segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Crônica do Dia - Paranoia profissional - Walcyr Carrasco

Minha próxima novela tem como pano de fundo um hospital. Por estar em início de produção, a trama não foi divulgada à imprensa. Alguns colunistas publicam informações sobre trama e elenco. Muitas falsas. Para minha surpresa, dia desses entrei no Twitter e havia um vendaval de mensagens irritadas. Todas de enfermeiras. Uma delas deixou bem uns 20 recados, lembrando que a classe é “injustiçada” e que “falar mal” as prejudicaria mais ainda. Finalmente, fui procurado por uma pessoa do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro, me convidando a conhecer melhor a página deles na internet e, consequentemente, as questões profissionais da categoria. Só que tem um detalhe: minha novela não fala sobre erros de enfermagem. Tentei descobrir o que provocou tal reação. Aparentemente, uma coluna de televisão – não sei qual – inventou a informação. De onde tirou essa ideia? Lembrei que, nos testes realizados em São Paulo com atores iniciantes, havia, em tom de humor negro, uma discussão sobre um erro médico entre dois médicos recém-formados. Atenção: dois médicos, não enfermeiros! Só podem ter inventado a nota a partir disso, embora seja sabido que, em teste desse tipo, não se usam textos originais da novela. Veio a reação, sem que ninguém, nem mesmo os representantes da categoria, tenha me ligado para perguntar se era verdade ou mentira. Ficaram na reação emocional.

Mas aí vem a outra pergunta, mais séria. E se a novela realmente falasse do erro de uma enfermeira? E daí? Em todas as profissões há profissionais bons e ruins. Neste ano, o país ficou estarrecido quando uma auxiliar de enfermagem, num hospital da Baixada Fluminense, injetou café com leite na veia de uma idosa, que morreu. Sim, era apenas uma auxiliar. Mas e a enfermeira que deveria supervisionar seu desempenho? Em Curitiba, também neste ano, uma paciente com doença degenerativa morreu quando a enfermeira desligou por engano o aparelho que a mantinha respirando. Há histórias mais tétricas. O enfermeiro Stephan Letter, de 28 anos, foi condenado à prisão perpétua em 2006 por matar 28 pacientes, na Baviera, Alemanha. Dois uruguaios competiam entre si para ver qual matava mais. Desmascarados neste ano, um admitiu 50 mortes, outro disse que perdeu a conta. Se eu quiser criar uma história a partir de um desses personagens, não posso, porque as enfermeiras ficarão nervosas?

Mais exatamente, uma história dessas denigre a profissão? De jeito nenhum. São casos específicos, lamentáveis, tanto de pessoas mal preparadas no caso de erros como de desequilíbrio mental nos outros. O grande contingente de enfermeiros e enfermeiras, no mundo todo, cumpre suas funções. Muitos desenvolvem relações de carinho e proteção que ajudam o paciente a se recuperar. Um personagem de ficção é simplesmente isso – de ficção. Ainda bem que os advogados não agem assim. Há uma avalanche de livros, filmes e séries de televisão, no mundo inteiro, com advogados corruptos, safados – mas também heroicos. Alguém duvida da categoria por causa disso? Advogados entendem que a ficção só respira com liberdade. E que uma categoria profissional não pode exigir que só se fale bem dela. Por que os profissionais da enfermagem têm tanta dificuldade em conviver com a liberdade de expressão?

Já passei por isso antes. Em minha novela Morde & assopra, um personagem usava os serviços de um fisioterapeuta. No diálogo, expliquei que ele conhecia técnicas de fisioterapia. Sem dizer que era um fisioterapeuta, pois não se tratava de um, mas de um massagista que também fazia do-in etc. Abarrotaram meu Twitter, Facebook e caixa de e-mails de mensagens furiosas. Foi um surto de paranoia profissional. Acusavam-me de prejudicá-los, já que não eram técnicos, mas profissionais de nível universitário. Iniciaram uma cruzada contra mim. O órgão da categoria protestou, em artigo. Enviaram cartas à emissora. Eu não via problema em esclarecer. Mas a novela é gravada com semanas de antecedência. Enquanto a explicação não entrou no ar, houve até ameaças. Uma fisioterapeuta chegou a desejar que eu tivesse um problema, para cair nas mãos de um profissional que me deixasse torto. Só me faltava cair nas mãos de uma fisioterapeuta sádica!

Espero não ficar doente tão cedo. E se cair nas mãos de uma enfermeira irritadíssima com o que supostamente farei na novela, que queira vingar a categoria na hora de me aplicar uma injeção?

Revista Época

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