domingo, 29 de julho de 2012

Te Contei, não ? - Sem flecha, na rima


Jaha, jaha!". Mesmo não sabendo guarani-kaiowá, a plateia que ouve o Brô Mc´s - primeiro grupo de rap indígena do país - consegue perceber a força de convocação presente nessas palavras, que significam "vamos, vamos!". O chamado, à maneira de um grito de guerra, funciona como exortação aos ouvintes para que conheçam outra realidade, ignorada pelos brasileiros: o cotidiano e a sonoridade dos indígenas nas reservas do Estado, espaço "onde não cabem nem nossos sonhos", como pregam suas canções. O grupo, criado no final de 2009, é formado pelos pares de irmãos (daí o "bro", de brother) Bruno/Clemerson e Kelvin/Charles, jovens que cresceram ouvindo hip hop nas rádios da aldeia Jaguapirú Bororo em Dourados, Mato Grosso do Sul. Nas apresentações, contam com a voz feminina de Dani Muniz, descendente de indígenas, e o apoio do produtor Higor Marcelo, de outro grupo de rap da região, o Fase Terminal.


Higor, que representa a Central Única das Favelas, conta que percebia a identificação dos jovens indígenas com o movimento hip hop, da maneira de se vestir às músicas que gostavam de escutar. Daí a ideia de levar oficinas de rap para as aldeias, como forma de estimular os adolescentes para a escola indígena.

- Desde o começo a gente não queria impor uma cultura estranha que invadisse a cultura indígena - afirma o produtor, chamando atenção para o grande destaque do Brô Mc's: as letras em língua indígena. Expressar-se em língua originária e fazer com que jovens indígenas percebam a vitalidade do idioma nativo é uma das motivações do grupo.

Bruno diz que as composições são pensadas primeiro em guarani-kaiowá, da família tupi-guarani. Depois é que selecionam trechos ou letras que vão receber versão em português. 

- Mas fica mais forte quando eles cantam em guarani - afirma Dani.

AcentuaçãoO kaiowá, como outras línguas guarani, tem padrão de acento regular recaindo na última sílaba, ou seja, a maioria das palavras são oxítonas, conferindo mais peso para a rima do rap que, dessa maneira, se beneficia do ritmo da própria língua. 

Muitas palavras oxítonas em português - idioma que tem padrão majoritariamente paroxítono (para formar o "pé trocaico", que na versificação latina equivale a uma sílaba longa e outra breve) - são de origem tupi, mostrando que não só os itens lexicais foram tomados de empréstimo, mas os elementos do ritmo das línguas indígenas. No maior sucesso do grupo, Eju Orendive, as rimas bilíngues mostram a criatividade no domínio dos dois idiomas e a prevalência da prosódia indígena: "Ajapo ['eu faço'] por amor / Enhendu ['Escute'] faz favor". Na primeira frase, há rima interna entre o termo indígena "ajapo" e "amor", que não está baseada só na qualidade da vogal fechada o, mas no acento, pois ambas são oxítonas, seguindo a preferência indígena. E a segunda frase rima com a primeira por meio de dois componentes linguísticos (qualidade vocálica e acento). Segundo os integrantes do Brô Mc's, não foi difícil fazer do rap, ritmo urbano e estrangeiro, uma forma de expressão indígena.

- Não teve problema para colocar o guarani no ritmo do rap porque eu ouvia muito as músicas em inglês, então ia aproveitando o ritmo e colocando as palavras guarani por cima - explica Bruno.

TradiçãoA dificuldade maior vem dos críticos, que não aceitam o fato de que a cultura indígena é dinâmica e sempre incorpora novidades.

- "Mas índio cantando rap?", tem gente que questiona. O rap é de quem canta, é de quem gosta, não é só dos americanos - avalia Dani.

Para eles, o rap é o modo de expressão de um discurso calcado na experiência. Tanto é que a língua se integra a inúmeros outros elementos guarani-kaiowá para compor a linguagem mais ampla dos rappers.

- Mas não é só a língua. O cocar, as pinturas, os colares, tudo isso está falando do mundo indígena e está presente no que a gente faz - diz Bruno, que se esqueceu de mencionar o guaxiré, dança guarani-kaiowá cujos passos ritmados substituem o break [dança do hip hop] nos shows do grupo.

Além da linguagem, a questão da terra indígena é central para o Brô Mc's, o principal tema trazido por eles das narrativas tradicionais.

- Os mais velhos contam muito pra gente sobre o tekoha, a terra de onde eles vieram, para onde eles tentaram voltar e onde só encontraram fazendas, e a gente traz essa história para as músicas - conta Bruno.

Os guarani-kaiowá no entorno de Dourados foram forçados a abandonar o lugar onde viviam para ser confinados numa reserva de 3,5 mil hectares, que dividem com os terena. São 15 mil indígenas num espaço limitado. Para os guaranis, a vida plena e de acordo com os costumes está associada a um território tradicionalmente habitado, dentro da busca pela "terra sem males". O deslocamento forçado desorganiza o ritmo de vida indígena, enraizado em espacialidades específicas. Como resultado das tentativas de retomada das terras tradicionais e devido a pressões contra o próprio território atual, 250 lideranças foram mortas em menos de uma década.

ContundênciaAs letras das canções são contundentes ao mostrar a exclusão ameríndia, e gestos combativos compõem a plástica das apresentações do grupo. No entanto, os irmãos indígenas, que se preparam para gravar mais um CD, não querem estimular a hostilidade, mas sim a convivência multilíngue e multiétnica que é característica do Brasil.

- Nosso debate não é o do enfrentamento, é o da conscientização - explica Higor, fazendo jus ao estribilho "sem flecha, na rima", carro-chefe de uma de suas canções.

Enquanto isso, em meio às rimas do grupo, o som do maracá - instrumento que marca o ritmo da dança e que também serve para curar segundo a tradição do seu povo - consegue fazer a diferença entre os samplers e efeitos eletrônicos típicos do hip hop, demarcando a resistência indígena no canto do Brô Mc's.


Evandro Bonfim é jornalista e doutor em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ

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