sexta-feira, 11 de maio de 2012

Entrevista - A Juventude eterna de Paul



Paul McCartney completará 70 anos em 18 de junho. Apesar da idade, o astro inglês continua a fazer turnês e a emocionar um público cada vez mais numeroso, e jovem. O músico, a banda e a equipe, ao todo 95 pessoas, chegam ao Brasil nesta semana para o show On the run. Ele estará no Estádio do Arruda, no Recife, nos dias 21 e 22, e no Estádio da Ressacada, em Florianópolis, no dia 25. É a terceira vez que Paul vem ao país em dois anos. Mais uma vez, os ingressos se esgotaram. No Recife, 90 mil. Em Florianópolis, 30 mil. De acordo com o empresário Luiz Oscar Niemeyer, que traz Paul ao Brasil há duas décadas, se houvesse mais espetáculos, as entradas acabariam em poucas horas. Não é privilégio do Brasil. A paixão pelo ex-beatle se mostrará de novo em 4 de junho, no Palácio de Buckingham, no espetáculo pelo jubileu de Elizabeth II. “Percebo que os mais novinhos estão ali, diante do palco, cantando todas as músicas e se emocionando”, disse Paul em entrevista exclusiva a ÉPOCA. “Não há mais conflito de gerações.”

Há outros astros da geração de Paul que ainda atraem público. Nenhum se compara a ele. Seu companheiro de Beatles, o baterista Ringo Starr, tocou no Credicard Hall, em São Paulo, em novembro de 2011. O público era formado por saudosistas, com idade média de 40 anos. Os Rolling Stones são poderosos chamarizes – sobretudo para quem tem mais de 30 anos. Paul é capaz de arrastar famílias inteiras a suas apresentações; avós, pais e netos. “Os Rolling Stones atraem gente madura. Os jovens comparecem em peso às turnês do U2. Só o Paul atrai todas as faixas de idade”, diz o diretor de produção de On the run, Francisco Dourado – que montou palcos dos principais megaeventos que ocorreram no Brasil nos últimos anos.

Encher casas de shows não é problema para Paul desde 1961, quando se destacou como baixista dos Beatles. O quarteto de Liverpool foi pioneiro em cantar em estádios para dezenas de milhares de pessoas desde a primeira turnê pelos Estados Unidos, em 1964. Com a dissolução dos Beatles em 1970, Paul continuou por dez anos a fazer shows e a gravar discos de sucesso à frente da banda Wings. Em 1990, após uma pausa de nove anos, apostou na carreira solo. Assumiu, então, a herança do cancioneiro dos Beatles. Seu show atual compreende 30 músicas e dura três horas e meia. Canta os clássicos do grupo de Liverpool, mas também lança canções – como “My Valentine”, do CD Kisses on the bottom (2011). “Na turnê passada, mais da metade dos 450 mil ingressos foi de meia-entrada”, diz Niemeyer. “Isso mostra que o público de Paul é, em sua maioria, jovem. O mesmo perfil se repete nesta excursão.”

Os jovens buscam em sua música uma fonte de qualidade e inspiração. A estudante Marcella Zanin, de 16 anos, de Aldeia da Serra, São Paulo, começou a gostar de Paul por influência do pai. Em 2010, ela tentou comprar ingressos do primeiro show dele em São Paulo. Não conseguiu. Os ingressos se esgotaram em 15 minutos. “Chorei demais. Então meu pai me ligou depois, avisando que tinham confirmado um segundo dia de show. Fiquei toda a madrugada com três computadores ligados, tentando comprar. Deu certo.” Ela afirma que Paul é seu beatle favorito. “Ele fez grandes músicas também nos Wings e na carreira solo”, diz. “Gosto de ‘Let it be’, e minha preferida é ‘Sing the changes’, de 2008.”

Paul também incentiva os jovens a aprender música. É o caso dos estudantes Alexandre Longobardi, de 11 anos, e Joaquim Scandurra, de 12 – filho do guitarrista Edgar Scandurra. Alexandre e Joaquim começaram a ensaiar juntos músicas dos Beatles para apresentar na escola. “A primeira música que aprendi a tocar no violão foi a ‘All together now’, do Paul”, diz Alexandre. “A maioria dos meus amigos da escola também gosta de bandas mais antigas de rock e de Beatles.” Para Joaquim, o maior incentivo do velho rock é a facilidade de tocar. “Os acordes não são difíceis, mas as letras e a melodia são bem estruturadas”, diz. “As músicas do Paul são ao mesmo tempo complexas e simples.” O engenheiro Eduardo Nicolazzi, de 57 anos, morador de Florianópolis, vai com a família toda ao show na Ressacada. “É bacana saber que coisas que ouvia há 40, 50 anos, na infância e adolescência, estão no gosto de toda a minha família agora”, diz. “Vou ao show com meus dois filhos, as mulheres deles e vou encontrar lá meu irmão com os filhos.”
 
Qual é o segredo de Paul para renovar seu público e erguer essa ponte entre as gerações? As explicações são muitas. Paul sempre teve carisma e, depois da morte de John Lennon e George Harrison, ficou com o prestígio e o afeto associados ao nome dos Beatles. Enquanto as letras de John privilegiavam a rebeldia e a militância política, as de Paul falam de temas eternos, que cativam jovens de qualquer época. “Revolution”, de John, tornou-se um barulhento protesto da contracultura – que acabou há mais de 30 anos. “She’s leaving home”, de Paul, narra a angústia de uma jovem que deixa a casa dos pais – a mesma em qualquer tempo.

A energia de Paul como músico e homem de palco também é lendária. Ele cria e canta com a vitalidade dos jovens, não como uma caricatura de si mesmo. Tem um repertório próprio e herdado dos Beatles simplesmente incomparável. A qualidade das melodias e dos poemas de Paul é objeto perene de culto no altar da música pop. Para quem não se encanta com nada disso nem com a personalidade cativante de Sir Paul, ainda há a militância: em ressonância com as novas gerações, Paul pratica e defende a dieta vegetariana e o pacifismo. Da soma disso tudo resulta a “McCartneymania”, que eletriza várias gerações ao mesmo tempo.

O interesse pela música de Paul motivou o engenheiro Eduardo Brocchi, de 60 anos, a criar um curso de extensão na PUC do Rio de Janeiro sobre a história e influência dos Beatles, o primeiro do país numa universidade brasileira. As aulas começaram em 4 de abril, com sala cheia e todas as 25 vagas preenchidas. A maior parte dos alunos tem entre 20 e 30 anos. Brocchi acredita que a presença de Paul ajuda a manter viva entre os jovens a experiência da música pop de qualidade.

De acordo com o crítico e historiador Tárik de Souza, a longevidade artística de Paul se explica por uma profundidade artística até hoje não superada. “Quando o jovem procura algo diferente, não encontra nada melhor que os Beatles”, afirma. “Inovação, ritmos novos, influências de outros tipos de música no rock. Os Beatles enriqueceram a música popular. Suas músicas são atemporais, quase como clássico pop.” O fascínio pelo rock da década de 1960 tem a ver, diz Souza, com uma espécie de nostalgia da revolução jovem. “Naquele tempo, a juventude tinha necessidades políticas e sociais, e os Beatles vieram ao encontro dessas necessidades. Hoje, não existe mais sintonia entre os meios de comunicação e aquilo que os jovens querem. A música é pulverizada. Não há mais utopia.”

O trunfo de Paul é justamente este: ter se tornado, em vida, um monumento à utopia perdida na cultura pop.

Revista Época

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