quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Te Contei, não ? - Sob longa ( e difícil ) exposição

Flávia Milhorance
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A maior parte das fotografias de Luiz Alberto Guimarães enquanto sofria crises de pânico foi feita no muro da casa da mãe
Foto: Fabio Seixo
A maior parte das fotografias de Luiz Alberto Guimarães enquanto sofria crises de pânico foi feita no muro da casa da mãe Fabio Seixo
Luiz Alberto Guimarães não sabe ao certo como tudo começou. Lembra de uma vez quando se dirigia para dar uma palestra em Niterói, onde sempre morou. No caminho, a pé, o lugar antes familiar lhe pareceu totalmente estranho. Não sabia mais onde estava. “Era uma confusão mental”, conta. Começou a suar, e o coração acelerou de tal forma que ele deu meia volta. Logo, estava aos prantos. Aquela não tinha sido a primeira vez. A verdade é que ali ele viu que tinha ultrapassado algum tipo de fronteira da mente, estava dentro de algum labirinto difícil de sair.

Professor de física, Luiz sempre precisou enfrentar plateias. E gostava. Aliás, adorava. Era aquele tipo de professor que acompanhava as turmas em excursões, como uma que levou 120 alunos a Porto Seguro. Era criativo: uma vez levou uma pedra para a sala. Deixou em sua mesa até que, no fim da aula, um aluno perguntou: “mas ela é para quê, professor”? “Para nada, só queria mantê-los atentos”, respondeu. Chegou a lançar dois livros de física para alunos do Ensino Médio. Uma vez, em 1997, justamente por causa de um desses lançamentos, Luiz precisou falar para 400 alunos fora de sua cidade e lembra de quase não ter discursado.
- Deu um curto-circuito, como se toda a informação que existe entrasse no cérebro - conta.
Depois vieram sonhos em que era professor de inglês mas não sabia falar uma só palavra da língua. Tudo isso culminou, em 2003, com a aposentadoria, pois ele não conseguia mais entrar em sala de aula.
Luiz foi a diferentes especialistas, de neurologistas e terapeutas cognitivo-comportamentais a psiquiatras. Chegaram a falar em síndrome do pânico, mas o diagnóstico não foi fechado. Era algum transtorno de ansiedade, grupo que atinge cerca de 12% dos brasileiros, segundo o Instituto de Psiquiatria da USP, e abrange, além do pânico, fobias específicas e a agorafobia.
- Há casos clássicos, óbvios de se diagnosticar. Mas muitas vezes não dá, são quadros mistos, confusos - explica a psiquiatra Analice Gigliotti, diretora do Espaço Clif. - O problema da psiquiatria é que ela enfrenta uma grande limitação se comparada a outras ciências. Na medicina, existem marcadores biológicos para apontar o problema. Há o exame de sangue, o raio-X. Na psiquiatria, isto é feito a partir de critérios, que até avançaram ao longo do tempo. Há 30 anos, por exemplo, um esquizofrênico no Brasil poderia ser visto como deprimido nos EUA. Agora, o próximo passo é definir os marcadores, pois ainda existe muita dúvida de diagnóstico.
Apesar de avanços da neurociência, principalmente na última década, o cérebro continua uma caixa-preta para cientistas de todo o mundo. Projetos caríssimos tentam desvendar estes segredos, como o europeu “Cérebro Humano”, que receberá o equivalente a cerca de R$ 1,3 bilhão para fazer simulações cerebrais usando supercomputadores; ou o americano “Brain”, aprovado pelo presidente Barack Obama, com recursos de US$ 100 milhões.
O autorretrato e o enfrentamento
Enquanto engatinhamos no conhecimento sobre o funcionamento do cérebro, as saídas individuais de quem sofre com distúrbios muitas vezes fogem do padrão. Luiz conta que, isolado entre quatro paredes, se viu fotografando. Ele, que já tinha contato com a técnica, construiu sua própria câmera pinhole, usando caixa de papelão, fita adesiva preta e filme de papel. Na tentativa e erro, chegou a um tempo de exposição de até oito minutos necessários para fixar a imagem no negativo. Neste período, Luiz ficava imóvel diante do aparelho.
- Olhando para trás, acho que isto me ajudou muito na superação de tudo. Eu estava colocando para fora aquele medo doentio de exposição, pois para fazer o retrato eu tinha que me encarar - lembra ele, que também usava remédios e fazia terapia.
O método descoberto por acaso por ele é entendido por diferentes pontos de vista de especialistas.
- Na terapia cognitivo-comportamental, o tratamento prevê uma exposição progressiva ao medo. Ele pode ter entendido o autorretrato como um primeiro passo para se expor. Ele observava a si mesmo e progressivamente ia se expondo mais e mais - diz Analice.
O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo Silva, explica que, no caso de uma síndrome do pânico, há um mau gerenciamento da adrenalina pelo cérebro, e isso faz com que a descarga desta substância aconteça em momentos que não deveria. Segundo ele, esse desequilíbrio só consegue ser restabelecido com remédio, é uma doença.
- Para os pacientes, nunca é o remédio que resolve, é sempre uma terapia, um centro espírita, uma coisa qualquer - afirma o psiquiatra.
O tratamento de transtornos de ansiedade a partir de processos artísticos vem sendo citado em estudos publicados na “Journal of the American Art Therapy Association”, mas ainda são insuficientes. Tampouco Luiz ou especialistas dizem que ele está curado. Ele não baixa a guarda, já que o transtorno de ansiedade tem predisposições genéticas: o pai e o tio dele sofriam do que, na época, chamava-se “doença dos nervos”. E o distúrbio geralmente é desencadeado a partir da exposição a determinadas situações, como a necessidade de enfrentar o público, o tipo de educação ou traumas na infância.
Fotos ‘perderam sentido’ depois de crise
As fotos foram produzidas até 2011, quando Luiz conseguiu voltar a falar em público. Hoje, além de palestras, ele faz vídeos de física e os coloca no Youtube. Já tentou retomar os autorretratos mas eles “perderam o sentido”.
O resultado que ficou daquela época são fotografias comoventes, que expressam sentimentos difíceis de explicar. Nelas, há a necessidade de proteção, como no útero materno; a solidão de quem estava divorciado; e a dificuldade de se colocar diante dos outros. A maioria foi feita num muro da casa da mãe, onde Luiz voltou a morar durante o processo e onde as memórias da criação de 11 filhos ficaram marcadas. Agora, o projeto em andamento é, com a pinhole, fotografar paisagens. Não quer mais ficar em casa.
Saiba mais sobre o transtorno de ansiedade
É um termo que abrange diferentes distúrbios caracterizados pela preocupação excessiva, inquietação, apreensão e medo sobre as incertezas futuras, devido a eventos reais ou imaginárias, que podem afetar a saúde física e psicológica. Segundo o Instituto de Psiquiatria da USP, ele atinge 12% dos brasileiros, índice abaixo dos 18% de americanos e 14% de europeus, de acordo com dados dos arquivos de psiquiatria da "Journal of the American Medical Association".
Este ano, a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) - da Associação Americana de Psiquiatria, conhecida como a bíblia destes profissionais e usada por médicos e pesquisadores de todo o mundo - modificou alguns dos critérios de diagnóstico do transtorno. Não fazem mais parte do grupo o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e o transtorno do estresse pós-traumático, que ganharam parágrafos próprios no livro.
A nomenclatura transtorno de ansiedade abrange, portanto, a agorafobia, fobias social, fobias específicas e distúrbio do pânico. Para serem diagnosticadas clinicamente, o paciente deve estar há mais de seis meses com os sintomas. Há casos em que o diagnóstico é misto e não aponta para um único problema. Acredita-se em causas genéticas, mas também estão sendo investigadas outras reações químicas do cérebro. O tratamento mais indicado é com medicamentos e terapia cognitivo-comportamental.
Distúrbio de pânico
O principal sintoma do transtorno do pânico é o ataque de pânico, um momento avassalador de sofrimento físico e psicológico. Pode ocorrer palpitação ou dor no peito, sudorese, tremores, dificuldade para respirar, náusea e dor abdominal, tonteira, sentimento de medo, dormência e calafrios. Como os sintomas são muito fortes, as pessoas pensam que podem estar tento um ataque cardíaco ou outra ameaça à vida.
Fobias específicas
Excessivo e persistente medo de específico objeto, situação ou atividade, que geralmente não são prejudiciais.
Fobia social
Forte ansiedade e desconforto de ser envergonhado ou desprezado em situações sociais. Exemplos comuns são falar em público, conhecer pessoas, falar ao telefone ou até usar banheiros públicos.
Agorafobia
Medo de estar em situações onde escapar pode ser difícil, embaraçoso ou a ajuda pode não estar disponível em caso de sintomas de pânico, como em elevadores e aviões. Quando não tratada, a agorafobia pode se tornar tão grave que a pessoa pode se recusar a sair de casa. Para receber um diagnóstico de fobia, o medo deve ser intensamente perturbador ou interferir significativamente em suas atividades diárias.
Distúrbio de ansiedade generalizada
Eles se preocupam constantemente e se sentem impotentes para controlar essas preocupações. Muitas vezes, suas preocupações se concentram em responsabilidades de trabalho, saúde da família ou questões menores, tais como tarefas ou compromissos. Eles podem ter problemas para dormir, dores musculares, tensões, além de se sentirem instáveis, fracos e com dor de cabeça. Pessoas com o transtorno são irritáveis e muitas vezes têm problemas de concentração.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/saude/professor-conta-como-conseguiu-superar-um-transtorno-de-ansiedade-com-autorretratos-9332087#ixzz2bJb1Pq9o

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