sexta-feira, 21 de junho de 2013

Crônica do Dia - Onda Contrária

Manifestação a favor só é fácil fazer em ditaduras. O PT e outros partidos governistas que tentaram pegar carona nas passeatas de ontem não conseguiram fazer a tal "onda vermelha". É claro que não é por paixão pelo governo de Dilma Rousseff que milhares têm ido às ruas. Também não é a favor da oposição. A reação é difusa, mas uma bandeira frequente é a que condena a corrupção.
O PT tentou transformar as passeatas de ontem numa manifestação de apoio ao governo. Inútil. A presidente Dilma Rousseff tem tentado capitalizar o protesto com o elogio que fez ao movimento e o jogo de empurra para queimar a imagem dos prefeitos. A nota emitida pela ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, afirmando que eles poderiam até reduzir as tarifas é prova dessa tentativa de jogar a batata quente sobre os outros. Depois, a desastrada ministra se desmentiu, mas a primeira nota revelou a manobra.
Os prefeitos de São Paulo e Rio aceitaram participar da maquiagem da inflação de janeiro, atendendo ao pedido do ministro Guido Mantega de jogar o reajuste para junho. Após os protestos, eles anularam o aumento. O prefeito Fernando Haddad fez de tarde o que havia definido como "populismo" na parte da manhã. Mudança radical de convicção. Seja como for, por ter sido revogada, a alta dos ônibus deixou de ser a questão central. Isso tem um efeito político: a insatisfação difusa ocupou o centro do protesto. E nela se sobressaem algumas bandeiras: contra a corrupção, contra a tentativa de neutralizar o Ministério Público, através da PEC 37, por uma educação melhor, uma saúde mais eficiente. Tudo o que tem se acumulado no descontentamento diário dos brasileiros. Não há contorcionismo do PT que transforme o protesto em manifestação a favor do governo. Ele não é o único alvo, mas está entre os alvos.
Enquanto o povo está nas ruas, a situação econômica tem piorado. Sem relação de um fato com o outro. O anúncio do presidente do Fed, Ben Bernanke, de que a economia americana vai bem e os estímulos monetários podem ser reduzidos no ano que vem, indicou ao mercado financeiro que a tendência é de um dólar mais forte no futuro. Isso fez o dólar subir no mundo inteiro. No Brasil subiu mais porque há falta de confiança na política econômica. As agências de risco estão colocando a nota do Brasil em viés negativo pela deterioração fiscal do país. Foram anos de truques contábeis que, acumulados, minaram a consistência dos indicadores fiscais do país.
A anulação dos reajustes dos ônibus e o recuo de aumentos dados anteriormente em outras cidades vão atenuar a inflação de junho. Mas o alívio é pontual. Em nove de 29 meses do governo Dilma, até maio, a inflação esteve acima do teto da meta. Ficará novamente acima quando sair o dado deste mês. O dólar mais alto baterá em bens de consumo duráveis, e em todos os preços que têm cotação internacional, exatamente no momento em que a inflação poderia começar a cair. Os IGPs voltaram a subir. O IGP-M de junho deu 0,7% após estar em 0,01% em maio. Os IGPs são os mais afetados pelo dólar. A moeda americana subiu 12% em um mês. Isso já representa um choque cambial.
Os erros da política econômica estão cobrando sua conta. Foram inúmeras as medidas de renúncia fiscal com o sinal trocado, como contei ontem aqui. Só com o fim da Cide o governo tirou R$ 22 bilhões dos cofres públicos, em cinco anos. Dinheiro que tinha destino certo: pela lei, tem que ser investido em infraestrutura de transporte. Foram tomadas medidas de efeito imediato sem pensar nas distorções que elas têm acumulado. Isso criou um quadro econômico de inflação persistente, baixo crescimento, deterioração fiscal e déficit em conta corrente. O que o consumidor sente neste momento é o desconforto da perda de poder aquisitivo pela inflação e a redução da capacidade de endividamento das famílias.
O valor intangível dessas manifestações é avisar aos políticos, administradores públicos, governantes de todos os níveis que o país que pensavam que jamais reagiria aos desaforos sequenciais não está mais disposto a permanecer em silêncio diante de tantos e tão frequentes abusos do cotidiano brasileiro. Se na economia nem todos os erros são fáceis de serem entendidos, na política as ofensas ao sentimento do país foram criando a vontade de ir para as ruas. E pelo que se viu ontem: de norte a sul do país.

Miriam Leitão - Jornal O Globo

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Te Contei,não ? - Atos mostram descrença de jovens em relaçao aos politicos

Ataque a sedes de governos evidencia que eles não se sentem representados

Especialistas consultados pelo GLOBO após os protestos de ontem veem os atos como símbolos da descrença dos jovens em relação aos políticos, reforçando a característica, defendida por inúmeros manifestantes, de que o movimento seja apartidário.
- As autoridades vão precisar negociar com esses jovens. O movimento mostra um desejo de reconhecimento social por grupos que chegaram recentemente às camadas médias e o desejo por participação política. Eles querem serviços tipo Fifa: transporte tipo Fifa, saúde tipo Fifa e por aí vai - diz o sociólogo e professor da PUC-Rio Luiz Werneck Vianna. - Eles entendem que os partidos estão comprometidos com o estado das coisas. Não é um movimento antipolítico, mas contra a política que aí está.
Para Vianna, o movimento também se opõe à atitude dos políticos com os movimentos sociais. Segundo ele, a relação dos partidos com esses movimentos é "instrumental, de cooptação", ao trazê-los para dentro do Estado. E as atuais manifestações rejeitam ter essa relação.
O sociólogo acredita, ainda, que o grande número de causas defendidas pelos manifestantes - visto por alguns como falta de foco - não é uma fraqueza. Vianna diz que, depois de "baixar a poeira", vai haver uma seleção natural das demandas. Algumas vão aglutinar mais pessoas que outras. Quando chegar esse momento, o sociólogo diz que a necessidade de organização política mais formal vai se impor, e uma liderança deve aparecer.
Para o cientista político e professor da UnB David Fleischman, os ataques aos palácios de governo dificultam que políticos tirem proveito do movimento.
- Quebraram os pés da estátua de Tiradentes no Rio. O ataque a esses palácios mostra que o povo não se vê representado pelos políticos eleitos. Além, é claro, do descontentamento com os serviços. No começo, vi deputados da oposição querendo se apropriar do movimento. Depois da invasão ao Congresso, esse pessoal se calou - diz o cientista político.
Apesar disso, Fleischman está pessimista quanto à sobrevivência do movimento a médio prazo. Para o professor, a ausência de liderança vai fazer com que os protestos percam fôlego. Ele acredita que, com o fim da Copa das Confederações, quando a mídia internacional tirar seus olhos do país, as manifestações se dissiparão.
O analista político e professor da USP Gaudêncio Torquato também vê nos ataques aos palácios um desejo de participação mais ativa no processo político.
- É um puxão de orelha nos políticos. Mostra a indignação, a paciência esgotada desses jovens com as velhas práticas. Os políticos não estão conseguindo atender aos anseios da sociedade - afirma Torquato. - Vejo, nas manifestações, um desejo de resgatar um escopo da democracia direta, indo para a rua.
Os protestos que se alastraram pelo país em grandes cidades foram também tema de um debate on-line realizado ontem pelo GLOBO. O cientista político Fabiano Santos, do Iesp/Uerj, Edney Souza, empresário e professor, e Rômulo Collopy, ativista que tem participado das manifestações no Rio, reconheceram que os protestos tiveram grande importância social e política. Para Fabiano Santos, não é preciso que o cenário seja catastrófico para que a população saia às ruas.
- É uma agenda muito complexa, multicausal. E existem atores insatisfeitos. Uma insatisfação generalizada - diz ele, também atentando para o fato de que, quando a população tem um poder aquisitivo maior, as expectativas são altas. No caso, os serviços prestados pelo Estado são ineficientes.
Edney Souza destacou a inexistência de líderes. Não havia um movimento que carregasse todas as bandeiras. Foram várias reivindicações ao mesmo tempo. Ele vê com otimismo essa nova forma de manifestação, por meio das redes sociais. ( Colaborou Bruno Góes )

Crônica do Dia - Satisfação garantida ou ...

Satisfação garantida ou...

Quem acompanhou pela televisão a passeata que parou o Rio na segunda-feira viu dois tipos de manifestação nas ruas da cidade. A primeira foi até monótona. O povo tomou conta da Avenida Rio Branco. Sem exagerar, a polícia calculou em cem mil o número de pessoas que se dirigia à Cinelândia reivindicando de tudo um pouco. Ninguém mais se lembra de que tudo começou por causa de um aumento no preço das passagens de ônibus. O povo pedia transporte de qualidade. Mais verbas para a educação. Mais dinheiro para a saúde. Gritava “abaixo a PEC 37”. Reclamava dos gastos com a construção de novos estádios de futebol para a Copa do Mundo. E, como havia vagas para qualquer espécie de protesto, houve quem aproveitasse para solicitar a liberalização da maconha.
Os repórteres não conseguiam esconder o alívio por não ver se repetir nas ruas do Rio o confronto entre manifestantes e polícia que havia acontecido em manifestações anteriores em São Paulo. “É uma manifestação pacífica”, repetiam. “É uma manifestação completamente pacífica”, insistiam. “É uma manifestação inteiramente pacífica.” Quatro horas depois, quando o protesto parecia estar acabando, já não dava para esconder a emoção. “Olha que imagem bonita!”. “Não houve um só incidente”.
O espectador, também aliviado, sentia que dava até para assistir, sem culpa, a mais um capítulo da novela das sete. Foi aí que apareceu o segundo tipo de manifestação. E, desta vez, as imagens, que interromperam duas ou três vezes a exibição de “Sangue bom”, evidenciavam que a passeata não estava acabando bem. Um grupo de bandidos tentava invadir a Assembleia Legislativa. Eram cenas de cinema. Um grupo de homens escondia o rosto para não ser identificado e, atirando pedras, subia a escadaria do Palácio Tiradentes. Algo pegava fogo na entrada principal do prédio. As colunas eram pichadas. Estranhava-se a ausência de policiais. Depois, soube-se que, acuados pelo ataque popular, eles estavam tentando se proteger dentro da Assembleia. Alguns ficaram feridos. Uma palavra que marcou as manifestações anteriores voltava a assombrar: vandalismo.
Quanto a este segundo tipo de manifestação, não há muito o que dizer. É caso de polícia. O recado estava mesmo no primeiro tipo de manifestação, aquela “inteiramente pacífica”. A população parece cansada de ler nos jornais e ver nos noticiários de televisão os casos de corrupção que se multiplicam e não levam ninguém para a cadeia. Parece, enfim, haver uma reação contra o discurso otimista do governo, enquanto os hospitais públicos caem aos pedaços e o ensino público mostra-se incapaz de educar. A economia está sob controle, insiste em dizer a autoridade, enquanto o dólar dispara, a inflação reaparece e a atividade econômica é raquítica. Dilma não foi vaiada por acaso na abertura da Copa das Confederações.
Com o povo nas ruas, não dá mais para acreditar que governar é apenas controlar a maioria no Congresso. Administrar o país não é apenas garantir que o PMDB continue fazendo parte da base governamental. O Brasil não se resume a uma briga entre PT e PSDB. O povo está nas ruas. E está insatisfeito.
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Coisa feia o PSTU tentando tirar uma casquinha da mobilização popular e levando suas bandeiras à passeata para sair bem na foto. O poder de mobilização do PSTU não dá para lotar a pracinha do Bairro Peixoto quanto mais a Avenida Rio Branco. Caso típico de tentativa de propaganda enganosa
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Tudo bem que as redes sociais facilitaram a mobilização popular, mas é bobagem acreditar que isso seria impossível sem elas. Como todo mundo sabe, não é a primeira vez que cem mil pessoas ocupam o Centro do Rio. A célebre Passeata dos Cem Mil, ao protestar contra a ditadura militar, não recebeu este nome por acaso. O principal comício das Diretas Já reuniu um milhão de pessoas em frente à Candelária. O primeiro foi em 1968; o segundo, em 1984. A internet não existia nem em romances de ficção científica.
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Pode ter sido coincidência. Afinal, a gota d’água não escolhe a hora para transbordar o copo. Mas é muito conveniente que este protesto que explode em todo o país aconteça justamente durante a Copa das Confederações. O povo nas ruas deu nova força a uma expressão que tinha se desgastado rapidamente: imagina na Copa!

O Globo

Te Contei, não ? - Tudo começou no Facebook

Jovens que lideram o movimento contra aumento de passagens se dizem apartidários

Tá na Hora do Poeta - Autopsicografia





 
 
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pessoa, Fernando. Lírica e dramática, In: Obras de Fernando Pessoa


Contribuição do aluno
Daniel Abreu Dias de Assis ( Turma 901 - 2013)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

E bom você saber .....


Tá na Hora do Poeta - Minha terra tem ....

 
 
 
Minha terra tem de tudo
Minha terra não tem nada
Rodando pela cidade vejo a violência na minha porta
E a polícia ? Não se importa.
 
Minha terra tem desemprego
Que causa muito desespero
Cada dia na minha terra mais gente chega
De qualquer canto que seja.
 
 
Minha terra é acolhedora
Apesar de não ser protetora
Minha terra tem mar, lagoa e floresta
Beleza que a atenção não desperta
 
 
Minha terra cresceu e se desenvolveu
Nem assim a saúde aparece.
Minha terra tem hospital público,
Mas que se esquece de atender ao seu público.
 
 
Minha terra tem um novo prefeito
Que no meu ver, merece muito respeito.
É preciso agir, trabalhar
Para a população não ter que cobrar.
 
Mas não adianta apenas cobrar,
temos mesmo é que participar.
Muita coisa precisa mudar,
Para a cidade ter o que nos mostrar.
 
 
Minha terra tem petróleo, tem óleo
Que traz dinheiro e traz ódio
Traz riqueza e pobreza
E que a muitos causa muita tristeza.
 
Tá na hora de minha terra se despedir
Mas antes preciso pedir
Pedir que aqui tudo mude
Para que daqui, eu não me mude.
 
 
Renan de Queda / Turma 801 / 2013 a partir da Canção do Exílio de Gonçalves Dias

Tá na Hora do Poeta - Cuidar e amar

 
 
Minha terra tem a vida
que deve - se cuidar,
como a fauna e a flora
que estão por lá,
mas o homem também a habita
e desmata sem pensar.
 
O homem é injusto
e maltrata o pomar,
juntamente com os animais
que vivem por lá.
 
Contra essa situação
nós devemos lutar.
Minha terra tem a vida
que deve - se amar.
 
Então é por isso que todos devem se conscientizar
de que estamos fazendo o errado,
e não devemos matar.
Minha terra tem a vida
que deve - se cuidar.
 
Minha terra tem injustiças,
que fazem a sociedade brigar,
e fazem o rico e o pobre
se diferenciar.
 
O rico está no auge,
já o pobre na pior
e para isso mudar
precisamos de uma sociedade melhor.
 
Rafael Negreiros / Turma 801 / 2013 a partir da Canção do Exílio de Gonçalves Dias

Te Contei, não ? - Adiada a votação da PEC - 37

Folhapress
Sem acordo entre policiais e procuradores, a Câmara dos Deputados decidiu adiar a votação da proposta que tira poderes de investigação do Ministério Público. A análise da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 37 estava prevista para a próxima quarta, mas líderes estudam nova data para a discussão --ou no início de julho ou logo após o fim do recesso, no segundo semestre.

Falou & Disse - Tensão Urbana

 
 
A reação popular que vem se desencadeando encontra paralelo na história de outras nações. O povo brasileiro está desiludido com o governo. O aumento das passagens foi apenas a gota d'água. Os preços dos gêneros alimentícios, a falência da saúde e da educação, a falta de moradia influíram nos acontecimentos. A desilusão com esse Brasil é total e absoluta. No outro Brasil, um governo rico, políticos construindo fortunas do nada e da noite para o dia. É só desmando, desgoverno, distribuição de favores privilégios. Desdenharam do povo, achando que suas forças seriam eternamente débeis, e agora estão surpresos com a insurreição.
 
Marco Antônio Pinto Reis
Rio de Janeiro - O GLOBO

Artigo de Opinião - A volta das manifestações de rua - O Globo

 
 
 
O "El País", jornal da Espanha, país que, em função da crise europeia, se encontra em estado permanente de manifestação, registra, ao noticiar os conflitos no Rio e em São Paulo, que o Brasil se desacostumou com esse tipo de expressão política. De fato, os choques nos centros das duas cidades marcam a volta de manifestações de ruas, depois de mais de uma década em que organizações estudantis e sindicatos se mantiveram em obsequioso silêncio diante do lulopetismo. Algumas dessas organizações, cooptadas pelos guichês estatais de distribuição generosa de dinheiro público, sempre em nome do "social". Sequer o mensalão, um histórico e estrondoso caso de corrupção no centro do poder, levou jovens a protestarem em público.
A nova geração nas ruas do Rio e São Paulo parece vir de uma mistura de grupos de extrema-esquerda — alguns à margem dos partidos representados no Congresso —, "rebeldes sem causa" da classe média, anarquistas e vândalos em geral, movidos a palavras de ordem e convocações disseminadas por meio das redes sociais, um fenômeno global. O motivo alegado, o aumento de poucas dezenas de centavos das tarifas de transporte urbano, parece secundário. É até mesmo bizarro que grupos alegadamente defensores da prioridade ao transporte coletivo depredem ônibus e estações de metrô. Pelo menos, o Rio já viveu um surto de violência de motivação fortuita, a Revolta da Vacina, no início do século XX, em que houve depredações e bondes virados nas ruas de paralelepípedos, devido à decisão do governo de vacinar todos contra a varíola, quisessem ou não.
É preciso entender melhor o que se passa, a começar pelo próprio poder público, que, até agora, principalmente em São Paulo, não tem conseguido manter vias importantes abertas ao direito constitucional de ir e vir. Gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes são usuais na repressão a surtos de violência pública em qualquer país do mundo, nos mais e nos menos democráticos. Mas todo este aparato bélico de pouco vale se não houver uma inteligência por trás, não for acompanhado de outros instrumentos de Estado para coibir depredações de bens públicos. Deter, fichar, processar e cobrar judicialmente indenização pelos danos são medidas-padrão a serem tomadas no caso. Bem como não deixar processos mofarem em prateleiras ou esquecidos em computador de delegacia.
Liberdade de reunião e de expressão consta das prerrogativas da democracia. Mas é preciso haver comunicação prévia de horários e trajetos de passeatas à polícia e autoridades de trânsito. Não houve tumulto no início da manifestação de quinta no Rio, na presença na PM — a violência ocorreria no final. Cabe também à Polícia Militar saber dosar a força. A de São Paulo não soube.
As batalhas campais ocorrem enquanto a inflação está em alta e o governo Dilma, em viés de baixa na popularidade. É leviano estabelecer correlações entre os fatos, mas a coincidência coloca mais um dado no cenário político.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/a-volta-das-manifestacoes-de-rua-8694285#ixzz2WhRDafUq

terça-feira, 18 de junho de 2013

Charges - PEC 37


Te Contei, não ? - PEC

 
 
O que é?
 

Te Contei, não ? - O que é PEC 37

topo pec37

A PEC define como competência "privativa" da polícia as investigações criminais ao acrescentar um parágrafo ao artigo 144 da Constituição

O que diz a PEC 37

A PEC define como competência "privativa" da polícia as investigações criminais ao acrescentar um parágrafo ao artigo 144 da Constituição. O texto passaria a ter a seguinte redação: "A apuração das infrações penais (...) incumbe privativamente às polícias federal e civis dos estados e do Distrito Federal."
O que diz a Constituição:
A legislação brasileira confere à polícia a tarefa de apurar infrações penais, mas em momento algum afirma que essa atribuição é exclusiva da categoria policial. No caso do Ministério Público, a Constituição não lhe dá explicitamente essa prerrogativa, mas tampouco lhe proíbe. É nesse vácuo da legislação que defensores da PEC 37 tentam agora agir. 

Votação:

As propostas de emenda à Constituição, como a PEC 37, tem um regime diferenciado de votação e, para serem aprovadas, exigem quórum mínimo de 3/5 de votos favoráveis do total de membros da Casa (308 votos na Câmara e 49 no Senado) e apreciação em dois turnos tanto na Câmara quanto no Senado.
 
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O Plenário da Câmara Federal deve votar em breve a Proposta de Emenda à Constituição nº 37. O projeto, conhecido como PEC da Impunidade, pretende tirar o poder de investigação criminal dos Ministérios Públicos Estaduais e Federal, modificando a Constituição Brasileira. Na prática, se aprovada, a emenda praticamente inviabilizará investigações contra o crime organizado, desvio de verbas, corrupção, abusos cometidos por agentes do Estado e violações de direitos humanos.

Os grandes escândalos sempre foram investigados e denunciados pelo Ministério Público, que atua em defesa da cidadania de forma independente. A PEC 37 atenta contra o regime democrático, a cidadania e o Estado de Direito e pode impedir também que outros órgãos realizem investigações, como a Receita Federal, a COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o TCU (Tribunal de Contas da União), as CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), entre outros.

Em todo o mundo, apenas três países vedam a investigação do MP: Quênia, Indonésia e Uganda.

A PEC 37 poderá ser votada em plenário pela Câmara dos Deputados a qualquer momento. Se você também não quer deixar que esse retrocesso aconteça em nosso país, manifeste-se! Defenda a sociedade brasileira e ajude nessa luta contra o crime e a impunidade! Assine a petição eletrônica e participe desta mobilização nacional.
 

Prefiro não comentar - Proposta sobre "cura gay" é aprovada em comissão presidida por Feliciano


FLÁVIA FOREQUE
MÁRCIO FALCÃO
DE BRASÍLIA


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Crônica do Dia - O outono da ignorância - Ruth de Aquino

 
 
Até demorou. Não se dizia que os brasileiros eram passivos demais, sem consciência política? Um povo inebriado por futebol, Carnaval e cerveja, que só se aglomerava em show, bloco e passeata gay ou evangélica? Agora, uma fagulha, o aumento das tarifas de ônibus, incendiou multidões. São especialmente jovens. Como em qualquer lugar do mundo. Entre os que protestam pacificamente com flores na mão, há os vândalos que, rindo e xingando, depredam o patrimônio, quebram lojas, incendeiam ônibus. Alguma novidade? Sempre foi exatamente assim, em Paris, Londres, Buenos Aires ou Istambul.
Os excessos devem ser repudiados, os vândalos detidos. Mas a reação truculenta das tropas de choque e as declarações de prefeitos e governadores de todos os partidos mostram algo preocupante: o poder – no Brasil, como na Turquia – não faz a menor ideia de como coibir com eficácia protestos que resvalem para a violência. Policiais e políticos igualam-se aos arruaceiros na ignorância, tornam-se delinquentes por trás de armaduras e gravatas, tacham de ilegítimas todas as manifestações, não param para escutar, entender ou negociar. O resultado é este: cidadãos encurralados na volta do trabalho, crianças atemorizadas. Os jornalistas são feridos pela polícia com balas de borracha, bombas de gás e spray de pimenta nos olhos. São coagidos e xingados por jovens mascarados e desinformados.
Os preços sobem, a inflação está em alta, os impostos absurdos não revertem em saúde, moradia, transporte e educação para a população, os empregos para a juventude começam a minguar, as empresas demitem em massa sem repor vagas. A presidente Dilma diz que a economia está sob controle. A farra nos Três Poderes continua. Ninguém aperta o cinto de couro em Brasília. O noticiário continua coalhado de mordomias no Legislativo, Judiciário e Executivo.
O jornalista Zuenir Ventura um dia cunhou a expressão Cidade Partida para se referir à divisão entre asfalto e morro, no Rio de Janeiro. Hoje, está claro que vivemos num País Partido. O Brasil dos que produzem e trabalham quase cinco meses só para pagar impostos… e o Brasil dos que mamam nas tetas do Estado, com aposentadorias vitalícias polpudas e múltiplas, e ainda têm a cara de pau de discutir o rombo da Previdência. É corrupção, nepotismo, promiscuidade, formação de quadrilha nas altas esferas, desmoralização dos sindicatos que se lambuzam com o melado federal. A casta superior do País Partido insiste em ignorar o sentimento de vulnerabilidade da população assalariada.
Com a ditadura, o Brasil se desacostumou a conviver com manifestações e greves. Tudo vira sinônimo de anarquia. Estava em Londres em 1979, no “winter of discontent”, o inverno da insatisfação, que encheu a cidade de lixo e mau cheiro e derrubou os trabalhistas, abrindo o caminho para Margaret Thatcher. Trafalgar Square equivale simbolicamente à Praça Taksim, de Istambul – mas com os bobbies (policiais ingleses) protegendo os manifestantes.
Estava em Paris no outono de 2005, quando jovens da banlieue (a periferia) invadiram a Rive Gauche e saíram quebrando tudo, em protesto contra a situação de jovens imigrantes nos subúrbios. Foram 19 noites de distúrbios na França, 9 mil carros queimados, 3 mil jovens presos. Essa revolta saiu de controle. A “manif” já faz parte da cultura parisiense – quase como a praia no Rio de Janeiro e o restaurante em São Paulo. Não há fim de semana em que avenidas não sejam bloqueadas por protestos. As tropas de choque se organizam, com o objetivo de garantir a passeata, e não de fomentar a violência.
No Brasil, o Movimento do Passe Livre é o estopim, ou a parte visível de um descontentamento que não pode ser minimizado. O péssimo serviço de ônibus, metrôs e trens, aliado a aumentos nas passagens, é, sim, revoltante. Ouvir de Sérgio Cabral, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad que os protestos “têm motivação política” causa risos. É lógico que protestos sejam políticos. Não existe crime nisso. Ouvir das autoridades que os manifestantes são mauricinhos causa desconforto. É preciso ser prostituta para defender os direitos da classe nas ruas? É preciso ser povão para protestar contra a indignidade dos trens?
Torço para que os manifestantes expulsem de suas alas os marginais que aterrorizam exatamente aqueles que mais se servem do transporte público. Espero que os governos não mandem às ruas policiais despreparados, brutamontes e enraivecidos, que atacam pelo prazer da repressão. “Baderna é inaceitável”, diz Alckmin. Concordo. Mas os piores baderneiros são os armados pelo Estado. Deslizes policiais e insensibilidade governamental podem nos lançar ao caos.


Publicado originalmente por Revista Época

Site da Prefeitura de Macaé é Hackeado!

Como parte da onda de protestos que vêm atingindo o Brasil nos últimos dias, importantes sites de diversas instituições governamentais foram invadidos e preenchidos com conteúdo pró-manifestação.
Segue abaixo os links com as informações.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Crônica do Dia - O Miojo não criativo

Quando alguém fala maravilhas sobre colégios públicos de antes dos anos 1950, pergunto: qual a porcentagem das crianças em idade escolar que estava matriculada?

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando escuto alguém falando maravilhas sobre colégios públicos brasileiros de antes dos anos 1950, sempre pergunto: qual a porcentagem das crianças em idade escolar que estava matriculada naquele tempo? Havia, sim, qualidade em algumas salas de aula, e até o ensino de latim ou bordado. Mas esse serviço, incluindo as palmatórias, era privilégio de uma minoria. Da década final do século XX para cá, convivemos com a inédita universalização do acesso à escola, num país com população muitas vezes maior, no meio de uma baita crise mundial de fundamentos pedagógicos. Claro que todo o processo aconteceu aos trancos e barrancos. Vai demorar ainda muito tempo para haver nivelamento qualitativo geral, se é que isso vai acontecer numa realidade ostensivamente mutante. Mas não tenho dúvida: prefiro a situação atual, com todos os seus problemas, do que aquela anterior que servia biscoitos finos para poucos, assim contribuindo para a perpetuação de nossa vergonhosa desigualdade.
Muitos dos que suspiram ao lembrar seus liceus estaduais foram agentes da “decadência”. Ricos e poderosos, quando identificaram as primeiras dificuldades, retiraram seus filhos das escolas públicas, transformando-as em estorvo distante para o tal “Estado” (visto como entidade quase alienígena, mesmo quando quem reclama é seu funcionário de alto escalão). O “abandono” hoje se completa com a atual orkutização de escolas americanas e afins, subordinadas a diretrizes educacionais formuladas por governos estrangeiros que não elegemos e sobre os quais não temos nenhum controle — deixamos que povos mais “desenvolvidos” decidam o que e como nossas crianças devem aprender. (E, pronto, vou falar: MBA é o cacete! Também nada pode ser mais caipira do que esses escritórios que universidades do “primeiro mundo” tentam implantar por aqui para salvar seus “modelos de negócio” que não se sustentam mais apenas em ambiente G7).
Claro que reconheço: vivemos situação trágica em termos educacionais. Mas ensino não é só responsabilidade da escola, sobretudo no momento atual da História brasileira. Não houve tempo para formar professores ou mesmo construir salas de aulas para toda a população que de repente começou a estudar (e convive em casa com pais para quem essa oportunidade foi negada). Fico revoltado quando vejo os jornais zoando com as redações do Enem, numa tentativa de desqualificar toda essa experiência (que ninguém sabe se vai dar certo) de criar uma alternativa para o mecanismo ultrapassado do vestibular, tudo por causa de um aluno que copiou receita de Miojo na sua redação. Esperavam o quê? Uma multidão de Machados de Assis?
Gostaria de saber como essa redação específica vazou para a imprensa. E por que as primeiras páginas dos jornais entraram na zoação. Não vou comprar essa briga. Quem leu minha coluna da semana passada sabe que eu acredito que “a vida foi feita para cantar e zoar”. Então vou zoar de volta. Devo confessar: adorei a redação do Miojo. Coincidiu que na época eu estava lendo “Unoriginal genius”, o livro da professora emérita de Stanford (viu como também gosto de ser caipira?) Marjorie Perloff (obrigado, Arto Lindsay, pela indicação de leitura), que me parece a obra mais importante sobre literatura publicada em tempos recentes. É um tratado que nos prova que o lema de Gaby Amarantos (“eu vou samplear, eu vou te roubar”) está na base dos avanços mais importantes da poesia contemporânea. Ken Goldsmith, um dos autores analisados por Perloff (junto com os irmãos Campos e Walter Benjamin) e que já publicou livro só com colagens de textos de previsões do tempo, chama essa tendência de “uncreative writing”. Sendo assim, tenho o dever de indagar: não será o autor da redação do Miojo um gênio não original brasileiro, bem mais criativamente não criativo que os jornalistas que zoaram com sua escrita?
Vou seguir o exemplo desse nosso gênio não original anônimo — pode haver algo mais genial do que se apropriar de uma receita de Miojo? Nota máxima para a não criatividade! — e terminar esta coluna abrupta e desconexamente, sampleando um bifão do livro do Roberto Calasso, “A folie Baudelaire” (que é feito para se ler aos poucos, uma página e uma iluminação por dia): “Toda a história da literatura — aquela secreta, que ninguém será capaz de escrever jamais, a não ser parcialmente, porque os escritores são muito hábeis em dissimular — pode ser vista como uma sinuosa guirlanda de plágios. [...] Escrever é aquilo que, como o eros, faz oscilarem e torna porosos os anteparos do ego. E todo estilo se forma por sucessivas campanhas — com pelotões de invasores ou exércitos inteiros — em territórios alheios.”


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/o-miojo-nao-criativo-8270824#ixzz2WFJVNnoy

Crônica do dia - Um plus a mais

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO - O Estado de S.Paulo
 
 
 
 
 
Passei por uma loja que vendia roupa "plus size" para mulheres. Levei algum tempo para entender o que era "plus size". "Plus", em inglês, é mais. "Size é tamanho. Mais tamanho? Claro: era uma loja de roupas para mulheres grandes e gordas, ou com mais tamanho do que o normal. Só não entendi isto logo porque a loja não ficava em Miami ou em Nova York, ficava no Brasil. Não sei como seria uma versão em português do que ela oferecia, mas o "plus size" presumia 1) que a mulher grande ou gorda saberia que a loja era para ela, 2) que a mulher grande ou gorda se sentiria melhor sendo uma "plus size" do que o seu equivalente em brasileiro, e 3) que ninguém mais estranha que o inglês já seja quase a nossa primeira língua, pelo menos no comércio.

A invasão de americanismos no nosso cotidiano hoje é epidêmica, e chegou a uma espécie de ápice do ridículo quando "entrega" virou "delivery". Perdemos o último resquício de escrúpulo nacional quando a nossa pizza, em vez de entregue, passou a ser "delivered" na porta. Isto não é xenofobia nem anticolonialismo cultural americano primário, nem eu acho que se deva combater a invasão com legislação, como já foi proposto. O inglês, para muita gente, é a língua da modernidade. Todos queremos ser modernos e, nem que seja só na imaginação, um pouco americanos. E nada contra quem prefere ser "plus" a ser mais e ter "size" em vez de altura ou largura. Só é triste acompanhar esta entrega - ou devo dizer "delivery"? - de identidade de um país com vergonha da própria língua.
Papo vovô. Engana-se quem acha que os avós vivem num paraíso enquanto os pais padecem com as crianças. Ser avô também requer prática e habilidade e, acima de tudo, versatilidade. Ainda mais quando a neta tem uma imaginação ativa, como a Lucinda, e vive mudando a distribuição de papéis nos seus faz de contas. Você um minuto é príncipe e no outro é pai, no outro é caçador e no outro é monstro, e pode passar rapidamente de rei a cachorro. O que exige do avô um talento histriônico fora do comum, além de preparo físico. Uma das minhas encarnações é a de marido. Já nos casamos várias vezes, e como marido tenho um direito que nenhum outro personagem tem, nem o cachorro: o de ser chamado de "meu amor". É o meu papel preferido.