sexta-feira, 13 de março de 2015

Crônica do Dia - Chamem Castro Alves, urgente ! - Geneton Moraes Neto

A vocação do Brasil para se perpetuar como republiqueta de décima quinta categoria se manifesta de novo. O trabalho de anos e anos do jornalista Paulo César Araújo, biógrafo de Roberto Carlos, foi para o lixo.
A cena — patética, deprimente, horrorosa, indefensável, injustificável — saiu no jornal: caminhões recolhendo caixas e caixas de exemplares do livro "Roberto Carlos em Detalhes" no depósito da editora. Vergonha. Vergonha. Vergonha. A visão de livros incinerados ou triturados é digna da era nazista.


Um colunista da "Veja", André Petry, acertou em cheio: Roberto Carlos manchou para sempre a biografia ao dar esta demonstração de absurda intolerância.

O livro vai ser fisicamente destruído, uma violência inominável. A destruição significa que todas as páginas foram censuradas. Todas as frases. Todas as vírgulas. Todos os parágrafos. Tudo. O veto integral ao livro configura uma violência e um ataque à liberdade de expressão. Abre um precedente perigosíssimo. Dá vontade de repetir a pergunta inútil: "Onde é que estamos?"

Uma voz, vinda das profundezas do inferno, sussurrará: "Calma! Estamos no país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza!" Aqui, nesta republiqueta de décima sexta categoria, um juiz ajuda a decretar a pena de morte para um livro honesto, jornalisticamente correto e bem apurado. Depois, posa para foto com o co-responsável pela violência — o autor da queixa contra o livro!" (quem não leu no jornal perdeu a chance de se indignar: terminada a audiência, o juiz pediu para tirar uma foto ao lado de Roberto Carlos. De quebra, deu ao cantor um CD que ele, juiz, músico amador, gravou nas horas vagas, um arremedo de bossa nova...).

É claro que, na prática, o recolhimento dos exemplares não significa nada. O juiz, o cantor & seus sócios se esqueceram de que, para o bem ou para o mal, a vida intelectual hoje não se apoia em bases físicas, mas virtuais. Quem quiser pode queimar papel à vontade. Porque, hoje, textos existem virtualmente na internet. Não podem ser punidos com a destruição física. O texto integral do livro já circula, livre, nos computadores. Quem quiser pode lê-lo a qualquer momento. É só clicar. A internet fez este enorme bem à Humanidade: as garras da censura e da intolerância podem ser peludas, intransigentes, violentas, nazistóides e intolerantes, mas são incapazes de decretar a morte de um texto.

Hoje, é tecnicamente impossível banir um livro (thank you, Bill Gates! Deus te pague! Aliás, já pagou, em bilhões de dólares). A famosa primeira emenda à Constituição americana proíbe que se crie qualquer instrumento contra a liberdade de expressão e de imprensa. A boa notícia: a internet vem funcionando como uma espécie de Primeira Emenda planetária. Nem foi preciso que se escrevesse esta emenda: ela já entrou em vigor.

O artigo de Paulo Coelho na "Folha de S.Paulo" é brilhante. O grande best-seller teve coragem. Partiu para a briga, o que é uma virtude louvabilíssima, nesta republiqueta de décima sétima categoria em que todo mundo dá tapinha nas costas de todo mundo. Pausa para vomitar. O choque de ideias, obrigatório em ambientes intelectualmente saudáveis, aqui no Brasil é logo substituído pela conciliação. Não por acaso, o Brasil é o que é: um paiseco de décima oitava categoria em que o jornalismo é chato, a literatura é chata, a universidade é chata.

Com raras exceções, a violência de inspiração nazista cometida contra o biógrafo de Roberto Carlos mereceu apenas reações burocráticas da imprensa. Não conheço Paulo César Araújo pessoalmente. Mas ele merece toda a solidariedade. Cadê os editoriais irados na imprensa? Cadê as páginas de reclamação, briga, confronto, questionamento? O assunto não pode morrer assim. Onde estão os editores todos, que não fecham o trânsito na Avenida Paulista e na Avenida Rio Branco para protestar?

O caso Roberto Carlos não é o único. Há outras vítimas de violência: um perfil biográfico do grande poeta Manuel Bandeira, escrito pelo jornalista Paulo Polzonoff, continua mofando no depósito de uma editora, numa cena digna de um filme sobre a Alemanha dos anos 30 — ou do Brasil dos anos setenta! Motivo: herdeiros do poeta investiram previamente contra o livro.

O caso é gravíssimo: um livro, impresso, sequer checou às prateleiras das livrarias! A violência é até pior do que a cometida contra o biógrafo de Roberto Carlos. O livro sobre o cantor já é de domínio público. Independentemente de ter sido recolhido, destruído, queimado ou triturado, quem quiser poderá lê-lo na tela do computador. Já o livro sobre Manuel Bandeira foi alvejado no nascedouro. Nem chegou a ser distribuído!

Manuel Bandeira é um patrimônio do Brasil. Ter acesso à história do poeta é um direito dos leitores. Mas não! Aqui, na republiqueta de décima nona categoria, o livro mofa nos depósitos.

Que fique registrado este protesto, inútil, contra duas violências que acabam de ferir e manchar o ambiente editorial e jornalístico deste paiseco de vigésima primeira categoria: uma cometida contra Paulo César Araújo, biógrafo de Roberto Carlos; a outra, contra Paulo Polzonoff, autor de um perfil biográfico de Manuel Bandeira. O pior é que os que tiveram a chance de ler a biografia de Roberto Carlos garantem que o tom do livro é cem por cento elogioso! O perfil de Manuel Bandeira é apenas uma reportagem alentada. Mas os dois estão condenados! Que paiseco de vigésima segunda categoria é este, em que queixas contra livros honestos e corretos encontram terreno para progredir?

Que Congresso é este, que não revê imediatamente as brechas que a Constituição deixou abertas para os abutres da liberdade de expressão? Duas décadas depois da redemocratização, a Censura ameaça emergir de novo das trevas, sob novos disfarces. Que se diga: não, não e não! O Brasil não quer ver de novo este filme de horror: antes, generais de óculos escuros, sargentos e coronéis se davam ao direito de dizer o que deveríamos ler ou não. Hoje, intolerância, intransigência e ganância, escudadas em brechas da lei, ameaçam transformar o Brasil no país da biografa a favor. Quem desafinar o coro vai para a fogueira! Ou para a máquina trituradora!

Em aldeias civilizadas, quem se sente ofendido recorre à Justiça. Briga boa é a que vai até o Supremo. O que não se pode, sob hipótese alguma, é censurar cem por cento do conteúdo de um livro, mandar uma edição inteira para o lixo ou condenar uma biografia a mofar no depósito. Gestos como estes ameaçam inviabilizar a publicação de biografias no Brasil. Se a esquisitice e a intolerância de uma personalidade pública são suficientes para condenar um livro a arder no fogo da censura, as editoras vão fugir da raia antes de embarcar em projetos biográficos. É este, na verdade, grande prejuízo: quantos e quantos projetos não serão abortados antes de ser escrito o primeiro parágrafo? Quantos e quantos livros deixarão de ser escritos?

Quem perde? Como sempre, o Triste Gigante; esta nossa velha republiqueta de vigésima terceira categoria — que convive com a insânia, a violência, a iniqüidade, a censura e o horror como se fosse possível tolerar insânia, a violência, a iniqüidade, censura e o horror. Não é.

Então, num gesto inútil de desobediência civil, só para mostrar que a capacidade de indignação não morreu, todos deveriam, tendo ou não interesse, acessar na internet o livro que será triturado em breve. A nós, espectadores deste desfile de horrores, resta o quê? Chamar Castro Alves, urgente: "Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura/ Se é verdade/ Tanto horror perante os céus!"

Autor: Jornalista Geneton Moraes Neto

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