segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Crônica do dia - A Pipoca - Rubem Alves


A pipoca

Rubem Alves: tudo sobre sua vida e sua obra em "Biografias".

Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.

3 comentários:

  1. Essa crônica é linda, a comparação das pessoas com a pipoca é perfeita.

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  2. Júlia Duca Reis Norberto29 de setembro de 2011 às 18:47

    Achei muito interessante este texto extraído da coluna bissemanal do Rubem Alves, mostrando como a pipoca mudou a sua vida, o fazendo sonhar! No inicio do texto achei que não serial algo realmente muito produtivo, pois como uma simples comida como a pipoca poderia fazer alguém sonhar? Porém ao longo de toda a matéria retirada do jornal “Correio Popular” uma ideia realmente inimaginável sobre a comparação da vida com um alimento é muito bem feita.

    Comparar uma pessoa que não passou ‘pelo fogo’ - que seriam as dificuldades da vida - com um piruá, achando que a sua vida é perfeita e sem problemas, é uma forma muito criativa de explicar a vida através de metáforas. Tenho certeza que para muito que consideravam a pipoca só como mais uma forma de se diverti, ou uma distração para acompanhar um bom filme, agora a vêem com outros olhos.

    Todos nós na vida passamos por diversos tipos de situações diversos tipos de problemas, e com cada avanço que fazemos em nossa vida, com cada ‘pedra tirada do caminho’ nós amadurecemos e damos um passo à frente para que o nosso piruá inicial possa se transformar em uma linda flor branca, uma linda pipoca. O objetivo de todos na vida é ser feliz, e ninguém é feliz sozinho, ninguém é feliz fechado e trancado dentro do seu próprio mundo, dentro do seu inquebrável piruá. Nós precisamos nos libertar dos problemas, das complicações para arrebentarmos com toda a força existente essa casca que nos separa de um mundo tão feliz.

    Júlia Duca Reis Norberto - 801

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  3. Para mim o texto é maravilhoso que se ele realmente tem algo haver com sua vida, ou melhor, tem haver com a vida de todos e o importante é você reconhecer isso, ele realmente irá mexer com todos como mexeu comigo... Pode parecer algo tão tolo, mas que se levarmos algumas (muitas) situações de nossas vidas em conta poderemos observar que é a mais pura verdade. Que realmente temos que mudar a pessoa que somos em determinadas “épocas” de nossas vidas, dependendo apenas das dificuldades que a nós são impostas pelo mundo, e que não adianta relutar, pois a única coisa que irá acontecer é que ficaremos para sempre como piruás, o que não adiantará de nada e como disse o autor teremos o mesmo fim que ela, o lixo.
    Ou seja, não faremos ninguém feliz, e por isso não seremos felizes, de que adianta ter uma vida assim, pois a verdadeira felicidade está em deixar os outros felizes e com isso também ficarmos felizes, não podemos ser egoístas a este ponto, de ver apenas a nossa felicidade e esquecer que os outros também estão lá, e que precisam de nós; eu também nunca imaginei que uma simples pipoca me faria refletir desta maneira e que ela poderia servir de exemplo a muitas pessoas (metaforicamente claro).
    Quem sabe estas pessoas um dia passem pelo fogo, e que nele caiam na real de que tem que mudar. Que o centro de tudo não são elas, que outras pessoas também existem e quem estas são tão importantes quanto nós, e talvez estejam precisando de ajuda, precisando ser felizes, que nós temos que estar lá para mudar, para fazermos estas felizes e com isso também sermos felizes. Se no final do fogo a pessoa não mudou, continua com o mesmo pensamento, de que ela é assim e pronto, que não muda nem no fogo, infelizmente pode desistir, pois estas não passarão de milhos, e serão apenas piruás, tendo o mesmo final que elas, o lixo, sem ao menos ter deixado alguém feliz de verdade e com isto terem sido felizes.
    Taíssa Lima Lopes - Turma 801

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