quinta-feira, 29 de maio de 2014

Crônicas do Dia - Novas infâncias - Luiz Antonio Simas

Romanos e gregos brincavam de rodar pião na antiguidade; chineses e japoneses adoravam a brincadeira

O Dia


Rio - Outro dia bati um papo com um garoto de nove anos, filho de um amigo, com fama de gênio da computação. O menino, ao mesmo tempo, conversava, ouvia música em um fone de ouvido e batia recorde em um jogo eletrônico. Intrigado com a performance, perguntei se ele sabia rodar pião de madeira. O moleque balançou a espantosa cabeleira à Buffalo Bill, deu um muxoxo e me olhou como se eu fosse um dinossauro. É claro que ele sequer concebia colocar um piãozinho em rotação.
Tentei explicar ao garoto que rodar pião é coisa antiga. Arqueólogos encontraram, às margens do rio Eufrates, na Ásia, piões de argila datados de aproximadamente 4.000 anos antes de Cristo. Romanos e gregos brincavam de rodar pião na antiguidade; chineses e japoneses adoravam a brincadeira e foram os introdutores dela nas bandas do Ocidente. Os portugueses introduziram o jogo entre nós, desde os tempos das caravelas.
Outra invenção velha pra dedéu, a pipa (os chineses empinaram os primeiros papagaios há 3.000 anos), anda mal das pernas entre a meninada, sobretudo aquela de classe média, criada entre paredes de apartamentos que mais parecem esconderijos da Segunda Guerra Mundial. Mande um garoto viciado em computador debicar uma pandorga com linha 10 de algodão e ele vai achar que você é mais antigo que múmia de faraó.
Até o jogo de botão sofre com isso. Quando eu era moleque, fazia-se botão de tudo quanto é objeto: osso, tampa de relógio, plástico, galalite, vidrilha, coco e outros babados. Tive um amigo que surrupiou os botões do paletó do avô em pleno velório, ao perceber que o velho seria enterrado com botões excelentes para virar atacantes pequenos e habilidosos.

O botão perdeu prestígio. A onda agora são os jogos eletrônicos que reproduzem partidas de futebol. Os garotos fazem tabelinha virtual em terceira dimensão. Seduzidos pela parafernália desses trecos, abandonam as coisas mais simples, que exigem mais talento e têm maior poder de sociabilização. 
Incluo neste time das brincadeiras mais sumidas que o pássaro Dodô o pique-bandeira, o passa anel, a carniça, o lenço atrás, a cabra-cega, o garrafão, a bola de gude, o telefone feito com lata de leite condensado, o passaraio e muitas mais.

Só me resta constatar que a minha concepção de infância já foi para a roça e perdeu a carroça. Em breve inventarão um aplicativo para se rodar pião pelo celular. Já é mais fácil, afinal, achar um pinguim no verão de Bangu que um adolescente que tenha dado o primeiro beijo em uma brincadeira de pera, uva, maçã ou salada mista.

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