sábado, 9 de agosto de 2014

Entrevista - Sininho

"No cárcere você entende o poder do estado"

A ativista conhecida como Sininho diz que vivemos uma farsa eleitoral, fala dos seus dias na prisão e diz compreender quem age com violência nas manifestações

por Helena Borges


Elisa Sanzi, 28 anos, é conhecida como Sininho, apelido dado por colegas de ativismo que a consideram parecida com a personagem da história infantil Peter Pan, no aspecto físico e na rebeldia. De vestido, meia-calça, botas de cano longo e óculos escuros, recebeu ISTOÉ no escritório de seu advogado, Marino D’Icarahy, no centro do Rio de Janeiro. Antes de iniciar a entrevista, o advogado avisou que ela não poderia comentar nada sobre as acusações de dano ao patrimônio, formação de quadrilha e lesão corporal.

Elisa deixou o presídio há pouco mais de uma semana, beneficiada por um habeas corpus. Nascida em Porto Alegre, mudou-se para o Rio ainda criança. É produtora cultural, já foi casada e não tem filhos. “Teve uma época em que me afastei do movimento, tinha acabado de casar, pensei em investir na carreira, essas coisas que a sociedade cobra. Mas acabei optando por investir em meus ideais”, diz.

ISTOÉ -
 Você é a líder das manifestações?


ELISA SANZI -
 Não. É o seguinte: existe um circo midiático que foi formado à minha volta pela necessidade de uma ação de liderança para o que estava acontecendo no Brasil. E essa criação de uma nova identidade foi tão grande que está me obrigando a dar depoimentos e a fazer um papel que eu nunca quis e que não existe. Estou me colocando em uma posição em que tenho que dar explicação de como comecei, por que fiz cada coisa. Não é algo que eu queira. A gente repete, repete, repete, mas acho que as pessoas não entendem. Não, não existe uma liderança. Não sou líder de nada. Participei ativamente de alguns movimentos, mas isso não significa ser uma liderança. Tanto que nunca fui muito de falar em assembleia, só apoio as lutas. É diferente. 


ISTOÉ -
 Como começou a se envolver com política?


ELISA SANZI -
Sempre me fascinou porque fui criada nos movimentos sociais, meus pais são militantes. Pequenininha, com 3, 4 anos, ia com eles a comícios em Porto Alegre, a movimentos universitários. Sempre fiz parte de movimento estudantil, fui representante de classe desde a primeira série, sempre tentando criar grêmio estudantil, fazia parte do jornalzinho da escola, etc. Em 2001, foi incrível, conquistamos o passe-livre para Macaé, uma das primeiras cidades do Rio a conseguir o benefício para os estudantes, e eu estava presente. Inclusive, foi a primeira vez que fui detida, por desacato, e que apanhei da polícia, que me vi tão perto da violência policial em manifestações.

ISTOÉ -
 Como foi essa primeira experiência?


ELISA SANZI -
 Nunca me surpreendeu. Se você estuda história, vê que é uma repetição da mesma narrativa. E a partir do momento que você enfrenta algo tão grande como o Estado, tem de estar disposto a encarar as consequências. Eu sabia disso, até porque meus pais passaram por isso. Já tinha noção de que ia ter muita violência, um bombardeamento da mídia, só não esperava que ia ser tão rápido. Desde o começo teve milícia atrás, sofremos todos os tipos de ameaça. E, se for parar para pensar, desde junho do ano passado já tem prisões políticas, perseguições, gente pedindo asilo político.


ISTOÉ -
 Você tem raiva da imprensa?


ELISA SANZI -
 Não. Sinto muita dor em ver que acham que um dia vou fazer mal a algum jornalista. Jamais faria isso, porque sou extremamente humanista. Jamais vou colocar o profissional de imprensa numa situação de perigo, mas, ao mesmo tempo, tenho que me defender, defender a minha identidade, o meu psicológico.


ISTOÉ -
 As notícias sobre você te abatem emocionalmnente?


ELISA SANZI -
 Essa destruição da minha identidade para criação de um líder está sendo tão pesada que está desconstruindo o ser humano Elisa, porque até o apelido Sininho, que foi carinhosamente dado por ativistas do “Ocupa Cabral”, foi desconstruído. Porque era um apelido carinhoso. E eu gosto. Mas existem duas Sininhos: a da mídia e a militante, a Elisa. Então eu me vejo obrigada a entrar em aspectos pessoais, na minha vida, o que é extremamente invasivo, e as pessoas não estão entendendo isso. Eu não quero ter que expor a minha vida pessoal, que já está mais do que exposta por mentiras e fofocas, me obrigar a falar, porque é uma invasão. Eu já perdi a minha vida pessoal, o meu dia a dia. 


ISTOÉ -
 Você tem alguma ligação partidária?


ELISA SANZI -
 Não. Neste momento eu sou contra as eleições, contra a farsa eleitoral. O que os deputados ou os partidos vão fazer ou não na campanha, qual é a jogada política, não me interessa. O que me importa é mostrar que existe uma farsa eleitoral gigante, de coligações. As pessoas não têm é que votar mesmo. Elas têm que questionar a forma eleitoreira com que tudo é feito, as campanhas, tudo. Sou contra a democracia? Ao contrário! Quero democracia, mas uma democracia de verdade, e não essa falsa de hoje.


ISTOÉ -
 Não acha que ao não votar deixamos de apoiar o trabalho dos políticos que valem a pena? 


ELISA SANZI -
 Sei lá se existem bons políticos. A partir do momento que ele está dentro do sistema tem três caminhos: ou é corrompido, ou é assassinado por tentar fazer algo diferente, ou vai passar anos ganhando a grana dele lá e não vai fazer a diferença. Sendo obrigado a votar, o cidadão brasileiro acaba sendo uma marionete. Você vota e passa dois, quatro anos sem ser ouvido e sendo criminalizado na rua quando faz uma greve, uma ocupação. Que democracia é essa que te obriga a votar, mas, na hora de escutar o povo, não escuta? As escolas estão sendo destruídas, pessoas morrem em hospitais, e ainda somos  obrigados a votar?  Não vou me obrigar a votar. E se tiver que pagar o preço de uma passagem, que é o preço da multa – R$ 3,20 –, eu pago, sim.


ISTOÉ -
 Existe algum modelo de política que considere adequado? 


ELISA SANZI -
 Não existe uma proposta pronta porque cada país tem a sua cultura. Mas as assembleias diretas são a forma de o povo criar uma voz e participar sem influência de partidos ou políticos. Não é uma mudança que vá se fazer de hoje para amanhã. É um movimento que leva dez, 15, 20 anos para desenvolver um novo sistema que se encaixe à nossa realidade política. 


ISTOÉ -
 Tem vontade de se candidatar?


ELISA SANZI -
 Nunca tive nem nunca vou ter, porque o que eu gosto é de ir para a rua, botar a mão na massa e ajudar as pessoas a se organizarem – que é muito diferente de eu tentar organizá-las. Não serei candidata política.


ISTOÉ -
 Qual é o próximo passo para as manifestações?


ELISA SANZI -
 Os políticos é que têm que ir para a rua. Não adianta convidar meia dúzia de ativistas para criar uma liderança e chamar na Câmara de Vereadores que a gente não vai. Quantas vezes a gente foi para a frente da prefeitura, da Assembleia Legislativa, da Câmara, e nenhum político apareceu para conversar? E não saem por quê? Medo. De se queimar, de não se eleger, de perder o poder. E, enquanto isso, os movimentos sociais vão continuar se organizando como acham melhor, cada um a seu jeito.


ISTOÉ -
 Qual foi o pior momento em manifestações para você?


ELISA SANZI -
 No dia que vi os professores apanhando na minha frente. Vi um monte de senhoras, crianças, todo mundo apanhando e levando spray de pimenta na cara. Aquilo para mim foi uma violência sem tamanho, foi um dos dias mais violentos que guardo na memória. E eu lembro que os black blocs tinham sido barbaramente criminalizados pela direção do sindicato dos professores depois que deram apoio em todos os atos, tinham levado porrada pra caramba para ajudar os professores e agora estavam sendo criminalizados. E eles não entendiam por que estava acontecendo aquilo. Eles não tinham estrutura de primeiros-socorros, então todo mundo foi com soro, leite de magnésia. Estive lá também, ficamos na frente, levamos muita porrada nesse dia. 


ISTOÉ -
 E na cadeia, como foi sua experiência? 


ELISA SANZI -
 Você não consegue explicar direito o que é a experiência de um cárcere. Por mais que não tenha sido vítima da violência física – nenhuma das duas vezes eu fui –, tive uma vivência e ouvi muitas histórias de tortura, desumanização e abandono da sociedade. Nessa última vez, presenciei três torturas que não consigo explicar bem o tipo. Eles colocam as mulheres no corredor, no frio – e o presídio de Bangu é muito frio –, e as deixam ali, com short e blusinha, a madrugada inteira sem comer nem beber. Ali você percebe que o Estado é seu dono e que a sua vida não te pertence, porque quando quiserem tirar sua vida, sua liberdade, seus pertences, tudo, eles vão tirar. No cárcere você entende exatamente o poder do Estado. Não tem como reclamar. Se você não colocar as mãos para trás, abaixar a cabeça e falar “sim, senhor”, vai levar tapa, vai para o frio, vai sofrer e não vai poder reclamar. 


ISTOÉ -
 Acha que a violência nas manifestações e as atuações dos black blocs são justificáveis? 


ELISA SANZI -
 O que mais vejo é a polícia praticando violência. Como você pode julgar uma ação mais radical num ato, se aquelas pessoas são, desde a infância, torturadas ou desumanizadas, têm as mães estupradas? Como querer que elas lidem com a paz? Se o próprio Estado não lida com a paz, tira os direitos dela. Não quero que as pessoas se machuquem, jamais fiz planos para as pessoas se machucarem. Se isso aconteceu, vou culpar o Estado, o político ou o jurista. Eles não veem a realidade em que essas pessoas vivem, preferem criminalizar o menino que pegou uma pedra e quebrou um banco. Mas isso é uma inversão de valores.


ISTOÉ -
 Mesmo quando há ferimentos ou mortes?


ELISA SANZI -
 Foram mortos 28 manifestantes, um jornalista e não sei a conta dos policiais. Essas mortes não têm que fazer parte da luta, mas elas não começaram na jornada de junho. É uma coisa que não parou desde a ditadura militar. Ela se escondeu nas favelas e nas baixadas, só agora está vindo à tona nos endereços onde a burguesia e a classe média estão. A história do Santiago (Santiago Ilídio Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes, faleceu no dia 10 de fevereiro atingido por um rojão no Rio) é muito triste, e acabaram me envolvendo em algo com o que não tenho absolutamente nada a ver. Eu estava na delegacia com os militantes detidos quando soube o que tinha acontecido. Minha primeira ação foi ir ao hospital. Fiquei louca, mas não deixaram.  


ISTOÉ -
 As manifestações estão perdendo popularidade?


ELISA SANZI -
 É normal, após mais de um ano de manifestações. Estão acontecendo manifestações espontâneas em diversos lugares. Não sei se estamos caminhando para uma nova leva de manifestações, mas cada vez mais vamos ver a massa se rebelando.  


ISTOÉ -
 Você tem medo?


ELISA SANZI -
 A gente sempre tem. Se eu não tivesse apoio de família, amigos e até de militantes, já teria caído. E o que eu mais sinto falta hoje em dia, daria muito por 24 horas de um dia normal: ir ao cinema, ir tomar uma cervejinha, sem precisar falar de Sininho ou colocar óculos escuros. De vez em quando a gente tem vontade de sair, porque ninguém quer voltar para a prisão, ainda mais sendo inocente, mas vamos ficar e encarar. 

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