segunda-feira, 2 de julho de 2012

Norte pobre, Sul rico / Norte rico, Sul pobre

As treze colônias do norte tiveram, pode-se dizer, a felicidade da desgraça. Sua experiência história mostrou a tremenda importância de não nascer importante. Porque ao norte da América não havia ouro, nem prata, nem civilizações indígenas com densas concentrações de população já organizada para o trabalho, e nem solos tropicais de fertilidade fabulosa na franja costeira que os peregrinos ingleses colonizaram. A natureza se mostrou avara, e também a história: faltavam os metais e a mão de obra escrava para arrancar os metais do ventre da terra. Foi uma sorte. Além disso, desde Maryland até a Nova Escócia, passando pela Nova Inglaterra, as colônias do norte, devido ao clima e às características dos solos, produziam exatamente o mesmo que a agricultura britânica, isto é, não ofereciam à metrópole uma produção complementar.
Muito diferente era a situação das Antilhas e das colônias ibéricas de terra firme. Das terras tropicais brotavam o açúcar, o tabaco, o algodão, o anil; uma pequena ilha no Caribe, do ponto de vista econômico, era mais importante para a Inglaterra do que as treze colônias matrizes dos Estados Unidos.
Essas circunstâncias explicam a ascensão e a consolidação dos Estados Unidos como um sistema economicamente autônomo, que não drenava para fora a riqueza gerada em seu seio. Eram frouxos os laços que uniam as colônias à metrópole; em Barbados e na Jamaica, em troca, só se reinvestiam os capitais indispensáveis para repor escravos na medida em que iam faltando. Não foram fatores raciais, como se vê, os que decidiram o desenvolvimento de uns e o subdesenvolvimento de outros: as ilhas britânicas das Antilhas não tinham nenhum vínculo com a Espanha ou Portugal. A verdade é que a insignificância das Treze Colônias permitiu a precoce diversificação de suas exportações e iluminou o impetuoso desenvolvimento das manufaturas. A industrialização norte americana contou, desde antes da independência, com estímulos e proteções oficiais. A Inglaterra se mostrava tolerante, ao mesmo tempo em que proibia estritamente que suas ilhas antilhanas fabricassem até mesmo um alfinete.

Um abraço carinhoso a todos!
Tio Rico Bom.

Referência:
GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

2 comentários:

  1. Não entendi o "Tio Rico BOM"!!!
    Existe um Tio Rico Mau ?

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  2. Claro! Aquele tio de português, homem mau demais!!!

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