domingo, 6 de janeiro de 2013

Entrevista - Steven Spielberg

  "Não faço filmes pensando em Oscar"

O diretor americano afirma que seus trabalhos são pessoais e que poder fazer isso e ainda agradar ao público é o maior prêmio que se pode ter


por Elaine Guerini, de Nova York

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FAVORITO
Dono de uma fortuna de US$ 3 bilhões, Spielberg
lidera as indicações ao Globo de Ouro

O cineasta americano Steven Spielberg, 66 anos, esperou a vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais americanas para lançar nos cinemas o seu retrato intimista de um dos mais emblemáticos governantes de seu país, o presidente Abraham Lincoln. Não queria que a sua visão sobre a vida do homem que lutou pelo fim da escravatura nos EUA pesasse na escolha do eleitor. Em cartaz há seis semanas, o filme, que estreia no Brasil no dia 25 de janeiro, já faturou mais de US$ 100 milhões, é o líder de indicações ao Globo de Ouro e um dos fortes concorrentes ao Oscar. E já era favorito mesmo antes de ser lançado. Premiado pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood com quatro estatuetas, o cineasta afirma, contudo, que não realiza seus trabalhos pensando em Oscar. “O prêmio maior é o privilégio de fazer os filmes que quero”, afirma. Dono de algumas das maiores bilheterias do cinema e de uma fortuna de US$ 3 bilhões, o criador de sucessos como “ET – O Extraterrestre” e “Os Caçadores da Arca Perdida” não vê problemas em ser identificado como autor de “filmes-pipoca”, mas afasta a fama de adulador do público. Na entrevista a seguir, ele afirma que recusa dirigir sequências de seus longas e que nunca fez uma obra que não fosse extremamente pessoal. Estrelado por Daniel Day-Lewis, “Lincoln”, resgata os últimos quatro meses de vida do 16º presidente americano, após a Guerra da Secessão, no século XIX: “Ele enfrentou a pior crise que um país pode ter”, diz Spielberg.

03.jpg"Encontrei resistência à realização de 'Lincoln' (interpretado
por Daniel Day-Lewis, acima) dentro da minha própria
empresa, a DreamWorks Pictures"

01.jpg"Não discuto política atual (referindo-se ao governo de Barack Obama) com jornalistas.
Sempre que abro a boca para falar de política, esse passa a ser o destaque da entrevista"
Fotos: Divulgação; Pablo Martinez Monsivais/AP Photo
 
Istoé - Apesar de sua importância histórica, Lincoln não tem apelo mundial. O sr. levou isso em consideração, já que a maioria de seus filmes visa um público mais amplo? 
STEVEN SPIELBERG -
Sim. Por outro lado, levei em consideração que toda forma de democracia tem uma infraestrutura similar à dos EUA, o que fará boa parte da plateia internacional se identificar. Há ainda outros paralelos, como no Brasil, que também adotou a escravatura na época. Mas é verdade que encontrei resistência à realização de “Lincoln” dentro da minha própria empresa, a DreamWorks Pictures.
 
Istoé -  Foi por isso que o filme levou tanto tempo para sair do papel?
STEVEN SPIELBERG -
 Eu sempre levo o tempo necessário para encontrar o caminho certo e, assim, garantir que o roteiro saia do jeito que quero. Enquanto isso não acontece, cuido de outros projetos, o que nunca me falta. No caso de “Lincoln”, Tony Kushner trabalhou no roteiro por cinco anos. Queria um filme intimista, passado em interiores, com ênfase nos diálogos e nos relacionamentos. A ideia é que o espectador sinta que está quase ouvindo o que pensa o personagem e acompanhe de perto todo o processo pessoal e político.
Istoé - O sr. está satisfeito com o governo de Barack Obama?
 

STEVEN SPIELBERG -
Não discuto mais política atual com jornalistas. Com o tempo, descobri que sempre que abro a boca para falar de política, esse passa a ser o destaque da entrevista. Foi por essa razão que não lancei o filme antes das eleições. “Lincoln’’ acabaria servindo de plataforma para tratar das eleições nos jornais e o seu conteúdo acabaria ficando em segundo plano.
 
Istoé - Ser cogitado ao Oscar antes mesmo de o filme ser lançado gera alguma pressão, no sentido de corresponder às expectativas?
 

STEVEN SPIELBERG -
Não me sinto confortável para falar de Oscar pela simples razão de isso estar totalmente fora do meu controle. Como não posso determinar o que se passa na Academia, não faço filmes pensando em Oscar. Só posso dizer que tenho muito orgulho do trabalho que Daniel Day-Lewis, Tony Kushner e eu fizemos no filme.
 
Istoé - Nunca se sente pressionado?
 

STEVEN SPIELBERG -
Sim, mas nunca para ter um filme indicado ao Oscar. Não há pressão maior que a de um pai, no sentido de encaminhar e colocar os filhos na faculdade. E eu tenho sete (risos).
 
Istoé - Como consegue conciliar a intensa atividade de cineasta com as responsabilidades de pai de uma família numerosa?
 

STEVEN SPIELBERG -
Não sei (risos). O mais curioso é que, depois da faculdade, aos 20 ou 21 anos, os filhos acabam voltando. Recentemente, a nossa casa passou de um ninho vazio a um ninho cheio novamente. Eles voltaram a viver conosco por cerca de um ano até encontrarem um lugar para morar. Vê-los de novo nos mesmos quartos onde cresceram foi uma alegria para mim e para Kate (a atriz Kate Capshaw, com quem Spielberg está casado desde 1991). Foi uma prova de que fizemos um bom trabalho e de que eles ainda gostam dos pais.
 
Istoé - O sr. encorajou os filhos que resolveram seguir os seus passos?
 

STEVEN SPIELBERG -
Sim. Tenho muito orgulho de vê-los trabalhando na mesma área. Jessica Capshaw (filha do primeiro casamento de Kate, com Robert Capshaw) é uma das médicas no seriado “Grey’s Anatomy”. Meu filho Sawyer estuda artes dramáticas em Nova York e já fez a sua primeira peça off Broadway. Theo trabalha com videogames e Sasha é atriz e roteirista. Sasha e Theo ainda têm uma banda, chamada Brother/Sister.  
Istoé - Nenhum deles quis ser cineasta?
 

STEVEN SPIELBERG -
Ainda bem. Como eles cresceram nos sets de filmagem, observando de perto o que eu faço, ficaram com a impressão de que o trabalho do diretor é o mais chato do mundo (risos).
 
Istoé - Seus atores costumam dizer que o sr. parece uma criança no set. Como mantém esse entusiamo?
 

STEVEN SPIELBERG -
Amo o que faço, apesar dos detalhes triviais comuns à atividade. Para mim, todo dia é uma nova aventura. É como se fosse a primeira vez.
 
Istoé - Qual a sua primeira lembrança cinematográfica?
 

STEVEN SPIELBERG -
Quando era criança, meu pai me disse que me levaria a um “movie circus”. Confesso que nem ouvi a palavra filme. Fiquei ansioso por um circo. Ao entrar no local, achei estranha a disposição das cadeiras, esperava uma arquibancada. Achava que, abertas as cortinas, veria leões e elefantes. Quando a luz apagou, no entanto, não havia animal algum. Era apenas um filme sobre circo. No início, eu me senti enganado pelo meu pai e até chorei. Ele não entendeu nada (risos). Passados dez minutos, porém, eu me esqueci completamente de que aquilo não era um circo e comecei a acreditar nas imagens. Foi dessa forma que descobri o cinema.
 
Istoé - Poucos diretores em Hollywood assinam superproduções com um toque pessoal. Como conseguiu isso?
 

STEVEN SPIELBERG -
Todos os meus filmes são pessoais, mesmo os mais caros e também aqueles baseados em ficção científica. Muitas vezes o meu investimento pessoal na história é ofuscado pelo tamanho do filme ou pela grandiosidade do conceito ou ideia por trás dele. Na maioria das vezes, o público enxerga meus trabalhos como se fossem concebidos apenas para agradar às massas, um “filme-pipoca”.
 
Istoé - Isso incomoda?
STEVEN SPIELBERG -
Não. Eu sei o motivo por trás de cada um dos meus filmes. Todos são experiências pessoais, com as quais tenho uma conexão emocional muito forte. Ao longo dos anos, recusei centenas de filmes por não sentir qualquer ligação com os projetos.
 
Istoé - Quais filmes, por exemplo?
 

STEVEN SPIELBERG -
As sequências, principalmente, algo que não faço. A única que assinei foi “O Mundo Perdido: Jurassic Park”.
 
Istoé - A série “Indiana Jones” não se enquadra nesse caso? 
STEVEN SPIELBERG -
Não classifico a série “Indiana Jones” como sequência. É um personagem que eu adoro revisitar.
 
Istoé - Quando sairá o quinto filme?
 

STEVEN SPIELBERG -
Esta pergunta você deve fazer a meu melhor amigo, George Lucas. Enquanto ele não escrever o roteiro, não há nada garantido. Eu estou pronto, mas falta a história.
 
Istoé - Uma sequência de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” foi rodada nas Cataratas do Iguaçu, sem a sua presença. Não tem vontade de conhecer o Brasil?
 

STEVEN SPIELBERG -
Sim. Não fui ao País na ocasião porque estava muito ocupado e realmente não havia necessidade. A equipe só precisou realizar as tomadas aéreas das quedas d’água a partir de um helicóptero seguindo o storyboard que eu já tinha criado. Como não usamos atores, não havia mesmo um motivo para estar lá.
 
Istoé - Qual a imagem que tem do País?
 

STEVEN SPIELBERG -
Quero muito conhecer o Brasil. Minha ex-mulher, Amy Irving, foi casada com o cineasta Bruno Barreto e, por isso, meu filho Max Samuel (de 27 anos, fruto da união de quatro anos com Amy) já passou longas temporadas no país, principalmente em Búzios e em São Paulo. Ele até aprendeu um pouco de português e só fala maravilhas do Brasil. Por enquanto, a minha experiência com o País só se dá por essa conexão com o meu filho. Vou mudar isso e, finalmente, conhecer o Brasil. 

Te Contei, não ? - Os delatores de Dilma

Inquérito militar, obtido por ISTOÉ, revela quem são os cinco informantes de Minas Gerais que, durante a ditadura, denunciaram Dilma Rousseff e integrantes de seu grupo armado aos militares

Josie Jeronimo

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Denunciada por informantes do regime militar,
Dilma (em destaque) depôs em Juiz de Fora em 1971

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Vítima do aparato repressivo da ditadura, a presidenta Dilma Rousseff foi processada, presa e submetida a torturas por conta de sua militância em grupos de esquerda como o Comando de Libertação Nacional (Colina), que promoveu ações armadas entre 1967 e 1969. A organização de Dilma foi desmantelada por uma operação militar que prendeu seus principais integrantes e só foi possível a partir de informações fornecidas por colaboradores do regime militar. A lista desses informantes consta de denúncia oferecida pela 4ª Circunscrição Judiciária Militar em 1971 e foi obtida com exclusividade por ISTOÉ. No documento, até agora inédito, os militares listam cinco nomes de civis que, após terem testemunhado ações do Colina, passaram a integrar a rede de informações em Minas Gerais. Essas pessoas entregaram detalhes de encontros, endereços e a identidade de militantes. Um dos delatores citados no documento é considerado peça-chave para a inclusão da jovem Dilma Vana Rousseff no processo movido contra integrantes da organização. Trata-se do médico José Márcio Gonçalves de Souza, que hoje atende num hospital ortopédico de Belo Horizonte.
No fim da década de 1960, Gonçalves lecionava na Escola de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A faculdade era considerada a principal célula de operação do grupo armado. Lá atuava Dilma Rousseff e mais cinco integrantes do Colina. Eles costumavam se reunir na cantina, onde o professor também fazia seu lanche nos intervalos das aulas, mas Gonçalves só começou a reparar nos militantes depois de ser vítima de parte do grupo. No início de 1968, quatro militantes, entre eles o sindicalista Irani Campos, abordaram o professor de medicina no estacionamento da faculdade e roubaram seu carro. Ele registrou queixa e, pouco tempo depois, foi chamado pela polícia para identificar Campos. Na acareação, negou a participação do sindicalista no episódio. Posteriormente, mudou sua versão para os militares e incluiu Irani. A partir dali, José Márcio Gonçalves foi recrutado para ajudar a monitorar os movimentos da célula da Faculdade de Medicina. Dilma, embora fosse estudante de economia, e não tivesse participado do roubo do carro, integrava aquele grupo na condição de “coordenadora nas escolas”, conforme descrição que consta do processo: “Integrava uma célula na Faculdade de medicina. Fazia reuniões com os ginasianos em sua residência.”
DELATORES-3-IE-2250.jpgINFILTRADO
O médico José Márcio Gonçalves foi recrutado pela repressão para monitorar os militantes
do Colina que integravam a célula da Faculdade de Medicina da UFMG. Entre eles, Dilma
Quando a denúncia da Justiça Militar foi feita em 1971, Dilma já estava presa por conta de outro processo. Fora capturada um ano antes na Operação Bandeirantes em São Paulo. Então, estava operando para a Var-Palmares – organização que surgiu da fusão do Colina com a VPR de Carlos Lamarca. Com o julgamento dos integrantes do grupo de Minas Gerais, os militares resolveram transferir Dilma. A jovem foi parar na Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, outro calabouço da ditadura. Ali, passou por novas sessões de tortura. Além do médico, os militares citam a colaboração de Sérgio Augusto de Lima Rodrigues, Leonardo Hamacek, Humberto Rolo da Silva e Onésimo Viana. Procurados, todos se disseram vítimas do Colina, na hora de justificar suas atuações como informantes. “Eu costumava rodar as delegacias com os militares para identificar suspeitos e escrevia relatórios periódicos. Os militares pediam que nós fizéssemos o relato. Eu sentei na máquina e escrevi, mas eu nunca militei pela direita. Apenas cumpri o dever que achava que tinha que cumprir”, confirma o bancário aposentado Lima Rodrigues, então caixa de um dos bancos assaltados pelo grupo armado. Para Hamacek, as informações eram “coisa corriqueira e sem grande importância. Não tem nada expressivo nas informações”, disse.
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Já o médico José Márcio Gonçalves, ao ser questionado por ISTOÉ sobre as atividades de informante, tentou se desvincular dos militares. “Depois que eles (militantes do Colina) foram presos, eu fui chamado a fazer uma declaração, mas nunca reconheci nenhum deles”, disse. “Se meu nome está nessa lista, só pode ser um erro dos militares”, despistou Gonçalves. Mas, perguntado especificamente sobre outro integrante do Colina, Irani Campos, o médico reconsiderou. “Agora que você mencionou o Irani, eu lembrei.” Gonçalves e Irani davam plantão juntos no laboratório do pronto-socorro vizinho à Escola de Medicina. E o sindicalista lembra-se bem do convívio com o professor. Na época, porém, nunca desconfiou que Gonçalves pudesse ser um informante. Argumenta, no entanto, que eles eram frequentemente enganados por agentes infiltrados. “Sei que no pronto-socorro havia um outro agente do SNI (Serviço Nacional de Informações), que só descobri quando fui preso. Estava ferido e mandaram esse médico me atender”, lembra Irani.  


Revista Isto é

Te Contei, não ? - Universidade com a cara do Brasil

Três votos favoráveis - do Judiciário, do Legislativo e do Executivo - garantiram o sistema de cotas, que pode mudar o excludente ensino superior brasileiro

Rachel Costa

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Após a abolição da escravatura, no século XIX, popularizou-se no Brasil a ideia de uma falsa democracia racial, embasada na tese de que não havia racismo nem discriminação no País, pois brancos e negros possuíam as mesmas oportunidades. O discurso, porém, perdia força quando se olhava para a sociedade. De um lado, um Brasil formado por uma elite rica e branca. De outro, uma grande massa de negros e pobres, com acesso precário aos serviços públicos, em grande parte moradores de favelas. Em 1995, quando se começou a falar sobre ações afirmativas no País, os negros eram pouco mais de um sétimo dos 10% mais ricos da população, apesar de serem mais de 40% do total de brasileiros. Em 1997, apenas 1,8% dos negros e 2,2% dos pardos estavam na universidade ou eram diplomados, diante de 11,4% dos brancos. Se as condições eram iguais, por que tanta diferença? “O Brasil precisou primeiro olhar para dentro e aceitar essas distorções, para depois buscar formas de desfazer o problema”, avalia José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares. O ano de 2012, diz Vicente, entra para a história como um resumo dos vários processos de mudança vividos desde 1995. A consolidação do sistema de cotas étnicas, que foi considerado legal pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e ganhou uma lei federal regulamentando sua existência, é um reconhecimento claro de que a igualdade brasileira ainda é um ideal a ser alcançado.
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“A decisão do STF foi muito positiva, porque um dos argumentos dos contrários à medida era justamente o de sua inconstitucionalidade”, diz o pró-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sergio Roberto Kieling. A UFRGS, junto com a Universidade de Brasília (UnB), era ré nos processos analisados pelo Supremo em abril. Quando o STF julgou os casos, as ações afirmativas já iam muito além de uma iniciativa isolada das duas instituições. Estavam presentes em outras 181 universidades, número que crescerá ainda mais em 2013 após a lei que institui o sistema nacional de cotas, aprovado em agosto pelo Congresso. De acordo com a nova regra, até 2016, 50% das vagas das universidades federais serão reservadas para alunos de escolas públicas, sendo até 25% para negros. A medida pretende reverter a desigualdade das salas de aula do ensino superior brasileiro. A boa aprovação da sociedade tem encorajado quem era reativo à ideia a anunciar seus próprios sistemas de cotas. Exemplo é o governo de São Paulo, responsável por universidades de referência como a USP e a Unicamp, que anunciou na semana passada seu próprio modelo de reserva de vagas. Esforço que soma pontos na busca pela verdadeira democracia racial.

Revista Isto é

Resenhando - A explosão do erotismo feminino

A pelidada de “pornografia para mamães”, a trilogia de livros “Cinquenta Tons...”, criada pela escritora inglesa E L James, invadiu a lista dos mais vendidos dos EUA no início do ano e não saiu mais do seu topo, fenômeno que se repetiu no mundo todo, inclusive no Brasil. A história que conquistou em tempo recorde mais de 60 milhões de leitores, a maioria feminina, trata da relação sadomasoquista entre uma jovem universitária e um empresário bem-sucedido e um pouco mais velho, num crescendo de práticas sexuais que animou a sequência de títulos e a própria curiosidade do leitor. Definida pela própria autora de 49 anos como um conto de fadas com um toque de sexo picante, a série de livros começou como postagens anônimas na internet. E L James os publicava em fóruns sobre a saga “Crepúsculo”, o que causou desconforto nos fãs em razão do forte teor erótico – e o interesse das editoras. No Brasil, o primeiro livro da trilogia foi lançado em julho e vendeu 1,13 milhão. Juntos, os três volumes somam mais de 2,3 milhões de exemplares vendidos, o que dá uma média de 13 livros comprados por minuto em apenas quatro meses. De olho no sucesso instantâneo, Hollywood se apressou em adaptar o romance entre Anastasia Steele e Christian Grey para as telas. Os direitos foram comprados por US$ 5 milhões pela Universal e, na briga pelos papéis, Emma Watson e Ryan Gosling aparecem como os mais cotados.

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Revista Isto é

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Te Contei, não ? - Governo adia início do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa



Mudanças do novo acordo ortográfico (Foto: Reprodução)A obrigatoriedade do uso do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa, assinado em 2008 e previsto para entrar em vigor no próximo dia 31, foi adiada por mais três anos. O novo prazo para entrada em vigor do acordo é 1º de janeiro de 2016. A presidente Dilma Rousseff assinou um decreto redigido pelo Ministério de Relações Exteriores e publicado na edição desta sexta-feira (28) do "Diário Oficial da União".
O novo prazo foi definido durante reunião de um grupo interministerial composto, além de membros do MRE, por técnicos do Ministério da Educação e da Casa Civil.

De acordo com a assessoria de imprensa da Casa Civil, a ministra-chefe Gleisi Hoffmann recebeu em novembro um grupo de senadores que defenderam o adiamento do prazo, e convocou uma reunião com os ministérios envolvidos no tema. Uma reunião com representantes dos ministérios das Relações Exteriores, Cultura e da Casa Civil, definiu que o acordo vai começar a valer daqui a três anos. A nova data escolhida pelo grupo, que reúne técnicos e subchefes dos três ministérios tem como objetivo ajustar o prazo brasileiro com o de Portugal, que tem mais três anos até que o acordo seja totalmente aplicado no país. Até 31 de dezembro de 2015, coexistirão a norma ortográfica atualmente em vigor e a nova norma estabelecida.
Segundo o Ministério da Educação, o Brasil é o que mais avançou na implantação do acordo entre os oito países que assinaram o documento. Mesmo já tendo feito "a lição de casa", o secretário de Educação Básica, César Callegari, explicou ao G1 que o MEC é favorável a alinhar o cronograma brasileiro "com o cronograma de outros países, entre eles Portugal".

Callegari afirmou que, pouco depois da ratificação do acordo pelo Brasil, o ministério, que é o maior provedor de livros didáticos do país, começou a incluir, em seus editais de compra de livros e dicionários para escolas, a exigência de que os materiais já estejam adaptados às novas regras da ortografia. Porém, para ele, a preparação dos professores para ensinar as novas regras cabe às universidades.
"Boa parte da tarefa que cabe ao ministério está realizada. O trabalho de formação de professores e atualização cabe fundamentalmente ao sistema de ensino, das instituições públicas e privadas de educação superior. Mas as diretrizes estão dadas, e os materiais já estão com as novas características dessa nova ortografia", disse.  
O MRE afirmou, por meio de sua assessoria, que seus técnicos ficaram responsáveis por minutar o decreto até o fim do mês, para que ele possa ser submetido à Presidência da República. Mas, segundo o ministério, novo prazo será definido pela própria presidente. A ideia, de acordo com o MRE, é prorrogar a entrada em vigor do acordo para dar mais tempo de adaptação das pessoas à nova ortografia.

Pedagogia defasada
Mas a data de implantação do acordo não é a única preocupação de alguns políticos e membros da sociedade civil. Senadores que integram a Comissão de Educação, Cultura e Esporte acreditam que parte da dificuldade de adesão dos brasileiros às novas regras é culpa da falta de debate em torno do tema.
De acordo com a assessoria de imprensa do presidente da comissão, Roberto Requião (PMDB-PR), o senador "vê com reservas" o conteúdo do acordo porque ele foi articulado pelos governos, mas não ganhou espaço de discussão na socidade. Os senadores tinham o objetivo de elaborar um projeto de lei para adiar a implantação do documento, mas, em conversas com os ministérios, decidiu-se que a melhor abordagem seria por meio de um decreto.
Em entrevista à Rádio ONU, a senadora Ana Amélia (PP-RS), que também integra a comissão e, segundo sua assessoria, é autora do projeto, afirmou que a proposta de adiar o prazo é um "gesto de solidariedade" e de "boa vontade política".
Já a ideia de substituir o projeto de lei por um decreto presidencial serve para "facilitar do ponto de vista legislativo. Um projeto de resolução criaria alguns problemas de ordem legal em função de ser um acordo internacional". 
Um dos maiores críticos do acordo no país quer aproveitar o possível adiamento para mudar o conteúdo da nova ortografia. Segundo o professor Ernani Pimentel, presidente da Editora Vestcom e do Movimento Acordar Melhor, é preciso simplificar as novas regras e "ajustar problemas que não foram percebidos" pelas pessoas responsáveis pela elaboração e assinatura do documento.
Para ele, como a implantação do acordo avançou menos nos demais países e tem recebido críticas por lá, e como o Brasil deve adiar a entrada em vigor das nossas regras por mais três anos, o momento é oportuno para corrigir as principais questões.
O mais sério dos problemas, segundo ele, é o fato de o acordo ter sido pensado na década de 1970, quando o sistema educacional era muito diferente do atual. "Naquela época a educação se baseada na didática da memorização, na chamada 'decoreba'. Em história, o que se estudava história eram nomes e datas, e em português eram só as regras e as exceções. Mas a pedagogia foi evoluindo, e hoje o aluno está acostumado a racionar, ele quer pensar e entender, e não ficar decorando, e essas regras são baseadas ainda na pedagogia antiga", afirmou Pimentel ao G1.
Segundo Callegari, do MEC, as propostas de simplificação não estão contempladas na discussão do grupo interministerial. "O que poderia ser considerado e sempre pode ser considerado são propostas que visam simplificar, mas não seria adiar, seria outro acordo".
Muitas regras
O especialista explica que, com tantas regras no idioma atual, e a falta de conhecimento a respeito das mudanças acordadas, é impossível falar português fluentemente. Desde 2008, ele já colheu mais de 20 mil assinaturas de brasileiros contra a implantação da nova ortografia.
Mais da metade, segundo Pimentel, é formada por professores, muitos deles ainda sem familiaridade com a nova ortografia e contrários à forma como o acordo foi feito, sem o devido debate nas escolas, universidades e na sociedade em geral.
"Você não pode fazer um acordo de ortografia sem ver o que os professores acham. Se os professores não aprenderem [as novas regras], eles não podem ensinar", afirmou o especialista. Ele afirma que os professores calculam gastar 400 horas de aula ao ensino da ortografia no ciclo básico e, mesmo assim, os brasileiros saem da escola sem dominar as regras. A simplificação, nesse caso, auxiliaria a melhorar a qualidade da educação. "Essas regras são ilógicas, não pode impor na sociedade."



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Te Contei, não ? - A cara do Modernismo

Foi com absoluta sinceridade que Mário de Andrade justificou sua preferência: “O do Portinari é mais certo, porque é o que eu gosto.” Ele se referia ao retrato de si pintado por Cândido Portinari, diante de outro, feito por Lasar Segall. Tal referência consta de uma carta enviada à escritora Henriqueta Lisboa em 1941. Dessa análise, tão simples quanto improvável para um dos mais importantes críticos de arte do País, depreende-se um Mário de Andrade humano, inseguro, egocêntrico e, sobretudo, profundamente preocupado com sua imagem – uma angústia que explicaria, em parte, sua coleção de 40 telas que o retratam, produzidas pelos mais talentosos artistas – entre eles, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.
“Ele tinha uma tremenda consciência da importância de sua obra para a literatura e cultura brasileiras”, diz Pedro Meira Monteiro, professor de literatura latino-americana da Universidade de Princeton, nos EUA. “Se a isso se chamar vaidade, então vá lá, ele era vaidoso.” Essa maneira até espontânea demais com que Mário de Andrade imprimia suas opiniões é uma constante nas quase duas mil cartas que ele compartilhou com seus colegas modernistas – um mosaico homogêneo no qual ele revela sua vontade de desenvolver uma cena cultural genuinamente brasileira e, em especial, de se tornar a cara desse emergente movimento.
Para cumprir esse objetivo, Mário se empenhou com afinco em apadrinhar artistas por vezes inconstantes, como foi o caso da amiga Anita Malfatti, que acabou “retrocedendo” a uma espécie de classicismo e nunca cedeu às pressões do crítico. Em seus textos, ele batia o pé para que o grupo permanecesse fiel às bases assentadas na Semana de Arte Moderna de 1922.
“As cartas contam as mesmas ideias de brasilidade de maneira diferente para cada um dos destinatários”, diz Denise Mattar, curadora da exposição “Cartas do Modernismo”, que fica em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, entre os dias 14 de novembro e 6 de janeiro. “O tom da correspondência para Anita Malfatti é sempre carinhoso. O tom das cartas para a Tarsila, por outro lado, é totalmente apaixonado, muito poético e emocional”, diz Denise.
Para o professor Meira Monteiro, tal atitude era premeditada: “É o caso estranho, interessante, de alguém que escrevia para outra pessoa sabendo que escrevia para a posteridade.” Curioso pensar que, em respeito a sua vontade, sua correspondência só foi aberta e publicada 50 anos depois de sua morte, em 1995. Nesses documentos, que são de inestimável valor para o estudo das artes plásticas brasileiras e têm vindo à tona em forma de incontáveis recopilações, o escritor que chamava Portinari de “amico mio” e descrevia Segall como “russo complexo e bom judeu místico” prova que sua grande obra, seu autorretrato mais perfeito, não podia ser outra que o próprio conjunto da arte moderna brasileira.


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Revista Isto É

Artigo de Opinião - Royalties e aperto fiscal

 A Câmara dos Deputados, em sessão no início de novembro, tomou uma decisão sobre a divisão dos royalties do petróleo que se mostrava mais prejudicial ao Rio de Janeiro do que a proposta original apresentada pelo relator da matéria, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP).
A posição da Câmara afrontou o bom-senso e a Constituição do país ao retirar dos estados produtores de petróleo o recebimento das parcelas dos royalties relativas a contratos de exploração já em andamento. No caso do Rio, estima-se que as perdas, até 2020, poderiam chegar a R$ 70 bilhões.
A presidenta Dilma Rousseff, demonstrando mais uma vez postura de estadista, vetou a agressão aos estados produtores de petróleo, restabelecendo a justiça na distribuição dos recursos e a observância à Constituição. O acerto da presidenta despertou a fúria de parlamentares e governadores, que iniciaram movimento visando à derrubada do veto de Dilma. Trata-se de movimento insano e absolutamente inadequado.
Na verdade, o que existe por trás da ação de parlamentares e governadores é a pretensão de obter mais recursos para seus estados e municípios diante do aperto fiscal vivido pela maioria. Se há dificuldades fiscais, elas devem ser discutidas e avaliadas em um ambiente amplo, que envolva as relações da União com estados e municípios na repartição de recursos tributários.
Ao invés de partir para essa discussão mais ampla, parlamentares e governadores optaram pelo caminho mais fácil: retirar recursos de estados como Rio de Janeiro e Espírito Santo. A solução, agora, parece estar retomando o caminho normal.
A União está disposta a debater com os governos estaduais o sistema tributário, a unificação do ICMS, a dívida dos estados e a repartição do Fundo de Participação dos Estados. Essa é a forma justa e constitucional para restaurar o pacto federativo no país, e não por uma tentativa injustificada e inaceitável de subtrair recursos fundamentais para o desenvolvimento do Rio.


Jorge Bittar é deputado federal pelo PT 

Artigo de Opinião - Feliz Ano - Novo

Frei Betto *

 

Feliz Ano Novo aos que acordarem em 2005 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.
Feliz ano a quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes. Felizes aqueles que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; generosos, ousam a humildade.
Ano Novo a todos que despertam hoje ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.
Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio; a vida é dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.
Novo seja o ano àqueles que nunca maldizem e possuem a própria língua, poupam palavras e semeiam fragâncias nas veredas dos sentimentos.
Seja também feliz o ano de quem guarda-se no olhar e, se tropeça, não cai no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.
Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, carro e amor; viver é graça a quem acaricia suas rugas e trata seus limites como cerca florida de choupana montanhês.
Tenham um feliz ano todos que sabem ser gordos e felizes, endividados e alegres, carentes de afago mas repletos de vindouras fortunas em seus anseios.
Feliz Ano Novo aos órfãos de Deus e de esperanças, e aos mendigos com vergonha de pedir; aos cavaleiros da noite e às damas que jamais provaram do leite que carregam em seus seios.
Felizes sejam, neste ano, os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vantagens; aqueles que nada temem, exceto o olhar súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que não lhes querem. Felizes sejam também as mulheres que se matam de amor, e de dor por quem não merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.
Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências e para quem não conspira contra a vida alheia.
Feliz Ano Novo para quem coleciona utopias, faz de suas mãos arado e, com o próprio sangue, rega as sementes que cultiva.
Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a idade alvíssara de emoções férteis.
Muitas felicidades aos que trazem em si a casa do silêncio e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado com sorrisos de sabedoria.
Um ano feliz aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a morte sem estranheza e brincam com a criança que os habita.
Feliz Ano Novo aos sonâmbulos que se equilibram em fios que unem postes e aos que garimpam luzes nas esquinas da noite.
Um Ano Novo muito feliz a todos nós que juramos seqüestrar os vícios que carregamos e não pagar o resgate da dependência; o futuro nos fará magros por comer menos; saudáveis, por fumar oxigênio; solidários, por partilhar dons e bens.
Feliz 2005 ao Brasil que circunscreve a geografia do paraíso terrestre, sem terremotos, tufões, furacões, maremotos, desertos, vulcões, geleiras, tornados, neves e montanhas inabitáveis.
Conceda-nos Deus a bênção de tantos dons, livres de políticos que constroem para si o céu na Terra com a matéria-prima do inferno coletivo.



• Frei Betto é escritor, autor de Típicos Tipos – perfis literários (A Girafa), entre outros livros.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Você já tá sabendo ? - Crime de Estado

Chamada.jpgA morte de um coronel reformado do Exército em Porto Alegre (RS), em 1º de novembro, abre a caixa-preta de um dos episódios mais sombrios da ditadura militar. Na casa de Julio Miguel Molinas Dias, 78 anos, provável vítima de latrocínio, foram encontrados pela Polícia Federal gaúcha documentos que comprovam que o ex-deputado Rubens Paiva passou pelo Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio de Janeiro, durante o regime militar. O corpo de Paiva nunca foi localizado, e os militares jamais admitiram responsabilidade sobre o sumiço do político cassado pela ditadura militar (1964 a 1985). O Exército sustentava que ele teria fugido do carro no qual era levado para depor, beneficiado por um ataque a balas de um grupo de terroristas de esquerda. Testemunhas, no entanto, sempre disseram que Paiva foi preso em sua casa, no Leblon, zona sul carioca, no dia 20 de janeiro de 1971 por agentes da Aeronáutica e, após tortura, foi morto.

IEpag52_Rubens.jpgUm ofício comprova não só a entrada de Paiva na unidade do Exército como lista os objetos pessoais apreendidos. Os papéis, agora, estão nas mãos da Comissão Nacional da Verdade, que investiga crimes cometidos por agentes da ditadura. Filha de Paiva, a psicóloga e professora Vera recebeu a notícia com alento. “Depois dessa descoberta, tive ainda mais certeza do valor das causas pelas quais meu pai morreu. Ele lutou por justiça, democracia e verdade. E são esses princípios que temos a oportunidade de consolidar agora”, declarou à ISTOÉ. Vera acha que, por não ter dado o tratamento devido aos crimes da ditadura, o Brasil continua assistindo à violência praticada por policiais, sem o mesmo cunho político, mas com os mesmos métodos. “Nosso sofrimento é igual ao de tantas famílias que até hoje não conseguem sepultar seus parentes, vítimas de agentes públicos”, lamenta.

RUBENS-05-IE-2247.jpgIrmão dela, o escritor Marcelo Rubens Paiva, também comemorou. Em seu blog, declarou: “Nessas horas, mais uma vez, é preciso separar as emoções e pensar objetivamente. E, como faz um democrata, confiar nas instituições.” Ele cobrou a convocação para depor dos militares que serviam no DOI-Codi do Rio e estavam de plantão nos dias em que o pai esteve preso. O procurador Cláudio Fonteles, que coordena a Comissão Nacional da Verdade, disse que “a descoberta quebra a brutal farsa do Estado ditatorial que afirmava que Paiva e outros desaparecidos estavam foragidos”. O magistrado Aramis Nassif, da Comissão Estadual da Verdade gaúcha, que também obteve cópia dos documentos, ressalta a importância da descoberta: “Esperamos que ajude a esclarecer definitivamente o que aconteceu com Rubens Paiva.” O coronel reformado que estava com os elucidativos documentos foi chefe do DOI-Codi nos anos 1980, cerca de uma década após o desaparecimento de Paiva, e teria recolhido os arquivos antes de se aposentar. Molinas Dias os guardou por mais de 40 anos.  

Revista Isto É

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

É bom saber !!!! - 2013

FELIZ 2013

Ano tem algumas efemérides importantes. Veja:

1988 > 25 anos - Morre Chico Mendes

1963 > 50 anos - Morre o cantor e compositor Lamartine Babo  / Um plebiscito escolhe para o Brasil a volta do presidencialismo como forma de governo.

1933 > 80 anos - Nasce Mané Garrincha

1913 > 100 anos - Nasce Rubem Braga / Nasce Vinícius de Moraes /  Nasce Jamelão / Nasce Ciro Monteiro / Morre Aluísio Azevedo

1853 > 150 anos - Nasce Ernesto Nazareth / Nasce Catulo da Paixão Cearense

1813 > 200 anos - Nasce Irineu Evangelista de Souza - Barão de Mauá

1763 > 250 anos - A capital do Brasil Colônia é transferida de Salvador para o Rio de Janeiro

Tá na hora do Poeta - Fim de Tarde - José Henrique da Silva

Fim de tarde

Impudente o Sol vem aqui
Em minha janela brincar de desmaiar.
O tempo corre, corre fremente
...
... E debochado como ele só.
O destino travesso na vida, parece que vai transformar tudo em pó.
Sozinho,
Inseguro,
Seguro na garganta um nó.
A vida traquina tudo revendo,
Colocando mertiolate em cada ferida,
Ferida que vai, sutilmente,
Na face, que não se mostra, tudo corroendo.

Por que será que naquele momento
Sem alento,
Naquele instante em que do outro mais precisamos,
Ele saiu,
O celular não atende ...
É a estranha sensação de que na vida dele não estamos.

Disritmia
De alegrias
Num final de tarde
Que só quem entende,
Quem já conhece
De vazios,
E melancolias ....


José Henrique da Silva
25 de dezembro de 2012.

Artigo de Opinião - Cidadania nas escolas e outras utopias - João Pedro Roriz

O Senado aprovou projeto de lei que pode tornar obrigatório o estudo de cidadania nas escolas. O MEC é contra, pois se preocupa com a já saturada grade escolar. Pior do que não ter a matéria é aplicá-la de modo equivocado. O Brasil sofre a dicotomia entre teoria e prática, e os parlamentares agem como Pollyanna ao produzir leis idealistas para um país irreal.
“Cidadão”, segundo o dicionário, é o indivíduo no “gozo de plenos direitos civis e políticos”. Mas as mazelas criam um cenário onde é possível observar grandes grupos à margem de seus direitos e alheios a seus deveres. Não é possível falar de cidadania sem passar recibo de incompetência histórica governamental. Mas o senador Sérgio Souza, proponente da lei, prefere culpar as pessoas. “O cidadão já é corrupto no momento em que quer levar vantagem na fila”, diz ele.
É possível em nosso mundo compreender o real significado da palavra cidadania? Sem incorrer nos clichês do tema, acredito que não. As escolas atendem aos pedidos dos sonhadores de Brasília enquanto muitos jovens seguem inconscientemente o equivocado discurso de revolta que compõe o universo cultural das metrópoles. Nesse Brasil ‘descoberto’ por Cabral, os professores só poderão falar maquinalmente aos jovens sobre sua sonhada e abstrata cidadania; sobre ‘direitos’ e ‘deveres’ que os tornarão ‘comportados’, pois assim desejam os governantes — muitos dos quais, corruptos.
Liberdade é consciência. Mas os políticos da distante Brasília esqueceram que “o sol da liberdade em raios fúlgidos” ainda não brilha para todos “no céu da pátria” deste instante.


Escritor e jornalista, autor do livro ‘Almanaque da Cidadania’

Te Contei, não ? - Vício em celular atrapalha vida familiar e profissional

Rio -  Celulares supermodernos estão entre os presentes de Natal mais populares. Você mesmo pode ter ganhado um. Mas cuidado, pois a maior facilidade em obter estes aparelhos criou uma nova doença: a nomofobia, síndrome que deixa a pessoa dependente da tecnologia. A empresa francesa de pesquisa Ipsos revelou que 18% dos brasileiros admitem ser viciadas nos seus aparelhos. Em outro levantamento, feito pela revista ‘Time’ e pela empresa Qualcomm, 35% dos brasileiros afirmaram consultar o celular a cada dez minutos ou menos.

Foto: Paulo Araújo / Agência O Dia


Ficar longe do tablet ou do smartphone parece missão impossível para muitos. A psicóloga Andreia Calçada explica que este vício atrapalha as relações pessoais e profissionais: “A pessoa fica muito desgastada, começa a não dormir direito e não dar atenção à família, para poder ficar olhando o celular. Se esquece o aparelho em casa, entra em pânico. Tudo isso prejudica a maneira com a qual ela vai se relacionar com os outros”.
A psicóloga afirma ainda que a falta de contato com o aparelho causa sensação de perda. “As pessoas acham que, por não estarem olhando a todo instante o celular, estão perdendo o que está acontecendo. Têm a sensação de estarem sendo deixadas de lado”, alerta.
Ainda segundo ela, dependendo do grau de uso, o smartphone pode causar dependência química como qualquer droga. “Muitos criam um comportamento obsessivo-compulsivo com o celular e precisamos tratá-los como viciados”, diz Andreia . O especialista em administração de tempo Christian Barbosa explica que é preciso achar um limite no uso dos aparelhos eletrônicos. “Não adianta colocar o celular à frente da sua vida pessoal. Temos que saber separar o uso exagerado do saudável”, explica. Os aparelhos que possibilitam que se faça várias tarefas simultaneamente prejudicam o rendimento profissional.
Dificuldade em separar real e virtual
A psicóloga Andreia Calçada alerta também para o fato de o uso indevido dos aparelhos eletrônicos causar dificuldade na separação do mundo real do virtual.
“Algumas pessoas simplesmente não conseguem se desconectar. Mesmo durante um jantar a dois, elas usam os aplicativos do aparelho para se comunicarem”.
É assim com o operador de informática Vinicius Pereira, 32 anos, que se considera dependente do celular. “Minha mãe e meus amigos reclamam todas as vezes que saímos porque eu sempre estou atualizando alguma coisa ou vendo alguma novidade. Mas não adianta, eu olho e uso o tempo todo mesmo”, conta.
Para resolver o problema, Christian Barbosa avisa: esqueça que ele existe. “As pessoas precisam guardá-lo na gaveta mesmo. Desativar as notificações e deixá-lo longe. Assim, vai amenizar a dependência pouco a pouco”.


Reportagem de Pedro Daher

Crônica do Dia - Saudades do Natal

                                               Arnaldo Jabor 
                                     O Estado de S.Paulo



Eu já tive carnavais felizes, "sãos joões" felizes, mas não me lembro de uma grande "noite feliz, noite de paz"... O Natal perdeu a delicadeza antiga. Não temos mais chaminés nem ceias opulentas. Em vez do saco de presentes, temos as calamidades coloridas dos shopping centers. Hoje, no presépio de Belém, perto da manjedoura onde o menino Jesus recebeu os reis magos, nos lugares sagrados de Jerusalém, explodem os homens-bomba berrando "Feliz Natal, cães infiéis!"
Que estranho destino é esse da humanidade se fechando como uma cobra mordendo o próprio rabo, a morte no mesmo lugar no nascimento, o fim da civilização no mesmo lugar onde começou, ali entre o Tigre e o Eufrates, na Mesopotâmia.
Uma vez, Rubem Braga fez uma lista dos lugares-comuns jornalísticos que justificariam demissões sumárias. O sujeito que escrevesse que o "trem ficara reduzido a um monte de ferros retorcidos" ou que o "incêndio era o 'belo-horrível' estava despedido. Havia outras banalidades imperdoáveis, como: "Natal Natal, bimbalham os sinos!"...
Lembro-me que no Natal, enquanto os sinos 'bimbalhavam', eu via as ceias do meu canto de menino: as ligações frágeis entre parentes, entre tios e primos, as antipatias disfarçadas pelos abraços frios e os votos de felicidades. Eu olhava as famílias viajando no tempo como um cortejo trôpego, eu via a solidão de primos medíocres, das tias malucas, dos avós já calados e ausentes, o eterno presunto caramelado, o peru com apito. O destino das famílias ficava evidente no Natal. Os pobres se conformando com o tosco prazer dos presentes baratos e os ricos querendo provar que seriam felizes a qualquer preço - egoístas o ano inteiro, esfalfavam-se para viver uma alegria compulsiva entre gargalhadas, beijos molhados de vinho e uísque, terminando nas tristes saídas na madrugada, com crianças chorando e presentes carregados com tédio por pais de porre, aos berros de "feliz Natal".
Papai Noel sempre me intrigou. Quem era aquele sujeito que começava a aparecer no fim do ano, nas lojas, no rádio, na TV? Papai Noel tem muitas conotações desde que foi inventado na Noruega, por causa de São Nicolau, que ajudava as pessoas carentes nos fins de ano.
Soube que, no fim do Estado Novo, lançaram uma campanha nacionalista para substituir o Papai Noel por um outro símbolo: o "Vovô Índio" - um velho silvícola seminu, com peninha na cabeça, que traria presentes para os "curumins" de verde e amarelo. Foi um tremendo fracasso, claro, numa época em que o cinema americano já mandava o Bing Crosby cantando White Christmas sem parar.
Papai Noel era invencível, se bem que eu nunca gostei dele. Papai Noel sempre foi uma imagem de perdão e carinho.
Mas, não para mim. Já contei isso uma vez, aqui. E o repito porque nos Natais e carnavais nada muda. Nada mais parecido com um Natal do que outro.
Papai Noel me dava presentes sim, mas sempre acompanhados de uma carta (escrita à mão, em tinta roxa) em que me fazia repreensões dolorosas: "Por que você desobedeceu à sua mãe e matou a aula de piano? Por que você bateu na sua irmã com o espanador? Se fizer de novo... ano que vem tem castigo..." Para mim, Papai Noel era assustador, por causa desse estratagema educativo de meu pai, que usava o Natal para me dar lições de moral. Cada presente aberto me dava um sentimento de culpa. Daí, a conclusão infantil: Papai Noel gostava de todo mundo, menos de mim. Papai Noel foi meu superego de barbas brancas.
Talvez por isso, comecei a criticar o mundo desde pequeno. Deu no que deu... hoje sou esta pobre cabeça falante se esgoelando no rádio e TV. Eu fui o primeiro de minha turminha de subúrbio a desconfiar que Papai Noel era uma fraude; comecei com ele e hoje tenho os mensaleiros e pizzas de CPI, neste país farto de mentirosos. "Papai Noel não existe!" - foi meu grito revolucionário. "Existe sim! Ele me deu um velocípede!" - bradavam os meninos obstinados em sua fé. "Ah, é? Então, fica acordado para ver se não é teu pai botando os presentes na árvore!" Mas, meus amigos lutavam contra essa desilusão, mais ou menos como velhos petistas que não desistem do paraíso comunista. Recorri a meu avô, conselheiro e aliado, e ele apoiou meu agnosticismo natalino: "Não existe não... Você não é mais neném..."
Daí para a frente, não parei mais. Entrei de sola na lenda da cegonha e do bebê que "papai do céu mandou"...
"Vocês pensam o quê? As mães de vocês ficam nuas e o pai de vocês bota uma coisa dentro da barriga delas pelo umbigo...!" "A minha mãe, não!" - berravam os jovens édipos, partindo para a porrada de rua comigo. Daí para descrer de Deus foi um pulo, para o horror escandalizado dos colegas do colégio jesuíta. "Deus é bom, padre?" "Infinitamente bom..." "Ele sabe de tudo?" "Sim..." - respondiam os padres já desconfiados. "Então, por que ele cria um cara que depois vai para o inferno?" Até hoje ninguém me respondeu a isso.
E assim fui, até começar meu ódio ao "imperialismo norte-americano" dos anos 60. Hoje, não tenho mais medo do Papai Noel; tenho até uma certa pena dele... e de nós.
Hoje, Papai Noel vem com as renas canibais de um Polo Norte que está derretendo pelo efeito estufa que os líderes mundiais se recusam a combater. O Natal é uma saudade do Natal. E hoje, com o futuro cada vez mais ralo, tenho saudades da precariedade de nossa vida antiga, da ingenuidade dos comportamentos, de um mundo com menos gente louca e má. "Ah! Você por acaso quer a volta do atraso?" - dirão alguns. Não; mas sonho com uma vida delicada que sumiu, dos lugares-comuns, dos chorinhos e chorões, de tudo que era baldio, dos valores toscos da classe média. E quando chega o Natal, tenho nostalgia das tristes ceias de minhas tias, sinto ainda o gosto dos panetones e rabanadas transcendentais do passado.