quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Entrevista - Lobão

 

LOBÃO, em mais uma entrevista polêmica: “Os protestos de rua pareciam desfile de escola de samba”

Lobão: "Considero-me um jovem escritor e um músico veterano. E sei que o meu melhor ainda não chegou" (Foto: Divulgação)
Lobão: "Considero-me um jovem escritor e um músico veterano. E sei que o meu melhor ainda não chegou" (Foto: Divulgação)
 
 
Entrevista concedida a Alvaro Leme, publicada em edição impressa de VEJA
 
 
CONTRA A “ABUNDÂNCIA DA MESMA OPINIÃO”

 
O músico carioca afirma que a era PT sepultou a tolerância e a diversidade de pensamento e que os protestos de rua pareciam “desfile de escola de samba”
Aos 55 anos, Lobão continua mau. O cantor carioca, nascido João Luiz Woerdenbag Filho, passou boa parte da vida trombando ora com a lei (nos anos 80, usuário contumaz de drogas diversas, era chamado tantas vezes a delegacias de polícia que passou a andar com algemas no bolso), ora com seus colegas músicos.
Desancou a bossa nova, arrumou briga com os metaleiros e rompeu com as gravadoras e rádios adeptas do jabá — os agrados que as primeiras oferecem às segundas para que toquem suas músicas e que, segundo Lobão, incluem desde “carro zero” para os radialistas “até surubas, daquelas em que o cara come sushi em cima de uma mulher nua”.
Quando o seu estoque de rebeldias parecia esgotado, ele escreveu Manifesto do Nada na Terra do Nunca, no qual critica o governo do PT e a figura do intelectual de esquerda — “espécie que reina soberana na nossa terra, patrulhando incautos e dando carteirada nos descontentes, filha de um marxismo guarani-caiová de butique e encarnação vívida da ofensa, da obtusidade e do recalque”.
A VEJA, ele disse o que acha dos recentes protestos de rua e dos grupos que se beneficiaram deles.
O que o senhor — que já foi “um hedonista alienado”, anarquista e petista — achou dos protestos de rua que ocorreram no Brasil?
Eu os achei parecidos com desfile de escola de samba. Tinha a comissão de frente, os destaques atrás e, encerrando a apresentação, a ala do quebra-tudo.
O senhor se refere aos black blocs?
Ficar quebrando coisas, francamente, é constrangedor. Ainda mais de máscara na cara. Se eu fosse governante, criava logo o “passeatódromo”. Assim, os manifestantes poderiam reivindicar o que quisessem e dar entrevistas para o Mídia Ninja sem atrapalhar a vida dos outros nem depredar o patrimônio público.
Aliás, vamos combinar que independente esse pessoal do Mídia Ninja não é. Nos protestos, eles ficaram ao lado dos manifestantes o tempo todo e provocaram os policiais partindo do pressuposto maniqueísta de que soldado é bandido e os outros, mocinhos.
Isso quer dizer que o senhor é contra as manifestações?
Sou a favor de manifestações qualquer que seja a causa, desde que haja uma causa definida. Com objetividade e foco, o pais poderia ter dado grandes passos. Mas, do jeito que foram feitos, os protestos só serviram para fortalecer as esquerdas. Hoje não existe estrutura política mais bem organizada e forte do que os partidos à esquerda do PT. Foram eles que tiraram mais proveito da insatisfação geral da população.
Segundo as pesquisas, o grupo da ex-senadora Marina Silva foi o principal beneficiado. Muitos a veem como uma alternativa aos políticos tradicionais. O senhor concorda com isso?
Sendo delicado, diria a quem pensa assim que é ingênuo. A Marina, apesar de usar eufemismos como chamar “partido” de “rede”, é uma política veterana — e deve ser vista como tal. Na minha opinião, ela é uma versão ainda mais destrambelhada da esquerda porque, para piorar tudo, é evangélica.
Imagine os verdes religiosos no poder — o Brasil viraria uma “clorofilocracia” teocrata. O que, ainda por cima, não tem o menor charme, não é não?
Sobre as críticas ao seu livro: "As pessoas são tão jecas que não suportam alguém que tem opinião".
O seu livro provocou uma onda de críticas vindas sobretudo de setores da esquerda. O que achou delas?
A intenção foi essa mesmo. A adrenalina que eu senti ao escrever deve ter sido a mesma de um cara que planeja um atentado — sabe que vai explodir uma bomba a qualquer momento.
Agora, as reações que eu vi me fizeram concluir que as pessoas perderam o humor. Teve gente que me mandou dar um tiro na boca sem sequer ter lido o livro.
A internet virou um campo de batalha com escrotidões de todos os lados. Mas acho que despertei uma maioria silenciosa que se sentia reprimida — hoje, tudo o que não se encaixe no discurso do petismo já vira coisa de reacionário.
Não há mais espaço para a tolerância e para a diversidade de pensamento. As pessoas são tão jecas que não suportam alguém que tem opinião. E existe abundância da mesma opinião no Brasil.
Mas escrever um capítulo intitulado Vamos assassinar a presidenta da República? não foi um exagero?
Deixe-me esclarecer: é óbvio que eu não quero matar a Dilma.
Minha intenção foi chamar atenção para a Comissão da Verdade, uma oportunidade claramente perdida. Ela deveria servir para lembrar que o governo tem de ser justo com todos e não ficar escolhendo o que vai ser investigado e o que vai ser encoberto.
O governo é formado por gente que integrou a luta armada. Esse lado, como se sabe, também tinha seus podres, e não eram poucos. Praticava assaltos, sequestros e até assassinatos.
Minha ideia é apenas cobrar coerência. Se hoje há terroristas no poder, eles também precisam contar o que fizeram — inclusive a presidente Dilma. No lugar dela, seria o primeiro a sugerir que investigassem o meu passado. Mas os simplistas de plantão não entendem algo tão elementar e me acusam de ser a favor da ditadura.
O senhor já fez campanha para Lula e depois rompeu com o PT. Hoje, vota em quem?
Em ninguém. Aliás, aproveito o ensejo para propor uma campanha para o voto deixar de ser obrigatório. Em uma democracia não se pode obrigar. Não quero sair da minha casa para poder anular meu voto.
O que exatamente o decepcionou em relação ao PT?
Comecei a mudar de opinião quando o Lula colocou o Gilberto Gil no Ministério da Cultura.
As ideias do Gil eram opostas às minhas. Eu estava em guerra contra as gravadoras, em campanha pela numeração dos discos e pelo controle das tiragens, e o Gil não quis comprar a briga, pelo contrário. Ele se cercou de picaretas que só fizeram estimular o axé e o sertanejo universitário.
Mesmo assim, continuei apoiando o governo, até que veio o mensalão.
Senti uma profunda vergonha. O que mais distinguia o PT do resto era justamente a aura da honestidade, da ética. Eu embarquei nessa. Fiz o papel do “idiota útil”. Confesso: era uma anta política.
Não é outro exagero essa autocrítica?
Vou dar um exemplo. Nas eleições de 1989, eu tinha acabado de voltar de uma temporada nos Estados Unidos e dei uma entrevista dizendo que votaria no Roberto Freire. Só que eu achava que estava falando do psicanalista. Só descobri que era um homônimo dele quando armaram um encontro entre nós e conheci o verdadeiro Freire candidato, então no Partido Comunista Brasileiro. Um mico.
Voltando ao PT, o problema é que a nossa cultura é muito primária e simplista, e o jeito petista de governar exacerbou isso. Eles administram pela divisão estanque de ideias e grupos. O entendimento é sempre de que o lado mais forte se opõe ao mais fraco: é o heterossexual contra o homossexual, o branco contra o negro.
Nesse ambiente, fica impossível dizer o que se pensa de verdade. Acho intelectualmente desestimulante.
"O Chico era o garoto que toda mãe queria ver casado com a filha. Minha mãe adorava o Médici, de olhos azuis, e o Chico Buarque, de olhos verdes. Ela não sabia direito onde terminava um e começava o outro" (Foto: Alice Hattori)
"O Chico era o garoto que toda mãe queria ver casado com a filha. Minha mãe adorava o Médici, de olhos azuis, e o Chico Buarque, de olhos verdes. Ela não sabia direito onde terminava um e começava o outro" (Foto: Alice Hattori)
Por que há mais de vinte anos o senhor não emplaca um sucesso nas rádios?
Porque eu me rebelei contra o jabá.
Para agradar aos radialistas e colocar uma música no ar, as gravadoras sempre fizeram de tudo e mais um pouco: distribuem passagem para o exterior, carro zero, promovem até surubas, daquelas em que o cara come sushi em cima do corpo de uma mulher nua.
Eu fiz parte disso. A única música minha que estourou espontaneamente foi Me Chama. Decidi romper com esse sistema, fui para o underground e, em 1999, vendi 100.000 discos em bancas de revista.
E continuei produzindo coisas novas, não fiquei reciclando o que fazia nos anos 80, como tantos cadáveres insepultos que circulam por aí.
O Caetano Veloso entra nessa categoria?
Ele até é uma pessoa querida, mas há muita tempo o que faz deixou de ser relevante.
Acho até engraçado o jeito de o Caetano tocar rock. Ele toca com o dedinho levantado, como se estivesse tomando um cafezinho. Para falar a verdade, não acho o trabalho dele substancial desde o disco Muito, de 1978, lá se vão mais de trinta anos.
O Gil também, desde a época do Refavela, do Realce, parou no tempo.
E o Chico Buarque?
Desse eu nunca gostei mesmo.
Nada pessoal, mas é que ele é daqueles que têm inveja da pobreza. A prosódia dele me dá urticária.
Nunca foi sinônimo de subversão. O Chico era o garoto que toda mãe queria ver casado com a filha. Minha mãe adorava o (ex-presidente da República Emílio Garrastazu) Médici, de olhos azuis, e o Chico Buarque, de olhos verdes. Ela não sabia direito onde terminava um e começava o outro.
O que acha da atividade do grupo Fora do Eixo, que começou organizando festivais de música fora do circuito Rio-São Paulo e hoje é acusado, entre outras coisas, de explorar os artistas com que trabalha?
Eu conheço o Fora do Eixo e acho que o que eles fazem é vampirizar o artista.
Organizam festivais, arrecadam milhões de reais e, em vez de pagar às bandas, reinvestem neles mesmos.
Eu e um grupo de amigos estamos nos movimentando para denunciar e chacoalhar esses caras. Se fazem uma auditoria ali, a organização só sobrevive uma semana. O assustador é que os caras estão em todas as universidades brasileiras e fazem a cabeça de uma porção de gente.
Quem é seu público hoje?
É gente de 12 a 50 anos, que canta as músicas que não tocam no rádio. Meu público é muito seletivo. Não quero ficar tocando grandes sucessos. Faço rock”n”roll da melhor qualidade e sei que tenho o melhor show do Brasil. Faço shows o ano inteiro.
Aprendi a tocar guitarra direito, à ter gosto por cantar, me tornei um bom letrista. Se eu não tivesse como viver de música, estaria morto.
Estou me lixando para o mainstream. Agora, eu pergunto: quem da minha geração está fazendo música hoje? Está todo mundo debaixo da Lei Rouanet.
A Lei Rouanet faz mais mal do que bem à cultura brasileira?
Ela é perversa. Acho que o Rouanet, quando idealizou a lei, pensou em quem fazia música experimental, um Arrigo Bamabé da vida, gente que faz pesquisa musical, que não sobreviveria sem o mercado.
Ou nos artistas que estão começando. A lei é maravilhosa para isso. Mas o modo como ela é usada hoje não está certo.
Se você coloca vários medalhões na parada, a empresário vai pegar aquele que rende mais. Você não vai colocar uma coisa pequenininha com um medalhão. O mais grave é o seguinte: de uma forma ou de outra, com a lei, o Estado dá dinheiro e transforma o artista num militante.
É verdade que recusou 2 milhões de reais que receberia da Lei Rouanet?
Mais precisamente 1.996.000 reais. Sou sócio da minha mulher numa produtora, e ela me incluiu em um projeto sem o meu conhecimento.
Só soube depois que o pedido havia sido aprovado. Fiquei bravíssimo.
O senhor ainda usa drogas?
Não uso desde 1991 e me sinto muito livre. Nos anos 80, todo mundo — quem fazia valsa, pagode, bossa nova, MPB — cheirava quantidades bíblicas de pó.
Nunca tinha sido um grande consumidor até a hora em que me prenderam e tive contato com os chefões da droga na prisão. Acabei me enturmando e passei a ser bem-vindo nos morros cariocas. Hoje, tomo um vinho, uma cachacinha, mas cocaína, maconha, nunca mais.
Julga-se incompreendido?
Sem dúvida. Muita gente por aí não entende nada de nada do que eu falo. E olhe que eu não sou um poço de inteligência.
Considera-se um bom escritor?
Sim.
Melhor do que músico?
Sou muito exigente naquilo que eu faço. Faço 100 músicas para considerar uma boa. Escrevo 1.000 páginas para publicar 248.
Tenho uma gana que um cara de 18 anos não tem. E um de 55, muito menos. Geralmente um cara da minha idade está numa curva descendente. Eu, não. Considero-me um jovem escritor e um músico veterano. E sei que o meu melhor ainda não chegou.
 
Revista Veja

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