia minha corrida matinal. Passei a mão no rosto e senti que estava escorrendo sangue pelo nariz. Dias depois, aconteceu de novo. O primeiro médico que procurei, Peter Littlewood, me disse que provavelmente não era nada e me pediu um exame de sangue. No mesmo dia, me ligou. A contagem de células brancas (leucócitos) estava alterada como se meu corpo estivesse lutando contra uma infecção recente. Fui encaminhado para o oncologista Eric Feldman, que me pediu novos exames e confirmou que eu estava com leucemia linfoide crônica (LLC). Quando se descobre uma doença como o câncer, a primeira reação é não acreditar. Depois, chega o medo. É difícil não imaginar o pior. Pensava em meus filhos. Como eles cresceriam sem o pai? Como minha mulher, Ester, faria para cuidar de tudo sozinha: a educação deles, a casa, as finanças. São inúmeras dúvidas misturadas com o medo e a tristeza. Meu oncologista me explicou que a doença evolui devagar, mas é incurável. Eu faria quimioterapia imediatamente. Fiz, então, o que muita gente faz e o que muitos médicos detestam: fui para a internet procurar informações sobre a doença. O primeiro passo era encontrar fontes confiáveis. Comecei minha busca pelo site da Acor, sigla em inglês da associação que oferece informações on-line sobre câncer. Encontrei artigos que me levaram a outros endereços. Deparei com outras pessoas que tinham o mesmo problema que eu. Soube de suas histórias pessoais, do tratamento que fizeram. A descoberta dessas pessoas teve um efeito calmante sobre mim. Não estava sozinho. Passei a trocar mensagens com elas. Vi como levavam uma vida normal, como mantinham a doença sob controle. Foram meus amigos on-line que me recomendaram o médico Michael Keating, do Centro de Câncer MD Anderson, em Houston – referência no tipo de leucemia que eu tinha. Keating me disse que essa doença pode ficar estável por muitos anos e poderia até não ser tratada, desde que acompanhada regularmente. Sugeriu que eu não deveria fazer quimioterapia naquele momento. Fiquei chocado e feliz ao ouvir isso. E mais: ele nos incentivou a tentar o terceiro filho. Um ano depois, nasceu nosso filho Eitan, que hoje está com 14 anos. Em 2000, fiz quimioterapia-padrão e tomei um remédio experimental. Hoje, não apresento mais células de leucemia detectáveis. Em 2005, criei o site PatientPower, com vídeos e entrevistas com os melhores especialistas de saúde, além de depoimento de pessoas que convivem com doenças crônicas. Em julho, publiquei The web-savvy patient: an insider’s guide to navigating the internet when facing medical crisis (algo como O paciente ligado na web: guia para navegar na internet na hora de uma crise médica). O livro é um guia com dicas para filtrar os resultados das buscas. Nada substitui um bom médico. Mas, com bom senso, encontramos informações e amigos valiosos na rede. Graças a essa ajuda, tenho qualidade de vida com minha família, meus dois cães, dois gatos e uma doença controlada."

Crônica do dia - Só mais dinheiro não resolve - Gustavo Ioschpe



As três últimas tentativas de fazer um teste para alunos concluintes do ensino médio viraram caso de polícia. Mas esse pode ser o menor dos problemas do ministro da Educação, Fernando Haddad. No MEC de Haddad, a solução para todos os problemas é sempre a infusão de mais dinheiro público em uma máquina perdulária e incompetente. A marca do bom gestor é fazer mais com menos. Haddad é a antítese disso, pois, ao tempo em que o orçamento do MEC explodia, a qualidade do ensino piorava. O ministro gosta de vender como uma vitória da educação o fato de, nos últimos dez anos, o orçamento do MEC ter ido de 19 bilhões de reais para 69 bilhões de reais. Enquanto o dinheiro público jorrava, a qualidade do ensino no Brasil se deteriorava, conforme mostram os números dos levantamentos anuais do Sistema de Avaliação da Educação Básica. Em cinco do total de seis desses levantamentos fica evidente a queda de qualidade. É muito dinheiro para tão pouco resultado. Vejamos as razões disso. O programa do MEC de merenda escolar passou de 1,5 bilhão de reais em 2006 para 3,2 bilhões de reais neste ano. O gasto mais que dobrou, mas o número de alunos atendidos aumentou apenas 25% no mesmo período. O Enem é outro caso. A razão pela qual os problemas se repetem há três anos é que seu formato é um convite à falha. É inviável fazer apenas um teste simultâneo por ano, em todo o país, para selecionar os alunos das universidades federais. O MEC argumenta que a culpa do "acidente" deste ano foi a ação criminosa de um professor. Correto. Nenhuma atividade está livre da ação de criminosos. Mas a frequência com que ocorrem problemas no Enem desafia a paciência de alunos e pais de alunos. Desafia a inteligência entender por que o MEC não adota um sistema de aferições feitas em datas variáveis com base em um banco de questões com mais de 40000 delas, de modo que possam ser montadas provas diferentes mas com a mesma capacidade de avaliação do aluno. Hoje, o banco de perguntas do Inep tem apenas 6000 questões. A empresa que fez o pré-teste do Enem foi contratada sem licitação e cobrou quase sete vezes mais do que no ano passado. A previsão de gastos totais da prova para este ano é de 238 milhões - um custo de 45 reais por inscrito. Sabem qual foi o custo das eleições de 2010? 3,61 reais por eleitor. Ou seja, um doze avos do custo per capita do Enem. Apesar do baixo custo, os resultados das eleições saem no mesmo dia, e sem contestações judiciais de monta. Outro programa inflado é o Prouni, que dá isenções fiscais às universidades particulares que concedem bolsas a alunos carentes. Por que razão O MEC precisa recorrer à iniciativa privada, que responde por cerca de 70% das matrículas do sistema de ensino superior, ignorando seu próprio sistema de universidades federais? Trombeteado como uma redenção, o programa atinge 250000 alunos, o que representa apenas 1% da população brasileira em idade universitária. Apesar das lindas cerimônias de inauguração de universidades federais em locais inóspitos e dos bilhões de reais gastos anualmente para manter as escolas federais, elas continuam um reduto de pouquíssimos, respondendo por 15% do total de matrículas. ou 3% da população em idade universitária. Mais uma vez o que se tem são gastos elevados produzindo resultados pífios e um sistema que apresenta distorções inexplicáveis. Enquanto a relação aluno por professor é de 17 nas instituições privadas, nas universidades federais, é de apenas 10. Essa diferença é didática. Uma maneira de expandir rapidamente o número de alunos nas universidades federais seria simplesmente abrir mais vagas e admitir mais alunos. Se um professor de universidade federal desse aulas para o mesmo número de alunos do seu colega da rede privada, a capacidade do sistema oficial de ensino superior praticamente dobraria quase sem custos para os pagadores de impostos, correto? Corretíssimo. Para isso, é preciso enfrentar as resistências corporativas das universidades federais - e isso o atual ministro não faz, pois comprar essa briga atrapalha seu projeto político. Haddad é um bravo apenas na hora de gastar dinheiro público e agradar às corporações. Nove anos depois da queda do Muro de Berlim, em 1998, Haddad escreveu um livro intitulado Em Defesa do Socialismo. Naquele ano, o mundo experimentava já a explosão de produtividade trazida pela populalização da internet e a China já fazia o maior resgate de pessoas da miséria da história humana justamente por ter abandonado o socialismo. No livro, Haddad sustenta que a ideia de que uma pessoa comum possa ser capaz de escolher o que é melhor para si não passa de delírio. Para o socialista tardio Haddad, o povo só avança quando guiado por iluminados líderes socialistas. Escreve ele: "Ao invés de tomar o mercado como um provedor de sinais que indica ao capitalista o que os indivíduos desejam, visão fantasiosa do processo real, os cidadãos, através de seus representantes, devem encontrar uma forma de sinalizar os bens que desejam que sejam objetos de desejo". Chama mais atenção a pobreza da sintaxe do que a indigência das ideias? É difícil responder. Haddad surpreende mesmo é em sua interpretação sobre a inovação tecnológica, chave do desenvolvimento. Ele não vê valor nela: "A atividade inovadora, ao contrário do falta muito para a vida dos estudantes brasileiros melhorar efetivamente trabalho qualificado, não produz valor. A internalização da ciência ao processo produtivo por meio da contratação, pelo capital, de agentes inovadores não muda o fato de que, por exemplo, o "custo de concepção" de uma nova mercadoria não se confunde com o "custo", medido em trabalho social, de reproduzi-Ia industrialmente, que é a única medida do seu valor". É um assombro. Na visão de Haddad, a ciência aplicada original e inovadora não tem valor, o que conduz à inevitável conclusão de que, para ele, a atual Era do Conhecimento é apenas mais um estágio decadente a ser superado pelo socialismo. Pela mesma visão, a educação - e a imprensa livre que dissemina o conhecimento produzido por ela - precisa ser controlada pelos líderes socialistas. Isso tudo nove anos depois de essas mesmas ideias terem causado a implosão do sistema soviético. Para ser justo temos que admitir que o ministro não deve mais rezar pela cartilha ideológica de seu livro de mais de duas décadas atrás. Mas ele não conseguiu reformular o ensino básico. Vai deixar os alunos brasileiros tão analfabetos quanto os encontrou. Seu maior êxito foi talvez o de instituir a obrigatoriedade do ensino de filosofia e sociologia (leia-se: a pregação esquerdizante) no ensino médio, para depois, em manobra diversionista que deixaria seus heróis de vinte anos atrás orgulhosos, reclamar do inchaço do currículo naquele nível.

A Crônica do dia - A síndrome do natal - Walcyr Carrasco


A pior coisa do Natal é a obrigação de ser feliz. Haja data complicada. À medida que os dias de dezembro são devorados pelo calendário, a pessoa se defronta com a questão inexorável: onde passar o Natal? Com quem? É mais cruel que o Carnaval. Sim, nos dias de Momo também impera a obrigação de exalar felicidade. Os precavidos entram numa escola de samba meses antes e desfilam na avenida. Em última análise, os solitários podem comprar ingresso para um baile, saltitar num bloco ou rasgar a fantasia num trio elétrico. Até mesmo se faz retiro espiritual. É socialmente aceitável. O Natal é bem mais exigente. Há de ter alguém para partilhar a data. Ou a pessoa sente que tem alguma coisa errada. Pode parecer uma visão bem negativa do Natal. Admito que é. Já passei pelo trauma. Meu pior Natal foi aquele em que toda a minha família decidiu comemorar na casa de meu irmão Ney. Minha mãe ainda era viva. Eu morava numa chácara distante, de difícil acesso na época, a mais de 200 quilômetros da casa fraterna. No final da tarde do dia 24, quando provavelmente o peru já estava no forno e minha cunhada Bia, excelente cozinheira, tirava um pudim da forma, tomei banho, me arrumei e entrei no carro repleto de presentes. Dei a partida. E o traidor do carro não pegou. De jeito nenhum. Um vizinho até me ajudou a empurrá-lo ladeira abaixo, para ver se funcionava. Não teve jeito. Mecânico em final de tarde do dia 24 era impossível. Meu seguro não oferecia ajuda do tipo. Voltei para casa. Telefonei avisando que não ia. E fritei dois ovos para passar a noite de Natal. Teria me conformado se não fossem as luzes nas casas mais próximas. O som de risadas. Alegria. Meu espírito natalino foi para o ralo. Nunca tive tanta raiva da felicidade alheia. Confesso, desde então peguei certo trauma do Natal. Não sou o único. Tenho um amigo cuja família simplesmente não se importa com a data. É raro, mas existe. Na infância, poucas vezes ganhou presentes. Mesmo assim, das tias. Encontrou uma maneira especial de passar pela noite fatídica sem pensar em suicídio – cujo número costuma crescer na data. Arrumou trabalho como Papai Noel em ceias particulares. Famílias ricas costumam contratar atores para alegrar as crianças enquanto se esbaldam nos comes e bebes. De barriga falsa, barba e gorro, meu amigo circula de mansão em mansão. Passa a noite levando alegria aos pequeninos. Ou tentando. – Em muitas casas, as crianças estão tristes. Entro, faço “ho ho ho” e ninguém dá a mínima. Dezembro é o mês da síndrome natalina, aquela obrigação de exalar felicidade. Dá para se libertar dela? A mídia pressiona: no Natal é preciso confraternizar com os seus. Não fazê-lo é uma derrota. A cultura ocidental reforça esse sentimento. Um dos mais famosos textos do britânico Charles Dickens, do século XIX, chama-se, não por acaso, “Conto de Natal”. É a história do avarento Scrooge, que, com a visita do fantasma de seu antigo sócio, Marley, confronta-se com a própria solidão. Mais trágica é a “Menina dos fósforos”, do dinamarquês Hans Christian Andersen, também do século XIX. Sozinha na noite fria, a garota vê as pessoas comemorar a data através das janelas. Morre, gélida, sonhando com um Natal onde possa ser feliz. Diante de tais patrimônios literários, que lemos ou a que assistimos em versões cinematográficas desde criança, quem se atreve a dizer que não se importa? Pode até fingir. Mas se importa, sim. A competição para evitar rusgas familiares torna o trânsito da noite perigosíssimo. Mães, sogras, avós, tias, madrinhas exigem como prova de amor que filhos, noras, genros, netos, sobrinhos e afilhados façam pelo menos uma visitinha durante a ceia. O resultado são comboios vagando de endereço em endereço para entregar o presente, trinar amenidades e voar em direção ao próximo parente. Um cansaço. Pior é ir à festa da família alheia. Reforça o sentimento de exclusão. Passar sozinho é mico, já disse. E depois fica dificílimo explicar aos amigos que tudo está bem. Suportar os olhares de dó. Não ganhar coisa alguma depois da maciça campanha publicitária que nos faz relacionar presente com amor? Impossível. Quem se separou, tem família distante, perdeu alguém ou nunca teve apavora-se em dezembro. É a síndrome natalina. Já quis me libertar dela. Não consegui. Lutar contra séculos de felicidade obrigatória? Não dá. Prefiro me organizar com antecedência. É o melhor. Para na noite em questão não cair na armadilha de fazer uma revisão da vida inteira e arrancar os cabelos ao som de “Jingle bells”.

A Crônica do dia - Guaraná sem gás e carne de bode - Ruth Aquino



Por que a Eta Bebidas do Nordeste, uma fabriqueta de guaraná em copo, não gaseificado, com sede em Pernambuco, pagou R$ 130 mil de consultoria a Fernando Pimentel? Por que a Eta negou o contrato e, no dia seguinte, voltou atrás? O que Pimentel sugeriu como estratégia, já que a fábrica está em processo de liquidação? Por que o superconsultor Pimentel resolveu dar um gás numa bebida de R$ 0,50 que fazia propaganda no Ratinho e contratava meninas em jogo do Sport com o Santa Cruz? Afinal, ele assessorava a Federação das Indústrias de Minas e os consórcios de construtoras que farão obras na Copa. Eta ferro, ministro. Olhando de fora, nada disso parece fazer o menor sentido em seu currículo. Mas Pimentel acha que faz, como afirmou a ÉPOCA (leia a entrevista). Entendo que, “para sobreviver”, a consultoria privada fosse o caminho óbvio para quem estava fora do poder formal, em 2009 e 2010. Entendo que tenha recebido R$ 2 milhões (declarados) em pouco menos de dois anos. Seu passe era alto. Pimentel não era um desempregado qualquer. Ele coordenava a campanha da conterrânea mineira, candidata de Lula à Presidência. Era candidato ao Senado pelo PT. Tinha sido prefeito de Belo Horizonte e aliado de Aécio Neves na coalizão mineira. Pimentel é um ministro elegante. É peso-pesado, por ser tão próximo de Dilma, desde os tempos de luta em que a presidente tinha aquela carinha bonita da foto que ÉPOCA divulgou na semana passada. Ele não vocifera. Não esbraveja. Não chora em público como outro colega ameaçado, Mário Negromonte, das Cidades, que se gaba de ter comido “muita carne de bode”. Não se mete com festas em motéis, não constrange Dilma com declarações de amor. Tem mais classe que o bloco dos destituídos de 2011. Se algo emerge dos escândalos, é o baixo nível do alto escalão. Enquanto os ministros estavam ali quietinhos no Planalto, mamando nas tetas do país, sem dar entrevista, não se imaginava que eles mal soubessem falar. São esses personagens os mais altos representantes do governo brasileiro? Depois há quem reclame que a presidente perca a paciência. Pimentel é um ministro elegante, não vocifera como seu colega das Cidades. Mas seu caso também não cheira bem Pimentel não silenciou sobre seus clientes de consultoria como Palocci, o enigmático ex-chefe da Casa Civil que entrou mudo e saiu calado. Não foi acusado, como Rossi, da Agricultura, de contratar lobista nem bandido para sua pasta. Não pesam contra ele denúncias de desvio de dinheiro público, propinas ou convênios irregulares com ONGs. Assim foram derrubados Nascimento, dos Transportes, Novais, do Turismo, Silva, do Esporte, e Lupi, do Trabalho. Ufa! O que poderia tirar Pimentel do bichado ministério de Dilma é algo mais sutil. Chama-se tráfico de influência. É aquele terreno pantanoso das relações entre o poder público e o capital privado. Até agora, nada do que foi levantado contra Pimentel é ilegal, por não ter sido praticado no exercício do cargo. Não o ajuda, porém, o pedido de demissão de seu ex-sócio na empresa de consultoria, Otílio Prado, que continuava como assessor especial do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda. Otílio se sente culpado de quê? Também não é bom para Pimentel que sua empresa de consultoria continue aberta, embora inativa. Mas, se nada de mais grave surgir, dificilmente ele cairá. Pimentel está na cota de Dilma. Ela vai protegê-lo. O problema deixou de ser Pimentel ou Negromonte. Há uma desconfiança geral no sistema. Quando o governo federal precisa explicar por escrito aos Estados que verba de Saúde tem de ser gasta na Saúde, e não desviada para outros fins. Quando o líder do governo na Câmara, Candido Vaccarezza, acha a coisa mais normal do mundo ser “funcionário fantasma” e não aparecer para trabalhar. Quando políticos não veem nada antiético em embarcar em jatos de empresários ou comprar votos. Quando o mérito deixa de ser um critério e perde para o apadrinhamento. Quando nada acontece com corruptos. O povo não quer mais pagar pela farra pública, presidente Dilma. A Câmara prepara aumentos de R$ 386 milhões. O que fazem os 10 mil secretários parlamentares nos gabinetes da Câmara? O que faz essa gente? São 1.200 cargos especiais, com salários de até R$ 12 mil. A verba de gabinete de cada deputado é de R$ 60 mil por mês e pode subir para R$ 90 mil. Como se justifica isso para o contribuinte? Por que essas pessoas podem aprovar aumentos para si mesmas com nosso dinheiro? Como, numa recessão mundial, o Executivo poderá manter 39 ministérios e 23.500 assessores de confiança? Dilma, se sua maior qualidade for mesmo a gestão responsável, aí está a oportunidade de fazer história – e não só faxina.

A Crônica do dia - A família muda - e o amor também - Ruth Aquino




O que todo mundo já sabia, por si só ou pelos amigos e parentes, acaba de ser comprovado pelo IBGE. Os divórcios e os recasamentos bateram recorde no Brasil no ano passado. Não é só porque estamos mais inquietos e egoístas, menos tolerantes com o outro, mais ansiosos para buscar a felicidade, mais abertos a desejos e fantasias, menos dispostos a engolir os sapos de uma relação que não deu certo – ou deu certo durante um tempo.
Que seja infinito enquanto dure, dizia o poeta. E, para 243.224 casais brasileiros no ano passado, o divórcio abriu caminho para uma solteirice temporária ou uma nova união. O “até que a morte os separe” deixou de ser uma bênção. Amedronta. Alguns noivos pedem que se pule essa parte no sermão. Casamento é opção, não prisão perpétua. Recasar não significa começar de novo, mas continuar na mesma estrada.
A mudança na lei arejou os costumes. Até 2009, o divórcio só era possível após um ano de separação judicial ou dois anos de separação consumada, quando homem e mulher não estão mais juntos, mas são considerados ainda casados pela Justiça. Se não há filhos menores ou disputa, agora é possível descasar em minutos, é instantâneo como uma injeção, às vezes dói, às vezes alivia a dor.
Se o amor foi um dia verdadeiro, o divórcio entristece por um tempo, produz manchas roxas na alma. O consenso é uma forma civilizada de continuar amigos, quando um quer mais se separar que o outro. Não sei se estão todos mais felizes. Alguns sim, outros não. Há viciados em recasamentos. Filhos sofrem, sim, com essas mudanças de parceiros. Sofrem mais se os pais brigam e continuam infelizes e resignados até se ver a sós de novo e se divorciar aos 60 anos.
Percebo na nova geração uma vontade romântica de provar aos pais modernos que o casamento pode durar tanto quanto o dos avós, para sempre. Mas há também uma turma apressada que se junta sem se conhecer e acaba separando em um mês ou seis meses. São uniões relâmpagos que ensinam no tranco. O casamento, por amor ou fantasia, sempre serviu de atalho para a maturidade. Hoje, muitos jovens não têm mais ideia das concessões que uma união exige. Não aprendem porque não veem mais isso em casa. O núcleo familiar se diluiu, o convívio deixou de ser regular ou forçado. As relações são mais libertárias, mais pressionadas pelo trabalho de pai e mãe fora de casa. Não acho hoje mais fácil ou mais difícil manter um amor ou educar os filhos direito. Sempre foi complicado. Mas o sacrifício em nome das aparências, tão típico das famílias classe média de Nelson Rodrigues, parece não fazer mais sentido.
Não casei no papel, nunca dei festa, mas tive dois filhos, de dois homens que eram meus amores e com quem eu dividia casa, cumplicidade, projetos e esperanças. Acho rica e emocionante a experiência de morar junto quando se gera um filho. Prefiro relações estáveis a ser freelancer. É um privilégio estar apaixonada. Namoro há 20 anos o mesmo homem, cada um em sua casa. Nunca pensamos em morar juntos. Achamos impossível conciliar o encantamento à convivência obrigatória. Temos medo das cobranças, desrespeitos e ressentimentos que envenenam tantos casais. Os namorados não estão imunes ao desgaste do tempo, mas se protegem melhor. É raro encontrar casais felizes há muito tempo juntos – mesmo entre os que recasam. Claro que eles existem. É preciso ter sorte, criatividade, paciência, muito amor e tesão.Não tenho nenhum amigo ou amiga que ainda esteja no primeiro casamento. Eles e elas estão no segundo, terceiro ou quarto casamento. Alguns têm filhos de várias uniões. Outros estão solteiros. Ou estão com alguém, mas em casas separadas. A credulidade e o ceticismo com o casamento variam com a experiência, as crenças e o temperamento. Nunca vi qualquer sentido em casamentos oficiais, documentos assinados, compromissos públicos firmados ou juras no altar. Não creio na regulamentação dos sentimentos. Nunca sonhei em casar de branco ou de charrete. Não me considero menos romântica por causa disso. Adoro rever Notting Hill, com Julia Roberts e Hugh Grant, e me emociono com declarações de amor.
O psicanalista britânico Adam Phillips, autor de Monogamia, disse ao jornal Folha de S.Paulo que “amamos e odiamos um casamento feliz”, porque ele nos confronta com nossos desejos e nossas frustrações. Para Phillips, uma das raízes clássicas de conflito é o que os casais pensam da infidelidade eventual. “Todo mundo tem ciúme sexual, ninguém suporta dividir seu parceiro de sexo, isso é impossível”, diz ele. “Mas o perigo é a monogamia acabar com o desejo e virar uma prisão.” Eu, pessoalmente, não acredito na fidelidade eterna. A não ser que casemos aos 65 anos.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Te Contei, não ? - A importância da leitura


Formar leitores não é tarefa fácil. É preciso que família e escola trabalhem em conjunto. O interesse pela leitura deve ser estimulado desde a infância, na família, pois é a primeira instituição, seguida pela escola. Está previsto na Lei 8069, no Estatuto da Criança e do Adolescente, entre outros direitos, o direito à cultura. Infelizmente tanto família quanto escola têm falhado com esta obrigação. É preciso que a leitura também seja adequada à idade, envolvente para que desperte a magia, a curiosidade e o prazer por ler. Jogar os livros obrigatórios em uma mesa de sala de aula não é a melhor forma, ao contrário, a má vontade e a obrigatoriedade não geram prazer. O hábito da leitura é um processo longo quando não criado na infância, e o que se vê em muitas escolas públicas é o descaso em relação à formação de leitores. Cabe aos pais e professores criar esse hábito, buscar os meios e as formas, ao invés da omissão, para despertar o interesse da criança e do adolescente. Segundo José Breves Filho “uma boa leitura restaura a dimensão humana e atua como um organizador da mente, nutrindo o espírito e aguçando a sensibilidade“. É dado mais valor à gramática do que ao pensamento do aluno. Eu já presenciei isso: um aluno escreveu uma história fantástica e teve nota baixíssima pela quantidade de erros de português. O professor deve ser sensível ao lado literário. Não que a correção gramatical não seja importante, mas é preciso valorizar para não deixar marcas profundas. Um bom exemplo de valorização é a obra de Ziraldo com “Uma professora muito maluquinha“. O professor tem que ser um desafiador. Ensinar o aluno não só a ler, mas a escrever suas idéias, pensamentos, como no filme “Escritores da Liberdade“. Piaget diz que é na adolescência que o ser humano tenta dominar os elementos que lhe faltam para a razão adulta. Defendo a leitura como ponto de partida para uma vida adulta normal, prazerosa, na convivência com a sociedade. Saber driblar com as diferenças, pois a leitura transforma o indivíduo e sua possibilidade de escolha é bem mais racional. A função da literatura é formar a criança em um adulto capaz de enfrentar a vida. É na infância que a criança aprende a fazer suas escolhas, e uma boa literatura vai lhe dar sustentabilidade. Primeiro ela é ouvinte, e é perceptível o prazer que sente ao ouvir uma historinha, querendo participar. Quando aprende a ler, procura por conta própria a que lhe agrada. Na primeira fase os pais são responsáveis por este futuro leitor, e a preguiça de contar uma história pode ter resultados surpreendentes na vida adulta. Se os pais se utilizarem da literatura, que é vasta, para o crescimento cultural e na formação de um cidadão, com certeza não estarão na adolescência de seus filhos em consultórios psiquiátricos, clínicas para drogados entre tantas outras desgraças. Um simples gesto transformador (que é o de contar uma história, mostrar o caminho da literatura e transformá-lo num leitor) pode ser crucial na formação do filho. Vejo na literatura um remédio para uma sociedade doente como é a nossa. Um remédio natural, e sem contra indicações, que deve ser oferecido à criança com prazer e dedicação. Jamais como obrigação, pois a literatura é indispensável para o desenvolvimento. É urgente a necessidade de uma nova proposta de ensino de literatura nas escolas, além de banir de vez o sistema arcaico, de leituras impostas. Descobrir o que o aluno quer ler é fundamental, pois cada leitor é único em suas experiências. É na literatura que tudo é permitido. Se você ama seu filho, faça com que ele seja um leitor. A criança é como uma esponja: dependendo do que apresentarmos a ela é que será o que vai absorver: “água suja ou água limpa”. A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA NA FORMAÇÃO DO CIDADÃO, pelo viés da colaboradora Marielsa Klatter Braga. Marielsa é advogada e escritora e em breve lançará um livro intitulado “Violino Vermelho”.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Te contei, não ???!!!! - A culpabilidade de Capitu



Capitu teria traído Bentinho com seu amigo Escobar, em Dom Casmurro? Anailde responde como ficaria essa acusação se ela fosse a julgamento, segundo nossa jurisdição.

Por Anailde da Silva Ribeiro

Culpabilidade é um termo jurídico derivado do termo culpa, isto é, ele refere-se diretamente à possibilidade de considerar alguém culpado, e é um dos pressupostos na teoria do crime junto com fato típico e ilicitude.

A culpa em seu sentido amplo abrange o dolo e a culpa. O primeiro refere-se à intenção de agir, quando o sujeito quer praticar o crime, enquanto a culpa no sentido estrito é a não intenção, sendo didaticamente subdivida em negligência, imprudência e imperícia.

Ao tratarmos da capacidade de condenar alguém por seu ato ou omissão, a Constituição declara, no artigo 50 LVII, que “ninguém será considerado culpado até trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Devido à colocação do princípio da inocência na nossa Carta Magna, ele é considerado cláusula pétrea e portanto não pode ser modificado com o fim de diminuir sua abrangência, logo, seria inconstitucional condenar Capitu sem antes analisar os fatos, e é indispensável, como em todo processo, o juiz, o autor e o réu.

Apesar de Bentinho ser advogado, em Dom Casmurro ele se transforma em juiz e promotor, impossibilitando a defesa da ré, nos deixando à mercê de um único ponto de vista, método usado por Machado de Assis para dar à obra a aura de ambiguidade eterna.

NO CINEMA

A personagem Capitu foi vivida no cinema por uma das mais belas e icônicas atrizes brasileiras, Isabella Cerqueira (1938-2011), ou apenas Isabella, como ela se denominava em 1968, na época em que o filme foi lançado. Com roteiro de Paulo Emílio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles, o filme dirigido por Paulo Cesar Seraceni é um dos marcos do Cinema Novo e levou no título o nome de Capitu. Assista a um trecho do filme neste link: http://www.youtube.com/watch?v=tHoVjRnkaGw

Em primeiro lugar, trata-se de uma obra com focalização autodiegética, pois o narrador é o próprio protagonista e desse modo nos revela o enredo sob a visão de quem viveu e sofreu o que é narrado. Esse tipo de focalização geralmente acontece com uma distância temporal entre os acontecimentos e a narração, exatamente como na obra analisada, já que Bento resolveu contar sua história para “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” (p. 02), como ele afirma.

De acordo com sua natureza autodiegética, a focalização não poderia ser interna ou onisciente; Bentinho, apesar de pressupor bastante e no fim concluir que houve a traição, nunca poderá saber o que realmente aconteceu nem ler os pensamentos dos envolvidos. Então, restritos à sentença de um ciumento patológico, tendemos a acreditar na culpabilidade da moça.

Pois bem, o artigo 240 do Código Penal foi revogado em 2005, portanto, caso fôssemos julgá-la atualmente, baseados nesse ato ilícito, Capitolina seria absolvida fundamentada no inciso XXXIX do artigo 50 da Constituição Federal, que afirma não haver crime sem anterior que o defina, nem pena sem prévia imposição legal.

Apesar disso, o bacharel em Direito poderia alegar falsidade ideológica, guiando-se pelo caput do artigo 299: “omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante”.

Na verdade, desde o início da narração, recebemos informações nos alertando sobre a não total verossimilhança da realidade. Bentinho era um menino criado com o objetivo de tornar-se padre, extremamente criativo, capaz de imaginar uma conversa com o imperador, o qual intercederia junto a sua mãe para que não o mandasse seguir a vida eclesiástica. Outro ponto é o ciúme doentio do homem, o qual pode ser ilustrado pelo caso do rapaz no cavalo que olha para a moça, chegando ao seu auge no momento em que fica enciumado pela tristeza da esposa no enterro do seu melhor amigo, o qual havia integrado como se fosse da família.

É justificável que em um momento de constrangimento, a garota se sairia melhor da situação vexatória que o rapaz.

Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas... As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também.” (p. 150)

Ademais, sua situação de filho único paparicado pelos parentes não lhe permite entender a maturidade precoce da amada, mesmo sendo mais nova. O caso que Dom Casmurro toma para mostrar que “a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos (p. 177)” serve para expor o que os estudiosos, como Içami Tiba, asseguram há certo tempo: “Os garotos demoram dois anos, em média, para alcançar o desenvolvimento das meninas da mesma idade. Eles também amadurecem mais tarde que elas.” (Veja on-line) Sendo assim, é justificável que, em um momento de constrangimento, a garota se sairia melhor da situação vexatória que o rapaz.

Os famosos olhos de ressaca e cigana oblíqua e dissimulada, não passam de artifício para tirar a atenção do leitor menos atento dos sinais capazes de, senão acabar, reduzir drasticamente a credibilidade de sua sentença de marido traído. Capitu, em nenhum momento, foi pega em flagrante, o caso mais próximo de traição se deu por parte de Bentinho:

“Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimidativos, diziam outra cousa...” (p.144)

SAIBA +

AGUIAR E SILVA, Victor Manuel. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1984.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Disponível em:
www.fuvest.br/download/livros/casmurro.pdf.
Acesso em 21 de jan. 2011.
BÍBLIA CATÓLICA. Eclesiástico. Disponível em:
www.bibliacatolica.
com.br/01;28/9.php.
Acesso em 21 de jan. 2011.
TELES, Ney Moura. Direito Penal I: Parte Geral. Disponível em: www.neymourateles
.com.br/livros.php
Acesso em 21 de jan. 2011.
VADE MECUM. Código Penal. 8 ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
VADE MECUM. Constituição da República Federativa do Brasil. 8 ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
ZAKABI, Rosana. Existe outra diferença. In: VEJA ON-LINE. Disponível em: veja.abril.com.br/090604/p_072.html
Acesso em 21 de jan, 2011.

Além disso, a semelhança notada entre o filho do casal e seu homônimo não pode ser prova incontestável, visto a semelhança entre Capitu e a mãe de sua amiga Sancha, a qual não havia nenhum parentesco, apenas se tratava “dessas semelhanças assim esquisitas” da vida, como bem interpretou Gurgel. Quanto à semelhança de trejeitos, o próprio Bentinho justifica: “Eu só lhe descubro um defeitozinho, gosta de imitar os outros” (p. 138).

Finalmente, os mais crédulos da traição podem apontar as visitas de Escobar na ausência de Dom Casmurro como testemunho irrefutável do adultério, o que é contestado com uma citação usada pelo próprio bacharel: “Não tenhas ciúme da mulher que repousa no teu seio, para que ela não empregue contra ti a malícia que lhe houveres ensinado.” (Eclesiástico 9:1).

Dentre a relatividade das proposições expostas pelo narrador, caso se tratasse de uma lide verídica, o defensor alegaria o princípio do in dúbio pro reo, devido à falta de certeza da culpabilidade da mulher, deste modo, não podendo provar que Escobar é filho de seu melhor amigo, Bentinho não pode afirmar que Capitu inseriu declaração falsa em documento público, quando designou Bento como pai.

Outrossim, Capitolina poderia processá-lo por calúnia e difamação, artigos 138 e 139, Código Penal, respectivamente, visto que o advogado lhe atribui fato considerado crime e por meio de suas desconfianças agiu de modo que maculou sua reputação, até mesmo mandando-a para outro continente, numa época em que prevalecia o machismo, podendo ser vista como mulher da vida, e, finalmente, abandonando afetivamente seu filho, o qual só tornou a ver quando este o procurou, já rapaz.

Sendo assim, por mais que Bentinho tente durante seu relato persuadir seus leitores da traição de Capitu, não há fundamentação probatória suficientemente convincente para imputar-lhe a conduta do artigo 299, Código Penal, porque, preferindo conviver com as dúvidas, o homem nunca investigou realmente a paternidade de Ezequiel ou a relação entre sua esposa e seu melhor amigo, ademais, no momento em que confronta Capitu com “que não é meu filho” (p. 166), não é capaz de argumentar claramente tal convicção, negando-se a continuar a retórica e ouvindo pacatamente aquela que amara:


“Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! (...) Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... A vontade de Deus explicará tudo... Ri-se? É natural apesar do seminário não acredita em Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não nos fica bem dizer mais nada.” (p. 166)

Por fim, para os mais crédulos, a reação sossegada do bacharel confirma sua certeza do adultério e a resolução de que nada mais poderia ser feito, enquanto a atuação de Capitu relembra em muito seu comportamento de menina quando foram encontrados por D. Fortunata logo após o primeiro beijo, todavia, se há quem credite dissimulação à mulher, a dúvida de Bentinho não pode ser tida como irrelevante.

“Grande foi a estupefação de Capitu, e não menor a indignação que lhe sucedeu, tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. (...) Mas, haja ou não testemunhas alugadas, a minha era verdadeira; a própria natureza jurava por si, e eu não queria duvidar dela.” (p. 166)

Dito isto e defronte a personalidade perturbada — capaz de no momento em que pensava o suicídio procurar apoio no ato de Catão e justificar-se por meio de Otelo – e doentiamente ciumenta de Dom Casmurro, não há por que considerar Capitolina culpada de coisa alguma.


Revista Conhecimento Prático Literatura 

Te contei, não ???!!!! - Ele disse ................


"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito."

FERNANDO PESSOA, 
escritor e poeta

Crônica do dia - Intervalo


O ano, para surpresa ou susto de muitos, acabou.Claro, ainda virão a comemoração do Natal e as festas de ano-novo (antigamente se dizia também“ano bom”;porque será que isto caiu em desuso?), mas a árvore da Lagoa já cintila e já há um cheiro de fim de ano no ar. O sorriso e o calor no peito trazidos pelo 13.º se irradiam entre as multidões que vão e vêm diante das vitrines, os táxis ficam um pouco mais difíceis,o gerente da padaria entrega sorridente seu calendário para os fregueses fiéis, com um Cristo louro, de olhos azuis revirados, ilustrando máximas judiciosas e conselhos pios.

O Universo não está dando muita pelota, mas nós criamos datas e dias da semana e lhes atribuímos poderes mágicos. O ano podia terminar, como em várias culturas e religiões,em qualquer outro dia. Mas aqui, para a maioria de nós, a Terra completa seu movimento anual em 31 de dezembro e encaramos essa passagem como algo significativo para nossas vidas, mesmo que não creiamos em astrologia. Ano-novo, vida nova, dizemos, quase sempre tomando a decisãode parar de fumar e limitaroconsumo de chope a quatro tulipas por sábado.Também achamos vagamente que a vida vai melhorar, que nossa atitude perante o mundo também vai melhorar,tudo vai ou devia melhorar no ano-novo. No Brasil, abriremos o intervalo anual entre réveillon e o carnaval– ou, mais realisticamente, a Semana Santa, quando, se espreguiçando, o gigante adormecido encarará o batente, em um ano mais feliz que o velho. Infelizmente, não dá para pôr muita fé nisso. A Europa está entrando no grande inverno de seu descontentamento, certamente bastante pior que o lembrado na peça de Shakespeare que cunhou a expressão.Por enquanto,aqui de longe, a gente nem imagina o que está se abatendo sobre países como Portugal, a Espanha e a Grécia. As finanças mundiais são uma gigantesca obra de ficção pervertida, com uma acumulação indecente de dinheiro virtual gerado pelo dinheiro, nas mãos de pouquíssimos, que jamais vão sair perdendo. A situação,criada com a decisiva colaboração de governos e burocracias incompetentes, levará amedidasespantosas,entre as quais cortes de 25% nos salários de funcionários públicos que ainda tiverem a sorte de permanecer empregados e a revogação de direitos adquiridos ao longo de gerações. Acho que nem um povo ovino, como nós, suportaria uma série de golpes tão atordoante.

No entanto, é o que deve acontecer, com certeza entre greves, manifestações, quebra-quebras, atentados e crises políticas.Na internet têm aparecido sugestões para a aplicação dos bilhões de euros que serão emprestados (a juros “saudáveis”) aos países mais aflitos. Dar-se-iam (estou chutando os números, de que não lembro,mas não faz diferença) € 15 milhões, por exemplo, a cada português.O dinheiro seria dividido como povo diretamente, solucionando de uma tacada os problemas do país. Mas claro que,assim que o cidadão tivesse seus 15 milhões,uma bica (cafezinho, lá em Lisboa) já iria custar, na primeira hora da nova “riqueza”, uns € 20 mil, fechando o dia a uns € 400 mil. E a última garrafa de um tinto modesto, na mercearia, seria arrematada por uns 15 milhões mesmo, depois de uma concorrência acirrada entre dois compradores. Isso porque esse dinheiro é o arroto d Mamon, não tem existência física, é uma virtualidade perversa,um jogo demoníaco de créditos e débitos, que volta e meia leva a crises como a da famosa bolha imobiliária americana e suas consequências (perguntem se há algum dos donos do finado Lehman Brothers passando fome) e agora à europeia. Não pode ser sacado, não é metal sonante (nem bem de consumo, como parecem pensar os que, aparentemente, acham que dinheiro pode ser comido), só tem existência virtual. Isto leva à necessidade de manutenção de um equilíbrio onde sempre a parte mais fraca é que paga a conta. O lucro não pode parar,porque o efeito sobre o restante da economia seria desastroso, um cairia atrás do outro.

Alguns dos elos da cadeia sucumbirão à volatilidadequelhes éprópria, vão para o espaço, mas nada de fundamental mudará. Bancos vão quebrar, financeiras vão falir, acionistas vão ter grandes perdas, muita gente (não os ricos) vai ficar na miséria,mas o esquema básico permanecerá, os mesmos continuarão mandando e continuará a haver dinheiro fictício à custa dos súditos. Ainda é cedo para previsões, nessa barafunda em que os acontecimentos se transformaram, até porque a Alemanha, ao contrário do que acham diversos, não quer e não vai sair perdendo nessa. Quem pensa assim,non conhece oAlemanhas,
está verrückt, maluco. Enquanto Portugal, Espanha, Grécia e outros se afundavam lentamente sem perceber, ou ameaçavam afundar, a Alemanha continuava com sua esplêndida economia. Como não existe almoço de graça, o almoço dela muitas vezes acarretou dietas restritas em seus parceiros.

O Brasil também faz parte do sistema e não deveremos ficar fora dessa, não vai escapar ninguém,nem os chineses. Mas torçamos para que o tranco nos seja leve. Por enquanto, em nosso futuro, sem otimismo ou pessimismo, só temos as certezas inelutáveis da existência, lembradas por um sábio Benjamin Franklin: death and taxes, morte e impostos. Dos impostos, melhor não falar, antes que criem um imposto para quem falar em imposto.A morte, esta prosseguirá sem grandes percalços, no descalabro da saúde pública, na facilidade com que se mata impunemente e na epidemia de dengue que, dizem autoridades com o ar casual de quem comenta que amanhã vai chover, se abaterá inevitavelmente sobre o Rio de Janeiro. Trata-se de uma doença grave, que mata, e se fala numa epidemia “inevitável” como se isso não fosse nada. Vai morrer gente,mas tudo bem, está previsto. Dá um pouco de medo do que vai acontecer depois do intervalo.

João Ubaldo Ribeiro 

Te contei, não ???!!!! - Os capitães no Facebook

Ambientada em Salvador da década de 30, a história do livro de Jorge Amado "Capitães de Areia" será transformada em um jogo social para Facebook.

Desenvolvido pelo estúdio baiano Porreta Games, o jogo tem estreia prevista para 2 de dezembro e faz parte do projeto "Jogos Capitães de Areia, que prevê ainda seis diferentes títulos baseados na obra, sendo um de realidade alternativa (ARG) e cinco jogos casuais para navegador.

O game para Facebook será ambientado em Salvador de 1930 e coloca o jogador em uma gangue de jovens que luta pela sobrevivência nas ruas. Para isso, o jogo prevê uma série de missões, evolução de personagem e compra de itens especiais.

Disponíveis no site oficial do projeto, os cinco jogos para navegador mostram diferentes personagens da trama, como Dora, Pedro Bala, Gato, Sem-Pernas e Professor. Já o 'ARG' promete ser ambientado no espaço urbano e virtual, com uso de atores e de outros suportes na internet para transmitir ao jogador a impressão de que os personagens são pessoas reais.

Para saber mais sobre o projeto, acompanhe o perfil do projeto no Facebook ou pelo site oficial.

http://www.jogos-capitaesdaareia.com.br/#/home

"Gosto de roçar a minha Língua na Língua de Luiz de Camões ..." Uma proposta de reflexão sobre o emprego da palavra "porque"


Por que aqui? Por que lá?

Uma proposta de reflexão sobre o emprego da palavra 'porque'

Por Prof. Leo Ricino

Que usuário de nossa língua não para na hora de escrever uma das múltiplas formas do "porque"?! Antigamente, aqui no Brasil, se ensinava que em perguntas era separado, "por que", e em resposta era junto, "porque". Mas, infelizmente, a coisa não é tão simplória assim. Vamos ver como empregamos aqui e como é empregado em Portugal e possivelmente, por extensão, nos outros seis países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP: Angola, Cabo Verde, Guiné- Bissau, Moçambique, Timor Leste e São Tomé e Príncipe.

Para tanto, como sempre fazemos nos artigos que publicamos aqui, vamos nos socorrer das opiniões dos vários pensadores da nossa língua, através do uso de manuais portugueses e brasileiros. Comecemos com os portugueses.

Aliás, acabo de receber três manuais portugueses: Grandes Dúvidas da Língua Portuguesa - Falar e escrever sem erros, de Elsa Rodrigues dos Santos e D'Silvas Filho , da Editora A Esfera dos Livros, 2011; Saber Escrever Saber Falar, de Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão, da Editora Dom Quixote, 5ª ed., 2005, e, das mesmas autoras, Saber usar a nova ortografia, da Editora Objectiva, 2011, porém só o primeiro enfoca o assunto deste artigo.

Partindo da dúvida "Quando é que se emprega cada uma das seguintes formas: porque, por que e porquê?", os autores D'Silvas e Elsa começam dizendo que se usa "porque" quando for "conjunção causal ou final ou advérbio interrogativo (em orações interrogativas diretas ou indiretas)". E apresentam os seguintes exemplos:

1) "Porque te demoras tanto a arranjar-te?"
2) "Porque não vais ao cinema connosco?"
3) "Diz-me porque não me vieste visitar."
4) "Eis porque estou tão cansada."

Nas duas primeiras frases, interrogativas diretas, e nas duas seguintes, que os autores tacham de interrogativas indiretas (a maioria dos nossos autores também tacham assim), eles dizem que o "porque" é advérbio interrogativo e como tal deve ser grafado dessa forma, junto. Em final de frase, com o "porque" oxítono, esses autores também dizem que é advérbio interrogativo e apresentam os seguintes exemplos:

5) "Estás zangado porquê?"
6) "Diz-me porquê."

Em todos esses seis exemplos portugueses, no Brasil usaríamos a forma separada, seguindo já um tradicional ensinamento de que, se após a expressão analisada se puder colocar implícita ou explicitamente as palavras "razão" ou "motivo", o "porque" deve ser separado.

Em seguida, os autores apresentam um caso em que o "porque" deve ser usado separadamente, afirmando que o primeiro elemento (por) é preposição e o segundo (que), pronome interrogativo:

"Por que esperas?"

Pessoalmente, acho sutil a diferença (se é que há diferença!) entre, digamos, o primeiro e o segundo exemplos que deram, "Porque te demoras tanto a arranjar-te?" e "Porque não vais ao cinema connosco?", com este último caso, "Por que esperas?", por mais que os autores tentem explicar que esta última frase "É uma oração interrogativa direta equivalente a 'por que coisa esperas?'. É diferente de "porque esperas?", pois, na primeira frase há um objeto "coisa, facto, acontecimento" e não implica causa, em "porque esperas" não há objeto; a frase implica causa". Só não falaram que a segunda frase, "porque esperas?", também é uma interrogativa direta.

A provável sutil diferença é que eles querem que "Por que esperas?" seja entendido por nós como se fosse "Pelo que esperas?" ou "Por qual acontecimento esperas?". Como a língua é democrática, cada um pode dizer do jeito que quiser dentro do padrão da norma culta. Eu preferiria dizer dessas formas, pensando no leitor e garantindo a ele a clareza da pergunta. Aliás, Antenor Nascentes e José Oiticica sempre ensinaram: uma frase deve ser entendida como ela está e não aquilo que imaginamos (ou querem que imaginemos) que ela quer dizer.

Eles apresentam outros exemplos em que a expressão em análise é conjunção e aí não há divergência conosco. Os outros dois manuais recebidos, como eu disse antes, não tratam do emprego do "porque", porém Vasco Botelho do Amaral, autor português, no seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, 1938, Editora Educação Nacional, Porto, também demonstra estranheza com esse emprego separado:

"Há quem prefira escrever também 'por que' no começo de frases interrogativas directas: 'Por que fizeste isso?' Alegam que depois da locução se subentende razão, motivo: 'Por que (motivo) fizeste isso?' Note-se que alguns autores assim praticaram. E não deixaremos de referir a-propósito que representa brasileirismo a atracção de por que ao sujeito, em interrogações como: 'Por que você está doente?' Entenda: 'Por que está você doente?' Escrever-se-á porque, se a palavra for conjunção causal ou final." (P. 183/184)

Advérbio interrogativo de causa" ou "da causa"?

O problema, para mim, é aceitar qualquer palavra como interrogativa. Os próprios pronomes interrogativos me parecem mais lógicos como indefinidos. Silveira Bueno, na ótima Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Saraiva Editores, São Paulo, 7ª ed., 1968, diz:


"Nota - Advérbios interrogativos
- A Nomenclatura Gramatical
Brasileira achou de denominar
advérbios interrogativos: de lugar
- onde?; de tempo - quando?; de
modo - como?; de causa - por que?
Registramos aqui a inovação, porém
não a aceitamos. Não há palavra,
seja lá qual for, interrogativa. É a
frase que é interrogativa." (p. 148)
(grifo nosso)

Portanto, em relação aos advérbios interrogativos, minha posição é algo apenas para reflexão com os colegas professores. Aceitoos como adjuntos adverbiais interrogativos do lugar, do tempo, do modo e da causa e não "de lugar", "de tempo", "de modo" e "de causa", como apregoa a NGB.

Esclarecendo melhor. Nas duas primeiras frases dos exemplos do manual português:
1) "Porque te demoras tanto a arranjar-te?"
2) "Porque não vais ao cinema connosco?",

eu não encaro o "porque" como advérbio interrogativo de causa, como em "Morreu de inanição" ou "Caiu de velhice", em que "de inanição" e "de velhice" são realmente a causa de "Morreu" e de "Caiu".

Em "Porque te demoras tanto a arranjar-te?", com o "porque" junto ou separado, eu prefiro ver nesse "Porque" uma interrogação que quer saber a causa da demora e não que esse "porquê" seja a causa de "demoras", como nos exemplos que dei em que "de inanição" e "de velhice" são a causa de "Morreu" e "Caiu". Ou seja, a interrogação, no caso, quer esclarecer qual é a causa mas não é a própria causa. Se a resposta fosse, por exemplo, "Eu me demoro porque preciso maquiar-me cinco vezes", aí sim teríamos a causa de "demoras": "porque preciso maquiar-me cinco vezes".

Portanto, aceito que esse "porque" é advérbio interrogativo, mas não de causa e sim da causa. Há uma diferença muito nítida aí! Em outras palavras, os "advérbios de" expressam a circunstância exata: um advérbio de tempo expressa tempo (Cheguei cedo hoje.), um advérbio de lugar expressa lugar (Fui ao Mercado Municipal.), um advérbio de causa expressa a causa ( Não vim trabalhar hoje por falta de condução).

Ora, também na pergunta "Porque não vais ao cinema connosco?", esse "Porque" não expressa de fato a circunstância de causa mas sim uma interrrogação para se saber qual é a causa. Por isso, entendo que é "advérbio interrogativo da causa"" e não "de causa". A mesma coisa em relação aos demais advérbios interrogativos: advérbio interrogativo do lugar, do tempo e do modo.

E os "porques" das frases analisadas são tão interrogativos da causa, da razão, do motivo que nos dois exemplos poderíamos colocar uma dessas palavras, mantendo o sentido exato das orações e, já abrasileirando, assim elas ficariam:

"Porque razão te demoras tanto a arranjar-te" e "Por que motivo não vais ao cinema conosco?"

Aliás, com esse emprego, penso que se resolveria o problema colocado acima por Silveira Bueno: aí teríamos uma frase interrogativa e dentro dela o advérbio interrogativo da circunstância e não a própria circunstância. Essa locução adverbial da causa, agora representada por "Por que razão" ou "Por que motivo", é composta pela preposição "Por", pelo pronome interrogativo "que" e pelos substantivos "razão" e "motivo". Prefiro essa forma, com os substantivos grafados ou ocultos.

NOVOS EXEMPLOS PORTUGUESES

E para que tenhamos mais exemplos portugueses e constatemos que é difícil estabelecer um critério de emprego, vejamos como o excelente escritor luso Miguel Sousa Tavares, no ótimo Equador, indispensável para se ter uma noção do modus operandi do domínio português em suas possessões africanas, especialmente São Tomé e Príncipe, Ed. Nova Fronteira, 13a ed., 2003, empregou os "porques":

1) "Não basta apregoar ao mundo que se tem um império - concluía ele - é também necessário explicar por que se merece tê-lo e conservá-lo". (p.15)

2) "- Seguramente que não. Não é pra mim e não vejo porque haveria de ser para si."(p. 20)

3) "- Nem eu sei bem para quê nem porquê. Talvez para retomar uma conversa inacabada, numa noite de luar." (p.30)

4) "- Porquê inviável? " (p. 62)

5) "...se aflorasse o assunto da posição de privilégio que conquistara junto da mulher que, vá lá saber porquê, metade dos homens de Lisboa aspirava poder conhecer mais intimamente. " (p.69)

6) "Mas, para onde, Luís? E porquê ?"(p. 90)

7) "De caminho, o general perguntava aos ingleses por que não iam eles antes fiscalizar os navios franceses que, em total liberdade, se..."(p. 115)

8) "- Então, porque não partem? Por que desembarcam todos os anos dois ou três mil e não regressam senão uma ou duas dúzias a Angola? - Porque não querem!" (p.176)

9) "De quem sabia ainda ao que viera, porquê e para quê."(p. 209)

E há muitos e muitos outros porém por esses já é possível ter-se a ideia de que o emprego do "porque" acaba sendo uma preocupação maior dos professores de português do que dos escritores e demais usuários da língua propriamente ditos. Em todos os exemplos, mas todos mesmo, caberia a palavra "razão" após o "porque", porém ora o autor usa separado, ora junto. Fica difícil estabelecer qual o critério empregado. E também, mais em Portugal do que aqui, usa-se uma forma interrogativa enfática. Vejamos exemplos:

a) "- Óptimo, então. Mas diga-me lá, por curiosidade, por que é que o meu primo acha que você pode ser uma companhia não muito recomendável?" (p. 20)
b) "Por que é que o João não aparece para me salvar desta trapalhada?" (p. 21)
c) "- Por que é que você nunca se casou?" (p. 22)
d) "O que é que é estranho: que eu nunca me tenha apaixonado ou que nunca tenha casado, mesmo não estando apaixonado?" (p. 22)

No Brasil também usamos expressões semelhantes, como na frase típica da linguagem informal do cotidiano "Por que que você fez isso?!"

Os gramáticos brasileiros também chamam algumas vezes esse "porque" de advérbio interrogativo de causa. Vamos ver alguns dos seus exemplos:

Rocha Lima, na Gramática Normativa da Língua Portuguesa, José Olympio Editora, 42ª ed., RJ, 2002, p. 335, falando sobre pronomes interrogativos, afirma que "Há interrogativos adverbiais" e dá alguns exemplos, dentre eles "Porque está tão triste?". Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, Ed. Nova Fronteira, 5ª impressão, 2001, p. 543, também falam em advérbios interrogativos de causa, mas seus exemplos trazem o "porquê" separado: "Por que não vieste à festa?" e "Não sei por que não vieste à festa". Vittório Bergo, no indispensável Pequeno Dicionário Brasileiro de Gramática Portuguesa, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1960, p. 3, diz que "Existem advérbios usados particularmente como interrogativos" e dentre eles dá o de causa: "Porque te mortificas com isto?" E faz, entre parênteses logo após esse exemplo, a seguinte observação: "Neste caso autores há que escrevem separadamente por que, considerando o que pronome; e como tal o consigna o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras".

Esse Pequeno Vocabulário é o pai do atual VOLP Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, também publicado pela ABL.

Domingos Paschoal Cegalla diz taxativo na sua Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, Cia. Editora Nacional, SP, 1984, 25ª ed., p. 222, numa observação após falar dos advérbios interrogativos: "Seria mais acertado grafar o advérbio interrogativo por que numa só palavra: Porque fez isso? Perguntaram porque me atrasei.". Porém, no seu indispensável Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Ed. Nova Fronteira, SP, 2002, p. 322, no verbete próprio, sem qualquer menção a se grafar o "porque" junto, diz no item c): "é possível subentender uma das palavras motivo, causa, razão, sendo então por que advérbio interrogativo: Por que raspou o cabelo? / Por que abatem as árvores?"

O problema é que no item b) do mesmo verbete Cegalla diz praticamente a mesma coisa, só que classifica o "porque" de outra maneira: "b) equivale a por qual, por quais, sendo o que pronome indefinido: Quis saber por que motivo raspei o cabelo". O que será que faz no "por que" desse último exemplo o "que" ser pronome indefinido e não nos dois anteriores? A ausência do substantivo "razão", "motivo"? Talvez!

CONCLUSÃO

De tudo que ficou dito, mas não necessariamente claro e sem esgotar o assunto, é claro, penso que o melhor é adotar o critério largamente difundido no Brasil: se após o "porque" se puder colocar, mentalmente ou de forma escrita, a palavra "razão", esse "porque" deve ser separado. Não se conseguiu, é junto e pronto.

Assim, em todas as frases abaixo, como se pode ver, é possível colocar a palavra razão, seja a frase interrogativa ou a simples expressão de uma dúvida do locutor, o que provoca que o "porque" seja separado:

1) Por que (razão) você faltou à aula ontem?
2) Nem sei por que (razão) faltei à aula ontem.
3) Fiz desse jeito e não sei por quê! (razão)
4) Por que (razão) demorou tanto a chegar aqui hoje?

Como se pôde reparar, neste artigo nem me preocupei com o emprego do substantivo "porquê", sinônimo de causa, motivo. Também não vimos o emprego do "porque" quando conjunção, já que seu uso é muito natural e espontâneo, não oferecendo dificuldade para o usuário da língua.
Os gramáticos brasileiros também chamam algumas vezes esse "porque" de advérbio interrogativo de causa


Talvez um caso complicado do emprego do "porque" junto mas em frase interrogativa direta seja quando a pergunta é feita já sugerindo a própria resposta, que deve ser algo como um "sim", um "não", um "é possível", um "talvez", etc., em frases como "Ele faltou hoje porque não havia condução?" ou "A empreiteira ganhou a licitação porque deu propina?". Em ambos os casos, a resposta já é sugerida na pergunta, e não há possibilidade de se colocar a palavra "razão" após o "porque". Logo, seguindo a regra geral, deve ser escrito numa palavra só.

Saiba +

Optamos por listar as edições encontradas mais facilmente nas grandes livrarias, ainda que não fossem exatamente as citadas pelo professor Leo Ricino em seu texto.

Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa
Autor: Domingos Paschoal Cegalla
Editora: Lexicon
Páginas: 429

Novíssima Gramática da Língua Portuguesa
Autor: Domingos Paschoal Cegalla
Editora: IBEP Nacional
Páginas: 696

Nova Gramática do Português Contemporâneo
Autores: Celso Cunha e Lindley Cintra
Editora: Lexikon
Páginas: 800

Gramática Normativa da Língua Portuguesa
Autor: Rocha Lima
Editora: José Olympio
Páginas: 658


Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa
Grandes Dúvidas da Língua Portuguesa- Falar e escrever sem erros
Autores: Elsa Rodrigues dos Santos e D'Silvas Filho
Editora: A Esfera dos Livros
Páginas: 336

Prof. Leo Rícino é mestre em Comunicação e Letras e professor da Fecap - Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, instrutor da Universidade Corporativa Ernst & Young. Ministra também cursos no Sindicato dos Professores de São Paulo. Conhecimento Prático