terça-feira, 22 de abril de 2014

Crônicas do Dia - O Brasil inventa a censura democrática - Guilherme Fiuza


Meio século depois do golpe de Estado que feriu as liberdades no Brasil, um deputado foi impedido de discursar no Congresso Nacional. Mas não tem problema, porque esse deputado é de direita. Essa é a noção de democracia dos progressistas que abominam a ditadura militar: liberdade de expressão para os que falam as coisas certas. Para quem fala as coisas erradas, mordaça. E quem decide o que é certo são eles, os progressistas. Eles é que têm o dom da virtude (por coincidência, foi exatamente isso que os militares pensaram em 1964). Seria cômico se não fosse trágico: os que carregam a bandeira contra o autoritarismo podem mandar os outros calar a boca.

O deputado Jair Bolsonaro é um conhecido defensor da categoria militar. E defende o regime implantado em 1964. Numa sessão na Câmara dos Deputados que marcava os 50 anos do início da ditadura, deputados e militantes progressistas impediram Bolsonaro de falar. Viraram de costas no plenário, cantaram, tumultuaram e cassaram no grito a palavra do deputado de direita. Esses são os democratas brasileiros que defendem a liberdade.

Eles dizem que não podem tolerar a defesa de um regime imposto por golpe de Estado. Será então que ninguém mais poderá subir à tribuna para defender Getúlio Vargas? Não, isso pode. Na história em quadrinhos dos progressistas, Getúlio é de esquerda, assim como Fidel. A esquerda que amordaçou Bolsonaro vive (bem) dessa fábula da resistência à ditadura – uma ditadura que já acabou há quase 30 anos. É interessante observar que alguns dos símbolos dessa resistência estão presos por corrupção. Ou, mais especificamente: presos por roubar a pátria – essa que dizem defender contra a ameaça conservadora.

Os que estão presos são aliados dos que governam essa mesma pátria. E todos eles são aliados de regimes que atropelam a liberdade de expressão, mesma tática da tropa do deputado Bolsonaro. A diferença é que a tropa de Bolsonaro fez isso no século passado, e a confraria chavista faz isso hoje. Outra diferença é que os militares eram autoritários, e os progressistas fingem que não são. Gato escondido com rabo de fora, como se vê nos projetos do PT para controlar a mídia – que o governo popular já tentou contrabandear até em programa de direitos humanos. Eles são assim, sempre bonzinhos, sempre colorindo com slogans humanitários seus pequenos e grandes golpes. A primeira denúncia do mensalão, como se sabe, foi classificada pelo companheiro Delúbio como “uma conspiração da direita contra o governo popular”.

A ação impedindo a fala de Bolsonaro fere a democracia. Mas ninguém é louco de dizer isso. Bolsonaro é uma figura grosseira e prepotente, enquanto seus algozes são os simpáticos heróis da resistência – na percepção cada vez mais abobada da opinião pública. Para combater o mal, esses revolucionários puros defendem até black blocs assassinos e continuam bem na foto. A imprensa, as empresas e as instituições “burguesas” em geral morrem de medo deles e da incrível patrulha anticapitalista que tomou as redes sociais – onde a burrice se espalha mais rápido. Os 50 anos do golpe foram transformados numa estranha catarse anacrônica, com todos os perseguidos pela patrulha progressista gritando “abaixo a ditadura”. Só faltou denunciar os crimes de Adolf Hitler.

Chega a ser assustador que, enquanto busca a verdade sobre os desaparecidos e vítimas do regime brutal, a sociedade democrática fale a língua dos gorilas – e tente calar seus herdeiros políticos. Que democracia é essa?

O sotaque chavista é inconfundível. Se Bolsonaro é troglodita, deveria ser facilmente derrotado com argumentos e inteligência. Mas os heróis da resistência temem sua própria mediocridade, então preferem falar sozinhos. Nessa democracia seletiva, uma dissidente cubana foi impedida – no grito – de falar em público no Brasil. Entre outras ações autoritárias, no dia 31 de março um professor da USP foi impedido de criticar o comunismo. Estudantes “do bem” invadiram a sala de aula e abafaram sua voz cantando um samba. Truculência festiva pode.

Talvez o Brasil mereça mesmo ter como voz única a ex-guerrilheira e eterna vítima da ditadura, dizendo as coisas certas em rede obrigatória de rádio e TV.

Te Contei, não ? - O Haiti é aqui

Revista ÉPOCA, 7/4/2014

A estratégia de ocupação do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, será inspirada nas tropas de paz do Alemão e de Porto Príncipe

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Te Contei, não ? - Roberto Carlos em ritmo de ditadura

Em 1979, um cantor circulava pelos corredores de Brasília causando alvoroço entre as secretárias. Roberto Carlos, aos 38 anos, cabelos cacheados, fazia visitas pontuais a autoridades do governo. Seus passeios pelo Planalto tinham um propósito: conseguir a concessão para uma emissora de rádio. “Ouvi gritos no corredor e, de repente, entrou o Roberto Carlos em meu gabinete. Tomei um susto. Ele tinha vindo fazer uma visita de cortesia. Isso não era necessário, porque as concessões eram dadas pessoalmente pelo ministro ou pelo presidente. Eu cuidava apenas da documentação burocrática”, diz Rômulo Furtado, na época secretário-geral do Ministério das Comunicações. O ministro era o capitão da Marinha Quandt de Oliveira. O presidente era o general Ernesto Geisel.

Entrevista - Valesca Popozuda

Depois de Simone de Beauvoir, Betty Friedan e Naomi Wolf, Valesca Popozuda. Desde que fez de “Beijinho no ombro” o grande sucesso do início de 2014, a funkeira carioca do Irajá começou a falar de feminismo em suas entrevistas e abraçou a campanha contra a violência sexual contra as mulheres. Com toda a razão, só faz o que manda seu coração. “Deu vontade de fazer, faça! Não se arrependa!”, diz Valesca, de 34 anos. A fase feminista é também uma fase “mais magra” – as coxas que já foram mais grossas que a cintura de Gisele Bündchen estão com apenas 53 centímetros. E uma fase mais pop – seu novo clipe evoca Madonna e Lady Gaga. Só que Madonna e Lady Gaga são estrelas de outros verões. No Brasil de 2014, quem reina é Valesca Popozuda. Esta entrevista foi publicada na edição 827 de ÉPOCA. 
Nesta semana, Valesca foi centro de uma polêmica ao ser mencionada como "grande pensadora contemporânea" em uma prova de filosofia da rede pública do Distrito Federal. A funkeira logo comentou o caso nas redes sociais, segundo reportagem do G1. "[O que] me espanta mesmo é todo mundo se preocupar com uma única questão da prova sem analisar os termos por trás disso tudo."

Te Contei, não ? - O que aprendi com Gabriel Garcia Marquez


Ao participar da última turma da oficina Como Contar um Conto, do escritor colombiano, me inspirei para escrever um romance. Levei ainda oito anos para concluir 'A cabeça do santo'

SOCORRO ACIOLI, EM DEPOIMENTO A LUÍS ANTÔNIO GIRON

Das muitas utopias de juventude do escritor colombiano Gabriel García Márquez, a paixão pela ideia de um cinema latino-americano tão pleno de identidade quanto sua literatura talvez tenha sido a mais arrebatadora. Por um golpe da sorte, fiz parte dessa utopia quando fui aluna da última turma da oficina Como Contar um Conto, idealizada e ministrada por ele, dedicada à formação de roteiristas de cinema.  

Há muito a aprender quando se convive, mesmo que por apenas seis dias, com um homem cuja história de vida é conduzida pela paixão. 

O mundo conhece García Márquez como autor do romance Cem anos de solidão (1967) e de outras obras repletas da mistura eficaz entre o mágico e o amor. Seu legado como diretor e roteirista apaixonado por cinema é pouco conhecido. Deixou o curta-metragem A lagosta azul, de 1954, dirigido por ele, e alguns roteiros filmados, como A viúva de Montiel, em 1959, e Erendira, em 1983.
 

ROTEIRO DE ESCRITOR Socorro Acioli em sua casa. Ela aprendeu com o mestre a planejar as histórias (Foto: Jarbas Oliveira/ÉPOCA)
Socorro Acioli (Foto: ÉPOCA)
Em 1984, quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, García Márquez pôde realizar a maior obra de sua utopia: a Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, emCuba. Construída num terreno imenso, hoje cercada por um perfumado pomar de laranjeiras, a escola alimentava o ideal de formar novos cineastas, oriundos de países latino-americanos, caribenhos e africanos.

Além da idealização e do alto investimento financeiro, García Márquez deixou a marca de seu pensamento na escola com a oficina Como Contar um Conto, comandada por ele uma vez por ano, de 1986 a 2006, com o objetivo de orientar pessoalmente um grupo seleto de jovens escritores imbuídos da bendita mania de contar.

Quando decidi tentar fazer parte dessa oficina, exatamente em 2006, não imaginava que aquele seria o último ano, minha última chance. Soube do curso por meio do livro Como contar um conto, que nada mais é que uma das oficinas transcritas, palavra por palavra, um dia por capítulo, e publicada em livro.

Foram meses de tentativas. O curso com García Márquez era para convidados, amigos dele, indicados por seus amigos. Nada disso estava a meu alcance. Jamais teria qualquer chance de fazer parte desse curso se, naquele ano, ele não tivesse apenas nove indicados para as dez cadeiras que a oficina comportava. Diante dessa vaga, o que eu precisava fazer para ter a honra de ocupá-la era mandar uma proposta de história para contar, em um parágrafo. A coordenadora responsável pela organização da oficina imprimiria o papel enviado por e-mail e colocaria nas mãos do mestre – que tomaria a decisão.



Eu precisava escolher a melhor história possível para conquistar o interesse de um prêmio Nobel de Literatura. E o que é a melhor história possível? Esta foi a primeira lição que aprendi com García Márquez: para que o tema arrebate o leitor, o autor precisa ser arrebatado primeiro. A melhor história que um autor pode escrever é a que mais o apaixona.

Diante de um caderno cheio de ideias que eu poderia propor para a oficina, a história da cabeça gigante do Santo Antônio abandonada no sertão do Ceará era a que mais me fascinava, assustava e me fazia pensar. Escolhi pela paixão, e funcionou. Ele me escolheu. 

No dia 4 de dezembro de 2006, estava diante dele, em sua escola de cinema, ouvindo seus conselhos sobre a arte de criar mundos. Foram cinco dias de aula, das 9 da manhã às 2 da tarde.

A metodologia era simples: falávamos nossas histórias, e ele dizia o que achava de cada uma. Sem disfarces ou piedades. Impaciente com rodeios e com detalhes acrescidos a tramas sem consistência, ele me deu a segunda lição: um ficcionista deve conhecer e saber resumir sua história tanto quanto conhece o conto da Chapeuzinho Vermelho.



Quem cria, brinca de ser Deus e precisa praticar a consciência da onipresença em seu universo ficcional. Sem titubeios. “Qual é sua história?”, ele nos perguntava, todo o tempo. Se um de nós vacilava em responder, ele nos pedia que pensássemos na Chapeuzinho Vermelho mais uma vez.

E seguíamos assim, tentando. Ele nos interrompia constantemente, explorando as possibilidades narrativas, indagando sobre os personagens, nos levando ao limite. Talvez a maior qualidade de García Márquez como professor de escrita criativa seja a capacidade de identificar as falhas de cada proposta. Ele defende uma ideia que ainda é controversa entre escritores: o conhecimento prévio do eixo, do arco dramático completo da história.

Esta foi a terceira lição que aprendi com o mestre: só devemos sentar para escrever quando soubermos o que acontecerá com os personagens, até o fim.

Esta foi a primeira lição: para que o tema arrebate o leitor, o autor precisa ser arrebatado primeiro. A melhor história que um autor pode contar é a que mais o apaixona  (Foto: Arq. pessoal)
Muitos autores descrevem as decisões sobre o processo criativo como algo que acontece enquanto se escreve. Jorge Amado dizia que foi Dona Flor que escolheu ficar com os dois maridos, segundo me contou sua filha, Paloma.

Para García Márquez, o método não funciona – e isso de método criativo é pessoal e intransferível. Adotei a ideia de procurar pelo eixo antes de escrever, custe o tempo que custar.

Seguimos por cinco dias ouvindo conselhos e opiniões sobre nossos projetos e sobre o ato de escrever. Encerramos a oficina no dia 8 de dezembro de 2006, exatamente 22 anos depois da noite em que García Márquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em Estocolmo. Nós, os alunos escolhidos, somos amigos até hoje. Formamos uma espécie de confraria, herdeiros de uma partilha única, última, a derradeira oficina do Gabo (apelido carinhoso de García Márquez).

Meus colegas vivem em países distintos. Uns escrevem novelas para a televisão, roteiros de cinema, de filmes publicitários. A maioria já ganhou prêmios em seus países. Temos a marca de García Márquez na vida. Isso não se apaga nunca. 

Aquele parágrafo que enviei a Cuba, em 2006, transformou-se no romance A cabeça do santo(Companhia das Letras, 75 páginas, R$ 37), publicado em março no Brasil e a sair em outubro no Reino Unido, pela editora Hot Key Books, de Londres.



Com o livro em mãos, oito anos depois daquele dezembro que mudou tudo, suspeito que a pergunta repetitiva do mestre, “qual é sua história?”, tenha um sentido mais profundo do que parecia.

Talvez não seja apenas um instrumento de técnica narrativa ou um caminho para a clareza na construção ficcional. Essa pergunta, desde então, conduz minha vida. Qual é minha história? Eu me pergunto todos os dias, diante das decisões que preciso tomar. Ainda não tenho o eixo completo, felizmente. Pretendo demorar muito para chegar ao fim. Mas há uma marca, uma força, que segura o passo da escritora em formação que sou e sempre serei. Minha história é a de uma aluna de Gabriel García Márquez, herdeira de todas as suas utopias.  

Te Contei, não ? - Um pouco da fantástica história do Choro

O samba está definitivamente consagrado como ritmo de origem africana, apesar das várias contestações quanto a essa afirmação. É consagrado na Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo - muitas vezes com batidas características e com nomes alternativos, de acordo com as festanças do braço escravo que foi utilizado em cada região. Mas os afrodescendentes - negros e pardos - também foram responsáveis pela disseminação e projeção de outro ritmo. Este foi absorvido pela sociedade elitista e se tornou outra atração musical de nível internacional. Estamos falando sobre o Choro, ou chorinho!
Até os dias de hoje, ainda há controvérsias na história do termo "choro". Para o musicólogo Renato Almeida, ele estaria ligado à palavra xolo, de língua cafre, que designava um tipo de baile rural que as populações negras realizavam nas fazendas em dias de festas. O termo teria, então, evoluído para xoro e, levado para as cidades, passou a ser escrito como choro. Outros, como Ary Vasconcelos, entendem que o termo teria sua origem em choromeleiros nome dado aos grupos que tocavam música de barbeiros do período colonial. Entretanto, para o maestro Baptista Siqueira, a origem do termo seria, provavelmente, uma confusão com o termo chorus, do latim, que significa conjunto. Importante destacar que, no catálogo da pioneira Casa Edson-RJ, os grupos de chorões eram denominados choros e os demais conjuntos instrumentais eram designados como chorus.
O maestro Marcus Vinicius de Andrade e os irmãos Izaias e Israel Bueno de Almeida, em recente trabalho, lembram que, séculos antes, línguas latinas já utilizavam os termos piangente - do italiano piangere, que significa chorar, lamentar e também, fazer soar. Na língua portuguesa no século XVIII, o poeta Nicolau Tolentino utilizou o termo "doce lundum chorado". Consta também na história que, num concerto realizado no salão social Fluminense, ao ouvir os expressivos vibratos do violoncelista Casimiro de Souza Pitanga, um espectador teria gritado: "Chora, Pitanga!", o que mais tarde inspiraria uma polca homônima. Enfim, pode-se notar que, tanto na linguagem culta quanto na popular, eram frequentes as associações entre a interpretação musical e o verbo chorar. Se "chorar" passou a significar uma maneira de execução, "chorões" são os que tocam. No Brasil, nas três últimas décadas do século XIX, "choro" significava mais um modo de tocar do que gênero musical - o mesmo aconteceu com o jazz.

"ELE [O CHORO] SE TORNOU UM GÊNERO MUSICAL BRASILEIRO E, ATRAVÉS DE SEUS FANTÁSTICOS PERSONAGENS, É CONSIDERADO 'BEM IMATERIAL"

Embora o ano de 1870 seja dado como referencial para as origens do Choro, não há dúvidas de que esse "complexo musical" resultou de um processo iniciado muitas décadas antes, com a chegada da corte portuguesa, com o Rio se transformando num polo de efervescência política, comercial e cultural, recebendo influências de, além de portugueses, espanhóis, italianos, alemães e outros europeus, com suas músicas e danças de salão como quadrilha, a valsa, a mazurca, o scottish, a polca e outros gêneros trazidos do velho mundo e que foram "abrasileirados" pelos mestiços e negros, sempre a parcela musical mais significativa da população do Rio de Janeiro, desde as primeiras décadas do século XIX.
A composição básica de um conjunto era: um ou dois violões, cavaquinho e flauta; esta exercendo a função melódica, enquanto as cordas, - chegadas ao Brasil com os portugueses - principalmente o cavaquinho, marcavam as pulsações rítmicas e harmônicas. Esta formação foi chamada de "orquestra de pau e corda", sendo o grande flautista Joaquim Antonio da Silva Callado seu principal consolidador.
Mas o que aconteceu de maravilhoso nessa fantástica história do Choro é que ele se tornou um gênero musical brasileiro e, através de seus fantásticos personagens, é considerado "bem imaterial". Encanta audiências em todo o mundo, desde simples espectadores aos mais renomados músicos populares e eruditos. E isto já acontecia bem antes do Brasil se fazer presente no Carnegie Hall...

Te Contei, não ? - Música e militância - A música como divulgação de valores e conquistas do povo afro-brasileiro


Margareth Menezes

foto: Estúdio Gato Louco / Divulg ação
Margareth MenezesCantora e Compositora
O samba de roda foi o primeiro contato com as manifestações musicais ancestrais na minha vida. Minha mãe foi minha professora e a família de Ilha de Maré tinha uma grande ligação com a música. Meu avô e meus tios tocavam em um grupo regional e sempre que eu ia à ilha nas férias havia serenatas. Com o tempo, minhas influências foram se alastrando.
Já na adolescência, meu professor de teatro, Reinaldo Nunes, um homem de militância política, ensinou sobre a importância de questionar as coisas antes de aceitá-las. A partir daí minha cabeça mudou e os meus olhos se abriram. A ideia de questionar o porquê das coisas me dava gás para desenvolver minhas próprias definições. A arte era muito palatável para mim!

Tá na Hora do Poeta - Nosso Debret - Amanda Monteiro

Nosso Debret

Jean Baptiste Debret, pintor e desenhista
Suas obras possuem um perfil realista
Estudou pintura, se formou com louvor,
Começou a pintar, com grande esplendor.
Ele famoso ficou, devido a seu grande valor.

Com a Missão Artística Francesa, veio ao Brasil,
Deparou - se com uma realidade que nunca viu.
Um projeto inicia, 
De forma muito sutil.

Em cada canto que passava, 
Uma cena retratava,
Pessoas andando ou comendo,
Debret mostrava por meio de seu talento.
Jean vivia pintando e a todos emocionando.

Era um artista do povo, mostrava o que acontecia.
Ele jamais deixou de retratar o que de fato ocorria.
Por meio de suas pinturas, conseguimos entender,
Como era a sociedade naquela época,
E o modo de viver.

Em suas pinturas, o Brasil é visto em sua diversidade,
Branco, negro ou pardo, tudo faz parte da sociedade.
Todas as raças tingiam um Brasil multifacetado,
E todos podiam ver como o país era misturado.
A nação brasileira era uma pintura, que Debret fazia com ternura.

A obra de Debret é fantástica,
Ela nos faz viajar no tempo.
Nos sentimos como nuvens ao vento,
Cativando-nos com seu talento,
Mostrando o que o Brasil tem por dentro. 

Amanda Monteiro
Turma 801 / Ativo 2014


sábado, 19 de abril de 2014

Te Contei, não ? - O desafio final da Literatura Jovem


"Divergente" é mais um filme de ação baseado numa saga juvenil, gênero que conquistou o mundo – e começa a entrar em decadência

LUÍS ANTÔNIO GIRON, COM NINA FINCO


ADIANTADA A americana Veronica Roth (ao lado) assinou o contrato para adaptar a saga Divergente para o cinema antes da publicação do primeiro volume. O último volume, Convergente, sai agora no Brasil (Foto: Jaap Buitendijk)
Veronica Roth (Foto: Annie I. Bang/AP)


Em 2010, Veronica Roth tinha 21 anos e cursava o último ano da faculdade de letras na Northwestern University, de Chicago, quando assinou um contrato milionário com a editora HarperCollins, para publicar e adaptar para o cinema um romance que  ela ainda escrevia. “Foi chocante”, afirma Veronica. “Eu disse: ‘Vocês querem fazer isso com este livro?’. Mas vocês não sabem nem mesmo como ele vai terminar!” Nem precisava. O que Veronica produzira durante um curso de escrita criativa bastava para o agente literário encaminhar com confiança os originais – e obter a resposta imediata de um mercado sedento por produtos daquele tipo, que logo ganhariam um nicho de sucesso garantido, a literatura adulta jovem (Young Adult, ou YA), destinada ao público de faixa etária entre 15 e 25 anos. Tratava-se do primeiro volume inacabado de uma trilogia que tinha tudo para se tornar um megassucesso literário e cinematográfico: uma história ambientada no futuro sobre uma jovem, Beatrice “Tris” Prior, que se rebela contra uma sociedade controladora e hiperorganizada.
O primeiro romance, Divergente, forneceu o título à saga adolescente futurista e agourenta. Ele chegou às livrarias americanas em abril de 2011, com direito a uma enorme campanha promocional. Na semana de lançamento, o livro atingiu o sexto lugar da lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times e se manteve nas primeiras posições por seis meses. Era o auge do sucesso de outras “sagas adultas jovens”, como Crepúsculo (2006-2008), de Stephenie Meyer, e Jogos vorazes (2008), de Suzanne Collins. Veronica foi então comparada às duas autoras que vendiam milhões de exemplares com seus romances seriados – e no caso de Stephenie atraía milhões de fãs ao cinema, com a adaptação da saga Crepúsculo, que estreara três anos antes, em 2008. Jogos vorazes chegou aos cinemas em 2012. Ambos foram sucessos de bilheteria.

Veronica seguiu as pegadas das colegas mais velhas. O segundo e o terceiro volumes de Divergente – Insurgente e Convergente – viraram best-sellers nos Estados Unidos em 2012 e 2013, respectivamente. Boa parte do sucesso se deveu, segundo Veronica, às redes sociais e a centenas de blogs dedicados à saga espalhados pelo mundo – até no Brasil. A trilogia vendeu 10 milhões de exemplares nos Estados Unidos e foi lançada em 15 países. Os dois primeiros volumes atingiram 100 mil exemplares vendidos no Brasil. Agora, a saga estreia nos cinemas americanos, ao mesmo tempo que o último volume, Convergente (editora Rocco, 528 páginas, R$ 39,50, tradução de Lucas Petersen), sai em versão brasileira, com tiragem de 30 mil exemplares. O longa-metragem Divergente, dirigido por Neil Burger (de O ilusionista) e estrelado por Shailene Woodley (como Tris), está programado para entrar em cartaz no Brasil em 17 de abril.
O êxito da trilogia transformou Veronica em celebridade aos 25 anos. Ela nasceu em Nova York, cresceu em Hong Kong e na Alemanha e hoje mora em Chicago com o marido, o fotógrafo Nelson Fitch. Já não consegue andar pelas ruas. Sua presença é sempre notada, até porque é bonita e imponente com seu 1,82 metro de altura. Ela é a maior divulgadora da própria obra, pois mantém atualizados um blog, um Twitter e fan pages no Facebook. Ela prepara para julho um volume em e-book de contos em torno de Divergente, sob o ponto de vista do personagem Quatro, namorado de Tris. “No começo, achei difícil entregar minha obra para adaptação”, diz. “A partir do segundo volume, ela deixa de ser sua. Pertence ao leitor.”
O leitor se apossou facilmente do fenômeno. Para o estudante Claudio Silva do Carmo, de 16 anos, um dos responsáveis pelo blog e fã-clube Sagas Brasil, que abriga todos os tipos de séries de livros e filmes para jovens, o sucesso de Divergente se deve à base sólida dos fãs de fantasia, que começaram a gostar do gênero por causa da série Harry Potter, de J.K. Rowling. “Nosso objetivo é fugir do mundo real e nos transformarmos em mil mundos”, diz. “De bruxos, distópico ou qualquer outro onde possamos viver aventuras ou até mesmo nos emocionar.”
Divergente observa o modelo de estrelato iniciado com a série Harry Potter: a combinação de histórias seriadas, lançadas em vários volumes para alimentar a expectativa do público e, em seguida, repetir o ciclo no cinema, com direito a uma extensão e à participação das autoras como consultoras do filme. No caso de Harry Potter, os sete romances viraram oito filmes. Os leitores acostumados a acompanhar Potter logo abraçaram as sagas jovens. A tetralogia Crepúsculo foi filmada em cinco longas-metragens. A trilogia Jogos vorazes chegará a quatro partes no final de 2015. O mesmo deverá ocorrer com Divergente, embora Veronica não confirme: “Mesmo que estejam fazendo esse tipo de plano, fico na posição de espera para ver no que vai dar”.

Quanto ao conteúdo, as sagas jovens também são regidas pela repetição e saturação (leia no quadro abaixo). Segundo João Luis Ceccantini, especialista em literatura infantil e juvenil da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as sagas começam bem para cair na monotonia. “O primeiro livro é mais interessante, depois os outros ficam repetitivos”, afirma. “O autor tem uma boa ideia, mas a indústria cultural quer estender o material ao máximo. Ao transformar a literatura numa fórmula, a qualidade acaba diluída.” Para Ceccantini, acontecem repetições flagrantes de saga para saga. “Todas as histórias têm narrativas lineares, seguem uma linguagem muito direta e fazem uso do personagem adolescente arquetípico – com tom heroico, mas também características transgressoras.”
 

Como fazer um livro jovem adulto de sucesso (Foto: reprodução)
Esse tipo de trama busca envolver os adolescentes em desafios e dilemas típicos da idade: escolhas profissionais, iniciação sexual, atitudes a assumir diante da família e da vida nova na idade adulta. É diferente do romance juvenil às antigas, ingênuo e voltado para aventuras e lições rudimentares de moral. As sagas jovens abordam questões políticas e existenciais. É o caso de Tris Prior, de Divergente. Aos 16 anos, ela descobre num teste vocacional que não se enquadra em nenhuma das cinco facções em que a sociedade totalitária em que vive se divide: Abnegação, Amizade, Audácia, Erudição ou Franqueza. A divisão resultou de uma decisão governamental de eliminar a luta de classes. A única luta possível é das virtudes. Tris, como qualquer adolescente atual, se vê jogada ao mundo, tem de tomar decisões que marcarão sua vida, mesmo sem estar equipada para o desafio. Exatamente como Katniss Everdeen, de Jogos vorazes. A semelhança não passa de uma coincidência, segundo Veronica, já que ela diz que pensou em sua história sem considerar a de Suzanne Collins. “Se querem comparar com Jogos vorazes, tanto melhor, porque é uma história incrível”, afirma Veronica. “Mas não acredito que o fenômeno se repetirá com Divergente, já que Jogos vorazes era algo inesperado.”
As perspectivas de sucesso para Divergente no cinema são pouco otimistas. Os números das adaptações para o cinema dos últimos dois anos de romances jovens adultos mostram que a tendência é o esgotamento do gênero (leia no quadro abaixo). “A cobrança pelo sucesso é dolorosa e injusta”, disse a produtora Lucy Fisher à revista Entertainment Weekly. “Recebemos ligações de colegas  que trabalham com material jovem adulto, que dizem: ‘É melhor vocês não ferrarem com a gente’. Se não fizermos sucesso, será terrível para o gênero, ainda que nossa pretensão seja apenas fazer um bom filme, que fuja dos lugares-comuns e das etiquetas”.

Divergente fornece material para a especulação sobre o fim do ciclo de sucesso da literatura jovem adulta. Talvez a saga seja o canto do cisne desse tipo de história. Os chavões que Divergente traz se repetiram tanto nos últimos tempos, que os fãs podem ver tudo como algo que nada tem a ver com eles: em vez do escapismo, a previsibilidade.
 

A queda de público do gênero jovem adulto (Foto: AFP (5))

Entrevista - Mia Couto

A língua portuguesa está se transformando, muito por causa do papel das nações emergentes lusófonas da África. Nesta entrevista exclusiva a ÉPOCA, concedida em São Paulo, o escritor moçambicano Mia Couto, de 59 anos, diz que, apesar da renovação de linguagem que a África apresenta hoje, o Brasil reúne condições para se tornar a nação dominante do ponto de vista cultural e lingúsitca. Em relação aos países africanos, Couto diz que é preciso distinguir entre independência e descolonização – e que a África ainda não enfrentou o segundo termo. Para ele, o Brasil serviu como modelo para a formação da identidade nacional das nascentes nacos lusófonas da África, mas pelo lado da mistificação, o que se esgotou rapidamente. Ele afirma que o Brasil virou as costas para a África.


Analisando Manuel Bandeira - Poema "Unidade" - Heitor Dutra Delage da Silva

Unidade

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas
os seus mormaços
os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que min’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da 
unidade.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Te Contei, não ? - Jorge que era Amando

Ilana Seltzer Goldstein

10/9/2012

  • Ilustração: João Teófilo
    Ilustração: João Teófilo
    Jorge Amado (1912-2001) foi um escritor superlativo: publicou 32 livros povoados por mais de 5.000 personagens e vendeu cerca de 30 milhões de exemplares somente no Brasil. Embora editado em 52 países e traduzido para 29 línguas, escreveu quase exclusivamente a partir de sua Bahia natal. Ainda assim, seus romances trazem para a sala de aula provocações relevantes sobre diferentes aspectos da sociedade brasileira, e até mesmo questões universais .

    Em Gabriela cravo e canela, por exemplo, há passagens em que a submissão da mulher fica evidente. O livro começa com o assassinato de Sinhazinha por seu marido, que a flagrara com outro. Há prostitutas que são posse exclusiva de certos coronéis. A protagonista Gabriela, por outro lado, destoa ao buscar sua liberdade e sua autonomia. Há também a heroína de Tereza Batista cansada de guerra é uma menina criada pela tia que, ainda adolescente, é obrigada a servir sexualmente um homem violento em troca de dinheiro. A partir da leitura desses romances, ou da projeção das respectivas adaptações audiovisuais, pode-se pedir aos alunos que tracem os perfis femininos encontrados no romance, para depois compará-los às possibilidades e atitudes das mulheres no Brasil do século XXI.
    Antonio Balduíno, herói de Jubiabá, tem Zumbi dos Palmares como ídolo. Seu antepassados foram escravos e ele frequenta terreiros de candomblé. Pedro Archanjo, protagonista de Tenda dos milagres, tenta convencer a todos de que as tradições afrobrasileiras enriquecem a cultura nacional e que a mestiçagem é uma grande riqueza. Mas há também personagens racistas, como a mãe de Lu, noiva de Tadeu Canhoto, em Tenda dos milagres, que não gosta dele por causa da cor de sua pele. Ou a cozinheira Amélia, de Jubiabá, que acredita que “o negro tem que saber o seu lugar”. A partir da leitura desses dois livros ou da projeção dos filmes homônimos, o professor de história terá elementos para abordar as consequências da escravidão africana no Brasil; o racismo baseado na cor e na condição socioeconômica; e as polêmicas recentes em torno das cotas raciais nas universidades.
    O cavaleiro da esperançaé uma biografia de Luís Carlos Prestes, líder comunista que liderou a lendária marcha da Coluna Prestes por todo o Brasil. Esse é um dos livros menos conhecidos de Jorge Amado – que, inclusive, foi um dos articuladores da campanha pela libertação de Prestes, quando de sua prisão. A leitura desse livrinho possibilita ao professor de história, geografia ou sociologia recuperar o movimento socialista no Brasil e no mundo, algo hoje distante da realidade dos alunos.
    O Sumiço da Santa se passa durante “os piores anos da ditadura militar”, nas palavras do próprio narrador. Episódios de prisão, censura e tortura se fazem presentes em várias passagens. O enredo é pontuado por indícios contextuais da década de 1970. O cineasta Glauber Rocha é citado no livro como um dos freqüentadores “subversivos” do Teatro Vila Velha, em Salvador. O narrador se refere a um show de Caetano Veloso e Gilberto Gil, recém-chegados do exílio, no ano de 1973. Já o poeta Vinícius de Moraes, outro figurante da trama, comenta que acabou de compor “Tarde em Itapoã”, canção gravada em 1971. Pode-se, a partir desse livro, que é divertido e fácil de ler, proporcionar a imersão do aluno no contexto da ditadura militar e da contracultura. Uma possibilidade é solicitar que liste nomes de personalidades e fatos históricos encontrados no romance e depois pesquise sobre suas histórias pessoais, seu engajamento político, e sua produção cultural.


    Produção de cacau

    O primeiro plantio de cacau na região de Ilhéus teve início ainda no século XVIII, com sementes trazidas da Amazônia. Até 1900, apenas agricultores estrangeiros dedicavam-se esparsamente ao cultivo do cacau; a partir de 1910, começou a corrida pelas terras da região. O governo passou a doar terras a quem quisesse plantar, atraindo nordestinos que fugiam da seca. A cidade enriqueceu e se transformou rapidamente: a população aumentou, foram erguidos palácios, estabelecimentos comerciais e hotéis, culminando com a construção do porto, em 1924 – financiada pelos próprios cacauicultores. As movimentadas décadas de 1910 e 1920 em Ilhéus constituem o pano de fundo de Terras do Sem Fim,São Jorge dos Ilhéus, Gabriela, cravo e canela e A descoberta da América pelos turcos. A leitura de qualquer um desses livros, pelos alunos, terá grande rendimento em aulas de geografia que tratem de migrações internas no Brasil (e também da imigração árabe para o Brasil); dos custos humanos e ecológicos da implantação de fazendas em áreas antes cobertas por mata atlântica; dos impactos da construção de infra-estrutura (estradas, portos) que acompanha o surgimento da agricultura de exportação.

    Amado na TV
    Jorge Amado, o autor brasileiro que mais inspirou adaptações para cinema e TV, se negava a assisti-las. Isso porque os roteiristas e diretores realçam um aspecto do livro em detrimento de outros, criam novos personagens ou eliminam passagens inteiras, levando em conta a duração dos episódios e as preferências do público. Na adaptação de Gabriela, cravo & canela, feita por Walter Durst, em 1975, Sônia Braga está presente nos primeiros capítulos, ao passo que no livro a protagonista só aparece depois da página 100. A liberdade social e sexual de Gabriela, que perpassa o livro, tornou-se erotismo na telenovela.
    Além disso, enquanto no texto literário as imagens se formam em nossa mente, em um processo solitário, silencioso e pautado por nosso próprio ritmo, as telenovelas e filmes nos oferecem imagens prontas – personagens têm rostos específicos, paisagens têm cores definidas –, acompanhados por trilhas sonoras penetrantes. O professor de língua portuguesa ou de artes poderia propor, primeiro a leitura, depois a visualização de um filme adaptado da obra de Jorge Amado, para comparar, junto com os alunos, cada uma das versões – o que têm em comum, o que só é possível em um dos casos, o que foi suprimido ou acrescentado na adaptação audiovisual etc.  Os livros/filmes ideais para essa atividade são: A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água; Tenda dos Milagres;  Capitães da Areia;Tieta do Agreste; Gabriela, cravo & canela (este último contém cenas de nudez).

    Diferentes gêneros
    Jorge Amado combina diferentes gêneros literários e textuais dentro de seus romances. Capitães da areia começa com cartas enviadas ao jornal, nas quais os remetentes emitem opiniões sobre o que deve ser feito com aqueles meninos que moram na praia. No início de Dona Flor e seus dois maridos, a protagonista escreve um bilhete a Jorge Amado, comentando uma receita de bolo de puba e oferecendo um pedaço ao autor, num jogo entre ficção e realidade. Em Tenda dos milagres, os textos que Pedro Archanjo escreve para combater as ideias racistas de Nilo Argolo são na forma de folhetos de cordel. Em Jubiabá, o personagem Gordo canta letras tristes para pedir esmola, ao passo que Zé Camarão é compositor de sambas com letras cheias de malandragem. Partindo desses exemplos, o professor pode trabalhar com seus alunos as diferenças de gêneros textuais e literários e pedir que exercitem-se na redação de alguns desses formatos. Um trabalho análogo pode ser feito em relação à norma culta e ao registro coloquial de linguagem e, por vezes, até mesmo registro vulgar, todos presentes nos livros de Jorge Amado e adequadamente empregados em função da situação de comunicação.
    Em 1961, a Editora Martins lançou uma coleção comemorativa especial dos 30 anos da obra de Jorge Amado, toda ilustrada por artistas nacionais. Renina Katz, por exemplo, fez gravuras para Os subterrâneos da liberdade; Oswaldo Goeldi ilustrou Mar morto; e Poty criou ilustrações para Capitães da areia. Essas imagens são facilmente encontradas na internet. Sugere-se ao professor de artes e/ou língua portuguesa que discuta com os alunos as relações de complementaridade, redundância ou paralelismo entre texto e imagem. Que explique a técnica da xilogravura, utilizada pelos três ilustradores de Jorge Amado acima citados. E que, em seguida, convide-os a realizarem uma ilustração para uma passagem de Mar Morto ou Capitães da Areia.

    *Ilana Seltzer Goldstein é autora de O Brasil best-seller de Jorge Amado: literatura e identidade nacional (Editora Senac, 2003).

Personalidades - Nei Lopes



Rodrigo Elias e Vivi Fernandes de Lima
9/5/2012


  • Neste mês, Nei Lopes completou 70 anos. Abaixo, recuperamos uma entrevista exclusiva que o pesquisador, compositor e romancista concedeu à Revista de História.



    Nei Lopes está de bem com a vida. No sossego de seu sítio em Seropédica, a 75 quilômetros da cidade do Rio, ele pode dar vazão às múltiplas paixões que o movem. Compositor de samba, incansável pesquisador da cultura afro-brasileira e da história do subúrbio carioca, romancista, enciclopedista, e que também cultua orixás, nunca esteve tão produtivo.

Te Contei, não ? - O Dante do Cosme Velho

  • O romance que marca a conhecida virada na obra de Machado de Assis é escrito por um defunto. Nas Memórias póstumas de Brás Cubas, publicadas em 1880 na Revista Brasileira, o par romântico do narrador Brás Cubas é a mulher de Lobo Neves, Virgília. Estes dois elementos – a perspectiva de morto e o nome Virgília – remetem a uma das obras centrais do cânone da literatura ocidental: a Divina Comédia.
    Escrita no século XIV pelo florentino Dante Alighieri (1265-1321), a Comédia narra a peregrinação de Dante pelo Reino dos Mortos – Inferno, Purgatório e Paraíso. Quem guia o poeta italiano por essas regiões do além é Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), poeta latino, autor de Eneida. Machado de Assis estaria então fazendo de fato uma referência à obra de Dante? Tudo leva a crer que sim, dada a admiração que tinha pelo florentino, como demonstram as dezenas de alusões que faz a ele em seus textos.
    Dante está entre os autores mais citados por Machado de Assis, ao lado de Shakespeare, Camões e Homero. Já em 1863, o brasileiro escreveu um poema, “No limiar”, publicado em Crisálidas, em terza rima ou terceto – forma encadeada de versos consagrada pela Comédia e pouco usada entre os poetas nacionais. Mas é a partir da década de 1870 que as citações e as alusões aparecem com mais frequência. Aos 34 anos, em 1873, Machado de Assis cita parte de um dos versos do canto V do Inferno no conto “Aurora sem dia”: “Não é preciso dizer ao leitor que este acontecimento enriqueceu a literatura com uma extensa e chorosa elegia, em que Luís Tinoco metrificou todas as queixas que pode ter de uma mulher um namorado traído. Esta obra tinha por epígrafe o nessun maggior dolore do poeta florentino”. Daí em diante, as referências à Comédia aparecem continuamente em quase todos os gêneros em que escreveu: crônica, poesia, conto, romance e até no ensaio “A nova geração”, de 1879. Em seu último romance, Memorial de Aires, de 1908, ele alude à obra e a uma personagem do quinto Canto do Purgatório, Pia de Tolomei. Apenas as obras escritas para o teatro não fazem referência a Dante.
    Apesar da grande quantidade de citações, elas só passaram a ser estudadas depois de uma pesquisa feita por um italiano radicado no Brasil. Mais conhecido como tradutor da obra de Guimarães Rosa, Edoardo Bizarri foi o primeiro a fazer este levantamento da presença da obra de Dante Alighieri nos textos do escritor fluminense. O artigo inaugural é “Machado de Assis e a Itália”, de 1961. Mais tarde, em 1965, ele publica “Machado de Assis e Dante”. Bizarri contou 23 citações diretas da Comédia na obra de Machado – sendo 19 do Inferno e 4 do Purgatório – porém deixou escapar uma: a do canto VI do Purgatório, epígrafe do poema “Niâni”, de 1873.
    Bizarri também comenta várias alusões a Dante, sobretudo nas crônicas, mas não faz um levantamento de todas. Este é um trabalho mais sutil, pois trata de remissões que “não se apoiam em uma referência direta e textual”, como notou outro estrangeiro, o francês e biógrafo de Machado de Assis, Jean-Michel Massa, no artigo “La présence de Dante dans l’oeuvre de Machado de Assis”, ensaio escrito em 1965 e disponível na Biblioteca Nacional.
    Se os estrangeiros foram os primeiros a fazer esse levantamento documental, coube a um brasileiro, o escritor Mário de Andrade (1893-1945), fazer uma das primeiras análises das alusões sem referência direta e textual, ou seja, sem que haja uma menção explícita a Dante ou à Comédia. Em “Machado de Assis”, artigo publicado em Aspectos da literatura brasileira, de 1939, o modernista afirma que o escritor fluminense inspirou-se no canto V do Inferno para escrever o poema “Última jornada”, publicado no livro Americanas. Neste poema, composto por dois cantos, lê-se uma funesta história de amor entre dois índios. Ambos aparecem voando para moradas dos mortos no primeiro canto, enquanto no segundo o guerreiro, antes de desaparecer, conta ao leitor o que houve. Ele a mata por ciúmes, e Tupã se vinga e tira-lhe a vida.
    O canto V do Inferno mostra os condenados do segundo círculo, os luxuriosos. Ali estão aqueles que pecaram por não resistir à tentação da carne, como Cleópatra, Helena e Semíramis. Nesta seção do Inferno, a punição dos pecadores consiste em girar eternamente em meio a uma tempestade infernal. No meio do caminho, Dante se detém para conversar com um casal de condenados, Paolo e Francesca. Ela conta por que estão ali. Foram assassinados por seu marido, Gianciotto Malatesta, logo depois de serem flagrados beijando-se.
    Mário de Andrade justifica sua hipótese ao ver semelhanças entre a estrutura, as personagens e o narrador dos poemas. “Última jornada” é escrito em tercetos, protagonizado por dois amantes que voam depois de mortos – um para o alto, outro para baixo – e é narrado por um deles, o guerreiro. “A escolha da forma poética do terceto, que a qualquer um evoca irresistivelmente Dante, me parece consequência natural de uma inspiração dantesca”, diz o modernista. Sem contar a semelhança entre os versos iniciais: “Così discesi del cerchio primaio” e “E ela se foi nesse clarão primeiro”.
    Outro aspecto importante ligado a este poema diz respeito à mistura de fontes na composição de seus textos. A epígrafe do poema é pinçada do capítulo “Os canibais” dos Ensaios (1580-1588), de Montaigne. Deste trecho do escritor francês, Machado de Assis tira a cosmologia do poema, que explica o fim que levam os mortos em face de suas ações terrenas: “Acreditam na imortalidade da alma. As que mereceram aprovação dos deuses alojam-se no céu do lado do nascente; as amaldiçoadas, do lado do poente”. Assim, para compor o poema, Machado de Assis mistura Dante, elemento indígena e Montaigne. Por baixo, o episódio é dantesco; por cima, na epígrafe, é montaigniano; no centro, cenário e tema são nacionais. A essa altura, Machado ainda não optou pela paródia nem pelo rebaixamento dos temas elevados, mas já mostra essa inclinação de buscar o estilo e a forma com base na mistura das várias fontes. Quando incorporar a paródia como mecanismo de aproximação entre a sua literatura e o repertório da tradição, ela se tornará um mecanismo central de seu estilo.
    Na década de 1870, Machado de Assis está em busca de um estilo.Então, divide-se entre textos mais convencionais, como nos romances da primeira fase e na poesia, e outros experimentais, como “Antes de missa”, “Tempo de crise” e “Um cão de lata ao rabo”, textos em prosa nos quais sobressaem o cômico, a paródia e a ironia. Sem contar as crônicas, nas quais ele exercita mais livremente estes aspectos.
    Em relação à Comédia, essa dualidade aparece numa excelente tradução do canto XXV do Inferno, publicada no dia de Natal de 1874 no jornal O Globo, e numa paródia do texto de Dante publicada meses antes na Semana ilustrada, intitulada “Inferno – Canto suplementar ao poema de Dante pelo Dr. Semana”. O texto foi escrito muito provavelmente por Machado, sozinho ou com outros autores que assinavam com ele o pseudônimo Dr. Semana. Nesta paródia, Dr. Semana põe no centro do poema uma mulata com nome de heroína camoniana, Inês, que sucumbe por causa de uma relação adúltera, como a Francesca do Canto V do Inferno.
    Tanto na paródia quanto na tradução, encontramos um Machado de Assis bastante familiarizado com a Divina comédia, sobretudo com o Inferno – seja pelo respeito ao estilo e ao tom do escritor italiano, seja pela opção de traduzir um canto pouquíssimo comentado, ou pela ausência de tradução em português à sua época.Machado não teve outras versões à mão para ajudá-lo nessa tarefa, por isso deve ter manuseado bastante sua edição de 1868, em italiano, da Divina comédia.
    À medida que vai afirmando seu estilo, sobretudo na prosa, a obra de Dante aparece rebaixada, parodiada e citada, sempre traduzida por um estilo que trata de “vulgarizar o sublime”, fórmula feliz cunhada por Alcides Villaça em “Machado, tradutor de si mesmo” (1998).
    Se a Virgília de Memórias póstumas de Brás Cubas tem relação com Virgílio, par de Dante na Comédia, e se o defunto autor é um modo de inverter e parodiar a jornada ao mundo dos mortos feita por Dante e outros antes dele, estas duas formas são obra de um autor cujo estilo já se firmou.

    Eugênio Vinci de Moraes é professor do Centro Universitário Uninter, em Curitiba (PR), e autor de “A Tijuca e o pântano: A Divina Comédia na obra de Machado de Assis entre 1870 e 1881”, (USP, 2007).

    Saiba mais - Bibliografia
    Andrade, Mário de. “Machado de Assis”. In: ___. Aspectos da literatura brasileira. 5. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, [1939] 1974. p. 97-102.
    Bandeira, M. “O poeta”. In: Machado de Assis. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
    Cascudo, L. da C. Dante Alighieri e a tradição popular no Brasil. Porto Alegre: PUC-RS, 1963.
    Ceschin, O. H. L. “Uma página dantesca de Machado de Assis”. Revista do Instituto Italiano de Cultura, São Paulo, v. 8, 1999.


Te Contei, não ? - Trovas sagradas de um rei musical

  • Todo o repertório de música medieval que chegou aos nossos dias foi registrado em um sistema de notação desenvolvido por Guido D’Arezzo, um monge do século XI. Seu objetivo era que os cantores pudessem ler a música assim como liam um texto. Para isso, criou uma pauta com quatro linhas (depois seriam cinco) onde as notas musicais eram colocadas de tal maneira que não deixavam dúvidas quanto à sua altura. O sistema mostrou-se tão eficiente que vigora até hoje.
    Graças ao advento da escrita musical, podemos conhecer obras como as Cantigas de Santa Maria. Registradas no século XIII, portanto há cerca de 800 anos, elas são um testemunho da criação artística e do momento político vivido pela Europa da época.
    A busca por uma representação dos sons musicais está em sintonia com a velha necessidade humana de comunicar seus pensamentos, de deixar suas marcas. Para os reis, essa era uma necessidade ainda maior, pois dela dependia a manutenção do seu poder político. Ao longo da Idade Média, quando em muitos reinos ocorreu a centralização do poder na figura do rei, cresceu sua preocupação em legitimar-se perante a nobreza e a Igreja. As artes e as ciências eram aliadas da realeza nesse processo.
    Afonso X de Leão e Castela (1221-1258), que recebeu a alcunha de Rei Sábio, mantinha em sua corte uma escola de tradutores formada por estudiosos das três principais religiões da Europa (cristianismo, judaísmo e islamismo). Eles traduziram para as línguas ocidentais a Bíblia e textos de cientistas islâmicos da Antiguidade clássica. O rei ainda foi responsável pela instalação de um observatório astronômico em Toledo, e congregou em sua corte vários cientistas, fornecendo meios de estudo e investigação para a elaboração do El libro del saber de Astronomia, baseado no sistema ptolomaico, no qual a Terra estaria no centro do universo, sendo considerada imóvel. À sua volta girariam o Sol, a Lua e os planetas. Este sistema esteve vigente até o século XVI. Baseando-se em cálculos de cientistas árabes, criou tabelas que mostram as posições astronômicas dos planetas, as Tabelas Afonsinas.
    Afonso X era mais que um promotor das artes. Também se aventurava como músico e trovador. Participou da criação de 44 cantigas de amor e de amigo, além das 426 cantigas de Santa Maria. Não se sabe quantas poesias e músicas compôs pessoalmente, pois mantinha em sua corte uma equipe de artistas que certamente o ajudou nessa empreitada. O fato é que o rei considerava muito importante o livro das cantigas de Santa Maria, revestindo-o de um caráter sagrado, como uma relíquia capaz de produzir milagres. Em certa ocasião, quando estava doente, mandou que trouxessem o livro para que fosse colocado sobre seu corpo, de modo a obter a cura.
    As Cantigas de Santa Maria provinham de um movimento artístico-cultural surgido no século XII na região da Occitânia, atual Provença, no sul da França, e que se espalharia por toda a Europa durante o período medieval: o movimento trovadoresco. Sua principal característica é a preferência pela escrita nas línguas vernáculas, ou seja, originárias do latim e desenvolvidas durante a Idade Média – como as que deram origem ao português, ao castelhano, ao francês e ao italiano. O primeiro trovador que se conhece foi Guilherme IX, conde de Poitiers e duque de Aquitânia (1071-1127).
    Tanto a música quanto a poesia trovadorescas faziam parte de um jogo que se desenvolveu nas cortes ao sul do rio Loire. Conhecido como o jogo do “amor cortês” (fin amour), centrava-se numa narrativa em que o amante cobiça a esposa de seu senhor, transferindo para ela a devoção, as atitudes e o serviço de um vassalo. Tais maneiras corteses originadas na França se espalharam por toda a Europa, fazendo surgir canções em honra de poderosas damas da sociedade feudal.
    Nas Cantigas de Santa Maria, o objeto de culto do trovador não é mais a figura da dama da corte, e sim a Virgem Maria. A imagem da Virgem ganhou um lugar de destaque cada vez maior no culto cristão, refletindo a crescente necessidade de conceder espaço ao elemento feminino. O culto a Maria se amplia ainda mais a partir do século XII, com a produção de várias coletâneas de milagres marianos. Para compor suas cantigas de Santa Maria, Afonso X utilizou fontes comuns a outras compilações da época, como as de Gautier de Coincy e Gonzalo de Berceo. Mas o trabalho do rei se destaca pela dimensão e pela riqueza de seus manuscritos, dos quais sobreviveram quatro, sendo dois repletos de iluminuras, o Códice Rico e o Códice de Florença (incompleto), que trazem todas as poesias ilustradas, compondo narrativas em quadros. Um dos manuscritos, conhecido como Códice Príncipe ou Manuscrito dos músicos, traz, antes de cada canção, iluminuras de músicos tocando uma série de instrumentos do período. Este manuscrito preservou as melodias de todas as 426 cantigas.
    A obra divide-se em dois tipos. As cantigas de louvortêm caráter sacro, são poesias líricas e amorosas que exaltam as virtudes e a beleza da Virgem Maria. Já as cantigas de milagressão poesias narrativas de caráter didático.O milagre é uma narrativa curta em que ocorre a intervenção de um santo (no caso, a Virgem Maria) provocando um acontecimento maravilhoso em favor de alguém. A cada dez cantigas de milagres – como era X o número do rei Afonso – segue-se uma cantiga de louvor.
    Assim como todo o repertório monódico (canções escritas a uma só voz) do século XIII, a leitura musical dessas cantigas é simples do ponto de vista da melodia. Não se pode dizer o mesmo, no entanto, em relação ao aspecto rítmico: são muitas as incertezas na interpretação, o que faz com que alguns musicólogos deixem de lado este rico repertório por considerá-lo ilegível.
    As músicas das Cantigas foram editadas em sua totalidade pelo musicólogo catalão Higino Anglés entre os anos 1943 e 1964. Para sua edição, Anglés toma por base as melodias anotadas no Códice Príncipe, ao qual acrescenta as variantes que aparecem no Códice Rico. As transcrições de Anglés pretendem representar não apenas as melodias, mas também o ritmo, o que ele fez segundo diversos critérios, entre eles a utilização de elementos rítmicos encontrados na música folclórica e popular tradicional. O trabalho é alvo de críticas de musicólogos, que o acusam de desviar-se das “regras medievais de notação mensural” – contidas em tratados que definiam a duração dos sons musicais, ou seja, o ritmo. O musicólogo português Manuel Pedro Ferreira observa, porém, que não existem regras de notação mensural que possam ser aplicadas de forma generalizada no século XIII, uma vez que “havia uma série de sistemas de notação mensural distintos, que por vezes se defrontavam, cada um no seu lugar, tempo, influência e campo de aplicação”. Mesmo apresentando problemas, a transcrição de Higino Anglés constitui o esforço maior que já foi feito no sentido de trazer as Cantigas de Santa Maria para o conhecimento de um grande público.
    A grandeza e a riqueza da obra das Cantigas de Santa Maria reflete a força do movimento mariano nas sociedades ibéricas da Idade Média. Algumas de suas histórias ficaram tão marcadas na memória popular que sobreviveram por muito tempo, podendo ser encontradas até mesmo no Brasil, adaptadas em contos populares e na literatura de cordel. Um cordel muito famoso no Brasil, intitulado “História da Imperatriz Porcina”, por exemplo, é baseado na quinta Cantiga de Santa Maria de Afonso X.
    As melodias preservadas fazem dessa coletânea uma das principais fontes para o conhecimento da música medieval ibérica. As iluminuras nos mostram também outras características típicas daquela sociedade, tais como as vestimentas usadas por homens e mulheres, judeus, árabes e cristãos, ou mesmo o tipo de construção utilizado nos casarios, por exemplo. As narrativas de milagres descortinam as mentalidades, ou seja, valores, crenças e superstições da população e até da nobreza, ou seja, as Cantigas de Santa Maria constituem um material riquíssimo de estudos da sociedade ibérica do século XIII.
    Lenora Pinto Mendesé autora da tese “A música no teatro de Gil Vicente: a função do espetáculo no projeto político da Dinastia de Avis (1465-1536)”, (UFF, 2005).

    Santo remédio

    Em algumas cantigas, Afonso X fala na primeira pessoa e apresenta acontecimentos de sua vida. Depois de ser “curado” pelo livro das Cantigas de Santa Maria, escreveu mais um texto. Dessa vez, sobre a graça recebida. Abaixo, um trecho: 
    Muito faz grand’erro, e em torto jaz,
    a Deus quen lle nega o bem que lle faz.

    (...)Poren  vos direi o que passou per mi,
    jazend’ em Bitoira enfermo assi
    que todos cuidavam que morress’ ali
    e non atendian de mi bom solaz.

    Muito faz grand’erro, e em torto jaz,...

    Ca hua door me fillou atal
    que eu bem cuidava que era mortal,
    e braadava: “Santa Maria, Val,
    e por ta virtud’ aqueste mal desfaz.”

    Muito faz grand’erro, e em torto jaz,...

    E os físicos mandavan-me põer
    panos caentes, mas nono quix fazer,
    mas mandei o Livro  dela aduzer;
    e poseran-mio, e logo jouv’ en paz,

    Muito faz grand’erro, e em torto jaz,...

    Que non braadei senti nulla ren
    da door, mas\senti-me logo mui bem;
    e dei ende graças poren,
    ca tenno bem que de meu mal lle despraz.

    Muito faz grand’erro, e em torto jaz,(...)